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14/01/2012

Ainda Mário Soares, a propósito do livro de Rui Mateus, “Contos Proibidos” – II

Numa recente entrevista a uma televisão, das muitas que deu a propósito do seu livro, Um Político Confessa-se, Mário Soares afirma que Rui Mateus era um empregado de mesa que trabalhava em Londres e que, por saber bem inglês, tinha ajudado o PS no início. É evidente, como se compreende, estas declarações visavam diminuir aos olhos dos telespectadores a personagem cujo livro, Contos Proibidos, tanto o tinha incomodado. Mas de facto uma coisa é verdade e Rui Mateus, apesar de não o afirmar explicitamente, deixa perceber que Mário Soares precisava de alguém que soubesse bem inglês, já que ele não o sabia, para estabelecer contactos com os seus parceiros internacionais. É interessante que o autor dos Contos Proibidos referira a determinada altura que Mário Soares só convivia com os dirigentes da Internacional Socialista dos países do Sul: Espanha, França e Itália. Com os do Norte só em encontros formais. Compreende-se porquê. Mário Soares, não falando inglês, só com tradutor é que poderia contactar tais dirigentes. Na fotografia, que é reproduzida na capa do livro, vê-se Rui Mateus entre Mário Soares e Helmut Schmidt. Quase que jurava que estava lá a fazer de tradutor. No entanto, pelo que se percebe do livro, a sua passagem por um restaurante em Londres foi ocupação de juventude e a sua ascensão no PS e na Internacional Socialista foi mais do que a de um simples tradutor.

Dito isto, que eu valorizo bastante porque passei por situações semelhantes e compreendo bem o que é contactar alguém com quem não se pode falar uma língua comum, passemos a outros factos descritos no livro.

Um dos aspectos mais rocambolescos de toda a história é que ela gira sempre em volta da recolha de fundos para o PS. Já falei disso a propósito do 25 de Novembro, mas todo o livro está cheio de episódios entre o trágico e o cómico em que Rui Mateus, por incumbência de Mário Soares, se entregava juntamente com o tesoureiro do PS, que a determinada altura passou a ser um cunhado de Soares.

É interessante saber que um dos primeiros contributos importantes para o PS veio do coronel Kadhafi, no seguimento de uma visita de Mário Soares a Tripoli, em Novembro de 1974 (pag.63). Rui Mateus transcreve partes da carta que escreveu em nome do PS, demonstrando grande admiração pelo regime líbio. É igualmente interessante verificar que no livro de César de Oliveira, Os Anos Decisivos, Portugal 1962-1985, um testemunho (Editorial Presença, 1993), que também reli recentemente, aquele refira que um dos contactos que fez para obter ajuda para a UEDS tenha sido com a Líbia, do coronel Kadhafi. A UEDS era um pequeno partido político, criado em 1978, por Lopes Cardoso e outros companheiros, que na sua maioria eram dissidentes do PS. César de Oliveira refere a sua ida àquele país para participar numa Conferência Internacional de Professores e as conversações que então entabulou com os dirigentes líbios, que não tiveram sucesso, dado que aqueles lhe falaram na ala esquerda da FLAMA e da FLA, dois movimentos independentistas, respectivamente, da Madeira e dos Açores, facto que ele negou, falando de que eram sim da “extrema-direita e politicamente suspeitos” (pag. 226). Logo ali acabaram todas as facilidades. Ficou com a impressão que representantes daqueles movimentos já tinham passado por aquele país para obter fundos, alegando serem da sua ala esquerda. Como se vê, todos iam ao beija-mão ao coronel Kadhafi. Quando caiu em desgraça é que se transformou num ditador horrível.

Outro dos aspectos mais interessantes do livro é o pormenor da discrição da actividade da CIA e da Internacional Socialista (IS) no nosso país, principalmente durante o período revolucionário e depois nos anos seguintes, quando ainda era preciso ajuda para ancoragem de Portugal ao modelo ocidental. Já vimos o papel desempenhado pelo Comité criado pela IS no post anterior. Não me irei alongar no papel da CIA e do Secretário de Estado, do governo de Nixon, Henry Kissinger. Limitar-me-ei a afirmar que Rui Mateus, tal como Mário Soares, eram grandes amigos de Frank Carlucci, embaixador dos EUA em Portugal, mas também dos homens da CIA encarregues do nosso país.

Mas o mais interessante, para quem não anda a par dos meandros da política internacional, é a descrição que o autor dos Contos Proibidos faz da intervenção da CIA e dos serviços secretos ocidentais na destituição de alguns lideres da IS que estavam no poder.

O primeiro caso descrito foi o de Willy Brandt, chanceler da ex-República Federal Alemã, que aos olhos da CIA se tinha tornado suspeito. A 24 de Abril de 1974, o M15, os serviços secretos ingleses, decifram uma mensagem para a Alemanha Oriental de um colaborador íntimo de Brandt. Mas, não foi só isto, o chefe do M15 pensava que o chanceler era “um dos líderes de uma grande conspiração comunista controlada pela rádio a partir de Moscovo” (pag.105) e foi isto que transmitiu à Abwehr, os serviços secretos alemães, e que conduziu à demissão de Brandt, a 6 de Maio de 1974. Este foi substituído pelo número dois do Partido Social-democrata Alemão (SPD), Helmut Schmidt, cujas “credenciais pró-ocidentais e a amizade com os EUA estariam acima de qualquer suspeita” (pag. 105).

A segunda demissão relatada é o do primeiro-ministro trabalhista australiano, Gough Whitlam (no livro o seu nome aparece como Gough Whitland, o que não corresponde à verdade), que seria demitido pelo governador, que em representação da Rainha Isabel II exercia as funções de chefe de estado daquele país. Aquele primeiro-ministro tinha descoberto que os serviços secretos australianos tinham colaborado com a CIA no derrube de Salvador Allende. Na sequência de uma inspecção àqueles serviços, congelou as relações com a CIA. Posteriormente, decidiu não renovar a manutenção de uma estação de observação de comunicações via satélite dos EUA, situada no deserto australiano. O resultado deste confronto seria a sua demissão, substituído por um outro primeiro-ministro “mais amável com os serviços secretos ocidentais” (pag.105).

A terceira, é do primeiro-ministro inglês Harold Wilson. Este substituíra um amigo dos americanos, Hugh Gaitskell, que tinha morrido depois de uma visita à União Soviética, Os serviços secretos ingleses começaram a suspeitar que a morte de Gaitskell tinha sido planeada pelos soviéticos para preparar o caminho para o seu próprio “protegido: Warold Wilson” (pag.107). A partir de 1974, quando Wilsom regressa ao poder, o M15 estabelece um plano para desacreditar dirigentes trabalhistas e divulga informações sobre Wilson, considerando que era um perigo para a segurança, obrigando-o assim a demitir-se a 16 de Março de 1976, sendo substituído James Callaghan, que era seu Ministro dos Negócios Estrangeiros e que tinha elaborado o já anteriormente referido”plano Callaghan”.

Por último temos Olof Palme, que estava também na mira da curiosidade da CIA e que foi assassinado a 28 de Fevereiro de 1986, suspeita-se pelos seus próprios serviços secretos.

O mais interessante é que Mário Soares se transforma, depois de dúvidas iniciais de Kissinger se conseguiria deter a Revolução, no homem dos americanos para a Internacional Socialista, começando a ser visto pelos seus pares com essas funções.

As informações e os factos relatados neste livro, pelo menos em relação às ligações com os americanos e com a CIA e o Secretário de Estado Kissinger, são de certo modo confirmados por um livro, que também li recentemente, Carlucci vs. Kissinger, os EUA e a Revolução Portuguesa, de Bernardino Gomes e Tiago Moreira de Sá (Dom Quixote, 2008), apesar dos autores nunca citarem o livro de Rui Mateus e darem à sua prosa um tom mais de investigação universitária, evitando, como faz Mateus, um ajuste de contas com Mário Soares.

Pelo descrito, parece-me, se ainda for possível, uma leitura deste livro pelos factos por ele relatados, tendo sempre a prevenção de que estamos perante alguém ressabiado e que conta a história da Revolução Portuguesa muito à sua maneira.

29/12/2011

Ainda Mário Soares, a propósito do livro de Rui Mateus, “Contos Proibidos” – I

A propósito da publicação do livro de Mário Soares, Um Político Assume-se, que mereceu uma referência crítica da minha parte, e dos comentários de alguns leitores sobre o posicionamento político do PS, resolvi reler o livro de Rui Mateus, Contos Proibidos, Memórias de um PS Desconhecido (Publicações Dom Quixote, 1996).

Este livro tem sido considerado nalguns blogs como um livro maldito. Não só porque nunca foi reeditado, como consta que a sua edição se esgotou rapidamente, talvez comprado pelo principal visado no mesmo: Mário Soares. Eu já o tinha lido, simplesmente tinha sobre ele uma recordação muito imprecisa.

A história é espantosa, não só porque o autor nos descreve as partes mais sombrias da formação do PS e da sua inserção na vida política portuguesa no pós-25 de Abril, mas principalmente o papel que Mário Soares desempenhou, quer durante o PREC, quer nos primeiros governos constitucionais, quer ainda na sua eleição para Presidente da República.

A parte menos interessante do livro é aquela que é dedicada à história do processo judicial do fax de Macau, que envolveu o Governador da altura daquela ex-colónia portuguesa, Carlos Melancia, e o autor do livro e mais alguns dos colaboradores da Eumaudio, empresa ligada ao PS e a Mário Soares, que se dedicava aos meios audiovisuais. É uma auto-justificação, que na altura poderia ter muito interesse para quem seguia o processo, mas que hoje perdeu toda a actualidade perante escândalos de corrupção de muito maiores dimensões.

Há em todo o livro um ataque ao carácter do visado, mostrando a sua pouca fidelidade aos amigos que não o seguem acriticamente e uma ânsia de poder desmesurada, sacrificando tudo para o obter. Apesar disto ser relevante, pode também resultar de uma vingança pessoal do autor, que se sentiu traído durante todo o processo do fax pelo companheiro de longa data. Por isso, aquilo que considero mais significativo no livro são os factos descritos, apesar de nem todos me parecerem verdadeiros.

