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05/07/2010

O avanço da direita. Novas reflexões


Em post anterior, descrevi aquilo que entendia pelo avanço da direita, principalmente a sua ofensiva ideológica, e o estado abúlico do PS para resistir a essa direita, manifestando até grande alegria por Passos Coelho ter sido o escolhido, visto este ter deixado cair os ataques às trapalhadas de Sócrates.

A semana que passou trouxe à ribalta, mais uma vez, o ataque ideológico da direita, agora através da utilização pelo Estado das acções doiradas que possuía na PT.
Na passada semana jornalistas e comentadores de serviço atacaram o Governo por ter utilizado aquelas acções impedindo assim que o mercado funcionasse livremente. José Manuel Fernandes, no Público, chegou mesmo a escrever esta pérola: “os que pensam que os Estados ainda têm instrumentos e margens de manobra para, por via de golden shares, de renacionalizações ou mais impostos sobre a banca, relançar o crescimento do país não estão apenas enganados, conduzem-nos para uma pobreza cada vez mais soviética.” (retirado daqui). Estariam assim os pobres dos socialistas portugueses a seguir a via soviética de desenvolvimento para o país. Só na cabeça paranóica deste anti-comunista militante estas ideias vingam.

Mas a semana não acabaria sem no Eixo do Mal, da SIC Notícias, os comentadores encartados da direita Pedro Marques Lopes e Luís Pedro Nunes não viessem, principalmente o primeiro, a debitar a cassete neoliberal. Refiro-me especialmente a Pedro Marques Lopes, que depois tive a “felicidade” de ouvir no Bloco Central, da TSF. Já em tempos o tinha classificado neste blog como um boçal reaccionário, não o sendo nos termos em que na altura utilizei estas palavras, é um pateta alegre que repete até à náusea a cartilha neoliberal: o capitalismo trouxe a felicidade à espécie humana e o Estado só vem estragar a riqueza criada pela livre actuação do mercado. Já Luís Pedro Nunes tem outra vocação, a da provocador, e acima de tudo um ódio de estimação à Esquerda e principalmente a Francisco Louçã. Não sei porquê esta fixação.

Já depois de escutar estes espécimes pude ouvir o comentário político de Marcelo Rebelo de Sousa, agora na TVI, a propósito deste mesmo assunto e que diferença. A Telefónica espanhola tinha-nos tratado como um estado do terceiro mundo ou então já considerava que a nossa economia estava de tão de rastos que nem capacidade tinha de reagir. Os nossos banqueiros e patrões da indústria cheios de cagança sobre os centros decisão nacionais à primeira oportunidade entregavam os seus bancos ou indústrias ao capital estrangeiro depois de terem assinado manifestos inflamados sobre a necessidade de manter portugueses os bens dos outros. O Governo há muito que devia ter transformado a acções doiradas que possuía na PT, por força da privatização, numa cláusula do estatutos, fugindo assim à pressão do Tribunal de Justiça Europeu. O núcleo duro do accionistas da PT que se tinha comprometido numa dada solução, há última da hora, por mais uns milhões, muda de posição e vende as acções. E termina assim o comentário político MRS: a utilização das acções doiradas pelo Estado português demonstra ainda que nos resta alguma dignidade. Depois de ouvir este comentador percebe-se que a direita não é toda igual ou que pelo menos, em certas circunstâncias, é capaz de pensar pela sua própria cabeça e não repetir as cassetes neoliberais que certos comentadores mais incapazes de raciocínio próprio papagueiam a toda a hora.

Andava eu nestas reflexões quando leio via DOTeCOMe um texto de Clara Ferreira Alves (CFA), já de 12/06/10, em que esta, entre outras coisas, diz o seguinte: “Desde a revolução que Portugal é governado à esquerda em matéria de Estado e prestações sociais. Apesar das maiorias absolutas, Cavaco tinha dinheiro da Europa para manter o Estado e quis mantê-lo. A sua direita, dotada de consciência social, não era a direita pura que hoje existe em Portugal. Esta nova direita é mais jovem, mais estrangeirada, mais academicamente preparada do que a velha direita. É mais ideológica e está disposta a romper de vez com o Estado social. Nascida em democracia, formada nos cursos de Economia e Gestão das universidades, é também constituída por um núcleo de quadros e recém-licenciados, futuros regentes da pátria, que nada têm a ver com as negociatas de restaurante e o bloco central de interesses. Conservadores, pró-americanos, dotados de certo puritanismo, crentes na virtude absoluta do mercado e do capitalismo, acham (protegidos pela inexperiência) que a sua oportunidade para mudar Portugal de vez está a chegar. Tencionam, no poder, construir um sistema que proteja os empreendedores, desmantele a máquina estatal, agilize a justiça e privatize a economia agilizando os seus instrumentos, desde os financeiros aos legais; o que significa que pretendem rever a Constituição e a legislação laboral.”
Esta descrição da direita enquadra-se bem nos dois tipos de comentário que eu acima descrevi a propósito da PT. Já se sabe que o resto depende do nível de inteligência do comentador, há uns que são papagaios e repetem a cassete e outros que são capazes de elaborara um discurso com mais substância, mas no fundo isto só mostra que os tempos são diferentes, e que será extremamente perigosos a chegada ao poder desta nova gente chegada das universidades e pronta a destruir, em nome da crise, todas as pequenas conquistas que ao longo do tempo se foram obtendo.
O texto de CFA fala igualmente do enquistamento socialista que já estaria à espera da derrota, só não queria é que fosse por muitos, e depois fala dessa época áurea da social-democracia: dos Willy Brandt, dos Mitterrand, dos Olof Palme e dos Mário Soares. Para mim nunca foram grande coisa, pois deixaram chegar a social-democracia ao estado a que chegou. Depois termina esperançada que o Bloco de Esquerda capitalize com a derrocada do PS. Tenho para mim, e com grande pena, que isso não sucederá tão cedo, mas tenho também a certeza que não é o PCP que vai ficar a ganhar com isso e que mais uma vez os votos se venham a deslocar para a direita. Espero, como carapau esperançoso, que isto sirva de lição ao PS e que jovens arrivistas e com alguma tenacidade não venham novamente a chefiar o partido.
Continuarei a escrever sobre este tema que é inesgotável.

19/05/2010

Pacheco Pereira contradiz página oficial do Vaticano


Aos domingos, Pacheco Pereira (PP) tem um programa na SIC Notícias, chamado Ponto Contra Ponto, onde atribui notas, não numéricas, mas qualitativas, a diversos programas de televisão ou a artigos de jornais. Conhecendo a idiossincrasia de PP não é difícil adivinhar quem é que ele classifica como tendo feito bom ou mau trabalho. Mas esta sua arrogância soberana, que lhe permite classificar os mortais segundo a sua sobranceira opinião, atingiu nesta semana o cúmulo da ignorância e a deliberada manipulação das consciências.
Tal como a sua camarada Zita Seabra, mas esta tendo chegado mesmo à conversão, PP manifesta um grande respeito pela religião católica e principalmente por este Papa, não só porque lhe atribuiu grande grau de cultura, mas porque o considera conservador, defensor dos valores oficiais da direita católica. Nesse sentido, e sendo ele agnóstico, segundo já o afirmou, sempre que pode vem em defesa do Papa e dos valores que ele possa representar. Assim, teve o desplante de criticar uma jornalista da SIC por esta ter afirmado que aquele Estado era uma monarquia absoluta. Esta referiu também a data da criação do Estado do Vaticano, mas talvez por pudor não assinalou que este tinha resultado de um acordo entre o Papa da época e o Governo de Mussolini.
Que foi ela dizer. PP atribui-lhe mau trabalho, porque o Estado do Vaticano não era uma monarquia absoluta. Os Papas não têm filhos, portanto não é uma monarquia, e muito menos absoluta, já que se guia por muitas das regras do Estado Italiano, que é democrático.
Sucede que o Esquerda Republicana foi consultar o site oficial do Estado do Vaticano e não é que o próprio se considera uma monarquia absoluta, já que "o Chefe de Estado é o Sumo Pontífice, que tem plenos poderes legislativo, executivo e judicial."
Grande calinada oh! Pacheco, para outra vez mete a viola no saco.

Assisti não só às afirmações da jornalista da SIC Notícias e comentei: valente jornalista que classifica de absoluto o Estado do Vaticano, como ao programa de Pacheco Pereira, mas quem me alertou para o assunto foi um post de Joana Lopes, no Vias de Facto, que remete para o blog Esquerda Republicana, já referido, e este para a página oficial do Vaticano. O meu obrigado a todos que denunciaram este mau trabalho de PP.

