20/04/2008

Ponto da Situação


Pela leitura rápida que fiz de alguns blogs de referência reparei como as minhas intervenções na blogosfera se encontravam tão desfasadas da realidade. Acontecia-me a mim o mesmo que aos doutores da Igreja que, na Bizâncio cercada, continuavam a discutir o sexo dos anjos. Por isso resolvi entre dois post sobre Leituras de um Convalescente voltar um pouco à realidade.

I – Eleições italianas
Primeiro gostaria de manifestar o meu espanto e tristeza por os comunistas italianos ou os seus herdeiros não terem qualquer representação parlamentar. Aquele que tinha sido o mais forte partido Comunista do Ocidente, que maior contribuição tinha dado para a actuação dos comunistas em regime de democracia parlamentar e que era herdeiro do legado desse grande teórico que tinha sido Antonio Gramsci, deixa de estar representado no Parlamento e no Senado italianos. Um pesadelo.
A nossa direita exultou. Teresa de Sousa afirma no Público, de 16/4, que esse facto “representa uma saudável clarificação” e continua: “aliás, se há um sinal de novidade e de regeneração do sistema político italiano ele vem daí – da esquerda que não é essa "esquerda". Talvez esperançada que em Portugal se dê alguma vez essa mesma clarificação, que o PCP e BE deixem de vez de estar presentes no Parlamento e que o PS sozinho e sem qualquer constrangimento possa afirmar que representa toda a esquerda.
Segundo afirmar o óbvio, os italianos gostam imenso destas personagens histriónicas, que de Mussolini a Berlusconi, sempre representaram o pior da vida política italiana. Mas isto é uma constatação, que não justifica em nada o que se passou.
Terceiro referir por graça que uma das causas que foi apontada por Daniel de Oliveira, no seu interessante artigo no Arrastão, para a perda de votos dos comunistas foi a sua integração numa coligação, a que chamaram Esquerda Arco-Íris (Sinistra L’Arcobaleno), tendo a foice e o martelo desaparecido dos boletins de voto. Pelo contrário, em Portugal o PCP sempre concorreu debaixo de outra sigla (excepto nas duas primeiras eleições do pós-25 de Abril) e foi a direita, com a cumplicidade do PS, que obrigou a incluir nos boletins de voto o seu símbolo.
É evidente que tudo isto são opiniões avulsas, de quem está longe da realidade italiana e não dispõe de instrumentos de apreciação que lhe permitam fazer a análise do resultado das eleições naquele país.

II – O “entendimento” nos professores
Já muito se escreveu sobre este acordo, que os sindicatos designam por “entendimento”, entre os professores representados pelos seus órgãos de classe e o Ministério da Educação.
Penso que todos aqueles que, como o Miguel Sousa Tavares, queriam uma política de porrete para meter os sindicatos na ordem se vêm agora frustrados porque estes foram a solução do problema e não, como eles julgavam, a causa do mesmo.
Por outro lado, achei graça que uns anos depois da vaga esquerdista ter sido derrotada neste país, ainda alguns ingénuos e outros ressabiados, como a Ana Benavente, porque não tiveram o protagonismo que gostariam de ter, clamam que os sindicatos traíram a vontade dos professores. Já se sabe que os media fizeram imediatamente grande eco destas posições e assim entrevistaram um professor que declarou que mais valia morrer de pé do que ceder. Só a grande ingenuidade e a falta de experiência política-sindical pode levar alguns a fazerem estas declarações e a tomarem esta posição. Quem já anda nisto há muitos anos e se bateu sempre contra o esquerdismo e a falsa radicalidade pode perceber que este tipo de posições surge sempre quando a luta abrange novas camadas. A falta de experiência histórica é sempre má conselheira.

III - A lei do divórcio
Por minha grande ignorância eu pensava que o problema do divórcio estava resolvido em Portugal, eis senão quando o BE apresenta uma lei que, segundo eu depreendi, acabava com o divórcio litigioso e permitia, por opção única e exclusiva de um dos cônjuges, a separação. Na altura não dei grande importância ao assunto. Mas eis que o BE volta à carga, depois de ver o seu primeiro projecto chumbado, e o PS no mesmo dia anuncia que irá apresentar um lei que, com diferenças que parece que são significativas, vai no mesmo sentido. Achei em princípio bem.
Feito o anúncio, não é que a Igreja faz constar que está contra e um dos seus membros chega a clamar que estávamos perante um Estado “militantemente ateu”. “Coitado” do Sócrates, podem-no acusar de muitas coisas mas desta é que ele de certeza não estava à espera.
A Igreja tem, quanto a mim, toda a liberdade para se pronunciar sobre este assunto, não pode é fazer afirmações extravagantes como aquela que reproduzo e acho que é um disparate vir clamar contra o fim do divórcio litigioso, quando este, segundo as estatísticas, não representou no ano passado mais do que 6% do total de divórcios e hoje os que se realizam por mútuo consentimento estão, parece-me, bastante facilitados sem, que eu conheça, objecções de fundo daquela instituição.
Mas o mais grave, não foi a posição da Igreja, foi o que disseram os comentadores de direita, desde Vasco Pulido Valente a Constança Cunha e Sá, que criticaram e disseram que estávamos perante uma grave ofensa à Igreja feita pelo Governo do PS. Estas críticas são feitas unicamente porque pensam que o PS cedeu ao BE, ou seja, às “causas fracturantes” deste partido, abandonando por instantes a sua política de direita de que eles tanto gostam. Até porque é gente que nem católica é, que já se divorciou inúmeras vezes e que portanto não é por razões de fé, mas pela sua atávica formação de direita que toma posição contra esta legislação.

Como o texto já vai longo deixo para outra oportunidade o caso Fernanda Câncio e a demissão de Luís Filipe Menezes

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