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13/11/2009

O mundo avança e eu a discutir o meu umbigo


Passei dois dias a escrevinhar sobre, primeiro, as minhas visitas ao Muro e, depois, a fazer a história das chamadas Democracias Populares.
Não li nada do que se foi escrevendo sobre o assunto e agora, passados estes dias, descubro que quase todos os blogs de referência se pronunciaram e, como vai sendo costume, o 5 Dias até discutiu entre si.
Porque estou convencido que ainda tenho coisas a dizer, aqui vão mais umas tantas reflexões sobre o tema

É interessante seguir a discussão na blogosfera, e vou só referir-me a alguns posts. O do Daniel de Oliveira, no Arrastão e os de Bruno Sena Martins, Ricardo Noronha, Carlos Vidal, Nuno Ramos de Almeida, Zé Neves, Tiago Mota Saraiva, todos no 5 Dias e, por último, um post de Miguel Serras Pereira, inserido no blog de Joana Lopes, Entre as Brumas da Memória. Só dois pequenos apontamentos. O primeiro, como, de certeza, Joana Lopes faz um apertado controlo dos comentários, consegue na respectiva caixa um nível de discussão bastante elevado. O segundo, é que não me abalançarei neste post a analisar pormenorizadamente cada um deles. Limitar-me-ei a algumas reflexões avulsas.

Fica-se com a ideia depois de ler tudo aquilo que se escreveu nos blogs que a discussão é mais moral do que política e, na maioria dos casos foge da História, com H maiúsculo, “como o diabo foge da cruz”, salvo seja. Alguns acrescentam-lhe alguma discussão teórica, mas de um modo geral evitaram confrontar-se com o real histórico. Não pretendo ser melhor, mas para mim a análise da queda do Muro de Berlim e o carácter simbólico que teve, com fim de um bloco militar e político, só pode ser analisada no seu devir histórico e não por padrões éticos ou que reflictam simplesmente uma opção ideológica.

I – Como se sabe o bolchevismo era o ramo de esquerda da social-democracia russa, que por sua vez estava integrada no movimento social-democrata europeu, agrupado na II Internacional. A falência desta, dada a participação dos partidos aderentes nos Governos de unidade nacional, que desencadearam a I Guerra Mundial levou à divisão da social-democracia em correntes de direita e de esquerda. Na Rússia esta separação era já anterior a esta situação, mas a defesa da continuação da Rússia na Guerra por parte dos mencheviques, a corrente de direita, e a sua recusa, por parte dos bolcheviques, foi uma das razões do desencadear da Revolução de Outubro. Durante a Guerra, a ala esquerda dos partidos sociais-democratas foi-se separando do partido mãe, dando mais tarde origem aos partidos comunistas da III Internacional. Foi a sua adesão a esta que obrigou todos eles a mudarem o nome de sociais-democratas para comunistas.
Quero eu com isto dizer que existe um tronco comum entre a social-democracia e o comunismo. Eu sei que isto se passou há cem anos, que hoje tem pouco sentido falar da história desta divisão, mas parece-me demasiado forçado separar tão rigidamente os partidos que se reclamam da social-democracia, do socialismo, se se quiser adoptar a terminologia do Sul da Europa, e os comunistas. Em dadas circunstâncias históricas, como foi a época das Frentes Populares ou durante e pouco tempo após a II Guerra Mundial, houve sérios movimentos de aproximação. Nesse sentido, tanto Daniel de Oliveira ou Miguel Serras Pereira não deveriam fazer separações tão rígidas. Não há nenhuma muralha da China a separar aquelas duas correntes. Por isso, em alguns casos, já nossos contemporâneos, as duas se aliaram

II – A Revolução de Outubro foi sem dúvida uma tentativa vitoriosa de transformar o real, de acelerar a história, de dar o poder às classes não privilegiadas. Teve uma repercussão mundial importante e permitiu de modo insofismável formar em quase todos os países então existentes partidos comunistas ligados à classe operária. Isto é um facto histórico indiscutível e perdurará na história da humanidade.
Os revolucionários de Outubro estavam convencidos que a sua Revolução iria triunfar na maioria dos países da Europa Ocidental, principalmente na Alemanha. E até muito tarde acreditaram nessa possibilidade e foi a sua derrota no ocidente que obrigou a virarem-se para a Rússia atrasada e camponesa, o que teve consequências trágicas. Daí ser importante, ler o que Gramsci disse (ver aqui) sobre as sociedades orientais e ocidentais e a situação do Estado em cada uma delas. Isto remeto-nos para as fantasias do real, de que fala Carlos Vital. A discussão não é entre os revolucionários que querem pôr em prática a sua revolução e os utopistas que sonham com coisas irrealizáveis. A discussão é como é possível no Ocidente conseguir as transformações práticas necessárias à alteração da sociedade e daí a proposta gramsciana da “guerra de posição”, da “conquista da hegemonia” e da formação de blocos históricos que possam “dirigir” a sociedade.

