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30/01/2011

Sectarismos, ódios e paranóias - I

No post anterior sobre o resultado das eleições para a Presidência da República fiz referência, por duas vezes, ao nome de Vítor Dias, do blog O Tempo das Cerejas. A primeira foi inócua, já que eu concordava com a relação que ele estabelecia, apesar dos contextos serem bastante diferentes, entre a votação de Pinheiro de Azevedo, em 1976, e a de Fernando Nobre agora. São assuntos passados, que só velhos como nós é que se recordam.

A segunda é relativa a uma pequena polémica que travei aqui com ele, a propósito da sua repetida afirmação de que votar nos opositores a Cavaco A, B ou C, na primeira volta, era aritmeticamente a mesma coisa, a que eu respondia que politicamente votar em A ou B não era a mesma coisa, já que não era indiferente quem ia à segunda volta, se a houvesse. Se a escolha fosse em Nobre, era para o PCP um bocado difícil apelar na segunda volta ao voto nele, depois de o seu jornal “o ter classificado como fascista.” Mas a seguir acrescentava: “coisa que diga-se de passagem, não sendo completamente verdade, tem algum fundo, vejam-se  as palavras de Nobre no debate com Francisco Lopes”. Este “vejam-se” remetia para um post anterior, onde fazia uma análise dos debates e, a propósito do realizado entre Francisco Lopes e Fernando Nobre, dizia que este tinha feito afirmações que roçavam “perigosamente o fascismo”.

Que me responde Vítor Dias nos comentários ao meu post, que eu tinha-me que pôr de acordo com Francisco Louçã porque enquanto que este dizia que “Nobre fez uma campanha com traços populistas – o jornal do PCP chama-lhes “fascistas”, o que é certamente inaceitável –“, para mim, que não tinha engravidado (penso que seja esta a expressão, pois o que escreve VD foi "engracidou") de ouvido, o jornal do PCP classifica-o “como fascista”, no singular. E termina VD “espero que considere que chamar «fascistas» a TRAÇOS DE POPULISMO NÃO é A MESMA COISA QUE CHAMAR FASCISTA AO CANDIDATO.
Como se percebe, para quem leu o meu texto, eu não citava o Francisco Louçã, mais remetia para um texto meu anterior até ás eleições, enquanto que o de Louçã é posterior, e apesar de não transcrever ipsis verbis o que dizia o jornal do PCP, até concordava com ele, pois achava que, no debate com Francisco Lopes, as afirmações de Nobre roçavam “perigosamente o fascismo”.
Percebe-se deste primeiro comentário que não só VD não lê com cuidado os textos que critica, como os apoiantes de Alegre teriam que seguir as palavras de Louçã, tal como ele, VD, bebe de certeza os comunicados do Comité Central.

O segundo comentário ainda é mais sectário. Porque, não tendo percebido nada do que escrevi, continua a dizer que eu fazia uma referência crítica ao Avante. Percebe-se perfeitamente que no meu post não havia qualquer referência crítica ao Avante, havia sim uma referência crítica às contas aritméticas de VD que podiam não bater certo com as contas políticas.
E depois num gesto de puro sectarismo, ódio e paranóia, vem referir a propósito de nada que Francisco Louçã trafulhou (verbo que não existe segundo o Portal de Língua Portuguesa) duas vezes. Quando atribuía autoria de uma crónica assinada ao jornal do PCP. Rábula muito antiga de VD, que sempre quis separar as crónicas assinadas no Avante, das posições do seu director, como se elas não reflectissem o mesmo pensamento. Se o seu blog, nos textos de opinião, reflecte sempre as posições do seu Partido, não havia de acontecer isso no jornal Avante.
Depois numa apreçada manipulação transforma os “traços populistas”, que segundo Louçã “seriam, para o jornal do PCP “fascistas”, em fascista, cometendo assim o mesmo erro que me atribui a mim logo no seu primeiro comentário. De facto o que dizia o articulista é que o pensamento político de Nobre era fasciscante e não fascista, mas em qualquer dos casos, como VD sublinhou no seu primeiro comentário, era o pensamento político e não o candidato que era fascista.

Já se sabe que isto não teria importância nenhuma se VD se limitasse simplesmente a comentar as minhas afirmações, quando o que pretendia era por um lado dizer que eu contradizia Louçã. Como se no Bloco, ao contrário do que sucede no PCP, não haja liberdade pública de se discordar de Louçã, ou seja de quem for, e ao mesmo tempo chamar trafulha a Francisco Louçã, numa clara manifestação de sectarismo, ódio e paranóia.

Em próximo post irei comentar as posições do PCP sobre o Bloco, de que VD é, neste momento, um simples peão de brega.

24/11/2010

Ainda as manifestações anti-Nato, algumas reflexões avulsas


Gostaria de começar por uma aforismo inventado por mim: quem anda metido em casa alheia dificilmente trata da sua. Vem isto a propósito de, depois de ter tratado com algum desenvolvimento a prisão de um espanhol e de uma portuguesa na fronteira do Caia e as notícias que sobre o assunto apareceram nos media, deixei por alguns dias de escrever sobre as prisões, a repressão e as manifestações ligadas à cimeira da NATO, em Lisboa. Tudo isto porque andei a consultar blogs alheios e a escrever comentários numa série deles. Quase parecia o Vítor Dias que, apesar de ter o seu sempre actualizado, não perdeu nenhuma ocasião de combater os “heréticos” que se pronunciaram sobre o assunto.

Podemos dizer que os dias que antecederam a cimeira só vieram confirmar aquilo que eu escrevi anteriormente. A fonte da contra-informação foi a polícia, que não perdeu nenhuma oportunidade de se pronunciar e de impedir a entrada de manifestantes estrangeiros só porque traziam comunicados anti-NATO (ver aqui), e a comunicação social que reproduziu passivamente os pontos de vista daquela força, quando não açulava a sua intervenção. Como Glórias do Jornalismo Português, retirando aqui o título ao Vítor Dias, há que destacar, não por mim, mas num comentário ao post do José Neves, esta reportagem de Sandra Felgueiras para o Telejornal da RTP (ver minuto 32.28) que, com grande acinte, dizia, no final da mesma, que os manifestantes, não “oficiais” (digo eu), já estavam “embriagados” ou ainda a reportagem de Paulo Moura, no Público, saborosamente comentada por José Neves.
Há que destacar igualmente as actividades de José Manuel Anes, já por mim referenciado em vários posts, que na TVI, na 6º feira ao almoço, teve o desplante de afirmar, depois de ter garantido que os Black Bloc já cá estavam todos, afinal não tinham vindo por falta de fundos, reproduzindo uma notícia do Público desse dia.

Dito isto gostava de relembrar como é que terminava um dos meus posts anteriores: “mas o que é verdadeiramente grave e atentatório das liberdades é a recomendação” – de um major da polícia – “de que os manifestantes devem evitar a "associação a grupos com cariz anarco-libertário". Então já é o major que decide quem é que participa na manifestação?
E não é que decidiu mesmo. E pior ainda, com a colaboração do serviço de ordem da manifestação do grupo Paz sim! NATO Não!. Sem querer relatar nada, porque não estive lá, por razões que não vêm ao caso, remeto para as descrições de dois jovens amigos em quem deposito toda a confiança, uma é a do José Neves, já por mim atrás referida, e outra do Ricardo Noronha.

Para terminar gostava de fazer algumas reflexões finais. O Bloco de Esquerda foi muito criticado por ter participado na parte da manifestação que se agrupava debaixo da plataforma Paz Sim! NATO Não!, ficando assim “credenciado”, segundo a expressão de um dos membros do serviço de ordem daquele grupo, para poder descer a Avenida. Se é certo que nem todo o Bloco esteve aí. Foi referido publicamente, que o Mário Tomé, o deputado José Soeiro e outros, que eu vi na reportagem da SIC, foram na manifestação enquadrada pela polícia, a direcção do Bloco, no entanto, estava na da frente. José Neves e também outros, fazem referências depreciativas ao seu local de participação. José Neves descreve mesmo com alguma ironia o que foi a história do PSR, um dos grupos fundadores do Bloco. Eu, e porque ouvi o Louçã falar sobre este assunto, compreendo um pouco a posição do Bloco. Há alguns tempos para cá que nas manifestações ditas unitárias ou organizadas pela CGTP começa a haver a preocupação de tentar impedir a entrada do Bloco ou deste só desfilar quando os organizadores entendem. Ou seja, correspondendo ao agravamento sectário do PCP, há cada vez maior preocupação em escorraçar o Bloco, de o atirar para fora das manifestações. É nesse sentido, que o Bloco não pode de modo algum tolerar que haja donos das manifestações, por isso força a sua participação e evita isolar-se do conjunto dos manifestantes. Tenho quase a certeza que foi este o caso. No entanto, há quem ache que isto é uma cedência. Eu penso o contrário.

Por último discordo profundamente deste tipo de prosa publicada no blog Arrastão: “… o braço sindical do PCP, a CGTP, se tornou a central sindical do regime, institucionalizada e pronta a pegar em armas de forma controlada e ordeira, quais cordeiros arrebanhados pela força das circunstâncias.” Para além de revelar algum esquerdismo sectário, permite placidamente que se instale nas pessoas a ideia que a CGTP é do PCP, quando ela é a arma sindical dos trabalhadores e é a única força unitária de que dispõem. Quanto mais se disser que ela é do PCP mais este se convence que é verdade. A nossa luta é para que ela se transforme numa verdadeira Central Sindical de todas as forças que nela participam.

