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29/01/2012

O caso da “historiadora” Raquel Varela e a crítica de JMF

A propósito de José Manuel Fernandes (JMF), sobre o qual escrevi no post anterior, encontrei na bloggosfera um link para um post da sua autoria, que se refere à entrevista que a historiadora Raquel Varela deu ao Público relativa à publicação do seu livro A História do PCP na Revolução dos Cravos (Bertrand Editora, 2011). Para a achincalhar refere-se a ela como “historiadora”, pondo o termo entre aspas, acrescentando que se devia mais apresentar como activista política.

O post já tem algum tempo, foi publicado em 25 de Abril de 2011, e consiste em criticar a posição que aquela assume de “que Álvaro Cunhal “nunca quis fazer uma revolução socialista em Portugal” e que “nunca existiu o risco de o PCP tomar o poder em Portugal” nos anos de 1974 e 1975”. As aspas no meio do texto são as declarações de Raquel Varela ao Público. Aquele blogger acha “que não é inócuo vender a tese de que o PCP é um cordeirinho pascal” e para perceber como é que a entrevistada chega àquelas conclusões vai ao longo do post, qual inquérito policial, procurando conhecer o seu percurso. A dado passo, apercebe-se que Raquel Varela não é do PCP, chegando a essa conclusão a partir de um texto de Vítor Dias, relativo à indignação deste a propósito da comunicação apresentada por Raquel Varela no primeiro colóquio Os Comunistas em Portugal, organizado, segundo o post de JMF, “pelo remanescente grupo” da Política Operária.

Aquilo que primeiro me vem à memória é como é que este ex-militante da UDP não se recorda, como tanta vezes gritou ou escreveu, que o PCP era social fascista, socialista nas palavras e fascista nos actos, e que não estava de certeza empenhado em fazer a revolução socialista em Portugal, antes, só pretendia sabotá-la. Esta gente depressa se esquece daquilo que aprendeu nos bancos da escola, por isso não se devia espantar com a posição de Raquel Varela que se assemelha àquela que ele e muito boa gente defendia na altura, com algumas nuances, é certo.

Segundo é que eu elaborei vai para quatro anos um post, em duas partes (ver aqui  e aqui), sobre a Revolução Democrática e Nacional, antes e depois do 25 de Abril, que de um ponto de vista totalmente diferente do de Raquel Varela chega, de algum modo, a conclusões semelhantes, mas não vendo nisso nenhuma traição do PCP à revolução. E mais, não só participei nos três colóquios sobre Os Comunistas em Portugal que se realizaram, o primeiro em 2008, onde Raquel Varela apresenta a primeira versão da sua tese de doutoramento e que muito me indignou, tendo escrito um post sobre o assunto. O segundo realizou-se em 2009 e o terceiro em 2010, onde tive oportunidade de apresentar uma versão mais reduzida dos posts já anteriormente referidos e onde Raquel Varela apresentou a versão final da sua tese e que depois foi revertido para o livro anteriormente referido.

O mais interessante de tudo disto, é que ao ler o meu post sobre a descrição do primeiro colóquio sobre os comunistas e as posições de Raquel Varela me apercebi que a frase que JMF atribui a Vítor Dias – “a tese muito defendida em alguns meios esquerdistas que o PCP traiu a Revolução aliando-se à burguesia e reprimindo as suas aspirações populares” – foi escrita por mim e transcrita por Vítor Dias, coisa que o nosso blogger não se apercebeu. JMF faz mesmo a partir daquela frase um link para o post de Vítor Dias, sucede é que este integrava a primeira parte do seu blog, O Tempo das Cerejas, que por qualquer razão informática deixou de estar disponível e obrigou o seu autor a fazer uma segunda parte.

Eu, por acaso, recordo-me da história porque sei que Vítor Dias não foi àquele colóquio e serviu-se do meu texto para criticar Raquel Varela.

Tudo isto se passou em 2008, já lá vão mais de três anos, não vale a pena estar a ressuscitar matéria tão perecível como são os posts na bloggosfera, simplesmente quis atribuir o seu a seu dono. No entanto, há uma coisa que não se alterou é a posição de todos estes reaccionários, incluindo até a posição do socialista Mário Soares sobre o papel desempenhado pelo PCP no 25 de Abril. Continuam a reescrever a história a propósito da chegada de Álvaro Cunhal à Portela e a defender que aquele pretendia no 25 de Novembro e mesmo antes disso instaurar de imediato o socialismo em Portugal. Dirigem o seu ódio contra aquele partido, quando no fundo o que querem atacar são as possibilidades transformadoras daquela Revolução.

PS. I: depois de escrito o post verifiquei que nada tinha dito sobre o livro (ver fotografia). Já o comecei a ler duas vezes, na segunda cheguei a metade. Sem desprimor para a autora, a verdade é que há sempre outros imperativos que mo impedem de acabar. Quando o ler na totalidade farei a sua crítica.

PS. II: depois de publicar este post, fui ao Google ver se era possível aceder ao post de Vítor Dias, referido no texto principal, para isso pesquisei em conjunto os nomes de Raquel Varela e de Vítor Dias e obtive resultados interessantes. Primeiro, encontrei uma entrevista dada por Raquel Varela à revista Sábado que foi por esta completamente censurada, tendo em compensação publicado referências ao post de JMF. Segundo, descobri que o Vítor Dias, de forma quanto a mim um pouco descabida, resolve, a propósito do lançamento do livro de Raquel Varela e sem o ter lido, fazer um aviso à navegação num comentário que remete para o seu post, que, por sinal, ainda continua indisponível. O meu nome vem diversas vezes à baila, já que, como eu sabia, ele tinha-se baseado num texto meu para criticar Raquel Varela. Só JMF é que não sabia.

08/11/2011

A abstenção do PS

Tem sido prática de alguma esquerda culpar o Bloco e o PCP por termos este Governo e, bem pior, este Orçamento de Estado. Aqueles partidos ao votarem, juntamente com a direita, contra o PEC IV e, sabendo que isso acarretaria a queda do Governo, não se eximiram de o fazer, sendo pois responsáveis pela tragédia actual. Já vi isto escrito, não de forma tão clara nos media, mas em comentários ou cartas que me chegam ao meu e-mail. A interpretação oficial que o PS dá da sua queda é semelhante: uma aliança espúria entre a direita e a esquerda radical.

Aquela esquerda não percebe o estado de desagregação a que tinha chegado o Governo de José Sócrates. O Ministro das Finanças era já um verbo-de-encher. Repare-se que este entrou mudo e saiu calado numa das últimas conferências de imprensa que José Sócrates fez a propósito do acordo com a Troika. E José Sócrates fez essa conferência de imprensa pela negativa, ou seja, descrevendo tudo aquilo que não tinha sido acordado com a Troika, mas que os seus assessores nos dias anteriores, para nos aterrorizarem, tinham vindo a bichanar para os media. Meses depois, tudo aquilo que ele disse que não ia acontecer veio a ser incluído no Orçamento de Estado. Mas isto foi só um exemplo dos últimos dias do socratismo, a desagregação final já estava a decorrer, só não via isto quem sectariamente queria manter Sócrates a todo o custo, não percebendo que se ele continuasse, toda esta austeridade, contra a qual protestamos, se iria verificar, embalada talvez nas vestes soporíferas de uma esquerda “responsável”.

A nossa lei eleitoral torna difícil, e bem, que um só partido tenha a maioria absoluta. Por isso, em 35 anos de democracia constitucional, só em 12 é que um só partido obteve aquela maioria: oito para o PSD e quatro para o PS. Por esse motivo era lógico que os principais partidos tivessem políticas de aliança em caso de não obterem uma maioria absoluta. O PSD, sem precisar de o dizer publicamente – estas coisas de alianças só interessam à esquerda – sabe de ciência certa que, quando chega a hora, pode contar com o CDS. O PS desde o início que se tem dispensado fazer qualquer aliança com a sua esquerda. Mesmo quando isso foi preciso (1978), nos tempos já longínquos que se seguiram ao primeiro Governo PS sozinho (1976-78), negociou simultaneamente com o CDS e com o PCP, no entanto, em relação a este, quando chegou ao capítulo da Reforma Agrária (quando ela ainda existia), apresentou-lhe uma página em branco. Tudo aquilo não passava de uma encenação para fazer um “acordo de incidência parlamentar” com o CDS.

Sempre bichanaram ao ouvido do PS que as eleições se ganham ao centro e não à esquerda e este partido tem levado isso tão a peito que sempre se comportou como se não necessitasse a sua esquerda para governar. Honra seja feita a Jorge Sampaio que, em relação a Lisboa, fez uma aliança com o PCP. É evidente que hoje – como no passado, mais por razões ligadas à Guerra-fria – comprometeu-se com tais parceiros: algumas empresas de construção civil, por exemplo, que estes inviabilizaram qualquer aliança à esquerda.

Vem tudo isto a propósito da intenção manifestada pelo Secretário-geral do PS em se abster na votação do Orçamento de Estado para 2012. Bem pode aquela esquerda, que eu inicialmente referi, vir apelar ao voto contra do PS que este, indiferente àqueles cantos de sereia e, afirmando que se sente chocado com este orçamento, acha que uma esquerda “responsável” deve em primeiro lugar servir o seu país e depois o partido. Já se sabe que uma esquerda responsável deveria, perante um PREC da direita, votar contra o Orçamento, facilitando uma frente de toda a esquerda contra o mesmo e tornando mais difícil a tarefa do Governo da direita. Mas isso é impossível, o PS está tão enterrado nos compromissos em que se enleou que hoje torna-se difícil sair deles. Veja-se o caso de Manuel Alegre, depois de ter apelado ao voto contra, veio aceitar, compreendendo-a, a posição de António José Seguro. É por estas e por outras que teve um resultado tão triste nas últimas presidenciais.

