25/07/2009

Os amigos de Manuel Alegre, as nuances do discurso e compromissos e “esquerda grande”


Elaborei muito recentemente um texto em resposta a algumas controvérsias que atravessam a esquerda e que resultam de diferentes visões políticas para a sua acção. Porque penso que este debate é actual, e retirando do texto qualquer fulanização que pudesse existir, aqui vos deixo este post.

Quem é mais amigo de Manuel Alegre?
Ouvi na quinta-feira à noite a entrevista a Francisco Louçã a Judite de Sousa, na RTP 1, em que este falava de Manuel Alegre e fazia mais uma vez uma referência positiva à sua intervenção e às posições assumidas. Para um político que diz que pode fazer campanha a favor de um partido cuja prática seguida não se coaduna com o que quer o Bloco, é no fundo um pouco estranho que se lhe façam tão rasgados elogios. Por isso eu penso que o Bloco quer ser amigo de Manuel Alegre e conquistar a amizade deste.
Mas não é só o Bloco. A Associação Política Renovação Comunista vai lançar na segunda-feira, dia 27, às 18h00, na Associação 25 de Abril, o livro As Linhas de Mudança – Debate para a Alternativa e convidou para o seu lançamento e para intervir Manuel Alegre. Conhecendo as posições públicas de alguns renovadores de apoio a um dos participantes na pequena convergência conseguida para a Câmara de Lisboa, este convite tem um significado. Qual dos dois movimentos é mais amigo de Manuel Alegre? Mas não são só os dois citados, também a aproximação ente Helena Roseta e Costa se deve, segundo foi dito e escrito, a Manuel Alegre. Ou seja, este homem está em toda a parte, no discurso do Bloco, nos convites da Renovação, na aproximação de dois socialistas desavindos.
Isto só pode resultar ou de um discurso dúplice que está bem com todos ou no trabalho constante de aproximação de toda a esquerda. Acreditemos que seja esta última a razão destas recentes amizades políticas.

As nuances do discurso
Parece-me para mim claro que há quem à esquerda realce mais, no actual quadro da luta política, o problema da sua união contra o perigo da direita. Direita que desta vez, se governasse, fazia o pleno de um Governo, de um Presidente e até das principais câmaras do país. Nesse sentido têm sido feitos alguns discursos um pouco aterradores, chamando a atenção para o perigo que acarretaria o regresso da direita ao poder. Este é, podemos dizê-lo, o discurso mais antigo da esquerda, apelar à unidade contra os avanços da direita, que, no passado, era representada pelo fascismo.
Outros há que realçam mais a importância de que havendo uma maioria de esquerda essa esquerda se deve unir para formar Governo. Acham fundamental ter uns tantos ministros, que praticassem numa política de esquerda. Por isso, quando o Bloco acha que não deve ser muleta do PS, criticam-no severamente porque não apresenta um programa mínimo para que fosse possível haver convergência para governar. Chegam ao ponto de recorrer a uma metáfora, como a da construção da ponte da Arrábida, no Porto, para pôr em prática essa proposta. Ou seja, o Bloco construía um arco, o que partiu da margem esquerda do rio Douro, e esperava que o PS construísse o outro, o da direita, e que alguém pusesse o cimbre que os ligava (ver fotografia a ilustrar o que digo). Estes, sem subestimar o perigo da direita, dão particular relevo à governabilidade à esquerda, confiantes de que o PS viria a construir o arco em falta.
É evidente que a primeira hipótese pressupõe o apelo ao voto útil, apesar de haver alguns que dizem que, como a Assembleia da República é eleita pelo método de Hondt, não se justifica esse apelo. Ou seja, pareceria indiferente votar em qualquer partido da esquerda, já que o que interessava é que esta esteja em maioria. No entanto, há outros que não defendem isso, porque dizem que se o PS ficasse atrás do PSD, tal como sucedeu nas eleições europeias, Cavaco Silva chamaria o partido mais votado para formar Governo e a partir daí o caldo estaria entornado.
Na eleição para os executivos municipais, apesar de se utilizar o método de Hondt para distribuir os vereadores pelas diferentes forças políticas, a presidência vai sempre para o partido mais votado. Por isso, a táctica seguida por alguns lisboetas de esquerda foi apelar à convergência de esquerda contra o Santana, que não foi nomeado. Alguns ficaram muito satisfeitos com a pequena convergência conseguida entre Costa, Sá Fernandes e Helena Roseta. Aqui, é interessante, funcionou a primeira hipótese. Pois, que eu tivesse reparado, não se garantiu, apesar dos acordos aprovados, a eleição de vereadores para praticarem uma política de esquerda. Não se discutiu um programa mínimo conjunto que pudesse dar essa garantia. Acredita-se que Sá Fernandes e Helena Roseta cumpram esse desiderato.