Pensava também fazer uma crítica aos “belos” pedaços de prosa que o Vítor Dias foi espalhando por diferentes blogs em comentários aos vários posts “heréticos”, mas como a nossa caturrice não leva a lado nenhum, por aqui me fico

10/10/2010

Quem é o inimigo principal do PCP?


Existe uma rubrica no jornal Avante!, chamada Actual, que, não constando dos estatuto nem das resoluções dos Congressos, traduz muito bem a idiossincrasia que em cada momento atravessa aquele partido.
No último número, dos três artigos assinados que compõem aquela rubrica dois eram dedicados ao Manuel Alegre e, como se prevê, não eram nada meigos para ele.
O primeiro, de Margarida Botelho, em tom de gozo, falava da posição do candidato em relação às recentes medidas tomadas pelo Governo. É fácil fazer ironia quando o candidato, apesar de se distanciar delas, é apoiado por um dos partidos que as toma. Já se sabe que Francisco Lopes, que não tem qualquer responsabilidade nelas e que se candidata para as denunciar, é o preferido da autora. Simplesmente, o PCP, já o PS era Governo, com Guterres, foi capaz de desistir à primeira volta para apoiar Jorge Sampaio, que hoje não só apoia as medidas do Governo como até elogia os apelos de Cavaco ao consenso. Mudanças que o tempo tece.
O segundo artigo, de Manuel Gouveia é mais farfalhudo. Não só especifica logo a abrir que o candidato é apoiado por José Sócrates e Francisco Louçã. - É bom que se misturem os dois nomes para que não fiquem dúvidas sobre a colaboração de classes de Louçã. - Como a seguir entra pela mentira descarada, e não é o primeiro que o faz, dizendo que Manuel Alegre se tinha abstido na votação do Código de Trabalho, quando se sabe que votou contra, ele e mais três deputados do PS. Ver aqui.
Depois ataca Sócrates, junta-lhe Passos Coelho e também Cavaco Silva. E a seguir num passo de mágica diz-nos que estes, José Sócrates, Francisco Louçã, provavelmente por apoiar Manuel Alegre, o próprio Manuel Alegre, Passos Coelho e Cavaco Silva são os “actores da contra-revolução. São bons actores. Mentem, fingem e disfarçam-se como poucos”.Naturalmente este senhor ainda acredita que a revolução portuguesa está "a caminho do socialismo" e que toda esta gente, incluindo o Louçã, é contra-revolucionária, pronta a destruir a revolução "a caminho do socialismo". Este senhor anda trinta anos atrasado na história.
Aqui estão pois definidos os inimigos do PCP e do povo português. É simples e fácil. Aqui temos a política reduzida à sua expressão mais simples.

Não queria terminar este post sem me referir ao comentário de Vítor Dias à entrevista que Francisco Lopes deu a São José Almeida e Nuno Sá Lourenço, e que foi publicada no Público, de Sábado. Primeiro acusa-os de serem “capazes de perpetrar um erro político clamoroso”. E qual é esse erro? O de insistirem em perguntar se a não desistência do candidato à primeira volta não facilitará a vitória de Cavaco. Apesar dele próprio e do candidato já terem esclarecido “devidamente” esse assunto, assola sempre esta dúvida aos jornalistas e comentadores. E Porquê? Apesar de Dias dizer mais à frente que a desistência à primeira volta de Carlos Brito para Ramalho Eanes se ter dado numa circunstância de clara bipolarização, verificou-se também quando Salgado Zenha foi candidato, e aí não havia bipolarização nenhuma, bem pelo contrário, e para Jorge Sampaio, que era Presidente com um Governo do PS. Não será de estranhar que os jornalistas continuem a insistir neste tema.
A seguir fala de “um patente erro factual que mostram como algumas cabeças andam confusas”. Ou seja, quando aqueles perguntam se «Então acha que Álvaro Cunhal fez um disparate quando retirou a candidatura de Carlos Brito para apoiar Mário Soares.»
Não foi Carlos Brito mas Ângelo Veloso, que por sinal desistiu, como eu já disse, a favor de Salgado Zenha e não de Mário Soares. De facto o erro é relativamente grave e mostra como muitas vezes os jornalistas vão mal preparados para as entrevistas. Mas, pergunto eu. Não seria natural que o candidato, logo ali, na entrevista, corrigisse o erro. E, das duas uma, ou Francisco Lopes desconhece a história do PCP, o que é grave, ou os jornalistas censuraram-lhe a resposta, o que não é menos grave, mas disso não são acusados por Vítor Dias, que pressuroso se apressa a repor a verdade dos factos, que o seu candidato se esqueceu de corrigir. Quando se arranjam candidatos destes às vezes sucede isto.
PS.:
Já depois de ter publicado o post lembrei-me que podia linkar os artigos citados para o Avante! on-line, bem como a entrevista de Francisco Lopes para o Público on-line. Neste jornal só os artigos de opinião é que não têm link.

22/09/2010

Os neo-estalinistas II


Victor Dias, impante, como é seu costume, vem insinuar em comentário que dirigiu ao meu post sobre Os neo-estalinistas, que o verdadeiro neo-estalinista era eu porque, segundo ele, eu queria que a Festa do Livro da Festa do Avante fizesse censura à História do Partido Comunista da URSS, Breve Curso. Depois espraia-se em comentários sobre aquele espaço ser gerido por uma empresa que não submete os livros a censura prévia dos organizadores da Festa. Eu próprio lhe respondi que de facto não havia censura prévia pois até já lá tinha visto livros fascistas, como um que eu encontrei há dois anos, editado pela Nova Arrancada sobre o 25 de Abril. Simplesmente para mim era sintomático que destacados militantes do PC, editassem e distribuíssem durante a Festa livros de claro pendor estalinista e isso é que contava.
Não é que já depois destas palavras terem sido escritas me chega a informação que o livro de Carlos Brito, Álvaro Cunhal, sete fôlegos do combatente tinha sido censurado por alguém da Festa. A história passa-se assim: a distribuidora do livro do Brito forneceu à editora que opera na Festa o referido livro, de acordo com o estabelecido entre as duas, o livro foi exposto por pouco tempo, mas depois foi retirado e todos os exemplares foram devolvidos à distribuidora.
Já se sabe que o Vítor Dias dirá que isto foi um assunto entre editoras, que o Partido nada teve a ver com o assunto, ele só se rege pelo que está estipulado nos seus Estatutos. Simplesmente uma censurazinha de vez enquanto não fica mal, não vá o Carlos Brito convencer-se que alguém ainda lhe liga alguma coisa na Festa do Avante.
Quando é que o Vítor Dias deixará de ser o idiota útil desta direcção do PCP?

02/11/2009

Anda uma grande agitação na blogosfera: o caso de "5 Dias" – I


A entrevista de Rita Rato, a nova deputada do PCP na Assembleia da República, ao Correio da Manhã, causou alguma agitação na blogosfera. Foi motivo de grande gozo e chacota e de defesas apaixonadas. Eu, que não gosto de seguir a agenda mediática dominante, neste caso, dos blogs, a não ser que traga alguma achega nova à discussão, abstive-me de repetir os comentários insultuosos ou de ironia crítica que prevaleceram na blogosfera. No entanto, não resisti a comentar um dado histórico apresentado por Vítor Dias, em defesa de Rita Rato no seu blog, Tempo das Cerejas, e cujo post foi transcrito para o 5 Dias. Não interessa agora aqui relatar o que se passou, vão aos comentários ao post que o transcreve e sigam a contenda.
Vítor Dias fez a correcção devida, tanto no seu post como pediu ao 5 Dias que alterasse a sua transcrição, e o assunto morreu ali. Mas a minha crítica não se limitava à correcção histórica, tentava também fazer graça com o título que encimava o post da transcrição e que era assinado por Carlos Vidal, escrevinhador do 5 Dias, que não tem sido muito bem tratado por mim (ver aqui). Carlos Vidal, correctamente, justificou a sua escolha e também o assunto ficou arrumado. Mas não é que Nuno Ramos de Almeida, que não era chamado a esta história, tomou como suas as dores das minhas referências e resolve intempestivamente, na área dos comentários vir-me atacar, fazendo umas insinuações a meu respeito um pouco enviesadas e afirmando que eu tomo o PCP como o meu inimigo principal. Já se sabe que lhe respondi como soube e pude, lamentando que alguém que navega nas mesmas áreas políticas que eu, na corrente comunista do Bloco ou, pelo menos, daqueles que neste partido vieram do PCP, não perceba o que digo, nem as posições que tomei em relação aos seus companheiros de blog, Carlos Vidal e Tiago Mota Saraiva (ver o último post referido).
Mas isto é um simples fait-divers, ou má-língua bloguista, que nada acrescenta ao que vos quero relatar.
Na sequência desta acesa discussão do caso de Rita Rato, e que como todos devem saber envolvia a recusa da deputada do PCP a comentar o Gulag (campos de trabalho forçado), que existiu na ex-União Soviética, começou a travar-se no dito blog uma discussão deveras interessante sobre a natureza daquele regime, do estalinismo e de outros temas afins. É sobre isso que irei escrever, talvez como tem sido ultimamente meu costume, em vários posts.
É evidente que, como o pessoal do 5 Dias é muito produtivo, os posts a que me refiro já foram todos completamente ultrapassados e neste momento já se discutem muitos outros e interessantes assuntos
Quem quiser seguir a polémica toda pode fazê-lo seguindo este roteiro. Primeiro o post já referido de Carlos Vidal e a seguir todos os outros (citarei sequencialmente, pela ordem que apareceram, fazendo referência ao nome do seu autor a partir do qual, por link, poderão chegar ao artigo): Ricardo Noronha, Tiago Mota Saraiva, José Neves, Nuno Ramos de Almeida, Carlos Vidal, José Neves, José Neves, Tiago Mota Saraiva, Tiago Mota Saraiva, Carlos Vidal, Tiago Mota Saraiva, Ricardo Noronha, Ricardo Noronha

