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31/01/2011

Sectarismos, ódios e paranóias - II

O episódio do post anterior, a minha altercação com Vítor Duas, não tinha qualquer importância se não se inserisse numa campanha particularmente sectária do PCP contra o Bloco de Esquerda. Farto de trocar farpas com Vítor Dias estou eu. Simplesmente notei o particular acinte em atacar Francisco Louçã, chamando-lhe trafulha, a propósito de um post meu que não fazia qualquer referência àquele bloquista.

Mas comecemos pela campanha. Logo numa daquelas crónicas bastante arrevesadas que se publicam na rubrica Actual (Avante, de 27/01/11) vem um texto de ataque a Luís Fazenda (LF), assinado por Jorge Cordeiro, que é um mimo de sectarismo. Em resposta a argumento racionais de LF, vem a calúnia e a mentira, principalmente aquela que diz que o Bloco votou sozinho ao lado do PS a nacionalização dos prejuízos do BPN. A mentira não é nova, tem origem num artigo de opinião de Honório Novo, no Jornal de Notícias. João Semedo já lhe tinha respondido no Esquerda.net, com um artigo chamado O sectarismo é sempre um mau caminho, em que desmentia as afirmações de Honório Novo, até porque o Bloco tinha votado contra a lei da nacionalização, com toda a restante oposição. Simplesmente como já tinha sucedido em tempos, na mesma rubrica, com a afirmação de que Manuel Alegre se tinha abstido no Código do Trabalho, agora mente-se dizendo que o Bloco votou ao lado do PS no caso BPN. A mentira muitas vezes repetida pode parecer verdade.

Mas vamos ao mais importante, o comunicado do Comité Central. Dizia este: “A fuga em frente ensaiada pelo BE para encontrar noutros responsabilidades que lhe pertencem, não pode iludir o facto de ter partilhado com o PS e o seu governo o apoio a uma candidatura objectivamente comprometida com o essencial da política e opções que nos últimos trinta anos conduziram o país à actual situação. E sobretudo o facto de, mais do que empenho no objectivo de derrotar Cavaco Silva e a política de direita, o que se viu por parte do BE foi a intenção de tirar vantagens do apoio a Manuel Alegre ditado por critérios de calculismo partidário.”

Onde é que o Bloco foi “buscar noutros a responsabilidade que lhe pertencem”? Quando disse que perdeu as eleições e que toda a esquerda também as perdeu? Já se sabe que, como o PCP nunca perde eleições, vir alguém dizer por ele que perdeu, é motivo suficiente para o PCP acusar outros de alijarem responsabilidades. Ora o objectivo do PCP não era chegar à segunda volta e derrotar Cavaco? Oh! Não? Não tendo conseguido isso e os seus resultados não constituirem uma afirmação de força, não tem motivos para cantar vitória, como mais uma vez ensaiou fazê-lo nestas eleições. O Bloco não veio dizer que foi devido ao PCP que se perderam as eleições, disse que toda a esquerda perdeu e com ela também o PCP.

Depois a afirmação, sempre sectária, de “ter partilhado com o PS e o seu Governo o apoio a uma candidatura objectivamente comprometida com o essencial da política e opções que nos últimos trinta anos conduziram o país à actual situação.” Mas, não lhe bastando dizer isso, afirma a seguir que não foi para derrotar Cavaco e a política de direita que o Bloco apoiou o Alegre, mas por meros critérios de “calculismo partidário”. Ou seja, o Bloco não compartilhou com o PS e o seu Governo o apoio a uma candidatura comprometida com os últimos trinta, sublinho trinta, anos de política de direita, o que o iliba aos olhos do PCP de ser um partido reformista e social-democrata, digo eu, pois o comunicado não diz isso. Mas fê-lo simplesmente por mero calculismo partidário.

O Comité Central do PCP devia ter vergonha daquilo que diz, pois nos últimos trinta anos apoiou à primeira volta Ramalho Eanes, que era um oficial tão de esquerda, que agora apareceu a apoiar Cavaco. Apoiou também Salgado Zenha à primeira volta, que era responsável pela ofensiva contra a Intersindical, na questão da unicidade sindical e que chegou a ser Ministro da Economia, o que levou Cunhal fazer uma boa piada, afirmando que ele próprio dizia que não percebia nada de finanças. Este caso foi um claro exemplo, para utilizar as palavras do actual PCP, de oportunismo partidário. Mas mais espantoso ainda, que maior responsável pelo estado a que isto chegou do que Mário Soares, que o PCP apoiou, sugerindo que depois tomassem sais de fruto, numa segunda volta. E não foi Jorge Sampaio também responsável pela política destes trinta anos? E não desistiu Jerónimo de Sousa a favor dele numa primeira volta?

Já se sabe que todas estas palavras visam hoje transformar o PCP no rei da resistência ao socratismo, mas é incapaz de propor, apara além dos muros muito apertados dos Verdes e da Intervenção Democrática, uma política de unidade com as outras forças políticas.
Não foram as anteriores posições do PCP sobre as eleições presidenciais que estiveram erradas, é o seu actual sectarismo é que é hoje o inimigo principal da esquerda.

Gostaria de lembrar um texto que em tempos escrevi sobre o Desvio Esquerdista e Sectário da Internacional Comunista (1929-1934)  em que citava as palavras de Isaa Deutscher: “Os partidos sociais-democratas e reformistas rotulados como “sociais-fascista”, deviam ser considerados como os inimigos mais poderosos do comunismo. Para a revolução socialista, a ala esquerda dos partidos sociais-democratas devia ser considerada como obstáculo até maior do que a ala direita: “quanto mais à esquerda mais perigosa”. Qualquer cooperação ou contacto entre líderes comunistas e sociais-democratas trazia o risco da contaminação.”
No fundo, é isto que se passa hoje como o nosso PCP, quanto mais à esquerda está qualquer partido concorrente mais perigoso é. Ou seja, incapazes, ao contrário do que sucedeu no passado, de formular uma linha de unidade, encerram-se numa fortaleza em que aqueles partidos que mais próximo deles estão, passam a ser os seus piores inimigos.

25/01/2011

A quadratura do círculo ou da impossibilidade de se ganhar estas eleições

Há tempos escrevi num post (6/11/10)  “De facto a situação está muito complicada e eu não gostaria de ignorar esta situação. Com um PS claramente comprometido com o centrão, ou mesmo com as políticas de direita, não há nenhum candidato de esquerda, mesmo independente e super partidário, que resista a que uma das suas bases de apoio não só não esteja nada interessada na sua eleição, dado que isso provavelmente só iria irritar os “mercados” internacionais a que ela está atada de pés e mãos, como esse facto inverteria a sua lógica de apoio à formação do um bloco central.
Se o candidato não perceber esta situação e continuar a tentar trazer todo o PS atrás de si está condenado à derrota mais clamorosa.”
Não quero ser profeta em casa própria, até porque depois me envolvi, e bem, na campanha do Alegre escrevendo alguns post para um blog de apoio, Alegro Pianíssimo, no entanto, já pressentia que alguma coisa de mal poderia acontecer.
O problema central desta candidatura, é de que as eleições se realizaram no pior momento. Não era possível esbater uma das piores ofensivas contra os trabalhadores e simultaneamente fazer apelo à luta contra a ofensiva da direita se Cavaco ganhasse as eleições. Isto não era credível aos olhos do eleitorado. Por isso Cavaco, num rábula que já lhe tinha rendido em 1985, quando se soube distanciar do Governo de Bloco Central, apareceu em algumas das iniciativas da campanha como o chefe da oposição. Acalentou as manifestações do ensino privado contra os cortes nos subsídios. Deu apoio às manifestações contra o encerramento do metro da Lousã. Oh! Descaramento dos descaramentos, achou injustos os descontos no salário da função pública, depois de ter acabado de aprovar o orçamento que as autorizava.
Alegre só podia ter mais votação e quem sabe ganhar as eleições, se fizesse a fronda de todos os descontentamentos. Houve alguns brincalhões que se entretiveram na blogosfera a descobrir discursos de Alegre contra o Cavaco que se poderiam aplicar ipsis verbis contra Sócrates e, no entanto, ele só se ficava pelo primeiro.
Por outro lado, Alegre não era o candidato do PS, da família e das redes de compromissos estabelecidos. Por muito que a determinada altura se pensasse que o PS tinha posto a sua máquina ao seu serviço, a verdade é que se sabia que aqui e ali os responsáveis não apareciam, Em Setúbal Victor Ramalho, o responsável pela concelhia, nunca pôs os pés numa reunião.
Porque apoiou o Bloco Alegre, porque este representava a ala esquerda do PS, que é o eleitorado onde o Bloco poderá ir captar gente. Ficará o Bloco irremediavelmente ligado a esta derrota? Espero bem que não.