Eu sei que não é fácil negociar com o PCP actual. Já houve tempo em que este partido defendia uma maioria de esquerda para a Assembleia da República, mas isso não impede o PS de tentar estabelecer pontes. Ora elas estão irremediavelmente cortadas com posições como estas em relação ao Orçamento.

O Bloco de Esquerda já foi uma esperança para o PS. Mário Soares há já alguns anos chegou a afirmar num Prós e Contras, da RTP, que o Bloco era uma partido a seguir. Pensavam na altura que poderia ser uma muleta do PS. Como isso não sucedeu, e porque rapa no seu eleitorado, é hoje um dos seus inimigos de estimação.

Que solução para isto? É difícil. É neste momento o problema mais complexo de resolver, mesmo ao nível da União Europeia. Como dar a volta para que esta esquerda, à esquerda da social-democracia neoliberal, consiga tornar-se uma força aglutinadora, capaz de influenciar Governos, alterar a correlação de forças na União Europeia e representar todos os descontentes com esta situação desesperada que estamos a viver.É evidente que para isso tem que contar com amplas massas da social-democracia e até, em alguns casos, com a participação activa destes partidos. É essa a grande luta que se nos põe pela frente.

12/07/2011

Um mês de ausência

Poder-vos-ia falar da angústia do escritor perante a página em branco. Mas não é verdade. É por pura preguiça, acompanhada de outras razões, algumas já várias vezes aqui invocadas por mim, como sejam as razões de saúde. Neste caso, também houve um arreliante vírus que, durante uns tempos, se instalou no computador, e que me duplicava os acentos. Apareceu como desapareceu e já não é a primeira vez. Houve também um constante nomadismo entre o Algarve, Sines e Lisboa que me dificultou a escrita. Estas foram as razões porque estive ausente tanto tempo da vossa companhia.

Durante este tempo tantas coisas aconteceram no país. Foi nomeado um dos governos mais à direita desde o 25 de Abril. Se tiver uma mãozinha do PS, pode mesmo vir a subverter os próprios princípios basilares da Constituição de Abril. Não haja oposição e muitas coisas irão mudar na nossa tão frágil República. Os seus ministros são tenebrosos, principalmente os independentes. Os outros são velhos conhecidos nossos, sempre habituados a truques e a trambiques para ver se apanham os papalvos. Os que não têm filiação partidária são técnicos formatados nas escolas americanas, prontos a executarem as ordens que o grande Satã lhes ditar. É gente do pensamento único, que não tem a mais pequena ideia do que é fazer política em Portugal e só pensa  em aplicar a cartilha que lhes ensinaram nas escolas que frequentaram. Tal como os nosso comentadores, contratados à peça, para todos em fila dizerem o mesmo, desde João Duque a Cantigas Esteves.

No PS a abolia é total, estão à espera que os dois galos de capoeira resolvam a disputa entre si. Dali pouca coisa virá. Só a Renovação Comunista é que ainda é capaz de iniciar as conclusões  do seu Conselho Nacional, do dia 25 de Junho, valorizando “as afirmações de personalidades do PS para defender a Constituição contra os propósitos descaracterizadores das propostas da direita”. Depois do discurso pífio de Maria de Belém na discussão do programa do Governo, dando a ideia que a esquerda do PS se escapuliu depois da derrota de Manuel Alegre, eis que há ainda alguém que está espera que o PS faça peito ao desvarios que este Governo de Direita irá provocar.

Para começar, o roubo de parte do nosso subsídio de Natal.

Tivemos também a classificação da nossa dívida como lixo por uma das agências de rating, a Moody’s. Maremoto nacional, com o Presidente a pôr-se em bicos dos pés para a acusar de grande malvadez, esquecendo que ainda há algum tempo achava normal as classificações que as agências de rating nos atribuíam. Deu como justificação que os tempos mudaram. Mudaram sim, caiu o Governo que ele odiava, chefiado por Sócrates, e derrotou o seu principal adversário nas eleições presidenciais e nomeou um Governo da sua confiança. Se juntarmos a isto as declarações do mais reaccionário que há sobre o Serviço Nacional de Saúde, temos um Presidente que perdeu toda vergonha e se põe declaradamente ao serviço do Governo de Direita. Hoje Governo, Presidente e provavelmente Assembleia da República formam uma tríada difícil de superar. São a direita em todo o seu despudor.

À esquerda, Bloco e PCP, penso que ainda não encontraram o tom próprio e o Bloco ainda anda a lamber as feridas da sua derrota.

Para terminar gostava de assinalar duas coisas em que participei neste interim. A primeira foi a apresentação, num sala cheia, do Livro de Domenico Losurdo, Stalin, História crítica de uma lenda negra (Editora Revan), no ISCTE. Foram seus apresentadores Miguel Urbano Rodrigues, que falou mais do autor e João Arsénio Nunes, do livro. Este é uma edição brasileira, de que alguém se encarregou de trazer para Portugal uns tantos exemplares e que estava à venda no próprio dia do lançamento. Suspeito que dificilmente encontrará esta edição numa livraria perto de si, a não ser que encomende e isso costuma demorar meses. Gostaria de falar do seu lançamento e do livro, quando o tiver lido na totalidade.

Outro aspecto importante, que não quereria deixar passar em claro, foi a realização, no dia 9 de Julho, de uma assembleia do Grupo Manifesto, uma das correntes do Bloco de Esquerda. A Assembleia era antecedida de uma reunião, aberta a quem quisesse participar, e que se chamava O Bloco e os Caminhos da Esquerda. Foi editado um texto antes da reunião, que poderão encontrar aqui .

Sobre qualquer destes eventos, elaborarei, penso eu, o respectivo post.

07/06/2011

Análise dos resultados eleitorais

O cenário que eu propunha aos meus leitores era do que o PS perdesse por poucos, mas houvesse uma maioria de esquerda e PSD-CDS ganhassem sem maioria. Isto permitiria provavelmente afastar José Sócrates e obrigar o PS a entrar para um bloco central, fragilizando qualquer governo que se formasse nesta situação de crise. A esquerda teria tempo de repensar a sua estratégia e, a longo prazo, ou havia novas eleições ou o PS se aliava à esquerda. Isto sonhava eu acordado, baseando-me naquilo que as sondagens iam debitando.

Como se viu, nada disto sucedeu. O cenário idealizado por mim agravou-se de tal modo, que aquilo que parecia uma saída para a crise política se transformou no seu completo bloqueio. Mas passemos aos resultados.

O PSD ganhou sem qualquer dúvida estas eleições e obtém com o CDS uma maioria de direita clara. É evidente que o PSD ficou bastante longe da maioria absoluta que pedia e até dos 40% que Durão Barroso tinha obtido em 2002. É interessante, como já alguém escreveu, que neste momento nenhum partido consegue chegar aos 40% para ganhar eleições: sucedeu assim com o PS em 2009 e agora com o PSD. Isto verifica-se porque o CDS cresceu e o Bloco veio permitir um aumento da votação à esquerda.

Por outro lado, o CDS, contrariando as sondagens, teve uma votação menor do que esperava, mas mesmo assim cresceu em percentagem, mais de 1%, e em deputados, mais 3.

Quanto ao PS não teve uma derrota estrondosa, mas, como os media já foram divulgando, desde 1987 que não tinha um resultado tão mau. Mesmo quando Ferro Rodrigues perdeu com Durão Barroso teve quase 38% dos votos. Só nos tempos de Cavaco Silva e da AD, de Sá Carneiro, é que os resultados do PS foram mais baixos do que este e isso já se passou há muitos anos.

Causa desta derrota e da vitória da direita. Para mim são duas, a primeira e a principal, foram os anti-corpos que Sócrates foi criando na população portuguesa e, mais do que isso, o estado a que permitiu que o país chegasse. Provavelmente já teria perdido em 2009, se não fosse a campanha desastrosa de Manuela Ferreira Leite e do seu núcleo dirigente e a intervenção idiota do Presidente da República a propósito das escutas telefónicas. Mas, neste momento, atendendo ao estado a que o país tinha chegado, era inevitável. A segunda causa, intimamente ligada à anterior, é psicológica e encontrei-a na conversa que tive com alguém que me é chegado: a festa acabou, temos que trabalhar mais, acabar com os feriados excessivos, temos que levar isto a sério, porque agora já me foram ao bolso. Parte da população interiorizou o discurso da direita. Convenceu-se que se está a viver pior, foi porque andaram a gastar o seu dinheiro à tripa forra, porque não se trabalha o suficiente e tem-se regalias a mais. Nos tempos das vacas gordas esta gente votava PS, hoje, quando lhe mexem nos seus ordenados, pensa que é o discurso da direita que a levará a bom porto e não a contestação da esquerda.

E a esquerda! Daqui para a frente e porque penso que o PS é de centro-esquerda, referir-me-ei só ao PCP e ao Bloco. Quanto ao PCP a verdade é que não pode festejar uma grande vitória. A única que lhe valerá para alguma coisa é a ter passado à frente do Bloco. Porque quantos aos resultados não são nada de excepcional. Subiu menos do que uma décima, de 7,86, em 2009, para 7,94%, e ganhou com isso um deputado. No entanto nas três últimas eleições, 2005, 2009 e 2011, as percentagens não têm fugido aos 7 vírgula qualquer coisa, só em 2002 é que teve 6,94%.Ou seja, levou cerca de dez anos a subir 1%. Podemos também afirmar que em toda a década de 90 não fugiu aos 8 vírgula qualquer coisa. Partido mais constante que este não há. Por isso, com base nos resultados eleitorais não se pode tirar qualquer conclusão de vitória ou derrota do PCP, está sempre na mesma.