III – Por razões intrínsecas à própria sociedade russa, dá-se a vitória de uma das correntes dos bolcheviques sobre todas as outras. É a derrota da NEP, Nova Política Económica, e dos seus defensores como Bukharine, é a vitória de Estaline contra os desejos de Lenine, é a colectivização forçada, naquilo que Estaline considerou a “revolução por cima”, e a consequente industrialização com trabalho quase escravo. A vitória desta facção transformou a União Soviética não num país socialista, em que os trabalhadores se auto-governavam, mas numa ditadura negra, que começa por eliminar as outras correntes comunistas, para depois, numa sangria imparável, levar os próprios adeptos de Estaline. No entanto, é bom que se diga como o afirma Moshe Lewin, O que foi sistema soviético*, que um dos erros de apreciação da União Soviética “consiste em estalinizar todos o fenómeno soviético, como se ele tivesse sido um Gulag gigante desde o início até ao fim”. Khrushchov, quando em 1956 denuncia o estalinismo, inicia uma nova época na URSS. A situação altera-se e os campos de trabalho forçado (Gulag) são abertos. Podem os críticos actuais, sem qualquer perspectiva histórica, dizer que foi sempre assim, eu diria que não e nesta análise encontro muitos historiadores sérios, como Moshe Lewin (ver O Século Soviético, Campo da Comunicação, 2004, tradução do Miguel Serras Pereira). Isto não quer dizer que a sociedade soviética fosse socialista, era segundo Moshe Lewin, no artigo citado, um “absolutismo burocrático”, muito inspirado no seu passado czarista. Mas é com a perícia do entomologista, que classifica e analisa a realidade, que esta sociedade tem que ser observada. Não é como afirma Moshe Lewin, no já refrido artigo , “tomar o anticomunismo como linha condutora para o estudo da União Soviética”… “O anticomunismo (e as suas vertentes) não é um conhecimento histórico: é uma ideologia mascarada. Não apenas não corresponde à realidade do “animal político” em questão, mas empunha a bandeira da democracia paradoxalmente: explorando o autoritarismo do regime da União Soviética em prol de causas conservadoras ou piores”. Depois enumera dois exemplos: o do macarthismo nos Estados Unidos, ou da direita alemã que “visando limpar a imagem de Hitler ao colocar em primeiro plano as atrocidades cometidas por Estaline acarreta um uso abusivo da história”. E termina “em defesa dos direitos humanos o Ocidente provou alta indulgência para alguns regimes e bastante severidade para com outros (isso para não mencionar as violações que ele próprio comete desses direitos).
Neste sentido, parece-me errado toda a simplificação que Daniel de Oliveira faz deste tema

IV – A queda do Muro de Berlim e o desmoronar do “socialismo” a Leste tem que se compreender no contexto da apropriação daqueles países pela União Soviética ou no domínio que sobre eles foi exercido por aquele país. Sobre isso já escrevi o post anterior e penso não ser necessário repetir. É por isso compreensível, os festejos da Alemanha e até se quiserem as palavras de Angela Merkel, que mereceram apressada transcrição, mas que no fundo, não esquecendo o seu passado, festeja com orgulho a reunificação do país ou as opções anti-comunistas que são tomadas nas diferentes capitais de Leste. Situação já diferente é a da Rússia e das Repúblicas que dela se separaram em que um reencontro com o seu passado e a delineação do seu futuro no complexo mundo actual são objecto de renovada procura, passado que foi a sua loucura ocidentalizante encabeçada por Boris Yeltsin.
Como diferente foi a situação na ex-Jugoslávia, onde foi preciso a intervenção forçada, primeiro da diplomacia Alemã e depois dos bombardeamentos da NATO, para desmantelar e subverter o país existente.
Diferente é também Cuba, que devido às características autónomas da sua revolução, conseguiu manter a sua independência, mesmo nos anos mais sombrios do desaparecimento da União Soviética e da era Bush, e quer queiram quer não, é hoje respeitada e acolhida no seio dos nascentes estados progressistas da América Latina. Sem servir de modelo, penso que seria estultícia nossa, ou de muitos que escrevem para a net tentar dar lições sobre os caminhos que Cuba deve trilhar. Lula, que respeitamos, Chavez, que é motivo de escárnio das almas bem pensantes e outros mais, não se têm permitido dar conselhos ao “velho regime”.
A China é outro caso que, de momento e devido à exiguidade deste post, tratarei noutra altura.

V – Por tudo o que foi dito, ser-se comunista hoje é perceber a complexidade do que foi o fenómeno histórico do movimento comunismo e pensar que o mundo passado já não ressuscita. O marxismo-leninismo, como expressão ideológica do grupo dirigente da União Soviética, é hoje uma aberração histórica, que já nada interpreta e para que nada serve. Por isso, ser comunista hoje é pensar que há outros grupos e novas grupos sociais com quem nos podemos unir e formular para futuro a possibilidade de se alcançar uma sociedade outra, tendo sempre presente que o esforço de agregação e de junção de forças é complexo e exige trabalho, mas está ao nosso alcance. Nesse sentido, os novos partidos de esquerda que por essa Europa e em Portugal vão nascendo são hoje, nas circunstâncias actuais de centro do mudo capitalista ocidental, a alternativa ao conservadorismo, ao neo-liberalismo e à deriva direitista da social-democracia.
Hoje, o PCP é de facto um obstáculo à compreensão destas novas emergências, o que torna mais difícil o trabalho de reorganização do pensamento da esquerda em Portugal, mas a sua participação nesta nova esquerda é indispensável, quer queiram seus dirigentes quer não.