E os outro candidatos. Sobre Cavaco, já sabem o que penso, o conjunto abundante de post que redigi contra ele, dão bem o ódio que lhe voto e o discurso da noite das eleições revela bem o carácter mesquinho de tal personagem. É evidente que a vitória dele se deve a aparecer como o anti-Socrates e, por outro lado, ser um referencial da estabilidade e a possibilidade de arrebanhar toda a direita, que nestas coisas não tem os escrúpulos da esquerda e sabe em quem deve votar.

Nobre só em pequena parte representou aquilo que Manuel Alegre foi nas eleições presidenciais anteriores. Aí provavelmente com um pouco mais de esforço ele tinha juntado todos os descontentes com o estado a que isto tinha chegado. Nestas eleições, o discurso de Nobre foi completamente redondo, apelando a uma luta contra os partidos e a vida política nacional sem o mínimo de conteúdo. Vítor Dias lembrou, e bem, como em 76, um homem moribundo, a definhar num leito do hospital, Pinheiro de Azevedo, teve 14 e tal por cento, só porque - agora a interpretação já é minha - as pessoas não sabiam a onde ir votar. Concorriam nessas eleições Ramalho Eanes, apoiado pelo arco governamental: CDS, PSD e PS, Otelo pela extrema-esquerda e Octávio Pato, uma candidatura inventada pelo PCP, para não apoiar Otelo e não hostilizar Ramalho Eanes.
Já que a determinada altura me envolvi  com o Vítor Dias em polémica sobre o voto útil nas primeiras volta destas eleições. Gostaria agora de fazer a pergunta que na altura fiz: e se por um pouco mais de votos fosse o Nobre a passar à segunda volta, que faria o PCP depois de, no seu jornal ,o ter classificado como fascista? Coisa que diga-se de passagem, não sendo completamente verdade, tem algum fundo, vejam-se  as palavras de Nobre no debate com Francisco Lopes.

Quanto a Francisco Lopes não tenho nada a dizer. É sempre a mesma apagada e vil tristeza, mais 1% votos, menos 1% de votos e a incapacidade de arriscar para se sair disto.

Parece que houve para aí uns rapazes que foram votar no Coelho convencidos que ele era o candidato da esquerda. Se há uma coisa que aprendi ao longo dos anos de militância comunista é não me deixar arrastar pela inconsequência política. Pode ser que o homem até seja uma plataforma de oposição ao jardinismo. A ver vamos.

Vencendo Cavaco e completado este ciclo de impossibilidades de dissolução do Parlamento, agora é que começam as coisas complicadas, primeiro para o povo português e depois para os parlamentares. Vamos a ver quem politicamente tem unhas para tocar guitarra.

22/01/2011

As últimas acções de agitação

Colaborei durante os dias reservados à campanha eleitoral num blog colectivo de apoio a Manuel Alegre. Fizeram-me esse convite e aceitei. Não foi a primeira vez na vida que cooperei com socialistas e outros independentes. Na campanha de Jorge Sampaio para a presidência da Câmara de Lisboa, na sua primeira eleição, criaram-se estruturas comuns, em que eu participei em nome do PCP. Em qualquer dos casos não me arrependi. Fiz aquilo em que acreditava.

Não sei qual será o destino deste blog, Alegro Pianíssimo, mas desde já declaro que se houver segunda volta continuarei a colaborar e se houver propostas para o futuro nada me impedirá de ir ouvi-las. Já tenho anos suficientes para saber onde me meto.

Deixo-vos meus dois últimos posts para aquele blog.

“Ter mais de 60%, que é para a ripada ser maior aos talibãs”

Assim se exprimia um apoiante de Cavaco, em Oliveira do Hospital, em frente de uma câmara de televisão. A forma, como se vê, não é das mais elegantes, mas ao candidato e aos seus apoiantes não se exige mais. De quem, recorrendo à demagogia mais descabelada, aconselha a não se prolongar por mais umas semanas a campanha eleitoral porque “os custos seriam muito elevados para Portugal e para os portugueses”, ou de quem destina às mulheres o papel de fadas do lar, porque são elas “que gerem os orçamentos das famílias e são as mais bem preparadas para identificar onde está o rumo certo, aqueles que as podem ajudar para melhorar o bem estar dos seus maridos e dos seus filhos,” não se pode esperar um estilo diferente do dos seus apoiantes.
Cavaco, no seu discurso desconchavado, promete benesses a quem nele votar, os seus apoiantes, pelo contrário, prometem ripada nos talibãs, que somos nós.

É o fascismo doce que sempre se perfilou por detrás de palavras mansas e cordatas dos democratas “pós-25 de Abril”. Mas, está sempre à porta, à espera de poder entrar. Não é por acaso que Cavaco condecorou Pides e não Salgueiro Maia, ou permitiu que o seu Secretário de Estado interditasse o envio do livro de Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, a um prémio europeu. Mas também não é por acaso que se vai à PIDE declarar que se está integrado no regime. Este homem não tem qualquer pinta de democrata, só o é porque os tempos correm de feição a este tipo de Governo.

 
As “encomendas” de Cavaco Silva

Hoje Cavaco Silva declarou à Rádio Renascença que alguns jornalistas tinham recebido encomendas para abordar nos seus órgãos de informação as negociatas em que ele se tinha metido. Já se sabe que o termo negociata é meu.

É preciso ter desplante para vir apoucar os jornalistas por receberem encomendas que incomodam S. Exª e ter-se esquecido da encomenda que o seu assessor para a imprensa, Fernando Lima, fez a um tal jornalista do Público para fazer umas averiguações sobre certos senhores que frequentavam a sua comitiva, quando da sua deslocação à Madeira há alguns anos. Parece também que já se está a esquecer da encomenda que fez a José Manuel Fernandes para que este lançasse no Público a atoarda de que ele, Cavaco Silva, andava a ser escutado pelo Governo, isto numa altura em que o PSD, chefiado por Manuela Ferreira Leite, falava da "asfixia democrática".

Grande encomenda me saiu este Cavaco Silva, ficar-lhe-ia bem conhecer este ditado popular “quem tem telhados de vidro não atira pedras ao do vizinho”.

PS.: fotografia com a folha da ficha da PIDE preenchida pelo próprio Cavaco Silva, dizendo que estava integrado no regime. Clique para ampliar a imagem.

21/01/2011

Cavaco Silva: ligações perigosas



Uma pequena achega para o esclarecimento das trapalhadas em que se envolveu Cavaco Silva.

Boas razões para (não) votar Cavaco Silva



Esta é mesmo para brincar, dizendo coisas sérias.

Cavaco Silva - Sem comentários



Continuação do primeiro episódio que publiquei

19/01/2011

Caso BPN: O que esconde Cavaco?



A saga continua

BPN: Cavaco é vizinho de Oliveira e Costa no Algarve



Continua a série sobre Cavaco

Cavaco Silva, por qué sólo te callas?



Hoje vou iniciar uma série de vídeos alusivos a Cavaco. Começo por este, não sei se será o mais interessante?

15/01/2011

Porque devemos votar em Manuel Alegre

 Há para aí um conjunto de “rapaziada”, mas não só, que anda muito preocupada com conceitos de patriotismo e nacionalismo e outros temas, a propósito desta campanha eleitoral para a Presidência da República.

Um rapaz mais velhinho chega mesmo a transcrever um belo poema de Brel referente ao assassino de Jaurés, às vésperas da I Guerra Mundial, falando de social-patriotismo a propósito de todos os candidatos. Outro interroga-se em relação às posições que Manuel Alegre tomou sobre as propinas ou sobre as taxas moderadoras e termina “todo este patriotismo está a tornar o ar dentro desta latrina completamente irrespirável.” Aqui não se refere propriamente a Alegre, mas dá o tom sobre a campanha eleitoral. Outro, precisa melhor os conceitos e escreve: “O que se passa com a esquerda patriótica portuguesa, de Francisco Lopes a Manuel Alegre e ressalvando aqui as inúmeras diferenças entre ambos, é que tanto no seu internacionalismo como no seu patriotismo a questão da classe é secundária em relação à questão do povo.”

Mas o que pensa esta gente que é uma campanha eleitoral para a Presidência da República? E o que pensam mesmo das campanhas eleitorais? Será que nunca votaram? Será que o partido onde depositaram o seu voto respondia a todas estas perguntas? Será que pensavam que o Manuel Alegre iria apelar à revolução europeia?