14/02/2010

O que nos está a acontecer – a Legalidade Democrática


Ainda recentemente numa discussão que não irei aqui aprofundar, nem fazer link, os meninos rabinos do blog 5 dias meteram-se com o Daniel de Oliveira, do Arrastão, devido à defesa que este último fazia do princípio tão caro às actuais sociedades capitalistas desenvolvidas do ocidente: a legalidade democrática.
Tenho para mim, sem querer fazer teoria sobre o Estado, que aquela depende da correlação de forças entre as classes dominantes e as dominadas, em que se chegou a um modus vivendi que permite uma confrontação pacífica entre estes dois grupos sociais. A legalidade democrática é a regra que permite essa convivência. Já se sabe que as classes dominantes tentam sempre modificá-la a seu favor, impondo cada vez maiores limites à acção das dominadas, enquanto estas lutam para fazer cumprir o contracto estabelecido e poder, em certas circunstâncias, ampliá-lo. Por vezes este equilíbrio rompe-se a favor das primeiras, temos as ditaduras e o fascismo, outras vezes, mais raras, a favor das segundas, podendo originar uma alteração revolucionária.
Dito isto, convém que as classes dominadas exijam sempre o cumprimento da legalidade democrática, nunca permitindo que a mesma seja subvertida.
Como exemplo, para mim dos mais flagrante, é exigência constitucional que estabelece o direito à manifestação, que foi regulamentado por lei e que permite que todos se manifestem, desde que informem previamente as autoridades. Portanto, quando o Governo e os meios de comunicação, numa clara ignorância do que está estipulado, vêm dizer que a manifestação não foi autorizada, estão claramente a exercer a prepotência e a romper a legalidade democrática. Mas apresentemos também o exemplo contrário. Como sucedeu há uns anos e foi agora rememorado por Ricardo Noronha, no 5 Dias, um conjunto de jovens resolveu convocar uma manifestação anti-autoritária, e, como o próprio nome sugere, não disseram nada às autoridades. Foram reprimidos selvaticamente e pelos vistos vai-se agora processar o julgamento de alguns, provavelmente os identificados. Neste caso temos, deliberadamente uma fuga à legalidade democrática. Situação perigosa, que dificulta a sua defesa e torna mais difícil as exigências de cumprimento daquela. Discutir isto levaria provavelmente a nunca me entender com os seus promotores e neste momento não é este o meu objectivo. Foi só um exemplo.

Escrita toda esta longa introdução, gostaria de afirmar que a divulgação pelos meios de comunicação social de escutas em segredo de justiça não é ilegal, no sentido em que a lei ignora este caso. Todos sabem que eu não sou jurista, mas por aquilo que tenho lido e ouvido, este assunto já tinha sido aventado a quando da discussão sobre a divulgação do segredo de justiça e recordo-me de se ter dito na altura que a sua divulgação pelos media não estava proibida, apesar de haver quem na altura o quisesse fazer.
Por isso, se bem percebi, o Ministro da Justiça já pediu ao Procurador da República que lhe apresente uma lei para regular este assunto, que espero que nunca seja aprovada.
Sobre a divulgação das escutas penso que estamos falados. O criminoso é quem as obteve, não quem as divulga nos media.
Sobre a providência cautelar já tenho mais dúvidas. Pelo ar indignado com que vi na SIC Notícias o magistrado Eurico Reis, próximo, penso eu, da ala esquerda do PS, deve ter havido grossa violação da legalidade democrática. Apesar do Sindicato dos Funcionários Judiciais garantir que devido à privatização de alguns serviços aquela notificação tinha sido mal entregue, pois o funcionário, que era privado e não público, não tinha recorrido, como era seu dever, à polícia para testemunhar que ninguém dos notificados a queria receber. Só ouvi estas declarações na TSF e não as li, nem as vi em mais parte nenhuma.
Acho que fez bem o SOL em revelar as escutas. Isto para além dos interesses particulares do seu director ou dos interesses comerciais de quem autoriza. A sua revelação constitui uma fonte de informação de indiscutível interesse para o público e para revelar as tramóias que são feitas nas nossas costas, mas quase sempre com o nosso dinheiro. A história dos países está cheia de episódios deste tipo e aqueles que marcam uma época foram os que foram revelados e não os silenciados. Aqui a legalidade democrática foi rompida, por interesses ainda não definidos, mas que necessariamente não irão na direcção das classes dominadas, mas que permitem alcançar uma vida pública mais sadia, ao desmascarar os poderosos e torná-los vulneráveis perante a opinião pública. Aqui tivemos um exemplo de uma manifestação anti-autoritária.

Dito isto e para não arrastar mais o post deixo as reflexões sobre a situação política para a próxima vez.

02/02/2010

Não é bílis, é indignação


Como é costume não tenho qualquer reacção dos meus leitores, até o operário para todas as horas e circunstâncias se foi embora, no entanto, imagino que andarão todos a pensar este tipo anda bilioso, irritado com os comentadores - até lhes promete pancada -, com as agências de rating, com a direita, com o programa de Mário Crespo, Plano Inclinado, com José Sócrates e o seu Governo, no fundo, com os media dominantes.
A verdade é que posso andar zangado com o mundo, mas quem como eu passa o dia a ver, nas horas certas, os noticiários da TV e principalmente os comentários que a toda a hora as televisões por cabo nos impingem, não posso, sendo de esquerda, andar muito feliz da vida. Ainda hoje no noticiário da 14h00, da SIC Notícias, lá vem um fiscalista, parece-me que foi assim que o apresentaram, propor uma redução nos vencimentos da função pública, aí de uns 20%, que, segundo ele, não acarretava a pobreza dos seus trabalhadores e dava muito jeito para a redução do deficit do Estado. E como exemplo citava a Irlanda e outros países que já o tinham feito. Ora a verdade, que eu saiba, isso só se verificou na Irlanda, acho que a Grécia ainda não o fez, portanto acrescentar “e outros países” parece-me uma maneira hábil de dizer que baixar salários, principalmente os dos outros, é o pão nosso de cada dia por essa Europa fora.

Mas já agora conto-vos o que é o dia de um aposentado que quer estar a par do que vai pelo mundo. De manhã, como me levanto tarde, já só vejo os noticiários das 10h00 das televisões por cabo: SIC Notícias e RTP N. As duas têm uma revista de imprensa. Foi na primeira que ouvi as afirmações do José Manuel Anes. Vocês achavam que eu devia ficar calado? Quem cala consente e eu penso que eram suficientemente graves, apoiando-se num artigo ainda pior, para não merecerem qualquer referência. Vieram logo a público e pessoalmente garantir-me que eu estava a ser injusto para com tão simpática personagem. Partindo do princípio que há afirmações mais graves, que eu deixo passar, pode ser que tenham razão.
Mas voltando às revistas de imprensa. A da SIC Notícias é, de um modo geral, inócua, leva lá pessoas que, por uma razão ou por outra, vão sobressair nos próximos dias. Já na RTP N temos logo o comentador de serviço que nos dá a orientação ideológica para a leitura dos jornais do dia. Fica-se com a ideia que os comentadores oscilam entre os afectos ao PS e os ligados à direita, partindo do princípio que em termos ideológicos não há diferença entre PSD e CDS. Já se sabe que da esquerda, à esquerda do PS, nunca vi lá nenhum. Se os há, estão tão bem escondidos que não se notam.
Depois, na hora do almoço e ao jantar, eu escolho a RTP, a televisão oficial. Sobre essa remeto-vos para a opinião do Pacheco Pereira, que já escreveu muito sobre o assunto, principalmente sobre as intervenções do primeiro-ministro que não têm qualquer contraditório. Depois às 14h00 temos a SIC Notícias, lá vêm os comentadores do costume, escolhidos a dedo, que só por mero acaso terão alguma coisa a ver com a esquerda e isto repete-se no noticiário das 19h00 e durante toda a noite com o Mário Crespo, às 21h00, e a Ana Lourenço, às 22h00. Sempre as mesmas opiniões, as dos partidos do arco governamental, como lhes gostam de chamar.
Ainda hoje, o tal fiscalista, amigo dos funcionários públicos, garantia que os partidos à esquerda do PS não contam, já que não apresentam propostas exequíveis para governar. Como se o problema fosse deles e não deste pensamento dominante que impregna os partidos da direita, o Governo de Sócrates e os media que os apoiam, que são todos.
Não será isto motivo suficiente para indignação?


PS.: ainda esta noite, para discutir os 100 dias de Governo a SIC Notícias convidou José Miguel Júdice, pelo Governo – e que apoio – e Maria João Avilez, pela oposição de direita, e assim lá completamos o arco constitucional.