Já o mesmo não se pode dizer do Bloco, depois duma ascensão meteórica uma queda de igual valor: 2,74%, em 2002, 6,35%, em 2005, 9,82%, em 2009, e 5,19% em 2011. A derrota foi suficientemente pesada para que não se tenham que tirar rapidamente ilações.

A primeira é se alguma vez o Bloco parou para pensar e descobrir qual é o seu eleitorado. Tenho para mim que é muito diverso, fragmentado e que em alguns casos pode até chegar à direita, seduzida pelo seu discurso justiceiro. Ora numa situação destas é difícil contentar todos. Por isso, se virmos as análises que aqui e ali têm sido feitas ao Bloco as ilações são variadas. Para uns não foi suficientemente de esquerda, para outros é uma repetição do PCP, sem ter a solidez deste. Para estes, o Bloco abandonou a sua matriz inicial social-democratizante, transformando-se num puro partido de protesto.

Eu tenho para mim que o Bloco deve tentar perceber o eleitorado que vota nele, que é francamente diferente do dos seus militantes. Eu, que há muitos anos ando nisto, fui encontrar no Bloco muito dos velhos militantes da UDP com quem em tempos tinha traçado armas pelo PCP. Ora esta gente, que hoje reconheço é tão generosa e bem intencionada como os velhos militantes do PCP de quem eu ainda continuo a ser amigo, não é de certeza o votante típico do Bloco e por isso tem que haver uma apreciação crítica desta situação. Mas há mais, há os erros recentes. O primeiro foi o apoio, provavelmente já fora de horas, a Manuel Alegre. Este apoio não nos trouxe o PS de esquerda, nem alguma esquerda, que eu defini, em textos anteriores, como aquela que claudicou perante o PS, como afastou todos aqueles que não admitiam qualquer colaboração com o PS de Sócrates. Para mim, a derrocada de hoje, começou antes, com a derrota expressiva de Manuel Alegre. Este foi sem dúvida nenhuma um assunto mal resolvido. Mas, pior ainda foi a moção de censura. Não por ter sido apresentada, mas a forma atabalhoada e ziguezagueante como foi embrulhada. A ofensiva dos media e dos comentadores encartados contra o Bloco, passando por alguns militantes do mesmo, foi devastadora.

Depois, provavelmente, a não ida até à troika, trouxe o afastamento de muita gente que votava no Bloco, sensível também às críticas dos media.

O Bloco deixou criar a ideia que era um partido que não fazia parte de uma alternativa, mas um partido de protesto e para isso já tínhamos o PCP.

Estas são algumas causas políticas desta derrota, que eu diria anunciada, do Bloco de Esquerda e provavelmente de toda a estratégia ultimamente seguida por este. Porque tenho sido um defensor desta estratégia, em post posterior gostaria de fazer algumas considerações mais profundas e talvez uma auto-crítica em relação àquilo que tenho defendido. Até breve.

28/05/2011

Preferes a peste ou a guerra?

Por motivos vários, mas que na maioria dos casos têm a ver com a minha saúde, não tenho escrito nada no blog. Mesmo a série de três posts que iniciei no princípio do mês, ainda não foi acabada e, para ser verdadeiro, já não me lembro bem o que pretendia escrever no último. Portanto ficará como está.

O que hoje me trás aqui, e que no fundo anda sempre à volta do mesmo, são dois artigos, um de Daniel de Oliveira, Sócrates ou Passos? Passo  e outro de Rui Tavares, Duas catástrofes. Resumidamente, qualquer deles critica a dicotomia, hoje obrigatoriamente imposta pelos media, entre votar Sócrates ou Passos Coelho. Rui Tavares é mesmo muito claro, a vitória de Passos Coelho iria provocar a catástrofe económica e social, com Sócrates teríamos a política. Qualquer deles não é muito favorável à tese desenvolvida na esquerda da igualdade entre os dois. Rui Tavares refere-se mesmo a um tempo mítico do PS, que eu penso que nunca existiu.

Em tempos, eu próprio já tinha abordado esta triste dicotomia, afirmando que PSD e CDS eram os nossos inimigos principais e o PS, o inimigo secundário. Isto mereceu, na altura, algumas críticas de certa ortodoxia. No entanto, em qualquer dos casos, eu não deixava de considerar estes dois blocos, pertençamente alternativos, como inimigos. Considerava simplesmente que tinham objectivos diferentes e que não seria indiferente o Governo de um ou de outro.

Hoje, torna-se para mim cada vez mais claro, que a contradição fundamental dos nossos dias é entre quem assinou o acordo com a troika estrangeira, como lhe chama Jerónimo de Sousa, e quem não o fez e resiste às suas imposições. É evidente, que nesta eleições esta diferença não está devidamente realçada, nem pelos media, que não estão interessados nisso, nem pelos próprios, Bloco e PCP, em que cada um por seu lado concorre nas respectiva bicicleta. Espero que no futuro e perante as expectativas que ameaçam o povo português estas duas forças, agregando à sua volta todos aqueles que se opõem à troika estrangeira, consigam transformar-se num pólo alternativo, com força suficiente para mudar o rumo das coisas.

Não queria terminar sem, no entanto, especular um pouco sobre os cenários possíveis e desejáveis no pós-eleições. Sou defensor que o PSD ganhe por muito poucos e não consiga com o CDS estabelecer uma maioria absoluta. Que o PS perca, mas que haja uma maioria dita de esquerda na Assembleia da República. Nada disto é impossível de suceder. As sondagens permitem tornar verosímil este cenário.

Qual era a vantagem disto? Era tornar impossível a criação de um Governo de direita, mas por outro lado obrigar o PS a verdadeiramente se confrontar com a sua derrota e possivelmente substituir José Sócrates, o que seria um bem para todos, e a cair, para cabal esclarecimento da esquerda que claudicou (ver o meu post), nos braços do PSD, para fazerem o bloco central. - Já se sabe que eu não acredito nas palavras de Manuel Alegre que defende que o PS se perder deve passar à oposição -. Um Governo assim teria muito pouca estabilidade e permitiria a qualquer momento derrubá-lo.

Resta acrescentar que o meu maior desejo é que o Bloco mantenha os 16 deputados que tinha e que fizeram um bom trabalho e que por óbvias razões irei votar Bloco de Esquerda.

PS.: Imagem de Os quatro cavaleiros do Apocalipse, de Albrecht Dürer (1471-1528). Quadro de 1498. Os quatro cavaleiros são a peste, a fome, a guerra e a morte.

11/05/2011

A ofensiva neo-liberal, a esquerda que claudicou, e os salvadores da Pátria - II

Neste post irei dedicar-me àquela esquerda, provavelmente exígua, mas com algum acesso aos meios de informação, que há muito clama por um Governo PS, Bloco e PCP. Esquecendo quem é que comanda o PS, porque acha que não se deve imiscuir no assuntos internos dos outros partidos, se é José Sócrates ou aquela a que se convencionou chamar a ala esquerda do PS, que em determinada altura teve em Manuel Alegre o seu porta-voz.

O percurso daquela esquerda é variado e as personagens que a constituem provêm de diferentes sensibilidades políticas, todas de esquerda evidentemente. Por isso, limitar-me-ia a escrever sobre os factos mais recentes, já que em outras ocasiões, lhes fiz a crítica devida.

Aquando da apresentação da moção de censura do Bloco, ao Governo do PS, esta esquerda não esteve parada. Prevenia os incautos contra os perigos de se derrubar um Governo de centro-esquerda para o substituir por um de centro-direita. André Freire, um dos ideólogos desta corrente, veio clamar mesmo pela formação de um novo partido já que o Bloco não correspondia àquilo que se esperava dele, ser um auxiliar precioso da governação socialista, no fundo, ser a muleta do PS.

Mas as palavras de Freire não caíram em saco roto, rapidamente um grupo de cidadãos, diria que são sempre os mesmos, reúne-se e eis que surge um novo Manifesto, denominado por uma Convergência e Alternativa. Submetem pois “à consideração do PCP, do BE, e do PS, dos respectivos responsáveis mas também dos seus eleitores” as considerações que acima explanaram, “com um único objectivo: através do diálogo e do debate alcançar uma convergência política que possa oferecer aos Portugueses uma forte alternativa de esquerda.” No meio destas piedosas intenções não se esquecem de atribuir culpas ao Bloco e ao PCP, por o PCP e o BE não terem “ousado avançar para as próximas eleições com uma grande coligação das esquerdas através da mobilização de activistas dos movimentos sociais e de personalidades diversas representativas de sectores progressistas da sociedade portuguesa”. Mas a seguir isentam o PS de qualquer culpa ao manifestar “que não basta denunciar a submissão da actual direcção do PS às políticas de austeridade exigidas pelos mercados financeiros e pela UE. Sobretudo, é preciso que as restantes esquerdas aceitem iniciar um processo de convergência tendo em vista produzir uma alternativa política suficientemente credível para que, no futuro e sob pressão do eleitorado, o PS reconheça que tem um interlocutor com quem pode fazer um acordo político para tirar o País da crise.”

