29/11/2008

“Substituir uma fezada por outra” ou a conversão de António Gramsci


Nesta ânsia de estarmos permanentemente a actualizar os nossos blogs somos muitas vezes levados pela análise superficial, pela piada dita engraçada, pelo comentário sem substância. Eu próprio sou arrastado pela necessidade de todos os dias assinar o ponto e por isso de me perder na espuma dos dias.
Vem tudo isto a propósito de um post que Joana Lopes inseriu no seu blog sobre uma pretensa conversão de António Gramsci no leito de morte à Santa Teresinha do Menino Jesus. A novidade foi dada por um arcebispo italiano, a imprensa daquele país rapidamente pegou nela e vem reproduzida no Público.es de Espanha.
Rui Bebiano enquadra-a perfeitamente e considera-a que se trata “de uma provocação anticomunista, digna dos melhores tempos da Guerra Fria.” Eu não diria melhor, mas não deve andar muito longe das provocações católicas, que sempre utilizaram Fátima com essa mesma finalidade, inclusive a da conversão da Santa Rússia.
Mas o que nos diz Joana Lopes “A ser verdade, não foi o primeiro – e não terá sido o último – a substituir uma fezada por outra. (Amanhã, vou ler o Avante! com uma atenção redobrada.)”
Sem considerar que há personagens intocáveis, encontramos pelos menos alguns pensadores e políticos que pelo seu sacrifico pessoal, pela sua postura, e pela sua inteligência – o juiz fascista que o condenou à prisão dizia que era necessário impedir este homem de pensar – que merecem um pouco mais de rigor na apreciação das suas vidas. Não se pode impunemente, a propósito de António Gramsci, dizer que substituiu uma fezada por outra.
Gramsci foi sem dúvida nenhuma, entre os intelectuais que foram responsáveis por aquilo que se costuma designar por “marxismo ocidental”, um dos pensadores mais originais e que mais se distanciaram da visão estalinista do mesmo. Os conceitos que desenvolveu de “hegemonia”, de “bloco histórico” ou o de “guerra de posição”, aquela que corresponderia à luta possível da classe operária ocidental, são hoje extremamente importantes na luta política.
Nos comentários ao post de Joana Lopes há logo alguém, um erudito em relação ao que se publica em inglês, que vem afirmar que está ser editado naquela língua uma edição crítica dos “Cadernos do Cárcere”, tendo já sido editado o terceiro volume. Pois eu informo que no Brasil, em português, já existe uma edição daqueles Cadernos em seis volumes, dirigidos pelo gramsciano Carlos Nelson Coutinho (edição de Carlos Nelson Coutinho, com a colaboração de Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2001), que escreveu igualmente, para quem estiver interessado, um estudo sobre o pensamento político Gramsci (Gramsci – um estudo sobre o seu pensamento político, Civilização Brasileira, 1999)
Para terminar lembraria à Joana Lopes que só por grande ironia é que o Avante! dedicaria algumas linhas a Gramsci, pois o apego do PCP ao marxismo-leninismo há muito que impediu de pensar e encarar outras correntes do marxismo.
PS.: é evidente que esta crítica ao post da Joana Lopes não invalida a qualidade do seu blog, nem o belo trabalho que tem desenvolvido em Caminhos da Memória.

4 comentários:

JMC disse...

Jorge.

Vá-se lá saber do que a alma humana é capaz nas horas de aflição. Não se admire se nesse tempo em que é pressentido o aproximar do fim a razão deitar balanço à vida e das mais profundas convicções surgirem lancinantes dúvidas, até então laboriosamente afastadas, que um último rasgo de lucidez transforma em certezas. Desses balanços, raros passaram a escrito, e o que resta de muitos são meros testemunhos de fugazes confissões.

O que me parece estar em causa não é a abjuração do comunismo por parte do Gramsci, mas tão só a sua conversão ao catolicismo. Esta não é hipótese assim tão absurda, considerando a heterodoxia do marxismo gramsciano e a similitude entre o marxismo, enquanto religião profana, e as religiões sagradas, nomeadamente, o cristianismo, não só quanto aos objectivos, mas também quanto aos modos de crença: os mesmos objectivos de alcance da felicidade humana e a mesma crença pela fé numa profecia messiânica.

Por razões similares, muitos católicos não encontram qualquer incompatibilidade entre a sua fé religiosa e a sua militância comunista. E quando nos debruçamos sobre os discursos do Cunhal sobre o PCP, por exemplo, facilmente se depreende que as prescrições para a ligação dos comunistas ao seu partido têm bastante similitude com os deveres que devem dos devotos de uma qualquer seita religiosa, que o comunismo é encarado como algo de sublime e de sagrado, que realizaria a redenção dos pecados da humanidade e a libertaria enfim das trevas do mal, e que os comunistas se devem comportar como verdadeiros ascetas e puritanos, como os melhores de entre os melhores, para serem merecedores de integrarem o povo eleito.