VI – Por último, a questão do modelo levantada por Miguel Serras Pereira. Por tudo aquilo que fui escrevendo nada me leva a pensar que o modelo dito “socialita” possa, depois de regulado, como agora se diz em relação ao capitalismo, vir a ser reposto. Primeiro, porque nas sociedades ocidentais ninguém de boa fé prevê qualquer revolução. Segundo, porque os passos que a esquerda não social-democrata tem que dar ainda estão tão no início, que muita água ainda há-de correr debaixo das pontes até que democraticamente ela esteja em condições de aceder ao poder e qual o programa irá aplicar? O futuro será sempre uma procura de novas saídas e de novos desafios, não está, como não esteve para os bolcheviques desenhado desde o início. Mas os erros da sua experiência histórica poderão servir para não se fazer igual.

* Margem Esquerda, ensaios marxistas, Boitempo editorial, 2007, 10: 39-53.
A fotografia é do Monumento à III Internacional (1919-1920), de Vladimir Tatlin.
Este post era para ser publicado logo a seguir aos post sobre o Muro, mas a premência de fazer referência ao Avante ainda no dia em que foi publicado levou-me a atrasar a publicação deste

12/11/2009

Anda o estranho caso da nota do PCP sobre a passagem do 20º aniversário da queda do Muro de Berlim


Como a justificar a minha perplexidade por não ter encontrado no Avante da semana passada, nem no site oficial do PCP, o texto de uma nota que a Lusa dizia que tinha sido enviada por aquele partido sobre o 20º aniversário da queda do Muro de Berlim, verifico que neste último Avante a situação ainda é mais caricata.
No número desta semana vem, com chamada à primeira página, o seguinte: Alemães de Leste preferem socialismo e depois transcreve o seguinte parágrafo: as ditas “comemorações” do 20º aniversário da queda do Muro de Berlim são pretexto para mais uma campanha anticomunista e depois remete para a página 19. Estava cheio de esperança de encontrara finalmente a tal nota e não é que na página 19 não há qualquer referência ao assunto. Por fim percebi, estranhamente esta era a notícia de primeira página que estava no Avante da semana passada e que correspondia à notícia sobre as tais sondagens que eu referi. Ou seja, havia uma gralha neste Avante que tinha uma notícia de primeira página que repetia a do Avante anterior.
Mas de tal nota é que não havia qualquer referência. Hoje estou quase à admitir que a Lusa não inventou, porque todas as referências a este assunto, incluindo o discurso de Bernardino Soares no Parlamento, passando por estes inarráveis textos na rubrica Actual, O Muro de Berlim e A propósito d’”O Muro” e terminando na Crónica Internacional, Histeria reaccionária, nada faz pensar que a Direcção do PCP tinha algum rebuço em se pronunciar sobre aquele acontecimento nos termos em que o fez.

Do primeiro texto do Actual destacaria a chamada “queda do muro de Berlim” foi difundida pelos media e conduzida por uma assinalável “santa aliança” entre a extrema-direita, direita, social-democracia, ex-comunistas e a chamada “nova esquerda”. Santa arrogância que sente que só o PCP é detentor da verdade, incapaz de analisar com o mínimo de rigor o que se passou. Quando estas coisas são ditas vai-me uma tristeza na alma, que me interrogo como pude eu ser camarada de gente desta, que tal como os fascistas manifesta um ódio a tudo que não alinha pela sua bitola de pensamento.

10/11/2009

A queda de um muro. Reflexões históricas


Como eu esperava ninguém me respondeu à pergunta sobre onde pára o tal comunicado do PCP sobre o 20º aniversário da queda do Muro de Berlim. Ou porque não me lêem ou porque não sabem.

Antes de mais um estado de espírito. Ouvi ontem num programa da SIC Notícias, que tem dedicado longas horas a este tema, alguém da ex-RDA ou que lá tinha regressado, que “uma derrota é uma derrota”. Ninguém, que ainda se considera comunista, pode comemorar com alegria o fim, mesmo que simbólico, daquilo em que acreditou. Mas o problema não está só aí, é que podemos hoje dizer, e houve muitos que ao longo do século XX o foram dizendo, não sendo anti-comunistas, que aquela experiência nada tinha a ver com o socialismo, nem com a construção do comunismo e, por isso, a sua derrota foi benfazeja porque acabou com uma ficção. O seu fim podia mesmo ter dado lugar à construção de uma outra sociedade, essa sim a caminho do socialismo. Mas, para nossa desgraça, a alteração veio atrasada no tempo. Talvez com Khrushchov isso ainda fosse possível, talvez com a Primavera de Praga alguma coisa ainda se pudesse alterar, ou nos anos 20, se Estaline, como Lenine desejava, não tivesse vencido. São demasiadas hipóteses que não se confirmaram. Mas dizia eu que o problema não estava só na derrota ou mesmo, para os mais optimistas, no acabar com uma ficção. O problema central, e que pode ser mascarado com o acesso daqueles povos à democracia, é que quem venceu foi um sistema iníquo, o capitalismo, e mesmo sendo democrático no seu centro, isso não lhe altera a substância e o seu carácter agressivo. Ou seja, ao contrário, do que alguns ingenuamente pensaram com o fim da guerra-fria, os blocos militares não desarmaram, nem a guerra foi banida, em alguns casos tornou-se mesmo infinda. Por isso gostaria de terminar esta parte com a afirmação de que a saída do “socialismo real” ou do que alguns classificam como o capitalismo de Estado, não foi para uma sociedade melhor, como aquela que foi perscrutada no final da Segunda Guerra Mundial, mais à esquerda, mas consistiu na vitória do conservadorismo e do neo-liberalismo e na derrota do comunismo, mas também da social-democracia. Por isso entendo que hoje, para além da justa crítica e da reflexão precisa do que foram as sociedades do “socialismo real”, temos que convir que não caminhamos para um mundo melhor.