Paralelamente, a Associação Política Renovação Comunista pronuncia-se sobre o momento político  actual afirmando a dada altura que “não é esta a altura de discutir as condutas na última legislatura, sobre as quais a História por certo fará um dia a sua avaliação. Não é altura de discutir as divergências e os cálculos que motivaram a queda do governo do Partido Socialista sem cuidar das condições ulteriores de reforço à esquerda da correlação de forças e precipitaram o pedido de intervenção do FMI”. Depois de passar uma esponja em branco sobre a Governação socialista, restam-lhe as piedosas intenções de esperar que “o Partido Socialista e o conjunto da esquerda, à luz da Constituição da República que a direita visa anular, honrem a sua natureza de forças construtoras de uma democracia política, económica e social ao lado das classes trabalhadoras e das classes intermédias.”

É que bom que se diga que grande parte dos subscritores do referido Manifesto pertencem igualmente à direcção da Renovação Comunista.

Que conclusões tirar das posições desta esquerda que, no seu afã, sempre louvável, de manter a unidade de esquerda, considera o PS no seu conjunto como um partido de esquerda e acha que é possível, neste momento, um entendimento com aquele partido, quando o programa de ajuda externa já foi aprovado por Sócrates e propagandeado por este como bom.

Hoje, compreende-se que o separar de águas é entre aqueles que se preparam para resistir à troika e aqueles que a aceitam de bom grado, afirmando que conseguiram negociar um bom programa. Nesse sentido, podemos dizer que aquela esquerda claudicou, apesar de manter uma linguagem crítica em relação àquilo que nos querem impor, pensa que é possível dormir com o inimigo, acreditando que se a esquerda, à esquerda do PS, fizesse um esforçozinho este viria às boas dialogar com ela. Quando o que está neste momento em causa é trazer todos aqueles que no PS ou fora dele estão interessados em formar um pólo alternativo à aceitação das imposições da troika.

Penso que este problema é a contradição principal dos dias hoje e que a proposta de um Governo de Esquerda, do Bloco, ou Patriótico e de Esquerda, do PCP, apesar de não serem para já, podem ser, se tiverem pernas para andar, uma alternativa no futuro, muito mais alargada, é certo, a esse centrão medíocre e liberalizador que todos à compita nos querem impor.

Quanto aos salvadores da Pátria ficará para post posterior, porque hoje já são  muitos os candidatos.

08/05/2011

A ofensiva neo-liberal, a esquerda que claudicou, e os salvadores da Pátria - I

Por razões várias, não tenho escrito nada. Quando penso postar qualquer coisa relativa à espuma dos dias eis que já passou tanto tempo, que aquilo que queria dizer perdeu toda a actualidade. Por isso escreverei sobre um assunto que nos irá ocupar durante longos e penosos anos.

Já deu para perceber que o “acordo” que Portugal subscreveu com a chamada troika é composto por duas partes, a primeira que visa transferir forçadamente dos nossos bolsos uma soma considerável de dinheiro para os bancos e os agiotas internacionais. É a parte do aumento dos impostos, do corte das pensões, da impossibilidade de deduzir despesas com a saúde e outras no IRS. É também o aumento da electricidade e dos transportes e, para não ser exaustivo, mais um conjunto de horrores que tornarão a nossa vida num inferno. A segunda parte, que delicia, os nossos políticos, desde o PS ao CDS, que consiste naquilo que eles há muito tempo chamam as reformas estruturais, mas que no fundo não passam da desregulamentação neo-liberal da nossa estrutura económica, acima de tudo da já frágil e débil regulamentação do trabalho, tornando-a mais flexível e permitindo aos patrões despedir por menor preço e à segurança social pagar menos, e durante menos tempo, o subsídio de desemprego. O que é que isto significa? Que o trabalhador amocha perante o patrão para não ir para a rua e aceite trabalhos degradados para não ficar completamente descalço, sem qualquer subsídio. É o reino do salve-se quem puder, em que os patrões terão a faca e queijo na mão.

Contra esta barbárie civilizacional os três partidos, daquilo que a imprensa dominante classifica do arco governamental, apressaram-se, à compita, a dizer que foram eles os responsáveis por tão ignóbil compromisso e que tinha sido devido à sua perseverança negocial que se tinha obtido um acordo tão “favorável”. Foi ver a triste figura de Sócrates a dizer o que o acordo não era e Catroga, nervoso e a suar por todos os lados, a garantir que o que de bom lá estava tinha sido da responsabilidade do PSD e dele. De seguida, o CSD assegura-nos o mesmo. Triste espectáculo.

Dito isto, o mais espantoso é que no conjunto de gente que é tocada por aqueles três partidos, principalmente no PS, não haja ninguém que se levante e diga que o rei vai nu, que o acordo é mau e que expresse a sua crítica às medidas propostas. O mais espantoso é que o aceitam. Acham que aqui e ali até nem se foi tão longe como eles desejavam, e que é gravoso para o povo português, mas era inevitável, porque se estava a viver, segundo dizem, acima das nossas possibilidades. Alguém viveu, que não fomos nós, os que dependemos diariamente do nosso trabalho.

Por tudo isto, o próximo governo será formado pelos três partidos que assinaram de cruz o acordo. Todos juntos ou aos pares, e as combinações possíveis são só mais três, lá estarão eles na disposição de garantirem que o acordo será aplicado.

Restam o Bloco e o PCP como resistentes. Cada um à sua maneira protestou, não falaram com a troika, e dispõem-se agora a lutarem contra as medidas propostas.

Aqui, direi eu, é que a porca torce o rabo. Por razões que têm a ver com idiossincrasias próprias, pelos eleitorados diferentes que tocam e no caso do Bloco pela franja ainda recente que abrange, tem-se a sensação, aumentada pelos media e comentadores, que não estão a conseguir aparecer como um frente unida contra estas medidas. É verdade que se está numa altura de conquistar votos, o que torna as coisas ainda mais difíceis. Mas parece claro que toda a esquerda, que está contra o acordo, todas as organizações sociais, neste caso os sindicatos, que se lhe opõem, não foram capazes de criar uma frente única contra esta situação. Antes do acordo proliferaram manifestos que hoje já ninguém recorda e em nada influenciaram o seu desfecho. Actualmente deveria haver uma frente única, com vozes de economistas, intelectuais e políticos que constituíssem a grande fronda que se opõe e luta contra o acordo. Ora nada disto está a suceder, na esquerda está cada um para seu lado, isto para já não falar daquela que claudicou e continua a sonhar, em condições completamente diferentes, com um governo de esquerda, PS, Bloco e PCP, tal Carmelinda Pereira, ressuscitada ao fim de trinta anos.

Mas isto fica para novo post.

12/04/2011

Ainda candidatura de Alegre e os problemas da unidade de esquerda

O meu amigo Brissos, da Essência da Pólvora desafiou-me, de acordo com uma promessa feita por mim, a justificar a escolha de Manuel Alegre para candidato de alguma esquerda.

Este assunto, diria, estava morto e enterrado se não fosse Alegre ter ressuscitado neste Congresso do PS. Parece que quando o Bloco apresentou a Moção de Censura também lhe fez algumas críticas. Espero que Alegre, porque não ganhou as eleições, e não foi por culpa do Bloco, mas sim dos seus amigos socialistas, que não votaram nele, não tente transformar aquele partido no bode expiatório do seu fracasso, que também foi o nosso?

Dito isto, tentemos justificar a escolha que na altura se fez e que considero acertada.

Tenho para mim que o Bloco de Esquerda é, na actual conjuntura, o único partido de esquerda que manifesta uma certa preocupação com a política de unidade. Ainda há bem pouco tempo, neste post, referi umas declarações de Alfredo Barroso afirmando que o PS não tinha uma política de unidade à sua esquerda. Quanto a mim o PCP também não a tinha, pode ser que agora isso se tenha alterado.

Por isso, depois das eleições presidenciais de 2006 e a seguir ao resultado de mais de um milhão de votos no Manuel Alegre, contra o candidato oficial do PS, o Bloco inicia uma aproximação àquele, de que resultou os encontros do Trindade e da Aula Magna. O primeiro foi grande um êxito, tanto mais que o Trindade era uma sala pequena e os milhares de pessoas que por lá apareceram não couberem, nem a metade delas. Já na Aula Magna, apesar de ser um sucesso, esta estava longe de estar cheia. No entanto, estes dois encontros não deixaram de ser um acontecimento político importante, o que levou o Manuel Alegre, naquele momento, a encarar a hipótese de formar um partido, permitindo assim que a ala esquerda do PS rompesse com o PS oficial. Tudo isto são dados objectivos, que não podem ser descartados, nem esquecidos.

Esta operação teve alguns contratempos. Manuel Alegre mostrou alguma indecisão na ruptura com o PS e o Bloco não a forçou, nem a acalentou. Teve algum receio do que é que poderia vir de uma cisão precipitada e que, provavelmente, não teria pernas para andar, a não ser levada às costas pelo Bloco.

Por este motivo, preferiu que Manuel Alegre optasse antes por aquilo que ele indiscutivelmente queria, que era ser candidato outra vez a Presidente da República. Foi isto de facto que veio a suceder. Já se sabe que Manuel Alegre não seria candidato unicamente do Bloco, teria que ser também do PS e aqui é que a porca torce o rabo. O tempo que mediou entre a decisão bloquista de insinuar que o apoiava para candidato a Presidente, na sua última Convenção, em 2009, a apresentação da sua candidatura, parece-me logo no início de 2010, com o apoio imediato do Bloco, o arrastamento da decisão do PS, já no Verão de 2010, a degradação do Governo de Sócrates e o agravamento da crise económica, permitiram que em Janeiro de 2011, quando tiveram lugar as eleições, já fosse bastante penoso o Bloco aparecer de mãos dadas, por interposta pessoa, o Manuel Alegre, com o PS de Sócrates.

