08/11/2008

"In Memoriam" de Carlos Porto


Conheci o Carlos Porto na Livraria Divulgação, que se situava na Rua D. Estefânia, perto do largo do mesmo nome. Ele e sua mulher (ver fotografia ao lado) eram à data os seus principais e únicos livreiros. Sabia que este conhecimento datava de meados dos anos 60, não conseguia precisar o ano.
Fui por isso procurar na Net alguma informação disponível sobre aquela livraria. Neste post encontrei o que procurava.
A Divulgação, cuja a sede era no Porto, abriu uma sucursal em Lisboa, em 1964. Fernando Pernes foi, até 1965, o seu primeiro responsável. Deixa à sua frente um jovem que eu conheci, o Soares da Costa, que na altura se apresentava como cine clubista, pois tinha trabalhado no Cine-Clube do Porto, e era um dos responsáveis aqui em Lisboa por uma revista de cinema, que aquele Cine-Clube editou. Ainda tentei lá publicar uma crítica ao filme que na altura muito me impressionou, o Evangelho Segundo Mateus, de Pasolini. Devia ser tão má, que nunca viu a luz do dia.
Segundo as informações que recolhi, a Soares da Costa seguiu-se o Carlos Porto, que veio, com a sua mulher, viver para Lisboa, para trabalharem na Livraria. O ano não está indicado. Mas eu apontaria para meados dos anos 60. Penso até, que o Carlos Porto chegou a trabalhar conjuntamente com o Soares da Costa.
É evidente, que esta informação impessoal, pouco acrescenta à biografia daquele crítico de teatro. Simplesmente para mim, naquela época, a Livraria Divulgação não era um local sem importância.
Todos os dias, provavelmente com algumas falhas, eu visitava aquela Livraria. Nessa altura, passava os meus dias no Cine-Clube Universitário de Lisboa (CCUL), cuja sede era perto da Praça do Chile, na Rua José Estêvão, e que, por sua vez, estava quase ao lado do cinema onde eram realizadas as sessões , o Imperial, hoje já desaparecido. Em anos de maior actividade o Cine-Clube chegou a ter sessões no Rex, aos Anjos (Av. Almirante Reis) e para captar o público de outras zonas da cidade, em Campo de Ourique, no cinema Paris. Tudo cinemas que pertencem ao passado.
Do Cine-Clube à Divulgação era um passo, e aquele jovem que eu era na altura, lá ia todos os dias cavaquear com o Carlos Porto e a sua mulher. Penso que me foi apresentado pelo Carlos Araújo, que viria depois a estar bastante ligado ao mundo da edição. Hoje, não sei se ainda trabalha para alguma editora, mas, antes do 25 de Abril, esteve na D. Quixote e foi o responsável pelos seus Cadernos, para cuja colecção de cinema ainda traduzi alguns textos.
Paravam na altura na Divulgação um grupo de jovens, alunos do Liceu Camões, que animavam com as suas risadas e piadas as longas tardes que nessa altura usufruíamos. Carlos Porto e a mulher tratavam aquele grupo como se fossem os seus filhos. Eu, um pouco mais velho, já estudante universitário com longa rodagem, gostava de larachar com os “miúdos”. A maioria seguiu para Direito, onde os fui encontrar na Secção Cultural. Ainda me convidaram para participar num colóquio com o Eduardo Prado Coelho e o Jorge de Silva Melo, penso que para falar do Blow-up, de Antonioni, e do Acidente, do Joseph Losey. Como me senti pequenino ao pé daqueles, já na altura, “importantes” intelectuais. Um dos jovens da Divulgação é hoje juiz no Tribunal Constitucional. É o Gil Galvão.
Mas, regressando ao Carlos Porto e à Divulgação. Era lá que de um modo geral eu comprava os meus livros proibidos. Deram-me crédito e um desconto de 10%, até à altura em que a Associação dos Livreiros proibiu qualquer desconto nos livros. Assim, aos poucos e poucos fui construindo a minha biblioteca. Quando a livraria foi vendida à Bertrand, em 1968, a minha dívida era significativa, paguei-a durante vários meses em suaves prestações.
Era lá que o Carlos Porto todas as semanas me guardava uma revista espanhola chamada Triunfo, de grande tiragem. Semelhante, por exemplo, à actual Visão. Há época, para nós, que tínhamos uma censura férrea, a revista foi uma grande novidade e em Espanha teve um papel importante na luta contra Franco. Também me guardava todos os meses uma revista espanhola de cinema, chamada Nuestro Cine. A sua filiação era marxista e, de um modo geral, era lá que ia buscar as críticas aos filmes que o Cine-Clube exibia.
Foi na Divulgação que também assisti à sessão de autógrafos do poeta soviético Ievtuchenko (Maio de 1967), de quem tinha sido lançada a Autobiografia Prematura, pela Dom Quixote. “Ainda hoje conservo a assinatura do poeta na foice e martelo que fazia parte de uma das suas fotografias que compunham o livro. Para quem não se recorde, Ievtuchenko foi autorizado a entrar em Portugal, conjuntamente com milhares de peregrinos que vinham de Espanha, para participar nas cerimónias de Fátima presididas por Paulo VI.” Escrevi isto num post a propósito e um livro de Joana Lopes Entre as Brumas da Memória.
Penso que coincidiu a venda da Livraria com a minha saída de activo colaborador do Cine-clube. A Divulgação acabava e com ela uma parte da minha vida. Depois, passei a frequentar a Livrelco, uma cooperativa livreira universitária, que a determinada altura foi tomada de rompante pelo MRRP, tal como depois foi a vez do CCUL. Mas eu já não pertencia à sua Direcção.
Carlos Porto, que eu me lembre, foi depois para uma livraria ao cimo da Rua Nova da Trindade, a Opinião. Fui lá uma tantas vezes. Não me ficava em caminho.
Encontrei-o ao longo da vida nos teatros que frequentei e no Partido, a que ambos pertencíamos, e sempre recordávamos, com a sua mulher, aquele grupo de jovens aguerridos que durante as tardes frequentavam a sua livraria.
A última vez que o vi, já muito abalado, foi na homenagem (30 de Outubro de 2007) promovida pelo ABC Cineclube ao seu antigo dirigente e crítico de cinema Manuel Machado da Luz.
Um abraço
Carlos Porto