Como já se percebeu não quero acrescentar nada ao caso de Rita Rato, no entanto, aproveito a recomendação de José Neves sobre qual o livro que gostaria de oferecer neste Natal a Rita Rato, que era um, que não sendo um conjunto de originais, fosse uma antologia de autores que, se reclamando do comunismo, fizessem a crítica da sua experiência concreta.
Este desejo de José Neves só pode ser novidade no caso excepcional português. Em todo o mundo é vasta a literatura de autores que se reclamando do comunismo ou de uma visão progressista da sociedade se referem ao estalinismo, ao Gulag, à experiência do socialismo real de forma auto-crítica e descomplexada, ao contrário de que se passa no nosso país. Sem precisar de ir mais longe, do que aquilo que se escreve ou traduz em língua portuguesa, é ver a forma como múltiplos sites e revistas brasileiras ou mesmo o PCdeB, tão próximo do PCP, fazem referência àqueles fenómenos de forma muito mais límpida do que em Portugal, em que toda e qualquer referência é objecto de paixão e de perca de lucidez. Os blogs próximos do PCP e os seus anónimos comentadores, para não falar já do Avante, tomam-se de tal fúria que é impossível qualquer discussão séria. O pior é que há muita gente que se diz à esquerda, mas que toma como sua a agenda do anti-comunismo militante, tornando também impossível qualquer troca de ideias. Basta referir que há bloggers sérios que defendem o corte radical com o PCP e tudo que ele representa, condenando assim a esquerda ao eterno desentendimento e separando irremediavelmente as diversas correntes da esquerda.
Em segundo post voltarei ao assunto da polémica.
Pretendi ilustrar este post com uma fotografia da Anna Larina Bukharina, a mulher de Bukharine, uma das vítimas dos Processos de Moscovo montados por Estaline, e que, por ser a sua mulher, sofreu longos anos no Gulag. Escreveu um livro notável, Bukharine, minha paixão (Terramar), onde dá notícias daquele bolchevique e da vida dela de sofrimento nos campos de trabalho forçado (Gulag). A tradução do livro é de um comunista, que toda a vida o foi, Ludgero Pinto Basto. Não consegui, com o mínimo de qualidade, publicar uma fotografia de Anna Larina, por isso a do seu marido Nicolai Bukharine. Como se vê, de fontes sérias, não falta informação a quem a queira.

15/09/2009

Os benefícios fiscais. Uma polémica artificial.


Depois do célebre debate entre Sócrates e Louçã, em que aquele acusou o líder do Bloco de Esquerda de tentar destruir a classe média retirando-lhe os benefícios fiscais dos PPR e nas despesas com a saúde e a educação, Vítor Dias fez de imediato um post em que admitia que as propostas do Bloco relativas aos benefícios fiscais com a saúde e educação pudessem ser semelhantes a outras de Vital Moreira, que ele anteriormente tinha criticado.
Esta posição do Vítor Dias, a quem ironicamente agradeci aqui, e que foi também referida por José Neves no 5 Dias, mereceu depois resposta de Vítor Dias, não só não concordando com as propostas do Bloco, como achando que ao justificarmos a sua defesa com as de Vital Moreira estaríamos a cair num grande oportunismo (expressão minha). A seguir para mostrar que nunca tinha estado na sua ideia ajudar o Bloco, escreveu mais um post a criticar um outro de Francisco Louça, no Esquerda.net, arranjando quanto a mim umas desculpas esfarrapadas para ilustrar aquilo que o separava das propostas de Louçã. Dava a sensação que pretendia justificar-se junto dos seus camaradas como é que involuntariamente tinha ajudado o Bloco.

Vítor Dias nunca compreendeu o que é que estava verdadeiramente em causa e o significado, mesmo que não fossem iguais, da semelhança das propostas do Bloco com as defendidas por Vital Moreira.
Vítor Dias e o PCP continuam a alimentar a lenda de que o Bloco é favorecido na comunicação social. Que os jornalistas levam ao colo o Bloco e que este foi criado pela burguesia para destruir o PCP – versão de comentador rasteiro – ou então, devido à sua origem social, é um partido irremediavelmente comprometido com a colaboração de classes e a social-democracia – versão de comentador mais especializado. Ora a verdade, é que neste momento dada a ameaça que representa para o PS a subida eleitoral do Bloco de Esquerda, a ofensiva anti-Bloco passou a ser descarada e com grande apoio nos media dominantes. Mas, acima de tudo, o PS passou a dirigi-la, classificando o Bloco como partido extremista e radical, que quer destruir a classe média portuguesa. E tem vindo a repetir esta afirmação, como eu já escrevi aqui, quer nos comícios, quer nos tempos de antena, tentando que uma mentira repetida mil vezes possa aparecer como verdade. Ou seja, independentemente do interesse das propostas do Bloco e da semelhança ou diferença que existam entre elas e as de Vital Moreira o que está em causa é o ataque injusto e falso ao Bloco, capitaneado pelo PS, tentando fazer passar propostas discutíveis, mas razoáveis, já defendias por amigos importantes do PS, como propostas extremistas, que visam acabar com a classe média.
Eu percebo que Vítor Dias não queira dar para este peditório, considerando que nada tem a ver com ele, simplesmente referir-lhe-ia aquele célebre poema de Brecht, em que "Primeiro levaram os comunistas, mas não me importei com isso eu não era comunista. Em seguida levaram alguns operários, mas não me importei com isso eu também não era operário. Depois prenderam os sindicalistas, mas não me importei com isso porque eu não sou sindicalista. Depois agarraram uns sacerdotes, mas como não sou religioso também não me importei. Agora estão-me a levar a mim. Mas já é tarde....". Para bom entendedor meia palavra basta.

Mas, independentemente desta minha apreciação política, que pode levar Vítor Dias pensar que eu quero inibi-lo de fazer críticas ao Bloco, há também as razões de fundo sobre este problema dos benefícios fiscais, que segundo os fiscalistas seriam considerados como deduções à colecta. Sobre este aspecto gostaria de citar, apesar da prosa já ir longa, a opinião de Eugénio Rosa, economista do PCP, que num texto que escreveu para o Resistir.info, apesar da crítica que faz ao debate, tem esta apreciação sobre as deduções com a saúde e depois com a educação:

Assim, quanto mais elevado é o rendimento mais poderá descontar, pois para descontar é preciso ter imposto suficiente a que se possa deduzir a despesa. Os que têm dinheiro para recorrer a clínicas e hospitais particulares de luxo são certamente os mais beneficiados porque conseguem deduzir mais, pagando assim muito menos de IRS. As injustiças são grandes e graves. Vários países da União Europeia (ex. Espanha, França, Inglaterra) não têm um sistema como o português, pois não existem deduções.
Uma alternativa a este sistema, que certamente seria mais justa, pois beneficiaria quem menos tem, e evitaria as injustiças que o actual sistema cria, seria reduzir os benefícios fiscais na saúde e aumentar, em igual volume de despesa, as comparticipações nos medicamentos. O Estado não perderia nem ganhava. Seria uma medida com efeitos imediatos. E certamente determinaria uma repartição mais justa desta despesa do Estado. O mesmo estudo poderia ser feito na educação, entre gratuidade dos livros no ensino obrigatório, eliminação das propinas na licenciatura e redução nos mestrados, e dedução das despesas de educação no IRS. Os meios financeiros não são ilimitados e há que fazer opções que devem ser as mais justas. Isto são alguns contributos pessoais que deixamos aqui para reflexão dos leitores Mas qualquer mudança exige um estudo prévio profundo para avaliar as eventuais consequências sociais, e um grande domínio desta matéria. E isso foram coisas que os intervenientes no debate revelaram não possuir.

Para além desta apreciação crítica aos debatentes, que me parece injusta, pelo menos em relação ao Louçã, atendendo que o debate tinha um tempo limitado e exigia uma grande contenção verbal, parece-me que as propostas de Eugénio Rosa não andam muito longe das do Bloco, que a serem aplicadas, nunca o seriam de imediato e necessitariam de estudo prévio.

13/08/2009

O complexo de “O Mandarim” e outras histórias


Como estou de férias, a banhos, a moleza tem-me atacado e deste modo dispenso-me de fazer comentários a alguns acontecimentos pouco produtivos que tiveram lugar neste mês de Agosto, dedicado fundamentalmente ao descanso e à beatitude.

