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22/01/2011

Elogio ao camarada morto

Tinha falado com ele pelo telefone há dois ou três dias, disse-me que estava a tomar antibiótico para uma tosse horrível que o atacava, já tinha dificuldade em andar e falar. Respondi-lhe que iria arrebitar. No Domingo chegou, pela voz do Mário, a notícia de que tinha morrido naquela manhã, às 10h 30. O seu nome de guerra era Quim João, na vida civil chamava-se Joaquim João dos Santos Brás.

Conhecemo-nos no Liceu Gil Vicente, não sei quando, mas pelo menos tenho a certeza que no 6º e 7ºano eu estava na cadeira da frente e ele na de trás. Começou aí a nossa amizade, tinha eu 16 anos e ele 15.
Provavelmente, por incentivo meu, apareceu no grupo que se reunia, entre as 7 e as 8h da tarde, num gradeamento que ficava ao cimo da Angelina Vidal, do lado de quem vira para a rua da Graça. Por vezes era em frente, junto a uma venda de jornais, que nessa altura estavam arrumados em cima do passeio. Toda essa zona tinha o nome de Quatro Caminhos, que resultavam do cruzamento da Angelina Vidal, com a rua da Graça, Sapadores e Penha de França. Reunimo-nos aí bem mais de dez anos, até que a vida nos dispersou: casamentos, tropa, prisões, novas moradas, exílios, enfim a vida.
Já aqui tinha feito a descrição deste grupo.

Nos finais do nosso 7º ano, admitamos Primavera de 1961, por sugestão do pai do Mário, começamos a frequentar uns colóquios que se realizavam na Cooperativa dos Trabalhadores de Portugal, ali às Escadinhas do Duque. A primeira a que assistimos foi de Alberto Ferreira, sobre filosofia, já se sabe que encapotadamente sobre filosofia marxista. A sua importância sobre o meu espírito em formação foi tão grande que rapidamente ultrapassei a filosofia de António Sérgio, nessa altura un mâitre-à-penser para os jovens democratas da minha geração, e me aproximei rapidamente do marxismo. Sobre estas conferências já falei aqui.
Só gostava de acrescentar um pequeno episódio picaresco. No regresso a casa, sempre a pé, passava-se pela Praça do Chile e ia-se beber um copo de vinho verde à pressão, acompanhado de torresmos. Recordações da juventude!

No final do Verão de 1961, antes de entráramos para as diversas faculdades que cada um ia frequentar, o Quim João foi para o Técnico, Engenharia Civil, eu para Ciências, outros para Direito, chegou-nos de Paris um pândego, e digo isto hoje, porque na altura não tínhamos a clara consciência da vacuidade desta personagem, nosso colega no liceu, que vinha credenciado para organizar um grupo oposicionista aqui em Lisboa. Levámos a sério o convite e começámo-nos a reunir, tentando juntar novos amigos. Recolhemos fundos, muito poucos, comprámos ou deram-nos uma caixa de lápis vermelhos que escreviam nas paredes e eu e outro ainda andámos a apreçar uma máquina de stencil, objecto hoje pré-histórico, mas que era o único que nos permitia reproduzir centenas de comunicados. Rapidamente nos demos conta da inutilidade da nossa acção. Por muito que nos organizássemos éramos sempre uma gota de água no oceano e já havia outros a fazer o mesmo. O tal pândego nunca nos indicou quem eram os seus mandantes. Assim, ao fim de algum tempo acabámos a fazer conferências de aprofundamento ideológico. Esta experiência está também já relatadas no post anteriormente assinalado.

Em 1962, em 24 e 25 de Março, ia ter lugar o Dia do Estudante. Os episódios do primeiro dia já eu os descrevi aqui. Aí relato a agressão policial ao Quim João e a sua posterior prisão à saída do Hospital Santa Maria, onde se tinha ido tratar. A confirmação da história pelo próprio está num PS. aqui. A partir daí este meu amigo tornou-se um homem “politicamente suspeito”. Soube-o quando foi informado pelo aspirante que comandava o nosso pelotão em Mafra, que nos últimos dias de instrução o chamou a ele e, vejam lá, ao Correia de Campos, o ex-ministro do PS, que agora mostra simpatias por Cavaco Silva, para lhes transmitir essa informação, garantindo-lhes que ele não era polícia e que por isso não tinha que prestar informações à PIDE. Era o 25 de Abril já a despontar. Já agora, acrescento que fizemos juntos, em Mafra, os três primeiros meses de tropa. Pertencemos à incorporação de Abril de 70.

Mas a nossa maior experiência e que nos marcou para a vida inteira foi a nossa actividade no Cine-Clube Universitário de Lisboa (CCUL). Ele entrou mais cedo do que eu. Foi juntamente com o Mário oferecer-se para colaborar. A primeira tarefa que lhe deram foi arranjar mil envelopes e os respectivos selos para enviar uma circular aos sócios. Pensou que era simples. Na primeira capelista que entrou a pedir mil envelopes, deram-lhe para aí uns 50 e foi com muita sorte. Reunir os mil foi uma aventura. Chegou com eles, orgulhoso, ao cine-clube, ninguém lhe agradeceu aquele esforço. Continuou a trabalhar. No ano lectivo de 1967/68 torna-se seu presidente e inicia a época com um ciclo sobre cinema americano, que foi a sua glória, em que se destacam As duas feras, de Howard Hawks, A Corda, de Alfred Hitchcock, Serenata à Chuva, de Stanley Donen e Gene Kelly, Pistoleiros da Noite, de Sam Peckinpah e Jerry 8 ¾, do próprio Jerry Lewis, isto depois de um ano agitado em que tinha havido uma cena de pateada, relatada por mim aqui.
É evidente que o Quim João também tinha que estar presente quando da invasão do Cine-Clube pela PIDE. Ver aqui. No episódio que relato, de os pides nos ameaçarem com uns tabefes, era ele o principal destinatário, já que involuntariamente tinha tocado no telefone. Foi também ameaçado de prisão quando se dirigiu à PIDE para reclamar os ficheiros que nos tinham sido roubados.

Neste nosso círculo de amigos havia de entrar também o PCP. Como os dois pertencíamos ao Cine-Clube, achava o Partido que a nossa frente de trabalho era aquela e nunca nos pediu muito. Penso que durante um certo tempo era eu que recebia as quotas do Quim João e lhes dava depois destino. Acho que o envolvi a ele e a um primo meu numa distribuição nocturna de comunicados pelas caixas de correio de não sei que bairro. Sei que quando nos embrenhámos mais a sério na actividade partidária já não soube nada da sua vida política, nem ele da minha.

Depois do 25 de Abril, também tivemos destinos diferentes no PCP, eu fiquei ligado primeiro aos professores e depois à função pública e ele ao sector intelectual, às coisas do cinema. Só mais tarde nos juntámos e fomos contemporâneos, na direcção do sector intelectual, eu novamente ligado ao cineclubismo, agora através do ABC Cine-Clube de Lisboa, e ele penso que continuava com o cinema. Depois a vida foi-lhe um pouco madrasta, a empresa onde trabalhava afastou-o, teve que recomeçar a meio da vida num novo emprego, numa Câmara Municipal, a de Grândola. Acho que gostou. Teve liberdade suficiente para fazer obra e melhorou sensivelmente a qualidade de vida de algumas populações. Orgulhava-se muito das suas criações. Com a doença veio a reforma. Entreteve-se nos últimos anos a compilar para DVD todos os filmes que possuía noutros formatos, instalou uma pequena sala de cinema na sua casa, em Grândola, e teve a felicidade de ver os seus filhos enveredarem profissionalmente pelo cinema, que foi desde o princípio, no cine-clube, a sua paixão.

