Vi ela primeira vez os
Deolinda em 2009, num festival de
Músicas do Mundo que se realizou na Póvoa do Varzim. O palco principal estava cheio com as atracções principais e nos palcos paralelos actuavam os grupos ainda sem nome feito, como aquele grupo. A sala estava repleta, a deitar por fora. Achei-lhes imensa graça, percebe-se logo, a partir do próprio nome da banda, que há uma grande ironia em tudo o que fazem. As suas canções, as que eu ouvi aí, não sendo panfletárias, criticavam o quotidiano com imensa graça.
A canção “
que parva que sou”, cantada pela primeira vez no Coliseu, não me pareceu melodicamente com a mesma força das que tinha ouvido na Póvoa do Varzim, tinha no entanto uma letra que, com grande ironia, relatava o ar do tempo: as dificuldades em se arranjar um emprego, mesmo estudando, e a situação precária em que se encontram os jovens trabalhadores com habilitações.
Pela força e ironia da letra não só o Coliseu veio abaixo, como rapidamente a canção passou ao
Facebook e depois para os
blogs. Já se sabe que os jornalistas os, comentadores e os políticos, rapidamente a transformaram em motivo de comentário, discussão e bandeira política.
A semana que agora finda passou a discutir a canção e o seu significado e todos os
blasés deste mundo acharam que deviam opinar criticamente sobre a mesma
Começou por um artigo José Manuel Fernandes, no
Público, que eu não li na totalidade, mas que percebi logo o conteúdo. Culpava as gerações antigas, as do 25 de Abril, que garantiram trabalho fixo e que presentemente abandonavam estes jovens à sua sorte. Conclusão, maior flexibilidade no trabalho, todos se deviam tornar precários para maior glória do capitalismo nacional. A direita aproveitou deste modo a canção.
Mas o mais interessante, foi depois as discussões nos diversos programas televisivos. Como eu normalmente só vejo a
SIC Notícias, é, de modo geral, a ela que me vou reportar.
Na
Quadratura do Círculo, Pacheco Pereira, com a sua sobranceria de intelectual que não participa em modas, suspeito que não disse nada sobre o grupo. Lobo Xavier, como grande entendedor de música popular portuguesa, começou por desvalorizar os
Deolinda dizendo que havia canções muito mais reivindicativas e críticas do que esta. E começa por citar o Sérgio Godinho. Que grande novidade! Só que o Sérgio Godinho já vem de antes do 25 de Abril e não é de certeza daquilo que este comentador gosta. Espantoso argumento para quem o que interessa é desvalorizar uma canção que neste momento critica os valores instituídos.
Mas a seguir tivemos o
Expresso da Meia-Noite, também a discutir o mesmo tema: os precários e a canção. Convidaram Vicente Jorge Silva para mais uma vez vir justificar a sua célebre frase sobre
a geração rasca, que por sinal, e de forma muito explícita, se transformou em
geração à rasca e que se vai manifestar no dia 12 de Março. Já se sabe que aquele articulista, começou logo por desvalorizar os
Deolinda, inclusive o nome. Provavelmente achou-o ordinário ou popularucho, não percebendo a ironia do mesmo.
Todo o resto da intervenção foi de uma auto-justificação de meter dó, em que o principal da argumentação não se percebia
Pedro Lomba, da direita, lá vinha com os argumentos da geração que tinha trabalho garantido e não permitia que nova lá chegasse.
Mas o que mais me espantou foi o Ricardo Costa a virar-se para o representante dos precários, de que não me lembro o nome, a dizer que a canção dos
Deolinda só denunciava o problema não apresentava alternativas. De repente vi-me quarenta e tal anos atrás a discutir nos cineclubes, que um certo filme só descrevia a situação, que de um modo geral era o capitalismo, e não apresentava soluções, ou seja a solução revolucionária para ultrapassar aquela sociedade. É evidente que naquela altura isto não era dito por estas palavras tão explícitas, mas ficava subentendido que era isso que se pretendia. A resposta do nosso precário foi de que estávamos a falar de uma simples canção, que não tinha esses objectivos. Hoje no
DOTE.COMe, do meu amigo Fernando Penim Redondo, num artigo de que discordo totalmente, intimida a pobre banda a fazer uma canção, vejam lá com que tema: “necessitamos de um novo modo de produção que funcione noutros moldes, que esteja adequado às tecnologias de hoje e aos meandros da globalização.”
Foi também dito pelo Ricardo Costa que hoje o
Expresso trazia uma artigo da antiga Ministra da Educação a garantir que quem estudava tinha mais possibilidades de emprego e de sucesso que aqueles que não o faziam. Há gente a levar demasiado a sério uma canção, que não passa disso mesmo e que, com grande ironia, critica os tempos presentes. É com isso que a bem-pensância nacional não pode.