Eu às vezes interrogo-me em que mundo certas pessoas vivem. Posso admitir que alguns jovens e outros mais maduros optem conscientemente pelo anarquismo ou pela recusa em participarem nas eleições burguesas. Discuto e combato esta sua opção, mas se ela for seguida com coerência, admito que possam em todas as circunstâncias, recusar-se a votar. Mas, tendo ao longo da vida participado em eleições, ou seja, votado, e mesmo militado em partidos que vão a eleições, vêm agora pôr questões, que numa eleição presidencial têm pouco sentido e muito menos exigir dos candidatos, comprometidos com o sistema que nos governou nos últimos trinta e cinco anos, respostas claras às suas exigências políticas.

Neste tipo de eleição pretende-se, pretende a esquerda, acima de tudo, que quem seja eleito tenha do país uma visão progressista, se possível de esquerda, não pactue deliberadamente com o conservadorismo ou com o patronato reaccionário. No fundo, alguém que seja o contrário de Cavaco Silva. Pode-se também pedir, que quem vá para o lugar seja o aglutinador de um conjunto de forças de esquerda, e que propicie um deslocamento para a esquerda do eixo ideológico dominante.

Neste sentido, a esquerda tem-se dividido. Há quem procure o candidato que sirva para expressar os seus pontos de vista, independente de todos os outros. É, neste momento, a posição do PCP. Francisco Lopes nesse aspecto tem levado a água ao seu moinho e a sua candidatura “patriótica e de esquerda” tem muito a ver com o passado político do PCP, que neste aspecto foi ressuscitar as ideias da Revolução Democrática e Nacional, e sublinho nacional, e da sua oposição à União Europeia.

Nestas eleições, por razões que têm a ver com a posição do Bloco de Esquerda, não há nenhum candidato que expresse o ponto de vista da unidade da esquerda não-comunista e não social-democrata, de que o caso mais paradigmático foi o de Maria de Lurdes Pintassilgo, em 1986. E não sei se esta candidata iria corresponder a todas as exigências destes nossos jovens bloggers, alguns ainda sem idade para terem participado nelas.

Nobre, Defensor de Moura ou Coelho são fenómenos marginais à luta política, que poderão ter o seu nicho de mercado, mas não correspondem aos desejos destes nossos críticos.

Que representa pois, para mim a candidatura de Manuel Alegre. Uma possibilidade e a única de derrotar Cavaco, de inflectir neste momento a correlação de forças para a esquerda, retirando todo o peso negativo que é ter Cavaco na Presidência, a possibilidade, mesmo que remota, de uma recomposição da esquerda.

Dirão que é pouco, que a situação exige mais, outro candidato e outra política. Arranjassem-no, não se limitem a criticar e a recusar meter as mãos na massa. É fácil, descobrirem agora as contradições do candidato, mas ele é neste momento o melhor denominador comum para derrotar Cavaco Silva e como se torna claro, a eleição de um Presidente, não é a mesma coisa do que a de um parlamento, nem que de uma câmara municipal, que é por natureza plural. A eleição de um Presidente da República é uninominal, com todos os defeitos e virtudes que isso comporta. E é pois neste quadro concreto que, como actores políticos, têm que agir.

PS.: Texto igualmente publicado aqui

12/01/2011

Algumas contas de simples aritmética a propósito da eleição de Alegre


Joana Lopes faz aqui uma grande citação de um post do Victor Dias, em que este explica muito bem explicadinho, como é seu costume, porque é que não se deve apelar ao voto útil em qualquer dos candidatos que se opõem a Cavaco Silva.

Depois daquelas contas feitas, apeteceu-me rever a aritmética utilizada e refazer politicamente esta contabilidade.

Comecemos por uma afirmação que António Costa fez há tempos, na Quadratura do Círculo: se votarem, por exemplo, cem mil eleitores, Cavaco, para ser eleito à primeira volta, precisa de 50 mil votos mais um. Se votarem só 60 mil, Cavaco só necessita de 30 mil mais um. Por isso a abstenção favorece Cavaco e não os seus opositores. Ora o que é válido para Cavaco também é válido para o conjunto dos seus opositores, portanto por aí não podemos ir. Tudo depende qual dos lados se abstém mais. Assim, o princípio acima anunciado só faz sentido se todos aqueles que não suportam Cavaco, e não tenham candidato à sua medida, forem votar nos opositores ao actual Presidente da República. Por isso, José Neves, do blog Vias de Facto, como não gosta de nenhum, mas acima de tudo embirra com Cavaco, acha que é suficientemente exótico ir votar em Defensor de Moura. E não basta, como já disse a Comissão Nacional de Eleições, votar branco ou nulo, é preciso expressar validamente o voto para que ele entre na percentagem dos 50 %. Ou seja, deve-se votar em todos, menos em Cavaco.

No entanto, dito isto, vamos às contas do Victor Dias. Mesmo que Cavaco não tenha os 50% mais um, resta a pergunta e quem vai à segunda volta? Eu por mim não tenho dúvidas, quero que seja Manuel Alegre. Mas Victor Dias não deve com certeza ter esta preferência, por isso seria importante apelar e achar que o voto útil seria em Francisco Lopes, para que este possa ir à segunda volta. Foi por estas e por outras que em 1986, Salgado Zenha não foi à segunda volta, o que teria evitado todos aqueles sapos que tivémos que engolir. Maria de Lurdes Pintassilgo retirou-lhe os votos necessários para isso acontecer. Por este motivo, ou Victor Dias, sem o dizer já acredita na possibilidade de ser Manuel Alegre a ir à segunda volta com Cavaco ou implicitamente quer que isso suceda. Pois, de outro modo, apelaria ao voto útil no seu candidato, pois não é indiferente em quem se deposita o voto. Por este andar ainda Fernando Nobre se arriscaria a ir à segunda volta. E uma situação destas já se passou em França. Quando ninguém esperava, quem passou à segunda volta foi Le Pen.

Por isso, diria que estas coisas não são simples aritmética têm por trás alguma reflexão política. Se não gosta de Cavaco, e nenhum dos outros é da sua preferência, vote naquele que mais satisfaz o seu ego. Porque não em Coelho? Sempre poderia ir ao poleiro. Mas se quer votar conscientemente vote em Manuel Alegre, para garantir que seja este a ir à segunda volta.
Post com algumas alterações também aqui incluído.

04/01/2011

Ainda os debates presidenciais


Já muito desfasado no tempo, mas achando que não posso deixar em claro os debates eleitorais para a Presidência da República, aqui vai pois a minha opinião.
Não vi todos, e só a época em que tiveram lugar é que pode justificar esta minha falta de comparência a alguns. Também não vou repetir as frases feitas sobre a falta de interesse dos mesmos. São como são, ou como os candidatos quiseram que fossem, e portanto não nos podemos queixar, provavelmente se tivessem mais tempo e fossem já depois das Festas seria melhor. Mas aí já iriam cair no período eleitoral. Não tenho palpites, mas reconheço que a época foi má e o tempo dedicado à discussão foi pequeno. Provavelmente, muitos candidatos não teriam mais para dizer?

