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29/09/2011

Os concursos televisivos de cultura geral

Penso que este não seja um tema suficientemente digno para merecer um post, no entanto, como estes concursos preenchem parte do meu serão e tenho sobre os mesmos opinião, não deixarei de vos maçar com este assunto.

Há anos escrevi qualquer coisa sobre o tema. Resolvi descrever-vos a minha participação no concurso que na altura corria na RTP, Um Contra Todos. No entanto, apesar da canseira porque passei nesse concurso, o pezinho continuava-me a puxar para concorrer ao último que decorreu naquela estação de televisão, Quem quer ser Milionário? Alta Pressão. Foi só o bom-senso da Ana Maria que me impediu de concretizar tal desiderato.

E de facto ela tinha razão, bastava-me sair uma daquelas perguntas em que equipa joga o jogador tal ou qual é a último álbum da cantora pop x ou qual foi o filme em que entrou o actor y, já que presentemente vou muito pouco ao cinema, para ser mandado para a bancada sem apelo nem agravo.

De facto estes concursos recorrem a um conjunto de perguntas em que se algumas, por acaso, são de cultura geral, como aquelas que um cidadão bem informado deve conhecer, como, por exemplo, quem escreveu Por quem os Sinos Dobram? ou qual foi o primeiro Presidente da República a seguir ao 25 de Abril? A maioria é de uma vacuidade atroz, que afasta qualquer adicto diário de cultura geral, na expressão feliz de José Carlos Malato, de participar neles.

Tenho para mim que estes concursos têm algumas exigências. Primeiro é melhor haver diversas alternativas, as tradicionais quatro hipóteses, do que ser só pergunta-resposta. Este último caso exige que o concorrente perceba perfeitamente o que se quer, por vezes há alguma ambiguidade, e por outro lado que a nossa memória, principalmente nos da minha idade, não nos traia. Podemos saber responder, mas esquecemo-nos momentaneamente da resposta. Segundo, não faz muito sentido manter uma modalidade como aquela que foi seguida há algum tempo, que era opor o saber de criancinhas que tinham acabado de estudar certas matérias na escola e adultos que há muito se tinham afastado da mesma. O que estava em causa não era a cultura de uns contra os outros, mas quem tinha mais recentemente recapitulado o programa escolar. Por último, e não menos importante, deve existir empatia que entre o apresentador e os concorrentes.

Mas tudo isto vem a propósito da substituição na RTP do concurso Quem quer ser Milionário? Alta pressão, que de facto já há muito tempo se arrastava na televisão, por uma um outro chamado O Elo Mais Fraco, expressão que me lembra sempre a de Lenine referindo-se à Rússia, que era o elo mais fraco do imperialismo, daí a revolução ter começado naquele país. Mas isto são memórias de alguém que vê política em tudo.

As quatro hipóteses do concurso anterior foram substituídas neste por pergunta-resposta. Os concorrentes são deliberadamente mal tratados, para dar ao programa um ar agressivo. As suas profissões são objecto de gozo ou desprezo e não há qualquer conversa significativa entre o apresentador e os concorrentes. Pelo contrário, no programa anterior, que podia ser substituído por outro de formato idêntico, gerava-se uma empatia entre o apresentador, o José Carlos Malato, e os concorrentes que por vezes chegava à pieguice, quando valorizava excessivamente os filhos pequenos dos concorrentes ou suas mãezinhas, adoradoras do Malato. É também verdade que este programa vivia muito do ego desmesurado do apresentador, rondando sempre entre a sua hipocondria e a sua gordura. Mas verdade seja dita era possível ter uma conversa sobre a vida e a actividade profissional dos concorrentes, e, nalguns casos, o Malato interrogava-os, quando a pergunta se proporcionava, sobre política, religião ou algum tema candente do momento. Se as respostas não eram famosas, a culpa não era dele. De um modo geral a cultura e as opiniões de quem concorria não fugiam ao medíocre e ao mainstream, mas isso faz parte, quanto a mim, da grande ignorância cultural do nosso povo. Posso garantir que esta possibilidade de intervenção, se por acaso concorresse e fosse interpelado, era a parte que mais me motivava em participar. Gosto de me armar em carapau de corrida. Mas como já escrevi, provavelmente levava com um pergunta sobre em que clube jogava o jogador x, passando pela vergonha de não saber e ser recambiado por ignorância.

19/03/2011

Provocação ou incompetência?

Em tempos antigos, nos Governos de Mário Soares, Sá Carneiro ou Cavaco Silva, era normal o Telejornal, da RTP 1, estar ao serviço dos interesses destas personagens, que para isso nomeavam administrações obedientes e submissas. Era vulgar, e lembro-me bem disso, que uma greve da função pública fosse noticiada lá para o fim do Telejornal e fosse despachada, muitas vezes em termos provocatórios, em meia dúzia de segundos. Com o advento dos canais privados de televisão e devido às necessidades da concorrência, os telejornais, de um modo geral, passaram a noticiar as manifestações da CGTP ou as greves da função pública com mais objectividade e pormenor, apesar daqueles não deixarem de ser controlados pelo poder político.