O primeiro foi a morte de Raul Solnado. Não sou de facto daqueles que morreram de amores pelo sketch da Guerra de 1908. O Zip-Zip foi mais um estado de alma do que a própria intervenção do Solnado. A Cornélia era o espectáculo e, por vezes, o confronto da esquerda com a direita. Revista, não via. Portanto do Solnado lembro-me, porque foi um acto de Resistência, da sua participação no Dom Roberto, o filme da Oposição, realizado, em 1962, pelo José Ernesto de Sousa, por sinal bastante fraquito. Mas tudo isto não me impede de considerar o Solnado um homem bom e um grande actor.

Há também o episódio bastante rocambolesco do içar da bandeira monárquica na Câmara Municipal de Lisboa. Já quase tudo foi dito. Por mim os rapazinhos deveriam levar uma pena em tribunal que lhes servisse de lição para que nunca mais terem intenção de fazer provocações reaccionárias. O caso, já antigo, da troca do nome da Praça do Chile por Augusto Pinochet foi só um começo, não podemos tolerar em nome de rapaziadas as afrontas ao estado Democrático.

Houve também, sem a importância dos dois primeiros casos e fazendo parte do pequeno universo dos rancores pessoais entre blogs, mais uma das trauliteirices do Victor Dias contra o Bloco de Esquerda. Fui ler o texto do João Teixeira Lopes no Esquerda .net, é um texto sério, discutível, mas que traça algumas diferenças fundamentais entre o Bloco e o PCP que eu próprio já anteriormente tinha esboçado. Victor Dias, sempre com uma pala nos olhos, esquece semanalmente as boçalidades, as mentiras e as provocações que os seus amigos do Avante, na rubrica Opinião, vão regularmente publicando, é só começar a somar. Vejam uma das últimas.

Mas não era sobre os temas anteriores que me queria prenunciar. Depois de ter publicado um post sobre dois textos de Tomás Vasques deu-me o complexo do personagem principal de O Mandarim, de Eça de Queirós, queria saber quem era a o escrevinhador, o que fazia, que eu tinha tentado assassinar politicamente no último post. Por isso fui rapidamente à Internet pesquisar no Google quem era aquele que eu tinha “assassinado”. A primeira informação que obtive foi uma pequena biografia da editora que tinha publicado um livro seu. Aí dizia-se que era actualmente Chefe de Gabinete do Presidente da Câmara de Lisboa. Fiquei estarrecido com a notícia e fui logo fazer um aviso à navegação, publicando-a no post, como P.S.
No dia a seguir, com mais tempo, fui vasculhar melhor. Afinal o livro era de 2001 e, o actualmente, referia-se ao João Soares, que naquele ano ainda era Presidente da Câmara, dirigindo, se bem se lembram, uma coligação PS-PCP. Retirei de imediato o tal P.S., mas achei por bem escrever este pequeno post com algumas perguntas que acho oportunas para quem escreveu o texto que escreveu sobre o Bloco de Esquerda.
Como é possível que alguém, que manifesta uma tal alergia ao comunismo e a alguns dos seus supostos continuadores, seja capaz de ter participado numa coligação com comunistas “a sério”.
Assim, ou Tomás Vasques participava, debaixo da capa de um anti-comunismo militante, na “sovietização” da cidade de Lisboa ou de forma encapotava contribuía para a ruptura daquela aliança, tudo fazendo para que João Soares perdesse as eleições para Santana Lopes, como de facto aconteceu ou, a hipótese mais verosímil, andava a fazer pela vida, ele e a sua mulher, vereadora do urbanismo de João Soares, como alguns zunzuns que na altura foram publicados na imprensa deixavam antever (ver aqui, aqui e aqui).
Por isso, ao contrário da personagem principal de O Mandarim, não fui atacado de remorsos auto-destrutivos e dou por bem empregue estes meus posts sobre aquela personagem.

03/05/2009

Três histórias do PS e uma justificação pessoal


Três acontecimentos recentes relacionados com o PS vieram sem sombra de dúvida colocar este Partido ainda mais na ribalta. Podemos dizer que teve direito a maior tempo de antena, apesar de na maioria das vezes ser pelas piores razões.

A primeira história tem a ver com o aparecimento de crianças de uma escola do primeiro ciclo de Castelo de Vide no tempo de antena do PS a fazerem publicidade ao computador Magalhães sem autorização, para esse fim, dos pais. Já se sabe que a Ministra lamentou, o Governo sacudiu a água do capote e Sócrates pede desculpa aos pais da crianças filmadas.
Estes são os acontecimentos, mas já temos a versão da produtora que realizou as filmagens, garantindo que nunca disse que era do Ministério.
A história está mal contada, parece que ninguém quer assumir as responsabilidades e que não basta um pedido de desculpas do Sócrates aos pais das crianças para se resolver o problema.
Parafraseando Vitalino Canas, que a seguir aos acontecimento do 1º de Maio com Vital Moreira, garantia que o PCP tinha criado o “caldo de cultura” responsável por aquelas manifestações de intolerância, assim, diria eu, que o PS criou com as suas permanentes acções de propaganda, misturadas com a sofreguidão com que progressivamente se vai apoderando do aparelho Estado, uma situação como a que se verificou no tempo de antena, em que já não se consegue distinguir entre o Ministério da Educação e o PS e o que é propaganda, de um documentário educativo sobre o aproveitamento útil de um computador.

A segunda história tem a ver com o interrogatório por Inspectores do Ministério da Educação a alunos e professores da Escola Secundária de Fafe que arremessaram ovos à respectiva Ministra, quando ela passou pela escola.
Manuel Alegre, e bem levantou a voz no Parlamento contra o tipo de interrogatório que estava a ser feito. O Sindicato dos inspectores veio reclamar que não se assemelhava à PIDE e que ao comparar a sua actividades com daquela polícia política se estava a banalizar esta. Sendo verdade isto, pareceu-me no entanto a reacção sindical bastante corporativa, ou seja, defensora do indefensável.
Ao proceder como tem sido relatado pela imprensa parece-me que os Inspectores estão a fomentar a delação e a tentar provar que por detrás das manifestações de estudantes está a mão tenebrosa, já não de Moscovo, mas do Sindicato dos Professores.
Ainda no tempo do fascismo, quando fui professor no Liceu de Almada, fui encarregue de fazer uma inquirição a uma aluna que tinha participado numa manifestação dos estudantes liceais em Lisboa e tinha sido presa e identificada. A PIDE ou a polícia, já não me lembro, tinham enviado uma participação para a escola para que a aluna fosse ouvida, e eu, como director da sua turma, fui encarregue de o fazer. Já se sabe que todo o inquérito foi feito no sentido de desculpar a aluna, tendo-se estabelecido grande cumplicidade entre mim e a inquirida. Hoje passados, 35 anos do 25 de Abril, Inspectores ao serviço dos interesses da Ministra do PS interrogam alunos fomentando a delação e procurando os cabecilhas ocultos da conspiração. Tristes tempos estes que vivemos.

A terceira e última história tem a ver com os assobios, os apupos e com alguns safanões de que Vital Moreira foi vítima no 1ºde Maio, na manifestação da CGTP.
Gostaria de lembrar aos mais desprevenidos que no 25 de Abril de 2007, quando subi em nome da Renovação Comunista ao palanque que estava instalado no Rossio fui assobiado, como foi o Edmundo Pedro, o representante da JS e parece que mais alguém da UGT. Portanto conheço o sectarismo, neste caso, dos meninos da Juventude Comunista. Não tenho por isso motivo para estranhar o que se passou.
Sei que este assunto percorre a blogosfera com as mais variadas opiniões. Só queria destacar, como prova do maior sectarismo, que ultrapassa o do PCP, esta prosa de uma tal Rui Pena Pires, no Canhoto, que a despropósito acusa Manuel Alegre: “Sempre pronto a denegrir como autoritários actos dos seus adversários políticos, parece conviver pacificamente com a manifestação inequívoca do autoritarismo quando protagonizado por amigos de conveniência. Esclarecedor.”
Neste caso, queria também lembrar que foi Ferro Rodrigues que iniciou estes cumprimentos do PS aos dirigentes da CGTP durante a manifestação do 1º de Maio. Até é provável que todos os anos a CGTP envie um convite ao PS para estar presente, visto haver um sector daquele partido na direcção da Central. Por isso, no ano em que Ferro Rodrigues se deslocou à manifestação o significado da sua presença foi importante, reforçando na altura o desejo de unidade e de luta contra o Governo do Durão Barroso. Depois nunca mais, que eu me lembre, alguém do PS apareceu. Este ano pelos vistos Vital Moreira e Ana Gomes foram até lá. É claro que o objectivo não era fortalecer a unidade, nem a luta comum contra o Governo de Sócrates, era pura e simplesmente fazer propaganda eleitoral e aparecer na fotografia ao lado de Carvalho da Silva. Sobre isto não podemos ter dúvidas.
Vítor Dias lembra, e bem, que na véspera saiu uma notícia no Público a indicar que a delegação do PS se encontraria com a CGTP no Rossio, e não na praça da Figueira, às 14h30. Confirmou depois que esta notícia provinha do próprio PS. O que levou Vital Moreira a mudar o lugar do encontro, não sabemos.
Conhecemos bem na vida política nacional e internacional o que são as provocações e o que na maioria dos casos o que pretendem. A pressa com que Vital Moreira se apoderou da situação, dizendo que já tinha a sua Marinha Grande deve-nos levar a pensar.
No entanto, apesar destas ressalvas, não tenho a mais pequena dúvida, e os meus textos sublinham bem isso, de que o PCP tem como linha política dominante um comportamento absolutamente sectário . Mas, “o caldo de cultura” de que fala Vitalino Canas está fundamentalmente a ser alimentado, não pelo PCP, mas pelas atitudes e práticas do PS, enquanto Governo, de que o Código de Trabalho é a expressão mais visível.