Começarei pelo primeiro, que muito me impressionou: Francisco Lopes (FL) versus Fernando Nobre (FN). Como era a sua estreia, Nobre ainda estava a adaptar-se. Foi um horror. Para além das suas descrições miserabilistas dos locais onde prestou assistência médica, em que ressalta a migalha no bico da galinha, temos a espantosa afirmação, que não reproduzo ipsis verbis, em que acusa o seu opositor de ser o representante de um sistema caduco, a que junta mais umas aleivosias. A princípio ainda pensei que FN estivesse atacado de anti-comunismo primário, referindo-se à ideologia comunista do seu oponente. Mas não, era ao regime democrático que ele se estava a referir, atacando FL por qualquer coisa de que este não tinha culpa. Fazia uma mistura perigosa que envolvia as actuais circunstâncias políticas e económicas, que são graves e resultam da responsabilidade do bloco central, aliado ou não ao CDS, com os próprios fundamentos do regime democrático, tornando assim todos os intervenientes políticos nacionais responsáveis pelas actuais circunstâncias. Esta afirmação roça perigosamente o fascismo, mesmo quando inconscientemente proferida. Parece-me que, em todo este debate, Francisco Lopes soube safar-se dos disparates do seu opositor.
Tempos depois vi Fernando Nobre versus Cavaco Silva e aqui já era Sr. Doutro para lá, Sr. Professor para cá. O respeitinho que é devido aos superiores. Triste figura a deste comparsa, por quem tinha até alguma consideração, que nunca percebeu que o papel que lhe destinaram Mário Soares e os seus acólitos, era simplesmente a de morder as canelas de Manuel Alegre. Convenceu-se que era um legítimo representante da “sociedade civil” e deu-se ares. Estatelou-se no chão.
Defensor de Moura, aquele em quem José Neves, em desespero de causa, aconselhava o voto, tem-se revelado melhor do que eu pensava. Parece que atacou Cavaco Silva de frente, surpreendendo o adversário e marcou pontos. Mas não vi este debate, só me refiro a ele pelos ecos que encontrei na imprensa. Vi o debate entre ele e Manuel Alegre e compreendi que Defensor de Moura não estava principalmente a concorrer contra Manuel Alegre, ainda bem. O seu papel será o de ser um bom avô que luta pela regionalização lá da sua Viana e contra a corrupção. A primeira ainda não se sabe se é uma virtude, a segunda é-o de certeza.
Vi também Manuel Alegre versus Francisco Lopes. Diria que estavam os dois contidos, para não darem a ideia que eram os principais inimigos. Mas quando no final do debate Manuel Alegre disse a tradicional amabilidade que não era devido ao PCP que a esquerda perdia as eleições presidenciais, Francisco Lopes respondeu-lhe que ele, Manuel Alegre, era o que estava melhor colocado para receber os votos dos defensores do actual Governo. Logo aí alguns comentadores mais apressados viram uma troca de amabilidades entre os dois, só não perceberam que Francisco Lopes dirigiu uma farpa a Manuel Alegre, colocando-o entre os actuais apoiantes do Governo de Sócrates.
No entanto, reconheço que Francisco Lopes se tem saído melhor do que aquilo que eu esperava, mas lamentavelmente isso não lhe dará mais votos do que aqueles que as sondagens lhe atribuem, ou eu estou muito enganado.
Depois vi um debate e meio, já não sei bem entre quem. Não tiveram história.
Por último, o entre Cavaco Silva e Manuel Alegre. Impressionou-me tanto como o primeiro.
O Cavaco foi de uma grande agressividade. O Manuel Alegre não enveredando pela resposta forte não sei se lucrou muito. Podemos dizer que para Cavaco a melhor defesa foi o ataque e este princípio foi um pouco fatal para Manuel Alegre. Mas quando se meteu pelo caso do BPN não se saiu muito bem, porque o problema de Cavaco não é de Oliveira e Costa e Dias Loureiro terem pertencido ao seu governo, é ter nomeado Dias Loureiro para o Conselho de Estado e até ao último momento o ter sustentado politicamente, já que legalmente o não podia substituir. O outro problema foi os ganhos astronómicos que obteve com a venda das acções da Sociedade Lusa de Negócios, 140% de lucro. Ora nisso Manuel Alegre atrapalhou-se, quase que teve medo de pegar no assunto. Depois em relação aos amigos de Cavaco quase que lhe deu razão, ao reafirmar o que Cavaco já tinha noutra altura dito, que não era responsável pelo que faziam os seus amigos passados vinte anos. Quando o Dias Loureiro ainda há bem pouco tempo se passeava no Conselho de Estado, com a sua complacência.
Quanto ao Estado Social é espantoso que Manuel Alegre não desmontasse essa aldrabice de Cavaco que é dizer que o apoio à caridade e aos institutos que a praticam é o apoio ao Estado Social. O Alegre aí podia e devia ter dado a volta.
É evidente que Manuel Alegre noutras alturas esteve bem e há quem pense que ao adoptar este tom moderado e de postura de Estado se distanciou de Cavaco, um político verrinoso e sobranceiro. A ver vamos se essa posição rende votos.
No entanto, não tenho dúvidas que quem não gostava de Cavaco ficou a a detestá-lo e a rogar-lhe todas as pragas do mundo.

Aqui está pois a minha visão dos debates. É evidente que, como apoiante de Manuel Alegre, quero que o meu candidato se saia bem e seja capaz de derrotar os seus opositores, mas tenho algumas dúvidas que isso tivesse acontecido com Cavaco Silva. No dia 23 saber-se-á o resultado, que não depende só destes debates.
PS. (5/1/11):
José Neves neste post vem reafirmar o voto à primeira volta em Defensor de Moura, que lhe faça bom proveito.
Já agora actualizava mais um dos disparates de Fernando Nobre no tal debate com Francisco Lopes, não teve melhor ideia do que propor a redução dos deputados para 100. É a demagogia à solta.

06/11/2010

A quadratura do círculo de Manuel Alegre


Na semana que agora finda houve três afirmações que me merecem alguma opinião. No entanto, para tentar tornar mais curtas as minhas intervenções irei fazer um post para cada uma.

No programa Contraste, da SIC Notícias, transmitido às terças, às 23h00, e que junta Francisco Assis e Morais Sarmento, o primeiro defendia abertamente uma junção de esforços entre o PS e o PSD para porem em prática o orçamento aprovado pelos dois partidos. É engraçado que este ponto de vista mereceu uma graçola de Morais Sarmento, a propósito do apoio que o PS está a dar a Manuel Alegre. A que Assis deu troco. Já não me recordo da graçola, nem da resposta de Assis. - Podem, dentro de alguns dias, consultar na SIC on-line o vídeo deste Contraste. - Mas o que interessa aqui reter é esta esquizofrenia que está a atravessar o PS, que defende e pratica acordos à sua direita e acusa os partidos à sua esquerda de extremistas e de protesto e depois apoia um candidato que está a travar uma batalha que é o contrário disso tudo. Por isso percebe-se o apelo de Manuel Alegre para que os socialistas acordem e se envolvam mais na campanha.

De facto a situação está muito complicada e eu não gostaria de ignorar este facto. Com um PS claramente comprometido com o centrão, ou mesmo com as políticas de direita, não há nenhum candidato de esquerda, mesmo independente e super partidário, que resista a que uma das suas bases de apoio não só não esteja nada interessada na sua eleição, dado que isso provavelmente só iria irritar os “mercados” internacionais a que ela está atada de pés e mãos, como esse facto inverteria a sua lógica de apoio à formação do um bloco central.
Se o candidato não perceber esta situação e continuar a tentar trazer todo o PS atrás de si está condenado à derrota mais clamorosa.
O PS, desde que José Sócrates tomou o poder, nunca teve uma estratégia de vitória em relação a eleições que não fossem aquelas a que o seu chefe concorria. Perdeu, as presidenciais de 2006 para Cavaco Silva, já antes tinha perdido as autárquicas de 2005, com principal relevo para a vitória de Carmona em Lisboa. Perdeu as europeias, em 2009, sacrificando o seu compagnon de route Vital Moreira e também as autárquicas de 2009, que só foram ganhas em Lisboa, por António Costa, devido à táctica política seguida por este, ao arrepio provavelmente de alguns vozes mais influentes do PS.
Por isso, não será de estranhar que sacrifiquem mais uma vez no altar das conveniências partidárias de José Sócrates o seu candidato presidencial.

10/10/2010

Quem é o inimigo principal do PCP?


Existe uma rubrica no jornal Avante!, chamada Actual, que, não constando dos estatuto nem das resoluções dos Congressos, traduz muito bem a idiossincrasia que em cada momento atravessa aquele partido.
No último número, dos três artigos assinados que compõem aquela rubrica dois eram dedicados ao Manuel Alegre e, como se prevê, não eram nada meigos para ele.
O primeiro, de Margarida Botelho, em tom de gozo, falava da posição do candidato em relação às recentes medidas tomadas pelo Governo. É fácil fazer ironia quando o candidato, apesar de se distanciar delas, é apoiado por um dos partidos que as toma. Já se sabe que Francisco Lopes, que não tem qualquer responsabilidade nelas e que se candidata para as denunciar, é o preferido da autora. Simplesmente, o PCP, já o PS era Governo, com Guterres, foi capaz de desistir à primeira volta para apoiar Jorge Sampaio, que hoje não só apoia as medidas do Governo como até elogia os apelos de Cavaco ao consenso. Mudanças que o tempo tece.
O segundo artigo, de Manuel Gouveia é mais farfalhudo. Não só especifica logo a abrir que o candidato é apoiado por José Sócrates e Francisco Louçã. - É bom que se misturem os dois nomes para que não fiquem dúvidas sobre a colaboração de classes de Louçã. - Como a seguir entra pela mentira descarada, e não é o primeiro que o faz, dizendo que Manuel Alegre se tinha abstido na votação do Código de Trabalho, quando se sabe que votou contra, ele e mais três deputados do PS. Ver aqui.
Depois ataca Sócrates, junta-lhe Passos Coelho e também Cavaco Silva. E a seguir num passo de mágica diz-nos que estes, José Sócrates, Francisco Louçã, provavelmente por apoiar Manuel Alegre, o próprio Manuel Alegre, Passos Coelho e Cavaco Silva são os “actores da contra-revolução. São bons actores. Mentem, fingem e disfarçam-se como poucos”.Naturalmente este senhor ainda acredita que a revolução portuguesa está "a caminho do socialismo" e que toda esta gente, incluindo o Louçã, é contra-revolucionária, pronta a destruir a revolução "a caminho do socialismo". Este senhor anda trinta anos atrasado na história.
Aqui estão pois definidos os inimigos do PCP e do povo português. É simples e fácil. Aqui temos a política reduzida à sua expressão mais simples.