24/10/2009

Polémicas velhas e reacções novas


Depois de ver o pretenso debate da SIC/SIC Notícias entre José Saramago e o padre Carreira das Neves, algumas conclusões se podem começar a retirar sobre este irrisório disparate referente às apreciações de José Saramago sobre a Bíblia e Deus e as reacções intempestivas das Igrejas e dos seus críticos à esquerda e à direita.
Em primeiro lugar a SIC fez uma operação de marketing sobre um tema que estava na moda, mas como é costume fugiu dele o mais possível. Primeiro, não era um debate mas sim entrevistas paralelas, como Mário Crespo costuma fazer na rubrica Frente a Frente, da SIC Notícias. Segundo, para não perder audiências dedica-lhe só um quarto de hora na SIC generalista e o “debate” segue na SIC Notícias. Sobre o método seguido por Mário Crespo pareceu-me correcto, dado que Saramago não se disporia a um combate de box com o padre Carreira das Neves. Quanto a dividir o programa pelos dois canais pareceu-me a falcatrua do costume: prometer muito e cumprir pouco, para não aborrecer os espectadores.
Mas isto não é o principal. Todo o episódio é que é profundamente ridículo.
Saramago, como eu já escrevi, no lançamento do seu livro Caím faz determinadas declarações, que retomam polémicas antigas e afirmações velhas e revelhas. Posteriormente, noutras declarações avulsas e hoje no “debate” retoma a discussões também antigas sobre as contradições da Bíblia, que há muito tempo, principalmente no século XIX, tinham animado polémicas importantes e escandalizado a Igreja e os poderes dominantes dessa época. Estou-me a lembrar da Vida de Cristo, de Renan. Mas se me pusesse a esmiuçar sobre este tema encontraria muitos mais.
É interessante, que a seguir ao “debate”, Saldanha Sanches num dos tais frente a frente da SIC Notícias, tenha referido que A Relíquia, de Eça de Queirós, despertou grande escândalo quando foi publicada, mas que hoje estas coisas já são banais.
Ora é aqui é que está o busílis da questão. É que, se José Saramago, nas declarações que fez, retoma temas antigos e há críticos que vêm lembrar isso, a verdade é que a reacção que despertou também é recorrente. Ninguém aprendeu nada e muito menos a Igreja.
Desvalorize-se muito as posições assumidas por Saramago, por serem velhas, mas que foram feitas no contexto de um lançamento de um livro seu que tratava de um tema bíblico. Mas subestima-se as reacções das Igrejas que são tão revelhas como as posições de Saramago. Mas pior ainda, para além das posições militantemente reaccionárias de alguns políticos de direita, muita esquerda sentiu necessidade de vir a terreno garantir que “não havia necessidade disso” ou que Saramago não se devia meter com a Igreja.
Por isso, apesar de queremos dar a sensação que o problema religioso já está resolvido em Portugal e que somos todos muito modernos para discutirmos um tema tão fastidioso como os textos bíblicos ou a natureza de Deus, continuamos a reagir intempestivamente em relação a este tema. E a Igreja fá-lo como sempre fez, com as armas que tem à mão. Proibindo como no tempo de Salazar ou gritando que a estão a atacar como no tempo da democracia. Às vezes mesmo reagindo um pouco mais violentamente, como descrevo no artigo que escrevi a propósito das caricaturas sobre Maomé.
Este é que é o problema. Mas eu também diria que o desencadear da reacção das Igrejas foi causado pelas televisões terem estado lá e pela importância do emissor. Fossem as mesmas palavras pronunciadas por um obscuro professor, em qualquer conferência dos amigos do ateísmo, e nada disto se verificava. Ao sangue que as televisões gostam de fazer jorrar, responde a Igreja com mais sangue e, pelos vistos, a blogosfera também.

21/09/2009

O perigo do “sistema soviético”


Paulo Rangel, essa nova esperança do PSD, apareceu em Viseu a dar a mão a Manuela Ferreira Leite. No seu discurso, depois de ataques aos apoios que Manuel Alegre e Mário Soares deram a Sócrates, achou por bem fazer esta pergunta ao PS “Mas afinal o PS faz ou não acordos com o passado?” O passado era representado pelo Bloco de Esquerda que defendia para Portugal o “sistema soviético”, (palavras do próprio Rangel), que já tinha sido vencido. Isto, porque Mário Soares de manhã tinha dito que não lhe repugnava uma coligação com o Bloco de Esquerda.
Para lá destas biscas que alguns PS e de outras áreas de esquerda vão lançando, tentando influenciar o pós 27 de Setembro – mas isto é outra história –, temos esta afirmação perfeitamente espantosa, não de um qualquer militante do PS, como esse Tomás Vasques, agora promovido debatente oficial entre bloggers, no TVI 24 horas, mas do euro deputado, vencedor das últimas eleições para o Parlamento Europeu e putativo candidato a Presidente do PSD.

Depois de no último post ter falado dos Os ódios de classe ressuscitados, que mereceu do meu amigo Fernando Penim Redondo, do DOTeCOMe, o comentário de que não era por ódio de classe que o Expresso tinha falado dos PPR do Francisco Louçã, mas sim por despeito e de António Costa Pinto, na SIC Notícias, à noite, ter dito que os dirigentes do Bloco eram da classe média e estavam entrar na idade adulta da política, por já terem esqueletos no armário (os PPR) como qualquer político que se prezasse, reconheço que, se as notícias do Expresso e os noticiários da SIC Notícias não são por ódio de classe, são pelos menos por ódio político profundo.
É evidente que na tradição marxista vulgar ódios de classe tem sempre a ver com a luta entre burguesia e proletariado e entre os partidos representantes destas classes. Simplesmente, como já nada disto é como era, apesar de Jerónimo de Sousa dizer que era por coerência, com a sua classe, penso eu, que não tinha PPR – quem falou em oportunismo político –, eu ainda continuo a pensar que a ideologia dominante, neste caso a informação dominante, não convive bem, nem quer, que um partido de esquerda, não capitalista, possa ter êxito numas eleições democráticas e tudo fará para que isso, pelo menos com a sua conivência, não suceda. Conhecemos o que se passou no Chile e o que se passa hoje na América Latina.

Por isso, Paulo Rangel não faz mais do que ressuscitar o velho papão comunista, seguindo sem originalidade grande número de comentadores, como o Pacheco Pereira, que mais não fazem do que garantir que o Bloco tem uma agenda escondida e que se lhe derem a mão, ele a toma para num repente transformar Portugal no país dos sovietes. Para mim, isto é ressuscitar o velho ódio de classe, que neste caso se manifesta pelo anti-comunismo, mas que na notícia do Expresso e nos noticiários e comentários referidos se expressa pela desinformação e provocação, mas acima de tudo pela omissão, pelo comentário jocoso, pela opinião que parecendo séria mais não faz do que desvalorizar e confundir.

Vemos seguir os próximos episódios, suspeito que vem provocação e da grossa.

19/09/2009

Os ódios de classe ressuscitados


Quem leu hoje o Expresso e viu a SIC Notícias da hora do almoço, mas quem igualmente tem acompanhado nestes últimos dias o comentário político daquela estação, perceberá até que ponto a honestidade informativa, o preconceito ideológico e a campanha desinformativa chegaram ao ponto zero da independência jornalística.
O Expresso foi um jornal que, nos tempos do PREC, se distinguiu por ter uma redacção compostas por meninos do MRRP que se profissionalizaram no tipo de provocações, que foram ressuscitadas na edição de hoje. Em que é que constavam esses ataques. Eram normalmente dirigidos ao PCP e aos seus simpatizantes, aos meios militares de esquerda e visavam criar a ideia de que bem prega Frei Tomás, faz o que ele diz e não faças o que ele faz. Ou seja, que a prática seguida pelos defensores de certas teorias de esquerda não correspondiam ao que diziam, isto tanto na política, como na sua vida pessoal. Por isso, todas as notícias que pudessem achincalhar a esquerda dita gonçalvista eram pespegadas no Expresso. Isto fez carreira e ainda hoje é a glória de Marcelo Rebelo de Sousa.
Já se sabe que, normalizados os tempos, tirando um caso ou outro de clara provocação jornalística, o Expresso tem-se vindo a caracterizar por ser o porta-voz da bem-penância nacional, nada vocacionado para as provocações, nem para o agitar de águas.
Mas hoje não resistiu a vir dizer que Francisco Louçã apesar de denunciar os PPR comprou um, de que por sinal se desfez, para ir aplicar nos PPR criados pelo Governo. Diga-se de passagem que esta notícia seria até uma boa propaganda para o Bloco e para os fundos nacionais criados pelo Ministério do Trabalho, que abandonando os PPR privados se resolve a comprar os públicos como o objectivo de obter mais lucro e maior garantia. Mas o Expresso não lhe interessa isso, quer é mostrar aos seus leitores que as poupanças de Louçã já são de seis mil contos, ou trinta mil euros, vejam lá a fortuna, e que foram aplicadas naquilo que o Bloco condena como desprovidas de interesse económico.
É interessante que nas páginas interiores vem um artigo arrasador, que eu não subscreveria, de Miguel Sousa Tavares sobre a inveja nacional para com todos aqueles que vingaram e tiveram êxito na vida, e que se reflectem nos comentários anónimos dos blogs. Ora é isto mesmo que o Expresso está fazer, vejam lá este senhor que anda a combater o Governo pela esquerda, tem um pequeno pé-de-meia, que é de facto mais do que a maioria tem, e ainda por cima vai colocá-lo naquilo que combate. Se isto não é apelo à inveja nacional que Sousa Tavares condena, vou ali e já venho. Mas o assunto não se ficou por aqui, mereceu honras de tratamento informativo destacado na SIC Notícias, todo ele escrito e redigido com aquele ar de piscadela de olho ao espectador: em bem te topo, querias lutar pelos pobres mas tu és é um rico, que fazes tudo aquilo que condenas. E termina o locutor de serviço, com aquela objectivada de cão de fila a defender o patrão, apesar do que se disse o Bloco "lá" consegue o terceiro lugar nas sondagens. Ou seja, para o locutor, o Bloco, por Louçã e alguns dos seus dirigentes terem comprado PPR e acções (até a já não dirigente Joana Amaral Dias leva por tabela) devia estar no último lugar, naturalmente não existir mesmo. E assim vai o jornalismo em Portugal.
PS.: porque não dou exemplos em relação ao que estou a afirmar sobre a SIC Notícias, aqui vai: só ontem, sexta-feira, os convidados do Expresso da Meia-Noite eram todos do Bloco Central, que se perderam num combate de galos, mas que quando paravam lá vinham dar umas bicadas no Bloco. Antes disso a apreciação à campanha eleitoral foi feito por esses dois grandes comentadores “independentes” chamados Luís Delgado e Mário Bettencourt Resendes. Mas outros exemplos se poderiam dar, mostrando a extrema dependência em relação ao Bloco Central daquela estação de televisão.

