06/09/2010

Os neo-estalinistas


Pelas razões mais diversas, sendo sem dúvida a principal a preguiça (estamos em férias), tenho-me abstido de escrever qualquer comentário para este blog. Também os assuntos não têm sido assim tantos que mereçam um comentário mais apressado. Mas mais de um mês de paragem é efectivamente demais. Com exemplos destes não há leitores que resistam.
Não vou comentar esta novela de Verão entre o PSD e o PS. Já tinha dado a minha opinião sobre a proposta de revisão constitucional daquele partido, achando que ela se enquadrava na ofensiva da direita, mas agora, e concordando com as opiniões dos dois principais partidos à esquerda do PS, estou perfeitamente convencido que esta luta de galos visa unicamente ver quem consegue ganhar a parada, de modo a que tudo fique na mesma, ou seja, que a política de restrição orçamentais continue.
Não irei também debruçar-me sobre o candidato presidencial apresentado pelo PCP, apesar do texto que se segue tem já um pouco a ver com a opinião que eu tenho sobre a sua candidatura.
Irei, porque é um assunto, que me tem particularmente motivado, falar do artigo que São José Almeida escreveu, no Público, de 4 de Setembro, (sem link) sobre o PCP e que denominou Comunistas, sem vergonha! E que de facto também se refere ao candidato presidencial daquele partido.
O que é que verdadeiramente aborda aquele artigo? Numa súmula muito breve, e recorrendo ao próprio texto, podemos afirmar o seguinte: “aquilo que sobressai de uma análise mais atenta do discurso e das tensões internas mostra como o PCP, ao longo da última década, sofreu uma radical mudança no sentido da sua esquerdização e até, podemos assim dizer sem rodeios, da sua neo-estalinização.
Esta verdade, que a autora parece ter vindo agora a descobrir acusando os restantes media e a maioria dos cidadãos de não ter reparado nela, foi de facto uma das principais causas do afastamento e posterior criação da Renovação Comunista por alguns militantes do PCP que não estavam satisfeitos como rumo que as coisas estavam a levar.
Mas, sem querer para mim pergaminhos especiais, ao longo deste blog, e de outros textos anteriores, não tenho feito outra coisa do que vindo a denunciar a crescente esquerdização do PCP e consequente afirmação de sectarismo. Parece-me desnecessário fazer links para esses textos, mas o leitor que me tenha acompanhado facilmente os localizará.
Depois São José Almeida mete-se por caminhos ínvios ao tentar estabelecer uma diferença entre esta actual neo-estalinização e os tempos mais recuados de Cunhal, chegando mesmo à reorganização de 1940-41. Ou seja, tenta dizer que nessa altura o partido não se afirmava como comunista, nem marxista-leninista e que agora isso passou a ser mais claro.
Já se sabe São José Almeida confunde a política de unidade definida no programa do Partido relativa à Revolução Democrática e Nacional ou o mais recente referente a Uma Democracia Avançada para o Século XXI, como uma descaracterização da afirmação de comunista, coisa que o Cunhal sempre soube distinguir, fazendo uma clara distinção entre as duas.
Mas isto é prosa fácil de jornalista apressada que, realçando com alguma percepção a realidade actual, desconhece a história do PCP.
Depois ainda descamba mais ao falar da ala social-democratizante e da esquerdista, marxista-leninista, na direcção do PCP. Não sei onde é que a senhora foi buscar tais alas, mas isto dá cor ao texto. E ainda, considera que elas sempre existiram ao longo dos seus 89 anos. Não vale a pena sobre este assunto insistir mais.