Não queria terminar este post sem me referir ao comentário de Vítor Dias à entrevista que Francisco Lopes deu a São José Almeida e Nuno Sá Lourenço, e que foi publicada no Público, de Sábado. Primeiro acusa-os de serem “capazes de perpetrar um erro político clamoroso”. E qual é esse erro? O de insistirem em perguntar se a não desistência do candidato à primeira volta não facilitará a vitória de Cavaco. Apesar dele próprio e do candidato já terem esclarecido “devidamente” esse assunto, assola sempre esta dúvida aos jornalistas e comentadores. E Porquê? Apesar de Dias dizer mais à frente que a desistência à primeira volta de Carlos Brito para Ramalho Eanes se ter dado numa circunstância de clara bipolarização, verificou-se também quando Salgado Zenha foi candidato, e aí não havia bipolarização nenhuma, bem pelo contrário, e para Jorge Sampaio, que era Presidente com um Governo do PS. Não será de estranhar que os jornalistas continuem a insistir neste tema.
A seguir fala de “um patente erro factual que mostram como algumas cabeças andam confusas”. Ou seja, quando aqueles perguntam se «Então acha que Álvaro Cunhal fez um disparate quando retirou a candidatura de Carlos Brito para apoiar Mário Soares.»
Não foi Carlos Brito mas Ângelo Veloso, que por sinal desistiu, como eu já disse, a favor de Salgado Zenha e não de Mário Soares. De facto o erro é relativamente grave e mostra como muitas vezes os jornalistas vão mal preparados para as entrevistas. Mas, pergunto eu. Não seria natural que o candidato, logo ali, na entrevista, corrigisse o erro. E, das duas uma, ou Francisco Lopes desconhece a história do PCP, o que é grave, ou os jornalistas censuraram-lhe a resposta, o que não é menos grave, mas disso não são acusados por Vítor Dias, que pressuroso se apressa a repor a verdade dos factos, que o seu candidato se esqueceu de corrigir. Quando se arranjam candidatos destes às vezes sucede isto.
PS.:
Já depois de ter publicado o post lembrei-me que podia linkar os artigos citados para o Avante! on-line, bem como a entrevista de Francisco Lopes para o Público on-line. Neste jornal só os artigos de opinião é que não têm link.

22/09/2010

Presidenciais II


O último post que escrevi sobre este assunto, pretendia, sob a forma de comentário a um artigo que Cipriano Justo, da Renovação Comunista, tinha escrito para o Público, alertar para que o candidato do PCP não iria ser um factor de convergência da esquerda para derrotar a direita, mas sim, como resultado do sectarismo e do bloqueio do PCP, poder considerar-se como o único candidato verdadeiramente de esquerda e não comprometido com o PS e por isso incapaz de qualquer compromisso ou desistência para com o outro candidato da esquerda, Manuel Alegre, o melhor colocado para derrotar o da direita.
Sem ter obtido qualquer comentário, fui lendo em alguns blogs (ver aqui e aqui) que a personagem era tão ignorada dos votantes como dos próprios militantes do PCP, ou tão risível, que a sua cadidatura corresponderia a uma táctica de valorização de Manuel Alegre. Não estou de modo algum de acordo com isto e penso, por aquilo que já foi declarado pelo candidato do PCP, se Manuel Alegre não aparecerá também como um dos seus inimigos de estimação, para além, evidentemente de Cavaco Silva. Bem gostaria de estar enganado.

No meu texto não tinha examinado a situação de todos aqueles órfãos da extrema-esquerda nacional, desde que foi criado o Bloco, que eu classificarei de “esquerdistas”, que não se revêem na candidatura de Manuel Alegre e que ou defendem, em desespero de causa, o voto em Francisco Lopes ou então, como o José Neves, em algum candidato exótico, como Defensor de Moura.
Um dos primeiros mitos que esta extrema-esquerda acalentou foi o de que o PCP apresentasse um candidato unitário, tipo Carvalho da Silva, que permitisse o voto da esquerda, que não se quer sujar em compromissos espúrios. Já se sabe que aí o PCP trocou-lhes as voltas. Nunca este partido apresentou candidatos unitários a eleições presidenciais , com a vocação de perderem, mas representarem muito condignamente a “independência” de esquerda. Sabemos que o PCP preferiu, em 1976, arrostar com uma votação humilhante em Octávio Pato do que submeter-se à lógica minoritária e “esquerdista” de Otelo Saraiva de Carvalho. O mesmo se tendo passado com Maria de Lurdes Pintassilgo, em 1986, preferindo desistir a favor de Salgado Zenha do que apoiar aquela candidata.
Por isso, e bem, não puderam contar com o PCP para manterem as mãos puras ao votarem numa coligações anticapitalistas, que, em certas circunstâncias, só conduz à descrença e em nada contribui para a derrota do candidato da direita.
Outros ainda, em face do panorama, depois de terem deixado cair a sua admiração por o Fernando Nobre (ver este meu post), voltam-se para o único candidato, que sendo a emanação do colectivo, segundo a sua suposição idealista, acreditam que este lhes permitirá votarem em alguém que se reclama do anticapitalismo ou então que seja contra a NATO, como eu já vi escrito por aí. Como se Ramalho e Eanes, em quem os comunistas já votaram, fosse um paladino dessa luta.
No fundo é o reencontro do velho esquerdismo nacional, sempre a considerar-se incorruptível e mais revolucionário do que todos os outros e a não admitir acordos com a “burguesia”, com um PCP esgotado e fechado no gueto, que sempre foi considerado revisionista e reformista por estas boas almas, mas que presentemente, em desespero de causa, serve para poderem, sem compromisso, votar.
Alguns, mais puros, parece que se vão abster, porque meter as mãos na “merda” não é com eles.
A todos estes lembrarei que a posição “esquerdista” nunca foi boa conselheira. Espero pois que ainda recuperem, pois por vezes a vida obriga-nos a compromissos e à necessidade de sujarmos as mãos. E penso que custa menos engolir o sapo votando em Alegre do que em Mário Soares, esse sim um verdadeiro sapo peçonhento e dos perigosos.

13/09/2010

Presidenciais


Utilizei este título genérico para não ferir susceptibilidades, mas ir-me-ei referir preferencialmente à candidatura apresentada pelo PCP.
Cipriano Justo num artigo publicado no Público, a 6/09/10 (sem link), e que denominou As boas razões do PCP, considerava em subtítulo “O que é questionável não é o seu candidato, são os argumentos avançados para justificar a candidatura”, o que resume sucintamente o conteúdo do artigo.
Cipriano Justo não contesta a apresentação de uma candidatura pelo PCP e até justifica a sua apresentação e acha que numa primeira volta ela é indispensável, dado que um processo de convergência com outras candidaturas, neste caso com Manuel Alegre, há muito tempo que se devia ter iniciado.
Estando no essencial de acordo com estas afirmações, gostaria de lembrar que a desistência das candidaturas presidenciais do PCP a favor de outras logo na primeira volta se deu em condições em que anteriormente não tinha havido uma clara convergência à esquerda. Quando o PCP desistiu a favor de Eanes, na segunda recandidatura deste, qual tinha sido a convergência de esquerda com aquele candidato e os seus apoiantes? Quando mais tarde o PCP desistiu a favor de Salgado Zenha, que tinha sido um dos obreiros da luta do PS contra a unicidade sindical, qual era a convergência que havia com ele. Já não falarei de Mário Soares porque aí estávamos numa segunda volta e outra opção não seria possível.
Também a desistência a favor de Jorge Sampaio, apesar da experiência positiva da Câmara de Lisboa, não correspondia a nenhuma convergência que nessa altura houvesse com o Governo PS, de António Guterres, de que ele era a emanação.
Diria que os tempos são outros e outra é a orientação política do PCP. Concordo que tanto no caso de Ramalho Eanes, como no de Salgado Zenha não era o PS que estava no Governo e que com Jorge Sampaio, estávamos ainda no estado de graça do primeiro governo de António Guterres. Hoje, qualquer desistência a favor do candidato apoiado também por Sócrates, mesmo que contrariado, é um pouco diferente. Mas, apesar desta nova situação, o PCP também mudou bastante em relaçãoa esse seu passado, manifestando um completo enquistamento e uma total incapacidade de discussão das questões de convergência com as outras forças políticas de esquerda. O candidato escolhido por aquele partido é o melhor exemplo disso.
Pelas razões atrás expostas não tenho a certeza, como Justo, de não ser desejável, mais uma vez, que o candidato do PCP desista na primeira volta a favor daquele que na esquerda estiver em melhores condições para derrotar Cavaco.