Para terminar, devo algumas explicações aos meus leitores. Fui avô o que dificultou por algum tempo a minha intervenção neste blog. No entanto, não é esta, neste momento, a razão do meu maior espaçamento. Durante algumas semanas terei que fazer um tratamento em Madrid. Para aqueles leitores que gozavam com as minhas lombalgias, informo que a situação é bem mais grave. Depois, darei notícias.

25/04/2009

Ainda o Apelo à Convergência de Esquerda nas Eleições para Lisboa


Várias razões têm-me neste últimos tempos afastado deste blog. Para os amigos que me lêem aqui vai a notícia, sou avô e isso, apesar de ser uma questão muito pessoal, é suficientemente importante para o relatar aqui. Prometo que não irei mostrar fotografias da criancinha. Posto isto passemos ao que me trás aqui.

Este Apelo tem causado desagradáveis comentários a alguma gente de esquerda e tem-me acarretado algumas preocupações por não estar a cumprir os objectivos que estavam na sua preocupação inicial.
Começaria, porque é simples, por um post do 5dias.net de alguém que à partida se declara candidato da CDU, portanto parte interessada.
Começa por dizer que o Apelo é promovido pela Renovação Comunista (RC), o que é verdade, e para isso recorre a um link para o site daquele Movimento. Ora se a RC apoia é natural que indique o local onde pode ser assinado. Simplesmente a partir do momento que o Apelo está na rua ele já não pertence à Renovação mas sim aos seus subscritores. Mas isso é o menos importante, mas começa por dar o tom.
Depois diz aquilo que é verdade, que a Renovação Comunista apoiou o vereador Sá Fernandes, mesmo depois dele ter perdido a confiança política do Bloco. Simplesmente, a RC integrou a lista à vereação da cidade de Lisboa daquele vereador, não tendo acompanhado o Bloco na sua tomada de posição, tal como outros dos seus apoiantes independentes. É discutível, mas não me parece que seja pecado mortal.
Mas onde a desonestidade intelectual é patente é nesta afirmação: É de estranhar o aparente (e recente) saudosismo que PS e RC têm da experiência das coligações, em especial na altura de Jorge Sampaio, num momento em que ambas as forças políticas desempenham ou subscrevem as políticas do actual executivo. Ora o autor do post não tem uma única afirmação da RC em que esta subscreve as políticas do actual executivo. Pelo contrário se consultar o seu site encontrará críticas à governação.
Aqui temos o estilo mentiroso e desonesto, para não chamar mais nomes, com que o PCP tem actuado nesta área. Tentando sempre, para confundir os seus militantes, acusar os seus pertenços inimigos como apoiantes claros do PS. É interessante que num comentário aquele post se faça referência ao renovador Vital Moreira, quando se sabe que se este alguma vez foi renovador, neste momento já não é, e é um claro apoiante do actual primeiro-ministro.
Depois demonstra uma grande ignorância do passado. A coligação entre PS e CDU, começou em 1989, não foi contra Krus Abecassis, mas sim contra Marcelo Rebelo de Sousa e manteve-se com João Soares até 2001, que só não continuou porque foi derrotada pelo Santana. Portanto não mitifiquemos um passado que é bem recente.
Depois é ilusão, que a CDU só por si pode constituir um projecto alternativo. Ao menos valha-nos as justificações do Victor Dias (aqui e aqui) que acha que o eleitor pode confundir tudo e por isso entende que coligações antes das eleições legislativas não.
Esta referência ao Victor Dias remete para a polémica que se tem travado no Blog dedicado às eleições do Público, entre ele e Cipriano Justo, dirigente da Renovação Comunista. Tudo começou por uma intervenção infeliz de Modesto Navarro na Assembleia Municipal de Lisboa, em resposta a uma intervenção provocadora do lider da bancada do PSD sobre o Apelo. Modesto podia responder que nada tinha a ver com aquele Apelo e que portanto não enfiava a carapuça que lhe queria meter o líder do PSD, simplesmente achou por bem acrescentar mais uns epítetos aos seus subscritores, chamando-lhes, entre outras coisas, órfãos da política. Justo pegou no assunto e fez um post. Sem me querer envolver nesta polémica e não sendo dado a floreados, não deixaria de lembrar ao Vítor Dias que distinguir entre promotores e subscritores, os primeiros gente desonesta, que sabia cavilosamente o que estava a fazer, e os segundo, gente séria que ingenuamente foi arrastada pelos primeiros, faz lembrar uns certos comunicados do antigamente em que se insinuava que havia uns subversivos que arrastavam uns pobres diabos para acções insensatas. Por outro lado, sendo alguns dos subscritores do Apelo apoiantes da CDU para as europeias leva-me a pensar que foram arrastados para subscrever uma lista eleitoral que sub-repticiamente os convenceu a assinar um apoio que não queriam. Portanto esta distinção é de mau gosto, tal como os nomes com que gostam de mimosear os assinantes ou os promotores.
Resta o problema real, que já destaquei noutra ocasião, deste apelo poder servir aos objectivos de António Costa. Facto que ele habilidosamente já ultrapassou quando ontem na Voz de Operário disse que sozinho ou acompanhado iria vencer (ver aqui).
A esquerda, toda ela, lamentavelmente, está a cair num grande autismo (esta palavra agora parece que é politicamente incorrecta). Tentarei, com alguma independência, continuar a observar a situação. Veremos se no final ficará algum caco.

28/03/2009

Um debate à esquerda

A livraria Círculo das Letras tem desenvolvido uma meritória actividade cultural e política de divulgação de livros e de pintura e, por vezes, permitindo o debate entre as várias visões da esquerda.
Com este objectivo, realizou ontem mais um debate sobre o livro de José Neves, Comunismo e Nacionalismo em Portugal – Política, Cultura e História no Século XX (Tinta da China, Edições, 2008). Participaram nele, além do autor, Vítor Dias e Miguel Portas.
Pensava que a sessão seria um sucesso, mas correndo bem e com uma sala composta não foi quanto a mim o êxito de público que eu esperava, dadas as ligação políticas dos dois principais comentadores do livro: Vítor Dias, ao PCP, e Miguel Portas, ao Bloco.
José Neves é um jovem da geração da minha filha e seu grande amigo, que eu conheço desde que pertencemos os dois à Direcção do Sector Intelectual da Organização de Lisboa do PCP, no tempo em que ainda lá pontificava a Helena Medina. Afastámo-nos na mesma altura, cada um seguindo o seu percurso.
Tive o prazer de assistir ao seu doutoramento, a que fiz uma breve referência neste blog, e depois ao lançamento do seu livro em Lisboa. Tive conhecimento que um dos seus apresentadores em Coimbra, tinha sido Rui Bebiano, que para o efeito fez um texto para o seu blog escorreito e de que gostei.
A representar a livraria, presidindo à mesa, estava o Fernando Vicente, um velho companheiro das políticas, que muito prezo e admiro. No final, satisfeito com a realização, congratulou-se por ter sido possível juntar na mesma iniciativa dois actores de duas áreas da esquerda, que têm andado de costas viradas. Prometeu que este ano se iriam realizar outros debates do género.
Quanto ao tema em discussão irei dar, segundo a minha versão, sempre falível em relação àquilo que os intervenientes dizem, os dois pontos de vista que foram expressos pelos dois comentadores do livro.
Vítor Dias afirma que não concorda com a utilização do termo nacionalismo aplicado à visão do PCP tem da realidade nacional e critica a frase escrita na capa, que afirma que a história da oposição entre o PCP e o Estado Novo é aquela que opõe o nacionalismo comunista ao nacionalismo fascista. Depois interpreta a adesão do PCP aos valores nacionais como resultado da sua particular visão da realidade nacional, de país colonizador e simultaneamente colonizado, e da definição que aquele partido dá do Estado fascista, que obriga à unidade de todas as classes anti-monopolistas contra os monopólios que são o seu sustentáculo. Esta caracterização da realidade leva a que o PCP defenda valores que extravasam a própria classe operária e se considere como representante dos interesses nacionais, contra uma classe parasitária ligada ao imperialismo estrangeiro.
Miguel Portas tem uma explicação diferente para o mesmo fenómeno. O enraizamento do PCP na realidade nacional, resultaria, como já tinha acontecido com os Partidos sociais-democratas da II Internacional, na inserção desses partidos na realidade da Nação que era uma criação recente, que não tem mais de cem anos. Podemos resumir, afirmando que a força das novas nações tinha postergado para segundo plano a afirmação de Marx de que os trabalhadores não têm Pátria. E termina, com esta revelação importante de que o próprio Bloco de Esquerda era, neste momento, vítima deste dilema, ou seja, a realidade nacional e a sua importância para os trabalhadores portugueses estava-se a impor sobre a própria internacionalização do trabalho.
José Neves, sem ter a preocupação de rebater ponto por ponto estas duas visões, foi afirmando que por exemplo a frase transcrita da capa do livro é um pouco mais completa do que o que tinha afirmado Vítor Dias e leu-a na sua totalidade, para que não restassem dúvidas: “A história da oposição entre o Partido Comunista Português e o Estado Novo é em parte a história da contradição entre o internacionalismo comunista e o nacionalismo fascista, mas é também, vê-lo-emos ao longo deste livro, a história da oposição entre dois tipos de nacionalismo.” Realçando devidamente este mas é também.
Manifestou desagrado pela expressão enraizamento referida, penso, pelos dois intervenientes, pois considerava que levada à letra permitiria que se considerasse o PCP como um partido estranho à realidade nacional, que só posteriormente se teria enraizado nela. Houve mais algumas críticas da sua parte que permitiram tornar vivo todo o debate.
Se me é permitido meter a colherada, e falar de um livro que ainda não li, mas de que já possuo bastante informação, eu estaria de acordo com Vítor Dias sobre a utilização, que me parece um pouco provocatória, do termo nacionalismo para falar das posições do PCP e preferiria o termo patriotismo. Não tenho qualquer dúvida que os factos relatados pelo José Neves correspondem àquilo que eu chamaria a progressiva nacionalização do PCP e que, com alguma audácia interpretativa da minha parte, remontariam, com o atraso típico português, à política corresponde à proposta de formação das Frentes Populares, resultantes do VII Congresso da Internacional Comunista, que teve lugar em 1934. Podemos dizer que com a Greve Geral falhada de Janeiro de 1934, a que correspondeu o chamado soviete da Marinha Grande, termina para o PCP a sua fase obreirista ou operária, como preferirem, e iniciar-se-ia – com todas as contradições próprias de um pequeno partido, vítima da repressão e ainda sem um corpo dirigente estável – a da criação de um partido antifascista, com as características que Vítor Dia lhe atribui.
Nesta discussão, não deixaria de louvar a análise da realidade do PCP traçada pelo José Neves. E consideraria as propostas de Miguel Portas, sobre a influência da ideia de Nação na nacionalização do PCP, como um campo igualmente a explorar.