O que vale a pena aqui recordar e que é citado pela autora deste artigo é as preocupantes manifestações deste neo-estilinismo. Assim, “basta para tal consultar obras como o estudo panegírico de Ludo Martens, Um Outro Olhar sobre Stáline, editado em cima da Festa do Avante! do ano passado pelo site Para a História do Socialismo, que teve como chancela de legitimidade e de credibilização política e ideológica o prefácio de Carlos Costa. E que edita agora a obra de 1938, História do Partido Comunista da URSS. Breve Curso, em cujo prefácio Leandro Martins afirma: "Este "Breve Curso" é, assim, um contributo valioso para a batalha ideológica que se trava não apenas contra o inimigo de classe mas contra as vacilações e oportunismos que, como a obra mostra com clareza, convivem no seio das organizações revolucionárias e podem conduzir às derrotas dramáticas a que assistimos."
Sobre o primeiro livro citado escrevi um primeiro post que dava notícia da sua publicação primeiro na net e depois em edição escrita, com prefácio da Carlos Costa. Escrevi ainda uns comentários a um post de um pedante que escreve no blog 5 Dias e que era elogioso para com o livro e que depois resumi num outro post. Os leitores interessados encontrarão bastante informação nos dois posts referidos.
Quanto ao segundo livro História do Partido Comunista da URSS (bolchevique). Breve Curso foi feito alguma propaganda à volta da sua edição no site referido, com a apresentação da capa e garantindo que o mesmo estaria à venda na Festa do Livro, da Festa do Avante!. Este livro tem prefácio de Filipe Leandro Martins, que eu penso que ainda seja o chefe de redacção do Avante!.
Este livro, como muito bem diz a propaganda inserida naquele site, teve uma distribuição massiça. Só na União Soviética foram editados 600 mil exemplares e foi traduzido em numerosas línguas. E porquê? A sua autoria, que não é assumida na edição portuguesa, pelo menos na capa, é de Estaline e no capítulo IV, é incluído o célebre texto, que posteriormente foi divulgado separadamente, com autoria reconhecida de Estaline, Materialismo Dialéctico e Materialismo Histórico. Podemos pois afirmar que estes dois manuais constituem a base de toda a conversão da imensa riqueza do marxismo e do leninismo não só numa mentira histórica que era visão que Estaline queria que permanecesse da sua tomada do poder no Partido Comunista da União Soviética, bem como uma simplificação e codificação de toda a problemática histórico-filosófica do marxismo. Como é dito, o livro é de 1938, elaborado portanto no auge das purgas no PCUS e dos julgamentos e condenações à morte dos seus principais dirigentes. É pois isto que o PCP de forma encapotada nos oferece na Festa do livro, da Festa do Avante!.
O artigo de São José Lopes termina identificando Francisco Lopes com a ascensão desta corrente neo-estalinista no PCP, opinião com a qual estou de acordo e que oportunamente comentarei, mas acrescenta-lhe, borrando toda a pintura, e tornando simpática a figura de Francisco Lopes que “ele foi o jovem quadro que desde cedo mostrou que não tinha medo de dizer que era comunista. E tem sido seguido por um crescente grupo interno, uma tendência de comunistas que não têm vergonha de o ser.”
Ora nada disto é verdade e nunca ninguém no partido teve medo de dizer que era comunista, tinham era uma visão diferente do que tinha sido a história do movimento comunista e prezavam bastante a unidade das forças antifascistas e progressistas.