O autor assume-se desde o princípio como um feroz anti-comunista, atlantista, amigo dos americanos e da CIA, seguindo desse modo as pisadas de Mário Soares. Mas o que é mais espantoso é que, para o autor, Mário Soares, sentindo a sua vaidade ferida, só se tornou um verdadeiro anti-comunista quando o não deixaram subir à tribuna, onde estava o presidente da República, Costa Gomes, o Governo, chefiado por Vasco Gonçalves, e a direcção da CGTP, na já distante comemoração do 1º de Maio de 1975, no estádio do mesmo nome. Toda a estratégia da luta contra a unicidade sindical, um só sindicato para cada um dos sectores, foi chefiada por Salgado Zenha que para o efeito escreveu um artigo no Diário de Notícias e fez um discurso no Pavilhão dos Desportos, em Janeiro de 1975, antes pois da tal “conversão” de Mário Soares. O autor manifesta grande admiração por aquele ex-dirigente do PS. Mas a principal revelação é de atribuir a Mário Soares a entrada do PCP no Primeiro Governo Provisório, o de Palma Carlos. Isto porque Mário Soares queria justificar a sua ida para a pasta dos Negócios Estrangeiros com a presença do PCP no Governo. Apesar de hoje dizer o contrário, o autor acha que Mário Soares considerava que o PS estava numa posição de subalternidade em relação ao PCP. Rui Mateus, devido ao seu anti-comunismo, critica os encontros, em Paris, entre Mário Soares e Álvaro Cunhal antes do 25 de Abril e os acordos então estabelecidos.

É evidente que a oposição de Mário Soares ao PCP data de muito mais cedo do que acontecimento referido pelo autor, um perfeito disparate, que visa apoucar Mário Soares, tentando provar que, ao contrário do que aquele afirmava, não era tão anti-comunista como propagandeava. Álvaro Cunhal no seu livro A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril (Edições Avante!, 1999, pag. 164) relata negativamente a posição de Mário Soares, comprovadas por declarações bastante posteriores, em relação ao General Spínola e à manifestação da “maioria silenciosa” promovida por este a 28 de Setembro de 1974. Eu próprio, recordando a época, lembro-me bem das fricções, logo a seguir à demissão de Spínola, entre o PS, de Mário Soares, e o PCP a propósito da manutenção como frente unitária do MDP/CDE e da oposição daqueles à sua participação no Governo chefiado por Vasco Gonçalves.

Quanto ao 25 de Novembro de 1975, vem mais uma vez à baila quem comandou a resistência à tentativa insurreccional verificada naquela dia. Mário Soares assume que foi ele. Ramalho Eanes contesta. Para o autor foi principalmente um tal “Plano Callaghan”. - James Callaghan era na altura Ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo britânico e dirigente trabalhista. - Plano esse que envolvia os serviços secretos ingleses e que contaria, segundo Rui Mateus, com a colaboração da CIA, coisa que Mário Soares nunca admitiu, apesar de fazer referência várias vezes àquele plano estabelecido com os ingleses. Mas, acima de tudo, considera o autor que foi a pressão internacional, principalmente dos partidos socialistas e sociais-democratas que estavam no poder na Europa ocidental, que, juntamente com os americanos, se exerceu sobre Moscovo para que o PCP se retirasse do golpe, já que não era admissível que, num país da NATO, os comunista tomassem o poder pela força. Isto segundo a linguagem do próprio autor.

É mesmo citado um escrito de Will Brandt (pag.75) em que este afirma que sem “o envolvimento internacional pela democracia, a tentativa de golpe em Lisboa, em Novembro de 1975, não teria tão facilmente sido desmobilizada”. Referia-se a um Comité de Amizade e Solidariedade com a Democracia e o Socialismo em Portugal que reuniu pela primeira vez perto de Estocolmo, em 2 de Agosto de 1975, e era composto pelos partidos socialistas e sociais-democratas europeus.

É evidente que na descrição que faz dessa tentativa de golpe há uma grande dose de mentira. Pois tenta relacionar acontecimentos anteriores, como o cerco do Ministério do Trabalho ou da Assembleia Constituinte ou de uma pretensa Greve Geral, marcada para 25 de Novembro, de eu nunca ouvi falar, com os acontecimentos dessa data. Depois afirma que na véspera já “havia milícias comunistas nas ruas de Lisboa para controlar pessoas e bens”, isto a propósito de nesse dia ter atravessado aquela cidade com um pacote com dinheiro para Mário Soares, que se deslocaria para o Porto com o “conforto” do conteúdo do envelope. Cidade a partir da qual, com apoio dos serviços secretos de Sua Majestade e dos americanos, pretendia lançar uma operação sobre Lisboa, se se estabelecesse nela a “comuna” que se dizia que o PCP e a extrema-esquerda pretendiam implantar.

Segundo o autor, um plano semelhante foi anos depois executado pelos americanos no Panamá, contra o general Noriega. O PCP percebendo que a situação internacional não lhe era favorável teria recuado.

A história é fantasiosa, mas tem um fundo de verdade. Por um lado, a quantidade enorme de dinheiro, como o autor prova, exibindo recibos, que foram entregues a Mário Soares e ao PS nesses dias. Por outro, o envolvimento de serviços secretos ocidentais nessa tramóia, com a cumplicidade de Mário Soares. É evidente que ainda há alguns aspectos obscuros que não foram esclarecidos em relação ao 25 de Novembro, mas não restam para mim dúvidas da actividade pouco clara de Mário Soares nessa data.

Terminaria esta primeira parte do meu post com uma citação de Malraux, transcrita pelo autor (nota da pag.75), em que este afirma que a situação em Portugal após o 25 de Novembro como sendo a primeira vitória dos “mencheviques sobre os bolcheviques”. Grande mentira, bastando lembrar, sem precisar de grande pesquisa histórica, a vitória da social-democracia alemã, em Janeiro de 1918, que, com a tropa por ela comandada, os Freikorps, derrotou em Berlim os espartaquistas (futuro Partido Comunista Alemão) insurrectos e assassinou Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, seus principais dirigentes.

08/11/2011

A abstenção do PS

Tem sido prática de alguma esquerda culpar o Bloco e o PCP por termos este Governo e, bem pior, este Orçamento de Estado. Aqueles partidos ao votarem, juntamente com a direita, contra o PEC IV e, sabendo que isso acarretaria a queda do Governo, não se eximiram de o fazer, sendo pois responsáveis pela tragédia actual. Já vi isto escrito, não de forma tão clara nos media, mas em comentários ou cartas que me chegam ao meu e-mail. A interpretação oficial que o PS dá da sua queda é semelhante: uma aliança espúria entre a direita e a esquerda radical.

Aquela esquerda não percebe o estado de desagregação a que tinha chegado o Governo de José Sócrates. O Ministro das Finanças era já um verbo-de-encher. Repare-se que este entrou mudo e saiu calado numa das últimas conferências de imprensa que José Sócrates fez a propósito do acordo com a Troika. E José Sócrates fez essa conferência de imprensa pela negativa, ou seja, descrevendo tudo aquilo que não tinha sido acordado com a Troika, mas que os seus assessores nos dias anteriores, para nos aterrorizarem, tinham vindo a bichanar para os media. Meses depois, tudo aquilo que ele disse que não ia acontecer veio a ser incluído no Orçamento de Estado. Mas isto foi só um exemplo dos últimos dias do socratismo, a desagregação final já estava a decorrer, só não via isto quem sectariamente queria manter Sócrates a todo o custo, não percebendo que se ele continuasse, toda esta austeridade, contra a qual protestamos, se iria verificar, embalada talvez nas vestes soporíferas de uma esquerda “responsável”.

A nossa lei eleitoral torna difícil, e bem, que um só partido tenha a maioria absoluta. Por isso, em 35 anos de democracia constitucional, só em 12 é que um só partido obteve aquela maioria: oito para o PSD e quatro para o PS. Por esse motivo era lógico que os principais partidos tivessem políticas de aliança em caso de não obterem uma maioria absoluta. O PSD, sem precisar de o dizer publicamente – estas coisas de alianças só interessam à esquerda – sabe de ciência certa que, quando chega a hora, pode contar com o CDS. O PS desde o início que se tem dispensado fazer qualquer aliança com a sua esquerda. Mesmo quando isso foi preciso (1978), nos tempos já longínquos que se seguiram ao primeiro Governo PS sozinho (1976-78), negociou simultaneamente com o CDS e com o PCP, no entanto, em relação a este, quando chegou ao capítulo da Reforma Agrária (quando ela ainda existia), apresentou-lhe uma página em branco. Tudo aquilo não passava de uma encenação para fazer um “acordo de incidência parlamentar” com o CDS.

Sempre bichanaram ao ouvido do PS que as eleições se ganham ao centro e não à esquerda e este partido tem levado isso tão a peito que sempre se comportou como se não necessitasse a sua esquerda para governar. Honra seja feita a Jorge Sampaio que, em relação a Lisboa, fez uma aliança com o PCP. É evidente que hoje – como no passado, mais por razões ligadas à Guerra-fria – comprometeu-se com tais parceiros: algumas empresas de construção civil, por exemplo, que estes inviabilizaram qualquer aliança à esquerda.

Vem tudo isto a propósito da intenção manifestada pelo Secretário-geral do PS em se abster na votação do Orçamento de Estado para 2012. Bem pode aquela esquerda, que eu inicialmente referi, vir apelar ao voto contra do PS que este, indiferente àqueles cantos de sereia e, afirmando que se sente chocado com este orçamento, acha que uma esquerda “responsável” deve em primeiro lugar servir o seu país e depois o partido. Já se sabe que uma esquerda responsável deveria, perante um PREC da direita, votar contra o Orçamento, facilitando uma frente de toda a esquerda contra o mesmo e tornando mais difícil a tarefa do Governo da direita. Mas isso é impossível, o PS está tão enterrado nos compromissos em que se enleou que hoje torna-se difícil sair deles. Veja-se o caso de Manuel Alegre, depois de ter apelado ao voto contra, veio aceitar, compreendendo-a, a posição de António José Seguro. É por estas e por outras que teve um resultado tão triste nas últimas presidenciais.

Eu sei que não é fácil negociar com o PCP actual. Já houve tempo em que este partido defendia uma maioria de esquerda para a Assembleia da República, mas isso não impede o PS de tentar estabelecer pontes. Ora elas estão irremediavelmente cortadas com posições como estas em relação ao Orçamento.