24/03/2009

Comunismo e Nacionalismo em Portugal


Debate sobre o livro de José Neves, Comunismo e Nacionalismo em Portugal - Política, Cultura e História no Século XX, na livraria Círculo das Letras, Rua Augusto Gil, 15 B, na esquina com a Óscar Monteiro Torres (muito perto da Av. de Roma), Quinta-feira, dia 26 de Março, às 18h45. Participarão Miguel Portas, Vítor Dias e o autor do livro, José Neves.

(clique na imagem para a aumentar)

30/11/2008

As trafulhices do Público


A história que vou contar passou-se no Público, mas nada impedia que se tivesse passado noutro jornal qualquer
O Público, do dia 27, relata, pela pena de São José Almeida, que as Esquerdas organizam-se em debates como alternativa à criação de um novo partido político.
Logo de início afirma: “aparentemente sem que haja vontade suficiente e consequente para que apareça um novo partido político à esquerda, várias personalidades com filiação partidária no PS, no PCP e no BE envolvem-se em debates e iniciativas públicas para buscar respostas para a crise social e económica.” Já se sabe que depois, no resto do artigo, nada permite que se retire a conclusão porque é que não há vontade politica para criar um novo partido político. Mas isso pouco interessa para quem tem como objectivo especular sobre a esquerda e permitir assim aos leitores do jornal terem a sensação de estarem bem informados.
Mas isto é o menos importante, apesar de ter servido de título ao artigo, o principal é ter juntado no mesmo corpo da notícia três debates que nada têm de comum, a não ser serem protagonizados por gente da esquerda.
Um dos citados, e o mais disparatado no âmbito da notícia, foi a apresentação do livro de Celso Cruzeiro, A Nova Esquerda, como mais um debate relacionado com os outros dois. Se um autor junta, para lançamento do seu livro, e eu penso até que foi mais por pressão da editora, três personalidades de vários quadrantes da esquerda portuguesa. Neste caso Francisco Louçã, Paulo Fidalgo, que não é nomeado – não dá prestígio à notícia – e Paulo Pedroso, que foi defendido pelo advogado, autor do livro, aí temos a esquerda em debate, como alternativa à criação de um novo partido. Joana Lopes, no seu blog, já tinha denunciado as notícias completamente disparatadas que tinham a aparecido sobre este lançamento.
Depois temos o fórum, na Aula Magna, em Lisboa, no dia 14, sobre Democracia e serviços públicos, organizado pelos mesmos que participaram na festa-sessão do Trindade. Esta realização merece, de facto, destaque especial, dado que junta, como já tinha sucedido anteriormente, a esquerda do PS (Manuel Alegre), o Bloco de Esquerda, Renovadores Comunistas e independentes, contando com a participação de Carvalho da Silva, esta sim a novidade, a dirigir a mesa sobre o Trabalho.
Por último, temos uma iniciativa de um grupo que se designa por Ideias de Esquerda e que resolveu há já bastante tempo, e antes de ser conhecida a iniciativa da Aula Magna, promover um debate plural sobre o tema Crise, oportunidade de viragem. Para onde queremos ir?, que junta, ou juntava, Jorge Sampaio, António José Seguro, Carlos Carvalhas, e o economista do blog Ladrões de Bicicletas, Ricardo Pais Mamede. Esta iniciativa tem lugar a 15, no Hotel Zurique, também em Lisboa.
Só por mera coincidência é que todas estas iniciativas acontecem num curto espaço de tempo. Mas a sua origem é bastante diferente. Era isto que uma jornalista séria e não desejosa de especular deveria ter dito. Poderia até entrevistar os responsáveis pela organização do Hotel Zurique e saber quem são e o que pretendem com aquela iniciativa. Já se sabe isso daria muito trabalho e não permitiria tanto fogo de vista.
Perante esta notícia, Carlos Carvalhas recusa participar, não fosse alguém pensar que ao debater com personalidades tão insuspeitas como Jorge Sampaio ou António Seguro, estivesse na Aula Magna a discursar juntamente com Manuel Alegre ou Manuel Carvalho da Silva. Mas as acções ficam com quem as pratica.
Para agravar este disparate pegado, o Público, de 29, pela pena, com certeza de uma estagiária(o), que assina LA, escreve este mimo, “Carlos Carvalhas, ? secretário-geral da CGTP ?, já não vai ao debate, de 14 de Dezembro, em que estaria lado a lado com Manuel Alegre (PS) e Ana Drago (BE). A informação foi ontem prestada em comunicado pelo Gabinete de Imprensa do PCP. Justificação: "não participará nesse debate, para o qual foi convidado, em circunstâncias e num quadro bem diferente daquele a que agora se procura associá-lo."Nota do PCP cita a notícia do PÚBLICO da passada quinta-feira em que é afirmado que "esquerdas organizam-se em debate como alternativa à criação de um novo partido". A notícia, diz o PCP "dá conta do chamado Fórum da Nova Esquerda, no âmbito da qual se associava a participação de Carlos Carvalhas num debate sobre a crise mundial", daí que o PCP tenha achado que o seu militante não deve participar. O debate em causa vem na sequência do encontro de Junho, no Teatro da Trindade, que juntou Alegre, dirigentes do BE e outras pessoas de esquerda. O PCP não se associou a este encontro.”
É a trafulhice completa, que revela a incompetência e a ignorância de um(a) estagiária(o) e de quem, ao menos, devia ler o que ela(e) escreveu. Podemos dizer que nunca em tão pouco espaço se disseram tantas mentiras. Estou curioso para ver se a notícia é desmentida na rubrica “O Público errou”.
Assim vai a nossa imprensa dita de referência.

PS.: Já este post estava redigido quando vi o do Vítor Dias, em O Tempo das Cerejas. O assunto é o mesmo, a denúncia de um jornalismo trapalhão, simplesmente os objectivos são diferentes. Enquanto que eu critico as notícias do Público, Vítor Dias, sem esquecer isso e até atribui um nome ao responsável, tenta defender o seu camarada Carlos Carvalhas, que alegando intenções ocultas, desmarca um compromisso já assumido. Vítor Dias no seu post junta tudo, jornalismo trapalhão e políticos oportunistas, que, feitos uns com os outros, pretendem confundir a opinião pública. Gente séria e honesta só Vítor Dias e os seus amigos do PCP.
E a propósito de gente séria, veja-se mais uma das tradicionais bicadas do Vítor Dias, que no seu blog, O Tempo das Cerejas, fala que o Esquerda.net indica como promotores do Fórum Manuel Alegre e Carvalho da Silva, e que não estariam na lista aí publicada. Esqueceu-se foi de dizer que o Esquerda.net fala em “promotores e participantes” o que é bem diferente da piadinha que faz.

Depois de ouvir o discurso de Jerónimo de Sousa sobre Manuel Alegre e o Bloco de Esquerda, que Vítor Dias subscreve de certeza, fico com a ideia clara de que com este PCP, sectário e autista, não se pode ir a parte nenhuma.