A segunda parte do artigo de Justo é a crítica às razões aduzidas pelo PCP para apresentar uma candidatura própria. Aquele partido acha que nenhum candidato é capaz de denunciar com clareza as malfeitorias do Governo de Sócrates, o que sendo verdade, não é nestas eleições o que está em causa, mas sim derrotar o presidente de direita. Eu não faria como Justo uma separação tão clara entre a apresentação de uma candidatura própria e a sua insistência em ir às urnas e os argumentos aduzidos para a sua apresentação. Só se justifica aquela insistência em manter o candidato na primeira volta se este assumir ser unicamente um claro porta-voz das posições do PCP em relação ao Governo de Sócrates. Por isso, denuncia todos os outros como tendo compromissos com o poder vigente, realçando em Manuel Alegre todas as supostas convergências com Sócrates e o seu passado de socialista e esquecendo-se todas as rupturas em que ele ultimamente participou: valoriza-se o negativo e esquece-se o positivo.
Penso que neste momento para o PCP é mais importante a crítica da governação socrática do que a vitória de Cavaco, já que segundo aquele partido são farinha do mesmo saco. Qualquer possível vitória do Manuel Alegre só iria criar a ilusão de que o PS é de esquerda e facilitaria a manutenção de Sócrates no poder. Ao contrário do que se verificou noutras eleições presidenciais, o PCP considera mais importante uma ruptura com o Governo de Sócrates, que ilusoriamente pensa que conseguirá sozinho, do que a reeleição do actual presidente. Se Manuel Alegre chegar a uma segunda volta estou curioso para ver qual a atitude que o PCP irá tomar. Se fará o mesmo esforço que fez em relação à eleição de Mário Soares e se aconselhará os seus militantes a tomar sais de fruto para melhor digirir o sapo.
Pelo que atrás se disse, pode-se concluir que o PCP, não percebendo o que está em causa nestas eleições – derrotar o candidato de direita e promover a eleição de um de esquerda, que no caso presente só poderá ser o Manuel Alegre, – se preocupa unicamente com a espuma dos dias entretendo-se a apontar as armas da crítica, neste caso, sobre o inimigo secundário. Ou então, numa total incapacidade de distinguir os diversos alvos, considerar Sócrates e Cavaco como os seus principais inimigos.
Quem estudou a história do movimento comunista identifica hoje as actuais posições do PCP e de alguns partidos afins, como o grego (ver este meu post), com a esquerdização da Internacional Comunista, que se verificou no final dos anos 20, princípios de 30, (ver aqui) quando os socialistas, e também aqueles que eram de esquerda, foram considerados como sociais-fascistas. Os tempos são muito parecidos e o ressuscitar de alguns livros do tempo de Estaline são um sintoma um pouco exasperante. O candidato escolhido é um bom exemplo disso. A ver vamos se não tenho razão.

19/07/2010

O Estado da Nação


A propósito deste tema, que abarcou o final da semana passada, gostaria de fazer algumas considerações que dividirei por capítulos.

A irracionalidade das acções políticas
Durante os últimos tempos tem-se assistido, depois da proposta de dançar o tango a dois, a um constante agravar das relações e das críticas entre o PS e o PSD. Nem vale a pena enumerar, tantas são e tais são os mimos que uns e outros trocam entre si.
Há quem diga que tudo isto é encenação, para satisfazer as bases de cada um dos partidos e poder-se dizer que o PS, apesar dos acordos à direita, é de esquerda e o PSD não anda a fazer o frete ao PS e está verdadeiramente interessado em vir a governar o país sem aquele partido. Há mesmo quem afirme que é a União Europeia que está a forçar estes acordos, porque não quer eleições antecipadas visto achar que esse facto poderia levar o país à bancarrota. Por isso, estes ataques não passariam de um cenário para, cumprindo os desígnios da EU, dar satisfação às bases de cada um dos partidos.
Tenho para mim que tudo isto pode ser verdade, mas em política há um tal grau de irracionalidade, que em determinada altura não é possível controlar estas deixas para “inglês ver”. Os partidos são arrastados pelas afirmações que fazem e, em determinado momento, são mesmo obrigados a travar guerras que não querem. Por isso penso, a continuar esta constante troca de insultos, mais tarde ou mais cedo tem que haver um confronto, que provavelmente virá a ser eleitoral.

Ataques ao carácter ou às ideias
O PS tem exultado com a mudança de líder no PSD, todos os seus dirigentes têm elogiado esta nova direcção, porque abandonou os ataques de carácter ao Primeiro-Ministro e começou a discutir política. Ainda esta semana António Costa, na Quadratura do Círculo, fez, mais uma vez, o elogio desta nova atitude.
Os comentadores parece que também alinham pela mesma bitola e a subida do PSD nas sondagens vem confirmar esta situação.
Tenho para mim que isto não é inteiramente verdade. A impopularidade de Sócrates e a descida do PS nas sondagens começaram quando os aspectos da sua vida pública, mas que eram ignorados pelos eleitores, começaram a vir ao de cima e a personalidade do primeiro-ministro se revelou por inteiro no modo como reagiu a esses factos e no tipo de escândalos em que se viu envolvido.
Só um PS completamente dominado pelo culto da personalidade e fascinado por aquilo que considera a determinação de Sócrates, em oposição a anteriores secretários-gerais, e a sua capacidade, até ao momento, de ganhar eleições, tem permitido que este partido se renda aos pés do seu líder – no programa de televisão acima referido, António Costa falava da tibieza dos ministros do Governo opondo-a à determinação do seu chefe.
Este facto, o culto da personalidade, perturba a situação política e facilita de modo decisivo a abulia do PS e a completa ultrapassagem do seu líder por uma personagem tão medíocre como Pedro Passos Coelho.

Que farão BE e PCP numa moção de censura ao Governo?
Uma moção de censura a este Governo só poderia ser apresentada até meados de Setembro. Depois entramos nos últimos seis meses de mandato presidencial, em que o detentor deste cargo não pode dissolver o Parlamento nem convocar eleições. Como o novo presidente eleito só tomará posse lá para Março do ano que vem, quaisquer eleições, a realizarem-se, só terão lugar em Maio. Ou seja, estamos condenados a viver nesta abulia governativa até àquela altura.
Se as eleições forem ganhas por Manuel Alegre, a situação já será completamente diferente, provavelmente não haverá eleições e o cenário governativo é um pouco imprevisível. Manuel Alegre introduziria no sistema uma “alegre” perturbação que neste momento é difícil de prever.
Mas verificando-se a vitória de Cavaco Silva é muito provável que apareça uma moção de censura por essa altura. É uma previsão, como é evidente, e em política dez ou onze meses são uma eternidade.
Mas admitindo que tudo ficava como agora nos encontramos, como votariam BE e PCP uma moção de censura da direita com fortes probabilidades de derrubar o Governo? Dir-me-ão que esses são os cenários que os analistas e os jornalistas gostam de traçar, sempre prontos a encontrar contradições e “caixas” noticiosas para vender, e que um político a sério não traça cenários com tanta antecedência e só decide numa situação e num tempo concreto. Concordo.
Mas recomendaria aos amigos à esquerda do PS que reflectissem nesta situação, principalmente se as sondagens, que sempre se enganam, mas não tanto como isso, indicassem uma clara vitória do PSD aliado ou não ao CDS. Que diria o povo deste país se entregássemos o Governo à direita?
Durante toda a vigência da actual Constituição só uma vez é que a esquerda, à esquerda do PS, teve que decidir entre um PS sozinho, minoritário, ou um possível Governo mais à direita e mesmo assim a situação era diferente do cenário acima exposto. Foi nos longínquos anos de 70, perante o Governo do PS sozinho, em que o PCP permitiu que uma moção de censura da direita pudesse derrotar Mário Soares. Ainda hoje tenho dúvidas se essa atitude foi correcta.

A campanha eleitoral de Manuel Alegre
No meio deste cenário de incertezas, impasses políticos, de avanços indiscutíveis da direita e de claro empobrecimento do povo português, vão-se disputar as eleições presidenciais, que, quanto a mim, trazem algumas novidades ao cenário político acima descrito.
Primeiro, Manuel Alegre é dentre os candidatos que o PS apresentou até hoje aquele que está mais engajado com uma política de esquerda.
Segundo, tem o apoio explícito de um partido de esquerda, à esquerda do PS, que permitirá uma abrangência e unidade até hoje dificilmente obtidas na esquerda.
Sabe-se que a campanha vai ser extremamente difícil, com muitas incompreensões e pelos vistos com sabotagens deliberadas, a última é a de Defensor de Moura do PS, se é que ele chegará a concretizar a sua candidatura. Temos no entanto a possibilidade, assim o candidato o queira e as forças em presença sejam capazes de o fazer, de agitar alguns dos temas que mais têm sido discutidos na actualidade. Era indispensável defender os serviços públicos: o SNS e a escola pública, mas também o fim das privatizações, e o reforço do investimento estatal. Era necessário desmascarar as propostas da direita quanto à revisão da Constituição e o fim do Estado Social. É possível conseguir uma boa agitação em volta destas matérias tão úteis ao debate futuro. Era necessário não ser sectário e estender a mão ao possível candidato do PCP.
Um investimento na candidatura de Manuel Alegre é um investimento na evolução futura da situação política. Assim haja força para a agarrar.