Estas são reflexões gerais e de estado de espírito. Mas falemos da história.
Os países do Leste europeu, quando a Segunda Guerra Mundial começou eram, de um modo geral, países atrasados, governados por monarquias anacrónicas e apoiadas em ditadores ou mesmo governos de natureza fascista. Salvava-se desta situação a Checoslováquia, que tinha tradições democráticas, era mais desenvolvida que os países referidos e tinha um forte movimento comunista. Alguns daqueles países, como a Polónia, tinham graves contenciosos com a Rússia e serviram de tampão para a expansão do movimento comunista para a Europa Ocidental.
Como resultado da divisão da Europa em Yalta, entre a URSS e os Aliados Ocidentais, foi atribuída àquela, os países que integravam o que ficou conhecido pela Europa de Leste. E foi-lhe concedido porque esses países já estavam a ser libertados pelo Exército Vermelho. Tivessem os americanos desembarcado um ano antes na Europa ou tivessem, como queria Churchill, mas de muito difícil execução e de duvidosos proveitos, atacado a fortaleza Europa pelo Sul – viu-se o que aconteceu em Itália, onde subiram a passo de caracol – nunca a Europa Leste teria sido socialista. Provavelmente, ainda hoje alguns daqueles países seriam governados por alguma monarquia anacrónica ou algum tiranete de opereta.
Ou seja, o socialismo nos países de Leste foi imposto com a ajuda das baionetas do Exército Vermelho, o que não significa que não tivessem havido movimentações políticas importantes e verdadeira luta inter partidária. Os povos de Leste viram no Exército Vermelho os seus libertadores e os comunistas começaram sem dúvida a ganhar força, não só por terem resistido ao nazi-fascismo, mas por serem portadores de transformações sociais profundas em países onde se registavam grandes desigualdades sociais e atrasos estruturais evidentes. Mas, havia casos, como a Roménia onde eram praticamente inexistentes. É bom igualmente que se diga que esses partidos integravam Frentes Nacionais, com outras organizações políticas anti-fascistas e que o objectivo de Estaline era o do estabelecimento das chamadas Democracias Populares, que correspondiam grosso modo àquilo que o nosso PC propunha no seu programa como a Revolução Democrática e Nacional. No fundo era a tradução concreta do célebre “estado intermédio” ou “etapa intermédia”, entre o fascismo e a revolução socialista, já defendidos pela Internacional Comunista, no seu VII Congresso, em 1935.
Convém também acrescentar que a Checoslováquia e a Jugoslávia foram, por razões diferentes a excepção aos restantes casos. No primeiro país, os comunistas ganharam as eleições, com 38% dos votos, e portanto tiveram possibilidades de formar governo democraticamente. No segundo, os exércitos de Tito expulsaram os alemães antes da chegada dos russos e como o partido comunista saiu vitorioso na guerra de guerrilha, não estava interessado em fazer unidade com as restantes forças anti-fascistas, quase inexistentes, e em estabelecer um “estado intermédio”. Os jugoslavos defendiam e implantaram, ao contrário do que desejava Estaline, uma República Socialista.
A responsabilidade pelo início da guerra-fria é ainda hoje objecto de discussão histórica. Mas, não há dúvida que ela começa quando na Conferência de Potsdam, ocorrida já depois da guerra na Europa ter acabado, mas antes da vitória sobre o Japão, Truman avisa Estaline que já possuía uma “nova arma potente” e dias depois lança-a em Hiroshima e Nagasaki, ameaçando assim, mesmo que indirectamente, a URRS com a bomba atómica. Seja como for Estaline sempre limitou a sua área de influência aos países que lhe tinham sido atribuídos em Yalta, permitindo assim que os comunistas gregos, cujo país não estava na sua área de influência, fossem sacrificados num guerra civil cruenta conduzida primeiro por ingleses, depois por americanos.
O calendário é apertado e não me interessa agora enumerá-lo, mas ao Plano Marshall americano para apoiar o ocidente e permitir expulsar os comunistas dos Governos de Unidade Nacional estabelecidos a oeste correspondeu, por parte da União Soviética, à tomada do poder pelos Partidos Comunistas nos países de Leste, cujo exemplo mais significativo é o chamado Golpe de Praga (1948), em que os comunistas checos tomam sozinhos conta do poder expulsando todos os outros partidos da coligação governamental. A ficção das chamadas Democracias Populares, os tais “estados intermédios”, dá lugar à socialização forçada da economia e uma integração ainda mais forçada nos interesses económicos da União Soviética. Culminando tudo isto, no início dos anos 50, tal como nos processos de Moscovo de 1936-38, com o julgamento, na maioria das capitais dos países de Leste, de vários dirigentes comunistas (Processo Rajk, Budapeste, 1949; Processo Slansky, 1952, Praga). Tito, porque tinha maior poder e independência, resiste às directivas de Estaline e é expulso do movimento comunista e acusado dos piores desvios (1948). É mais uma vez o horror em nome do socialismo. Estes factos, hoje muito esquecidos, levaram à condenação à morte de muitos dirigentes dos PC nacionais, só porque em alguma vez na vida tinham defendido a independência dos seus partidos. Se tiver tempo ainda um dia hei-de relembrar aqui os heróis comunistas mortos pela sangria estalinista. É pois neste contexto desgraçado que a experiência socialista começa nas Democracias Populares. Depois são as ingerências, as mudanças de estilo. Ainda hoje foram mostradas nas televisões os protestos populares de 1953, na RDA. Ora elas correspondem à morte de Estaline e à luta pelo poder na ex-URRS. Parece que Beria, o terrível, as apoiou, contra a direcção que depois o matou. Em 1956, as alterações na Polónia e principalmente na Hungria, tiveram a ver com a destalinização iniciada por Khrushchov. Foi a alteração da equipa dirigente da URSS, com a subida ao poder de Gorbatchev, que deu também origem à queda do Muro de Berlim e depois ao desmoronar do “socialismo real” nos países de Leste.
Estes nunca foram verdadeiramente independentes desde o final da II Guerra Mundial, apesar da sua história, como a da URSS, não ser toda homogénea neste últimos 60 anos. Compreende-se pois bem que a queda do Muro fosse para estes países, não sei se para todo o seu povo, o aceder a uma liberdade que ainda não tinham conseguido alcançar.