Morreu  militante do PCP, mas muito descrente das suas possibilidades de renovação. Morreu, por isso, um camarada.

PS.: Imagem do filme A Desaparecida, de John Ford. Um filme de que gostava.

PS. (31/101/11): da leitura de um artigo de Pacheco Pereira, no Público, e de um post de Vítor Dias, no seu blog, percebi que a memória dos meus tempos de juventude tem algumas falhas. Chamei “máquina de stencil”, àquilo que na altura se chamava simplesmente copiógrafo e que utilizava, para imprimir vários milhares de comunicados, um stencil batido à máquina.

Um camarada do PCP e amigo enviou-me hoje um abraço em memória do Quim João, dizendo que tinha visto a notícia no Avante, de 27/01/11. Fui ler, afirmam que ele entrou para o Partido, em 1980, tirem-lhe menos 15 anos e estarão a falar verdade. Penso que não foi por desconsideração, mas a concelhia de Grândola devia andar mal informada.

05/01/2011

Como uma “menina” “coquette” se transforma em vedeta pop da blogosfera


Vem este título a propósito de dois artigos de Helena Matos que foram bastante criticados na blogosfera.
O primeiro, no Público, com um título que pretende parafrasear Os Maias, de Eça de Queirós, Falharam a vida, meninos, o segundo, O que é um ex-activista?, publicado num dos blogs para onde escreve, Blasfémias.

Comecemos pelo último. Ricardo Noronha no Vias de Facto (ver também este post sobre o mesmo assunto), com paciência de santo, explica à referida “menina” o que é caso Battisti, acusado de pertencer a uma organização de luta armada em Itália no final dos anos 70. Percebe quem pode ou quem não está de má-fé, a mim parece-me que está de má-fé.

Quanto ao primeiro artigo, já mereceu muitas mais críticas na blogosfera. Rui Bebiano, em A Terceira Noite, acha, por palavras minhas, que não se deve gastar cera com tão ruim defunto e por isso nem critica o conteúdo do artigo. Joana Lopes, no Entre as Brumas da Memória, pergunta quem da actual governação pertence à geração de 60? A tal que, segundo Helena Matos, falhou a vida. Miguel Madeira, no Vias de Facto, faz uma pergunta semelhante. Victor Dias, em O tempo das Cerejas, escreve, citando nomes e com grande ironia, sobre os Expulsos da Geração de 60, e Ricardo Noronha, também no Vias de Facto, transcrevendo partes do artigo, refere-se, com muita graça, aos erros ortográficos dados por tal “menina” em post anterior.
Eu próprio, já várias vezes me tenho referido criticamente a Helena Matos. Destaco especialmente um post em que apontava para um conjunto de jornalistas que deliberadamente escreviam reaccionarices para os nossos media com a conivência das direcções desses órgãos de informação.

Apesar de tudo o que já se escreveu e de que fiz o levantamento, volto novamente ao assunto, porque pertenci à geração que frequentou a Universidade pelos anos 60 e, devido aos muitos anos que por lá andei, fui-a conhecendo razoavelmente.

Em primeiro lugar uma advertência. Tem pouco rigor histórico falar em geração, quando aquilo a que queremos fazer referência, é um conjunto muito particular da mesma. Não abrangemos todos aqueles que pela sua posição social, pelos azares da vida ou pelas razões mais diversas não tiveram possibilidades de, em determinada altura, frequentar a Universidade e, neste caso concreto, de terem participado no movimento estudantil e de se sentirem pertença a uma geração que se reúne todos os anos a 24 de Março, para comemorar o Dia de Estudante de 1962 e as crises académicas subsequentes.

Começa o texto de Helena Matos: “Nas fotografias que gostam de mostrar têm o cabelo revolto e um ar de quem tem a certeza de tudo.” Quem vir essas fotografias, principalmente as referentes a 1962, espantar-se-á com todos os estudantes de gravatinha, penteados e de casaco e as meninas de lenço, saia e meinha.
Isto só mostra a ignorância da “menina”, que desconhecendo o que é a geração de 60, está a imaginá-la pelos olhos do pós-25 de Abril.
A seguir acrescenta “Esse mundo onde público era sinónimo de justiça e gratuitidade rimava com solidariedade. Esse mundo onde governar bem equivalia a fazer cada vez mais promessas de redistribuição e onde o Estado passou a ser entendido como o grande doador.” Ora tudo isto é um disparate pegado. Mais uma vez, através de um olhar actual e recorrendo às polémica em curso sobre mais estado ou menos estado, se tenta caracterizar a geração de 60. Um completo falhanço
Politicamente esta geração sabia pouco do Estado Social. Os meus pais, de uma geração muito mais velha, ainda falavam da gratuitidade do Serviço Nacional de Saúde Inglês, que tinha sido implementada naquele país a seguir à II Guerra Mundial, e que era um espanto nessa altura para os cidadãos que no nosso país desconheciam o que era a saúde gratuita e universal. O mais que as gerações universitárias da época intuíam era a luta pela liberdade e pela democracia e os politicamente mais comprometidos falavam da revolução social, que nada tinha a ver com o Estado Social, mas sim com a tomada do poder pelos trabalhadores. E mesmo se ao longo da década foram surgindo alguns socialistas, o seu imaginário ia muito para lá do reformismo do PS francês ou da social- democracia alemã. Ainda me lembro do António Reis, hoje Grão-mestre da Maçonaria, achar, logo a a seguir ao 25 de Abril, que o programa do PS português se deveria assemelhar ao que em França, nessa altura, se chamava “reformismo revolucionário”, umas propostas apadrinhadas pelo sociólogo francês André Gorz. Já se sabe quanto mais se avança na década cada vez era maior o radicalismo da extrema-esquerda. Mesmo os militantes do PCP, que a longo prazo acreditavam na almejada revolução socialista, nessa altura discutiam o programa do Partido, a Revolução Democrática e Nacional, que a par das conquistas sociais, que era o que mais se poderia assemelhar com o Estado Social, defendiam a destruição dos monopólios com a sua consequente nacionalização, o que não corresponde ao textinho pífio da “menina” em causa.
Depois segue mais um chorrilho de asneiras sobre os jornalistas, confundindo a posição corajosa de alguns, poucos, que por entre linhas combatiam o regime fascista e que hoje estão todos reformados ou já faleceram e aquelas centenas de estagiários que invadem as redacções dos media, que trabalham quase de graça e fazem o jornalismo que se conhece, aceitando pespegar alguns escândalos nos jornais conforme o patrão deseja ou não. Nada disto é comparável e merece mais do que duas linhas.
Depois acrescenta mais umas reaccionarices sobre o ensino, que nesta altura, todos os da laia dela, como os Medina Carreira, tiveram que engolir, quando a apareceram recentemente os resultados do PISA.
A partir daqui começo a perder a paciência para continuar a seguir a prosa da “menina”. Tudo são asneiras e disparates, transportando para os ombros da pobre geração de 60, todas as discussões que hoje em dia se travam.
E o que é espantoso é que esta "menina" considere que, passados mais de 35 anos sobre o 25 de Abril, ainda seja a geração de 60, que hoje tem mais de sessenta anos e alguns já chegaram aos 70 e tal, e estão todos na reforma ou já faleceram, a responsável pelo que de mal acontece ao país e, segundo ela, tenha deixado às gerações vindouras um país mais pobre. Quando o principal político do período democrático, que esta “menina” de certeza admira, é o candidato Cavaco Silva, que foi aquele que mais anos esteve no poder depois do 25 de Abril e disso se gaba, e que, enquanto a geração dos anos 60 combatia pelo derrube do regime, fazia pela vidinha, indo à PIDE declarar que “estava integrado na ordem política vigente”. E são de certeza também amigos desta “menina”, aqueles que todos os dias nos enchem a casa com opiniões políticas, que são os legítimos herdeiros daqueles que já nos anos 60 eram os donos de Portugal: os Ricardo Espírito Santo e os Fernando Ulrich. É a estes senhores que esta “menina” deve ir pedir contas da situação a que Portugal chegou, ou talvez a um Eng. Sócrates que, enquanto que outros continuavam a lutar pela transformação social do seu país, ia, nos anos 80, fazendo casinhas na Covilhã e subindo paulatinamente na carreira política. Tenha dó e deixe a geração de 60 em paz.

