25/03/2010

O Dia do Estudante de 1962. Um percurso pessoal.


Fui este ano, mais uma vez, ao jantar do aniversário do Dia do Estudante de 1962, que rememora, a 24 de Março, aquela data. O jantar decorreu na Cantina Velha da Cidade Universitária. Para além das caras conhecidas que ao longo dos anos fui recuperando e hoje já as identifico bem, encontrei algumas que o tempo foi esbatendo mas que descobri agora que estão vivas e de boa saúde. Dito isto passemos à história.

Entrei para a Faculdade de Ciências no ano lectivo de 1961-62. Posso dizer que era caloiro quando se deu a Crise Académica de 1962. Quando cheguei à Faculdade não era um jovem despolitizado, já há muito tinha feito a minha opção pela Oposição - o nome que se dava aos que se opunham ao regime salazarista -, esta já era também uma tradição da família. Recordo-me de que já me considerava marxista e próximo dos comunistas, mas tirando eu e os meus amigos, que me acompanhavam do liceu, não conhecia gente activa da Oposição, mesmo aquela que poderia pontificar no movimento associativo académico. Também não conhecia ninguém ligado ao PCP. Podemos dizer que quando cheguei à Faculdade andava como uma personagem de um livro, que já li há muitos anos, de César Pavese à procura dos comunistas, ou, para parodiar outro título literário, andava à procura de Deus.
Para meu azar as personagens que fui encontrando no meu curso estavam no lado oposto. No curso de Biologia a maioria eram mulheres. Descortinava-se um homem aqui e acolá. Os que me saíram na rifa – é bom que se diga que nessa época era normal os homens darem-se com homens e as mulheres com mulheres – foram o José Luís Pechirra, uma personagem sinistra, que os estudantes daquela altura conheceram bem, que se dizia que era da PIDE, pelo menos era um provocador da extrema-direita; o Antunes Dias, que era um ex-seminarista, muito reaccionário, mais velho do que eu; um jovem, que penso que se chamava Octávio, que tinha vindo de Goa e porque nesse ano (Dezembro de 1961) se deu a invasão daquela colónia, ficou isolado em Portugal, sem poder comunicar com os pais e por isso com grandes dificuldades económicas – compreende-se que não fosse favorável às ideias progressistas – e mais alguns, mas que afinavam quase todos pelo mesmo diapasão.
Por esse motivo, apesar de trocar apontamentos e por vezes algumas opiniões moderadamente políticas, tentei procurar outra gente que tivesse as mesmas afinidades políticas. Por isso, comecei a frequentar a Associação de Estudantes, fiz-me sócio, participava assiduamente nas suas Assembleias-gerais, e ao fim de pouco tempo já era notado como votando favoravelmente com a esquerda, ou seja, com a malta que era do “contra”. Aos poucos e poucos fui conversando, trocando opiniões. Um dia falando com um dos “contra”, o Carlos Plantier, que era do meu curso, mas mais velho – penso até que já morreu –, e porque ele dizia que tinha contactos com a Seara Nova, disse-lhe que era sobrinho do Ulpiano Nascimento colaborador, à época, daquela revista e hoje, com 95 anos, seu actual director. Sei que a partir daí passei a ser conhecido como o Nascimento, nome de guerra que nunca mais abandonou até sair da Faculdade e ir para a tropa, onde passei a ser conhecido por Fernandes, que era o que constava na farda.