O Bloco de Esquerda já foi uma esperança para o PS. Mário Soares há já alguns anos chegou a afirmar num Prós e Contras, da RTP, que o Bloco era uma partido a seguir. Pensavam na altura que poderia ser uma muleta do PS. Como isso não sucedeu, e porque rapa no seu eleitorado, é hoje um dos seus inimigos de estimação.

Que solução para isto? É difícil. É neste momento o problema mais complexo de resolver, mesmo ao nível da União Europeia. Como dar a volta para que esta esquerda, à esquerda da social-democracia neoliberal, consiga tornar-se uma força aglutinadora, capaz de influenciar Governos, alterar a correlação de forças na União Europeia e representar todos os descontentes com esta situação desesperada que estamos a viver.É evidente que para isso tem que contar com amplas massas da social-democracia e até, em alguns casos, com a participação activa destes partidos. É essa a grande luta que se nos põe pela frente.

12/07/2011

Um mês de ausência

Poder-vos-ia falar da angústia do escritor perante a página em branco. Mas não é verdade. É por pura preguiça, acompanhada de outras razões, algumas já várias vezes aqui invocadas por mim, como sejam as razões de saúde. Neste caso, também houve um arreliante vírus que, durante uns tempos, se instalou no computador, e que me duplicava os acentos. Apareceu como desapareceu e já não é a primeira vez. Houve também um constante nomadismo entre o Algarve, Sines e Lisboa que me dificultou a escrita. Estas foram as razões porque estive ausente tanto tempo da vossa companhia.

Durante este tempo tantas coisas aconteceram no país. Foi nomeado um dos governos mais à direita desde o 25 de Abril. Se tiver uma mãozinha do PS, pode mesmo vir a subverter os próprios princípios basilares da Constituição de Abril. Não haja oposição e muitas coisas irão mudar na nossa tão frágil República. Os seus ministros são tenebrosos, principalmente os independentes. Os outros são velhos conhecidos nossos, sempre habituados a truques e a trambiques para ver se apanham os papalvos. Os que não têm filiação partidária são técnicos formatados nas escolas americanas, prontos a executarem as ordens que o grande Satã lhes ditar. É gente do pensamento único, que não tem a mais pequena ideia do que é fazer política em Portugal e só pensa  em aplicar a cartilha que lhes ensinaram nas escolas que frequentaram. Tal como os nosso comentadores, contratados à peça, para todos em fila dizerem o mesmo, desde João Duque a Cantigas Esteves.

No PS a abolia é total, estão à espera que os dois galos de capoeira resolvam a disputa entre si. Dali pouca coisa virá. Só a Renovação Comunista é que ainda é capaz de iniciar as conclusões  do seu Conselho Nacional, do dia 25 de Junho, valorizando “as afirmações de personalidades do PS para defender a Constituição contra os propósitos descaracterizadores das propostas da direita”. Depois do discurso pífio de Maria de Belém na discussão do programa do Governo, dando a ideia que a esquerda do PS se escapuliu depois da derrota de Manuel Alegre, eis que há ainda alguém que está espera que o PS faça peito ao desvarios que este Governo de Direita irá provocar.

Para começar, o roubo de parte do nosso subsídio de Natal.

Tivemos também a classificação da nossa dívida como lixo por uma das agências de rating, a Moody’s. Maremoto nacional, com o Presidente a pôr-se em bicos dos pés para a acusar de grande malvadez, esquecendo que ainda há algum tempo achava normal as classificações que as agências de rating nos atribuíam. Deu como justificação que os tempos mudaram. Mudaram sim, caiu o Governo que ele odiava, chefiado por Sócrates, e derrotou o seu principal adversário nas eleições presidenciais e nomeou um Governo da sua confiança. Se juntarmos a isto as declarações do mais reaccionário que há sobre o Serviço Nacional de Saúde, temos um Presidente que perdeu toda vergonha e se põe declaradamente ao serviço do Governo de Direita. Hoje Governo, Presidente e provavelmente Assembleia da República formam uma tríada difícil de superar. São a direita em todo o seu despudor.

À esquerda, Bloco e PCP, penso que ainda não encontraram o tom próprio e o Bloco ainda anda a lamber as feridas da sua derrota.

Para terminar gostava de assinalar duas coisas em que participei neste interim. A primeira foi a apresentação, num sala cheia, do Livro de Domenico Losurdo, Stalin, História crítica de uma lenda negra (Editora Revan), no ISCTE. Foram seus apresentadores Miguel Urbano Rodrigues, que falou mais do autor e João Arsénio Nunes, do livro. Este é uma edição brasileira, de que alguém se encarregou de trazer para Portugal uns tantos exemplares e que estava à venda no próprio dia do lançamento. Suspeito que dificilmente encontrará esta edição numa livraria perto de si, a não ser que encomende e isso costuma demorar meses. Gostaria de falar do seu lançamento e do livro, quando o tiver lido na totalidade.

Outro aspecto importante, que não quereria deixar passar em claro, foi a realização, no dia 9 de Julho, de uma assembleia do Grupo Manifesto, uma das correntes do Bloco de Esquerda. A Assembleia era antecedida de uma reunião, aberta a quem quisesse participar, e que se chamava O Bloco e os Caminhos da Esquerda. Foi editado um texto antes da reunião, que poderão encontrar aqui .

Sobre qualquer destes eventos, elaborarei, penso eu, o respectivo post.

07/06/2011

Análise dos resultados eleitorais

O cenário que eu propunha aos meus leitores era do que o PS perdesse por poucos, mas houvesse uma maioria de esquerda e PSD-CDS ganhassem sem maioria. Isto permitiria provavelmente afastar José Sócrates e obrigar o PS a entrar para um bloco central, fragilizando qualquer governo que se formasse nesta situação de crise. A esquerda teria tempo de repensar a sua estratégia e, a longo prazo, ou havia novas eleições ou o PS se aliava à esquerda. Isto sonhava eu acordado, baseando-me naquilo que as sondagens iam debitando.

Como se viu, nada disto sucedeu. O cenário idealizado por mim agravou-se de tal modo, que aquilo que parecia uma saída para a crise política se transformou no seu completo bloqueio. Mas passemos aos resultados.

O PSD ganhou sem qualquer dúvida estas eleições e obtém com o CDS uma maioria de direita clara. É evidente que o PSD ficou bastante longe da maioria absoluta que pedia e até dos 40% que Durão Barroso tinha obtido em 2002. É interessante, como já alguém escreveu, que neste momento nenhum partido consegue chegar aos 40% para ganhar eleições: sucedeu assim com o PS em 2009 e agora com o PSD. Isto verifica-se porque o CDS cresceu e o Bloco veio permitir um aumento da votação à esquerda.

Por outro lado, o CDS, contrariando as sondagens, teve uma votação menor do que esperava, mas mesmo assim cresceu em percentagem, mais de 1%, e em deputados, mais 3.

Quanto ao PS não teve uma derrota estrondosa, mas, como os media já foram divulgando, desde 1987 que não tinha um resultado tão mau. Mesmo quando Ferro Rodrigues perdeu com Durão Barroso teve quase 38% dos votos. Só nos tempos de Cavaco Silva e da AD, de Sá Carneiro, é que os resultados do PS foram mais baixos do que este e isso já se passou há muitos anos.

Causa desta derrota e da vitória da direita. Para mim são duas, a primeira e a principal, foram os anti-corpos que Sócrates foi criando na população portuguesa e, mais do que isso, o estado a que permitiu que o país chegasse. Provavelmente já teria perdido em 2009, se não fosse a campanha desastrosa de Manuela Ferreira Leite e do seu núcleo dirigente e a intervenção idiota do Presidente da República a propósito das escutas telefónicas. Mas, neste momento, atendendo ao estado a que o país tinha chegado, era inevitável. A segunda causa, intimamente ligada à anterior, é psicológica e encontrei-a na conversa que tive com alguém que me é chegado: a festa acabou, temos que trabalhar mais, acabar com os feriados excessivos, temos que levar isto a sério, porque agora já me foram ao bolso. Parte da população interiorizou o discurso da direita. Convenceu-se que se está a viver pior, foi porque andaram a gastar o seu dinheiro à tripa forra, porque não se trabalha o suficiente e tem-se regalias a mais. Nos tempos das vacas gordas esta gente votava PS, hoje, quando lhe mexem nos seus ordenados, pensa que é o discurso da direita que a levará a bom porto e não a contestação da esquerda.

E a esquerda! Daqui para a frente e porque penso que o PS é de centro-esquerda, referir-me-ei só ao PCP e ao Bloco. Quanto ao PCP a verdade é que não pode festejar uma grande vitória. A única que lhe valerá para alguma coisa é a ter passado à frente do Bloco. Porque quantos aos resultados não são nada de excepcional. Subiu menos do que uma décima, de 7,86, em 2009, para 7,94%, e ganhou com isso um deputado. No entanto nas três últimas eleições, 2005, 2009 e 2011, as percentagens não têm fugido aos 7 vírgula qualquer coisa, só em 2002 é que teve 6,94%.Ou seja, levou cerca de dez anos a subir 1%. Podemos também afirmar que em toda a década de 90 não fugiu aos 8 vírgula qualquer coisa. Partido mais constante que este não há. Por isso, com base nos resultados eleitorais não se pode tirar qualquer conclusão de vitória ou derrota do PCP, está sempre na mesma.

Já o mesmo não se pode dizer do Bloco, depois duma ascensão meteórica uma queda de igual valor: 2,74%, em 2002, 6,35%, em 2005, 9,82%, em 2009, e 5,19% em 2011. A derrota foi suficientemente pesada para que não se tenham que tirar rapidamente ilações.

A primeira é se alguma vez o Bloco parou para pensar e descobrir qual é o seu eleitorado. Tenho para mim que é muito diverso, fragmentado e que em alguns casos pode até chegar à direita, seduzida pelo seu discurso justiceiro. Ora numa situação destas é difícil contentar todos. Por isso, se virmos as análises que aqui e ali têm sido feitas ao Bloco as ilações são variadas. Para uns não foi suficientemente de esquerda, para outros é uma repetição do PCP, sem ter a solidez deste. Para estes, o Bloco abandonou a sua matriz inicial social-democratizante, transformando-se num puro partido de protesto.