Compromissos e “esquerda grande”
A primeira parte desta dicotomia já foi, de certo modo, discutida no ponto anterior. No entanto, gostaria de sublinhar outros aspectos. Alguns acham que é muito importante ter influência no Governo, ter alguns ministros favoráveis às políticas de esquerda e que para isso é necessário compromissos, acordos, propostas de programas mínimos, ou seja, propõem uma panóplia de processos que permitissem a esquerda e neste caso o Bloco, já que o PCP está fora de questão, poder apoiar e mesmo entrar para o Governo. Nesta constante crítica, não têm qualquer certeza se a outra parte, o PS, quer isso. A sua prática continuada não é essa. Mas eles insistem que se deve fazer mais um esforço. E pensam que dentro do PS há gente que, apoiada no exterior, era capaz de forçar essa possível convergência. Ou seja, o Bloco deveria orientar a sua estratégia em função de uma remota possibilidade de influenciar os elementos de esquerda no PS. Ainda agora o Manuel Alegre teve que constatar que nenhum dos seus elementos, quer do PS quer dos independentes, faz parte das listas apresentadas por aquele Partido para a Assembleia da República. A única vitória que conseguiu, e isso já satisfez muita gente, foi ter conseguido pôr Alberto Martins em primeiro, no Porto, em vez de Teixeira dos Santos, o ministro da economia.
Que nos propõe o Bloco e que para mim ficou claro na entrevista referida. Este partido, acha que não pode fazer cedências ao bloco central, que alternadamente tem governado Portugal. Mas se o PS for Governo e quiser aprovar medidas de esquerda, os votos de o Bloco nunca lhe faltarão e citou o exemplo do trabalho conjunto desenvolvido na luta pela legalização do aborto. Propôs uma esquerda grande que englobaria Manuel Alegre e os PS de esquerda que a quisessem engrossar e todos os independentes, que neste momento se encontram entre um e outro partido. No fundo, se bem percebo, propõem-se agregar uma esquerda que seja alternativa a este centrão que, segundo ele, nos desgoverna.
Alguns, um pouco na linha do PCP, mas de sentido contrário, dizem que estas propostas do Bloco são iguais às do PCP. Imobilistas e incapazes de forçar alianças à esquerda. O PCP diz quase a mesma coisa, por outras palavras, esta gente é louca, com Manuel Alegre e com a esquerda do PS não se vai lá, estão sempre prontos a trair e a regressar ao PS.
Ora bem, eu acredito nesta alternativa de esquerda grande, que está a romper o tradicional bloqueio em que o PCP e o PS tinham lançado a esquerda. É uma esquerda que está a engrossar e entrou em diálogo com quem achou que devia entrar. Não se meteu nos caminhos ínvios dos compromissos, das intrigas palacianas, na procura de quem é quem no PS, para mais uma vez falhar e não conseguir nada. É uma esperança, que como sempre pode sair completamente furada, tão furada como para aqueles que estão sempre à procura de sinais no PS.

8 comentários:

operário numa de ouvidor disse...

-Bem,não é mau confessar-se crente nessa coisa a que dá o nome de esquerda grande e que ninguém sabe muito bem o que foi ou é só se sabe que o sTº chico bloquista a baptizou assim de ""esquerda grande ""que embora seja grande não é grande coisa como veremos adiante.... aquela que engloba Manuel, o triste poeta Protestante mas muito capaz de ir colar cartazes do Sócrates (-Já dizia o velho das barbas, que isto de filosofar é uma grande treta- para não dizer outra coisa mais feia...---)
-Há quem creia nas horas vagas, em deus pai tudo poderoso criador ...lá vamos nós na valsa da burguesia trá´, lá ,la ...

VÍTOR DIAS disse...

Muito bem, J.N.F. !. É mesmo a coisa mais limpa, mais decente e mais transparente fazer um link em cima de «o PCP diz» e o leitor vai lá e encontra um «post» num blogue.

Que tal aplicar o método a todos os bloggers e os os partidos ?

Não, isso não pode ser,orque quando eu quisesse fazer isso «renovação comunista» não saberia se «linkaria» para aqui ou para algum «post» do Cipriano Justo que bem me parece estar noutra onda.

Jorge Nascimento Fernandes disse...