19/07/2009

A governabilidade, a política de alianças à esquerda e o voto útil – I


O Expresso este fim-de-semana desenvolve uma série de cenários sobre aquilo que pode acontecer depois das eleições de 27 de Setembro. Põe mesmo o título: Guia para sobreviver no caos pós-eleitoral. Já se sabe que estamos perante uma antevisão que é típica da especulação jornalística e pouco reflectida deste tipo de imprensa. No entanto, há duas coisas que desde logo convém realçar, por um lado é o título perfeitamente aterrador do artigo e depois são a descrição das propostas que vários comentadores da direita e o representante do patronato andam a fazer para reforçar os poderes do Presidente da República. Catroga na entrevista que dá ao Diário Económico, e que eu já referi em post anterior, chega mesmo a afirmar: “os poderes do Presidente da República deveriam ser revistos se os partidos provocarem instabilidade política permanente”.
No mesmo sentido vão as declarações de Francisco Van Zeller, o patrão dos patrões, e de Medina Carreira, que, segundo diz o Expresso, foi o primeiro a pregar esta solução.
Qual é o significado de tudo isto? Eu diria que não estamos perante um facto novo, desde que o regime constitucional saído da Revolução de Abril foi implantado em Portugal que o cenário da ingovernabilidade e da necessidade de se fazer alterações constitucionais para a assegurar tem sido periodicamente acenado. E porquê?
Se estão recordados as primeiras eleições para a Assembleia da República quase que distribuíam os votos igualmente pelos quatro partidos então existentes: começando da direita para a esquerda: CDS (15,98%), PPD/PSD (24,35%), PS (34,89%) e PCP (14,39%). Por isso, se um deles se aliasse com outro facilmente poderia fazer uma maioria absoluta para governar. Ora como o PS se recusava a governar com o PCP, as maiorias só poderiam ser entre os outros três partidos e foi o que se verificou. Assim, depois de um fracassado Governo minoritário do PS, tivemos uma aliança PS/CDS, a seguir frágeis governos de iniciativa presidencial, e depois PSD/CDS (a Aliança Democrática) e por último o bloco central PS/PSD. Foi então que a criação do PRD, de Ramalho Eanes, veio provocar um relativo abalo nestas combinações a três. Não só porque inflige uma extraordinária derrota ao PS (fica nessas eleições – 1985 - com 20,77%), como começa a fazer descer o PCP, para níveis que posteriormente roçariam a irrelevância (em 2002 chega aos 6,94%), e permite o PSD começar a governar sozinho, primeiro com um Governo minoritário e depois com duas maiorias absolutas. O CDS a partir dos Governos de Cavaco começa descer significativamente chegando em 1991, na segunda maioria absoluta do PSD, a ter 4,43%. A partir daí começa a consolidar-se a ideia de que era possível uma alternância, o rotativismo do tempo da Monarquia, entre PS e PSD, este por uma vez coligado com o CDS. O PCP começava de certo modo a ser descartável.
Esta longa história, que eu aqui resumo, visa unicamente chamar-vos a atenção para que durante estes anos o regime foi sempre encontrando soluções que impedissem uniões à esquerda, mas ameaçando sempre que poderia recorrer a soluções mais radicais, que lhe permitissem artificialmente obter o rotativismo sem qualquer sobressalto.
Assim, foi durante os anos 80 a propaganda a favor da bipolarização, com comentadores e fortes meios de comunicação a martelar que a alternância era entre o PS e o PSD, que só estes é que podiam governar. A verdade é que durante o consulado de Cavaco o CDS quase desaparece e o PCP vai inexoravelmente definhando.
Para completar esta propaganda acenava-se com as alterações da lei eleitoral. Ele era a redução do número de deputados, o que tornaria irrelevantes os pequenos partidos. Ele era a ligação do eleito ao eleitor, moscambilha que só serviria para tentar diminuir ou forçar por métodos administrativos a diminuição da proporcionalidade e por último Jorge Sampaio, em dia de azar, a propor a alteração da lei eleitoral de modo a obter-se maiorias absolutas com poucos votos. Lembro-me de Pacheco Pereira a aplaudir esta proposta.
Agora, com a subida exponencial dos partidos à esquerda do PS, Bloco e PCP, vem novamente ao de cima uma qualquer solução para os impedir de ter acesso ao Governo. Pede-se por isso o reforço do papel do Presidente da República, já que a direita tem nesse órgão um amigo. Mas, como já aqui escrevi, é também o ressurgir de uma proposta que andou sempre em cima da mesa, a das moções de censura construtivas, de modo a impedir alianças espúrias no Parlamento para deitarem abaixo o Governo.
No fundo, o relato desta história recente de Portugal tem como objectivo mostrar que a democracia é muito bonita enquanto o poder se distribui por entre os “amigos”, quando há perigo de alguém estranho “ao compadrio” poder entrar, eis que temos que fazer tudo para que isso não suceda. Já em post anterior escrevi sobre isto e recordo até um Expresso da Meia Noite, da SIC Notícias, em que as senhoras bem pensantes do centrão, Maria João Avilez e Teresa de Sousa, se horrorizaram quando Alfredo Barroso falou da hipótese de o PS discutir com a sua esquerda a questão das alianças.
Ou seja, a vida política portuguesa ganhou um novo alento com a subida eleitoral do Bloco de Esquerda e do PCP. Os famosos 20% assustam muita gente e põe toda a direita em polvorosa, não vá por qualquer razão imponderável o PS, trair o seu compromisso de não trazer a sua esquerda para a área do Governo.

Concluindo, está hoje em cima da mesa a possibilidade de a esquerda, à esquerda do PS, poder obter aquilo que nunca foi capaz de ter (a votação mais alta do PCP em legislativas foi 18,80%, em 1979): uma votação acima dos 20%. Esse facto assusta a direita e obriga o PS a ter que reflectir sobre esta situação, não podendo assobiar para o lado, quando há aquela percentagem de votantes à sua esquerda. No próximo artigo desenvolverei este tema.
PS. (20/07/09): Estive hoje a ler um texto que escrevi em Maio, e que indiquei na segunda parte deste artigo, que refere uma outra proposta da direita para forçar a governabilidade, foi a de um novo bloco central (PS-PSD). Já me tinha esquecido desta, dada a rapidez com que entrou e saiu do debate político. É interessante que foi defendida pelo patronato, que pelos vistos anda a atirar barro à parede, e por Martim Avillez Figueiredo, director do novo jornal i. Já se percebeu que todos os dias há propostas novas, tem é que se forçar o PS a não fazer alianças à sua esquerda.

27/06/2009

Fim de Festa


Por razões familiares e de saúde – lá fui mais uma vez a Madrid – não tenho escrito nada neste meu blog. Sei como a ausência de novidades determina imediatamente uma clara diminuição de leitores. É como se um jornal diário só saísse quando o seu director quisesse, rapidamente iria à falência. Aqui como não tenho custos, nada me acontecerá economicamente, mas de certeza que aqueles que me costumavam ler regularmente já nem se lembram de dar aqui um pulo. Dificuldades de quem não precisa da prosa para viver. Dito isto, passemos ao que interessa.