Vem isto a propósito do modo como no Telejornal de hoje se noticiou a manifestação da CGTP, por mim anunciada no post anterior.

José Rodrigues do Santos (JRS), logo no início do Telejornal, depois das notícias dos primeiros ataques à Líbia, começa por dizer que funcionários do Sector Público concentraram-se em Lisboa num protesto nacional organizado pela CGTP. Grande mentira. Depois temos a reportagem do local para onde o sector público tinha sido convocado, dizendo que os 600 mil (onde sei onde foram arranjar este número) funcionários se fizeram representar por uns milhares. Pouca gente, porque ainda estávamos no início da concentração, digo eu, com a repórter a tentar apanhar o anedótico e a fazer comparação com a manifestação do dia 12, da geração à rasca e, terminando, dizendo que estas pessoas queriam protestar contra o Estado por este ser um mau patrão. No fundo, ainda descobríamos que aqueles manifestantes eram adeptos do Passos Coelho e queriam emagrecer o Estado. A finalizar, a repórter lá diz que estes trabalhadores se juntaram aos restantes manifestantes.

Corta e regressamos ao JRS, que seguir fala da manifestação do sector privado que teve início no Saldanha. O mesmo tipo de reportagem, mas termina com a repórter a afirmar que milhares de pessoas do sector público e privado se juntaram da Avenida da Liberdade. Finalmente lá temos só uma manifestação.

Quase no final do Telejornal, passado que foram cerca de quarenta minutos sobre as imagens iniciais, diz-se que Carvalho da Silva atacou o Plano de Austeridade, o Governo e também o PSD “na manifestação”. Aqui já nos perdemos e não sabemos a que manifestação se está a referir o JRS. Finalmente, é apresentado um pequeno excerto do discurso do dirigente da Intersindical, dizendo que ele tinha sido pronunciado na manifestação da CGTP. Esta reportagem é mais abrangente, pois são entrevistados os lideres do PCP e do Bloco e é mostrada a intervenção musical dos Homens da Luta. Imagens, não muitas, da Avenida cheia de gente.

Deste pequeno relato, ressaltam duas coisas ou um desejo deliberado de enganar os telespectadores, baralhando-o com duas manifestações que não existiam e depois, no final, quando as pessoas já estavam noutra, dar-se a verdadeira reportagem, ou então uma amostra da grande incompetência que vai por aquela casa. O jornalista que alinhou o noticiário não foi capaz de perceber que as duas primeiras reportagens se referiam ao início da concentração que, como sempre sucede, é em locais diferentes, consoante as áreas laborais, associativas ou partidárias dos manifestantes. O alinhamento no final do Telejornal da intervenção de Carvalho da Silva pode-se também justificar com a chegada tardia da reportagem para ser editada. Mas em qualquer dos casos revelando um desinteresse, que roça mesmo a provocação, que já só se justifica pelo fim de festa homens do PS na Televisão Pública.

02/02/2010

Não é bílis, é indignação


Como é costume não tenho qualquer reacção dos meus leitores, até o operário para todas as horas e circunstâncias se foi embora, no entanto, imagino que andarão todos a pensar este tipo anda bilioso, irritado com os comentadores - até lhes promete pancada -, com as agências de rating, com a direita, com o programa de Mário Crespo, Plano Inclinado, com José Sócrates e o seu Governo, no fundo, com os media dominantes.
A verdade é que posso andar zangado com o mundo, mas quem como eu passa o dia a ver, nas horas certas, os noticiários da TV e principalmente os comentários que a toda a hora as televisões por cabo nos impingem, não posso, sendo de esquerda, andar muito feliz da vida. Ainda hoje no noticiário da 14h00, da SIC Notícias, lá vem um fiscalista, parece-me que foi assim que o apresentaram, propor uma redução nos vencimentos da função pública, aí de uns 20%, que, segundo ele, não acarretava a pobreza dos seus trabalhadores e dava muito jeito para a redução do deficit do Estado. E como exemplo citava a Irlanda e outros países que já o tinham feito. Ora a verdade, que eu saiba, isso só se verificou na Irlanda, acho que a Grécia ainda não o fez, portanto acrescentar “e outros países” parece-me uma maneira hábil de dizer que baixar salários, principalmente os dos outros, é o pão nosso de cada dia por essa Europa fora.