PS. I: segundo pude ler na net esta “menina” já tem 49 anos, no entanto, há umas fotografias, que também se podem ver na net, em que aparece com um ar tão jovem e primaveril que não resisti a chamar-lhe menina, com aspas.
PS. II: a fotografia que ilustra este artigo é de um Plenário de estudantes na Cidade Universitária, durante a Crise Académica de 1962.

29/03/2010

O Dia de Estudante de 1962. Um livro


Abalancei-me a relatar a minha visão pessoalíssima do que tinha sido para mim o Dia de Estudante de 1962. Tirando um ou outro pormenor que fui consultar à Internet, como seja os nomes pelos quais alguns dos participantes eram mais conhecidos e não encontrei de todos, limitei-me às minhas recordações pessoais. No entanto, ao fim de 48 anos, mesmo que a memória sobre o passado ainda esteja a funcionar, há sempre um grau de subjectividade, de parcialidade e até de omissão, de que não nos damos conta.
Por isso, fui recorrer a um livro que possuía, publicado em 2001, e se refere a estes acontecimentos: Grandes Planos, Oposição Estudantil à Ditadura - 1956-1974, de Gabriela Lourenço, Jorge Costa e Paulo Pena (Âncora editora). O livro é muito romanceado e feito ao estilo jornalístico, entrecruzando a biografia de alguns dos participantes, que os autores entrevistaram, e os acontecimentos.
Foi aí que confirmei que o restaurante que eu chamava Castanheira, se chamava de Castanheira de Moura. Já está corrigido no post.
Pelo livro também sobe que “mais de dois mil estudantes aguardavam no Estádio Universitário o resultado da reunião” – as tais negociações de que falei no post anterior –, “enquanto decorre o festival desportivo do Dia do Estudante” – não me lembrava que os jogo que se realizavam nessa tarde tinham a ver com o próprio Dia –. “Porém a única novidade que lhes chega é a primeira carga policial. Sem saberem como nem porquê, pouco versados em técnicas de fuga, alguns estudantes são espancados e alguns vão presos. A investida detém-se quando saltam as primeiras frases do hino nacional. A confusão é grande entre os polícias – muitos põem-se em sentido fazendo continência. Os estudantes continuam a cantar e sentam-se na relva.”
Este episódio, que eu não descrevo deste modo, pois baseio-me na minha própria aprendizagem sobre o que era uma carga policial, tem alguma veracidade. Não sei se houve continências ao hino nacional, mas é um facto que teve um efeito apaziguador nos polícias. Também tenho uma vaga memória que os estudantes se sentaram na relva, mas penso que foi sol de pouca dura.
Não me parece, em relação ao que depois vi, que a polícia tenha espancado estudantes ou que os tivesse prendido. Mas o erro pode ser meu. O número de estudantes também me parece exagerado.
Os autores do livro falam do convite de Marcello Caetano para o jantar, dado que a Cantina, onde se devia realizar o jantar do Dia de Estudante, tinha sido encerrada pela polícia. Os termos empregues por aquele seriam: “A reitoria convida-vos para jantar no Castanheira de Moura”. Dito assim ou de outra forma, a verdade é que o convite existiu e as pessoas começaram a deslocar-se para lá. Os autores falam que se desceu a Alameda da Universidade, eu quase que jurava que foi a então chamada Av. 28 de Maio.
Falam também na carga policial do Campo Grande, que me parece que se verificou precisamente quando as pessoas, vindas de Entrecampos, estavam a chegar à Av. do Brasil. Exageradamente, de quem não conhece as armas da polícia, falam que os estudantes fugiam à frente da coronha das metralhadoras, tenho quase a certeza que não havia metralhadoras, mas sim as velhas Mausers, que serviam muito bem para agredir estudantes contestatários. Até porque dois parágrafos à frente falam que os estudantes saíram do Castanheira de Moura entre alas de capacetes de ferro e espingardas Mauser. Contradições de quem não revê o texto.
Depois é afirmado que “três dezenas de estudantes são levados ao hospital, sob prisão”. Parece-me, por aquilo que sei da história do meu amigo Brás, que eles estavam à espera deles à porta do Santa Maria e foi aí que os foram prender. Tenho a ideia que nem de perto nem de longe chegou àquele número.
Fala-se também que Marcello Caetano nunca chegou a ir ao Castanheira de Moura, mas que alguns professores, que de manhã tinham defendido os estudantes, entre eles Lindley Cintra, chegaram até lá e ainda tentaram negociar com a polícia, o que me parece ser exacto.
A manhã de Domingo, dia 25, está mais ou menos como a descrevo.
Na noite de 25, a Reunião Inter Associações (RIA), decide, em função do que se passou decretar o luto académico, que era nem mais nem menos do que a greve às aulas, que no caso de Ciências englobava as aulas teóricas, de frequência não obrigatória, e as aulas práticas, que obrigavam a presença e o chumbo na cadeira se o número faltas ultrapassasse um certo valor.

Este pequeno post não é uma crítica ao livro referido, mas unicamente um confronto entre o que permanece na minha memória e a recreação, por três jovens, muitos anos depois de acontecimentos de que não foram testemunhas. Voltarei aos dias da Crise Académica de 62 em próximo post.

PS. (04/04/10). Resolvi ir confrontar o meu amigo Brás com o que passou de facto com a sua prisão. Foi depois de ser tratado no Santa Maria do lenho que a polícia lhe tinha feito e de sair pela porta das traseiras é que apareceu um polícia a prendê-lo. Levou-o depois para a esquadra do Campo Grande, onde esteve lá até tarde e de seguida foi transferido para os calabouços do Governo Civil, dormindo numa sela com todos os meliantes que nessa noite tinham sido caçados. No dia a seguir é lavado para a PIDE, onde teve um interrogatório sumaríssimo e onde lhe foi feita a ficha que o havia de perseguir até depois do 25 de Abril. Com ele só esteve um outro estudante do Técnico, que fez o mesmo percurso. Para que fique como testemunho desse Dia.