Numa época em que o comunismo anda pelas ruas da amargura, não vejo a ICAR a procurar inserir a pretensa conversão do Gramsci em qualquer campanha anti comunista. E também não me apercebi de que a notícia, embora a tenha lido apenas de relance, refira qualquer abjuração do comunismo. Para a ICAR, uma tal conversão poderia estar implícita, mas nem é seguro que a hipotética conversão obrigasse à abjuração. Para negar a pretensa conversão, os crentes no comunismo também só dispõem de testemunhos, e estes talvez indirectos. O cepticismo é, portanto, a posição mais segura. Mas parece-me insensato pretender inserir a notícia em qualquer teoria da conspiração. Antigamente, também as denúncias dos crimes do estalinismo foram tidas como provocações do imperialismo.

Desde há muitos anos, a obra do Gramsci é alvo de interesse no Brasil. Concepção dialética da História, Cartas do cárcere e Maquiavel, a política e o estado moderno, por exemplo, foram editados pela Civilização Brasileira ainda nos anos sessenta. Isso é revelador do interesse da intelectualidade brasileira pelo marxismo. Não é por acaso que as únicas edições integrais em português, com alguma qualidade, de O Capital sejam edições brasileiras. Entre nós, o interesse pelo marxismo não ultrapassou a fase de estudo dos catecismos, na sua versão marxista-leninista, e isso patenteia-se também pela não edição das obras fundamentais dos clássicos.

JMC.

Jorge Nascimento Fernandes disse...

Caro JMC

Mais uma vez fugirei à discussão sobre o essencial do seu comentário. Só gostaria de lembrar a propósito das traduções de obras de Gramsci que cita o seguinte:
Ao referir o nome de Carlos Nelson Coutinho, intelectual marxista brasileiro que há muitos anos tenho vindo a ler, estabeleci um link para a apresentação da obra "Cadernos do Cácere" feitas pelo seu próprio organizador. Se leu esse link, as obras que referiu não são mais do que os "Cadernos do Cárcere", com o nome antigo com que foram publicadas originalmente em Itália. Posteriormente Valentino Gerratana organizou os Cadernos que Gramsci escreveu na prisão de um outra forma, parecida com aquela que o próprio Gramsci utilizou, e fez uma publicação crítica em vários volumes desses Cadernos em Itália. A mesma editora brasileira, mas agora com donos diferentes, que de facto já tinham traduzido, partes desses Cadernos, de acordo com os nomes das edições originais italianas, resolveu agora seguir a edição crítica de Gerratana, com algumas modificações introduzidas por Nelson Coutinho, dando-lhe o nome porque agora é conhecido em todo o mundo de "Cadernos do Cárcere". Espero que tenha sido claro. Para mais explicações vá ao link que eu referi.

JMC disse...

Jorge.

Não segui o link que deixou, não. Nem a referência que fiz àquelas obras do Gramsci se deveu a qualquer falta de clareza da sua parte. As obras que citei são as que possuo aqui, na minha estante, e que por estarem agrupadas num relance pude referir.

Li-as há muitos anos. Talvez tenha relido um ou outro trecho de uma ou outra obra em qualquer altura posterior, mas apenas por curiosidade. A obra gramsciana não me despertou qualquer interesse. Como tentativa de recriar uma táctica política revolucionária exequível, não atinge a sagacidade do Lenine e pareceu-me desprovida de utilidade.

JMC.

Jorge Nascimento Fernandes disse...

Gramsci não é um autor fácil. Não escreveu, pelo menos nos "Cadernos do Cárcere", que eram espiolhados pelos seus carcereiros, qualquer “tentativa de recriar uma táctica política revolucionária exequível”. Os temas abordados foram muitos, a maioria relativos a questões da cultura nacional italiana, só em “Maquiavel, a política e o Estado Moderno” há algumas abordagens políticas, como aquela de que eu falei sobre a “guerra de posição”. Nesse sentido, quem queira encontrara em Gramsci, dos “Cadernos do Cárcere” uma proposta imediata de acção, não deve começar por este revolucionário. Provavelmente uma melhor aproximação a Gramsci é ler alguns autores que o estudaram e fazem a divulgação do seu pensamento. O livro de que falei de Carlos Nelson Coutinho é uma boa introdução.