Mas já agora conto-vos o que é o dia de um aposentado que quer estar a par do que vai pelo mundo. De manhã, como me levanto tarde, já só vejo os noticiários das 10h00 das televisões por cabo: SIC Notícias e RTP N. As duas têm uma revista de imprensa. Foi na primeira que ouvi as afirmações do José Manuel Anes. Vocês achavam que eu devia ficar calado? Quem cala consente e eu penso que eram suficientemente graves, apoiando-se num artigo ainda pior, para não merecerem qualquer referência. Vieram logo a público e pessoalmente garantir-me que eu estava a ser injusto para com tão simpática personagem. Partindo do princípio que há afirmações mais graves, que eu deixo passar, pode ser que tenham razão.
Mas voltando às revistas de imprensa. A da SIC Notícias é, de um modo geral, inócua, leva lá pessoas que, por uma razão ou por outra, vão sobressair nos próximos dias. Já na RTP N temos logo o comentador de serviço que nos dá a orientação ideológica para a leitura dos jornais do dia. Fica-se com a ideia que os comentadores oscilam entre os afectos ao PS e os ligados à direita, partindo do princípio que em termos ideológicos não há diferença entre PSD e CDS. Já se sabe que da esquerda, à esquerda do PS, nunca vi lá nenhum. Se os há, estão tão bem escondidos que não se notam.
Depois, na hora do almoço e ao jantar, eu escolho a RTP, a televisão oficial. Sobre essa remeto-vos para a opinião do Pacheco Pereira, que já escreveu muito sobre o assunto, principalmente sobre as intervenções do primeiro-ministro que não têm qualquer contraditório. Depois às 14h00 temos a SIC Notícias, lá vêm os comentadores do costume, escolhidos a dedo, que só por mero acaso terão alguma coisa a ver com a esquerda e isto repete-se no noticiário das 19h00 e durante toda a noite com o Mário Crespo, às 21h00, e a Ana Lourenço, às 22h00. Sempre as mesmas opiniões, as dos partidos do arco governamental, como lhes gostam de chamar.
Ainda hoje, o tal fiscalista, amigo dos funcionários públicos, garantia que os partidos à esquerda do PS não contam, já que não apresentam propostas exequíveis para governar. Como se o problema fosse deles e não deste pensamento dominante que impregna os partidos da direita, o Governo de Sócrates e os media que os apoiam, que são todos.
Não será isto motivo suficiente para indignação?


PS.: ainda esta noite, para discutir os 100 dias de Governo a SIC Notícias convidou José Miguel Júdice, pelo Governo – e que apoio – e Maria João Avilez, pela oposição de direita, e assim lá completamos o arco constitucional.

01/12/2009

Tretas e balelas


Vi ontem o programa de Fátima Campos Ferreira, Prós e Contras. Juro sempre que não volto a recair em tão manifesto mau gosto, mas regresso sempre ao local do crime.
Tenho para mim que aquela apresentadora é das mais tontinhas que povoam o nosso espectro televisivo. Tem sempre a frase pomposa para o momento certo. Resume ideias, por vezes com alguma complexidade, a meia dúzia de banalidades. Transforma a governação deste país em qualquer coisa de muito simples, que se resolvia desde que houvesse boa vontade dos portugueses em apertarem o cinto e se os malandros dos político se pusessem de acordo. No fundo transforma o discurso político, convencida que o torna acessível, numa reflexão simplificadora e apaziguadora. Mas é isto que certa incultura dominante aprecia e que os governos do chamado arco da governação (PS e PSD/CDS) querem.
O programa de ontem era sobre as Finanças do País. O leque de convidados soprava todo para o mesmo lado. Não havia ninguém de esquerda, nem mesmo do PS. Ou se alguém ainda fosse do PS, era como se não pertencesse.
Apreciem só. Jacinto Nunes, provavelmente respeitável professor de economia já reformado, com 83 anos, que passou pelo Governo de Mota Pinto, um bloco central encapotado, da iniciativa de Ramalho Eanes, para não lembrar passados mais tristes de colaboração com os Governos de Salazar. A determinada altura descaiu-se, ao contrário dos outros, raposas mais sabidonas, e defendeu um governo de bloco central. Propôs, tal como João Salgueiro, um novo método eleitoral que evite deixar a decisão da escolha dos deputados aos partidos. Acham que os mesmos devem ser responsáveis perante as populações que os elegem. Uma treta, que encheria o Parlamento de Isaltinos Morais e Valentins Loureiros, mais alguns, eleitos num círculo nacional, para cumprir a proporcionalidade. Este assunto, que é trazido sempre à baila quando se quer protestar contra os políticos que temos, é um tema pouco sério, que precisaria de uma discussão desapaixonada e de estudos de técnica eleitoral comparada para verificar qual era o sistema que melhor poderia traduzir no Parlamento a proporcionalidade das forças políticas em presença.
A seguir João Salgueiro, o representante de tudo que é interesse bancário, que já foi deste e do anterior regime, sempre ao de cimo, que achou que um Governo do PS com o Bloco de Esquerda seria uma esquerdalhada insuportável, que já não correspondia aos tempos actuais, nem às exigências de uma economia moderna. Como se a economia neo-liberal tivesse dado provas de grande seriedade e competência.
Tivemos igualmente Augusto Mateus, que mesmo assim foi o que me pareceu dizer coisas mais interessantes. Defendeu a democracia e os trabalhadores da função pública. Mas que eu me lembre saiu pela direita alta do primeiro Governo de António Guterres.
Depois esse beato de sacristia, João César das Neves, que está em tudo que é tema económico, sempre a debitar as suas posições de direita e as tretas do costume.
Por último, para apogeu deste grupo de pensadores, vieram os empresários: Carrapatoso, do Compromisso Portugal, o fórum da direita neo-liberal, que se esfumou com a crise económica, e que disse insistentemente no Programa que era preciso acabar em Portugal com os poderes instituídos. Não sei se estaria a propor alguma revolução que banisse para debaixo do tapete os da sua classe e categoria social? Não, não era sobre isso que ele protestava. Os poderes instituídos, são o Estado e o seu peso na economia – sem ele esta gente não podia ganhar os dinheiros de que usufruem –, as chamadas corporações: os juízes, os médicos, os professores, mas acima de tudo os funcionários públicos, que são o engulho desta gente, porque podem levar os seus trabalhadores a reivindicar trabalho garantido e seguro, enquanto que aquilo que eles querem dar é precariedade e insegurança, para os terem mais agarrados pelo cachaço. Já se sabe que se esquecem que estes gestores são também uma corporação e um poder instituído. Mas de balelas e conversa fiada está o mundo cheio.
Esteve também um outro, que só me recordo chamar-se Patrício Gouveia, que estava constantemente a torcer o pescoço, e que mais uma vez perorou sobre a necessidade de flexibilizar ainda mais o código de trabalho. Nunca estão contentes com o que lhe dão. Neste caso, com a demagogia mais absoluta, defendeu que o que actual, que já é péssimo, defende os incompetentes e desfavorece os melhores. Um horror.
A conclusão principal que se tira de todas estas intervenções é que Portugal andou a gastar à tripa forra, viveu acima das suas possibilidades e agora tem de apertar o cinto se quer sobreviver. O melhor é ir-se adaptando ao modelo social chinês ou indiano. Isto foi dito. Já se sabe se alguém gastou demais não foi o povo português e o pouco que melhorou em relação ao seu passado, as classes dirigentes querem-lhe tirar outra vez.
É este o painel que tivemos, como se viu extremamente plural e diversificado. Triste caminho, por onde vai a televisão pública.