26/03/2010

O Dia do Estudante de 1962. Um percurso pessoal. II


Estávamos no Dia do Estudante de 1962. Desloquei-me para a Cidade Universitária motivado pelo apelo das Associações de Estudantes. Não me recordo do que vi, nem onde almocei. Sei que telefonei para casa a dizer que não contassem comigo para o almoço, porque outros valores mais altos se levantavam. Esses telefonemas eram sempre difíceis. Se havia uma mãe que cobria os acontecimentos, já a postura do meu pai era mais severa e desencorajava-me sempre a pôr o pé em ramo verde.
Telefonei também para os amigos. Sei que a meio da tarde encontrávamo-nos todos no estádio da Cidade Universitária, penso que há espera do resultado de negociações que se desenrolavam com as autoridades universitárias a propósito da proibição do Dia de Estudante. Era a notícia disso que nos mantinha ali. Recordo-me que para fazer horas um amigo meu, estudante de medicina, nos desafiou a irmos ver os fetos, verdadeiros monstrozinhos, conservados em álcool ou formol que povoavam uma das salas da Faculdade de Medicina. Ainda hoje recordo que a impressão foi bastante desagradável.
Quando saímos soubemos que a polícia estava a carregar sobre os estudantes que estavam no Estádio Universitário. Os jogos dessa tarde tinham acabado e não havia razão para o pessoal se manter ali. Como nunca tinha presenciado uma intervenção policial resolvi, contra a corrente que vinha em sentido contrário, aproximar-me da polícia, queria ver tudo, assistir àquilo a que se chamava uma carga policial. É verdade que esta não foi das mais violentas. Recordo hoje que os polícias só estavam a enxotar os estudantes do Estádio Universitário, à força sim, mas sem grande violência. Presenciei aquilo que desconhecia, parecia o soldado que não tendo participado na batalha, se limita a seguir, a distância prudente, os acontecimentos.
Andei por ali durante um certo tempo, até que surge a informação que o reitor nos convidava a para irmos com ele jantar ao restaurante Castanheira de Moura, que ficava perto da Alameda das Linhas de Torres. É evidente que tudo isto, lido hoje, tem carácter de patranha. Não era possível o reitor fazer esse convite, nem o restaurante tinha capacidade para o bom milhar de estudantes que já se tinha juntado. Parece que a intenção era ser um jantar de convívio entre os dirigentes associativos e o reitor, que era o Marcelo Caetano. No entanto a palavra que perpassou para as massas foi vamos todos para o Castanheira de Moura.
Lembro-me de alguns, mais críticos, dizerem que, depois de um dia glorioso de luta, acabava tudo numa jantarada. De facto nada disso foi o que se passou. A imensa mole começou a descer, e isso tenho a certeza, a na altura Av. 28 de Maio, hoje Av. das Forças Armadas. Em Entrecampos virámos para o Campo Grande e foi ao atravessarmos a Av. do Brasil que a polícia carregou brutalmente sobre a manifestação. Já não tive a curiosidade que manifestei no Estado Universitário, fugi com quantas pernas tinha. No entanto eu e muitos mais, depois de dispersos, continuámos com o objectivo de chegar ao Castanheira de Moura, que de facto alcançamos.

Nessa carga policial o meu amigo do peito Brás, para os amigos Quim João, foi atingido por uma coronhada de um policial. Eu não vi, só relatarei o que ele depois me contou. Foi abrigar-se num café, onde os populares, muito indignados, disseram-lhe que ele se fosse tratar a Santa Maria, para lhes mostrar do que eles eram capazes. O jovem, que não tinha nessa altura mais do que 17 anos, incitado por essas boas recomendações põe-se a caminho. Já se sabe, não foi preciso dizer muito, para ser imediatamente engavetado e ir parar à esquadra, penso eu, do Campo Grande. Passou lá a noite. Foi identificado, o pai foi chamado, o que lhe valeu um raspanete de todo o tamanho e praticamente a proibição de participar em manifestações estudantis. Uma tragédia familiar, como muitas que na altura aconteceram. A partir daí ficou sempre com ficha na PIDE, era considerado “politicamente suspeito”, o que lhe trouxe algumas complicações, mais que não seja com o passaporte. Já depois do 25 de Abril, quando o pediu para se deslocar a França, este não lhe foi dado com a rapidez necessária, porque havia informações negativas a seu respeito. Tivemos, por isso, um herói entre os nossos amigos.

Retomo a chegada ao Castanheira de Moura. O restaurante estava cheio de bons chefes de família que tinha decidido deslocar-se ali para o seu jantar de Sábado à noite. Tal não foi o seu espanto quando viram entrar pela sala fora umas dezenas, não sei se centenas, de estudantes. Mas o mais engraçado, e que hoje recordo, foi o nosso ar de desprezo perante a burguesia a gozar as delícias do regime e nós, pobres estudantes, a sermos vítimas de cargas policiais. Nunca na vida me senti tão revolucionário a humilhar a burguesia. Já se sabe rapidamente apareceu um major da polícia que, com os seus homens, cercaram o Castanheira de Moura. A ordem era para dispersar. Percebi que os dirigentes estudantis ainda tentaram negociar com o major, que depois se tornaria célebre em múltiplas acções de repressão contra os estudantes. Não quero mentir, mas parece-me que era um tal major Maltez.
Lá nos fomos embora com a informação de que nos devíamos reunir, no Domingo de manhã, na sala que a Pró-associação de estudantes de Medicina tinha em Santa Maria, que era onde estava instalada a sua faculdade.

No dia seguinte lá estivemos em Medicina, não me recordo quem falou e o que se decidiu. Provavelmente aquilo que já se esperava que era a greve às aulas e a instauração do Luto Académico. Também nessa manhã, ao fim de algum tempo, lá apareceu a polícia para evacuarmos a sala nuns tantos minutos. Acatámos a ordem. Eu já estava suficientemente informado como actuava a polícia, não senti qualquer curiosidade em saber como agia. Sei que a partir daí entrava sempre em pânico, quando havia perigo e estava em locais fechados, sem possibilidades de fuga. Mesmo mais tarde, em manifestações, quando via que a retirada podia estar comprometida, acontecia-me o mesmo. Como vim a descobrir não era nenhum herói, a polícia tinha conseguido instalar em mim o medo.

Depois seguiu-se um longo fim de Primavera e início de Verão. A luta só termina quando foi estabelecido um acordo, penso que já em Julho. Mas esses pormenores ficarão para outro post.

25/03/2010

O Dia do Estudante de 1962. Um percurso pessoal.


Fui este ano, mais uma vez, ao jantar do aniversário do Dia do Estudante de 1962, que rememora, a 24 de Março, aquela data. O jantar decorreu na Cantina Velha da Cidade Universitária. Para além das caras conhecidas que ao longo dos anos fui recuperando e hoje já as identifico bem, encontrei algumas que o tempo foi esbatendo mas que descobri agora que estão vivas e de boa saúde. Dito isto passemos à história.

Entrei para a Faculdade de Ciências no ano lectivo de 1961-62. Posso dizer que era caloiro quando se deu a Crise Académica de 1962. Quando cheguei à Faculdade não era um jovem despolitizado, já há muito tinha feito a minha opção pela Oposição - o nome que se dava aos que se opunham ao regime salazarista -, esta já era também uma tradição da família. Recordo-me de que já me considerava marxista e próximo dos comunistas, mas tirando eu e os meus amigos, que me acompanhavam do liceu, não conhecia gente activa da Oposição, mesmo aquela que poderia pontificar no movimento associativo académico. Também não conhecia ninguém ligado ao PCP. Podemos dizer que quando cheguei à Faculdade andava como uma personagem de um livro, que já li há muitos anos, de César Pavese à procura dos comunistas, ou, para parodiar outro título literário, andava à procura de Deus.
Para meu azar as personagens que fui encontrando no meu curso estavam no lado oposto. No curso de Biologia a maioria eram mulheres. Descortinava-se um homem aqui e acolá. Os que me saíram na rifa – é bom que se diga que nessa época era normal os homens darem-se com homens e as mulheres com mulheres – foram o José Luís Pechirra, uma personagem sinistra, que os estudantes daquela altura conheceram bem, que se dizia que era da PIDE, pelo menos era um provocador da extrema-direita; o Antunes Dias, que era um ex-seminarista, muito reaccionário, mais velho do que eu; um jovem, que penso que se chamava Octávio, que tinha vindo de Goa e porque nesse ano (Dezembro de 1961) se deu a invasão daquela colónia, ficou isolado em Portugal, sem poder comunicar com os pais e por isso com grandes dificuldades económicas – compreende-se que não fosse favorável às ideias progressistas – e mais alguns, mas que afinavam quase todos pelo mesmo diapasão.
Por esse motivo, apesar de trocar apontamentos e por vezes algumas opiniões moderadamente políticas, tentei procurar outra gente que tivesse as mesmas afinidades políticas. Por isso, comecei a frequentar a Associação de Estudantes, fiz-me sócio, participava assiduamente nas suas Assembleias-gerais, e ao fim de pouco tempo já era notado como votando favoravelmente com a esquerda, ou seja, com a malta que era do “contra”. Aos poucos e poucos fui conversando, trocando opiniões. Um dia falando com um dos “contra”, o Carlos Plantier, que era do meu curso, mas mais velho – penso até que já morreu –, e porque ele dizia que tinha contactos com a Seara Nova, disse-lhe que era sobrinho do Ulpiano Nascimento colaborador, à época, daquela revista e hoje, com 95 anos, seu actual director. Sei que a partir daí passei a ser conhecido como o Nascimento, nome de guerra que nunca mais abandonou até sair da Faculdade e ir para a tropa, onde passei a ser conhecido por Fernandes, que era o que constava na farda.

