22/12/2008

“O regresso a Marx” de Pacheco Pereira


Pacheco Pereira (PP), que é entre os ideólogos da nossa direita aquele que provavelmente leu Marx e consegue, sem dizer disparates, alinhar duas ideias sobre o pensamento marxista, meteu-se no último Sábado, no Público* , contras aqueles que advogam um regresso a Marx. Arranjou uma série de moinhos de vento contra quem investir e resolveu, de uma penada, dizer mal dos comentadores apressados - as “modas mediáticas” - que falam de Marx, com a ignorância com que de um modo geral falam de tudo, da “esquerda independente” que advoga esse regresso e, por tabela, do próprio pensamento marxista.
De facto, se há hoje muitos comentadores que acham que já estaríamos a caminho do socialismo, porque o capitalismo está em crise e os Estados advogam uma maior intervenção na economia dos seus países, há igualmente aqueles que consideram que nos pressuposto ideológicos dessa intervenção estaríamos a seguir as propostas de Marx. Ou seja, como o Estado intervém, como o sistema capitalista está em crise e como há ricos e pobres em luta eis que Marx teria razão e seria necessário regressar a ele. Contra estes moinhos de vento é fácil a PP traçar armas.
Por outro lado, ele tenta criar alguma confusão ao atacar igualmente aquilo que ele chama a “esquerda independente” e as “modas mediáticas”: “Se ao menos o "regresso a Marx" se traduzisse numa leitura de Marx, um dos autores fundamentais da nossa contemporaneidade, ainda valia a pena. Não é isso que se passa, mas a deterioração acentuada do pensamento da chamada "esquerda independente" e das modas mediáticas”.
Não sei o é que PP entende por “esquerda independente”, se é a de Manuel Alegre, a do Bloco de Esquerda, a dos organizadores do Congresso Marx, de todos aquele que não se revêem no “marxismo-leninismo” do PCP.
Mas falemos de coisas sérias. Gostaria de responder a Pacheco Pereira com este interessante período, contido num artigo de Flávio Aguiar, saído no site brasileiro Agência Carta Maior: “os banqueiros do mundo estão lendo Marx, tentando discernir o que aconteceu. As esquerdas estão relendo Keynes, tentando discernir o que fazer.” Ora é isto que de certo modo os nossos articulistas não percebem e que serve a Pacheco Pereira para misturar no mesmo caldeirão todos aqueles que propõem, disparatadamente ou não, um regresso a Marx.
Vamos por partes. Tudo o que PP diz sobre a intervenção e o papel do Estado, não é de facto um regresso a Marx, mas sim a Keynes. Tal como o articulista diz no artigo citado a esquerda neste momento tem que reler Keynes porque andou muito à pressa a libertar-se do “estado social”. A Terceira Via trabalhista foi isso mesmo.
Mas onde PP se engana redondamente é quando afirma, aqui achincalhando e desvirtuando o pensamento de Marx: “Na crítica ao capitalismo moderno que Marx fez no Capital e em outros textos, na sua convicção "científica" da inevitabilidade da "autodestruição" do capitalismo, formulada em "leis" a que Marx e Engels atribuíam o mesmo estatuto das leis de Newton, nenhuma se aplica à actual situação de crise económica e financeira, nem as análises, nem as soluções.” Ora é isto que os autores marxistas contestam e se os banqueiros se vêm agora obrigados a ler Marx é porque poderão encontrar nele explicações para a crise que o sistema financeiro e produtivo capitalista atravessam. Já circularam na net diversos textos de autores marxistas que, à luz de Marx, explicavam esta crise. Posso dar um exemplo, mas há vários.
É evidente que há aqui uma questão importante e é essa que, de certo modo, despertou o renovado interesse das esquerdas em Marx e o manifesto ódio das direitas a esse renascimento. Com o desaparecimento do “socialismo real” não foi só o “marxismo-leninismo” que entrou em colapso, a direita na sua ofensiva contra aqueles que ainda pensavam que o comunismo seria uma saída, depois de devidamente expurgado as excrescências estalinistas, passou a atacar também Marx como um dos responsáveis pelo Goulag soviético. Parecia pois que o marxismo estaria enterrado para sempre nos escombros do Muro de Berlim e eis que ele renasce das cinzas, capaz, mais uma vez de dar um contributo para a explicação do mundo actual e para a sua transformação. Isto, não podem elas suportar.

*O link é para o Abrupto, o blog de Pacheco Pereira, já que não é possível aceder aos textos do Público sem pagar. Pacheco Pereira resolve no seu post publicar uma fotografia da estátua de Marx que está no seu túmulo no cemitério de Highgate, em Londres, acrescentando, por pura maldade, uma bicada contra as flores amarelecidas que teriam sido postas “por uma delegação do PC dos Estados Unidos, aquele que tinha mais membros do FBI do que militantes genuínos”. Não havia necessidade disto.
A fotografia que está no post é a do Abrupto

3 comentários:

Anónimo disse...

PP,é aquele amigo dos oliveiras e costas,cavacos,valentins,dias loureiros,a inenarrável 'prenda' qq coisa ferreira leite,a dos negócios com o citibank?É?e de toda a escumalha de vigaristas encartados da finança?
Criticou,cientificamente,o valor de uso de Marx?e pô-lo em causa?Desdisse a mais-valia e,criou um artificio(mesmo q seja,como alqueles algoritmos q nem os gestores de 'excelência' entendiam)?Não?Então não lhe ligue nenhuma,apesar daqueles que defendem a barbárie,também são bárbaros!!!A fina flor do crime,CRIME!

J. Eduardo Brissos disse...

Até podem ser ser os cravos que e eu lá deixei uma vez. Para que conste que não são apenas as delegações de PCs que visitam o túmulo e lá põem flores.
Um abraço para o Nascimento.

Jorge Nascimento Fernandes disse...

Penso que sejas o velho Brissos do Cineclube?
Um abraço igual
Nascimento