03/06/2009

Há sempre um jornalista nostálgico do Império


Não tenho dado muita atenção a este movimento moderno de andarmos todos à procura das sete maravilhas de qualquer coisa. Parece que primeiro foram as do mundo e depois as de Portugal. Apesar do ar pomposo e de concurso televisivo que estas iniciativas acarretam, não sou contrário a elas, pelo menos dão alguma ilustração a quem as segue e permite, uma revisão actualizada de grandes obras arquitectónicas que fizeram época. É de facto uma iniciativa cultural que a priori não desprezo.
Desconhecia que estava em andamento uma nova iniciativa neste campo, mas todos os dias a televisão pública tem-se vindo a encarregar de nos mostrar mais um lugar por onde os portugueses passaram e deixaram obra. São as sete maravilhas de origem portuguesa no mundo. Vi com agrado as imagens e segui as descrições dos monumentos e a história da sua construção. Não me apercebi que a escolha estava programada para ser apresentada no dia 10 de Junho, em Portimão, com pompa e circunstância. Mas o mais grave foi quando comecei a ver as reportagens da Índia.
Sandra Felgueiras era a jornalista da RTP que fazia a reportagem dos monumentos que fomos deixando pelas antigas possessões que possuíamos na Índia. Até aí tudo bem, no entanto, para espanto meu não eram só os monumentos que nos eram mostrados, eram meia dúzia de indianos nostálgicos do Império, que cantavam canções portuguesas e se declaravam ainda a favor da manutenção da nossa presença colonial. A locutora embalada por estas personagens lá ia debitando textos patrióticos, relatando a resistência ao invasor indiano, como actos heróicos que deveriam ser assinalados. Só faltou condenar mais uma vez Vassalo e Silva, o último Governador da Índia, que, contra as ordens de Salazar, resolveu render-se, protegendo assim a vida dos seus soldados e das populações e por isso foi condenado como traidor. No entanto, passados estes anos sobre o fim do Império, uma jornalista vem louvar os indianos que ainda querem ser portugueses e o comandante de um navio que teria resistido ao invasor indiano. Deixámos os monumentos e as suas maravilhas, para nos afundarmos, quando menos esperávamos, na pior retórica nacionalista e patrioteira. Há sempre uma jornalista nostálgica do Império.
Imagem da Sé Catedral de Goa. Clique na imagem para aumentá-la.
PS. (03/06/09): Ainda este texto não tinha secado, como se dizia antigamente nos jornais, e já o Público na sua edição de hoje relatava a existência de um abaixo-assinado subscrito por diversos historiadores contra os textos que acompanhavam algumas das sete maravilhas de origem portuguesa no mundo. Referiam-se eles que algumas das construções tinham servido de apoio ao tráfego de escravos feito pelos portugueses e que esse relato estava omisso na história oficial que acompanhava a descrição de alguns dos monumentos. Vinha depois a justificação do historiador, que é o responsável científico pelo evento.
Sobre a parte propriamente histórica não quis, nem quero, pronunciar-me, já que não sou especialista na matéria, mas a priori, e conhecendo o pendor revivalista deste tipo de iniciativas, não me custa perceber as razões de tal abaixo-assinado. Pelo menos as reportagens televisivas que eu assinalei pecavam indiscutivelmente por um nacionalismo bacoco.
PS. (04/06/09): Estive a ler hoje no blog da Joana Lopes o texto dos peticionários. Fiquei tão impressionado com o que dizem, que desde já indico aqui o local onde o podem assinar, bem como aconselho os meus leitores a o fazerem. Eu já assinei.

