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01/12/2011

A falta de memória de Mário Soares

Não li ainda o livro de Mário Soares Um político assume-se. Mas vi a entrevista que deu a Ana Lourenço, na SIC Notícias, e li hoje partes do seu livro no Público.

A entrevista assume, lamentavelmente, um carácter anti-comunista. Um homem que, ainda recentemente, preconiza uma revolução pacífica para a Europa, que assina um Manifesto, antes da Greve Geral, que apela à mobilização de todos contra as políticas que estão a ser seguidas, daquilo que fala é da sua relação azeda com Cunhal e das diferenças entre o seu partido e o PCP. Repisa e volta a repisar os acontecimentos do PREC, elevando-se ao nível de um Melo Antunes, quando diz que este em Lisboa e ele no Porto, comandaram a resistência ao "golpe" do 25 de Novembro e a manutenção, na legalidade, do PCP. Só que Melo Antunes defendeu publicamente, na RTP, a necessidade do PCP para o avanço da Revolução, em termos que o marcaram para todo o resto da sua vida, pois a direita e Sá Carneiro nunca lhe perdoaram. Enquanto que Mário Soares se preparava no Porto para marchar à frente de toda a direita reaccionária contra a Comuna de Lisboa. Ainda há bem pouco tempo o historiador António Borges Coelho lembrou isso.

Na transcrição que o Público faz hoje da pag. 183 do livro, verifica-se a falta de memória notória de Mário Soares. Lá vem a comparação, como fazem Zita Seabra e Vasco Pulido Valente, entre o discurso de Cunhal e de Lenine em cima de um tanque, nas suas chegadas do exílio depois da Revolução de Fevereiro, no caso da Rússia, e do 25 de Abril, no que se refere a Portugal. A única diferença é que não afirma, como aqueles, que Álvaro apelou à revolução socialista. Simplesmente, diz que o tanque estava lá de propósito para Álvaro, à semelhança de Lenine, fazer o discurso em cima dele. Mas o mais grave é que afirma que Cunhal discursou entre um soldado e um marinheiro, quando é evidente pela fotografia que mostro que não existia qualquer marinheiro. Mário Soares deve estar-se a recordar de ter visto a fotografia de Cunhal abraçado a um soldado e a um marinheiro na manifestação do Primeiro de Maio de 1974. Depois, escreve um disparate de todo o tamanho, dizendo que Lenine chegou a Moscovo, quando este de facto chegou a Petrogrado, depois chamada Leninegrado, e actualmente São Peterseburgo.

Não houve ninguém que tivesse revisto a sua escrita, pois qualquer dos seus assessores na Fundação que leva o seu nome, lhe podia ter corrigido o dislate. O mesmo se passa com a fotografia da chegada de Cunhal. Bastava dar-se ao trabalho de ir consultar qualquer jornal da época.

Quanto à historieta que conta de ter sido convidado a subir para o tanque e depois a descer, Vítor Dias, no seu blog, desmonta bem essa tentativa para se limpar, por aparecer ao lado de Cunhal na fotografia.

Quanto às diferenças referentes à chegada de Lenine e de Cunhal vindos do exílio ver um texto meu aqui.

14/12/2010

Uma biografia pouco íntima


Saiu recentemente o livro Álvaro Cunhal, retrato pessoal e íntimo. Biografia, do jornalista Adelino Cunha, da Esfera dos Livros. O seu lançamento revestiu-se de alguma pompa e circunstância: foi apresentado por António Vitorino e na net encontram-se várias referências a esse lançamento, com o discurso do seu apresentador (ver aqui e aqui), e ao acolhimento que o livro teve na imprensa. Chega-se mesmo a mostrar vídeos de alguns dos testemunhos orais que foram recolhidos pelo autor (ver aqui e aqui). No entanto, que eu reparasse, numa consulta provavelmente apressada, ainda não li nenhuma recensão crítica ao mesmo. Sem pretender ser único, aqui vai a minha opinião sobre o mesmo.