Este facto foi tão difícil que nem os bloquistas estavam convencidos em votar Manuel Alegre, mas mesmo assim acho que cumpriram com escrúpulo os seus compromissos, nem o PS estava motivado para votar em Alegre. O que de facto sucedeu. Por outro lado, os eleitores de 2006, raivosos com o socratismo, fugiram desta vez do candidato, distribuindo os seus votos por Nobre, que cumpriu de facto a missão que Mário Soares lhe destinou, por Coelho, pela abstenção e pelos brancos e nulos. Esta é de facto a minha interpretação dos factos. Muita gente poderá estar em desacordo com isto.

No entanto, podemos dizer que o êxito do Bloco quer nas europeias, quer depois nas legislativas, que só foi ofuscado por ser ultrapassado pelo CDS, deveu-se em grande parte ao esforço unitário desenvolvido no Trindade e na Aula Magna.

A “esquerda grande” defendida por Louçã correspondia a esta aliança entre o Bloco, independentes e a ala esquerda do PS. Hoje percebe-se quão fraca é essa ala esquerda e como facilmente foi seduzida pelo canto de sereia do PS de Sócrates. Neste Congresso estavam lá todos, até o Ferro Rodrigues. Só não vi a Maria de Belém.

Esta não será uma história edificante, até porque não houve uma alteração de forças a favor da esquerda, que era o objectivo da vitória de Alegre. Mas só quem não mete as mãos na massa é que pode depois vir dizer que sempre previu o que iria acontecer.

PS.: Sobre este mesmo assunto já escrevi este post, no entanto todo o meu blog está cheio de referências aqui e acolá às actividades e posições de Manuel Alegre ao longo destes últimos anos.

04/04/2011

Um jantar à esquerda

Na passada sexta-feira reuniram-se num restaurante da capital, por sinal num sítio cheio de significado histórico e arquitectónico, um grupo de participantes no blog Alegro Pianíssimo, que foi criado para apoiar a candidatura de Manuel Alegre a Presidente da República. Já vos tinha dado conhecimento deste blog e até transcrevi para aqui os textos que fui lá publicando.

Várias eram as famílias políticas dos presentes, e como era inevitável falou-se da esquerda e da sua unidade. Um dos participantes afirmou mesmo que “a esquerda é um ponto de partida e não um ponto de chegada”. Uma frase bonita a que eu queria dar mais conteúdo, provavelmente pela minha tendência para me ligar ao real.

1. Conto-vos uma história (já por mim aqui relatada) que se passou na véspera das comemorações populares de mais um 25 de Abril, manifestação organizada regularmente pela Associação 25 de Abril, com a participação de partidos e organizações de esquerda. Nesse ano, mais uma vez tentava-se redigir um comunicado comum, que pudesse agradar a todas as associações presentes. O PCP achava que o comunicado devia reflectir todos os atropelos que o Governo de José Sócrates estava na altura a provocar no país, e estávamos ainda no tempo das vacas gordas. O PS, como era natural, não concordava, nem o redactor da versão inicial do comunicado, o Eng. Aquilino Ribeiro Machado, estava de acordo com aquilo que considerava ser uma alteração total do seu texto. Eu, que representava nessa altura a Renovação Comunista no grupo, e porque estavam ainda muito presentes as propostas neo-liberais do Compromisso Portugal, tentei que o ponto comum entre todos fosse a defesa do Estado Social, em oposição à visão de direita que transparecia daquele grupo de reflexão. A princípio o PS não percebeu e levei por tabela algumas críticas. Depois, um pouco mais reflectido, acho que compreendeu as minhas intenções, mas nessa altura já era tarde e não houve comunicado comum nesse 25 de Abril. Tudo isto para dizer que havia um ponto comum que nos podia unir a todos naquele momento era a defesa do Estado Social.

Hoje, em tempo das vacas magras, essa defesa como tem sido feita pelo Governo de Sócrates conduz à sua completa desvirtuação. Mas já não é só a sua defesa e a maneira de a pôr em prática que pode provocar dificuldades na unidade da esquerda. Os aspectos económicos e financeiros complicaram-se de tal modo, que deram origem a propostas muito diferentes para a sua resolução. Nesse sentido, a unidade à esquerda está cada vez mais difícil.

O programa anti-neo-liberal, que pareceu nascer na Aula Magna e que juntou várias esquerdas, e que de certa forma está na base da candidatura de Manuel Alegre, foi rapidamente ultrapassado pela voragem da crise económica e financeira que atravessa o país. Daí a necessidade da esquerda apresentar planos alternativos para a sua resolução que ultrapassem os PEC, que os três partidos do “arco da governação” nos querem convencer que são o único modo de ultrapassar este estado de coisas.

2. Outro dos temas abordados neste jantar foi a necessidade do povo de esquerda obrigar as direcções dos partidos que lhes estão mais afins a executarem uma outra política, que force a unidade entre eles.

Sei que na história da esquerda isso já sucedeu. É muitas vezes relatado um episódio já muito distante, de 1934, em França, em que comunistas e socialistas, que marchavam em manifestações diferentes, convergiram para uma só, estando na origem daquilo que se veio a chamar a Frente Popular e a sua posterior vitória nas eleições de 1936. Mas esta coordenação de esforços resultou da ameaça directa do fascismo e dos acontecimentos por ele motivados a 6 de Fevereiro, em Paris (ver aqui). Já depois do 25 de Novembro de 1975, em Portugal, vários dirigentes do PCP falavam deste acontecimento e admitiam que as massas populares pudessem em certo momento forçar socialistas e comunistas a formarem um Governo. Foi nessa altura que apareceram cartazes do PCP a defenderem que nas eleições houvesse uma maioria de esquerda para a Assembleia da República. Na prática tal Governo nunca se concretizou, tal como agora.

Tenho para mim que sendo importante a pressão popular, têm que ser os partidos a ter uma política de unidade. Ainda não há muito tempo Alfredo Barroso, um homem da fundação do PS, num Expresso da Meia-Noite, achava, contra o escárnio das suas opositoras de direita, que o PS devia ter uma política de unidade para a sua esquerda. Pelo contrário, no último Congresso do PS o que se assistiu foi António Costa a insultar o Bloco de Esquerda, chamando-lhe “partido oportunista, que parasita a desgraça alheia” (ver aqui), dificultando qualquer unidade à sua esquerda.

Neste sentido vejo com bons olhos as propostas, ainda que muito tímidas, do Bloco e do PCP de puderem discutir um governo de esquerda para depois das eleições. É pelo menos, depois da campanha de Alegre, alguma coisa de concreto que aparece à esquerda.

3. Alguns homens de esquerda têm defendido que os partidos à esquerda do PS, devem apresentar a este algumas propostas de Governo ou até só de incidência parlamentar, que permitisse por um lado provar que afinal estão dispostos a assumir responsabilidades governativas, ao contrário da ideia dominante, papagueada pela direita e por algum PS, de que os partidos à sua esquerda não querem assumir essas responsabilidades, são só de protesto, e por outro obrigar o PS a aceitar ou a negar tal desiderato, ficando neste caso a responsabilidade do lado de quem não colabora. Este sonho, que cavalga a ideia de muita esquerda, e que parece que está na base da iniciativa política de formação de um novo partido, não compreende que o problema não está na assunção de responsabilidades governativas pela esquerda, à esquerda do PS, mas sim na definição de uma nova política de esquerda, que rompa com os tradicionais compromissos e compadrios com as exigências do grande patronato e que ideologicamente faça o mesmo em relação à ideologia neo-liberal dominante.

A opção não pode ser pois ou a esquerda, à esquerda do PS, é bem comportada e vai para o Governo, aceitando as regras do PS de José Sócrates e transforma-se assim num mero apêndice deste ou então, se não aceita estas condições, transforma-se numa organização de protesto, tribunícia, incapaz de apresentar uma ideia que seja exequível. A solução está em que o principal partido que se reivindica da esquerda, seja capaz de executar uma nova política que atraia todos os homens de esquerda ou então terá que compreender que poderão e deverão ser outros a fazê-lo. Não se pode pertencer ao “arco governamental” e andar a dançar o tango com a direita e depois vir reclamar que a esquerda não lhe dá apoio.

Estas parecem-me ser algumas reflexões que vos deixo sobre aquilo que constituiu o prato forte de um jantar à esquerda

Canto superior direito: fotografia ilustrando a junção das manifestações de socialistas e comunistas a 12 de Fevereiro de 1934, na Place de la Nation, em Paris

31/03/2011

O jogo das palavras

Sei que este meu post não irá facilitar a convergência da esquerda, à esquerda do PS, mas como lá diz o ditado popular, quem não sente não é filho de boa gente, achei por bem responder e acusar o toque relativamente a um post de Vítor Dias, sem destinatário certo, chamado As palavras e a sua contaminação - "Credível", dizem eles.

Diz Vítor Dias que quem utiliza como arremesso crítico contra o BE e o PCP o termo credível, por vezes acompanhado de exequível, sofre de um terrível desnorte ideológico e termina, sublinhando, "adjectivos como «credível» ou «exequível» estão absoluta e devastadoramente contaminados pela ideologia e pelas políticas dominantes e que, para elas, nada que as conteste, no todo ou em parte, jamais será «credível»."

Ora como no meu último post , referente à União das esquerdas e das suas dificuldades, utilizei um dos termos, a propósito de “programas exequíveis” do BE e do PCP, senti que o desnorte ideológico também me era dirigido.

Já agora gostaria de esclarecer o Vítor Dias que um programa exequível o era para as massas votantes e não para ser aceite pela ideologia dominante. Exequíveis eram também os oito pontos da Revolução Democrática e Nacional e não a conquista do socialismo já. Como é compreensível, quando um conjunto de forças se juntam, o seu programa será sempre o denominador comum entre elas e aquele que a dado momento é o objectivo possível da luta política e não o programa maioritário de cada uma delas. Isto é simples de perceber, tudo o mais são tretas que brotam de uma cabeça atacada de forte sectarismo partidário.