02/04/2009

O cerco aperta-se

Já percebi que pessoas de “bem” não escrevem sobre o caso Freeport. Seria interessante ver quem na blogosfera pega neste assunto. Acho que sobre isto já escrevi qualquer coisa.
Mas eu, que não tenho da política a noção de que ela é unicamente uma auto-estrada de ideias, mas que vive da luta diária, dos confrontos, das pequenas mazelas e do desmascaramento das corrupçõezinhas, não sou capaz de resistir a pegar neste assunto e a tentar limpar a poeira que nos querem deitar para os olhos.
Mas regressemos ao real. O novo Presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Públicos (SMMP), João Palma, declarou que havia fortes pressões sobre os magistrados que estavam a tratar do caso Freeport e que dado o melindre do assunto não dizia nada à comunicação social, mas unicamente ao Presidente da República. Este assunto mereceu daquelas respostas perfeitamente atrabiliárias do Ministro Santos Silva, que eu me inibo de classificar, dado os adjectivos que já empreguei em relação a suas anteriores declarações.
O Procurador-Geral da República (PGR) redigiu ontem um comunicado que, tal como o primeiro, parece sossegar todas as partes e nada se depreender dele. Por isso, as primeiras reacções que houve, como por exemplo, a do Telejornal da RTP, pareciam que o comunicado respondia unicamente ao Sindicato, garantindo que não havia pressões. Por isso o PS, pela voz de Vitalino Canas, saudavam-no, garantindo que afinal eles é que tínham razão. Durante a noite de ontem, na SIC Notícias, começou a perceber-se todo o significado do comunicado do PGR, pois soube-se que havia um magistrado que possivelmente tinha exercido pressões e que esse magistrado era Lopes da Mota, actual presidente do Eurojust, que tem por objecto a cooperação em matéria penal entre as autoridades nacionais no espaço da União Europeia.
Do historial desta nova personagem é interessante destacar, que foi Secretário de Estado da Justiça (1996-99), no primeiro Governo de Guterres, ao mesmo tempo que José Sócrates era do Ambiente. Esteve para ser Procurador-Geral da República, e só não foi porque veio à baila, sem estar provado, que poderia ter fornecido informações a Fátima Felgueiras. Tinha sido há muito tempo delegado do Ministério Público em Felgueiras (1980-88) (ver aqui e aqui). Bom currículo para quem declara que não exerceu nenhuma pressão.
O que é que se pode pois retirar de todo este historial que eu, abusando da paciência dos meus leitores, faço aqui?
Começaria por comentar as declarações de Marinho Pinto, que mais uma vez entra em liça (ver Jornal da Tarde, da RTP I, de hoje) questionando a intervenção do Sindicato. Parece-me que se pode depreender das suas palavras que os sindicalistas foram longe de mais ao não indicarem nomes e a atreverem-se a passar por cima da hierarquia. É interessante que em relação à anterior intervenção de Marinho Pinto as principais críticas que lhe foram feitas estão relacionadas com a forma como tinha actuado. Não devia ter escrito aquele artigo para o Boletim da Ordem, facto que ele contestou. As críticas que o bastonário faz aos sindicalistas são também formais. Não põe em causa o seu conteúdo. Tem que haver alguma coerência entre um caso e outro.
Fica clara que parece que houve pressões, se não Lopes da Mota não teria sido chamado. Por isso as declarações dos sindicalistas têm razão de ser, e mais, foram eficazes, obrigando a uma posição do PGR. As críticas de Santos Silva foram só gritaria, não serviram para nada.
Há também um outro assunto de que gostaria de falar. A procuradora Cândida Almeida diz que há uma cassete vídeo, a que foi reproduzida na TVI, mas que ela nem a quer ver para não se deixar influenciar e pela mesma não ter, face à lei portuguesa, qualquer validade. Mas então uma carta anónima pode servir para desencadear um processo e um vídeo com declarações graves já não serve para nada. Tal como a carta anónima não deve poder servir para prova em tribunal, penso eu, também aquele vídeo não serve, mas isso não implica que não seja visionado. Lá nos andam outra vez a atirar areia para os olhos.
Por outro lado, alguns analistas interpretaram o comunicado do PGR como dando luz verde para as investigações poderem prosseguir, mesmo que fosse necessário interrogar figuras altamente colocadas. Ou seja, depois de se andar a afirmar que ninguém do actual Governo estava a ser investigado, é possível que neste momento isso se venha a verificar. Era da mais elementar justiça que se interrogasse José Sócrates, que desde o início é referido na carta anónima e na rogatória, o que não quer dizer que esteja acusado ou seja suspeito de ilícito criminal. Mas tiveram tanta preocupação em proteger José Sócrates, que devia ser o primeiro a pedir para ser interrogado para esclarecer a situação, que quaisquer declarações que venha a ter que fazer à polícia ou aos magistrados soam já a acusação.
No fundo, quer queira o Primeiro-Ministro e o PS o cerco vai-se apertando, nada garantindo, é certo, que acabe mal para ele ou para o seu Governo, mas seria bom que tivessem mais pudor ao tratarem deste caso e não demonstrassem tanta jactância como aquela que o Ministro Santos Silva mostra. Hoje, depois do interrogatório de Lopes da Mota e de conhecermos a sua biografia pessoal, já não aparecem todos pimpões.