Quanto a mim o livro é bastante desigual, notando-se que o autor conseguiu obter informação sobre alguns factos concretos da vida de Cunhal e que sobre outros teve que passar por cima, recorrendo a descrições vagas sobre o movimento comunista internacional, sobre a URSS ou mesmo sobre o PCP. Podemos mesmo dizer que quando falta tema ao autor este se desloca vários anos para a frente ou para trás na vida do Álvaro, pondo-nos um pouco à nora sobre o seu encadeado.
Os primeiros passos de Cunhal na Juventude Comunista e depois no PCP e os primeiros contactos internacionais são fracos e pouco documentados. O mesmo se verifica com a sua estadia em Paris, nos últimos anos que antecederam o 25 de Abril. A parte mais conseguida é a sua terceira prisão que se verificou em 1949, quando residia clandestino no Luso, a fuga de Peniche, em 1960, a vida em Moscovo, com a companheira e a filha, quando o seu partido e ele próprio resolveram que devia sair definitivamente do país, e depois os tempos pós 25 de Abril, mais fáceis de documentar. Mesmo assim, estes muito falhos de informação sobre as últimas conspirações em que se envolve para recuperar o partido e correr com os renovadores, que ameaçavam a sua visão do mesmo.

Os objectivos do livro são traçar o retrato pessoal e íntimo do biografado, mais do que perspectivar a sua vida política, o que não é inteiramente verdade como se verá mais adiante. Para concretizar aquele desiderato socorre-se dos depoimentos da irmã, Eugénia Cunhal, da mãe da sua filha, Isaura Moreira, da própria filha, Ana Cunhal, e de Cândida Ventura, mas isto é um caso à parte, que será examinado posteriormente. No entanto, já na biografia de Pacheco Pereira, com que esta inevitavelmente terá que se confrontar, essa parte íntima também é relatada através do retrato psicológico do Álvaro feitos por aquele autor, simplesmente este pára na fuga de Peniche, não tendo ainda publicado a parte referente ao nascimento da filha e à vida em Moscovo e em Paris e ao pós-25 de Abril. Por outro lado, aquilo que é apontado como novidade neste livro, já Pacheco Pereira o tinha feito, que é a interpretação dos seus romances, assinados com o nome de Manuel Tiago, como sendo, em parte, autobiográficos.

Pode-se dizer que há uma grande empatia entre o autor e Álvaro Cunhal, apesar de estabelecer uma diferença entre o Cunhal da clandestinidade e o dirigente que vive no exílio, na alta-roda do movimento comunista. Já se sabe que, para Adelino Cunha, o primeiro é muito mais genuíno que o segundo. No entanto, verdade seja dita, Cunhal nunca é apresentado como sedento de poder, que teve que destronar Pavel (Francisco Paula de Oliveira), nos anos 30, ou Júlio Fogaça nos anos 50, para poder ser secretário-geral, como é frequentemente referido. E mais, os anos mais negros do partido, com acusação de assassínios de “traidores”, são aqueles em que Álvaro está ausente, por estar preso.

Há em todo o livro uma clara oposição entre o que foram os propósitos do movimento comunista internacional e da própria URSS e os do Cunhal, enquanto os primeiros são sempre criticados utilizando um certo anti-comunismo de pacotilha, o segundo prossegue com objectivos que, mesmo que sendo errados, são suficientemente nobres para poderem ser seguidos pelo biografado. É esta a parte que de certo modo mais confunde no livro e o torna desse ponto de vista desinteressante e, quer queira ou não o autor, ocupam grande parte da sua espessa biografia, de mais de 600 páginas.
Convém realçar, porque é verdade, que na parte final relativa à ascensão de Gorbachev e depois de Ieltsin o autor não se perde em rodriguinhos elogiosos e dá uma visão bastante desencantada deste último período da URSS e depois já da Rússia.