Como não sou de branduras, nem de grande compostura, quando penso que estão a a fazer de mim parvo espirro com força.

24/03/2011

A união da esquerda e as suas dificuldades

Publicou Ricardo Paes Mamede no blog Ladrões de Bicicletas um post, chamado Momento de verdade para a esquerda portuguesa, donde sublinharia estes dois parágrafos:

E a esquerda? PCP e BE estão mais uma vez encurralados. Num cenário em que a situação interna e os constrangimentos externos deixam pouco espaço de manobra, não têm conseguido fazer muito mais do que anunciar que vem aí o desastre. Podem até ter razão. Mas para a maioria das pessoas, inclusive muitos dos seus eleitores, serão vistos ou como parte do problema (contribuindo para a ingovernabilidade) ou, pelo menos, como não sendo parte de qualquer solução.

Mas PCP e BE poderiam dar um sinal diferente. Poderiam ter a iniciativa de se apresentar com uma plataforma comum, propondo ao PS um conjunto de condições mínimas para apoiar uma solução para a crise assente numa maioria de esquerda no Parlamento. Uma solução que mostrasse que existem outros caminhos possíveis, mesmo com todos os constrangimentos internos e externos.

A transcrição é longa, mas parece-me que é indispensável para se poder compreender o que vem a seguir. José Neves, logo de seguida, No Vias de Facto, não assina por baixo, mas gosta de ler. Victor Dias, no Tempo das Cerejas, dá-lhe uma corrida em forma, a que Paes Mamede responde educada e contidamente. Não é como eu, que atiro a matar. Nuno Ramos de Almeida, no Cinco Dias, recomenda vivamente a leitura dos dois posts de Paes Mamede, num texto que denomina Para um programa comum das esquerdas em copy lefte e a finalizar José Neves volta novamente ao tema em A esquerda em Portugal nas próximas eleições .

Feita esta descrição rápida da agitação que este tema motivou na blogosfera, é evidente que associado à queda de José Sócrates e à proximidade de eleições, passemos àquilo que me interessa comentar.

Em vivi muito traumaticamente um período da política portuguesa que vai desde o lançamento do Apelo à Convergência de Esquerda nas eleições para Lisboa (ver aqui,  aqui, aqui  e aqui), penso que faz agora dois anos, a um Compromisso à Esquerda – Apelo à estabilidade governativa (ver aqui), publicado logo a seguir às eleições legislativas de finais de Setembro de 2009. Qualquer dos dois apelos assentava no pressuposto de que o PS estaria disposto a fazer unidade à esquerda e que a sua a esquerda estaria disposta a se “amarrar” aos interesses do PS. Lamento, mas muito da argumentação na altura aduzida para fundamentar aqueles dois apelos era um pouco a mesma do post inicial de Paes Mamede A esquerda à esquerda do PS propunha qualquer coisa ao PS e se ele não aceitasse a responsabilidade era de quem não aceitava. Em qualquer dos casos, o PS deu resposta, com mais êxito em Lisboa, porque levou Helena Roseta consigo, ridícula, excepto para os convertidos, em relação ao Governo do país, ao convocar todo o mundo para S. Bento.

Em resposta a esta recusa da esquerda, neste caso o Bloco, de alinhar como o PS, publicou recentemente André Freire, no Público, um artigo chamado A moção, o passado e o futuro (sem link disponível) que propunha a criação de um novo partido que correspondesse àquilo que André Freire considerava que deveria ser a missão do Bloco, que, por palavras minhas, seria a muleta do PS. Francisco Louçã, no Esquerda.net, já lhe deu a resposta política devida.

Neste mesmo sentido, iniciaram-se movimentações para criar um novo partido, que parece já estarem em marcha, tendo em vista que, com mais um partenaire, se consegue finalmente unidade de todos. Já se sabe o que é que este novo partido pretende, sem o dizer, é dispor dos deputados que faltam ao PS para governar.

Por isso quando vi o artigo do Paes Mamede e a recomendação da sua leitura pelo José Neves, pensei que novamente uma loucura mansa estava a atacar a esquerda portuguesa.

Pela postura posterior do José Neves, na sua análise de como se deve comportar a esquerda, e no artigo do Ramos de Almeida já encontro matéria suficiente para concordar. Ou seja, parece-me claro que com o PS oficial, o de José Sócrates, que mais uma vez vai concorrer às eleições, é impossível qualquer acordo. Ele e o seu partido representam aquilo que mais negativo existe na política portuguesa, a de estarem a fazer o “mal”, a atacarem as classes mais desfavorecidas e os interesses de quem trabalha, convencidos que estão a fazer o “bem” e a tentarem convencer-nos disso. Nesse sentido qualquer aliança ou proposta de entendimento com este PS e José Sócrates deve ser combatida. Evita-se assim criar ilusões nas massas populares e a presunção num conjunto de eleitores de que, se falarmos todos uns com os outros, nos entendemos para bem da esquerda.

Mas o que propõe José Neves e Ramos de Almeida já me parece razoável que é a unidade ou a colaboração ou qualquer outra forma de enlace entre o Bloco e o PCP, com a adesão de independentes, de gente do MIC ou mesmo algum PS de esquerda que para aí esteja mais virado. Por isso acho que Vítor Dias não tem razão no seu último parágrafo quando diz e sublinha: as pré-campanhas as campanhas eleitorais, por natureza e definição, não são um território para negociações entre partidos por via da comunicação social, antes são, por excelência, o território central da exposição dos projectos e propostas de cada partido, do seu diálogo directo com os eleitores e do esforço tenaz, combativo e confiante para conquistar uma influência maior e criar uma diferente correlação de forças que influencie a evolução da vida política e das soluções políticas e governativas após as eleições.

Já se sabe, que ninguém estaria à espera que houvesse negociações através da comunicação social, mas lá que a esquerda, à esquerda do PS, tinha muito mais força se aparecesse unida e com projectos exequíveis, é um facto. Não votaram os dois partidos na Assembleia da República em conjunto os segundos pontos das suas Resoluções em que propunham uma alternativa aos ditames do PEC e não votou o PS com a direita contra esses mesmos pontos? Se isto foi possível, porque não nos esforçarmos para apresentar em conjunto ao eleitor qualquer alternativa viável em vez de cada um por si.

Parece-me que isso está ao alcance da esquerda.

Imagem da Frente Poular de 1936, em França, vendo-se León Blum, da SFIO (Secção Francesa da Internacional Socialista - Partido Socialista da época) e Maurice Thorez, do PCF (Partido Comunista Francês).

13/02/2011

A Esquerda depois da moção de censura

Ontem no Eixo do Mal, da SIC Notícias (não nos vou fazer outro relato do que lá se passou) Clara Ferreira Alves afirmava que o Bloco era afinal um partido colectivista, e outras coisas que tais, e não tinha correspondido às expectativas que se depositavam nele.
Para ela, para António Costa, e para outros tantos o Bloco de Esquerda deveria ser o apoia à esquerda do PS e a partir de agora não havia qualquer possibilidade de alguma vez se constituir um governo de coligação entre aquelas duas forças políticas.
Como já vos relatei no post anterior – um bocado aborrecido, diga-se de passagem – o Bloco, passou a ser o inimigo principal da ordem estabelecida. Para além da campanha da direita, aliada ao PS, de dizer que afinal este partido não serve para nada, aparece também a denúncia de que ele anda a enganar as pessoas. Tal como no tempo da PIDE se dizia que os democratas eram criptocomunistas (comunistas escondidos), agora o Bloco também passa por um partido democrcrítico de esquerda, mas afinal é comunista, trotskista, radical de esquerda e até colectivista.

José Neves já denunciou aqui esta nova argumentação e aqui também já falou da moção de censura que aquele partido vai apresentar, em termos que eu subscreveria.
Mas o mais espantoso foi este post elaborado por Tiago Mota Saraiva, que eu penso que é militante comunista, que muito lucidamente afirma que esta esquerda para certa gente deixou de ser “nova” e “sexy” e passou a “trotskista” e “radical” e Louçã deixou de ser “inteligente” para acumular “tiques revolucionários”. E mais do que isso faz uma crítica justa à posição assumida pela Renovação Comunista e por André Freire, terminando o post: “Toda esta concessão é embelezada pela ideia que a maioria silenciosa dos votantes no BE, gente séria e ponderada, deseja que este partido se constitua como um alicerce do PS e do Governo – exactamente como tantos outros partidos europeus fizeram com, aliás, extraordinários sucessos políticos e eleitorais…”

De facto é isto que muita gente desejava que fosse o papel do Bloco de Esquerda, um partido engraçadinho, que retiraria votos ao PCP e serviria, nas alturas de aperto, para votar com o PS, as medidas de direita. Era este também o papel que o PCP gostaria que o Bloco representasse, para facilmente o classificar como social-democrata e como esse “grande” comunista Miguel Urbano Rodrigues lhe chama “esses pequeno burgueses enraivecidos”.
Neste aspecto não queria terminar sem sublinhar a boa prestação de Bernardino Soares no Expresso da Meia-noite, da SIC Notícias, desvalorizando as pequenas tricas que se querem criar entre o Bloco e o PCP.

PS.: Já que falamos de troskistas, aqui vai a fotografia do jovem revolucionário.
PS. (16/02/11): Não sei se a Clara Pinto Correia diria a mesma coisa, mas por amor á verdade corrijamos o nome para Clara Ferreira Alves.