3 comentários:

JMC disse...

Jorge.

Apenas uma pequena correcção: o Paris não ficava em Campo de Ourique, mas na Graça.

Lembro-me, porque era lá que via, a preços módicos de cinema de bairro, as reposições das grandes fitas que não podia ver nas estreias.

JMC.

Jorge Nascimento Fernandes disse...

Lamento desiludi-lo, mas eu morava na Graça, ou lá perto, e frequentei o Liceu Gil Vicente. O cinema da Graça era o Royal, que hoje está transformado em supermercado. Sobre isto não tenho a mais pequena dúvida. Ainda um dia hei-de fazer um post sobre os cinemas da minha juventude.
Mas tenho muito gosto em vê-lo pelo meu blog

JMC disse...

Jorge.

Depois de escrever o comentário, caí em mim acerca da confusão que fizera. Voltei aqui a propósito para corrigir o meu erro, antes mesmo de saber do seu comentário de resposta.

Tem toda a razão. De facto, na Graça era o Royal, que desde há muitos anos está transformado em supermercado, como já verifiquei em tempos. Vi lá muitas cowboiadas e outras fitas.

Na Lisboa daquele tempo existiam imensos cinemas de bairro, e quem gostava de cinema, mas tinha de contar os tostões e não podia ir às estreias nas grandes salas, frequentava as reprises das boas fitas nesses cinemas, sempre à coca a catá-las nas páginas de espectáculos dos diários.

Não mais esqueço que para assistir ao Easy Rider, pela primeira vez, há quase quarenta anos, tive de ir a uma sessão da meia-noite no cinema Lumiar, à Calçada de Carriche.

As minhas desculpas pelo lapso.

Não tem de agradecer a visita. Mesmo sem deixar comentários, sou visitante diário.

JMC.