Destaco também os depoimentos de Cândida Ventura e de Santiago Carrillo. A primeira é um caso espantoso, que antes do o ser já o era. Segundo as palavras da própria e do autor, parece que desde sempre (anos 50) já era dissidente, e só se manteve no Partido para ver como é que era, tendo saído unicamente em 1976. Chega mesmo a ser apresentada como agente dupla, não se sabe de quê. Em post anterior já tinha feito referências pouco abonatórias em relação a esta antiga militante do PCP, que na altura da invasão da Checoslováquia pelo Pacto de Varsóvia, em Agosto de 1968, era designada por Flausino Torres, no seu livro póstumo chamado Diário da Batalha de Praga, como a “responsável”. Há uma história pouco clara em relação ao papel desempenhado nessa altura por Álvaro Cunhal. Segundo Cândida Ventura este tê-la-ia avisado de que queriam matar o renovador checo Alexandre Dubcek. Flausino Torres é muito mais peremptório no papel negativo e perfeitamente ditatorial do Álvaro. Acredito muito mais na versão de Flausino Torres.
Quanto a Santiago Carrillo, aparece aqui e acolá, a propósito e a despropósito, fazendo declarações sobre Álvaro Cunhal e o PCP. O autor por possuir essas declarações achou por bem que as tinha que incluir e daí polvilhar o livro com elas.

Restam duas críticas que me parecem importantes. A primeira é a recusa do autor em incluir em notas de rodapé ou no final de cada capítulo a referência de onde foram retiradas as abundantes citações transcritas no livro. Apresenta uma bibliografia final que quanto a mim não é suficiente.
A segunda é a forma descuidada, a carecer de revisão, de algumas referências a datas e a pessoas. O 28 de Maio não foi a 26. O levantamento da Marinha Grande não foi em 1944, mas sim em 34. Do Pacto Germano-Soviético não resultou a anexação da Bielo-Rússia e da Ucrânia. Vasco Gonçalves não foi substituir Otelo no Comando da Região Militar de Lisboa, mas sim Vasco Lourenço. Fala-se da terceira prisão do Álvaro a seguir refere-se a segunda. Buenos Aires em dois parágrafos quase seguidos aparece referida como uma cidade cosmopolita, etc., etc.

Para terminar e para que não digo que só faço crítica negativa, podemos dizer que é um livro agradável de se ler e que facilmente se percorrem as 600 páginas sem especial cansaço ou maçada.

09/07/2010

Álvaro Cunhal, sete fôlegos do combatente.


Fui ao lançamento do livro de Carlos Brito, Álvaro Cunhal, sete fôlegos do combatente. Memórias, das Edições Nelson de Matos, que teve lugar em Lisboa. Podemos dizer que estavam lá todas aquelas categorias de cidadãos, que José Neves, num texto cheio de graça, publicou no Vias de Facto, Os seres humanos em geral e o PCP em Particular. Já se sabe que algumas categorias mais reaccionárias não estavam lá, nem os ortodoxos mais empedernidos e penso que o José Neves também não.
O livro foi apresentado pelo editor, que devido a eu estar muito mais velho já quase não me reconhecia, quando fomos amigos de juventude, pelo Manuel Alegre, que fez um discurso de circunstância, para não se comprometer com nenhuma das partes que o apoia para presidente da República, e pelo António Borges Coelho, que aos oitenta e tal anos começou a publicar uma história de Portugal em vários volumes. Valente historiador e cidadão, que, com grande clareza de raciocínio, não se eximiu de referir, citando o próprio Brito, quando Mário Soares se refugiou no Porto, no 25 de Novembro de 74 e pensava marchar à frente de toda a reacção contra a Comuna de Lisboa. No final, José Manuel Mendes leu textos do livro.
Sei que este lançamento se passou há mais de um mês, que já foi referido por toda a imprensa, mas não quis deixar de dar testemunho sobre o mesmo.