12/05/2010

O Governo quer ver se o aumento de impostos “passa de fininho”


Utilizei esta feliz expressão de Paulo Portas, agora preterido por Passos Coelho como interlocutor de José Sócrates, para me referir ao aumento de impostos defendida pelo Governo, cuja notícia é transmitida aos portugueses entre, segundo o mesmo Paulo Portas, as comemorações futebolísticas e a vinda do Papa.
Ainda há poucos dias, e a SIC Notícias relatou esse facto, José Sócrates, naquele estilo pimpão que o caracteriza, gritava para os deputados que não iria haver aumento de impostos. Nem meia dúzia de dias se passava e o PS, pela voz compungida de Santos Silva, vem anunciar que este partido não está a trair os seus compromissos eleitorais mas sim a cumprir as ordens de Bruxelas. Uma pouca-vergonha.
Nos últimos tempos, e não é preciso recuar muito, o Governo de José Sócrates e os seus apaniguados mudaram completamente de estratégia, que correspondeu igualmente a uma evidente mudança no PSD.
O PS ficou completamente extasiado com a subida de Passos Coelho à direcção do PSD. Todos à compita, incluindo o já senil e rancoroso Mário Soares, vieram elogiar a sua eleição e o novo estilo inaugurado por aquele político. Em post anterior, já me pronunciei sobre estas novas relações PS-PSD. Mas o mais grave e que à agressividade mostrada pelo PS em relação a Manuela Ferreira Leite sucedeu o desnorte e declarações que variam ao sabor dos acontecimentos, que no mesmo dia afirmam uma coisa e o seu contrário. Não havia aumento de impostos, mas já vai haver. Ir-se-iam manter as grandes obras públicas, mas afinal vai-se só fazer um TGV que termina no nada. Este Governo está sem rumo e sem perspectivas e o pior é que está a dar a mão ao PSD para ver se este o mantém no poder por mais alguns meses. Não sabemos o que hoje vai resultar da reunião em Santarém da Comissão Política daquele partido, mas suspeito que não deve ser pacífico permitir que o PS continue a governar. Só a estratégia do PSD em relação às presidenciais, de não querer neste momento agitar as águas, é que pode permitir deixar o PS andar nesta roda-viva de contradições. Mas não tenho dúvidas, ou alguma coisa se altera e a vitória difícil, mas não impossível, de Manuel Alegre pode dar o seu contributo, ou então depois das eleições presidenciais, com Cavaco eleito, o PSD dará a estocada final num Governo moribundo e com um primeiro-ministro incapaz de governar o país em circunstâncias difíceis e com maioria relativa.

E a esquerda o que tem a dizer sobre isto? Ou se empenha a sério na eleição do Manuel Alegre ou então terá o destino de ver os comboios passarem sem nada poder fazer para alterara o estado de coisas. Compreenda o PCP a importância e o significado destas eleições presidenciais.
Alguns irão dizer que privilegio a luta eleitoral em detrimento da luta de massas. Mas não tenhamos dúvidas conseguir transformar o descontentamento social em alteração da correlação de forças eleitoral é uma luta que há muitos anos tem ofuscado os dirigentes do PCP, mas que, pelos resultados obtidos, se tem revelado um fracasso. Lutas sociais por objectivos concretos: aumentos salariais, defesa da contratação colectiva, regalias sociais têm saído vencedoras e obtido, por vezes, assinalável êxito. Manifestações e greves por objectivos gerais, podendo abranger milhares de trabalhadores, raramente conseguem no final traduzir-se em votos e isto porque politicamente nada se fez para dar à maioria social descontente uma saída política com perspectivas. Manuel Alegre, apesar de todas as suas insuficiências, pode constituir uma saída política para esta situação acabrunhante. Haja visão política para o compreender.

20/02/2010

Uma posição sobre Fernando Nobre


Porque tenho tomado posição sobre o que de mais importante tem vindo a suceder na vida nacional, principalmente em relação à área da esquerda, não posso deixar de opinar sobre a nova candidatura à Presidência da República e que pelo menos, em teoria, disputará um espaço que é de esquerda. Assim, e não querendo recorrer à chalaça para apreciar este novo candidato, irei mais uma vez maçar-vos com a prosa séria e pesada com que normalmente analiso a política nacional.

Vou utilizar como guião, porque facilita os meus objectivos, um texto de Fernando Teixeira, do 5 Dias , que se denomina Fernando. Nobre?, e que descreve as dez virtudes que aquele blogger encontra no candidato.
A primeira virtude é que esta candidatura entala a de Manuel Alegre, a segunda ridiculariza o Bloco de Esquerda, e a décima é que deixa o oportunismo à beira de um ataque de nervos, aqui o oportunismo resume-se às posições do Daniel de Oliveira, do Arrastão.
O texto em questão é uma das versões modernas do velho esquerdismo de antes de Abril e da altura do PREC. Ou seja, para este senhor o inimigo principal é Manuel Alegre, o Bloco de Esquerda e o oportunista mor, mas isso é uma questão pessoal do 5 Dias, o Daniel de Oliveira. No fundo retoma-se, com novas vestes, a velha linguagem dos esquerdistas que consideravam o PCP como o seu principal inimigo e alguns dos seus escribas como a expressão última do social-fascismo, socialistas nas palavras e fascista nos actos. Mas mesmo que não queira chamar-lhes estes nomes feios, quer o candidato Manuel Alegre, quer o Bloco de Esquerda, quer o “pobre” do Daniel de Oliveira, comportam-se para este opinador como novos oportunistas. Temos pois todos os condimentos para ressuscitar a velha linguagem de palha de antigamente.
Como se vê a direita passa nesta descrição, como se não existisse e como se não fosse, ela e o seu candidato, Cavaco Silva, o inimigo principal.

A terceira virtude é de que pressiona o PCP para apresentar uma candidatura não sectária. Nesta virtude destaca-se o desejo de alguém que, não sendo do PCP, quer influenciar este partido a apoiar o candidato de quem a priori se gosta. Já se sabe que aqui, e ainda bem, o PCP é suficientemente sectário para não ir nas melodias maviosas que lhe querem tocar. Bem pode o Vítor Dias no seu blog começar, mesmo que indirectamente, a fazer propaganda do Fernando Nobre, ou melhor contra o Manuel Alegre (vejam-se estes dois posts: aqui e aqui), porque o PCP irá sempre apresentar na altura própria o seu candidato, tal como foi, penso eu, decidido no último Congresso. Poderá sempre desistir na primeira volta. Mas sem candidato próprio não fica.

A quarta virtude é de não ser um candidato do Governo e do PS. Aqui, vem novamente à baila o sectarismo. O que pensa esta gente que é um candidato a Belém? Ou é um instrumento de agitação da esquerda e nesse caso Fernando Nobre não serve, ou é um candidato com possibilidades de ganhar e nesse sentido tem que contar sempre com o PS e por detrás deste partido está o Governo. Este facto foi sempre percebido pelo PCP, que nunca embarcou em aventuras esquerdistas. Não apoiou Otelo, não apoiou Maria de Lurdes Pintassilgo e, em último caso votou em Mário Soares, cuja prestação nos seus governos não era melhor que a de José Sócrates.
Eu não sei o que é que esta gente preferia, se era o PS ir apoiar o Jaime Gama, por exemplo, ou ser obrigado a apoiar o Manuel Alegre. A visão deles é sempre ao contrário da lógica da esquerda.