31/01/2011

Sectarismos, ódios e paranóias - II

O episódio do post anterior, a minha altercação com Vítor Duas, não tinha qualquer importância se não se inserisse numa campanha particularmente sectária do PCP contra o Bloco de Esquerda. Farto de trocar farpas com Vítor Dias estou eu. Simplesmente notei o particular acinte em atacar Francisco Louçã, chamando-lhe trafulha, a propósito de um post meu que não fazia qualquer referência àquele bloquista.

Mas comecemos pela campanha. Logo numa daquelas crónicas bastante arrevesadas que se publicam na rubrica Actual (Avante, de 27/01/11) vem um texto de ataque a Luís Fazenda (LF), assinado por Jorge Cordeiro, que é um mimo de sectarismo. Em resposta a argumento racionais de LF, vem a calúnia e a mentira, principalmente aquela que diz que o Bloco votou sozinho ao lado do PS a nacionalização dos prejuízos do BPN. A mentira não é nova, tem origem num artigo de opinião de Honório Novo, no Jornal de Notícias. João Semedo já lhe tinha respondido no Esquerda.net, com um artigo chamado O sectarismo é sempre um mau caminho, em que desmentia as afirmações de Honório Novo, até porque o Bloco tinha votado contra a lei da nacionalização, com toda a restante oposição. Simplesmente como já tinha sucedido em tempos, na mesma rubrica, com a afirmação de que Manuel Alegre se tinha abstido no Código do Trabalho, agora mente-se dizendo que o Bloco votou ao lado do PS no caso BPN. A mentira muitas vezes repetida pode parecer verdade.

Mas vamos ao mais importante, o comunicado do Comité Central. Dizia este: “A fuga em frente ensaiada pelo BE para encontrar noutros responsabilidades que lhe pertencem, não pode iludir o facto de ter partilhado com o PS e o seu governo o apoio a uma candidatura objectivamente comprometida com o essencial da política e opções que nos últimos trinta anos conduziram o país à actual situação. E sobretudo o facto de, mais do que empenho no objectivo de derrotar Cavaco Silva e a política de direita, o que se viu por parte do BE foi a intenção de tirar vantagens do apoio a Manuel Alegre ditado por critérios de calculismo partidário.”

Onde é que o Bloco foi “buscar noutros a responsabilidade que lhe pertencem”? Quando disse que perdeu as eleições e que toda a esquerda também as perdeu? Já se sabe que, como o PCP nunca perde eleições, vir alguém dizer por ele que perdeu, é motivo suficiente para o PCP acusar outros de alijarem responsabilidades. Ora o objectivo do PCP não era chegar à segunda volta e derrotar Cavaco? Oh! Não? Não tendo conseguido isso e os seus resultados não constituirem uma afirmação de força, não tem motivos para cantar vitória, como mais uma vez ensaiou fazê-lo nestas eleições. O Bloco não veio dizer que foi devido ao PCP que se perderam as eleições, disse que toda a esquerda perdeu e com ela também o PCP.

Depois a afirmação, sempre sectária, de “ter partilhado com o PS e o seu Governo o apoio a uma candidatura objectivamente comprometida com o essencial da política e opções que nos últimos trinta anos conduziram o país à actual situação.” Mas, não lhe bastando dizer isso, afirma a seguir que não foi para derrotar Cavaco e a política de direita que o Bloco apoiou o Alegre, mas por meros critérios de “calculismo partidário”. Ou seja, o Bloco não compartilhou com o PS e o seu Governo o apoio a uma candidatura comprometida com os últimos trinta, sublinho trinta, anos de política de direita, o que o iliba aos olhos do PCP de ser um partido reformista e social-democrata, digo eu, pois o comunicado não diz isso. Mas fê-lo simplesmente por mero calculismo partidário.

O Comité Central do PCP devia ter vergonha daquilo que diz, pois nos últimos trinta anos apoiou à primeira volta Ramalho Eanes, que era um oficial tão de esquerda, que agora apareceu a apoiar Cavaco. Apoiou também Salgado Zenha à primeira volta, que era responsável pela ofensiva contra a Intersindical, na questão da unicidade sindical e que chegou a ser Ministro da Economia, o que levou Cunhal fazer uma boa piada, afirmando que ele próprio dizia que não percebia nada de finanças. Este caso foi um claro exemplo, para utilizar as palavras do actual PCP, de oportunismo partidário. Mas mais espantoso ainda, que maior responsável pelo estado a que isto chegou do que Mário Soares, que o PCP apoiou, sugerindo que depois tomassem sais de fruto, numa segunda volta. E não foi Jorge Sampaio também responsável pela política destes trinta anos? E não desistiu Jerónimo de Sousa a favor dele numa primeira volta?

Já se sabe que todas estas palavras visam hoje transformar o PCP no rei da resistência ao socratismo, mas é incapaz de propor, apara além dos muros muito apertados dos Verdes e da Intervenção Democrática, uma política de unidade com as outras forças políticas.
Não foram as anteriores posições do PCP sobre as eleições presidenciais que estiveram erradas, é o seu actual sectarismo é que é hoje o inimigo principal da esquerda.

Gostaria de lembrar um texto que em tempos escrevi sobre o Desvio Esquerdista e Sectário da Internacional Comunista (1929-1934)  em que citava as palavras de Isaa Deutscher: “Os partidos sociais-democratas e reformistas rotulados como “sociais-fascista”, deviam ser considerados como os inimigos mais poderosos do comunismo. Para a revolução socialista, a ala esquerda dos partidos sociais-democratas devia ser considerada como obstáculo até maior do que a ala direita: “quanto mais à esquerda mais perigosa”. Qualquer cooperação ou contacto entre líderes comunistas e sociais-democratas trazia o risco da contaminação.”
No fundo, é isto que se passa hoje como o nosso PCP, quanto mais à esquerda está qualquer partido concorrente mais perigoso é. Ou seja, incapazes, ao contrário do que sucedeu no passado, de formular uma linha de unidade, encerram-se numa fortaleza em que aqueles partidos que mais próximo deles estão, passam a ser os seus piores inimigos.

30/01/2011

Sectarismos, ódios e paranóias - I

No post anterior sobre o resultado das eleições para a Presidência da República fiz referência, por duas vezes, ao nome de Vítor Dias, do blog O Tempo das Cerejas. A primeira foi inócua, já que eu concordava com a relação que ele estabelecia, apesar dos contextos serem bastante diferentes, entre a votação de Pinheiro de Azevedo, em 1976, e a de Fernando Nobre agora. São assuntos passados, que só velhos como nós é que se recordam.

A segunda é relativa a uma pequena polémica que travei aqui com ele, a propósito da sua repetida afirmação de que votar nos opositores a Cavaco A, B ou C, na primeira volta, era aritmeticamente a mesma coisa, a que eu respondia que politicamente votar em A ou B não era a mesma coisa, já que não era indiferente quem ia à segunda volta, se a houvesse. Se a escolha fosse em Nobre, era para o PCP um bocado difícil apelar na segunda volta ao voto nele, depois de o seu jornal “o ter classificado como fascista.” Mas a seguir acrescentava: “coisa que diga-se de passagem, não sendo completamente verdade, tem algum fundo, vejam-se  as palavras de Nobre no debate com Francisco Lopes”. Este “vejam-se” remetia para um post anterior, onde fazia uma análise dos debates e, a propósito do realizado entre Francisco Lopes e Fernando Nobre, dizia que este tinha feito afirmações que roçavam “perigosamente o fascismo”.

Que me responde Vítor Dias nos comentários ao meu post, que eu tinha-me que pôr de acordo com Francisco Louçã porque enquanto que este dizia que “Nobre fez uma campanha com traços populistas – o jornal do PCP chama-lhes “fascistas”, o que é certamente inaceitável –“, para mim, que não tinha engravidado (penso que seja esta a expressão, pois o que escreve VD foi "engracidou") de ouvido, o jornal do PCP classifica-o “como fascista”, no singular. E termina VD “espero que considere que chamar «fascistas» a TRAÇOS DE POPULISMO NÃO é A MESMA COISA QUE CHAMAR FASCISTA AO CANDIDATO.”
Como se percebe, para quem leu o meu texto, eu não citava o Francisco Louçã, mais remetia para um texto meu anterior até ás eleições, enquanto que o de Louçã é posterior, e apesar de não transcrever ipsis verbis o que dizia o jornal do PCP, até concordava com ele, pois achava que, no debate com Francisco Lopes, as afirmações de Nobre roçavam “perigosamente o fascismo”.
Percebe-se deste primeiro comentário que não só VD não lê com cuidado os textos que critica, como os apoiantes de Alegre teriam que seguir as palavras de Louçã, tal como ele, VD, bebe de certeza os comunicados do Comité Central.

O segundo comentário ainda é mais sectário. Porque, não tendo percebido nada do que escrevi, continua a dizer que eu fazia uma referência crítica ao Avante. Percebe-se perfeitamente que no meu post não havia qualquer referência crítica ao Avante, havia sim uma referência crítica às contas aritméticas de VD que podiam não bater certo com as contas políticas.
E depois num gesto de puro sectarismo, ódio e paranóia, vem referir a propósito de nada que Francisco Louçã trafulhou (verbo que não existe segundo o Portal de Língua Portuguesa) duas vezes. Quando atribuía autoria de uma crónica assinada ao jornal do PCP. Rábula muito antiga de VD, que sempre quis separar as crónicas assinadas no Avante, das posições do seu director, como se elas não reflectissem o mesmo pensamento. Se o seu blog, nos textos de opinião, reflecte sempre as posições do seu Partido, não havia de acontecer isso no jornal Avante.
Depois numa apreçada manipulação transforma os “traços populistas”, que segundo Louçã “seriam, para o jornal do PCP “fascistas”, em fascista, cometendo assim o mesmo erro que me atribui a mim logo no seu primeiro comentário. De facto o que dizia o articulista é que o pensamento político de Nobre era fasciscante e não fascista, mas em qualquer dos casos, como VD sublinhou no seu primeiro comentário, era o pensamento político e não o candidato que era fascista.