Quando fui ao evento já tinha lido o livro. Lê-se de uma penada. Hoje para vos fazer esta crítica reli quase metade do mesmo e continuo a percorrer com prazer as suas histórias e evocações. Para quem viveu aqueles acontecimentos no PCP, é um pouco a nossa vida que é passada em revista. Por isso recomendo-vos vivamente a sua leitura, que não perdem o vosso tempo.
O livro, ao contrário de outros, cujos autores deixaram o PCP, não é nenhum ajuste de contas com o passado e muito menos com Cunhal. É mesmo bastante elogioso para a personagem, simplesmente não tem aquele carácter litúrgico que os ortodoxos gostam de imprimir a tudo aquilo que escrevem sobre o “venerando” Secretário-geral. Não há grandes revelações. A não ser aquela que foi glosada até ao infinito a quando da morte de José Saramago, de Álvaro ter dito, quando foi preciso escolher um director para O Diário, que Saramago era um esquerdista. Depois disso muita coisa mudou e as relações entre os dois melhoraram bastante.
Podemos dizer que mesmo em relação ao 25 de Novembro, e à época que antecedeu aquela data, há um grande pudor no tratamento do assunto. Eu penso que as coisas foram um bocadinho mais complicadas do que aquilo que descreve Carlos Brito. Mas considero que este livro não é uma história dos acontecimentos, mas sim as memórias do período em que Álvaro Cunhal e Carlos Brito se relacionaram.
O mais importante de toda a descrição é a enumeração daquilo que Carlos Brito considere os sete fôlegos de Cunhal, ou seja, as suas principais contribuições teóricas e a sua tradução prática na linha do Partido.

Desconhecendo eu este trabalho de Brito, elaborei há já algum tempo dois posts onde de certo modo abordo igualmente alguns dos aspectos teóricos desenvolvidos no livro. O meu texto tinha por título: O PCP, a Revolução Democrática e Nacional e o rumo ao socialismo – Algumas contribuições para a caracterização do 25 de Abril. Parte I e II (ver aqui e aqui) Na altura Brito leu-os, teve o pudor de não fazer grandes comentários, mas informou-me que estava a preparar as suas memórias que abrangiam o período referidos nos meus textos.

Para Brito o primeiro grande fôlego da Álvaro Cunhal foi sem dúvida o Rumo à Vitória, de 1964, onde era plasmada a situação política portuguesa e as tarefas indispensáveis para o derrube do fascismo e a proposta da Revolução Democrática e Nacional como tarefa central a realizar a seguir à queda do fascismo. Brito afirma mesmo: “O eixo ideológico central do Rumo à Vitória é a Revolução Democrática e Nacional, uma criação teórica a que Álvaro Cunhal chegou depois de profundo estudo sobre a realidade do país, que lhe permitiu fixar a etapa da revolução portuguesa e as respectivas tarefas no processo mundial”.
Concordando eu no essencial com a afirmação anterior não quero no entanto deixar de citar, a partir de Brito, este texto de Cunhal, de 43. “Nós tornamos bem claro que sempre fomos e continuamos sendo pelo Poder Soviético. Mas as condições não estão maduras para a Revolução Proletária. Todas as energias e todas as forças se devem unir no momento presente para bater o inimigo comum – o fascismo”.
Faço esta citação porque no texto por mim elaborado apresento a Revolução Democrática e Nacional não como uma novidade teórica, mas como a tradução para Portugal, neste caso com alguma originalidade e bastante entrosamento nacional, das propostas apresentadas pela Internacional Comunista, a partir do seu VII Congresso (1935) e depois pelo movimento comunista internacional, durante e no pós II Guerra Mundial, que consistiam na criação de etapas intermédias que ou visavam a defesa contra o fascismo (é o caso das Frentes Populares) ou o derrube do mesmo e a sua substituição por um estado intermédio. E isto é tanta verdade, que em 1943 Álvaro Cunhal no seu informe ao III Congresso do PCP, para justificar esta nova orientação, então ainda recente, utiliza as expressões que Brito transcreve.
Gostaria aqui só de lembrar, a título de exemplo, que enquanto a Internacional Comunista na sua fase esquerdista, já por mim aqui referida, preconizava para Itália a revolução socialista e recusava a colaboração com as forças liberais e sociais-democratas, então denominadas de sociais-fascistas, Gramsci na prisão defendia a convocação de um Assembleia Constituinte. Parecendo que isto nada tem a ver como o tema que estamos a tratar, parece-me a mim ser extremamente importante, pois que o PCP actual, um pouco na linha dos esquerdistas dos anos 60 e 70, esquece as formulações da Revolução Democrática e Nacional e começa a refugiar-se, pelo menos no campo das palavras, num revolucionarismo, que eu diria, de pacotilha. Este assunto já foi por mim abordado diversas vezes (ver aqui e aqui).