21/03/2009

O para-facismo ataca de novo. O spot publicitário da Antena 1


Antes de mais gostaria de avisar que retirei o antepenúltimo post, referente a um vídeo dos Monty Phyton dedicado aos católicos e protestantes, exclusivamente por motivos técnicos, pois aparecia-me, sempre que tentava fechar o meu blog, uma mensagem a dizer que havia um erro de scrip que eu associei àquele post. O que de facto se confirmou ao eliminá-lo. Não sei se aos meus leitores também lhes sucedeu o mesmo?

Voltemos ao motivo que me levou a escrever este post (ver aqui o spot publicitário). Sei que o título é forte, mas convém chamar os bois pelos nomes.
Alguns bloggers indignaram-se com o papel desempenhado neste spot pela jornalista Eduarda Maio, que já tinha escrito um livro de propaganda a José Sócrates, afirmando, e com razão, que os jornalista não podem participar em publicidade. Outros estão contra o ataque expresso à garantia constitucional do direito à manifestação. Alguns referem a responsabilidade, em última instância, do Ministro Santos Silva, que tutela a comunicação social. Por último o Público garantia, pela porta-voz da RTP, que este anúncio era uma ideia criativa da agência de publicidade, limitando-se a RTP a aprová-lo.
Tudo isto são aspectos importantes, mas não eximem a administração da RTP/RDP de ser responsável por ter escolhido um spot publicitário que faz apelo a valores e ideias afascistadas.
Vejamos. Uma das consignas do salazarismo era “a minha política é o trabalho”. O que significava que quem não queria encrencas não se metia em políticas ou em manifestações, só aquelas que fossem “espontaneamente” organizadas pelo regime. O mesmo reflecte a ideologia expressa por este spot publicitário. Os bons chefes de família, representados pelo condutor do automóvel, não se metem em manifestações que são uma arma dirigida a contra todos aqueles que “honestamente” querem chegar a horas ao trabalho.
Como todos sabemos, e basta percorrer os comentários bastante afascistados, que têm sido deixado nos posts que se referiram a este spot, para se verificar que há muita boa gente que tem uma nostalgia acentuada pelos "bons tempos" do passado, em que as manifestações estavam proibidas e em que aqueles que nelas participavam eram desordeiros e subversivos, talvez manipulados pelo PCP e pelos “esquerdistas”, pais do actual Bloco de Esquerda.
E aqui entroncamos nas perigosas afirmações do primeiro-ministro que, em relação à manifestação da CGTP, considerou que os seus participantes tinham sido manipulados por aqueles dois partidos. Num ápice juntou a velha ideia salazarenta, de que toda a desordem é o resultado da agitação promovida pelos comunistas, a outra da guerra-fria, de que certos sindicatos são manipulados e instrumentalizados pelos Partidos Comunistas, aos quais havia que opor um sindicalismo livre e independente, tão independente como o que depois se viu na semana seguinte, em que a tendência socialista da UGT se reúne com José Sócrates, do PS, para indicarem o próximo secretário-geral da UGT.
O caminho que estamos a seguir é perigoso. O PS em desespero de causa, com o gauleiter Santos Silva, está a pretender meter na ordem os sindicatos e a tentar impedir as manifestações que estes promovem. Temos que estar atentos a esta grave situação e à ideologia que está por detrás dela.

Parece que os protestos foram tantos e tão pronta foi a acção do provedor do ouvinte que o spot publicitário foi retirado e no Telejornal de hoje foi até garantido que este já tinha sido feito no Verão passado e só agora é que foi exibido. Isto para demonstrar que nada teria a ver com as recentes manifestações da CGTP.
PS. (23/03/09): Já passaram alguns dias, mas encontrei em 5 dias.net, num post de Nuno Ramo de Almeida uma referência a este caso. Não havia qualquer problema, este assunto durante um curto espaço de tempo, que é sempre aquele que leva a bloggosfera a indignar-se, encheu as manchetes de todos os blogs progressistas. Não fui excepção, simplesmente eu fazia referência, no dia 21 de Março, a uma ideia salazarenta de que a minha política é o trabalho, no dia 22 o Nuno referia-se ao mesmo. Não quero tirar o copyright desta ideia, mas lá que houve transmissão de pensamento, houve. A diferença é que em relação ao meu post nem um comentariozinho para alegrar a festa e no do Nuno registei até hoje 39. Não quer dizer que tivesse qualquer interesse em ter comentários do calibre daqueles que lá se escrevem, mas ao menos um só.
PS. (30/03/09): Afinal não foi só o Nuno que teve transmissão do pensamento em relação à frase salazarente “a minha política é o trabalho”. Mário Crespo num artigo de opinião no Jornal de Notícias, de 23 de Março, escreve o “slogan da ditadura que a melhor política é o trabalho”. Ou seja, fica claro que uma mesma causa, neste caso as palavras de Eduarda Maio, provocam a mesma reacção, a associação àquela palavra de ordem do fascismo. Aqui fica pois a resposta ao comentário do Nuno.

