04/07/2008

O caso de Ingrid Betancourt


Sei que vou causar alguma perplexidade, mas não alinho nesta orientação de uma certa esquerda bem intencionada, cheia dos valores, mas incapaz de compreender as situações, os confrontos político-ideológicos do mundo de hoje, no fundo de ser capaz de ir contra a corrente, convencida que por ter apoiado, em alguma fase da sua vida, alguns crimes abomináveis, pode esquecer de que lado está da “barricada” e alinhar, mesmo que inconscientemente, com as posições da direita. É complexo e nem sempre é fácil, mas por vezes temos que tomar partido.
Vem tudo isto a propósito da libertação de Ingrid Betancourt e de mais 15 reféns, que, segundo a versão do Governo colombiano, foi executada com mestria pelos seus serviços de secretos (inteligência é um anglicismo, que alguns querem recuperar para o português) que se infiltraram nas FARC e conseguiram, enganando os seus raptores, retirá-los da selva.
Esta é a notícia resumida por mim. A Esquerda.net dá igualmente a notícia com alguns pormenores curiosos. Primeiro, de acordo com um porta-voz de um Instituto, há sempre um Instituto a pronunciar-se: "Com este resgate, que ganha forte apoio popular, o governo fortalece a sua posição de que a solução para a Colômbia é a saída militar, sem diálogos nem negociações". Segundo, os reféns, além de Ingrid Betancourt, eram três americanos. O que estariam lá a fazer? Sabe-se, porque as televisões o disseram, que um deles era luso-americano e que era segurança de uma companhia norte-americana que estaria ligada ao combate ao narcotráfico. Os restantes onze eram soldados e polícias do Governo colombiano. Terceiro, ainda de acordo com a Esquerda.net, esta operação contou com "estreita cooperação" dos Estados Unidos, segundo confirmou o embaixador americano em Bogotá.
Perante a pressão dos media o PCP elabora uma nota a esclarecer a sua posição. Incapaz de pegar o toiro pelos cornos, fica-se pelas meias palavras e pela ambiguidade costumeira. No entanto, ao contrário do que alguns comentadores acham, a nota contém alguns pontos que eu subscreveria. O primeiro afirma que, dado haver centenas de prisioneiros em ambos os lados do conflito, é necessário encontrar uma solução humanitária entre as partes. O que me parece ser correcto. Segundo que é preciso encontrar uma solução política e negociada para o conflito que se arrasta há mais de 40 anos. O que também é verdade.
Por último acrescenta-lhe uma frase de circunstância que diz que os comunistas portugueses apoiam a luta do povo colombiano contra “a opressão e exploração, pela justiça social, pela democracia e soberania nacional.”
A única coisa importante que não diz, como deixa no limbo muitas outras coisas que deveria dizer, é que se regozija com a libertação de Ingrid Betancourt.
Ao contrário dos nossos comentadores nacionais eu pouco sei do historial das FARC e da realidade colombina. No entanto, um dos exemplos mais flagrantes do que é a pobreza e a necessidade que ela gera, encontrei-o na Colômbia, quando profissionalmente, tive que me deslocar a Cartagena das Índias.
Sei que as FARC são um grupo guerrilheiro, que se declara marxista, pelo menos assim é apodado por todos os media. Mas também no seu tempo, Salvador Allende, quando era referido nos meios de comunicação social, tinha sempre associado ao seu nome o epíteto de marxista.
Sei que a Colômbia é governada por uma oligarquia muito pouco democrática, com grande apoio dos norte-americanos e que a guerrilha conduz há muito tempo uma guerra contra os vários governos. Com estes dados, e apesar das FARC serem consideradas pela União Europeia e pelos Estados Unidos como grupos terroristas, eu tenho muitas dúvidas em classificá-las assim e tenho a certeza que as operações dos Estado Unidos na América Latina visam sempre a manutenção das oligarquias no poder e que não têm qualquer intenção de democratizar e de resolver os problemas sociais daqueles países em que intervêm.
Reconheço que o caso da refém Ingrid Betancourt era sem dúvida uma história infeliz, que Chavez, e bem, tentou resolver a contento de todos, mas que, segundo parece, o Governo de Uribe sempre tentou sabotar, tendo conseguido agora libertá-la, com grande êxito propagandístico. Por isso, nós, comuns mortais, neste mundo onde a propaganda e contra-propaganda são o prato forte da acção política, temos que ter algum distanciamento para não embandeirarmos em arco com qualquer acção dos meios da direita dominantes. Isto para não empregar o termo imperialista que fere tantos ouvidos sensíveis.
Saudemos a libertação de Ingrid Betancourt e reconheçamos que esta operação, a ser verdade aquilo que nos contam, ver um artigo de Rebelion, foi uma operação de propaganda favorável ao Governo de Uribe e aos seu aliados norte-americanos, para não falar de Sarkosy.
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PS. (5/07/08): alguns amigos falaram-me da posição de Fidel de Castro sobre este tema. Fui ler no original o artigo que escreveu, muito mais longo e sobre outros assuntos, mas do qual respigo este texto (em espanhol), que me parece ser a posição mais correcta sobre a libertação dos reféns.
"Ingrid Betancourt, debilitada y enferma, así como otros cautivos en precarias condiciones de salud, difícilmente podrían resistir más tiempo.
Por elemental sentimiento de humanidad, nos alegró la noticia de que Ingrid Betancourt, tres ciudadanos norteamericanos y otros cautivos habían sido liberados. Nunca debieron ser secuestrados los civiles, ni mantenidos como prisioneros los militares en las condiciones de la selva. Eran hechos objetivamente crueles. Ningún propósito revolucionario lo podía justificar. En su momento, será necesario analizar con profundidad los factores subjetivos.
En Cuba ganamos nuestra guerra revolucionaria poniendo de inmediato en libertad y sin condición alguna a los prisioneros. Entregábamos a la Cruz Roja Internacional a los soldados y oficiales capturados en cada batalla, ocupando solo sus armas. Ningún soldado las depone si lo espera la muerte o un tratamiento cruel.
Observamos con preocupación cómo el imperialismo trata de explotar lo ocurrido en Colombia para ocultar y justificar sus horrendos crímenes de genocidio con otros pueblos, desviar la atención internacional de sus planes intervencionistas en Venezuela y Bolivia, y la presencia de la IV Flota en apoyo de la línea política que pretende liquidar totalmente la independencia y apoderarse de los recursos naturales de los demás países al sur de Estados Unidos." Fidel de Castro.