No post anterior fiz uma análise do resultado das eleições para o Parlamento Europeu. Afirmei que os resultados tinham sido mais graves do que eu desejava e, posso dizê-lo, previa. O PS sofreu uma derrota de que provavelmente já não se consegue recompor e aquilo que poderia ser intuído antes das eleições, mas que ninguém levava muito a sério, tal eram as certezas das sondagens, hoje passou a ser uma evidência. E estas coisas são como são, a comunicação social, os comentadores e todos aqueles que vivem da política perderam todo o respeito ao Governo de José Sócrates e, por tabela, ao PS. Sucede a este Governo como àqueles homens fortalhaços, que no fulgor da idade conseguem amedrontar todo o mundo e são os reis da sua rua, e que depois, quando a velhice chega, já só são objecto de escárnio e de desprezo generalizado. Assim está José Sócrates. Ainda há pouco tempo se dizia que estava imbatível, as sondagens davam-lhe quase a maioria absoluta, todos os comentadores opinavam que a dúvida seria se Sócrates ganharia com maioria relativa ou absoluta. E não é que depois das eleições já ninguém acredita que o Primeiro-ministro continue a sê-lo no próximo Governo.
Este clima já se respira em todo o lado, é o fim de festa socialista. Hoje, na SIC Notícias, foi Medina Carreira a malhar no Governo, à mesma hora ,Vasco Pulido Valente, na TVI, e no Expresso da Meia-Noite todos contra os disparates de Sócrates a propósito do episódio da venda daquela estação televisiva à PT.
Tudo isto me faz lembrar o final do reinado de António Guterres (2001), quando este, antes eleições autárquicas, que ditaram o seu afastamento, não tinha para onde se virar. Era a direita, mais o patronato, a atacar em força, o PCP a não abrandar a sua crítica – nessa altura ainda não havia um Bloco de Esquerda com a força que tem hoje. Neste momento a situação repete-se, já ninguém tem respeito para com José Sócrates, que de animal feroz passou ao velho decrépito do nosso exemplo.
Dirão uns que é cedo de mais para ditar a sua morte. Pode suceder. Mas tudo vai no sentido oposto.
Mas isto são só apreciações intuitivas, que nada devem à reflexão política. A verdade, é que em política nem tudo se resume a correlação de forças, à táctica e à estratégia prosseguidas. Há de facto percepções da realidade que nos podem fazer compreender melhor o sentido da corrente. Há alterações dos “estados de alma” que nos permitem intuir o que se passa. E hoje penso que Sócrates e o seu Governo estão em queda absoluta, que já é impossível corrigir a direcção e daí os disparates que começam a ser feitos, como este caso da TVI.
É evidente que isto pode ser mau para as forças de esquerda. A direita pode tomar o freio nos dentes e apoderar-se, além da Presidência, que já detém, da Assembleia da República, do Governo e das Autarquias. É um perigo real. E muitas vezes a queda do PS arrasta também a sua esquerda. Isso não está provado, mas às vezes sucede. A ascensão dos Governos de Cavaco Silva coincidiu com o fracasso do PS, mas também do PCP.
Por isso, para aqueles que possam embandeirar em arco com a derrota de Sócrates e do PS, há que tomar as devidas cautelas, porque não é garantido que isso seja no seu conjunto benéfico para a esquerda, à esquerda do PS. Podemos depois das eleições ter uma desagradável surpresa.
Verdade seja dita que tudo que está a acontecer ao PS é por sua exclusiva culpa. Que não diga que não foi avisado, que não atribua culpas à sua esquerda, que nunca abonou as más companhias com que andava. Não se pode redigir um Código Laboral como aquele que se aprovou ou manter a intransigência que se demonstrou com os professores e depois vir-se dizer candidamente que a culpa é da esquerda, que não se moderniza. Quando se está convencido que se tem o rei na barriga e que se pode dispensar as forças à sua esquerda, chamando-lhes totalitárias, extremistas e não democráticas, está-se inexoravelmente a cavar um fosso intransponível que torna impensável, na hora da derrota, contar com qualquer ajuda.
Nunca se aprende nada e cometem-se sempre os mesmos erros. Vamos a ver como vai sair o PS e toda a esquerda desta curva apertada.

10/05/2009

A “bem-pensância” nacional. O bloco central.


Regressado, por momentos, à blogosfera, assisti este fim-de-semana a dois programas de televisão que marcam duas maneiras de encarar a realidade.
O primeiro foi o Expresso da Meia-Noite. Este programa representa, no pequeno universo da SIC Notícias, o conformismo e a "bem-pensância" nacionais. Traduz para televisão aquilo que o Expresso é na vida política nacional, um jornal conservador, acantonado ao pensamento dominante, sempre a apelar aos valores do bom-senso e da moral, incapaz de apresentar qualquer renovação na sua forma de pensar.
O último programa confirmou isto mesmo. Duas jornalistas de direita, muito “bem”, Teresa de Sousa e Maria João Avilez, e dois políticos na reforma, Rui Machete e Alfredo Barroso, a falarem do bloco central, o que foi chefiado por Mário Soares (1983-1985) e o que é actualmente proposto.
Maria João Avilez falou do papel patriótico desempenhado por aquele Governo, de que Rui Machete chegou a ser Vice-primeiro-ministro e Alfredo Barroso, Chefe de Gabinete do Primeiro-ministro. Percebia-se que era a favor de uma solução semelhante para o presente. Teresa de Sousa igualmente. Rui Machete também. Só Alfredo Barroso destoava e falava abertamente de uma coisa que ele afirmava que o PS há muito se tinha esquecido que era o debate sobre a política de alianças, admitindo que as podia fazer com a sua esquerda. Coisa que horrorizou as presentes. Teresa de Sousa, com uma linguagem típica da Guerra-Fria, falava como era possível admitir no Governo partidos que eram contra a NATO. E mais, sem perceber, que os tempos já não estão a favor do neo-liberalismo dominante e que há uma crise da economia capitalista, manifestava todo o seu horror e o ridículo que seria meter hoje no Governo partidos como o Bloco de Esquerda ou o PCP. Rui Machete gritava como seria possível incluir um partido que cometia a heresia de pedir a nacionalização da electricidade. E falava dos disparates do Bloco. Maria João Avilez garantia que o único referencial da actualidade era Cavaco Silva. Lá estava Alfredo Barroso, que se comportou à altura, dizendo que era um verdadeiro social-democrata, que ainda mantinha os mesmos ideais da juventude, piada à Teresa de Sousa que tinha passado pelo maoismo, e acusando a direita em Portugal de ser a responsável por impedir qualquer solução política à esquerda. Aqui, digo eu, com grande responsabilidade do PS. E acusando a imprensa portuguesa de ser hoje dominada pela direita. Bati palmas.
Mas concluindo, um programa terrivelmente monótono, com três direitinhas, contra um de esquerda. Uma moderação fraca ou a ajudar à festa, incapaz de realizar uma verdadeiro debate entre correntes de opinião representativas do espectro partidário e ideológico da sociedade portuguesa.
O segundo programa foi o Eixo do Mal, que corre ao Sábado naquela estação. Este é mais matizado. Já várias vezes tenho aqui descrito as preferências político-ideológicas de cada um dos intervenientes. Achei interessante a propósito do bloco central, que também foi discutido neste programa, que as posições fossem todas contra. Mas acima de tudo acho que Clara Ferreira Alves, num ataque de lucidez, deu uma ideia bastante interessante do papel desempenhado hoje pelo Bloco de Esquerda, que merecem alguma reflexão. Assim, garantia que o êxito do Bloco, que segundo ela corresponderia a uma caso de estudo, na tradução portuguesa da expressão inglesa que ela utilizou, resultaria não dos temas fracturantes propostos por aquele partido, nem de uma viragem à esquerda do eleitorado, mas sim da sua posição contra a corrupção, a roubalheira, os vícios dos outros partidos e da sua acomodação aos interesses instalados. Incitava mesmo o PS a estudar este êxito, que ela considerava que era por culpa deste partido e da sua incapacidade para fazer diferente que nascia o sucesso do Bloco.
Daniel de Oliveira não se opôs às suas palavras, no entanto, considerou, e bem, que o tema do Bloco Central tinha surgido na sociedade portuguesa, principalmente através dos representantes do patronato e dos seus apaniguados (vi numa análise da imprensa, também na SIC Notícias, Martim Avillez Figueiredo, director do novo jornal i, a defender esta saída política), porque a esquerda, à esquerda do PS, estava a subir significativamente e aquele partido iria perder a sua maioria absoluta. Portanto, era bom que o PS não tivesse qualquer veleidade de se aliar à esquerda, mas sim de o fazer à sua direita. Daniel insistia mesmo que quanto mais se falasse do bloco central, mais cresceriam o Bloco e o PCP.
Estes dois exemplos, que nem sequer são representativos, servem pelo menos para ilustrar como a expressão de opiniões mais diversificadas, e se possível mais inteligentes, tornam os programas mais interessantes evitando a monotonia e o desinteresse. Mas isto é um voto piedoso de alguém que tem consciência que estas coisas não dependem da boa vontade dos programadores mas de quem paga e de quem, em última instância, determina os conteúdos.