18/02/2009

Os meios de informação que temos




Uma arreliante lombalgia, coisa de que já falei num post lá muito para trás, prendeu-me à cama durante uns dias. Dirão uns que óptima oportunidade para escrever. Comigo isso não funciona. Escrever na cama, utilizando o computador, é impossível, e sentar-me numa cadeira torna-se doloroso.
Por isso, o objectivo que me propus de fazer uma apreciação das críticas que foram feitas à Convenção do Bloco de Esquerda foram por água abaixo, por perda de oportunidade. Resta-me pois fazer algumas críticas a um semanário que tratou daquela Convenção e sobre outros media que relataram acontecimentos recentes.

Referência do Expresso à Convenção do Bloco de Esquerda (impossível de obter os links)

É possível que no Sábado anterior tivesse havido algum palpite sobre aquela Convenção. No número que saiu esta semana, no dia 14, com a Convenção já terminada, as notícias que vêm no Expresso são estas A Joana já não mora aqui. Vídeo com a história do Bloco reduz Joana Amaral Dias a três segundos. E depois numa rubrica que pretende ter graça, Gente e a Esquerda Photoshop. Do passeio do Volga à convenção do Areeiro, onde se mostram duas fotografias de Estaline (ver iamagens do post), uma juntamente com um comissário político e outra em que este foi apagado, depois de ter sido assassinado pelo ditador. Se este assunto não fosse demasiado sério, dir-se-ia que era uma brincadeira de mau gosto. Mas não, é a tentativa da direita de menosprezar uma Convenção que pode merecer críticas, mas onde só por delírio de imaginação provocatória se pode falar em apagamento de personagens.
É por estas e por outras que venho falando na direita boçal, que requinta quando utiliza estes métodos.
Até um insuspeito Ferreira Fernandes tem no Diário de Notícias um artigo de opinião em que afirma Mas Joana Amaral Dias Foi Apagada De Quê?

A vitória do Sim na Venezuela vista por dois telejornais

Parece que foi o Pacheco Pereira (PP) que teria dito que o noticiário da 1h00 da tarde da RTP I era aquele que fazia mais fretes ao Governo. Isto serviu para alguém comentar com malícia que ele era o único que via aquele telejornal. Já se sabe que é ele e todos os reformados que à uma 1h00 da tarde estão a almoçar em casa. Eu sou um deles.
É provável que PP tenha razão, mas presumivelmente discordará daquilo que a seguir vou dizer.
Assim, no dia 16, depois de já se conhecerem os resultados do referendo na Venezuela, que deram a vitória ao sim, por 54% dos votos, tivemos direito, no noticiário da 1h00, após a audição de um discurso de Chavez, pouco curial para a oposição, a esta pérola: “A forte pressão sobre os eleitores e alguma intimidação não impediram a forte abstenção de 30% e de 45% de votos não” (ver aqui). Não havia razões para aquelas afirmações, pois nada se mostrou, que garantisse que tinha havido pressões e até intimidações, mas o locutor, em off, acrescentou isso. E falou numa grande abstenção, quando 30% é perfeitamente normal em qualquer país democrático. Depois, consultados os resultados, temos uma clara noção que a sociedade venezuelana está dividida, com uma preferência por um dos lados, nesta caso por Chavez. Estamos longe das chamadas votações norte-coreanas, com 99% de apoio.
No Telejornal da 20h00, desse mesmo dia, nada disto se verificou. Uma notícia anódina, em que o próprio discurso do Chavez se resumia a este ter gritado que o Sim ganhou (ver aqui ).
Que interpretação dar a isto. Primeiro o Norte, de onde é emitido o jornal da 1h00 da tarde, está mais controlado pelo poder, para justificar as críticas de PP. Segundo, que há gente mais reaccionária na direcção de informação do Norte, incapaz de perceber que provavelmente Sócrates não quer que tratem mal o seu amigo Chavez. Mas isto é pura especulação. Não tenho dúvidas é que a direcção de informação do Norte segue a regra da imprensa internacional dominada pelos interesse dos Estados Unidos. Chavez é sempre para tratar abaixo de cão.
Para mais algumas informações extra, a pequena notícia de Vermelho, o jornal do PCdeB.