8 comentários:

Anónimo disse...

Empresas apoiam militares colombianos
Conselheiros israelitas implicados na libertação de Betancourt
04.07.2008 - 10h11 AFP
Os preparativos da libertação de Ingrid Betancourt e 14 outros reféns das FARC tiveram a participação de dois conselheiros israelitas, segundo noticiou hoje a rádio militar deste país.

Não foi fornecido qualquer elemento sobre o papel destes conselheiros, mas a rádio recordou que Ingrid Betancourt comparou a operação dos militares colombianos às do Exército de Israel.

Segundo o diário “Haaretz”, dois oficiais superiores há pouco tempo na reforma, os generais na reserva Israël Ziv e Yossi Kuperwasser, dirigem em Bogotá uma empresa de consultoria que emprega dezenas de antigos membros de unidades de elite e dos serviços secretos de Israel.

Esta empresa, a Global CST, obteve um contrato de dez milhões de dólares (6,37 milhões de euros) na Colômbia, após autorização do Ministério da Defesa para ajudar as forças especiais na luta contra as FARC, conta ainda o “Haaretz”.

“Fornecemos meios sofisticados às forças especiais para combaterem a guerrilha”, disse por seu lado Israël Ziv ao diário “Yediot Aharonot”. Segundo este antigo chefe de operações do Exército israelita, a sua empresa “está profundamente implicada” na ajuda às forças especiais colombianas, mas não nesta operação específica.

Israel não confirma nem desemente

O porta-voz do Ministério da Defesa israelita, Shlomo Dror, não quis confirmar nem desmentir a notícia, invocando à AFP que “o ministério não pode dar qualquer informação sobre a acção dos conselheiros militares israelitas”.

Confirmou no entanto a existência de “empresas privadas israelitas no domínio da segurança a funcionar na Colômbia com a autorização do ministério”, mas disse ignorar os detalhes das suas operações.

As forças especiais colombianas deverão ter equipamento de ponta, como armas de assalto israelitas Tavor com visor holográfico, metralhadoras M-4 e helicópteros americanos Blackhawk.

Estas unidades são aconselhadas por mais de mil boinas verdes americanos, instrutores israelitas e membros das SAS britânicas. Israel vende há vários anos à Colômbia aviões de combates, “drones” (aparelhos aéreos que soam sem transportar piloto) e sistemas electrónicos de detecção.
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1334439

Jorge Nascimento Fernandes disse...

Acho que este post de anónimo, que andou a espalhá-lo por outros blogs, vem na linha do que eu disse. Portanto não necessita qualquer outro comentário.

Alcides Santos disse...