Eu tenho para mim que o Bloco deve tentar perceber o eleitorado que vota nele, que é francamente diferente do dos seus militantes. Eu, que há muitos anos ando nisto, fui encontrar no Bloco muito dos velhos militantes da UDP com quem em tempos tinha traçado armas pelo PCP. Ora esta gente, que hoje reconheço é tão generosa e bem intencionada como os velhos militantes do PCP de quem eu ainda continuo a ser amigo, não é de certeza o votante típico do Bloco e por isso tem que haver uma apreciação crítica desta situação. Mas há mais, há os erros recentes. O primeiro foi o apoio, provavelmente já fora de horas, a Manuel Alegre. Este apoio não nos trouxe o PS de esquerda, nem alguma esquerda, que eu defini, em textos anteriores, como aquela que claudicou perante o PS, como afastou todos aqueles que não admitiam qualquer colaboração com o PS de Sócrates. Para mim, a derrocada de hoje, começou antes, com a derrota expressiva de Manuel Alegre. Este foi sem dúvida nenhuma um assunto mal resolvido. Mas, pior ainda foi a moção de censura. Não por ter sido apresentada, mas a forma atabalhoada e ziguezagueante como foi embrulhada. A ofensiva dos media e dos comentadores encartados contra o Bloco, passando por alguns militantes do mesmo, foi devastadora.

Depois, provavelmente, a não ida até à troika, trouxe o afastamento de muita gente que votava no Bloco, sensível também às críticas dos media.

O Bloco deixou criar a ideia que era um partido que não fazia parte de uma alternativa, mas um partido de protesto e para isso já tínhamos o PCP.

Estas são algumas causas políticas desta derrota, que eu diria anunciada, do Bloco de Esquerda e provavelmente de toda a estratégia ultimamente seguida por este. Porque tenho sido um defensor desta estratégia, em post posterior gostaria de fazer algumas considerações mais profundas e talvez uma auto-crítica em relação àquilo que tenho defendido. Até breve.

03/06/2011

António Costa defende o Bloco Central

Vi ontem, mais uma vez, a Quadratura do Círculo. A direita está impante, parece que já tem a vitória no papo. Pacheco Pereira espera que o PSD ganhe com uma maioria folgada e Lobo Xavier acredita que o CDS vá upa! upa! a crescer. Não se querem comprometer com números, mas a felicidade assoma-lhes ao rosto. Acreditam que destas eleições irá resultar um Governo PSD-CDS e já lhe fazem recomendações. Pacheco Pereira mais prosaico, afirma que o PSD tem que descer à realidade e abandonar o seu programa. Bem intencionado, diz ele, mas inaplicável. O liberalismo não se coaduna bem com a realidade portuguesa.

Que a direita esteja satisfeita, ou queira mostrar que está, é compreensível, mas o que é mais grave é a atitude de António Costa, que já aceita como inevitável, pelo menos da sua conversa transparece isso, a derrota do PS. E depois desfia o rosário das queixas do PS em relação ao PSD. Volta com o cenário da irresponsabilidade na abertura da crise e com toda a tralha que José Sócrates nos tem andado a vender desde o princípio da mesma. Mas daquilo que ele mais se queixa é dessa intolerância da direcção do PSD ao não compreender o papel central que o PS tem no estabelecimento de consensos na sociedade portuguesa e, por isso, sente uma enorme amargura por ter sido afastado liminarmente por Passos Coelho da constituição do próximo Governo. Como injusto é aquele líder, quando o PS se ganhasse estaria na disposição de se aliar ao PSD para formar Governo, e isto foi dito com todas as letras. A vitória do PS nas próximas eleições acarretaria uma proposta de aliança ao PSD para governarem em conjunto.

Depois de ouvir isto, que já era a doutrina oficial de Sócrates, mas não tão explícita, lembrei-me de tudo aquilo que António Costa tem dito e fomentado nos seus amigos e das posições de alguma esquerda, que eu considerei que claudicou, que aconselha o voto no PS para travar a deriva neo-liberal do PSD ou o sonho de Sá Carneiro, uma maioria, um Governo e um Presidente. No primeiro caso, lembrei-me do abaixo-assinado para uma maioria de esquerda para a Câmara de Lisboa, que foi apoiado por António Costa e desencadeado por um grupo significativo de homens de esquerda e que no final serviu para Helena Roseta voltar ao redil socialista, para António Costa ganhar a Câmara e depois fazer um acordo com o PSD para dividir administrativamente a cidade de Lisboa, com claro prejuízo de um dos partidos de esquerda. O segundo caso é os apelos de alguma esquerda, mesmo que dirigidos a toda ela, mas que no fundo desejam canalizar para o PS a votação da esquerda, porque só este partido terá condições de resistir aos males que se avizinham.

Não gostaria de terminar sem assinalar que uma das causas que Pacheco Pereira atribui à subida do PSD nas sondagens é que este, na recta final, virou as suas baterias contra Sócrates, transformando estas eleições num plebiscito a favor ou contra o Primeiro-ministro. Ora este problema tem sido um pouco subestimado pela esquerda, ao considerar que o problema não está na personagem primeiro-ministro, mas sim nas políticas por ele desenvolvidas. Sendo isto verdade, não podemos esquecer a própria figura de Sócrates, dos seus casos, das suas aldrabices e invenções. Sócrates é um homem perigoso, que arrastou o PS atrás de si e que, tirando os seus apoiantes fanáticos, concita um profundo ódio em grande parte da população portuguesa e isto não se pode esquecer.

Sei que esta recomendação já vem um pouco tarde, mas muitas vezes não se pode separar o homem das políticas que prossegue. E às vezes, por um excesso de abstracção ideológica, ficamo-nos só pela política e esquecemos dos seus executantes.

28/05/2011

Preferes a peste ou a guerra?

Por motivos vários, mas que na maioria dos casos têm a ver com a minha saúde, não tenho escrito nada no blog. Mesmo a série de três posts que iniciei no princípio do mês, ainda não foi acabada e, para ser verdadeiro, já não me lembro bem o que pretendia escrever no último. Portanto ficará como está.

O que hoje me trás aqui, e que no fundo anda sempre à volta do mesmo, são dois artigos, um de Daniel de Oliveira, Sócrates ou Passos? Passo  e outro de Rui Tavares, Duas catástrofes. Resumidamente, qualquer deles critica a dicotomia, hoje obrigatoriamente imposta pelos media, entre votar Sócrates ou Passos Coelho. Rui Tavares é mesmo muito claro, a vitória de Passos Coelho iria provocar a catástrofe económica e social, com Sócrates teríamos a política. Qualquer deles não é muito favorável à tese desenvolvida na esquerda da igualdade entre os dois. Rui Tavares refere-se mesmo a um tempo mítico do PS, que eu penso que nunca existiu.

Em tempos, eu próprio já tinha abordado esta triste dicotomia, afirmando que PSD e CDS eram os nossos inimigos principais e o PS, o inimigo secundário. Isto mereceu, na altura, algumas críticas de certa ortodoxia. No entanto, em qualquer dos casos, eu não deixava de considerar estes dois blocos, pertençamente alternativos, como inimigos. Considerava simplesmente que tinham objectivos diferentes e que não seria indiferente o Governo de um ou de outro.

Hoje, torna-se para mim cada vez mais claro, que a contradição fundamental dos nossos dias é entre quem assinou o acordo com a troika estrangeira, como lhe chama Jerónimo de Sousa, e quem não o fez e resiste às suas imposições. É evidente, que nesta eleições esta diferença não está devidamente realçada, nem pelos media, que não estão interessados nisso, nem pelos próprios, Bloco e PCP, em que cada um por seu lado concorre nas respectiva bicicleta. Espero que no futuro e perante as expectativas que ameaçam o povo português estas duas forças, agregando à sua volta todos aqueles que se opõem à troika estrangeira, consigam transformar-se num pólo alternativo, com força suficiente para mudar o rumo das coisas.

Não queria terminar sem, no entanto, especular um pouco sobre os cenários possíveis e desejáveis no pós-eleições. Sou defensor que o PSD ganhe por muito poucos e não consiga com o CDS estabelecer uma maioria absoluta. Que o PS perca, mas que haja uma maioria dita de esquerda na Assembleia da República. Nada disto é impossível de suceder. As sondagens permitem tornar verosímil este cenário.

Qual era a vantagem disto? Era tornar impossível a criação de um Governo de direita, mas por outro lado obrigar o PS a verdadeiramente se confrontar com a sua derrota e possivelmente substituir José Sócrates, o que seria um bem para todos, e a cair, para cabal esclarecimento da esquerda que claudicou (ver o meu post), nos braços do PSD, para fazerem o bloco central. - Já se sabe que eu não acredito nas palavras de Manuel Alegre que defende que o PS se perder deve passar à oposição -. Um Governo assim teria muito pouca estabilidade e permitiria a qualquer momento derrubá-lo.

Resta acrescentar que o meu maior desejo é que o Bloco mantenha os 16 deputados que tinha e que fizeram um bom trabalho e que por óbvias razões irei votar Bloco de Esquerda.

PS.: Imagem de Os quatro cavaleiros do Apocalipse, de Albrecht Dürer (1471-1528). Quadro de 1498. Os quatro cavaleiros são a peste, a fome, a guerra e a morte.

11/05/2011

A ofensiva neo-liberal, a esquerda que claudicou, e os salvadores da Pátria - II

Neste post irei dedicar-me àquela esquerda, provavelmente exígua, mas com algum acesso aos meios de informação, que há muito clama por um Governo PS, Bloco e PCP. Esquecendo quem é que comanda o PS, porque acha que não se deve imiscuir no assuntos internos dos outros partidos, se é José Sócrates ou aquela a que se convencionou chamar a ala esquerda do PS, que em determinada altura teve em Manuel Alegre o seu porta-voz.

O percurso daquela esquerda é variado e as personagens que a constituem provêm de diferentes sensibilidades políticas, todas de esquerda evidentemente. Por isso, limitar-me-ia a escrever sobre os factos mais recentes, já que em outras ocasiões, lhes fiz a crítica devida.