02/11/2008

Funcionários públicos trucidados e um apêndice


Recebi na sexta-feira à noite um telefonema de um amigo perguntando-me se eu já tinha sido trucidado. Não percebi a graça. É que nessa noite ele tinha ouvido no Telejornal umas declarações de um Secretário de Estado afirmando que os funcionários públicos iriam ser trucidados. Pensei, percebeu mal a palavra. No entanto, pelo sim pelo não, fui ver se havia alguma referência no Público ou no Expresso do dia seguinte, pois uma afirmação daquele jaez merecia destaque especial. Nada.
Ontem à noite, durante a leitura dos meus blogs favoritos, encontrei no do Victor Dias referência ao assunto. O post remetia para uma notícia no Correio da Manhã , que começava assim: “O secretário de Estado da Administração Pública, Gonçalo Castilho dos Santos (ver fotografia ao lado), diz que o "mítico dia 1 de Janeiro de 2009" não marcará o início da reforma da Administração Pública, porque ela "já está no terreno" e alerta que quem não cumprir as exigências que a lei impõe "será trucidado". E continuava: "Trabalhadores, serviços e dirigentes que não estejam com a reforma serão trucidados", afirmou o governante, no encerramento do Congresso Nacional da Administração Pública. Para Castilho dos Santos, os funcionários devem ter a noção de que "a reforma já não pode andar para trás", pelo que "trucidará quem não estiver com ela". Depois seguiam-se mais uns considerandos, que quem quiser pode encontrar na notícia, já linkada, do Correio da Manhã.
É espantoso, como declarações deste jaez, que não sendo propriamente silenciadas – este meu amigo garantiu-me que as declarações do Secretário de Estado tinham aparecido na RTP 1 e na 2 – e havendo até referência no Correio da Manhã, as mesmas não tenham sido objecto de protesto das forças políticas da oposição e que não tenham, por exemplo, servido para galhofa pública, num programa como o Eixo do Mal ou em qualquer outro semelhante. Estas declarações não podem passar despercebidas, mas, pelos vistos, passaram. Só encontrei referência no blog já referido do Victor Dias, num comunicado do Sindicato dos Enfermeiros, e nos blogs República das Opiniões, Pharmácia de Serviço e Portugal Profundo (sem link para o post), estes dois últimos bastante reaccionários.
Também, por meu intermédio, apareceu uma referência no site da Renovação Comunista.
Ao menos que na blogosfera haja indignação, mas parece-me difícil

Para que o Victor Dias não fique todo vaidoso pela referência que faço ao seu post, E não se pode trucidá-los a eles?, quero afirmar que achei de muito mau gosto o texto que dedica ao João Semedo, que não se meteu com ele, mas sim com as novas interpretações que as Teses do PCP propõem para o desaparecimento da União Soviética, ao contrário do foi aprovado em Congressos anteriores sobre aquele mesmo acontecimento histórico. Victor Dias, sempre tão crítico em relação às apressadas generalizações que os outros fazem dos textos do PCP, fingiu não perceber que João Semedo põe a questão em forma de pergunta. Por acaso bastante pertinente, pois se o PCP acha que aquela sociedade estava bem e foi a traição de alguns que provocou o seu desmoronamento, então o PCP pode defender para Portugal um modelo semelhante, sem os traidores. Isto é simples, para aqueles que estão de boa fé a travar o debate político. O seu camarada Octávio Teixeira, com outras palavras, questionou-se também sobre os que as Teses dizem sobre o desmoronar da União Soviética. Victor Dias não foi capaz ainda de dar esse passo e provavelmente aproveitou este facto para lembrar ao PCP o que ele inscreveu no seu programa e não o que tem nas suas Teses. Não era necessário era servir-se do João Semedo para dizer isso.

A boçalidade de esquerda também existe, veja-se os comentários de alguns dos seus camaradas, que o menor mimo que têm para João Semedo é de “rachado”, só que estes não têm acesso aos jornais.

27/07/2008

Quando me vejo envolvido, sem o querer, numa polémica caseira


De repente o nome do meu blog vem à baila sobre uma matéria para a qual eu não meti prego nem estopa. Por esse motivo, sinto necessidade de esclarecer alguns incautos que, apressadamente, me podem envolver nas diatribes que o Victor Dias dirigiu a um artigo respeitável de Elísio Estanque (ver imagem aqui ao lado), Ainda há esquerda dentro das "esquerdas", publicado igualmente no Público e no seu blog.
A história é simples. Fernando Penim Redondo (FPR), do DOTeCOMe_Blog , resolve concordar com o post de Victor Dias e em “comments” insere o mesmo comentário que publicou no meu blog a propósito de outro assunto, citando o site de onde o transcreveu. Ora, um leitor mais apressado pode pensar que o texto é meu ou que concordo com ele. Nada disso é verdade.
O post de crítica ao artigo de Elísio Estanque é retorcido, mas no fundo resume-se a isto: “um elemento estruturante e nuclear de certas reflexões em curso sobre a "esquerda" é, pura e simplesmente, a discriminação e a pretensão de excluir e isolar o PCP”. Lendo isto, FPR acha que aquilo que afirmou no seu comentário a um assunto muito diferente e com protagonistas diferentes se insere na mesma cabala denunciada por Vítor Dias, que visa descriminar e excluir o PCP. Com esta nova transcrição, FPR já entrou na paranóia das teorias da conspiração, que em tudo vê a mão oculta dos inconfessáveis inimigos do PCP.
Mas deixemos o FPR e voltemos ao post do Victor Dias. Quanto a mim, o que é mais elucidativo não é propriamente o post, que eu resumi numa frase, mas sim a resposta que este dá a um longo comentário de Alcides Santos.
Primeiro, com uma grande sobranceria, coisa que não utiliza quando visa esclarecer os argumentos da direita, afirma que será ensinar o padre-nosso ao vigário que alguém tente dar lições ao PCP sobre “as questões de unidade ou convergência entre diversos sectores ou forças democráticas”.
Ora a verdade, e Victor Dias esquece isso, é que o PCP não tem mantido nos últimos anos a mesma opinião. Só o seu acrisolado amor à camisola o faz esquecer as inflexões do PCP sobre esta matéria. Desde o tempo em que aquele Partido defendia a necessidade de transformar a maioria numérica de esquerda existente na Assembleia da República (PS e PCP), em uma maioria política, até às opiniões do seu camarada Jerónimo de Sousa sobre a unidade actual, que Vítor Dias chama de cooperação, que, depois de exprimida se resume a convergir com os Verdes e a Intervenção Democrática, que um longo caminho foi percorrido, tendo-se verificado uma substancial alteração da prática política daquele Partido em relação à unidade das forças de esquerda.
Vítor Dias é incapaz de perceber o declínio teórico que atravessa o PCP, que o faz resvalar facilmente para o esquerdismo e o sectarismo. Com alguma modéstia, tenho tentado em textos recentes fazer uma crítica àquilo que eu considero ser o desvio esquerdista e sectário do PCP. Ver aqui e aqui , aqui e aqui, aqui e aqui e aqui .
Depois responde em três pontos à crítica bem intencionada de Alcide dos Santos.
No primeiro ponto faz um jogo de palavras. Como se a possibilidade e a necessidade fossem coisa incompatíveis e não complementares.
No segundo, tem uma afirmação espantosa em que escreve que não há força eleitoral, mesmo contando com o PCP, para dar base a uma “alternativa política”, contrariando a afirmação sempre repetida de Cunhal, que não devemos lutar unicamente pelos objectivos alcançáveis, mas sim por aqueles que sendo difíceis de atingir nos parecem justos. Porque, partindo do ponto de vista de Vítor Dias, só nos resta defender uma aliança com todo o PS, incluindo o de Sócrates, pois só assim teríamos a maioria numérica indispensável a uma alternativa política.
Depois, no terceiro ponto, ataca todos aqueles que andam a dar corda às tais personalidades de esquerda do PS. Esquecendo que o PCP já deu corda a personalidades bem menos fiáveis que esta esquerda do PS, ao apoiar o projecto do PRD. Já lhe tinha falado nisto e o Vítor Dias respondeu-me com bugalhos, para não falar do FPR que resolveu desconversar e a despropósito atacou a Renovação Comunista, de que tinha feito parte.
Mas o tom dos seus amigos do PCP, sempre elucidativo do que passa pela cabeça de certos militantes daquele Partido e que se traduz muitas vezes nos comentários assinados do Avante, está dado por este comentário de fina perspicácia publicado no seu post: “Todos eles, sabem muito bem o que andam a dizer (fazer), eles são pagos para isso!”

