02/02/2010

Não é bílis, é indignação


Como é costume não tenho qualquer reacção dos meus leitores, até o operário para todas as horas e circunstâncias se foi embora, no entanto, imagino que andarão todos a pensar este tipo anda bilioso, irritado com os comentadores - até lhes promete pancada -, com as agências de rating, com a direita, com o programa de Mário Crespo, Plano Inclinado, com José Sócrates e o seu Governo, no fundo, com os media dominantes.
A verdade é que posso andar zangado com o mundo, mas quem como eu passa o dia a ver, nas horas certas, os noticiários da TV e principalmente os comentários que a toda a hora as televisões por cabo nos impingem, não posso, sendo de esquerda, andar muito feliz da vida. Ainda hoje no noticiário da 14h00, da SIC Notícias, lá vem um fiscalista, parece-me que foi assim que o apresentaram, propor uma redução nos vencimentos da função pública, aí de uns 20%, que, segundo ele, não acarretava a pobreza dos seus trabalhadores e dava muito jeito para a redução do deficit do Estado. E como exemplo citava a Irlanda e outros países que já o tinham feito. Ora a verdade, que eu saiba, isso só se verificou na Irlanda, acho que a Grécia ainda não o fez, portanto acrescentar “e outros países” parece-me uma maneira hábil de dizer que baixar salários, principalmente os dos outros, é o pão nosso de cada dia por essa Europa fora.

Mas já agora conto-vos o que é o dia de um aposentado que quer estar a par do que vai pelo mundo. De manhã, como me levanto tarde, já só vejo os noticiários das 10h00 das televisões por cabo: SIC Notícias e RTP N. As duas têm uma revista de imprensa. Foi na primeira que ouvi as afirmações do José Manuel Anes. Vocês achavam que eu devia ficar calado? Quem cala consente e eu penso que eram suficientemente graves, apoiando-se num artigo ainda pior, para não merecerem qualquer referência. Vieram logo a público e pessoalmente garantir-me que eu estava a ser injusto para com tão simpática personagem. Partindo do princípio que há afirmações mais graves, que eu deixo passar, pode ser que tenham razão.
Mas voltando às revistas de imprensa. A da SIC Notícias é, de um modo geral, inócua, leva lá pessoas que, por uma razão ou por outra, vão sobressair nos próximos dias. Já na RTP N temos logo o comentador de serviço que nos dá a orientação ideológica para a leitura dos jornais do dia. Fica-se com a ideia que os comentadores oscilam entre os afectos ao PS e os ligados à direita, partindo do princípio que em termos ideológicos não há diferença entre PSD e CDS. Já se sabe que da esquerda, à esquerda do PS, nunca vi lá nenhum. Se os há, estão tão bem escondidos que não se notam.
Depois, na hora do almoço e ao jantar, eu escolho a RTP, a televisão oficial. Sobre essa remeto-vos para a opinião do Pacheco Pereira, que já escreveu muito sobre o assunto, principalmente sobre as intervenções do primeiro-ministro que não têm qualquer contraditório. Depois às 14h00 temos a SIC Notícias, lá vêm os comentadores do costume, escolhidos a dedo, que só por mero acaso terão alguma coisa a ver com a esquerda e isto repete-se no noticiário das 19h00 e durante toda a noite com o Mário Crespo, às 21h00, e a Ana Lourenço, às 22h00. Sempre as mesmas opiniões, as dos partidos do arco governamental, como lhes gostam de chamar.
Ainda hoje, o tal fiscalista, amigo dos funcionários públicos, garantia que os partidos à esquerda do PS não contam, já que não apresentam propostas exequíveis para governar. Como se o problema fosse deles e não deste pensamento dominante que impregna os partidos da direita, o Governo de Sócrates e os media que os apoiam, que são todos.
Não será isto motivo suficiente para indignação?