Aquando da apresentação da moção de censura do Bloco, ao Governo do PS, esta esquerda não esteve parada. Prevenia os incautos contra os perigos de se derrubar um Governo de centro-esquerda para o substituir por um de centro-direita. André Freire, um dos ideólogos desta corrente, veio clamar mesmo pela formação de um novo partido já que o Bloco não correspondia àquilo que se esperava dele, ser um auxiliar precioso da governação socialista, no fundo, ser a muleta do PS.

Mas as palavras de Freire não caíram em saco roto, rapidamente um grupo de cidadãos, diria que são sempre os mesmos, reúne-se e eis que surge um novo Manifesto, denominado por uma Convergência e Alternativa. Submetem pois “à consideração do PCP, do BE, e do PS, dos respectivos responsáveis mas também dos seus eleitores” as considerações que acima explanaram, “com um único objectivo: através do diálogo e do debate alcançar uma convergência política que possa oferecer aos Portugueses uma forte alternativa de esquerda.” No meio destas piedosas intenções não se esquecem de atribuir culpas ao Bloco e ao PCP, por o PCP e o BE não terem “ousado avançar para as próximas eleições com uma grande coligação das esquerdas através da mobilização de activistas dos movimentos sociais e de personalidades diversas representativas de sectores progressistas da sociedade portuguesa”. Mas a seguir isentam o PS de qualquer culpa ao manifestar “que não basta denunciar a submissão da actual direcção do PS às políticas de austeridade exigidas pelos mercados financeiros e pela UE. Sobretudo, é preciso que as restantes esquerdas aceitem iniciar um processo de convergência tendo em vista produzir uma alternativa política suficientemente credível para que, no futuro e sob pressão do eleitorado, o PS reconheça que tem um interlocutor com quem pode fazer um acordo político para tirar o País da crise.”

Paralelamente, a Associação Política Renovação Comunista pronuncia-se sobre o momento político  actual afirmando a dada altura que “não é esta a altura de discutir as condutas na última legislatura, sobre as quais a História por certo fará um dia a sua avaliação. Não é altura de discutir as divergências e os cálculos que motivaram a queda do governo do Partido Socialista sem cuidar das condições ulteriores de reforço à esquerda da correlação de forças e precipitaram o pedido de intervenção do FMI”. Depois de passar uma esponja em branco sobre a Governação socialista, restam-lhe as piedosas intenções de esperar que “o Partido Socialista e o conjunto da esquerda, à luz da Constituição da República que a direita visa anular, honrem a sua natureza de forças construtoras de uma democracia política, económica e social ao lado das classes trabalhadoras e das classes intermédias.”

É que bom que se diga que grande parte dos subscritores do referido Manifesto pertencem igualmente à direcção da Renovação Comunista.

Que conclusões tirar das posições desta esquerda que, no seu afã, sempre louvável, de manter a unidade de esquerda, considera o PS no seu conjunto como um partido de esquerda e acha que é possível, neste momento, um entendimento com aquele partido, quando o programa de ajuda externa já foi aprovado por Sócrates e propagandeado por este como bom.

Hoje, compreende-se que o separar de águas é entre aqueles que se preparam para resistir à troika e aqueles que a aceitam de bom grado, afirmando que conseguiram negociar um bom programa. Nesse sentido, podemos dizer que aquela esquerda claudicou, apesar de manter uma linguagem crítica em relação àquilo que nos querem impor, pensa que é possível dormir com o inimigo, acreditando que se a esquerda, à esquerda do PS, fizesse um esforçozinho este viria às boas dialogar com ela. Quando o que está neste momento em causa é trazer todos aqueles que no PS ou fora dele estão interessados em formar um pólo alternativo à aceitação das imposições da troika.

Penso que este problema é a contradição principal dos dias hoje e que a proposta de um Governo de Esquerda, do Bloco, ou Patriótico e de Esquerda, do PCP, apesar de não serem para já, podem ser, se tiverem pernas para andar, uma alternativa no futuro, muito mais alargada, é certo, a esse centrão medíocre e liberalizador que todos à compita nos querem impor.

Quanto aos salvadores da Pátria ficará para post posterior, porque hoje já são  muitos os candidatos.

08/05/2011

A ofensiva neo-liberal, a esquerda que claudicou, e os salvadores da Pátria - I

Por razões várias, não tenho escrito nada. Quando penso postar qualquer coisa relativa à espuma dos dias eis que já passou tanto tempo, que aquilo que queria dizer perdeu toda a actualidade. Por isso escreverei sobre um assunto que nos irá ocupar durante longos e penosos anos.

Já deu para perceber que o “acordo” que Portugal subscreveu com a chamada troika é composto por duas partes, a primeira que visa transferir forçadamente dos nossos bolsos uma soma considerável de dinheiro para os bancos e os agiotas internacionais. É a parte do aumento dos impostos, do corte das pensões, da impossibilidade de deduzir despesas com a saúde e outras no IRS. É também o aumento da electricidade e dos transportes e, para não ser exaustivo, mais um conjunto de horrores que tornarão a nossa vida num inferno. A segunda parte, que delicia, os nossos políticos, desde o PS ao CDS, que consiste naquilo que eles há muito tempo chamam as reformas estruturais, mas que no fundo não passam da desregulamentação neo-liberal da nossa estrutura económica, acima de tudo da já frágil e débil regulamentação do trabalho, tornando-a mais flexível e permitindo aos patrões despedir por menor preço e à segurança social pagar menos, e durante menos tempo, o subsídio de desemprego. O que é que isto significa? Que o trabalhador amocha perante o patrão para não ir para a rua e aceite trabalhos degradados para não ficar completamente descalço, sem qualquer subsídio. É o reino do salve-se quem puder, em que os patrões terão a faca e queijo na mão.

Contra esta barbárie civilizacional os três partidos, daquilo que a imprensa dominante classifica do arco governamental, apressaram-se, à compita, a dizer que foram eles os responsáveis por tão ignóbil compromisso e que tinha sido devido à sua perseverança negocial que se tinha obtido um acordo tão “favorável”. Foi ver a triste figura de Sócrates a dizer o que o acordo não era e Catroga, nervoso e a suar por todos os lados, a garantir que o que de bom lá estava tinha sido da responsabilidade do PSD e dele. De seguida, o CSD assegura-nos o mesmo. Triste espectáculo.

Dito isto, o mais espantoso é que no conjunto de gente que é tocada por aqueles três partidos, principalmente no PS, não haja ninguém que se levante e diga que o rei vai nu, que o acordo é mau e que expresse a sua crítica às medidas propostas. O mais espantoso é que o aceitam. Acham que aqui e ali até nem se foi tão longe como eles desejavam, e que é gravoso para o povo português, mas era inevitável, porque se estava a viver, segundo dizem, acima das nossas possibilidades. Alguém viveu, que não fomos nós, os que dependemos diariamente do nosso trabalho.

Por tudo isto, o próximo governo será formado pelos três partidos que assinaram de cruz o acordo. Todos juntos ou aos pares, e as combinações possíveis são só mais três, lá estarão eles na disposição de garantirem que o acordo será aplicado.

Restam o Bloco e o PCP como resistentes. Cada um à sua maneira protestou, não falaram com a troika, e dispõem-se agora a lutarem contra as medidas propostas.

Aqui, direi eu, é que a porca torce o rabo. Por razões que têm a ver com idiossincrasias próprias, pelos eleitorados diferentes que tocam e no caso do Bloco pela franja ainda recente que abrange, tem-se a sensação, aumentada pelos media e comentadores, que não estão a conseguir aparecer como um frente unida contra estas medidas. É verdade que se está numa altura de conquistar votos, o que torna as coisas ainda mais difíceis. Mas parece claro que toda a esquerda, que está contra o acordo, todas as organizações sociais, neste caso os sindicatos, que se lhe opõem, não foram capazes de criar uma frente única contra esta situação. Antes do acordo proliferaram manifestos que hoje já ninguém recorda e em nada influenciaram o seu desfecho. Actualmente deveria haver uma frente única, com vozes de economistas, intelectuais e políticos que constituíssem a grande fronda que se opõe e luta contra o acordo. Ora nada disto está a suceder, na esquerda está cada um para seu lado, isto para já não falar daquela que claudicou e continua a sonhar, em condições completamente diferentes, com um governo de esquerda, PS, Bloco e PCP, tal Carmelinda Pereira, ressuscitada ao fim de trinta anos.

Mas isto fica para novo post.

16/04/2011

A tropa fandanga que nos governa

Ouvi ontem, como e meu costume, a Quadratura do Círculo. Teve a vantagem de dar uma novidade e de ordenar um pouco melhor os meandros da crise política que envolveu o PEC IV.

Comecemos pelo princípio. Criou-se a narrativa de que José Sócrates tinha iniciado as discussões em Bruxelas sobre o PEC IV sem quase dizer nada a ninguém. Não falou na véspera, quando se discutia a moção de censura do Bloco na Assembleia da República. Parece que nessa noite tinha feito um curto telefonema a informar Passos Coelho do que iria suceder no dia seguinte em Bruxelas, mas não disse nada ao Presidente da República. Na sexta-feira, ao mesmo tempo que se apresentava o PEC IV em Bruxelas, Teixeira dos Santos dava uma conferência de imprensa em Lisboa. Segundo a narrativa que nos veio a ser contada pela maioria dos comentadores políticos, José Sócrates, ao ignorar os actores políticos, pretendia abrir uma crise política. Outros achavam que este comportamento tinha sido involuntário, que se devia só ao mau feitio do Primeiro-Ministro. O PS argumentava mesmo que tudo isto era uma questão de forma e que o principal era entabular negociações com os partidos. Houve mesmo artigos a garantirem que a democracia era uma questão formal e o comportamento do Primeiro-Ministro era grave. E entre estas duas interpretações estabeleceu-se uma guerra de palavras entre PSD e PS.

No fim-de-semana passado o Expresso trazia uma caixa em que dizia simplesmente que afinal não tinha havido só um telefonema de Sócrates para Coelho, mas sim uma reunião. Logo a seguir, entrevistando Passos Coelho, Judite de Sousa faz-lhe a pergunta directamente, ao que este responde que é verdade e lá perdemos um dia com os dois partidos, PS e PSD, a insultarem-se. O primeiro dizendo que afinal tinha havido reunião e o segundo a desvalorizar a importância dessa reunião e das informações aí prestadas.