02/04/2009

O cerco aperta-se

Já percebi que pessoas de “bem” não escrevem sobre o caso Freeport. Seria interessante ver quem na blogosfera pega neste assunto. Acho que sobre isto já escrevi qualquer coisa.
Mas eu, que não tenho da política a noção de que ela é unicamente uma auto-estrada de ideias, mas que vive da luta diária, dos confrontos, das pequenas mazelas e do desmascaramento das corrupçõezinhas, não sou capaz de resistir a pegar neste assunto e a tentar limpar a poeira que nos querem deitar para os olhos.
Mas regressemos ao real. O novo Presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Públicos (SMMP), João Palma, declarou que havia fortes pressões sobre os magistrados que estavam a tratar do caso Freeport e que dado o melindre do assunto não dizia nada à comunicação social, mas unicamente ao Presidente da República. Este assunto mereceu daquelas respostas perfeitamente atrabiliárias do Ministro Santos Silva, que eu me inibo de classificar, dado os adjectivos que já empreguei em relação a suas anteriores declarações.
O Procurador-Geral da República (PGR) redigiu ontem um comunicado que, tal como o primeiro, parece sossegar todas as partes e nada se depreender dele. Por isso, as primeiras reacções que houve, como por exemplo, a do Telejornal da RTP, pareciam que o comunicado respondia unicamente ao Sindicato, garantindo que não havia pressões. Por isso o PS, pela voz de Vitalino Canas, saudavam-no, garantindo que afinal eles é que tínham razão. Durante a noite de ontem, na SIC Notícias, começou a perceber-se todo o significado do comunicado do PGR, pois soube-se que havia um magistrado que possivelmente tinha exercido pressões e que esse magistrado era Lopes da Mota, actual presidente do Eurojust, que tem por objecto a cooperação em matéria penal entre as autoridades nacionais no espaço da União Europeia.
Do historial desta nova personagem é interessante destacar, que foi Secretário de Estado da Justiça (1996-99), no primeiro Governo de Guterres, ao mesmo tempo que José Sócrates era do Ambiente. Esteve para ser Procurador-Geral da República, e só não foi porque veio à baila, sem estar provado, que poderia ter fornecido informações a Fátima Felgueiras. Tinha sido há muito tempo delegado do Ministério Público em Felgueiras (1980-88) (ver aqui e aqui). Bom currículo para quem declara que não exerceu nenhuma pressão.
O que é que se pode pois retirar de todo este historial que eu, abusando da paciência dos meus leitores, faço aqui?
Começaria por comentar as declarações de Marinho Pinto, que mais uma vez entra em liça (ver Jornal da Tarde, da RTP I, de hoje) questionando a intervenção do Sindicato. Parece-me que se pode depreender das suas palavras que os sindicalistas foram longe de mais ao não indicarem nomes e a atreverem-se a passar por cima da hierarquia. É interessante que em relação à anterior intervenção de Marinho Pinto as principais críticas que lhe foram feitas estão relacionadas com a forma como tinha actuado. Não devia ter escrito aquele artigo para o Boletim da Ordem, facto que ele contestou. As críticas que o bastonário faz aos sindicalistas são também formais. Não põe em causa o seu conteúdo. Tem que haver alguma coerência entre um caso e outro.
Fica clara que parece que houve pressões, se não Lopes da Mota não teria sido chamado. Por isso as declarações dos sindicalistas têm razão de ser, e mais, foram eficazes, obrigando a uma posição do PGR. As críticas de Santos Silva foram só gritaria, não serviram para nada.
Há também um outro assunto de que gostaria de falar. A procuradora Cândida Almeida diz que há uma cassete vídeo, a que foi reproduzida na TVI, mas que ela nem a quer ver para não se deixar influenciar e pela mesma não ter, face à lei portuguesa, qualquer validade. Mas então uma carta anónima pode servir para desencadear um processo e um vídeo com declarações graves já não serve para nada. Tal como a carta anónima não deve poder servir para prova em tribunal, penso eu, também aquele vídeo não serve, mas isso não implica que não seja visionado. Lá nos andam outra vez a atirar areia para os olhos.
Por outro lado, alguns analistas interpretaram o comunicado do PGR como dando luz verde para as investigações poderem prosseguir, mesmo que fosse necessário interrogar figuras altamente colocadas. Ou seja, depois de se andar a afirmar que ninguém do actual Governo estava a ser investigado, é possível que neste momento isso se venha a verificar. Era da mais elementar justiça que se interrogasse José Sócrates, que desde o início é referido na carta anónima e na rogatória, o que não quer dizer que esteja acusado ou seja suspeito de ilícito criminal. Mas tiveram tanta preocupação em proteger José Sócrates, que devia ser o primeiro a pedir para ser interrogado para esclarecer a situação, que quaisquer declarações que venha a ter que fazer à polícia ou aos magistrados soam já a acusação.
No fundo, quer queira o Primeiro-Ministro e o PS o cerco vai-se apertando, nada garantindo, é certo, que acabe mal para ele ou para o seu Governo, mas seria bom que tivessem mais pudor ao tratarem deste caso e não demonstrassem tanta jactância como aquela que o Ministro Santos Silva mostra. Hoje, depois do interrogatório de Lopes da Mota e de conhecermos a sua biografia pessoal, já não aparecem todos pimpões.

14/03/2009

Falemos de coisas mais importantes: Manuel Alegre

Tenho andado ultimamente enredado em pequenas quezílias pessoais ou confissões um pouco auto-punitivas, por isso não me tenho referido a alguns dos assuntos que marcam a actualidade.
Um certo “operário desempregado” acusou-me de não falar da manifestação da CGTP. Como já deve ter reparado o blog dedica-se mais à luta política-ideológica do que às agendas reivindicativas, por muito sérias que sejam. Por isso, não vejo qualquer razão para noticiar ou propagandear a manifestação e o seu indiscutível êxito, que foi por todos os media reconhecido.
Houve depois um outro assunto, provavelmente por não conseguir encontrar o tom certo, que ainda não abordei. Foi a visita de José Eduardo dos Santos a Portugal e a posição do Bloco de Esquerda, com que eu não estou de acordo.
Irei agora falar dos recentes desenvolvimentos daquilo que eu chamaria a novela Manuel Alegre.
Fui dos que saudei a sua candidatura às presidenciais. Ela prefigurava uma velha aspiração do PCP que era dividir o PS, daí o seu apoio ao PRD, do general Ramalho Eanes. É evidente que o apoio à criação daquele partido consistia unicamente em instrumentalizar a divisão do campo socialista, possibilitando até uma possível maioria de esquerda, no caso de Manuel Alegre as razões são mais profundas e nem sequer envolvem o PCP. Se as propostas presidenciais daquele político nem sempre me agradaram, a personagem, a sua entourage e aquilo que podiam significar tinham um peso político bastante diferente do que tinha a sido a criação do PRD, que no fundo acabou por resultar na passagem directa de eleitorado comunista e socialista para o PSD de Cavaco.
Tivemos depois os episódios da Trindade e da Aula Magna, com comícios em que participaram a título individual o Bloco de Esquerda e, no primeiro claramente, a Renovação Comunista. Quer se quisesse quer não, estes encontros, os discursos pronunciados e os temas abordados podiam deixar antever um ruptura de Manuel Alegre com o PS, o aparecimento de um novo partido e até a possibilidade, para já, do aparecimento de listas conjuntas Alegre-Bloco de Esquerda e, no futuro, a formação de um novo partido semelhante ao Die Linke alemão, que juntou socialistas de esquerda e comunistas pós-Muro.
Nada disto aconteceu, muito se especulou sobre de quem era a culpa, mas a verdade é que Alegre não rompe com o PS, não forma nenhum novo partido e o Bloco de Esquerda fala de Convergências à Esquerda, que se referem só a ele e a alguns independentes, como, por exemplo, para as europeias, o Rui Tavares.
Ontem Manuel Alegre, em declarações à Antena 1, já afirma: se a direcção do partido não dá um sinal da demarcação em relação à afirmação de um dirigente (José Lello) que diz que eu não tenho carácter, então não pode querer contar comigo como candidato a deputado nas próximas eleições. Ou seja, aquele político já admite participar nas listas do PS se este se demarcar do José Lello, coisa que não é difícil, se para conquistar uma maioria absoluta isso for necessário. E António Costa, na Quadratura do Círculo, da SIC Notícias, fala mesmo em coligação entre o PS oficial e Manuel Alegre. Proposta que hoje leva ao rubro Pacheco Pereira na sua crónica no Público, Uma coligação do PS-1 (Sócrates) com um PS-2 (Alegre) (ver aqui).
Sem saber como é que tudo isto irá acabar, parece-me, e espero que me engane, que findará numa coligação eleitoral um pouco original entre Alegre e o PS, em que este garante uns lugares na Assembleia e até, provavelmente, no Governo, como neste momento já tem a Ministra da Saúde, Ana Jorge, e acaba tudo com Manuel Alegre e Sócrates nos comícios eleitorais a darem vivas ao PS. Espero que este pesadelo não se concretize e que haja um pouco mais de dignidade na política.
Estamos todos cá para ver, é o meu desejo.

01/02/2009

O Eixo do Mal. Ainda o caso Freeport


Volto novamente ao assunto unicamente porque me apetece comentar as posições políticas e ideológicas assumidas por cada um dos intervenientes na discussão de ontem do Eixo do Mal, da SIC Notícias, toda dedicada ao Freeport.

Daniel de Oliveira assumiu o papel do comentador sério, mais preocupado com o país do que com a queda do Primeiro-Ministro, mas levantando algumas dúvidas que considera que devem ser esclarecidas e achando, e bem, que as justificações de José Sócrates só acrescentam mais ruído ao ruído existente.
É a posição responsável, de quem quer ver resolvida a situação rapidamente, a bem do país. Penso que era a única posição séria que ali se podia tomar e que corresponde à visão que o Daniel de Oliveira tem do papel que a esquerda, à esquerda do PS, deve desempenhar nestas circunstâncias, se quer algum dia vir a ser Governo. Veja-se um post anterior meu referente a um texto do Daniel de Oliveira para o Le Monde Diplomatique.

Clara Ferreira Alves, dizendo que não gosta do Sócrates, esteve todo o tempo defendendo-o recorrendo sempre aqueles argumentos que alguns dos apoiantes do Primeiro-ministro utilizam, como seja, se numa situação inversa nós enviaríamos, sem previamente haver um contacto diplomática, uma carta rogatória que considerava suspeito o primeiro ministro britânico, ou que este processo se iniciou com uma carta anónima, no final de 2004, e que todo o processo foi depois julgado como conspiração contra o candidato a primeiro-ministro, que era na altura o José Sócrates. Pelo meio, foi falando que os processos contra os banqueiros não davam em nada, tal como no caso dos submarinos de Paulo Portas. Ou seja, foi tentando mostrar que a direita também tem muitos rabos-de-palha e que normalmente ficam em águas de bacalhau. Falou também, deixando a suspeição no ar, de que a Carlyle, que tinha comprado recentemente o Freeport, era uma empresa que já se tinha envolvido em assuntos pouco claros em Portugal. Etc., etc..
Clara Ferreira Alves que tem uma posição séria sobre as questões do Médio Oriente, por vezes deixa-se arrastar por alguma demagogia histriónica em relação a alguns casos nacionais. Quanto a mim faltou-lhe muita objectividade, parecendo que estava cheia dela, na apreciação deste caso.