09/06/2008

Reflexões de um blogonauta incauto e desiludido


Sempre entendi os blogs como um misto de diários íntimos, que alguns até aproveitam com grande sucesso, e de comentário político, que podem ser literários, desportivos, cinematográficos, conforme a especialidade do seu autor. Para mim deu-me para o comentário político e de quando em vez para o cinematográfico.
Por isso frequentemente alterno situações mais pessoais, com o comentário político-ideológico puro e duro.
Assim, a propósito da festa-sessão do Trindade resolvi embirrar com dois textos que apareceram na blogosfera. O primeiro era da revista Semanário, na sua versão electrónica, e o segundo de um post do Vítor Dias, do blog O Tempo das Cerejas. Poder-se-á perguntar porquê esta selecção, se tanta gente se tinha pronunciado sobre a tal festa. Quanto ao Semanário confesso que fiquei irritado com a manipulação dos factos e com a informação, evidentemente não confirmada, de que aquela intrigalhada, publicada num semanário de direita e que favorecia o PCP, tinha origem na Soeiro. Podia ter feito o mesmo que o Daniel de Oliveira, do Arrastão, desclassificando o Semanário e passado adiante.
Quanto ao Vítor Dias a minha intervenção foi motivada por uma história antiga que tinha tido com ele e que resolvi contar no post já referido. E aí misturei com a crítica política as minhas vivências pessoais, com a agravante de ter recorrido a declarações de alguém já falecido. Se uma personagem importante recorre a este tipo de dados para escrever as suas memórias, podem os herdeiros do morto protestar, mas todos concordam que são informações importantes. Como isso não se verifica comigo, só serviu para denegrir a memória de alguém que já desapareceu. Por isso, na resposta que dei ao Vítor Dias lamentei esse facto.
Concluindo, tudo somado, reparei que me tinha justificado demasiado, talvez o devesse tratar como o Tunes, do blog Água Lisa , de cujo estilo e conteúdo discordo, que mesmo depois de ter sido citado oportunamente pelo Vítor Dias lhe continua a chamar “veterano estalinista”. Mas mesmo assim optei por outro caminho, mais consentâneo com a minha maneira de ser.
Qual foi o resultado desta minha troca de comentários com o Vítor Dias. Com o mesmo, a tentar publicar no blog do Fernando Penim Redondo, DOTeCOMe…o Blog , uma “deliberação” e uma “resolução” que foram votadas, ainda no tempo do Satana Lopes, pelo Bloco de Esquerda, na Assembleia Municipal de Lisboa. Já se sabe que antes recordou oportunamente que tinha sido companheiro do Fernando em Caxias nas vésperas do 25 de Abril.
Passado pouco tempo sobre da minha referência à qualidade do seu blog, lá estava o Vítor Dias a aproveitar-se de um texto sobre o caso da Praça das Flores, do José Neves, jovem que eu muito preso, mas que neste caso serviu às mil maravilhas para o Vítor Dias atacar o Sá Fernandes, afirmando que a “Skoda faz falta”, parafraseando o slogan de campanha daquele vereador eleito pelo Bloco de Esquerda. O que é mais interessante no seu blog é a paciência com ele responde à direita e o jeito provocador com que se vira para o Sá Fernandes. A resposta que ele dá, na secção de comentários, a alguém que pacientemente o quis esclarecer, é um mimo de hipocrisia.

Ainda a propósito da festa sessão do Trindade, e envolvendo, mesmo indirectamente, o caso anteriormente citado, tive uma trica com o meu amigo Fernando Redondo, do blog já anteriormente referido, de que eu também era colaborador. A história conta-se rapidamente, se tiverem paciência para lerem estes lamentos de um blogonauta desiludido.
O Fernando Redondo resolveu, quanto a mim desabridamente (chamou-lhe “um típico fogacho de esquerdismo oportunista”), atacar a festa sessão do Trindade. Incapaz de me ficar, até porque não sendo subscritor do apelo à sua realização, reconhecia a importância da participação conjunta das personalidades e movimentos políticos envolvidos no evento, resolvi responder e, mais do que isso, inserir no seu blog, tal com neste, um apelo à participação. Hoje estou claramente convencido que o Fernando ficou profundamente irritado, apesar de ter dito que não o “incomodava minimamente” que o publicasse, afirmou, no entanto, não estar tão certo que eu permitisse a situação inversa
O assunto não morreu, como é fácil ver pela consulta daquele blog, mas estava minimamente dentro das divergências normais entre nós os dois. Até que rebentou a referida polémica como Vítor Dias, que era, como se percebe, entre mim e o citado. Ora o Fernando recorrendo a uma expressão semelhante a uma que eu tinha utilizado numa das respostas ao Vítor Dias – eu afirmei “sejamos claros” e o Fernando, “falemos claro” –, resolve desencadear um ataque a alguns dos grupos minoritários que eram indicados pelos jornais como participantes na festa-sessão. Os pintassilguistas foram referidos, mas como toda a gente sabe, morta a sua mentora, o que hoje resta é gente que trabalhou com ela e que, por isso, ainda assim é designada. No entanto, o principal ataque era dirigido ao Movimento Renovação Comunista em que o Fernando tinha participado, tendo até votado favoravelmente a sua transformação em Associação Política. Apesar de dizer que mantinha lá um amigo, isso não o impediu de fazer graves críticas, que eu classificaria de injustas e, acima de tudo, a despropósito. Fez igualmente referência aos ataques contra esse “grande partido histórico” que é o PCP, que no post não se percebia se resultavam da festa-sesão, mas que em comentário esclareceu que se referia à atitude que por vezes tomam pessoas da RC. Esquecendo-se que foi quando ele andou na Renovação que a guerra entre renovadores e ortodoxos dentro do PCP atingiu proporções mais azedas. Hoje, exceptuando os meus artigos, que de tempos a tempos rebatem posições ideológicas do PCP e de alguns dos seus militantes, não é normal a Renovação referir-se (veja-se o seu site) ao PCP e este, mesmo no seu jornal semanal, ignora-a completamente. Tudo isto só pode ser entendido como uma pequena vingança do Fernando, que utilizou o meu debate com o Vítor Dias para, indirectamente, me encostar à parede. Já se sabe que pedi imediatamente para sair de colaborador do DOTeCOMe…o Blog.
Por isso, estas são as reflexões de um blogonauta incauto, incapaz de perceber que algumas das suas atitudes têm reacções que o próprio não prevê, e desiludido com a sua intervenção na net.

05/06/2008

Ainda a propósito de uma troca azeda de palavras


Não se passaram mais do que 24 horas sobre a minha resposta ao Vítor Dia garantindo-lhe que não alimentaria mais troca de palavras azedas entre os dois, quando vi o seu post sobre alguma desinformação que reinava na comunicação social a propósito da participação do PCP na tal festa-sessão do Trindade.
Isto porque eu próprio denunciei uma desinformação deliberada, porque foi repetida diversas vezes, promovida pela SIC Notícias e que não é referida pelo nosso bloguista. Provavelmente, não era esse o objectivo do seu artigo, mas era bom que de vez enquanto também se preocupasse com ela. Outra, num estilo que está a ser característico do Avante, encontra-se no artigo Ai que Alegria , de Anabela Fino, que denuncia com um sectarismo, invencionice e desinformação arrepiante a tal festa-sessão. Reconheço que não é esse o estilo do Victor Dias, mas não lhe ficaria mal, que de quando em vez também criticasse os seus amigos do Avante que escrevem prosa como aquela que referi.
Mas não é só por isto que volto ao comentário do Vítor Dias. Reconheço que citei a despropósito uma pessoa já falecida que não pode confirmar aquilo que me disse, nem defender-se dos ataques do Vítor Dias. Por esse motivo e em sua memória, lamento os inconvenientes daquela referência, que servia de justificação, para quem leu o meu texto , de ter passado a chamar Vítor Dias a todo os intervenientes no fórum, que vinham com prosas antigas de alguns renovadores.
Quanto, aos casos das declarações de Manuel Alegre ao Expresso, em 1996, e da votação do BE na Assembleia Municipal, são formas de ataque político de que eu discordo. Algumas chegam mesmo a ser de carácter, outras de desinformação política, como é o caso da referência constante à votação sobre a Bragaparques pelo BE, que mais não visa do que acusar o BE de estar a reboque dos interesses capitalistas. E quando na página da ORL do PCP se relatam “factos contra a política de direita na gestão PS/BE da Câmara de Lisboa” está-se mais uma vez em pleno desvario sectário e esquerdizante do PCP, de que nunca o Victor Dias se demarcou, que eu saiba.
Quanto às referências à veia estalinista de cada um de nós é preferível ficarmos por aqui, porque senão corremos o mesmo risco que atacou a discussão entre José Sócrates e Francisco Louçã. Ou seja, José Sócrates já sabendo que Manuel Alegre ia participar numa sessão-festa com Louçã , atiçou este, chamando-lhe mentiroso e covarde. Já se sabe que Louçã caiu na esparrela e respondeu-lhe no mesmo tom. Daí para a frente foi fácil passar a dizer que Manuel Alegre participava numa sessão ao lado de um inimigo do PS. Por isso, para não cairmos no mesmo mal, retiro o que lhe chamei, até porque as opiniões expressas no seu blog, no seu conjunto, não podem levar a esse epíteto.
Mas não gostaria de terminar sem um pouco de discussão política. Acaba o seu comentário com esta afirmação: “Inebriem-se JNF, o BE etc. quanto quiserem com Manuel Alegre. E depois, na próxima campanha eleitoral para as legislativas, quando ele voltar a fazer o papel que sempre tem feito nas campanhas eleitorais para o Parlamento - que é o ser a luva de esquerda para a mão de direita do PS - não se queixem nem se admirem.”
Só lhe gostaria de perguntar, num tempo em que as posições do PCP eram mais sérias e menos sectárias, o que foi que nós andámos a fazer com Ramalho Enes e o seu PRD? Nessa altura e bem considerou-se que havia um espaço entre o PS e o PCP que devia ser preenchido por um partido com as características do PRD. Não nos importámos de poder perder não sei quantos por cento de votos a favor dele e depois foi o que se viu, transferência directa para o PSD, de Cavaco Silva. São os riscos da unidade e da necessidade da reorganização das forças partidárias à esquerda do PS de Sócrates. Por isso não sejamos tão taxativos com aquilo que dizemos a propósito de Manuel Alegre. Já o vi ser muito bem recebido na Festa do Avante.

PS.: já o post ia a meio, quando vi o seu último comentário, daí ter introduzido algumas respostas que não pensava dar-lhe.
A imagem que acompanha o texto refere-se ao nome do Blog do Vítor Dias O Tempo das Cerejas.