Mas o que é que ontem foi confirmado no programa da SIC Notícias, que Miguel Relvas, do PSD, tinha na manhã da conferência de imprensa apoiado as medidas do PEC IV e Pacheco Pereira afirmou que tinha havido um SMS dirigido aos deputados do PSD para que não fizessem comentários até ao fim do dia da reunião em Bruxelas, para não a prejudicar. Depois também se confirmou que na noite de sexta-feira, Marco António, vice-presidente do PSD, teria dito numa reunião que ou Passos Coelho escolhia ter eleições no país ou tinha eleições no Partido, tendo o líder do PSD preferido eleições no país.

Conclusão desta história. Toda a narrativa que nos foi contada, de Sócrates na sombra a esgueirar-se para Bruxelas e não dizer nada a ninguém é uma mentira pegada. Afinal tinha ido falar com o outro parceiro com quem andou a dançar o tango.

Mas igualmente o que é espantoso é que, perante a mentira de Passos Coelho, dizendo que só tinha havido um telefonema sem importância, Sócrates não tivesse vindo desmentir a situação, deixando avolumar a crise. Só quando lhe foi útil é que resolveu esgrimir contra Coelho esse encontro. Estão pois bem um para o outro e o pior é que é o país está a sofrer. Por outro lado, isto mostra também como muitas vezes se escreve no ar e se inventam narrativas que se enquadram muito bem no discurso, mas que no fundo não correspondem à realidade.

Somos mesmo governados por uma tropa fandanga.

12/04/2011

Ainda candidatura de Alegre e os problemas da unidade de esquerda

O meu amigo Brissos, da Essência da Pólvora desafiou-me, de acordo com uma promessa feita por mim, a justificar a escolha de Manuel Alegre para candidato de alguma esquerda.

Este assunto, diria, estava morto e enterrado se não fosse Alegre ter ressuscitado neste Congresso do PS. Parece que quando o Bloco apresentou a Moção de Censura também lhe fez algumas críticas. Espero que Alegre, porque não ganhou as eleições, e não foi por culpa do Bloco, mas sim dos seus amigos socialistas, que não votaram nele, não tente transformar aquele partido no bode expiatório do seu fracasso, que também foi o nosso?

Dito isto, tentemos justificar a escolha que na altura se fez e que considero acertada.

Tenho para mim que o Bloco de Esquerda é, na actual conjuntura, o único partido de esquerda que manifesta uma certa preocupação com a política de unidade. Ainda há bem pouco tempo, neste post, referi umas declarações de Alfredo Barroso afirmando que o PS não tinha uma política de unidade à sua esquerda. Quanto a mim o PCP também não a tinha, pode ser que agora isso se tenha alterado.

Por isso, depois das eleições presidenciais de 2006 e a seguir ao resultado de mais de um milhão de votos no Manuel Alegre, contra o candidato oficial do PS, o Bloco inicia uma aproximação àquele, de que resultou os encontros do Trindade e da Aula Magna. O primeiro foi grande um êxito, tanto mais que o Trindade era uma sala pequena e os milhares de pessoas que por lá apareceram não couberem, nem a metade delas. Já na Aula Magna, apesar de ser um sucesso, esta estava longe de estar cheia. No entanto, estes dois encontros não deixaram de ser um acontecimento político importante, o que levou o Manuel Alegre, naquele momento, a encarar a hipótese de formar um partido, permitindo assim que a ala esquerda do PS rompesse com o PS oficial. Tudo isto são dados objectivos, que não podem ser descartados, nem esquecidos.

Esta operação teve alguns contratempos. Manuel Alegre mostrou alguma indecisão na ruptura com o PS e o Bloco não a forçou, nem a acalentou. Teve algum receio do que é que poderia vir de uma cisão precipitada e que, provavelmente, não teria pernas para andar, a não ser levada às costas pelo Bloco.

Por este motivo, preferiu que Manuel Alegre optasse antes por aquilo que ele indiscutivelmente queria, que era ser candidato outra vez a Presidente da República. Foi isto de facto que veio a suceder. Já se sabe que Manuel Alegre não seria candidato unicamente do Bloco, teria que ser também do PS e aqui é que a porca torce o rabo. O tempo que mediou entre a decisão bloquista de insinuar que o apoiava para candidato a Presidente, na sua última Convenção, em 2009, a apresentação da sua candidatura, parece-me logo no início de 2010, com o apoio imediato do Bloco, o arrastamento da decisão do PS, já no Verão de 2010, a degradação do Governo de Sócrates e o agravamento da crise económica, permitiram que em Janeiro de 2011, quando tiveram lugar as eleições, já fosse bastante penoso o Bloco aparecer de mãos dadas, por interposta pessoa, o Manuel Alegre, com o PS de Sócrates.

Este facto foi tão difícil que nem os bloquistas estavam convencidos em votar Manuel Alegre, mas mesmo assim acho que cumpriram com escrúpulo os seus compromissos, nem o PS estava motivado para votar em Alegre. O que de facto sucedeu. Por outro lado, os eleitores de 2006, raivosos com o socratismo, fugiram desta vez do candidato, distribuindo os seus votos por Nobre, que cumpriu de facto a missão que Mário Soares lhe destinou, por Coelho, pela abstenção e pelos brancos e nulos. Esta é de facto a minha interpretação dos factos. Muita gente poderá estar em desacordo com isto.

No entanto, podemos dizer que o êxito do Bloco quer nas europeias, quer depois nas legislativas, que só foi ofuscado por ser ultrapassado pelo CDS, deveu-se em grande parte ao esforço unitário desenvolvido no Trindade e na Aula Magna.

A “esquerda grande” defendida por Louçã correspondia a esta aliança entre o Bloco, independentes e a ala esquerda do PS. Hoje percebe-se quão fraca é essa ala esquerda e como facilmente foi seduzida pelo canto de sereia do PS de Sócrates. Neste Congresso estavam lá todos, até o Ferro Rodrigues. Só não vi a Maria de Belém.

Esta não será uma história edificante, até porque não houve uma alteração de forças a favor da esquerda, que era o objectivo da vitória de Alegre. Mas só quem não mete as mãos na massa é que pode depois vir dizer que sempre previu o que iria acontecer.

PS.: Sobre este mesmo assunto já escrevi este post, no entanto todo o meu blog está cheio de referências aqui e acolá às actividades e posições de Manuel Alegre ao longo destes últimos anos.

04/04/2011

Um jantar à esquerda

Na passada sexta-feira reuniram-se num restaurante da capital, por sinal num sítio cheio de significado histórico e arquitectónico, um grupo de participantes no blog Alegro Pianíssimo, que foi criado para apoiar a candidatura de Manuel Alegre a Presidente da República. Já vos tinha dado conhecimento deste blog e até transcrevi para aqui os textos que fui lá publicando.

Várias eram as famílias políticas dos presentes, e como era inevitável falou-se da esquerda e da sua unidade. Um dos participantes afirmou mesmo que “a esquerda é um ponto de partida e não um ponto de chegada”. Uma frase bonita a que eu queria dar mais conteúdo, provavelmente pela minha tendência para me ligar ao real.

1. Conto-vos uma história (já por mim aqui relatada) que se passou na véspera das comemorações populares de mais um 25 de Abril, manifestação organizada regularmente pela Associação 25 de Abril, com a participação de partidos e organizações de esquerda. Nesse ano, mais uma vez tentava-se redigir um comunicado comum, que pudesse agradar a todas as associações presentes. O PCP achava que o comunicado devia reflectir todos os atropelos que o Governo de José Sócrates estava na altura a provocar no país, e estávamos ainda no tempo das vacas gordas. O PS, como era natural, não concordava, nem o redactor da versão inicial do comunicado, o Eng. Aquilino Ribeiro Machado, estava de acordo com aquilo que considerava ser uma alteração total do seu texto. Eu, que representava nessa altura a Renovação Comunista no grupo, e porque estavam ainda muito presentes as propostas neo-liberais do Compromisso Portugal, tentei que o ponto comum entre todos fosse a defesa do Estado Social, em oposição à visão de direita que transparecia daquele grupo de reflexão. A princípio o PS não percebeu e levei por tabela algumas críticas. Depois, um pouco mais reflectido, acho que compreendeu as minhas intenções, mas nessa altura já era tarde e não houve comunicado comum nesse 25 de Abril. Tudo isto para dizer que havia um ponto comum que nos podia unir a todos naquele momento era a defesa do Estado Social.

Hoje, em tempo das vacas magras, essa defesa como tem sido feita pelo Governo de Sócrates conduz à sua completa desvirtuação. Mas já não é só a sua defesa e a maneira de a pôr em prática que pode provocar dificuldades na unidade da esquerda. Os aspectos económicos e financeiros complicaram-se de tal modo, que deram origem a propostas muito diferentes para a sua resolução. Nesse sentido, a unidade à esquerda está cada vez mais difícil.

O programa anti-neo-liberal, que pareceu nascer na Aula Magna e que juntou várias esquerdas, e que de certa forma está na base da candidatura de Manuel Alegre, foi rapidamente ultrapassado pela voragem da crise económica e financeira que atravessa o país. Daí a necessidade da esquerda apresentar planos alternativos para a sua resolução que ultrapassem os PEC, que os três partidos do “arco da governação” nos querem convencer que são o único modo de ultrapassar este estado de coisas.

2. Outro dos temas abordados neste jantar foi a necessidade do povo de esquerda obrigar as direcções dos partidos que lhes estão mais afins a executarem uma outra política, que force a unidade entre eles.

Sei que na história da esquerda isso já sucedeu. É muitas vezes relatado um episódio já muito distante, de 1934, em França, em que comunistas e socialistas, que marchavam em manifestações diferentes, convergiram para uma só, estando na origem daquilo que se veio a chamar a Frente Popular e a sua posterior vitória nas eleições de 1936. Mas esta coordenação de esforços resultou da ameaça directa do fascismo e dos acontecimentos por ele motivados a 6 de Fevereiro, em Paris (ver aqui). Já depois do 25 de Novembro de 1975, em Portugal, vários dirigentes do PCP falavam deste acontecimento e admitiam que as massas populares pudessem em certo momento forçar socialistas e comunistas a formarem um Governo. Foi nessa altura que apareceram cartazes do PCP a defenderem que nas eleições houvesse uma maioria de esquerda para a Assembleia da República. Na prática tal Governo nunca se concretizou, tal como agora.