Convém contar aqui o episódio das eleições para a Direcção da Associação de Estudantes. Todos os anos, chegado o Outono, tinha que se fazer eleições. Era normal concorrerem duas listas, parece-me que no ano anterior, por decisão da Assembleia-geral, a lista vencedora teve que incorporar alguns elementos da lista derrotada. Mas neste ano não estava previsto nada disso e assim apresentou-se uma lista chefiada pelo Nicolau, das geologias, e outra da oposição de esquerda, chefiada pelo Cordeiro, que eu penso que depois desertou para a FRELIMO, pois era de origem moçambicana. Sei que a primeira lista, seria constituída por gente que hoje se poderia enquadrar no centro-direita, com forte influência católica, da JUC, corporizada pelo António Ribeiro, que era também das geologias e filho do Professor Orlando Ribeiro. Verifiquei que foi um dos oradores da sessão solene invocativa dos 40 anos do dia de estudante de 1962. Acho que o Pechirra fazia parte também dessa lista. Sei que se chegou à noite das eleições, que eram realizadas em Assembleia-geral eleitoral e o clima estava electrizante. O Hernâni Pinto Bastos, filho do célebre médico que foi dirigente do PCP, e que encontrei mais uma vez neste jantar, insurgiu-se, contra umas provocações feitas por um homem da extrema-direita, legionário ou PIDE, chamado Rebordão. Chegou-se quase a vias de facto. Mas quem ganhou foi o centro-direita, o tal Nicolau.
Há tempos, num colóquio sobre a crise sino-soviética, que se realizou na Universidade Nova, em que alguns dos intervenientes recordaram as suas memórias associativas, eu lembrei essa célebre noite e garanti que as freiras que eram alunas tinham sido mobilizadas para sair à noite e ir votar na lista católica. A verdade é que não havia muitas freiras estudantes e não seriam elas as responsáveis pelo resultado obtido pelo centro-direita, o que sucedeu, e agora recordo, é que as meninas que estavam hospedadas nos lares dirigidos por freiras tiveram ordem de soltura nessa noite para vir votar na lista da JUC. Fez-se posteriormente uma Assembleia-geral só para discutir isto, mas não se chegou a conclusão nenhuma.

Finalmente chega-se à véspera do Dia de Estudante que estava programado para os dias 24 e 25 de Março. Não me lembro se pensava participar nas suas actividades. Sei que Sábado de manhã, dia 24, e nessa altura o Sábado, pelo menos de manhã, era um dia normal de trabalho, eu estava na Faculdade em aulas, quando ao final da manhã chegam notícias de que o dia de Estudante tinha sido proibido e que a Cidade Universitária tinha sido invadida por polícias que tinham batido em professores e alunos. Decretou-se mobilização geral e apelou-se para que toda a gente fosse imediatamente para a Cidade Universitária para o que desse e viesse
Mas o que se passou nesse dia fica para outro post.

21/01/2010

Naquela noite no Cineclube


Estava eu a passar em revista os blogs que consulto diariamente, ou regularmente, quando nos Caminhos da memória dei com um post que se chamava Naquela madrugada de 21 de Janeiro de 1965. Percebi que devia estar relacionado com prisões pela PIDE e cheirava-me, dados os habituais escrevinhadores daquele blog, que teria a ver com a vaga de detenções que assolou o movimento estudantil nos finais de 1964 e nos princípios de 1965. Quem escrevia o post era um amigo meu, dos tempos do liceu Gil Vicente, o Artur Pinto, que apesar de andarmos na altura em faculdades diferentes, mantínhamos amigos comuns e não sei mesmo se não continuávamos alegremente a frequentar o Bairro da Graça onde eu morava e onde o Artur Pinto penso que também morou.
Mas não é para vos falar do Artur Pinto que aqui estou.
O que vos quero contar é que antes dessa vaga de prisões a que se refere o Artur Pinto, e em que estiveram envolvidos, hoje respeitáveis cidadãos deste país, verificou-se a prisão, entre outros, do Mário Neto, estudante na altura do IST e, na última vez que o vi, professor de uma escola superior de Coimbra. Mário Neto era na altura presidente do Cine-Clube Universitário de Lisboa (CCUL) e que, segundo um comunicado que fui desencantar ao armário das recordações, foi preso na noite de do dia 24 Novembro de 1964, cerca das 23 horas. Continua depois o comunicado: “no dia 25, à tarde, dois membros da direcção do CCUL, quando procuravam o Mário Neto em sua casa, foram igualmente presos”, eram o Fernando Costa Gomes, na altura mais conhecido pelo Bobocas, que penso que é um ilustre professor de matemática em algum país perdido da América Latina e o António Melo que, depois de muitos recomeços na vida, era, há uns tempos, editor. Mas, há muito anos que nada sei deles.
Já se sabe que, perante as notícias negras que se foram avolumando durante todo o dia 25, à noite a direcção que restava, em que eu me incluía, mais alguns colaboradores apareceram em força na sede do Cine-Clube. Pelas 22h e 30m a sede foi assaltada pela PIDE. Quem comandava o assalto era, nada menos nada mais, do que o célebre inspector José Gonçalves, o assassino de José Dias Coelho. Só viemos a saber disto mais tarde.
O comunicado, que eu venho citando, continua assim: “a sede do CCUL foi objecto de minuciosa busca por parte dos cinco agentes da PIDE. Na impossibilidade de encontrar qualquer documento incriminatório ou as armas que começaram por nos exigir, que a clareza das actividades do Cine-Clube e o constante controlo das autoridades tornavam evidentemente inadmissível, os autores do saque levaram todo o material de secretaria (incluindo ficheiros, propostas de novos sócios, números de telefone, actas, etc.) …". Depois relatava-se a ida no dia seguinte de alguns membros da Direcção à sede da PIDE saberem informações sobre a “situação em que se encontrava o nosso colega Mário Neto e das razões que justificaram a sua detenção e a busca que a nossa sede tinha sido submetida. Foi-nos respondido que não tínhamos o direito de fazer essas perguntas, que toda a Direcção era suspeita de actividades subversivas e que era do domínio público que a própria actividade do CCUL se subordinava a uma actividade ilegal”.
Terminava o comunicado, convocando uma Assembleia-Geral Extraordinária para o dia 7 de Dezembro de 1964, no IST. Dado os termos em que estava redigida a convocatória, a Assembleia foi proibida pela Direcção do IST. Convocou-se outra para 15 de Dezembro, com palavras mais comedidas, e que se realizou.
Pormenores desse assalto que nunca mais esquecerei. A sede do Cine-Clube situava-se num rés-do-chão pequeníssimo na Rua Francisco Sanches, perto da Praça do Chile e do cinema onde dávamos as sessões, que hoje já não existe, o cinema Imperial. Como o pessoal que já lá estava, mais os cinco agentes da PIDE, a sede ficou rapidamente irrespirável, e os próprios agentes bastante agressivos, já que estavam em clara inferioridade numérica. Identificaram e revistaram todos os presentes, tivemos que justificar todos os papelinhos que tínhamos connosco e elaboraram uma lista com os nossos nomes. No final vim a saber que um colaborador do CCUL, por sinal bastante gordinho e com um ar calmo, que desde que os pides chegaram até ao final não se tinha levantado da cadeira onde estava sentado, tinha passado desapercebido e não tinha sido identificado. Há sempre um episódio pícaro nestas coisas.
Depois de todos identificados um dos agentes foi à rua, penso que para telefonar para a sede da PIDE, com os nossos nomes, o que como hão-de compreender, até ele vir e verificar-se que ninguém ia preso tornou o ambiente ainda mais irrespirável. Houve uma pequena cena com o telefone que existia na sede. Fomos proibidos de telefonar ou receber chamadas. Quando o telefone tocou, um dos presentes, que estava sentado na mesa do telefone mexeu-se e deu-lhe um pequeno toque, foi o suficiente para sermos imediatamente insultados e estarmos à beira, pelo menos o “prevaricador”, de levar algumas chapadas. Depois de confirmarem que não havia ninguém para prender e de nos levarem, o que é sempre o mais importante para uma associação, o ficheiro dos sócios, lá se foram embora. Para experiência bastou.
Durante meses, não sei se anos, ia regularmente uma delegação à sede da PIDE pedir os ficheiros. Havia sempre desculpas para não nos darem. Na última vez a resposta foi tão ameaçadora, dando a entender que quem lá fosse da próxima podia ficar preso, que desistimos de os recuperar. Foi de certeza com as fotografias desses ficheiros que a PIDE pôde elaborar um levantamento de quem era de esquerda nas faculdades. Nós, à custa dos talões de cotas que os nossos cobradores, que eram da Polícia de Segurança Pública, tinham, fomos aos poucos e poucos reconstituindo os ficheiros.
Tempos depois, o nosso senhorio, que tinha alugado a sede em termos irregulares, vem-nos informar, com ar triste e pesaroso, como convém, que tínhamos que sair. Tivemos que ir pedir uma sala à Associação dos Estudantes do Técnico, que segundo me recordo era dirigida pelo Mário Lino, para instalarmos a sede do Cine-Clube, que durante ano, ano e meio, teve lá a as suas instalações.
Penso que, devido à primeira proibição da nossa Assembleia-geral e ao estatuto um pouco ambíguo do CCUL, pois todos os cine-clubes tinham os seus estatutos aprovados pelo Ministério do Interior – nessa altura os estatutos de qualquer colectividade precisavam de aprovação ministerial – enquanto que os do CCUL tinham sido aprovados pelo Ministério da Educação, foi pedida uma entrevista ao Ministro da Educação e lá fui eu mais alguém que não me recordo instalarmo-nos à porta do Secretário, do Secretário do Ministro, há espera dessa entrevista que, como era previsível, nunca veio. O ministério nessa altura era no Campo Santana.
Isto é a história de um tempo triste, em que para se desenvolver qualquer actividade cultural, que não fosse de apoio ao regime, exigia de nós esforços redobrados, fundos próprios e grande espírito de auto-sacrifício. Espero bem que estes tempos não voltem mais.
Fotografia da antiga sede da PIDE, que presentemente se transformou num condomínio privado.