Já se sabe que isto não teria importância nenhuma se VD se limitasse simplesmente a comentar as minhas afirmações, quando o que pretendia era por um lado dizer que eu contradizia Louçã. Como se no Bloco, ao contrário do que sucede no PCP, não haja liberdade pública de se discordar de Louçã, ou seja de quem for, e ao mesmo tempo chamar trafulha a Francisco Louçã, numa clara manifestação de sectarismo, ódio e paranóia.

Em próximo post irei comentar as posições do PCP sobre o Bloco, de que VD é, neste momento, um simples peão de brega.

22/01/2011

Elogio ao camarada morto

Tinha falado com ele pelo telefone há dois ou três dias, disse-me que estava a tomar antibiótico para uma tosse horrível que o atacava, já tinha dificuldade em andar e falar. Respondi-lhe que iria arrebitar. No Domingo chegou, pela voz do Mário, a notícia de que tinha morrido naquela manhã, às 10h 30. O seu nome de guerra era Quim João, na vida civil chamava-se Joaquim João dos Santos Brás.

Conhecemo-nos no Liceu Gil Vicente, não sei quando, mas pelo menos tenho a certeza que no 6º e 7ºano eu estava na cadeira da frente e ele na de trás. Começou aí a nossa amizade, tinha eu 16 anos e ele 15.
Provavelmente, por incentivo meu, apareceu no grupo que se reunia, entre as 7 e as 8h da tarde, num gradeamento que ficava ao cimo da Angelina Vidal, do lado de quem vira para a rua da Graça. Por vezes era em frente, junto a uma venda de jornais, que nessa altura estavam arrumados em cima do passeio. Toda essa zona tinha o nome de Quatro Caminhos, que resultavam do cruzamento da Angelina Vidal, com a rua da Graça, Sapadores e Penha de França. Reunimo-nos aí bem mais de dez anos, até que a vida nos dispersou: casamentos, tropa, prisões, novas moradas, exílios, enfim a vida.
Já aqui tinha feito a descrição deste grupo.

Nos finais do nosso 7º ano, admitamos Primavera de 1961, por sugestão do pai do Mário, começamos a frequentar uns colóquios que se realizavam na Cooperativa dos Trabalhadores de Portugal, ali às Escadinhas do Duque. A primeira a que assistimos foi de Alberto Ferreira, sobre filosofia, já se sabe que encapotadamente sobre filosofia marxista. A sua importância sobre o meu espírito em formação foi tão grande que rapidamente ultrapassei a filosofia de António Sérgio, nessa altura un mâitre-à-penser para os jovens democratas da minha geração, e me aproximei rapidamente do marxismo. Sobre estas conferências já falei aqui.
Só gostava de acrescentar um pequeno episódio picaresco. No regresso a casa, sempre a pé, passava-se pela Praça do Chile e ia-se beber um copo de vinho verde à pressão, acompanhado de torresmos. Recordações da juventude!

No final do Verão de 1961, antes de entráramos para as diversas faculdades que cada um ia frequentar, o Quim João foi para o Técnico, Engenharia Civil, eu para Ciências, outros para Direito, chegou-nos de Paris um pândego, e digo isto hoje, porque na altura não tínhamos a clara consciência da vacuidade desta personagem, nosso colega no liceu, que vinha credenciado para organizar um grupo oposicionista aqui em Lisboa. Levámos a sério o convite e começámo-nos a reunir, tentando juntar novos amigos. Recolhemos fundos, muito poucos, comprámos ou deram-nos uma caixa de lápis vermelhos que escreviam nas paredes e eu e outro ainda andámos a apreçar uma máquina de stencil, objecto hoje pré-histórico, mas que era o único que nos permitia reproduzir centenas de comunicados. Rapidamente nos demos conta da inutilidade da nossa acção. Por muito que nos organizássemos éramos sempre uma gota de água no oceano e já havia outros a fazer o mesmo. O tal pândego nunca nos indicou quem eram os seus mandantes. Assim, ao fim de algum tempo acabámos a fazer conferências de aprofundamento ideológico. Esta experiência está também já relatadas no post anteriormente assinalado.

Em 1962, em 24 e 25 de Março, ia ter lugar o Dia do Estudante. Os episódios do primeiro dia já eu os descrevi aqui. Aí relato a agressão policial ao Quim João e a sua posterior prisão à saída do Hospital Santa Maria, onde se tinha ido tratar. A confirmação da história pelo próprio está num PS. aqui. A partir daí este meu amigo tornou-se um homem “politicamente suspeito”. Soube-o quando foi informado pelo aspirante que comandava o nosso pelotão em Mafra, que nos últimos dias de instrução o chamou a ele e, vejam lá, ao Correia de Campos, o ex-ministro do PS, que agora mostra simpatias por Cavaco Silva, para lhes transmitir essa informação, garantindo-lhes que ele não era polícia e que por isso não tinha que prestar informações à PIDE. Era o 25 de Abril já a despontar. Já agora, acrescento que fizemos juntos, em Mafra, os três primeiros meses de tropa. Pertencemos à incorporação de Abril de 70.

Mas a nossa maior experiência e que nos marcou para a vida inteira foi a nossa actividade no Cine-Clube Universitário de Lisboa (CCUL). Ele entrou mais cedo do que eu. Foi juntamente com o Mário oferecer-se para colaborar. A primeira tarefa que lhe deram foi arranjar mil envelopes e os respectivos selos para enviar uma circular aos sócios. Pensou que era simples. Na primeira capelista que entrou a pedir mil envelopes, deram-lhe para aí uns 50 e foi com muita sorte. Reunir os mil foi uma aventura. Chegou com eles, orgulhoso, ao cine-clube, ninguém lhe agradeceu aquele esforço. Continuou a trabalhar. No ano lectivo de 1967/68 torna-se seu presidente e inicia a época com um ciclo sobre cinema americano, que foi a sua glória, em que se destacam As duas feras, de Howard Hawks, A Corda, de Alfred Hitchcock, Serenata à Chuva, de Stanley Donen e Gene Kelly, Pistoleiros da Noite, de Sam Peckinpah e Jerry 8 ¾, do próprio Jerry Lewis, isto depois de um ano agitado em que tinha havido uma cena de pateada, relatada por mim aqui.
É evidente que o Quim João também tinha que estar presente quando da invasão do Cine-Clube pela PIDE. Ver aqui. No episódio que relato, de os pides nos ameaçarem com uns tabefes, era ele o principal destinatário, já que involuntariamente tinha tocado no telefone. Foi também ameaçado de prisão quando se dirigiu à PIDE para reclamar os ficheiros que nos tinham sido roubados.

Neste nosso círculo de amigos havia de entrar também o PCP. Como os dois pertencíamos ao Cine-Clube, achava o Partido que a nossa frente de trabalho era aquela e nunca nos pediu muito. Penso que durante um certo tempo era eu que recebia as quotas do Quim João e lhes dava depois destino. Acho que o envolvi a ele e a um primo meu numa distribuição nocturna de comunicados pelas caixas de correio de não sei que bairro. Sei que quando nos embrenhámos mais a sério na actividade partidária já não soube nada da sua vida política, nem ele da minha.

Depois do 25 de Abril, também tivemos destinos diferentes no PCP, eu fiquei ligado primeiro aos professores e depois à função pública e ele ao sector intelectual, às coisas do cinema. Só mais tarde nos juntámos e fomos contemporâneos, na direcção do sector intelectual, eu novamente ligado ao cineclubismo, agora através do ABC Cine-Clube de Lisboa, e ele penso que continuava com o cinema. Depois a vida foi-lhe um pouco madrasta, a empresa onde trabalhava afastou-o, teve que recomeçar a meio da vida num novo emprego, numa Câmara Municipal, a de Grândola. Acho que gostou. Teve liberdade suficiente para fazer obra e melhorou sensivelmente a qualidade de vida de algumas populações. Orgulhava-se muito das suas criações. Com a doença veio a reforma. Entreteve-se nos últimos anos a compilar para DVD todos os filmes que possuía noutros formatos, instalou uma pequena sala de cinema na sua casa, em Grândola, e teve a felicidade de ver os seus filhos enveredarem profissionalmente pelo cinema, que foi desde o princípio, no cine-clube, a sua paixão.

Morreu  militante do PCP, mas muito descrente das suas possibilidades de renovação. Morreu, por isso, um camarada.

PS.: Imagem do filme A Desaparecida, de John Ford. Um filme de que gostava.

PS. (31/101/11): da leitura de um artigo de Pacheco Pereira, no Público, e de um post de Vítor Dias, no seu blog, percebi que a memória dos meus tempos de juventude tem algumas falhas. Chamei “máquina de stencil”, àquilo que na altura se chamava simplesmente copiógrafo e que utilizava, para imprimir vários milhares de comunicados, um stencil batido à máquina.

Um camarada do PCP e amigo enviou-me hoje um abraço em memória do Quim João, dizendo que tinha visto a notícia no Avante, de 27/01/11. Fui ler, afirmam que ele entrou para o Partido, em 1980, tirem-lhe menos 15 anos e estarão a falar verdade. Penso que não foi por desconsideração, mas a concelhia de Grândola devia andar mal informada.