Convém contar aqui o episódio das eleições para a Direcção da Associação de Estudantes. Todos os anos, chegado o Outono, tinha que se fazer eleições. Era normal concorrerem duas listas, parece-me que no ano anterior, por decisão da Assembleia-geral, a lista vencedora teve que incorporar alguns elementos da lista derrotada. Mas neste ano não estava previsto nada disso e assim apresentou-se uma lista chefiada pelo Nicolau, das geologias, e outra da oposição de esquerda, chefiada pelo Cordeiro, que eu penso que depois desertou para a FRELIMO, pois era de origem moçambicana. Sei que a primeira lista, seria constituída por gente que hoje se poderia enquadrar no centro-direita, com forte influência católica, da JUC, corporizada pelo António Ribeiro, que era também das geologias e filho do Professor Orlando Ribeiro. Verifiquei que foi um dos oradores da sessão solene invocativa dos 40 anos do dia de estudante de 1962. Acho que o Pechirra fazia parte também dessa lista. Sei que se chegou à noite das eleições, que eram realizadas em Assembleia-geral eleitoral e o clima estava electrizante. O Hernâni Pinto Bastos, filho do célebre médico que foi dirigente do PCP, e que encontrei mais uma vez neste jantar, insurgiu-se, contra umas provocações feitas por um homem da extrema-direita, legionário ou PIDE, chamado Rebordão. Chegou-se quase a vias de facto. Mas quem ganhou foi o centro-direita, o tal Nicolau.
Há tempos, num colóquio sobre a crise sino-soviética, que se realizou na Universidade Nova, em que alguns dos intervenientes recordaram as suas memórias associativas, eu lembrei essa célebre noite e garanti que as freiras que eram alunas tinham sido mobilizadas para sair à noite e ir votar na lista católica. A verdade é que não havia muitas freiras estudantes e não seriam elas as responsáveis pelo resultado obtido pelo centro-direita, o que sucedeu, e agora recordo, é que as meninas que estavam hospedadas nos lares dirigidos por freiras tiveram ordem de soltura nessa noite para vir votar na lista da JUC. Fez-se posteriormente uma Assembleia-geral só para discutir isto, mas não se chegou a conclusão nenhuma.

Finalmente chega-se à véspera do Dia de Estudante que estava programado para os dias 24 e 25 de Março. Não me lembro se pensava participar nas suas actividades. Sei que Sábado de manhã, dia 24, e nessa altura o Sábado, pelo menos de manhã, era um dia normal de trabalho, eu estava na Faculdade em aulas, quando ao final da manhã chegam notícias de que o dia de Estudante tinha sido proibido e que a Cidade Universitária tinha sido invadida por polícias que tinham batido em professores e alunos. Decretou-se mobilização geral e apelou-se para que toda a gente fosse imediatamente para a Cidade Universitária para o que desse e viesse
Mas o que se passou nesse dia fica para outro post.

6 comentários:

Rogério Pereira disse...

Vim aqui, com a frustração do meu dia de ontem. Ainda não sei bem o que fazer com estas memórias. Só sinto que elas poderão ser úteis, obrigado!

jaime teixeira mendes disse...

Lembro-me bem dessa longa noite eleitoral na Faculdade de Ciências eu era caloiro de Medicina, mas já engajado politicamente. Como na altura o Curso de Medicina tinha 2 disciplinas em Ciências;Fisica e Quimica Médica tmbém fui votar na lista do Cordeiro ( confesso q já não me lembrava do nome)
Até breve
Jaime

Armando disse...

Olá Jorge,
conheci-te poucos anos depois, eu era amigo da Lea, tua prima.
Bom, o nome correcto do Hernâni Pinto Pastos é Hernâni Pinto BASTOS. O seu irmão Eugénio foi também um veterano dessas lutas. Saudações,
Armando Cerqueira

Armando disse...

Olá Jorge,
conheci-te poucos anos depois, eu era amigo da Lea, tua prima.
Bom, o nome correcto do Hernâni Pinto Pastos é Hernâni Pinto BASTOS. O seu irmão Eugénio foi também um veterano dessas lutas. Saudações,
Armando Cerqueira

Armando disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jorge Nascimento Fernandes disse...

Com muito atraso venho responder aos comentários feitos a este post. Para Rogério Pereira: não tem nada que agradecer eu é que lhe estou grato pelo comentário que fez.
Um obrigado para o Jaime Mendes que localizei no jantar do aniversário do Dia de Estudante. Para o Armando Cerqueira de quem não me recordo, mas cujo nome me é familiar. Também um obrigado pela correcção. Já se sabe que era uma daquelas arreliadoras gralhas, pois sei perfeitamente como se chamava o Hernâni. Já foi corrigido
Voltem sempre.