29/12/2008

Um herói do nosso tempo


É hoje comum as críticas, as graçolas, ao passado revolucionário de alguns dos políticos actuais. O passado pró-chinês de Durão Barroso volta não volta regressa à ribalta. Mas, não é só o dele, são, para meu deleite, o desse xaroposo João Carlos Espada ou do actual director do Público, a personificação da bem pensância nacional.
Vem isto a propósito de, no outro dia, ter aparecido na SIC Notícias o Carvalho da Silva e João Vieira Lopes, este último em nome da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal, de que é Vice-presidente, a pronunciarem-se sobre o chumbo pelo Tribunal Constitucional de um artigo do novo Código de Trabalho aprovado pela maioria PS no Parlamento. Já se sabe, Carvalho da Silva concordando com o chumbo e considerando que havia outros artigos igualmente inconstitucionais e João Vieira Lopes atacando a decisão do tribunal.
Tem sido vulgar João Vieira Lopes aparecer na televisão. Já esteve num Expresso da Meia-noite e aparece muitas vezes como porta-voz daquela associação do patronato. No entanto, não se pode dizer que seja uma figura pública conhecida e muito menos o seu passado. Refiro-me a ele unicamente porque o conheci e fui vítima, mesmo que indirecta, da sua militância política “esquerdista”.
Há tempos tinha lido um livro um pouco perturbador, por ser a confissão pública de um denunciante e da sua posterior colaboração com a PIDE, onde Vieira Lopes é amplamente citado. O livro chama-se Conquistadores de Almas e é de Pinto de Sá. Aí João Vieira Lopes aparece como responsável por uma das míriades de organizações marxistas-leninistas (M-L) que existiram nos finais dos anos 60, princípios de 70. A dele seria, segundo a informação prestada por aquele autor, o CCRM-L – Comités Comunistas Revolucionários Marxistas-Leninistas (ver aqui e também aqui, onde são citados os seus principais dirigentes, que incluía o actual ministro Mariano Gago).
Esta é de raspão a descrição da personagem pública. Mas que conheço eu do seu passado?
Como já aqui tenho referido, fui durante muitos anos dirigente do Cine-Clube Universitário de Lisboa (CCUL). Era vulgar, por causa da sua sede ser próximo do Instituto Superior Técnico e o cinema onde se realizavam as sessões ser na mesma área, que muitos dos seus colaboradores e dirigentes fossem alunos daquele Instituto. Como sempre sucedia, uma fornada de jovens alunos do Técnico apareceu nos finais dos anos 60 a oferecer-se para colaborar. João Vieira Lopes foi um deles, segundo alguns dados que recolhi pertenceu mesmo à Direcção de 1968-69. Por essa altura, já no fim da minha “longa” carreira universitária, tinha deixado de participar activamente no Cine-clube. Naquele ano lectivo, o último, entrei para a Direcção da Associação de Estudantes de Ciências. Este episódio já aqui foi relatado.
Como na preparação da lista candidata a Ciências fosse necessário fazer algumas reuniões, houve uma que inesperadamente não pôde ser feita na Associação, decidi por isso, como tinha a chave do Cine-clube, reunir lá. No dia seguinte contei isto ao Vieira Lopes. A resposta, própria de um pequeno tiranete, foi que assim me iriam tirar a chave. Ou seja, a lista era “associativa”, como então se chamava às listas progressistas, não havia qualquer perigo para a segurança do Cine-clube, mas sua excelência achava que devia exibir o seu poder.
Este episódio é um “fait-divers”, sem qualquer importância. O mais significativo é o que vem a seguir.
Provavelmente por volta de 1970 ou 71, num local que eu hoje não consigo precisar, houve uma reunião de dirigentes e colaboradores do Cine-clube em que eu estive presente. Não me lembro o que se ia discutir. Sei que a determinada altura Vieira Lopes, com ar sério, começa a falar de uma infiltração social-fascista no Cine-clube. Fiquei estarrecido. Não se estava a referir a mim, era evidente, eu era suficientemente mais velho do que os presentes para ter a pouca vergonha de me considerar um social-fascista infiltrado. Também não se referia a nenhum infiltrado da PIDE, como o termo fascista poderia deixar entender. Mas sim a dois colaboradores, também vindos do Técnico, que tinham, segundo me recordo, colaborado activamente num ciclo de cinema documental sobre a América Latina, com textos claramente de esquerda, e que para Vieira Lopes, e provavelmente a maioria dos presentes, deviam ser suspeitos de pertencer ou professar ideias próximas do PCP. Um deles, de facto, encontrei-o, depois do 25 de Abril, numa realização do PCP.
Para mim aquilo era um insulto, não podia contemporizar com afirmações daquele tipo. Protestei, como não encontrei eco, fui-me embora, nunca mais voltei ao CCUL.
Tempos depois telefonaram-me, pensei que era para me pedirem desculpa. Nada disso, era pura e simplesmente a pedirem-me a devolução de alguns livros que tinha requisitado à biblioteca. Assim se acabou uma relação de anos com o Cine-clube.
Vim a encontrar mais tarde o Vieira Lopes no assalto e destruição da Embaixada de Espanha, na rua do Salitre. Acontecimento que teve lugar nos tempos do PREC, a 27 de Setembro de 1975. Naquele dia já se antevia que a extrema-esquerda organizasse manifestações, pois tinham sido executados na véspera pelo regime de Franco cinco militantes bascos das FRAP e da ETA. Por isso, nessa noite, passei pela Avenida da Liberdade a caminho de casa, para ver o que se passava. Assisti à barafunda, ao incêndio da Embaixada e ao Vieira Lopes a comandar um bando de jovens que se preparavam para seguir para a outra dependência da Embaixada, existente na Praça de Espanha.