As outras virtudes já são de ordem da fezada política e literária. A quinta fala de que Nobre tem curriculum enquanto Manuel Alegre foi um mau deputado e é um poeta medíocre, sobre esta então nem me pronuncio. Quanto ao curriculum de Manuel Alegre lembro que não começou só com o 25 de Abril, ainda provavelmente Fernando Teixeira andava de cueiros já Alegre conspirava contra o fascismo e sofria na carne a prisão. Coisa que, eu saiba, é completamente omissa em Fernando Nobre.
A sexta é mesmo divertida: Fernando Nobre cria pontes com o movimento social. Mas qual movimento social? Será que o autor se quer referir às ONGs, coisa que toda a gente sabe que estão ao serviço da manutenção do stato quo. Hoje qualquer artigo de jornal de esquerda – este facto é mais engraçado porque ele cita na nona virtude uma entrevista do Fernando Nobre a propósito disso mesmo – critica as intervenções destas organizações no Terceiro Mundo. Em Portugal o único movimento social que verdadeiramente está implantado na sociedade e tem força real são os sindicatos e esses não me consta que tenham qualquer ligação a Fernando Nobre.
A sétima virtude contrapõe o internacionalismo de Nobre à visão patrioteira de Alegre e Cavaco. Meter no mesmo saco um homem da CEE, da Nato e do bloco ocidental e o Manuel Alegre, que de facto tem uma posição patriótica da nossa posição no mundo, é no fundo a visão sectária da realidade política nacional. Mas acho engraçado como na apresentação da candidatura de Fernando Nobre se acabou, com grande entusiasmo, a cantar o hino nacional. Só por grande distorção do pensamento se pode pensar que alguém que anda sempre em missões internacionais é um internacionalista.
Na oitava virtude diz que Nobre não andou nos últimos anos a preparar a sua candidatura a Belém como Alegre. Aqui não distingo que é mau do que é bom. Aquilo que para uns pode ser perserverança para outros é carreirismo.
A nona virtude já foi referida, é uma entrevista de Fernando Nobre à revista Rubra e a décima, é a dedicada ao Daniel de Oliveira.

É evidente que o post de Fernando Teixeira, que eu venho citando, põe ainda uma série de reticências em relação ao candidato. Mas, não ligando a muitos outros que entretanto publicou, ater-me-ia ao seu último, onde afirma: “É o primeiro candidato a dizer coisas de esquerda (ainda que poucas e vagas) sem qualquer compromisso com o PS e com este Governo.” Vai-se depois a ver e o post remete-nos para umas declarações que a TSF reproduz, de uma entrevista que F. Nobre deu ao Miguel Sousa Tavares, agora na SIC, em que diz que falou previamente com Mário Soares, mas não é lebre dele, mal seria se dissesse que era, e que Manuel Alegre, por ter estado sempre na Assembleia da República, é um dos responsáveis por esta situação política, enquanto ele, virgem política, aparece agora sem quaisquer responsabilidades. Francamente se isto é dizer coisas de esquerda, então o que será ser de esquerda. Perfeitamente lamentável, não Fernando Nobre, mas o nosso articulista.

Dito isto é perceptível que apoio Manuel Alegre, pelas razões que já invoquei noutros post anteriores (ver aqui e aqui) e que considero mau para a esquerda o aparecimento desta candidatura. Mas ao longo do ano, se puder, terei muito mais oportunidades de escrever sobre este assunto.
PS. (21/02/10): Nuno Ramos de Almeida em comentário a este post corrige-me o nome do blogger criticado, não se chama Fernando Teixeira mas sim Renato Teixeira. Ao visado as minhas desculpas.

11/01/2010

Manuel Alegre candidato?


Estava eu entretido a discutir Estaline e a chafurdar nesse passado triste, que agora alguns querem gloriosamente ressuscitar, e eis que, a propósito da possível candidatura de Manuel Alegre a Presidente da República, se arma na Internet uma acesa discussão. Só para poderem seguir esta troca de argumentos vou tentar linká-los (não sei se linkar é já uma das novas palavras introduzidas no Dicionário da Academia). Assim, a lista é a seguinte: Daniel de Oliveira, no Expresso, a 31/12/09, Miguel Cardina, em Minoria Relativa (blog que eu não conhecia e que já inclui na minha selecção), Nuno Ramos de Almeida, no 5 Dias, Tiago Mota Saraiva, no 5 Dias, Daniel de Oliveira, no Arrastão, Nuno Ramos de Almeida, no 5 Dias, Carlos Vidal, no 5 Dias e Renato Teixeira, no 5 Dias. Provavelmente, há mais, mas penso que esta lista já vos chega para uma leitura atenta e demorada.

Não estou interessado em rebater e discutir as opiniões dos outros, deixo-as aqui unicamente para poderem ler a argumentação em voga. Quanto a mim, tenho a dizer o seguinte.
Fui um dos apoiantes da candidatura de Manuel Alegre a Presidente da República nas eleições passadas. Considerei na altura, e nem pensava que ela tivesse o êxito que depois veio a ter, que a sua principal função era quebrar o PS e dividi-lo. A velha aspiração do PCP, que já o tinha tentado fazer com o PRD, de Ramalho Eanes. Este é um tema recorrente nos meus textos e penso que é sempre de grande actualidade.
Na altura, não se esperava que a divisão do PS fosse entre as linhas esquerda e direita. Eanes nunca representaria a esquerda. Simplesmente, pensava-se que dividindo o PS ao meio, como sucedeu, se poderia negociar mais facilmente acordos de Governo, como se tentou, antes de Mário Soares dissolver o Parlamento e dar, em 1987, a maioria absoluta a Cavaco.
O caso de Manuel Alegre era diferente, este sempre representava a ala esquerda do PS. A sua votação permitiu pensar, quer ao candidato quer à esquerda, que tinha ali muito voto onde ir pescar. Daí as aproximações do Trindade e da Aula Magna. Nesta última, atingiu-se um tal ponto de ruptura com o PS oficial que poder-se-ia pensar que um novo partido à esquerda do PS se estava a formar. Quase que poderíamos falar de um Die Linke à portuguesa. Não foi nada disto que aconteceu. Manuel Alegre teve “juízo” e, ou empurrado, pelo Bloco, segundo algumas más línguas, ou aconselhado por amigos que se saísse do PS nunca teria qualquer possibilidade de vencer eleitoralmente as eleições presidenciais, foi-se resguardando e, entre umas no cravo e outras na ferradura, aparece agora com possível candidato oficial do PS, como apoio do Bloco.
Deduzir-se-ia, por tudo o que escrevi, que vejo com maus olhos o apoio do Bloco ao Manuel Alegre. Não é verdade, simplesmente esse apoio já não se enquadra na perspectiva de uma ruptura dentro do PS, na formação de um grande partido à esquerda deste, mas sim naquilo que sempre foi a estratégia da esquerda, diria do PCP, de apoiar, há última da hora, o candidato da esquerda contra a direita. Isto só não sucedeu nestas últimas eleições, porque foi nítido que Cavaco ganhava e a esquerda estava perfeitamente desunida, mais valia, por isso, contar as espingardas.
Já agora, uma resposta a muitos dos posts que foram referidos anteriormente. Um candidato único da esquerda, à esquerda do PS, era neste momento uma impossibilidade prática e um candidato derrotado à partida. O PCP sempre fez uma análise rigorosa da situação e nunca se meteu em frentes de esquerda, com candidaturas condenadas à derrota. Daí, por exemplo, não ter apoiado, no longínquo ano de 1976, o Costa Gomes, proposto por um movimento unitário, por achar que ele nunca ganharia a Eanes. Não entrou na candidatura de Maria de Lurdes Pintassilgo, em 1986, apesar de ter ido apostar num candidato que foi derrotado, Salgado Zenha, mas aqui foi a excepção. Sempre fez tudo para que o candidato da esquerda incluísse o PS e fosse vencedor. Daí, ter engolido um sapo quando apoiou, à segunda volta, Mário Soares, também em 1986. Penso, mesmo assim, que é hoje mais fácil votar em Alegre do que em Mário Soares. Por isso, se for Alegre o candidato do PS e do Bloco o PCP, à segunda ou mesmo à primeira volta, irá votar nele. Ou então, muita coisa se alterou naquele partido. Mas já ouvi da boca de um militante comunista, provavelmente não típico, que Manuel Alegre era um candidato, mesmo apoiado pelo PS, vocacionado para a derrota. Via com melhores olhos o Jaime Gama ou outro que reunisse mais consensos ao centro. Mas este militante nada terá a ver com os impetuosos escrevinhadores do 5 Dias. Mas pensem nisto, o PCP prefere candidatos mais à direita, que não criem ambiguidades e falsas expectativas no seu eleitorado do que candidatos frentistas, como Manuel Alegre, que não sejam por ele controlados. A ver vamos.
Resta neste caso um problema central que é como é que Manuel Alegre vai gerir a sua candidatura. Se aparecer demasiado colado a Sócrates perde à esquerda, se for ao Bloco de Esquerda, perde à direita. Por outro lado, como é que o Bloco irá fazer a gestão do seu apoio? Será de modo a que ela seja agregadora da esquerda e possa integrar futuramente no Bloco os votantes socialistas que claramente não suportam o Sócrates?
E a juntar a tudo isto, em que altura é que o PCP irá apoiar a candidatura?
Pode ser que nada disto seja assim, que tudo corra mal e que a esquerda mais uma vez fique bloqueada ou então, tudo corre bem e teremos aí “esquerda grande” de que fala o Bloco.