A Grande Guerra pela Civilização

Como sempre acontece quando tenho que ficar retido na cama, pus-me a ler. Comecei por esse espantoso livro de Robert Fisk, A Grande Guerra pela Civilização, a Conquista do Médio Oriente (Edições 70, 2008). Irei de certeza falar dele quando o tiver lido na totalidade. São 1149 páginas de letra miudinha.
No entanto, porque estamos a falar de estereótipos, de como a imprensa ocidental, favorável aos interesses americanos, fala de certas personagens, neste caso de Chavez, mas poderiam dar-se milhentos exemplos, vale a pena ler este livro e o constante desmascarar de tudo aquilo que nos é vendido, como sendo a verdade.
Para aqueles que leram o livro, ainda só vou na parte referente ao genocídio Arménio, que é das coisas mais abjectas do século passado. Mas ao contrário dos alemães, que assumem o seu Holocausto, a verdade é que os turcos nunca o fizeram e ainda hoje continuam a negar que ele tivesse existido. Depois de ler isto percebe-se porque é que em França é proibido negar aquele genocídio. Apesar dos franceses também terem algumas culpas no cartório.
O caso mais espantoso é durante a guerra Irão-Iraque, quando os americanos, que estavam declaradamente a favor do Iraque, abateram um avião civil iraniano, de transporte de passageiros, sobre o Golfo Pérsico, e tentaram culpar os iranianos com a cumplicidade dos media ocidentais, inclusive o texto que este autor escreveu para o jornal The Times, de que era na altura correspondente, foi censurado.
Depois de ler Robert Frisk, não há boas almas que me convençam das intenções sérias e honestas das verdades da imprensa ocidental, dita democrática e imparcial. Mas isto ficará para outra discussão.
É bom que se diga que Robert Frisk não é de esquerda, muito menos comunista. É unicamente um jornalista sério.

25/01/2009

Quando os “idiotas úteis” conseguem irritar a Embaixada de Israel


Rui Bebiano, de A terceira Noite, publicou há tempos, "na sua cruzada contra os infiéis", um texto chamado Ainda e de Novo em que classifica alguns dos que criticam severamente Israel e as forças belicistas e agressivas deste país, aliado e apoiado pelos Estados Unidos, e defendem o direito a um Estado palestiniano independente, sem interferências de Israel, nem dos Americanos, que possa em liberdade escolher os seus Governantes, como “idiotas úteis”. A expressão insere-se nesta frase, para não dizerem que eu deturpo: “Ser pela paz não é ser contra Israel, como o Hamas confirma e os idiotas úteis se esforçam por provar.”
Mas, não é para criticar este texto, porque já o fiz uma vez a outro, sobre o mesmo tema, deste blogger, de quem não obtive qualquer resposta, que venho mais uma vez abordar um assunto, que já reparei caiu no esquecimento rapidamente depois da posse do Obama. Dá vontade de perguntar, era para combater os rockets do Hamas que foi necessária esta mortandade de palestinianos ou para tomar uma posição antes da tomada de posse de Obama? A guerra acabou, como por milagre, um dia antes. Uma vergonha para quem a defendeu.
Já tinha aqui postado a minha intervenção na Assembleia Municipal de Lisboa para apoiar uma moção proposta pelo Bloco de Esquerda, que entre outras coisas defendia a geminação de Lisboa com a cidade de Gaza.
No dia a seguir, quarta-feira, tive a grata surpresa de ver uma notícia no Telejornal, da RTP 1, em que esta dava conta de que a Embaixada de Israel tinha escrito uma carta à Assembleia Municipal, manifestando a sua “indignação”, “surpresa” e “espanto”. Fiquei satisfeito, o “idiota útil” tinha contribuído para a irritação do representante das forças agressivas e belicistas de Israel e para que uma moção proposta por um pequeno partido, defensor de valores humanistas e não destrutivos, tivesse a repercussão que teve. Por vezes conseguimos ser como David contra Golias, parafraseando uma cena bíblica.

Nos noticiários da RTP 1, sempre que se faz uma referência ao Hamas diz-se a seguir que ele prevê o “extermínio” de Israel e a “matança” de todos os judeus. Na notícia que a RTP 1 dava sobre esta moção aprovada na Assembleia Municipal, ainda se podia justificar, dado que se dizia que era o Hamas que governava Gaza. Mas é sistemático que qualquer referência aquele movimento seja sempre antecedida daquelas referências. É a “objectividade” da RTP. Gostaria que sempre que se falasse da Arábia Saudita, se acrescentasse a seguir "o regime fundamentalista de Riad" (o menos que se pode dizer), ou de Israel, "os agressores israelitas". Faz-me lembrar que quando se nomeava Salvador Allende, se acrescentava sempre o governante marxista. Ou seja, há técnicas de propaganda, que os nossos jornalistas “objectivos” e “imparciais” estão sempre prontos a aceitar como regra. Se qualquer movimento ou personagem não têm o aval, o “imprimatur”, das “centrais de propaganda ocidentais” os media dominantes gostam sempre de lhes acrescentar um epíteto que os diminua.