26/11/2010

Algumas conclusões políticas para a esquerda da Manifestação anti-NATO e da Greve Geral


Hoje, na sociedade portuguesa, verifica-se um claro fenómeno de crise social, com a pauperização das classes trabalhadoras, de crise económica, com a destruição da indústria produtiva, e política, com a incapacidade do principal partido do Parlamento de governar. Este facto tem acarretado uma crescente radicalização à esquerda. Acresce ainda o clima social vivido em alguns países da EU, tais como a Grécia, a França e a Grã-Bretanha, que tem alimentado o imaginário de certa esquerda. É pois neste clima que se movem os principais actores da esquerda.

Tendo em atenção este facto, torna-se impossível os principais partidos à esquerda do PS poderem contemporizar com este, principalmente com o seu Governo e com o seu chefe incontestado, José Sócrates. O PS pela política defendida e pelas propostas de Orçamento e de PECs apresentadas tem-se vindo a isolar cada vez mais da sua esquerda, praticando uma clara política de colaboração com a direita. Apesar de algumas vozes, que não chegam aos céus dos media, virem regularmente apelar para que se faça mais um esforço de diálogo entre o PS e as forças à sua esquerda, nunca isso esteve tão distante. Daí as dificuldades que a candidatura de Alegre enfrenta.

Como têm o Bloco e o PCP reagido a esta situação? O Bloco apresentando-se cada vez mais como um partido da esquerda não conciliadora, tentando sempre apresentar alternativas que forcem a sociedade portuguesa a evoluir para a esquerda. Há muito que ficaram para trás as causas fracturantes, que facilmente foram recuperadas pelo PS, e se virou para as preocupações sociais e do desenvolvimento económico. Recorrendo a certos chavões da gíria política, tornou-se um partido responsável, reformista e integrado no sistema, apesar de recusar, e bem, qualquer colaboração com o PS chefiado por Sócrates, mas apoiando um candidato da ala esquerda daquele partido, que em tempo oportuno soube dialogar com ele.

O PCP, seguindo na prática uma política semelhante, utiliza na sua definição ideológica e no seu convívio com as demais forças políticas um acentuado sectarismo e esquerdismo verbal, que o arrastam permanentemente para o isolamento, que de um modo geral é procurado, e que no campo internacional o levam a defender as coisas mais indefensáveis. Dai a apresentação de um candidato próprio à presidência da República, sem carisma e sem qualquer relevância política, a não ser dentro do seu partido. Deste facto resulta que na prática as votações do Bloco e do PCP sejam semelhantes na Assembleia da República, mas que depois na vida real não haja quaisquer consequências unitárias ou de acção comum, excepto aquelas que se desenvolvem no âmbito sindical, mesmo aí depois de muitas negociações e de pequenas escaramuças.

A radicalização da sociedade portuguesa acarretou o aparecimento, cada vez com maior visibilidade, do velho esquerdismo, sempre latente desde os anos 60 e 70 na sociedade portuguesa. Hoje simplesmente ele manifesta-se de maneira diferente. Não temos partidos a reivindicarem-se do passado do PCP, mesmo a tentar refundá-lo ou a criar um novo. Temos jovens anarquistas a lutarem contra o sistema ou alguns esquerdistas a assumirem que a luta é contra o capitalismo e não pela sua reforma. Mas temos também, e não tínhamos, ecologistas, mais ou menos radicais, ou apologistas de um viver alternativo à actual sociedade capitalista. Não sendo iguais, conservam igual radicalidade dos tempos antigos. E a crise social e económica do capitalismo tem os vindo a alimentar e a fazer progredir. Em que é que isto se reflecte nas relações destes grupos com os partidos de esquerda com representação parlamentar? Em primeiro lugar, o afastamento de alguma desta gente, os anarquistas nunca lá estiveram, do Bloco. Em segundo, uma recusa total em apoiar Manuel Alegre, o candidato também de Sócrates, como dizem. Em terceiro, uma certa aproximação ao PCP, com a esperança nunca verificada, de que este partido apoiasse um candidato unitário não comprometido com o PS, ou que, dado o seu esquerdismo verbal, os viesse a secundar na sua crescente radicalização social e política.

Em que é que as últimas lutas: manifestação anti-NATO e da Greve Geral, alteraram esta situação? Um maior afastamento dos movimentos radicais do Bloco, considerado um partido do sistema, ao aceitar integrar a parte da frente da manifestação anti-NATO e ao distanciar-se dos grupos que integravam a PAGAN, outra das plataformas que se propunha lutar contra a cimeira daquela organização militar, apesar de alguns dos seus aderentes continuarem a participar nela. E de não terem defendido uma manifestação no final da Greve Geral e terem-se ficado por um espectáculo de variedades na Praça da Figueira. Mas acima de tudo, e anterior àqueles factos, por ser um partido que concentra grande parte de sua actuação no Parlamento e apoia Manuel Alegre.
Em relação ao PCP, apesar de nunca terem morrido de amores pelos comunistas, achavam que teriam alguns pontos em comum. Rapidamente, na manifestação anti-NATO, verificaram o que é a acção trauliteira e sectária do PCP e é vê-los na net a desenterrar todo o conjunto de adjectivos que os seus pais espirituais de há cerca de quarenta anos despejavam sobre aquele partido. Por último organizaram uma manifestação anti-capitalista no dia Greve Geral, que garantem que foi um êxito, seguida de ocupação de uma casa da Câmara que estava devoluta . Tudo acções que não contaram com o apoio da CGTP e por tabela do PCP. A defesa do Francisco Lopes, como candidato à Presidência da República pelo PCP, também não tem contribuído para a sua aproximação àquele partido.

A esquerda está hoje profundamente dividida. Verifica-se de facto uma crescente esquerdização de sectores minoritários da sociedade portuguesa. Espero, no entanto, que isto seja o sinal de que alguma coisa está a mudar, que a correlação de forças será diferente no futuro e que possamos um dia ter a esperança de ter uma “esquerda grande” a governar este país.

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