11 comentários:

VÍTOR DIAS disse...

Prezados leitores deste «post» :

O autor do «post» referindo-se ao livro «História do Partido Comunista da URSS (bolchevique). Breve Curso» logo acrescenta que «
É pois isto que o PCP de forma encapotada nos oferece a Festa do livro, da Festa do Avante!.».

Saibam porém os leitores que Jorge Nascimento Fernandes há mais de três décadas que sabe que no Pavilhão do Livro da Festa do Avante! sempre houve obras das mais diversas editoras, das mais variadas qualidades e falata delas e com os mais diversos conteúdos e orientações.

E saibam também os leitores que há mais de três décadas que Jorge Nascimento Fernandes sabe que aquele espaço foi sucessivamente gerido por pelo menos duas empresas do ramo livreiro.

Creio ser legítimo deduzir da frase acima citada de JNF que ele defenderia que o PCP ou a Festa do Avante! criassem uma comissão de exame prévio que, certamente ao longo de semanas, se debruçasse sobre o magno problema de que livros podem e não podem ser vendidos e de que editoras podem e não podem estar representadas.

Quem foi que falou de neo-estalinismo ?

Jorge Nascimento Fernandes disse...

Santa ingenuidade. Eu queria ver se havia tanta tolerância para militantes importantes que andassem a divulgar literatura social-democratizante ou mesmo eurocomunista. Vitor Dia, como sempre, move-se no reino da formalidade. A Festa do Livro é livre. Eu até já lá vi livros fascistas. Simplesmente a edição nesta altura destes livros e a sua divulgação na Festa do Livro não é uma inocente expressão da liberdade de informação, mas a indicação de uma clara tendência, que de modo mais ou menos explícito, se vem manifestando Eu já o assinalei diversas vezes.

Anónimo disse...

Não haja é ingenuidade nenhuma em relação à enorme desonestidade intelectual de Jorge Nascimento Fernandes.

asinus disse...

Prezado JNF,

Pode informar em que edição ou documento credível é que senhor leu que Estaline era o autor do "Breve Curso..." .É verdade que foi o autor principal do capítulo que refere. Ele está publicado em separata e assinado por ele. Portanto, como pode afirmar, em nome do rigor necessário a estes assuntos que "a sua autoria, que não é assumida na edição portuguesa, pelo menos na capa, é de Estaline"?

Pedro disse...

Eu tambem devo confessar que no seu discurso (que nao e singular) noto crescentes semelhanças com, por exemplo, o discurso que o PS, afirmando-se sempre pela "esquerda democratica", sempre teve contra o PCP

amiguito disse...

Carambam, analisar a presença de um do s autores do livro na respectiva capa ou o conteúdo do livro? Qualquer dia, ainda vem dizer que nao havia czarismo na rússia ou que os bolcheviques eram agentes alemães.. E ainda se diz vocemece de esquerda... Va beijar a mao ao belmiro de azevedo seu velhote caquético!

Jorge Nascimento Fernandes disse...

Asinus pergunta-me em que documento credível eu encontrei referência a que Estaline tinha sido o autor de “Breve Curso”. Quando escrevi o texto baseei-me na minha memória, já que este é um episódio bem conhecido da época de Estaline. Procurei na Net unicamente qual o capítulo que correspondia ao “Materialismo Dialéctico e Materialismo Histórico”. Tendo em vista o seu pedido, e sem grande esforço retirei as seguintes citações de alguns livros que possuo:
“O estalinismo canoniza (“canonisa”) o pensamento de Lenine criando o leninismo a partir de um texto que se tornou clássico “Os princípios do leninismo” (1924). Mais tarde, no famoso “Précis d’histoire du PC(b) de l’URSS” (1938), obra redigida sob o seu controlo directo, Estaline redige o capítulo filosófico “Materialismo Dialéctico e Materialismo Histórico”. Estes dois textos constituem o essencial dos fundamentos de uma nova disciplina, o marxismo-leninismo, que será ensinada em todo o mundo como um dogma, mas com uma força de difusão e de popularidade sem precedentes” (Labica –Bensussan, “Dictionnaite critique du marxisme”, PUF, 1982 – tradução da minha autoria, a partir da entrada “Stalinisme”).
“Outra iniciativa que então empreendeu (Estaline – nota minha) foi a “Breve história do Partido Comunista da União Soviética”, que se propunha ser a primeira obra precisa e doutrinariamente confiável nesse campo. Nela, reescreveu-se toda a história do partido à luz dos processos (de Moscovo, que nessa altura decorriam - nota minha). Todos os manuais anteriores, mesmo aqueles redigidos pelos mais próximos seguidores de Estaline, como Iaroslavski, foram declarados apócrifos e retirados de circulação, uma vez que apresentavam a história do partido que não correspondia às últimas “descobertas”. O novo livro, imediatamente declarado a Bíblia do partido, foi escrito pelos secretários de Estaline sob sua orientação pessoal, Estaline só redigiu a parte filosófica, um resumo grosseiro da teoria marxista da dialéctica.” (Isaac Deutscher, “Staline, Uma biografia Política”, Civilização Brasileira, 2006).
“Durante os dias de Munique (Tratado que permitiu que Hitler anexasse os Sudetas à Checoslováquia – nota minha), na Pravda começou a publicação dum “Resumo da História do Partido Comunista da URSS” … Contudo, as falsificações deste “Resumo”, apresentado no dia 14 de Novembro de 1938 por uma decisão do comité central como uma “enciclopédia dos conhecimentos fundamentais no domínio do marxismo-leninismo”, contribuíram para sedimentar a lenda da infalibilidade de Estaline. Na “Biografia de Estaline”, publicada naquele mesmo ano, ao atribuir-se o “Resumo” a uma comissão dirigida por ele, Estaline manda corrigir essa frase, de maneira que ele seja apontado como o seu autor” Louis Aragon, História da URSS, vol. 7, Publicações Europa-América, 1969).
Como vê, informação mais completa é difícil. No entanto, poderá sempre dizer que de facto o “Breve Curso” na sua totalidade não foi escrita por Estaline. Para mim não restam dúvidas que ele é o responsável.