Simplesmente no PCP a onda é sempre a mesma. Lincando para um site próximo do PCP não estarei a faltar à verdade se ele não reflectir o que pensa este partido sobre o assunto. Ou o Victor Dias escreve coisas diferentes do que pensa o seu partido. Já se sabe, como eu não tenho que respeitar a hierarquia oficial, não me obrigo a colocar sempre no post os comunicados oficiais, nem, como já uma vez me sugeriu, a considerar como a versão oficial dos factos, não o que os redactores do Avante escrevem, mas sim os comunicados do Comité Central.
Mas fugindo um pouco a esta retórica, poderia ter dito “que alguém próximo do PCP tinha dito”, que de certeza que aquilo que o militante dizia era o mesmo que o PCP pensava. De facto, seria mais sério.
Mas Victor Dias não se amofine tanto, porque ainda hoje vi um post seu em que justificava o afastamento de alguns intelectuais do Bloco para o PS, esquecendo-se dos muitos, e alguns bem importantes, que se estão a afastar do PCP para apoiarem o António Costa, também seduzidos pelo voto útil e pelas “obras” daquele. Não podemos ver o argueiro no olho do vizinho e não vermos no nosso.

VÍTOR DIAS disse...

Pronto, Jorge Nascimento Fernandes, está tudio bem se não mesmo magnífico quanto a metodologia de identificação de posições partidárias.

Ficamos a saber, que quer em termos de substância quer de forma (como e o JNF não soubesse a importância da forma nestes casos),qualquer blogger que seja comunista representa o PCP.

Mas, olhe, eu não tenho a pretensão de representar (mais claro: não represento mesmo) e, como não faço consultas antes de escrever os «post» bem pode acontecer algum dia pensar coisa diferente do que pensa o PCP.

Mas, mesmo que isso seja improvável, sempre restaria a evidência de que um blogger trata de assuntos e usa argumentações que o seu Partido não tem tempo nem obrigação de tratar e usar.

Por fim, só uma pergunta final: o JNF quando quer identificar posições do PS, do BE, do PSD ou do CDS também faz links para «posts» de bloggers dessa área ?

Jorge Nascimento Fernandes disse...

Deixando-nos de tretas. Se quer que lhe diga foi o argumento que encontrei mais à mão no google para exemplificar qual a opinião do PCP sobre o assunto e que, de facto, não deve ser muito diferente. Como também não é muito diferente a opinião que o Vítor Dias tem sobre o mesmo tema.
Já agora quanto a moral, parece-me completamente abusivo da sua parte, a não ser para efeitos políticos pouco sérios, chamar à Renovação Comunista, “Renovação Socialista ou do PS”, quando sabe que, até porque a RC não é um partido, mas sim um movimento, com ampla liberdade estatutária, que as opiniões de um ou de vários dos seus dirigentes não implicam o seu colectivo, aqui sim, que se expressa em comunicados que são assinados Renovação Comunista. E como o Sr. já com certeza leu nos meus textos, sou fortemente contrário ao voto útil e na argumentação não tenho nada a acrescentar ao que o senhor tem escrito.

VÍTOR DIAS disse...

Terminando:

Caro J.N.F.: então com a sua experiência mordeu o anzol ao vir escrever que quanto à RC «as opiniões de um ou de vários dos seus dirigentes não implicam o seu colectivo, aqui sim, que se expressa em comunicados que são assinados Renovação Comunista.»

Já reparou no que aqui vai de diferenças de critérios por comparação com o PCP que esse, pelos seus critérios, já é representado por qualquer blogger que seja comunista ? E isto quando há tantas declarações e comunidos e discursos do PCP sobre as matérias mais relevantes ?
Mas nem tudo são diferenças entre nós felizmente. Já tinha deduzido que não andava a fazer festas a um certo gato.Fica-lhe bem.
Boas férias, se for o seu caso neste Agosto.

Jorge Nascimento Fernandes disse...

Você quer sempre ficar por cima. Olhe que nem sempre é possível. Neste caso tive o cuidado de diferenciar que a Renovação não era um partido e tinha ampla liberdade estatutária. Ao contrário do PCP que é um partido e que pratica o "centralismo democrático", em que as opiniões de um camarada reflectem as do partido.

VÍTOR DIAS disse...

Francamente, Jorge Nascimento Fernandes, não quero ficar nada por cima e não voltarei a falar disto.

Mas deixe-me que pergunte com a máxima seriedade : você sente-se bem a escrever que no PCP,e por causa do nefando «centralismo democrático», «as opiniões de um camarada reflectem as do partido» ?

Se assim fosse, para que serviria haver órgãos dirigentes, responsabilidades diferentes etc, etc, etc.

Não seria mais decente, mais prudente e mais de acordo com a vida como ela é e com a verdade como ela é reconhecer antes que muitas vezes as opiniões de camaradas não reflectem as do Partido ?