Luís Pedro Nunes gosta de se considerar anarquista e humorista, nunca levando nada a sério, excepto em relação a Cavaco Silva, pessoa da sua particular devoção. Não leva a sério as afirmações do Daniel e do Bloco de Esquerda e está sempre a gozar com o feminismo da Clara. O anarquismo desta gente corresponde normalmente a estar-se nas tintas para a política e para as opções ideológicas dos outros, mas principalmente nunca levar a sério as propostas da esquerda. No entanto, e porque as posições do PS o atacavam a ele e aos seu jornal, fez a crítica mais certeira da noite. Considera que a estratégia defendida por José Sócrates e pelo PS são a da vitimização e de pensarem que tudo isto resulta de uma cabala, "camapanha negra" afirmam, e que quem intervém ou fala do processo, para além do Procurador, está a colaborar com a cabala, podendo mesmo, em último caso, ser vítima de investigação policial. Santos Silva dixi.

Pedro Marques Lopes (PML) é um caso espantoso do comentador bem pensante. Comecei por classificá-lo com que um reaccionário boçal, o que me valeu muitas críticas e o que de facto não é. Posteriormente, já corrigi a mão. Mas continuo a considerá-lo como o protótipo da bem pensância nacional.
Está contra estas insinuações e ataques ao Primeiro-Ministro porque a priori os Ministros e os Governantes deste país são inocentes, não se deve lançar suspeitas sobre eles. Este tipo de clima de suspeição pode levar ao aparecimento de extremismos. É evidente que o fascismo também se alimenta disto, mas não foi isto que PML disse, ele falou dos extremismos, que, como se depreende, tanto podem ser de extrema-direita como de extrema-esquerda. Pouco falou do caso Freeport, mas criticou muito, e até com alguma razão, o aparecimento excessivo da Procuradora-Geral Adjunta, Cândida Almeida. Considerando, também bem, que a senhora não tinha nada que dar palpites sobre os governos de gestão. Quanto a mim foi esta a parte melhor dele, o resto foi a defesa das instituições oficiais, que não podem nunca cair na rua.

Não sei se alguém se dará ao trabalho de ler este post. Mas penso que aqueles que regularmente seguem este programa poderão, com algum proveito, confrontar o que aqui é dito com as suas opiniões e comentar se estou ou não muito próximo do que pensam.

28/01/2009

Andam a atirar-nos areia para os olhos. O caso Freeport (III)


Tenho o Doutro Freitas do Amaral como homem sério. Um bocadinho poseur, mas com atitudes e comportamentos com que eu, por vezes, estou de acordo. Há uma preocupação humanista expressa, por exemplo, nas críticas severas a Bush e à invasão do Iraque, quando ainda era difícil tomar essa opção, e ainda de ontem, na entrevista que deu à SIC Notícias, à acção do Estado de Israel.
No entanto, na referida entrevista, disse algumas coisas e tocou alguns violinos que, francamente, caiem mal.
Vejamos, o caso Freeport.
Porque não conhecia o processo deixou-se arrastar por uma afirmação de Ana Lourenço, a entrevistadora, que dizia que o processo era dos anos 90 e ele, tomando isso como verdadeiro, começou logo a afirmar que o pedido de licenciamento já se arrastava há dez anos. Quando é manifestamente mentira, o primeiro pedido só deu entrada em 1999. Baseado neste pressuposto começou a fazer considerações sobre o arrastar destes pedidos em Portugal, sobre a necessidade que temos de investimento estrangeiro, e que um processo destes em Inglaterra só demoraria 10 meses. Nada daquilo era verdade. Depois garantia que os promotores tinham corrigido todos os entraves à aprovação pelo Ministério do Ambiente, e foi por isso que houve um DIA favorável. Não sei se é verdade, mas, para quem conhecia tão mal o processo, garantir, com todas as letras, que isto se tinha passado, parece-me um bocado exagerado.
Mas o problema mais grave, e que ele expôs com todos os pormenores, foi de que tendo sido o Decreto-Lei assinado pelo Presidente da República e depois já referendado por Durão Barroso, coisa que ele enfatizou, chegar-se-ia à conclusão que se houve luvas teria que haver para o Presidente, Jorge Sampaio, e Durão Barroso.
Ora, parece desconhecer que pouco tempo depois o mesmo Durão Barroso assina um Decreto-lei, n.º 190/2002, de 5 de Setembro, que repõe os limites anteriores da ZPE, ou seja, anula aquele que tinha sido aprovado a três dias das eleições. Lamento, mas Freitas do Amaral, com ar de Grande Professor que tinha bem estudado as limitações da acção dos Governos de Gestão, não fosse ele um administrativista, conhecia este caso pela rama e com grande pompa e circunstância foi à televisão defender o seu amigo Sócrates.

Por tabela, lembrou outras campanhas de imprensa, misturando assuntos que nada têm a ver uns com os outros, quase que nos levando a pensar que existe uma cabala oculta dos meios de informação para destruírem os políticos.
A única conclusão que podemos tirar é que, de um modo geral, e é interessante que isto não se aplica aos casos de pedofilia – veja-se Ferro Rodrigues e Paulo Pedroso –, as campanhas dos media não conseguem diminuir a popularidade dos principais visados.

Na linha das considerações anteriores, Freitas do Amaral passou depois ao panegírico de José Sócrates e aí, ao enfatizar as suas grandes obras, transpareceu um claro tom de propaganda política e de pagamento de favores. Esperava-se um pouco mais deste homem.

Parece que na noite anterior também na SIC Notícias, que em certos casos está transformada em órgão de propaganda do Governo, foi entrevistado Silva Pereira, que na altura era o Secretário de Estado com responsabilidades na elaboração do tal Decreto que alterava os limites da ZPE. Não vi a entrevista na altura e não tive possibilidades, como a do Freitas do Amaral, que fui ver hoje, de a ver. Por isso só sei o que diz o Público. Este garante que o Secretário de Estado à altura, Silva Pereira, teria dito que “o projecto obteve a DIA dois meses antes das mudanças da ZPE”. “Isto porque a DIA data de 14 de Março de 2002 e o Decreto-lei que altera os limites da ZPE é de 20 de Maio do mesmo ano. É uma falsa relação garantiu”.
Dito deste modo parece que nada havia em comum, quando é claro que, no mesmo dia em que há o despacho do Secretário de Estado a autorizar o empreendimento do Freeport, foi levado a Conselho de Ministros a proposta de Decreto-Lei para ser aprovada. É evidente, como toda a gente sabe, em Portugal, já o mesmo não se passa com as Directivas comunitárias, a data de um Decreto-lei é aquela em que este é publicado no Diário da República. Mas isso não invalida a preocupação do Governo em aprová-lo ao mesmo tempo que o processo de licenciamento do Freeport.
Eu penso que não foi a publicação do Decreto-lei que permitiu a aprovação do empreendimento do Freeport, mas que a alteração introduzida justificava a posteriori aquela aprovação. Como se sabe, e eu já repeti isso várias vezes, há uma área no empreendimento, a A, com maior carga humana e habitacional que foi retirada do limite da ZPE. Ou seja, de acordo com o que penso, como se previa aprovar o empreendimento foi-se logo introduzindo alterações no limite da ZPE, que justificassem a aprovação e de facto correspondessem à realidade existente. Não tinha sentido, que uma área completamente urbanizada estivesse incluída numa ZPE.
A Comissão Europeia não gostou desta alteração e foi já o Governo de Durão Barroso que anulou este Decreto-lei e repôs os limites anteriormente definidos. Mas o Freeport já estava a ser construído, nada havia a fazer.
Em próximo post, se entretanto não houver novidades, darei a minha interpretação de todo este caso. Só porque teve repercussões mediáticas, é que foi tão escalpelizado, pois isto é o dia a dia da administração pública: processos que não têm padrinho, arrastam-se indefinidamente porque, muitas vezes, ninguém quer assumir o ónus da autorização.