Jorge Nascimento Fernandes disse...

Não tinha visto o texto de Vítor Dias no seu blog sobre este mesmo artigo de São José Almeida. Depois de o ler e de reler o meu novamente pergunto-me se não há vergonha na cara de alguns provocadores encartados aqui intervieram. Já não há sentido das proporções. O desbragamento é total. Paciência.

Anónimo disse...

Li a sua resposta das 2.25 de 11 de Set ao Asinus.

Era sabido que o curso foi redigido sob orientação do Stáline e que, nesse sentido, ele era o responsável.

A questão, que intrigou os que leram o seu post, foi a afirmação peremptória sobre a autoria do livro.

Recorde o que disse:

«A sua autoria, que não é assumida na edição portuguesa, pelo menos na capa, é de Estaline e no capítulo IV, é incluído o célebre texto, que posteriormente foi divulgado separadamente, com autoria reconhecida de Estaline, Materialismo Dialéctico e Materialismo Histórico.»

Ou seja, pode desculpar-se com a sua (fraca) memória, e embrulhar a desculpa nas citações que quiser, mas, parafraseando-o, para mim não restam dúvidas de que, como é habitual em si, foi leviano e pouco rigoroso nas afirmações.

Jorge Nascimento Fernandes disse...

Resposta a um anónimo

Pela sua prosa o senhor é um daqueles pequenos provocadores anónimos que andam a conspurcar a blogosfera. No entanto, respondo-lhe para que os leitores fiquem com uma ideia clara sobre o assunto.
Como se vê há uma parte do livro que é escrita por Estaline e outra sob a sua directa orientação. Não ficaria mal na capa dizer qualquer coisa do género “sob a orientação de Estaline”. Mas quase que jurava, porque ainda não pude comprar o livro, que no prefácio de Leandro Martins isso não é referido. O que o anónimo devia dizer, depois de se mostrar tão impante, é que o prefaciador teve o cuidado de se referir a esta situação. Sobre isso não diz nada, limitando-se a chamar nomes aos outros. Triste vai o debate político.

Anónimo disse...

Jorge Nascimento Fernandes, veja lá se se enxerga.

Diz que chamo nomes aos outros, mas não hesita em chamar-me “pequeno provocador anónimo que anda a conspurcar a blogosfera” (nem menos, provocador e conspurcador).

Mas afinal que nomes lhe chamei? Como se pode constatar no meu comentário das 17:56 de 14 Set, apenas lhe disse que “como é habitual em si, foi leviano e pouco rigoroso nas afirmações”, o que, no caso concreto, sobre a autoria do livro, ficou evidentemente demonstrado. Mas se quiser tomar a minha observação como uma asseveração de que é, em geral e não apenas em afirmações frequentes, leviano e pouco rigoroso, pode fazê-lo, porque isso é o que penso, embora não tenha sido o que disse (mas que é isso ao lado de um “provocador conspurcador”?).

Se reparar, na própria figura que reproduz da capa, existem elementos suficientes para julgar da sua orientação, mas, enfim, acho que é perda de tempo discutir mais este seu disparate.

Apenas acrescento que é ainda mais despropositada, e ainda mais disparatada, a sua observação sobre o que eu, que li o livro há muitos anos, que não pretendo voltar a lê-lo e que certamente não o irei comprar, deveria dizer sobre o prefácio desta edição e o respectivo prefaciador, pessoa que não conheço nem me recordo de alguma vez ter visto na vida.