Terminaria, para aqueles que acham que em termos globais nós devemos festejar a queda do Muro com a sentença de António Vitorino hoje na RTP I. A queda do Muro de Berlim só veio confirmar que não há alternativa à economia de mercado e que a única coisa que temos que fazer é regulá-lo. É por estas e por outras que a mim não me apetece comemorar a sua queda.
Cartaz de o filme A confissão (L’Aveu), 1970, de Costa Gravas, cujo argumento se baseia na obra, com o mesmo nome, de Artur London e é relativa ao Processo Slansky, que envolveu igualmente aquele autor.
PS. (11/11/09):
Como já vem sendo hábito, há pequenas alterações no post de carácter redaccional .

09/11/2009

A Queda de um muro. Histórias pessoais


Já agora começo por algumas histórias pessoais.

Visitei o Muro de Berlim pela primeira vez em Setembro de 1978. Lembro-me da data, porque estava em viagem pela RDA (República Democrática Alemã) e alguém disse que o Papa João Paulo I tinha morrido, como foi um pontificado breve, memorizei esse facto e depois foi só ver no Google.
Era daquelas viagens organizadas pela Associação Amizade Portugal-RDA, com a colaboração da Agência Abreu, que tinha funcionários comunistas especialmente preparados para isso. Fomos logo no início levados à porta de Brandenburgo e ao Muro que a rodeava e onde pude verificar que do lado de lá havia umas escadinhas onde os turistas podiam subir para espreitar por cima do muro para o lado de cá, o mundo comunista. Numa sala, que se situava perto, um oficial da ex-RDA demonstrou por a+b como tinha sido necessário a sua construção e descreveu as provocações diárias do “imperialismo”. Como a ilustrar o que ele tinha acabado de dizer lá vimos um helicóptero da NATO quase a ultrapassar o muro, sobrevoando perigosamente a zona onde nós estávamos. Fiquei convencido. Estava de repente e involuntariamente na fronteira onde se confrontavam o “mundo socialista” e o capitalista.
Depois, nas conversas com o guia e com algumas trabalhadoras com quem falei (a minha mulher sabia alemão) vim com uma ideia mais matizada do que era a RDA.
Lembro-me do guia ter dito que o verdadeiro milagre económico tinha acontecido na Alemanha de Leste, porque Estaline, depois da Guerra, tinha desmantelado toda a indústria, que já não era muita naquela zona da Alemanha e tinha-a transportado para a URSS, como compensação pelos estragos sofridos. Pelo contrário, a Alemanha Ocidental foi enormemente beneficiada com o Plano Marshall dos americanos. Este facto foi confirmado por mim em várias fontes escritas.
Uma das coisas que me tinha espantado era ver nos locais de trabalho a fotografia dos trabalhadores que se tinham destacado no último mês. Com alguma ousadia perguntei, por intermédio da minha mulher, às trabalhadoras que encontrámos numa espécie de bar onde fomos beber uns copos, como é que os mesmos eram seleccionados. Simples, era rotativo, umas vezes eram escolhidos uns outras vezes outros, chegava a todos.
Depois lembro-me de uma conversa sobre batatas. Se todos os dias também comíamos batatas. Pelos vistos isso acontecia com aquelas trabalhadoras. Achámos graça. Mas sinceramente já não me recordo do que se falou mais.
Lembro-me de ter perguntado ao guia se estavam publicadas na RDA as obras completas de Rosa Luxemburgo, a revolucionária social-democrata alemã, e heroína da Revolução Espartaquista de Berlim de 1918 e que tinha sido assassinada por militares, com a cumplicidade do Presidente e do Ministro do Interior, que pertenciam ao partido social-democrata alemão. Tive uma semi-resposta, este lembrou-me que aquela socialista defendia que a liberdade era também a liberdade de divergir.
Sei que quando cheguei a Lisboa e houve uma reunião na Associação Portugal-RDA para discutirmos colectivamente a viagem eu fiz críticas e levantei alguns problemas resultantes do que tinha ouvido e visto. Sei que uma das camaradas rapidamente se apressou a classificar as trabalhadoras que tínhamos encontrado naquela noite como “putinhas”. E porquê, imagino eu, porque além de estarem à noite a beber copos sem macho, acharam, não de mim, que já era um pouco entrado, mas de dois homens jovens que integravam a excursão, que eram lindíssimos e disseram-no claramente à minha mulher. Já se sabe que a camarada, provavelmente uma simpatiquíssima senhora, tinha já idade para ser mãe delas e portanto já em menopausa adiantada. Mas sei que as minhas opiniões foram criticadas por alguns camaradas que velavam pela ortodoxia da visita.