Quais foram os outros fôlegos de Cunhal sublinhados por Brito. O segundo, que eu não dei particular importância no meu texto, foi a sua contribuição para o VII Congresso extraordinário do PCP, realizado em Outubro de 1974, que para além da supressão do termo ditadura do proletariado do seu programa, propõe um Plataforma de Emergência, de que eu já não me recordava, e que era muito mais recuada do as propostas avançadas na Revolução Democrática e Nacional. À luz da flexibilidade táctica de Cunhal compreende-se muito bem esta ideia.
O terceiro fôlego é aquele que resulta do golpe falhado do 11 de Março, que faz avançar o processo revolucionário a toda a força. Estas são páginas empolgantes de Brito a propósito da actividade aí desenvolvida por Cunhal. Estavam-se a concretizar todas as propostas da Revolução Democrática e Nacional (RDeN), com as nacionalizações e o começo da reforma agrária, Cunhal por isso resolveu acrescentar àquela revolução a expressão a caminho do socialismo. E a partir daí desenvolve toda uma teoria que Brito critica, e bem, de que em Portugal não podia vencer uma democracia burguesa, tipo ocidental. Assim, ou a RDeN derrubava os monopólios e então era possível alcançar a democracia, ou estes só sobreviviam num regime de ditadura. Como se veio a verificar depois do 25 de Novembro, e principalmente depois da revisão constitucional que acabou com as principais nacionalizações é possível num regime capitalista monopolista conviver com a democracia burguesa. Foi um erro de previsão de Cunhal, que Brito sublinha.

Há também no livro de Brito um aspecto, que eu dou bastante importância no meu texto, que é a pesada derrota que o PCP sofreu nas eleições para a Assembleia Constituinte. Brito considera que o avanço da contra revolução no Verão Quente de 1975 e as posições assumidas pelos militares moderados têm todas elas a ver com o resultado daquelas eleições, que dificultou que certos sectores do MFA continuassem a apoiar o vanguardismo da esquerda militar e do PCP, quando o seu resultado eleitoral não passou dos 12,5%. Eu próprio no meu texto remeto para os valores que outros partidos comunistas, como o francês e o italiano tinham obtido em eleições para a Constituinte depois da II Guerra Mundial, que eram sem dúvida muito superiores ao nosso, como para os resultados dos próprios bolcheviques na efémera Assembleia Constituinte da Rússia de então.

Em resposta à situação de crise que se verificou no Verão de 75, realiza-se a 10 de Agosto uma reunião do Comité Central em Alhandra, onde Cunhal prenunciou um discurso que para Brito constituiu o seu quarto fôlego. Para evitar que o PCP fosse encostado ao muro era necessário negociar com todas as forças que de certo modo estavam ou eram do MFA, principalmente com o Grupo dos Nove que tinham acabado de publicar um manifesto muito crítico da esquerda militar e da acção de Vasco Gonçalves. Brito dá grande importância a este discurso e a esta reunião, considerando-a fundamental para a compreensão de tudo aquilo que veio a seguir e até, podemos dizê-lo, à passagem do PCP sem grandes estragos pelo 25 de Novembro. Estando no essencial de acordo com esta ideia, parece-me, no entanto, que o que ficará para a história não foi a vontade do PCP em negociar, mas a constante cavalgada dos acontecimentos que se foram produzindo a partir da formação do Governo de Pinheiro de Azevedo, o VI Governo Provisório. O próprio Brito conta o episódio em que participou da formação da FUP, uma união entre o PCP o MDP e algumas formações esquerdistas que só durou um dia, pois quando Álvaro Cunhal soube do assunto achou que era melhor o PCP retirar-se daquela organização. Mas não esquece igualmente a formação dos SUV, Soldados Unidos Vencerão, e até o próprio cerco da Assembleia Constituinte pelos operários da construção civil. É neste sentido, que sendo de valorizar as propostas de negociação apresentadas por Cunhal naquela importantíssima reunião do Comité Central, temos que na prática o PCP foi arrastado pelo torvelinho constante das acções esquerdistas. Por outro lado, a imagem que ao longo dos anos se tentou mostrar deste período foi sempre de um constante desgoverno, caracterizado ou pela cara tapada dos SUV ou pela saída de punho erguido dos deputados do PCP depois do cerco à Assembleia ter terminado ou pelo juramento do RALIS de punho no ar e para o qual o PCP em nada contribuiu. É por estas razões que ainda hoje o 25 de Novembro apresenta grandes áreas nebulosas e que acarretam múltiplas interpretações. Nesse aspecto Carlos Brito dá alguma contributo para o seu esclarecimento, mas não o faz, quanto mim, de modo definitivo.