Aqui temos o percurso de um “revolucionário”, um herói do nosso tempo, que depois de estar “sempre, sempre ao lado dos trabalhadores” se passou, com armas e bagagens, para o lado do patronato.

13/05/2008

A hegemonia cultural e política da esquerda nas vésperas do 25 de Abril


Ao consultar na net a edição portuguesa do Le Monde Diplomatic encontrei referência a uma conferência internacional, que eu já conhecia, mas na qual não pude infelizmente participar, sobre o Maio de 68 e que teve lugar a 11 e 12 de Abril passados.
Sei que dessa conferência resultaram imensas entrevistas aos participantes estrangeiros, incluindo uma a Daniel Bensaïd, que irei posteriormente comentar, e que ela serviu de fonte de inspiração a muitos jornalistas para as suas reportagens sobre o Maio de 68.
Uma das primeiras comunicações apresentadas foi a de Fernando Rosas, que se intitulava: Teses sobre a geração dos anos 60 em Portugal e a questão da hegemonia e cujo resumo, que constava do programa, era o seguinte: “pretende-se discutir o papel que o "Maio de 68" em Portugal, ou seja, a contestação estudantil de 1969, desempenhou na radicalização da luta política em geral e na alteração das relações de hegemonia em favor das mundivisões marxizantes e revolucionárias na sociedade portuguesa da época.”
Fiquei bastante interessado no tema e tentei ver se na net havia o texto completo da comunicação. Eu próprio, em reflexões pessoais, e na perspectiva de um estudante comunista, já tinha dado a minha visão do que tinha sido a influência do Maio de 68 no movimento estudantil desses anos.
Mas, o que despertou mais o meu interesse foi, no resume da sua comunicação, a expressão “a contestação estudantil de 1969” provocou “alteração das relações de hegemonia em favor das mundivisões marxizantes e revolucionárias na sociedade portuguesa da época.”
Com a audácia de alguém que não assistiu à conferência, queria no entanto sublinhar que se isto é verdade, houve à época um outro conjunto de circunstâncias, políticas e culturais, que permitiu a alteração das relações hegemónicas a favor de uma modificação revolucionária da sociedade portuguesa e com contornos marxistas, que teve evidentemente reflexos no pós-25 de Abril, que não seria o que foi se não tivesse o terreno já previamente adubado.
Mas comecemos pelo princípio.
Num filme que passou recentemente na RTP I, sobre Humberto Delgado e as eleições de 1958, muito discutível pela selecção dos depoimentos a que recorre – não há nenhum comunista a falar sobre aquelas eleições –, Lauro António, o seu realizador, vai ouvir a opinião de Marcelo Rebelo de Sousa. Este, com grande ligeireza opinativa, refere que a queda do salazarismo teria começado com aquelas eleições. Victor Dias no seu blog já comentou devidamente estas declarações. No entanto, gostaria de acrescentar, que os tempos em que se desenrolaram aquelas eleições, que corresponderam ainda a um Portugal arcaico, nada tiveram a ver com o clima político e cultural criado durante o marcelismo e que de facto correspondeu ao fim do regime fascista. Ou seja, em 58 era ainda impossível descortinar qualquer hegemonia das “mundivisões marxizantes e revolucionárias” na sociedade portuguesa. É bom não esquecermos que Salazar ainda em 1961, com os acontecimentos no Norte de Angola e a sua exigência de ir para lá e em força, tinha conseguido de novo a mobilização de certas camadas populacionais, do campesinato a certa pequena-burguesia citadina. Só posteriormente, com o arrastar da guerra e a emigração para França da grande base de apoio do clericalismo e do salazarismo, se começa a verificar uma nova correlação de forças desfavoráveis à ditadura e à criação de uma cultura de resistência à mobilização para a guerra colonial.
Se o Maio de 68 teve sem dúvida efeitos na esquerdização da juventude e por reflexo na sociedade portuguesa, é evidente que não foi o único evento que provocou essas alterações. A queda de Salazar e a nomeação de Marcelo, tendo provocado algumas ilusões em certa “oposição”, possibilitou ao mesmo tempo o seu revigoramento. Basta pensar que as eleições para Assembleia Nacional, que tiveram lugar em 69, com o reforço do trabalho de base promovido pela CDE, nessa altura uma coligação de comunistas e católicos progressistas e de “outros democratas”, como se dizia então, teriam sido impossíveis nos anos de chumbo de Salazar. Basta comparar com as anteriores, de 65.
Mas, mais do que isso foi todo o clima cultural e politico criado na época. A conquista dos sindicatos fascistas pelos trabalhadores e a formação da Intersindical foi um facto de enorme importância. Quem esquece as manifestações à hora do almoço dos bancários, essa classe tão recuada, a propósito da prisão de um dos seus dirigentes, o Daniel Cabrita.
A criação de cooperativas culturais e livreiras, onde se procedia à realização de colóquios e à venda de livros, muitas vezes proibidos. A realização dos Congressos Republicanos em Aveiro. A manutenção sobre formas legais e semi-legais da CDE durante todo esse período.
Mas também o que se lia. O próprio panorama editorial se modificou: editou-se Lenine, dando-lhe o nome de baptismo, Ulianov. O revigoramento do jornal República e de grande parte da informação regional, como o Jornal do Fundão, o Notícias da Amadora, e o Comércio do Funchal. Revistas como a Seara Nova, a Vértice e o Tempo e o Modo tiveram grandes tiragens.
As canções que se ouviam: José Afonso e Adriano, mas a seguir todos os baladeiros. Até já nem o Festival da Canção escapava, com as letras do Ary dos Santos.
É a tudo isto que chamo as alterações de relação hegemónica que se deram a favor da esquerda, das mudanças revolucionárias, se quiser do anti-fascismo, que se verificaram nas vésperas do 25 de Abril e a que os militares não ficaram imunes, no Continente e nas colónias. Em 1970, dá-se a incorporação dos expulsos da Universidade de Coimbra pelo Governo devido à crise de 69. Em Abril de 1970, na minha incorporação, fui encontrar muita desses estudantes, o que necessariamente ia ter reflexos nas companhias que partiam para África.
E aqui entronca outra das discussões que se travou aqui há tempos na blogosfera a propósito de um artigo de Pacheco Pereira sobre a guerra colonial. Se todos os que nos opúnhamos àquela guerra tivéssemos desertado, a nossa intervenção junto dos militares no activo tinha sido insignificante e não teria depois a importância que veio a ter na sua insubordinação e adesão a muito dos princípios da própria luta de libertação dos povos coloniais.
Quero com tudo isto dizer que houve uma alteração hegemónica cultural e política, que se verificou a partir de 69, que apressou o fim do marcelismo, motivou um grupo de militares da baixa patente e permitiu a explosão revolucionária do pós-25 de Abril.
Por tudo isto, considero que os problemas da hegemonia cultural e política deveriam ser hoje um tema central do nosso debate político contemporâneo.