A segunda vez que fui à RDA, devo confessar, foi a expensas do Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC), subsidiário do Conselho Mundial da Paz. Fui ao Festival de curta-metragem e de cinema de animação de Leipzig, que tinha como mote a Paz. Depois de uma consulta no Google verifiquei que o Festival continua, já vai na 52ª edição. Este ano teve lugar entre 26 de Outubro e 1 de Novembro. O festival chama-se DOK Leipzig e continua a exibir o mesmo tipo de filmes.
A minha deslocação devia ter tido lugar no início dos anos 80 e em data igual à da última edição, porque quando fui já não tinha quase nenhumas férias para gozar.
Por essa época, tinha retomado as minhas funções de cineclubista, que tinha desempenhado no nos anos da minha juventude, e pertencia à direcção do ABC Cine-Clube de Lisboa. No PCP, integrava a Direcção do Sector Intelectual de Lisboa, com a responsabilidade pelo que restava dos cine-clubistas da capital. Carlos Aboim Inglês, de que já falei vai para dois posts, achou por bem que quem fosse aquele Festival, devia ser quem tinha responsabilidades no Sector Intelectual por aquela área. Isto porque a ida a este tipo de eventos era muito disputada e havia uns enviados crónicos que asseguravam sempre a representação portuguesa nestes acontecimentos que se realizavam a Leste. Lembro-me que um dos camaradas que costumava ir andou freneticamente atrás de mim, porque não estava interessado em perder o barco em futuras idas, para que eu lhe desse toda a documentação que tinha recebido e lhe prestasse todas as informações. Deu-me pena. Mas fiquei a compreender melhor a natureza humana.
A delegação portuguesa que ia em nome do CPPC era composta por mim e pelo realizador Luís Filipe Rocha. Tinha sido eu que tinha sugerido o seu nome, pois tinha visto o seu filme Cerromaior (1981) e tinha gostado. O nome mereceu a concordância do CPPC e o realizador estava disponível para ir. Penso que nunca se deixou seduzir pelo viu, mas na altura era um homem de esquerda, que tinha feito a Fuga (1977), sobre a fuga de Dias Lourenço do forte de Peniche. Nunca percebi o que o levou a fazer Camarate (2000), mas os destinos do cinema em Portugal são insondáveis e hoje já sou incapaz de opinar sobre cinema português.
Directamente convidadas pelo Festival ou por outras organizações houve mais gente que fazia parte da delegação portuguesa. Foi e veio connosco no avião uma ex-locutora da televisão, na altura bastante nova e bonita, a Fátima Medina, que por ser casada, ou ter sido casada com um Medina, da família do Cunhal, mal chegou a Leipzig passou a ter um crachá com o nome de Medina Cunhal ou Cunhal Medina. Sei que o nome de Cunhal aparecia. Boa carta de apresentação para abrir todas as portas na RDA. Por sinal era muito simpática e demo-nos muito bem, mas suspeito que não viu nenhum dos filmes do Festival. Ou estava a comprar coisas ou a namoriscar, segundo diziam as más-línguas.
Quem já lá estava e penso que tinha projectos cinematográficos com a RDA, era o Manuel Costa e Silva, o director de fotografia de alguns filmes portugueses, já falecido. Fomos um dia visitar em Dresden o museu Gemäldegalerie Alte Meister (Galeria de Pintura dos Velhos Mestres), que eu já conhecia da primeira viagem, onde se podia ver grande parte da obra de Vermeer. Foi um reconhecimento e desde aí nunca mais me separei deste pintor, que encima a página principal deste blog. A obra A leiteira está no Rijksmuseum, de Amesterdão.
A situação mais ridícula porque passei nesta viagem foi alguém do cine-clube me ter pedido para levar à namorada, que estava a estudar em Leipzig, um embrulho, que eu religiosamente levei com algum custo, porque era grande, na bagagem de cabine. Entreguei à dona e ninguém teve o cuidado de me informar qual o seu conteúdo, coisa que se fosse hoje nunca faria, sem saber o que estava a transportar. Depois, maldosamente alguém insinuou que eu tinha transportado para a RDA pensos higiénicos, que era coisa que lá não havia.
Mas há mais episódios. Quando chegávamos era-nos dado, coisa que eu não sabia, uma pequena quantia de marcos da RDA para gastarmos na alimentação, pois só nos pagavam a viagem e o hotel. Eu levava marcos do ocidente. Os suficientes para cobrir as despesas que fosse necessário fazer. Nessa altura não havia ainda os cartões de crédito. Já se sabe que não resisti a trocar os meus marcos ocidentais no mercado negro, que não era negro, pois toda a gente o fazia às claras, por marcos da RDA. O câmbio oficial era de um marco ocidental para um oriental. Pois eu consegui por um ocidental obter quatro orientais. Pode-se dizer que foi a primeira vez na vida que me senti verdadeiramente rico. Não sabia onde gastar o dinheiro. Comprei livros de arte, comi bem, adquiri discos ainda de vinil, que como eu não percebia a língua não eram aquilo que eu queria, mas acho que no final lá consegui despachar todos os marcos, pois ninguém os aceitava no Ocidente. O Luís Filipe Rocha aproveitou para se vestir e comprar velhas máquinas de fotografia, que eram quase objectos de museu, que depois teve alguma dificuldade em fazer passar na fronteira.
Havia muitos estudantes portugueses e africanos a estudar em Leipzig, que aproveitaram a nossa estadia para falarem com os portugueses que frequentavam o Festival. Foram conversas longas. Falámos com grande abertura. Se a Stasi nos escutava, era em português. No fundo, todos éramos críticos disto e daquilo, mas todos aceitávamos o regime. Hoje se tentar espremer o que se disse não me recordo de nada que fosse relevante.
Também conviveu com a nossa delegação o Luandino Vieira, o escritor de Angola, que estava lá com o filho. Houve críticas veladas como era possível que um jovem, em idade militar e com o país em guerra, estar a usufruir das “delícias” do socialismo.
Houve algumas cenas também caricatas ou que, pelo menos, eu não estava habituado. O presidente do ABC Cineclube que desde sempre tinha ido àquele Festival - não foi quem me atormentou o juízo por ser eu a ir e não ele, foi outra personagem medíocre e “pequenina” - pediu para que eu comprasse no aeroporto uma garrafa de Vinho de Porto e a entregasse ao Director do Festival em seu nome e no meu e ao mesmo tempo deixasse no ar a ideia dos filmes do Festival poderem ser exibidos em Portugal, como já anteriormente tinha sucedido. Lá pedi uma entrevista ao senhor, com intérprete para português e depois de umas amabilidades, puxei da garrafa e dei-lhe. O homem ficou, pareceu-me, atrapalhado, porque não tinha nada para me retribuir. Foi buscar uma medalha em barro do Festival e deu-ma. Ainda hoje a conservo, não sei a onde.
Os filmes nunca chegaram a vir. O Costa Silva, que também se considerava dono daquele certame, manifestou na altura igualmente interesse e tantos galos para uma só poleiro era manifestamente demais para mim, ainda por cima não sendo eu da “arte”. Andava nisto porque gostava de cinema e era militante do PCP. Anos depois estava rapidamente a deixar o cineclubismo e a direcção do Sector Intelectual do PCP, onde só voltei pela mão da Helena Medina, a mulher do Edgar Correia.
Por último, aquilo que fui lá fazer que era ver os filmes do Festival. Houve coisas que gostei muito e que gostaria de rever. Lembro-me de alguns documentários que tinham imagens dos comícios de Hitler que me impressionaram extraordinariamente. Houve reposição de alguns documentários sociais de Joris Ivens, o cineasta holandês, mestre do documentarismo e comprometido com a esquerda – pelos vistos este ano houve mais uma vez uma retrospectiva de Joris Ivens. Quando cheguei, fiz um relato para a página cultural de O Diário, que deve andar por aí. Faz parte dos meus objectivos, se ainda tiver tempo, pôr os textos que fui escrevendo ao longo da vida na net.
O regresso foi acidentado, porque, por razões que hoje já não me recordo, só me deram bilhete de ida, dizendo depois que no local me davam o de regresso. Estive praticamente até ao fim, eu e o Luís Filipe Rocha, à espera desse bilhete. O realizador não estava muito preocupado, achava que não o deixavam lá ficar. Eu, como o principal responsável pela delegação do CPPC e sempre preocupado com situações menos claras, comecei-me a enervar. Ainda por cima vi a Fátima Medina, que regressava connosco, já com bilhete e eu sem nada. Por último, já nem me recordo como, à última da hora, lá apareceram os bilhetes salvadores.
É evidente que nada disto tem a ver com o Muro de Berlim. Mas está mais ou menos relacionado e conta a história de uma delegação portuguesa a um país que já desapareceu.