Para Brito o quinto fôlego de Álvaro Cunhal foi a importância que este deu a partir do 25 de Novembro ao texto constitucional que viria a ser aprovado a 2 de Abril de 1976.
Aquele dirigente, como de outros dos partidos à direita, porque andaram arredados do trabalho dos constituintes, desconhecia o conteúdo do mesmo. Para Álvaro Cunhal foi uma agradável surpresa e partir daí passou a ser o seu maior defensor. Servindo-se do seu conteúdo, em que a expressão a caminho do socialismo estava incluída, Álvaro Cunhal muitas vezes repetiu que a Revolução Portuguesa caminhava para o socialismo. Brito glosa um pouco este tema, afirmando que Cunhal o fazia no sentido de defender o texto constitucional. No meu texto considero que foi um erro ou pelo menos uma grande ilusão continuar-se a definir a revolução portuguesa a caminho do socialismo depois da derrota do 25 de Novembro. Criou grandes ilusões nas massas e não favoreceu em nada a defesa e a compreensão das novas condições de actuação em regime democrático. Brito não foge ao tema e dá-lhe também o devido enquadramento.


Por último, temos o sexto e o sétimo fôlego. O sexto refere-se àquele espaço vazio que Álvaro descortinava na vida política portuguesa e que ele pensava preencher com o partido eanista. Hoje sabe-se que foi um erro e que o seu aparecimento desorganizou os resultados eleitorais subsequentes, permitindo no final as maiorias absolutas de Cavaco e uma diminuição acentuada dos votos no PCP. O sétimo foi a proposta de aprovação de um novo programa do Partido, Por uma Democracia Avançada no limiar do Século XXI, a que Brito dá grande importância, mas que no momento em que surgiu, Dezembro de 1988, no XII Congresso, passou desapercebido tanto no Partido, como na opinião pública.

Feita a esta descrição muito reduzida nos dois últimos fôlegos, Brito passa depois aos últimos anos de Cunhal e à contestação que deu origem à Renovação Comunista. Como em alguns episódios estive envolvido, sendo inclusive citado pelo próprio Brito, como muitos outros camaradas da Renovação, deixarei para momento mais oportuno esta apreciação. Sei que alguns dos actuais membros do PCP já começaram a bichanar, ainda que eu tivesse reparado não directamente. Da parte do Partido, que eu saiba, não houve ainda qualquer reacção oficial. É difícil tal é o bem fundamentado das apreciações de Brito. Termino pois com uma recomendação de leitura.

26/05/2010

Álvaro Cunhal, sete fôlegos do combatente



Com apresentação de Manuel Alegre e António Borges Coelho e leitura de textos por
José Manuel Mendes, é lançado no dia 27 de Maio, às 18,30 horas, na Livraria BUCHHOLZ (Rua Duque de Palmela, 4 – 1250-098 Lisboa), o livro de Carlos Brito, Álvaro Cunhal, Sete Fôlegos do Combatente.

Vão e comprem um livro, que vale a pena. Eu já li.