22/04/2008

O Maio de 68


De repente, senti-me interpelado pela Joana Lopes, do blog Entre as Brumas da Memória, a falar do meu Maio de 68.
O Maio de 68 apanhou-me ainda na Faculdade de Ciências. Curso “longo”.
À época eu era militante do PCP, portanto, tínhamos um grande cuidado em saber qual era a posição do PCF sobre o que se passava em França. Por outro lado, em Portugal, começava-se a travar um luta importante contra a deriva esquerdista que ia afligir o movimento estudantil nos anos subsequentes, agravada é certo pelo Maio de 68. Posso garantir que se este assunto foi falado entre alguma juventude universitária, nesses mesmos meses, a verdade é que as suas maiores repercussões se verificaram no ano escolar seguinte, com a queda do Salazar e a nomeação do Marcelo Caetano.
Entre estes dois factos passou-se também a Primavera de Praga, que só em Agosto desse ano se tornou quente, com a ocupação daquele país pelas tropas do pacto de Varsóvia.
Quanto ao Maio de 68, há pelo menos da parte dos jovens universitários comunistas um grande distanciamento em relação às movimentações estudantis, que considerávamos esquerdistas. Opúnhamo-las à responsabilidade dos operários, que aos milhões se puseram a fazer greve e que foram posteriormente apoiados e enquadrados pelos sindicatos e pelo PCF. Líamos muita literatura vinda das Edições Sociais, ligadas ao PCF, que em post posterior poderei referenciar, e que nos afirmavam categoricamente que os estudantes nunca seriam vanguarda de nada, nem eram capazes de fazer a revolução. Só a classe operária era depositária dessa possibilidade de transformação. Aceitámos portanto os acordos que os sindicatos fizeram com o patronato para conseguir melhores regalias sociais.
No entanto, fiquei sempre com a ideia, via Rádio Argel, que nunca fui capaz de confirmar, que o nosso PCP se tinha demarcado do PCF. Não sei se isto foi imaginação minha se de facto aconteceu. Sei que em debate recente no Vitória (PCP) ninguém foi capaz de confirmar esta minha suspeita.
Todos conhecem o final desta história. De Gaulle apela às tropas francesas localizadas Alemanha e um milhão de franceses, com Malraux à frente, desfilam nos Campos Elísios. O PCF e PS francês sofrem uma grande derrota eleitoral, confirmando aquilo que nós já dizíamos, que tudo não tinha passado de uma “anarqueirada”, para utilizar a célebre expressão de Bento Gonçalves.
É evidente que para alguns de nós outras esperanças despontavam a leste. Conhecíamos pelas revistas o novo cinema checo (eu era dirigente do cine-clube universitário - CCUL), sabíamos que uma época de renovação e liberdade se abria naquele país. Acreditávamos, alguns de nós, na possibilidade de renovação do paradigma socialista. Eu estava de férias, na praia, quando soube da ocupação de Praga. Indignei-me. Tinha saído de Lisboa com a convicção, partilhada com mais camaradas, que os checos iam no bom caminho. Eis senão quando, em Setembro, chego a Lisboa, e a palavra de ordem do Partido era apoiar a invasão. Valeu-nos nessa altura uma célebre carta, não me recordo a quem era dirigida, de Fidel de Castro, a justificar a invasão e a falar da atitude egoísta de alguns países socialistas que queriam ganhar dinheiro com a ajuda a Cuba: referia-se à Jugoslávia. Penso que também tenho um livrinho, que saiu nessa altura, com estas discussões. Aceitámos pouco convencidos, mas sem dúvida pensando que tinha sido derrotado um perigoso desvio direitista.
Neste ínterim, Salazar cai da cadeira e Marcelo é nomeado. O movimento associativo estudantil ganha uma nova dinâmica. Pelo menos, na Faculdade de Ciências, o novo Governo autoriza que haja um processo eleitoral para instalar de novo a Associação de Estudantes, eleita pelos seus sócios, pois estava a ser regida por uma Comissão Administrativa nomeada pelo Governo.
É nesta perspectiva que o Maio de 68 se começa a fazer sentir. Para a Reunião Inter-Associações (RIA), que agrupava todas as Associações Estudantis de Lisboa, é eleito no princípio do novo ano escolar um novo Secretariado, de que faziam parte o Alberto Costa (o actual Ministro da Justiça), à época militante do PCP, o Jaime Gama (Presidente da Assembleia da República), e ligado, julgo eu, à linha PS, o Serras Gago, não sei o que é feito dele, e a Teresa Melhano, boa amiga que há muito tempo não vejo.
Logo no início as Associações pretendem confrontar o novo Governo com a agitação estudantil e por isso são lançadas algumas manifestações e contestações. Sei que não tiveram êxito, mas que levaram a uma situação caricata, que está relacionada com o Maio de 68. Jaime Gama, em nome do Secretariado da RIA, devia levar a um plenário um moção de convocação de uma manifestação. Não o fez e a moção ficou sempre no seu bolso. Era inevitável a sua demissão do Secretariado. O seu discurso de justificação pela atitude tomada começou assim: “Lisboa não é Nanterre” e depois partia para outros considerandos de que eu já não me recordo.
Quanto às eleições em Ciências, a influência do Maio de 68 começava-se a fazer sentir. Foi criado um mural onde todos podiam escrever o que lhes apetecia. Nada disto se passava anteriormente. Os discursos dos candidatos, principalmente dos mais jovens, o que não era o meu caso – fui candidato a vice-presidente – eram muito mais soltos, os temas de Maio começavam a fazer o seu percurso. Era possível fazer reuniões, que provavelmente teriam um nome especial, de acordo com a linguagem do Maio francês, por tudo e por nada. Muitos dos participantes, alguns chegados mesmo de França reclamavam-se da míriade dos pequenos partidos existentes entre os estudantes franceses. Tive dificuldade em adaptar-me a este novo estilo, fui considerado um revisionista de direita e progressivamente fui-me afastando da Associação.
Tempo depois e na linha do Maio de 68 rebenta a crise académica em Coimbra.
Tenho a certeza que depois de Maio, e com o atraso típico de Portugal, a Universidade não foi a mesma. Já em 69, penso que no final do ano lectivo 68/69, o Secretariado da RIA cai e o Arnaldo de Matos é eleito para ele. Em Ciências nunca mais ninguém do PCP pôs os pés na Direcção da Associação de Estudantes. As direcções seguintes eram na sua totalidade “esquerdistas”. Mesmo, o “pobre” cineclube que durante tantos anos tinha sido influenciado pelo PCP acaba os seus dias com direcções do MRRP.
Penso que o Maio de 68 esquerdizou de forma irreversível, até ao 25 de Abril, o movimento estudantil. Quanto às liberdades de género, sexuais e outras, penso que, desde 62-64, elas se foram progressivamente introduzindo no estrito universo universitário, tendo-se alargado por esta época. Mas ainda me recordo que havia alguns jovens que tinham sérios problemas com os pais, que não os autorizavam a passar noites fora de casa ou mesmo a poderem sair à noite.
Estas recordações feitas de chofre, sem recurso a papeis ou a bibliografia, poderão vir a ser completadas se para tanto acharem qualquer interesse nestas minhas memórias.