A terceira história passa-se já depois de 89, mas pouco depois. Deve ter sido no início 1990. Fui a Berlim Ocidental, ainda não se tinha dado a reunificação alemã e o muro ainda existia, mas já meio escaqueirado. Podia-se, se quisesse, ir ao lado de lá. Mas não fui.
Fui numa viagem em serviço. Quando as reuniões acabavam e durante o fim-de-semana visitei Berlim Ocidental, que não conhecia e fui várias vezes até ao Muro e ao Checkpoint Charlie. Passeei pelo jardim situado perto da Porta de Brandenburgo e do Muro, o Tiergarten. Fui uma vez acompanhado de um velho conhecido meu, investigador francês em áreas afins às minhas, que tinha militado no PCF e não sei se naquela altura ainda por lá andava. Visitámos o Muro ou o que dele restava como os derrotados do comunismo. Vendiam já na altura pedaços do mesmo, mas eu fui apanhar alguns do chão, muito pequenos, porque os maiores eram para venda. Também se vendiam medalhas e quinquilharia do Leste. Mas a imagem para mim mais imorredoura foi a que vi, ao passear no jardim, uma série de famílias com carrinhos de supermercado cheios de televisões e vídeos, todas a dirigirem-se para Leste. Foi igualmente nesse mesmo jardim que eu vi autocarros carregados, pelo menos na parte de trás dos bancos, com televisões e vídeos. Não vale a pena fazer comentários. Foi a realidade que eu observei com os meus próprios olhos. Um mundo tinha acabado.