PS.: ainda esta noite, para discutir os 100 dias de Governo a SIC Notícias convidou José Miguel Júdice, pelo Governo – e que apoio – e Maria João Avilez, pela oposição de direita, e assim lá completamos o arco constitucional.

4 comentários:

Armando disse...

É este o pluralismo da informação por que tão denodadamente lutaram a direita envergonhada disfarçada de esquerda (Mário Soares e a facção de direita do PS), e a direita liberal (PPD) e conservadora (CDS) durante o PREC. Mas os escribas de serviço do PCP e do BE também se dedicam à manipulação da informação.
Por isso faço como durante os tempos da ditadura. Leio ao contrário e entre as entrelinhas.
Cumprimentos
A. Cerqueira

Jorge Nascimento Fernandes disse...

Caro comentador. Desculpe o atraso, mas nem sempre há oportunidade para responder.
Não quero discutir o que se passou no PREC, mas actualmente diga-me qual é o órgão de informação onde o Bloco e o PCP têm qualquer influência? Exceptuando os jornais partidários, estes dois partidos não exercem qualquer outra influência nos media, pelo menos nos grandes. Pode ser que em algum jornal da província isso se verifique.
Por isso, é difícil acusá-los de manipularem a informação.
Quanto aos tempos da ditadura, mesmo assim há uma enorme diferença em relação aos dias de hoje.
Apareça sempre

Armando disse...

Caro Jorge Nascimento Fernandes,

Obrigado pela sua resposta.

Não tenho por hábito, desde os inícios dos anos sessenta do século passado, produzir falsas afirmações ou difamar pessoas e/ou entidades. Como sabe, a manipulação da informação/comunicação é realizada, de diversas formas, por membros de forças partidárias, dirigentes ou simples simpatizantes delas, através de textos noticiosos, reportagens, preparação de textos de apoio, declarações, entrevistas, comunicados, etc, mediante informações truncadas, falsas, deturpadas, tendenciosas ou simplesmente parciais.

Esta actividade destes “novos democratas” do 27.04.74, geralmente sem provas dadas na defesa da democracia, da isenção e da imparcialidade, quando isso tem/tinha custos pessoais ou materiais, comparo-a à dos escribas de direita no antigo regime, sempre afoitos em mentir, deformar, deturpar, difamar, manipular. Antigamente e durante o PREC era o anti-comunismo bacoco, boçal, primário, hodiernamente é a intriga contra o PS e o actual Primeiro-Ministro. Não sou partidário do PS nem simpatizante do Eng. Sócrates. Apartidário, não desejo voltar a submeter-me à canga de Numenklaturas ou apparatchiki. Se o PS enquanto partido da média burguesia (a minha classe social), defensor do capitalismo, embora reformado e ligeiramente refreado, me repugna, mais me repugna a intriga difamatória desses pretensos jornalistas sem princípios, que confundem conscientemente a sua opinião partidarizada com o relato objectivo, completo e imparcial dos acontecimentos. Fabricam “factos políticos”.

Como compreenderá, não vou mencionar os nomes dos jornalistas (diria antes manipuladores da informação) desses partidos. São aliás acompanhados nessa Santa Aliança por outros dos partidos da Direita. Dir-lhe-ei apenas que os “órgãos de informação” são o Expresso, a SIC Notícias e o telejornal da TVI, e que no passado isso compreendeu a preparação de material para a inefável Manuela Moura Guedes.

È uma questão de valores e de princípios. Em que me formei. Hoje, como em 1962, continuo a defendê-los. Mesmo em favor daqueles com quem não me identifico. São valores e princípios para mim universais.

Cumprimentos cordeais.

A. Cerqueira

Jorge Nascimento Fernandes disse...

Obrigado pelo seu comentário. Estou parte em desacordo consigo, pois acho que sendo verdade algumas coisas do que diz, a verdade é que não há fumo sem fogo. Mas sobre esta crise actual já escrevi três posts. Tenho muito prazer que os leia e os comente