Tenho para mim que sendo importante a pressão popular, têm que ser os partidos a ter uma política de unidade. Ainda não há muito tempo Alfredo Barroso, um homem da fundação do PS, num Expresso da Meia-Noite, achava, contra o escárnio das suas opositoras de direita, que o PS devia ter uma política de unidade para a sua esquerda. Pelo contrário, no último Congresso do PS o que se assistiu foi António Costa a insultar o Bloco de Esquerda, chamando-lhe “partido oportunista, que parasita a desgraça alheia” (ver aqui), dificultando qualquer unidade à sua esquerda.

Neste sentido vejo com bons olhos as propostas, ainda que muito tímidas, do Bloco e do PCP de puderem discutir um governo de esquerda para depois das eleições. É pelo menos, depois da campanha de Alegre, alguma coisa de concreto que aparece à esquerda.

3. Alguns homens de esquerda têm defendido que os partidos à esquerda do PS, devem apresentar a este algumas propostas de Governo ou até só de incidência parlamentar, que permitisse por um lado provar que afinal estão dispostos a assumir responsabilidades governativas, ao contrário da ideia dominante, papagueada pela direita e por algum PS, de que os partidos à sua esquerda não querem assumir essas responsabilidades, são só de protesto, e por outro obrigar o PS a aceitar ou a negar tal desiderato, ficando neste caso a responsabilidade do lado de quem não colabora. Este sonho, que cavalga a ideia de muita esquerda, e que parece que está na base da iniciativa política de formação de um novo partido, não compreende que o problema não está na assunção de responsabilidades governativas pela esquerda, à esquerda do PS, mas sim na definição de uma nova política de esquerda, que rompa com os tradicionais compromissos e compadrios com as exigências do grande patronato e que ideologicamente faça o mesmo em relação à ideologia neo-liberal dominante.

A opção não pode ser pois ou a esquerda, à esquerda do PS, é bem comportada e vai para o Governo, aceitando as regras do PS de José Sócrates e transforma-se assim num mero apêndice deste ou então, se não aceita estas condições, transforma-se numa organização de protesto, tribunícia, incapaz de apresentar uma ideia que seja exequível. A solução está em que o principal partido que se reivindica da esquerda, seja capaz de executar uma nova política que atraia todos os homens de esquerda ou então terá que compreender que poderão e deverão ser outros a fazê-lo. Não se pode pertencer ao “arco governamental” e andar a dançar o tango com a direita e depois vir reclamar que a esquerda não lhe dá apoio.

Estas parecem-me ser algumas reflexões que vos deixo sobre aquilo que constituiu o prato forte de um jantar à esquerda

Canto superior direito: fotografia ilustrando a junção das manifestações de socialistas e comunistas a 12 de Fevereiro de 1934, na Place de la Nation, em Paris

02/02/2011

A resposta do PS ao diálogo com os partidos à sua esquerda

Em diversos artigos que, por sinal, têm sido publicados no Público, alguns intelectuais de esquerda, têm feito referências à necessidade de diálogo entre as esquerdas.

Cito os dois dos mais importantes, o de Rui Tavares, no Público, de 27/01/11, e transcrito no seu blog, ruitavares.net/blog,  e o de André Freire, no Público, de 31/01/11, e transcrito no site do MIC – Movimento de Intervenção e Cidadania 

No primeiro dos artigos sublinharia esta parte: “Não poder a esquerda convergir é um péssimo vício nacional. Como qualquer vício, não desaparece de um momento para o outro. E enquanto dura impede-nos de ser um país normal e uma democracia em que da alternância nasça alternativa. Ora isso é um sinal de subdesenvolvimento, não só do país, mas sobretudo da própria esquerda — que continua a comportar-se como se devesse alguma coisa aos sectários que dentro de cada partido.” Não quero neste momento entrar em polémica com Rui Tavares, gostaria unicamente de sublinhar o seu desejo legítimo de convergência da esquerda.

Do segundo sublinho também este longo período: “A impossibilidade histórica de as esquerdas se entenderem em Portugal, ao contrário do que se passa em muitos países europeus, sobretudo após o fim da Guerra Fria, é um problema não só para a relação entre representantes e representados (os segundos apoiam maioritariamente tal entendimento, os primeiros não), mas também para o equilíbrio do sistema político (a direita coopera, a esquerda não) e para a normalização da nossa democracia (já para não falar da brutal redução da influência dos votantes da esquerda radical, sempre excluídos do Governo). Claro que todos sabemos que há vários factores que tornam esse entendimento muito difícil (temos um dos partidos socialistas mais alinhados ao centro da UE; a esquerda radical não fez a devida actualização ideológica, parece não aceitar os nossos compromissos europeus e, sobretudo, parece não aceitar que, tendo em conta o seu estatuto de minoria, poderia apenas influenciar um eventual governo de "esquerda plural", nunca determinar as suas orientações fundamentais). Mas, apesar de tudo isso, é importante que os agentes políticos e os cidadãos (de esquerda) dêem passos no sentido de superar esse bloqueamento, uma patologia do nosso sistema político.” Não vou igualmente polemizar com André Freire, meu colega do blog Alegro Pianíssimo, de apoio a Manuel Alegre. Também este autor defende que é importante que os agentes políticos superem os bloqueamentos da esquerda.

Depois destas duas recomendações, que merecem discussão séria, mas de cuja viabilidade tenho muitas dúvidas, obtivemos hoje a resposta do PS, pela voz de Jorge Lacão. O PS propõe ao PSD como tema de revisão constitucional ou de lei eleitoral, não percebi, a redução do número de deputados de 230 para 180, já que este número está inscrito na Constituição, e também a falaciosa proposta de ligar os eleitos aos eleitores.
Aqui temos pois como o PS pensa resolver o problema das alianças à sua esquerda, fazendo-a desaparecer da Assembleia da República, ou reduzindo-a à sua expressão mais simples.
Como todos percebem reduzindo o número de deputados diminui-se a proporcionalidade e se juntar-mos a isto um outro sistema de eleição dos deputados, podemos acabar de vez com os pequenos partidos. Reduz-se a Assembleia a uns tantos deputados do PS e outros tanto do PSD, para rodarem entre si conforme as conveniências.
Aqui temos pois a resposta ao diálogo entre as esquerdas.

02/12/2010

Como o PS, o PCP e a CGTP servem de válvula de escape para a tensão social – Conclusão


As trocas e baldrocas dos partidos do “arco governamental” são conhecidas. No entanto, o CDS ao propor ao PS que este faça parte da possível maioria governamental que se venha a formar, para além de interesses próprios, visa não só forçar este partido a assumir os custos das medidas draconianas que estão para vir, como evita que ele fique à rédea solta na oposição. O PS seria assim um factor de controlo do descontentamento popular, permitindo o isolamento dos chamados partidos do protesto. Mas situações destas têm-se vindo a suceder, com pequenas alterações, desde o 25 de Abril

O que é novo nas declarações referidas no post anterior é o papel que alguns comentadores de direita atribuem agora ao PCP e à CGTP. Os parabéns dados àquele partido são, quanto a mim, bastante embaraçosos. Mas apreciemos a manifestação anti-NATO e a Greve Geral separadamente. Comecemos pela primeira.

De um artigo (parcialmente transcrito aqui) bastante interessante de São José Almeida, publicado no mesmo jornal e no mesmo dia em que Pacheco Pereira escreve o seu, destacamos, porque está relacionado com aquilo que temos vindo a afirmar, esta parte: “É cristalino que está em curso a adopção de um discurso de propaganda que pretende criar um clima de temor às forças de segurança e de isolamento do que pode ser o protesto. Esta estratégia de intimidação é transparente e consiste em passar a mensagem – que é de forma estranhamente acrítica reproduzida pelos jornalistas – de que há manifestantes perigosos e, por isso, é preciso fechar num quadrado sob escolta de polícia de intervenção uma manifestação que é feita pela Marcha Mundial das Mulheres, a ATTAC, as Panteras Rosa, um grupo de rastafári (para quem não saiba é um movimento religioso pacifista) e um grupo de anarquistas, mais um deputado do BE, José Soeiro (um dos mais preparados deputados em exercício) e um militar de Abril (Mário Tomé).” E termina, fazendo eu uma ligação da manifestação anti-NATO à Greve Geral: “A greve geral foi um sinal político do descontentamento que existe já e de como a revolta pode estar latente. É esse medo da rua que leva à deriva securitária que se assiste em Portugal. E que, por mais ridícula que seja, é grave e põe em risco as regras da democracia tal como a conhecemos até hoje.
Ora bem, este artigo, que tem a ver unicamente com a acção securitária da polícia, permite no entanto que se infira que ao se isolar e entregar aos cuidados da polícia a repressão ou a marginalização de “manifestantes perigosos”, está-se a consentir que no futuro seja fácil atacar trabalhadores em greve ou que muito legitimamente façam a sua propaganda ou que organizem piquetes para a mesma. Por isso, faz sentido que José Neves, no Vias de Facto retome, adaptando, o poema sempre atribuído a Brecht, mas que parece não ser dele:

Primeiro levaram os anarquistas,
Mas eu não me importei
Porque não era nada comigo.

Agora levaram-me a mim
E quando percebi,
Já era tarde.


Ora no Avante, de 26/11/10, lê-se isto: “Ao contrário do que muitos anunciaram e outros tantos desejaram, a manifestação decorreu sem incidentes. Não houve sangue, nem distúrbios, nem violência. Não se partiu vidros nem houve carros incendiados, apesar de uns ânimos mais exaltados terem concentrado as atenções de quem, consciente ou inconscientemente, tem por missão transformar o episódio no acontecimento, mostrar a árvore para que não se veja a floresta.
Não é de surpreender que assim tivesse sido. A centena de organizações que promoveu a jornada estava bem identificada, desde a maré rubra das bandeiras comunistas às organizações sindicais, do movimento das mulheres às organizações de reformados, de imigrantes, agricultores, colectividades..., a mostrar que ali estava gente que luta, sim, mas para construir um mundo de paz.
” Como se pode concluir, este texto permite não só que os comentadores de direita agradeçam ao PCP não ter havido distúrbios, nem violência, como favorece o isolamento daqueles que "consciente ou inconscientemente" têm por missão provocá-los. Pode o PCP sentir-se muito incomodado com afirmações daqueles comentadores, não pode é fugir à triste realidade de ser considerado como uma válvula de escapa para a tensão social, colaborando assim "consciente ou inconscientemente" com a direita.