Em próximos episódios tirarei as conclusões.
PS. (11/11/09): Mão amiga sugeriu-me que corrigisse no final o nome do Luís Filipe Rocha, que estava trocado com o de outra pessoa. Aproveitei também para rever o texto.

08/11/2009

O estranho caso da nota do PCP sobre a passagem do 20º aniversário da queda do Muro de Berlim


Comecei de forma enviesada a ler nos blogs referências às posições do PCP sobre a passagem do 20º aniversário da queda do Muro de Berlim. Encontrei mesmo referências ao Avante, achei por isso necessário ir ler aquele jornal, já que, por razões que não vêm aqui ao caso, o recebo semanalmente em minha casa. Estranhamente, não encontrei qualquer editorial, qualquer comunicado sobre aqueles acontecimentos, a não ser uma notícia redigida para a secção Europa, semelhante a muitas outras que lá se publicam, encimada pelo título 20 anos de retrocesso, os alemães de Leste preferem socialismo. A notícia tinha alguns dos ingredientes que têm vindo a ser noticiados, mas não todos e depois explanava-se numa sondagem promovida pelo Governo Federal Alemão “entre a população de Leste sobre as actuais condições de vida em comparação com a experiência da RDA socialista.”, garantindo que a «a maioria dos inquiridos considera que a antiga República Democrática Alemã (RDA) tinha “mais aspectos positivos que negativos”» e termina com a defesa de Erich Honecker em tribunal, quando foi julgado em 1992, na Alemanha. O estilo era o de A defesa acusa, tão utilizado pelos comunistas desde a célebre defesa de Dimitrov nos tribunais nazis.
Depois disto fui ler melhor os blogs que faziam referência ao comunicado do PCP e nenhum tinha qualquer link para esse comunicado, e por vezes remetiam para outros blogs que continuavam a citar o comunicado do PCP. Todos, no entanto, faziam referência que a notícia tinha sido dada pela Lusa, mas, para minha desgraça, também não tinham nenhum link para a notícia original. O mais próximo que consegui foi obter no blog Câmara Corporativa a transcrição, parece-me que na íntegra, da notícia da Lusa, sem a linkar. Dizia-se nela, entre outras coisas: "As “comemorações de regime” a que assistimos – com o seu carácter profundamente anti-comunista – são uma operação de reescrita da história e de branqueamento do capitalismo", critica o PCP numa nota enviada à Lusa a propósito dos 20 anos da queda do Muro de Berlim".
É natural que uma nota enviada à Lusa fosse transcrita para o Avante, era isso que se esperava do jornal do Partido. Era também natural que no site oficial essa nota tivesse sido transcrita, mas nada.
Não duvido que a Lusa tenha recebido ou pedido um comentário ao PCP sobre aqueles acontecimentos, mas seria lógico que para não haver deturpação do que se dizia que a dita nota ou comentário fosse transcrito na íntegra por qualquer órgão oficial do PCP. Isto digo eu, que não sou do PCP. Até porque na referida notícia da Lusa a parte referente explicitamente à ao ex-mundo socialista é só esta: “intensifica-se a opressão e a exploração dos povos – a começar por muitos dos ex-países socialistas, com a regressão de direitos laborais, a privatização de funções do Estado, com a ofensiva contra direitos e liberdades historicamente alcançados", com visíveis patetices no que se refere “à regressão dos direitos laborais” ou “à ofensiva contra direitos e liberdades historicamente alcançados”. Porque se lerem bem tudo mais é relativo ao nosso actual mundo e afirmar que ele está melhor do que há vinte anos é um pouco forçado.
Dito isto, gostaria ao menos que alguém me esclarecesse sobre esta nota e se de facto ela existiu e em que termos. Provavelmente ninguém me responderá. Quanto ao muro e a sua queda reservar-me-ei para depois.