Sem dúvida nenhuma que existe um aproveitamento por parte do governo colombiano.
Sem dúvida nenhuma que o governo colombiano não é nenhum santo.
Mas vejamos... Porque razão é libertada uma pessoa que está sequestrada? Pois porque estava sequestrada. Este é o facto.
Apesar de as FARC poderem ter tido no passado objectivos nobres, a partir da queda do muro, a questão que nos devemos colocar é: Como pode uma organização manter largos milhares de pessoas armadas durante mais de 18 anos (antes poderiam ter apoio Soviético)? Pois, cobrando impostos sobre as pessoas (chamado "boleteo"), à laia dos gangsters, em troca de "protecção", caso não sejam pagos, a retaliação é a morte dos familiares. Curiosamente, os paramilitares fazem o mesmo. Ambos, guerrilha e paramilitares, tem esta forma de se financiarem. Neste caso, seja qual for a pessoa e independentemente daquilo que fazem para ganhar a vida. Podem ser pessoas que vivem do seu trabalho pago sem nenhumas garantias, de empresários, de camponeses, independentemente do que cultivem. No caso de cultivarem coca, obviamente cobram mais.
Além disso, tem uma forma de conseguir combatentes algo subtil. Dizem aos jovens camponeses que se combaterem com eles, terão uma vida que lhes permitirá dar algo aos sues pais, mas que se não o fizerem, os seus familiares e eles próprios morrerão. Assim, de igual forma que o governo colombiano, os seus combatentes, são na sua maioria jovens com idade entre os 17 e os 21, em que ambos usam argumentos semelhantes.
Mas e porque razão continuam na luta? Neste momento existe um movimento político que está à frente dos destinos de Bogotá, que tem alguma simpatia pelas causas da guerrilha. Temos que ver a idade dos chefes desta guerrilha. Quem anda em combate nas selvas à várias dezenas de anos, não sabe fazer muito mais. Na história colombiana já houveram várias integrações de guerrilheiros na vida civil, mas com poucas excepções (Navarro Wolf, por exemplo), a grande maioria não consegue obter uma respeitabilidade semelhante àquela que tinha enquanto guerrilheiro. Muitos deles, ficam como "celadores" (seguranças de portas, bancos, empresas contratados por empresas de segurança privada), ou então entram no mundo da delinquência comum. A maioria destas pessoas não têm qualquer formação, nem política nem académica.
Voltando ao início e resumindo, nem o sequestro nem o narcotrafico podem ser ferramentas políticas.

Jorge Nascimento Fernandes disse...

Como eu disse no meu texto “eu pouco sei do historial das FARC e da realidade colombina”. Pelos vistos o meu comentador está muito mais bem informado. É possível que tenha razão. Simplesmente, toda a realidade da guerrilha e da contra guerrilha é sempre um fenómeno complexo e muito contraditório. Pensar em guerrilheiros santos ou heróis é evidentemente uma incongruência. Quem anda nisto há várias décadas tem que ter uma deformação muito grande. Simplesmente, daqui de Portugal, bem instalado na minha cadeira, com a reforma garantida ao fim do mês, atrever-me a criticar e a dar lições de moral a quem anda na selva, que segundo o testemunho de Ingrid Betancourt, que vi na televisão, é uma coisa horrível, parece-me inconsequente e manifestamente grave. Por outro lado sobre Uribe e os seus mandantes americanos não tenho a mais pequena dúvida do que são, porque esses têm um passado e um presente muito pouco recomendável.

nuno disse...

Só um pequeno esclarecimento sobre a posição do PCP.

Se é verdade que a nota do gabinete de imprensa do PCP não se regozija com a libertação de Ingrid Betancourt, o mesmo já não se passa com o voto de congratulação sobre «Ingrid Betancourt em liberdade» apresentado pelo Grupo Parlamentar do PCP.

Este voto de congratulação, que estranhamente(??) é esquecido pela comunicação social, refere no seu primeiro ponto: "Após seis anos de cativeiro na selva, é motivo de justa satisfação o regresso à liberdade de Ingrid Betancourt, ex-candidata presidencial colombiana".

Voto de congratulação sobre «Ingrid Betancourt em liberdade»
http://www.pcp.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=32193&Itemid=195

Anónimo disse...

Alguma achas para a fogueira, Miguel Urbano Rodrigues escreve um artigo em que claramente faz apologia das Farc, José Saramago, imediatamente se demarca, e faz uma violenta critica a esta tentativa de justificar os metodos das Farc.

Fidel Castro não só exige hoje, que as Farc libertem todos os prisioneiros, como claramente critica os metodos utilizados pelas FARC sobretudo os raptos.

Vindo de onde vêm , Saramago e Fidel, deveriam fazer o PCP pensar melhor, naqueles que costuma convidar para a Festa do Avante....

Jorge Nascimento Fernandes disse...

Finalmente chegou ao meu blog a posição oficial do PCP. Mais vale tarde do que nunca.
No entanto, este esclarecimento tem muito que se lhe diga, pois estranho que o PCP, em resposta às insistentes perguntas da comunicação social, a primeira resposta que dá omite qualquer voto de congratulação pela libertação de Ingrid Betancourt. Depois quando a procissão já estava quase a chegar à igreja, acha por bem apresentar um voto de congratulação pela sua libertação. O que é que vale, será a primeira posição ou a segunda?

Jorge Nascimento Fernandes disse...

É evidente que este meu último comentário se referia ao Nuno e não ao anónimo. Quanto a este nada a dizer.