Quanto à Greve Geral podemos dizer que a situação já é diferente. Não tenho dúvidas que os sindicalistas da CGTP se esforçaram ao máximo para que ela tivesse êxito, simplesmente, a manutenção da tradição de no fim de uma greve geral não se fazer qualquer acção de protesto ou de massas, parece-me ser um grave erro, a corrigir em futuras paralisações gerais. Recordo-me que no final dos anos 70 ou início de 80, uma greve da função pública, que acompanhei de perto como sindicalista, terminaria com uma manifestação em S. Bento, que foi desconvocada há última da hora por não se ter comunicado a tempo ao Governo Civil a sua realização. Este facto provocou uma enorme desilusão entre os trabalhadores.
Penso que os agradecimentos à CGTP pelo desenrolar ordeiro da greve se deve bastante à maturidade dos trabalhadores e também ao desejo do Governo de não se intrometer demasiado. Recordo-me também duma greve em que o Ângelo Correia interveio como Ministro da Administração Interna, que ficou conhecida como a revolução dos pregos, já que ele se socorreu de meia dúzia de pregos, inventados ou reais, espalhados numa estrada para acusar os grevistas de intuitos revolucionários. Nesta, a tensão esteve ao rubro e aí a CGTP não foi apontada como o cordeiro manso como agora se verificou, também a força sindical era outra e talvez os dirigentes do PCP tivessem outra têmpera.

Tal como já afirmei em outros posts o que se passou na manifestação anti-NATO e nas acções desencadeadas pela polícia nas fronteiras não auguram nada de bom quer para a esquerda, quer para as liberdades democráticas.

26/11/2010

Algumas conclusões políticas para a esquerda da Manifestação anti-NATO e da Greve Geral


Hoje, na sociedade portuguesa, verifica-se um claro fenómeno de crise social, com a pauperização das classes trabalhadoras, de crise económica, com a destruição da indústria produtiva, e política, com a incapacidade do principal partido do Parlamento de governar. Este facto tem acarretado uma crescente radicalização à esquerda. Acresce ainda o clima social vivido em alguns países da EU, tais como a Grécia, a França e a Grã-Bretanha, que tem alimentado o imaginário de certa esquerda. É pois neste clima que se movem os principais actores da esquerda.

Tendo em atenção este facto, torna-se impossível os principais partidos à esquerda do PS poderem contemporizar com este, principalmente com o seu Governo e com o seu chefe incontestado, José Sócrates. O PS pela política defendida e pelas propostas de Orçamento e de PECs apresentadas tem-se vindo a isolar cada vez mais da sua esquerda, praticando uma clara política de colaboração com a direita. Apesar de algumas vozes, que não chegam aos céus dos media, virem regularmente apelar para que se faça mais um esforço de diálogo entre o PS e as forças à sua esquerda, nunca isso esteve tão distante. Daí as dificuldades que a candidatura de Alegre enfrenta.

Como têm o Bloco e o PCP reagido a esta situação? O Bloco apresentando-se cada vez mais como um partido da esquerda não conciliadora, tentando sempre apresentar alternativas que forcem a sociedade portuguesa a evoluir para a esquerda. Há muito que ficaram para trás as causas fracturantes, que facilmente foram recuperadas pelo PS, e se virou para as preocupações sociais e do desenvolvimento económico. Recorrendo a certos chavões da gíria política, tornou-se um partido responsável, reformista e integrado no sistema, apesar de recusar, e bem, qualquer colaboração com o PS chefiado por Sócrates, mas apoiando um candidato da ala esquerda daquele partido, que em tempo oportuno soube dialogar com ele.

O PCP, seguindo na prática uma política semelhante, utiliza na sua definição ideológica e no seu convívio com as demais forças políticas um acentuado sectarismo e esquerdismo verbal, que o arrastam permanentemente para o isolamento, que de um modo geral é procurado, e que no campo internacional o levam a defender as coisas mais indefensáveis. Dai a apresentação de um candidato próprio à presidência da República, sem carisma e sem qualquer relevância política, a não ser dentro do seu partido. Deste facto resulta que na prática as votações do Bloco e do PCP sejam semelhantes na Assembleia da República, mas que depois na vida real não haja quaisquer consequências unitárias ou de acção comum, excepto aquelas que se desenvolvem no âmbito sindical, mesmo aí depois de muitas negociações e de pequenas escaramuças.

A radicalização da sociedade portuguesa acarretou o aparecimento, cada vez com maior visibilidade, do velho esquerdismo, sempre latente desde os anos 60 e 70 na sociedade portuguesa. Hoje simplesmente ele manifesta-se de maneira diferente. Não temos partidos a reivindicarem-se do passado do PCP, mesmo a tentar refundá-lo ou a criar um novo. Temos jovens anarquistas a lutarem contra o sistema ou alguns esquerdistas a assumirem que a luta é contra o capitalismo e não pela sua reforma. Mas temos também, e não tínhamos, ecologistas, mais ou menos radicais, ou apologistas de um viver alternativo à actual sociedade capitalista. Não sendo iguais, conservam igual radicalidade dos tempos antigos. E a crise social e económica do capitalismo tem os vindo a alimentar e a fazer progredir. Em que é que isto se reflecte nas relações destes grupos com os partidos de esquerda com representação parlamentar? Em primeiro lugar, o afastamento de alguma desta gente, os anarquistas nunca lá estiveram, do Bloco. Em segundo, uma recusa total em apoiar Manuel Alegre, o candidato também de Sócrates, como dizem. Em terceiro, uma certa aproximação ao PCP, com a esperança nunca verificada, de que este partido apoiasse um candidato unitário não comprometido com o PS, ou que, dado o seu esquerdismo verbal, os viesse a secundar na sua crescente radicalização social e política.

Em que é que as últimas lutas: manifestação anti-NATO e da Greve Geral, alteraram esta situação? Um maior afastamento dos movimentos radicais do Bloco, considerado um partido do sistema, ao aceitar integrar a parte da frente da manifestação anti-NATO e ao distanciar-se dos grupos que integravam a PAGAN, outra das plataformas que se propunha lutar contra a cimeira daquela organização militar, apesar de alguns dos seus aderentes continuarem a participar nela. E de não terem defendido uma manifestação no final da Greve Geral e terem-se ficado por um espectáculo de variedades na Praça da Figueira. Mas acima de tudo, e anterior àqueles factos, por ser um partido que concentra grande parte de sua actuação no Parlamento e apoia Manuel Alegre.
Em relação ao PCP, apesar de nunca terem morrido de amores pelos comunistas, achavam que teriam alguns pontos em comum. Rapidamente, na manifestação anti-NATO, verificaram o que é a acção trauliteira e sectária do PCP e é vê-los na net a desenterrar todo o conjunto de adjectivos que os seus pais espirituais de há cerca de quarenta anos despejavam sobre aquele partido. Por último organizaram uma manifestação anti-capitalista no dia Greve Geral, que garantem que foi um êxito, seguida de ocupação de uma casa da Câmara que estava devoluta . Tudo acções que não contaram com o apoio da CGTP e por tabela do PCP. A defesa do Francisco Lopes, como candidato à Presidência da República pelo PCP, também não tem contribuído para a sua aproximação àquele partido.

A esquerda está hoje profundamente dividida. Verifica-se de facto uma crescente esquerdização de sectores minoritários da sociedade portuguesa. Espero, no entanto, que isto seja o sinal de que alguma coisa está a mudar, que a correlação de forças será diferente no futuro e que possamos um dia ter a esperança de ter uma “esquerda grande” a governar este país.

06/11/2010

A quadratura do círculo de Manuel Alegre


Na semana que agora finda houve três afirmações que me merecem alguma opinião. No entanto, para tentar tornar mais curtas as minhas intervenções irei fazer um post para cada uma.

No programa Contraste, da SIC Notícias, transmitido às terças, às 23h00, e que junta Francisco Assis e Morais Sarmento, o primeiro defendia abertamente uma junção de esforços entre o PS e o PSD para porem em prática o orçamento aprovado pelos dois partidos. É engraçado que este ponto de vista mereceu uma graçola de Morais Sarmento, a propósito do apoio que o PS está a dar a Manuel Alegre. A que Assis deu troco. Já não me recordo da graçola, nem da resposta de Assis. - Podem, dentro de alguns dias, consultar na SIC on-line o vídeo deste Contraste. - Mas o que interessa aqui reter é esta esquizofrenia que está a atravessar o PS, que defende e pratica acordos à sua direita e acusa os partidos à sua esquerda de extremistas e de protesto e depois apoia um candidato que está a travar uma batalha que é o contrário disso tudo. Por isso percebe-se o apelo de Manuel Alegre para que os socialistas acordem e se envolvam mais na campanha.

De facto a situação está muito complicada e eu não gostaria de ignorar este facto. Com um PS claramente comprometido com o centrão, ou mesmo com as políticas de direita, não há nenhum candidato de esquerda, mesmo independente e super partidário, que resista a que uma das suas bases de apoio não só não esteja nada interessada na sua eleição, dado que isso provavelmente só iria irritar os “mercados” internacionais a que ela está atada de pés e mãos, como esse facto inverteria a sua lógica de apoio à formação do um bloco central.
Se o candidato não perceber esta situação e continuar a tentar trazer todo o PS atrás de si está condenado à derrota mais clamorosa.
O PS, desde que José Sócrates tomou o poder, nunca teve uma estratégia de vitória em relação a eleições que não fossem aquelas a que o seu chefe concorria. Perdeu, as presidenciais de 2006 para Cavaco Silva, já antes tinha perdido as autárquicas de 2005, com principal relevo para a vitória de Carmona em Lisboa. Perdeu as europeias, em 2009, sacrificando o seu compagnon de route Vital Moreira e também as autárquicas de 2009, que só foram ganhas em Lisboa, por António Costa, devido à táctica política seguida por este, ao arrepio provavelmente de alguns vozes mais influentes do PS.
Por isso, não será de estranhar que sacrifiquem mais uma vez no altar das conveniências partidárias de José Sócrates o seu candidato presidencial.