04/01/2009

A SIC Notícias sempre, sempre, ao lado de Israel


Muito me tem apetecido desancar em todos aqueles que neste momento fazem por omissão, pela chamada imparcialidade ou pelo claro apoio a Israel o jogo dos agressores, ou seja, dos violadores dos mais elementares direitos das populações palestinianas. Mas nem sempre posso responder a todos.
Por exemplo, Pacheco Pereira (PP) publicou ontem no Público (A falsa equidistância e a irrelevância da política europeia no Médio Oriente) mais um dos seus artigos belicistas, a apelar à violência e a desancar num inocente texto que pretendia estabelecer a equidade entre as partes. Ainda um dia hei-de fazer uma análise desta prosa de PP, que começou com o ataque, que parecia muito de esquerda (era semelhante à crítica do PCP), contra o Tribunal Penal Internacional (TPI) e depois se consolidou na defesa e apoio da invasão do Iraque, por Bush, e que hoje se reflecte nesta apologia da violência praticada por Israel. Ao PP nunca passou pela cabeça que a sua prosa poderia, neste apelo à guerra e na crítica à impotência das democracias, principalmente as da União Europeia, roçar a ideologia fascista. Mas ainda não chegou a hora, nem sei se terei acesso às prosas antigas do PP.
Mas o que me ocupa hoje é parcialidade de uma estação de televisão, a SIC Notícias, que recorreu, pelo menos no noticiário das 2, a comentadores defensores unicamente de um dos lados do conflito. Não é que a televisão pública, a RTP 1, não tenha feito o mesmo noutras ocasiões e que, presentemente, a RTPN, que eu não vejo, não possa recorrer à mesma prática. Por exemplo, a Márcia Rodrigues, a enviada daquela estação para cobrir a invasão de Israel, está a fazer os seus relatos, porque é impossível chegar a Gaza – a liberdade de informação foi suprimida por Israel ao não permitir a entrada de jornalistas naquele território –, na fronteira com aquela faixa, o que necessariamente a há-de levar a reproduzir os pontos de vista dos porta-vozes daquele país, porque é mais fácil recolher as sua opiniões e porque provavelmente a vontade de procurar não será muita.
Mas a SIC Notícias, tem-se distinguido, pelo menos no noticiário das duas, por recorrer unicamente a comentadores pró-Israel. Ontem foi a vez de Carlos Gaspar, do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa, hoje foi a Ester Mucznik, vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa. Qualquer dos dois defensores “à outrance” da guerra desencadeada por Israel. A SIC Notícias, sem contraditório, dá voz a defensores declarados de uma das posições. Estranha maneira de dar informação.
O que diz cada um deles. O primeiro foi muito claro naquilo que disse sem pestanejar, esta guerra visava decapitar e isolar o Hamas e dar o poder a Al Fatah, que colabora com Israel, os tais moderados, que antes eram terroristas. Bem pode o povo palestiniano votar no Hamas, mas como este não serve, há que obrigá-lo a aceitar o que não quer. Estranha forma de defender a democracia.
A segunda foi mais directa ao coração. Estava ali para vender a bondade da intervenção e quase de lágrimas nos olhos apelava para que compreendêssemos os israelitas e a necessidade que tinham de se defender dos malandro terroristas do Hamas, que obrigavam a população palestiniana a aceitá-los e que se refugiavam por detrás dela. Esqueceu-se que as eleições que deram a vitória aquele partido, principalmente na faixa de Gaza, foram acompanhadas pela comunidade internacional que as considerou justas e democráticas.
Já agora lembremos que o correspondente da SIC no Médio Oriente, Henrique Cimerman, também não será um modelo de imparcialidade política já que a sua vida é toda feita em Israel e é a partir de lá que faz os seus relatos, quase sempre num tom favorável àquele país.

Por último, uma anedota, o porta-voz da Presidência da União Europeia, que é neste momento assegurada pela República Checa, tinha afirmado que a intervenção de Israel era mais defensiva do que ofensiva. Hoje o Ministro dos Negócios Estrangeiros teve que vir desmentir esta declaração, afirmando que Israel não tinha o direito de empreender acções militares que "afectem fortemente civis". Ou seja, o porta-voz ainda não tinha compreendido que não era porta-voz dos interesses americanos, e por tabela dos israelitas, mas sim de uma comunidade de Estados que pensa um bocadinho diferente. Triste sina, a destes países satélites, que deixam de ser mandaretes de uns e passam a ser mandaretes de outros.


PS.: foi à procura no blog do Pacheco Pereira, Abrupto, do seu mais recente texto no sobre a invasão da faixa de Gaza, acima referido, para ver se o linkava para este post e encontrei algumas farpas contra frases de locutores da televisão que não afinam pelo diapasão politicamente correcto de Pacheco Pereira. Mas o que dirá S. Ex.ª deste caso relatado aqui e que revela, porque muito mais manipulador da opinião pública, dado que destila uma clara orientação sem qualquer contraditório, uma enorme parcialidade.
Actualização (10/01/09).
Tenho que reconhecer que nem sempre a SIC Notícias é parcial. Ontem sexta-feira, apresentou no noticiário das duas uma reportagem sobre as crianças de Gaza, bastante interessante e demonstrativa da falta de respeito de Israel por aquelas populações. Às 23h, no Expresso da Meia-Noite, convidou para o painel de comentadores um grupo bastante favorável à causa palestiniana, constituído por gente bem informada, tais como a Clara Ferreira Alves e o Miguel Portas, uma outra senhora de que não me recordo o nome, mas que completou as informações prestadas pelos primeiros, e o estudioso do Islão, o Professor Dias Farinha, que deve ser dos poucos portugueses que sabe árabe e que está sempre disponível para defender, moderadamente é certo, a causa árabe. Esta composição parecia compensar os dias seguidos em que só se vinculou o ponto de vista de Israel.

05/11/2008

« Les beaux esprits se recontrent »: entre Obama e McCain pouca diferença há


Admirei como ontem à noite os participantes da Quadratura do Círculo, da SIC Notícias, iam actualizando, em tempo real, um blog que aquela estação de televisão lhes tinha posto à disposição. Para mim a actividade de bloguista é solitária e exige concentração, por isso demoro tempo na elaboração de um post e chego sempre atrasado à actualidade.
Assim, gostaria de ter feito um post In Memorium do Carlos Porto, que conheci quando era jovem, e que continua a estar entre os meus projectos, e um outro, a que chamaria Cidadãos acima de qualquer suspeita, referente ao conjunto de fotografias que aparecia na segunda-feira, no jornal Público, e que fazia a listagem de todos os políticos que tinham influenciado as decisões do BPN. Este post já perdeu oportunidade, não é que aqueles cidadãos tivessem, por acaso, recuperado a respeitabilidade, mas porque já passaram alguns dias sobre a exibição das suas carantonhas e hoje o affair do BPN é já passado, perante a eleição de Barack Obama, como Presidente dos Estados Unidos.
Este meu post pretende analisar como à esquerda e à direita, tem havido a preocupação de evitar a venda de ilusões, num caso à “classe operária”, noutro impedir que a esquerda embandeire em arco com aquela eleição. Ou seja, les beaux esprits se recontre.
Assim vejamos, em nota hoje distribuída à imprensa o PCP, não desmerecendo aquilo de que é vulgarmente acusado – sectarismo e dogmatismo –, afirma: “a eleição de Barack Obama como presidente dos EUA está longe de corresponder às expectativas que a gigantesca campanha mediática mundial procurou criar para construir a ilusão de uma mudança e de uma viragem na política dos EUA e do seu papel na esfera internacional.” E diz mais: “não ignorando diferenças entre os candidatos republicano e democrata, a verdade é que ambas as candidaturas não disfarçam o seu vínculo a um projecto de dominação no plano económico, ideológico e militar do mundo.”
Para o PCP, provavelmente a único diferença que há entre os candidatos é um ser preto e outro branco, mas ambos estão vinculados ao projecto de dominação imperialista do mundo. Como estas almas são simples.
Mas o que nos diz a direita. Rui Ramos esse ideólogo reaccionário e monarquista, transvertido em neo-liberal reaganista e thatcherista, como convinha há alguns tempos atrás, afirma, logo abrir, num artigo que publicou no Público, da semana passada: “Em tempos, houve quem acreditasse que o mundo iria mudar com a eleição de Barack Obama. E talvez ainda haja quem guarde a fé – mas são cada vez menos.
É que o mundo, como constatámos entretanto, não precisou de Obama para mudar. Talvez por isso, a bolha de entusiasmo começou notoriamente a diminuir. O candidato também não ajudou. Com a sua campanha habilidosa e esquiva, limitou-se a acrescentar mais uns gramas de incerteza à incerteza geral. Neste momento, ninguém sabe como vai estar o mundo no ano que vem, e também ninguém sabe que presidente poderá ser Obama.
” E Rui Ramos termina: “Se não fosse a cor da pele, este jovem político eloquente e disposto a tudo para chegar ao topo já nos teria lembrado os nossos velhos conhecidos Clinton e Blair. Em 1997, também os conservadores ingleses tentaram fazer de Blair uma espécie de comunista disfarçado, enquanto os seus entusiastas ficaram a aguardar uma nova política exterior ("ética") e uma nova economia (de "Terceira Via"). O mundo já não é o que era em 1997. Mas o estilo de Obama é, no fundo, o desse tempo. Ora, a Terceira Via pode ter sido uma alternativa às políticas da década de 1980, mas desde então tornou-se parte do percurso que fizemos para chegar onde estamos. Aonde mais nos poderá levar?”
Comparando estas afirmações com o comunicado do PCP, verifica-se que Obama nada nos trará de novo, para aquele Partido será a manutenção do capitalismo imperialista, para o professor reaccionário será o déjà vu, que poderia ter sido uma alternativa na década de 80, mas que agora será a continuação na continuidade.
Mas não se ficou por aqui a intervenção da direita. A SIC Notícias montou todo um aparato mediático – desta vez acompanhado de uma descarada publicidade, com a complacência dos comentadores, a uma marca de portáteis – para irmos acompanhando as eleições e para simultaneamente arrefecer os arrebatamentos da esquerda. Assim, convidou Nuno Rojeiro, apoiante de Barack Obama, que defendia que a eleição deste serviria para pôr o “taxímetro a zero”, de modo a fazer-nos esquecer a política de Bush e tornar impossível que a esquerda europeia e mundial continuasse a atribuir aos Estados Unidos tudo aquilo que acontece de mal no mundo. Como o PCP devia ter gostado de ouvir isto. No fundo Obama servia principalmente para enganar as massas.
Miguel Monjardino, outro comentador, defendia que, juntamente com Obama, iriam ser eleitos um conjunto de senadores democratas conservadores que impediriam quaisquer veleidades de esquerda a Obama. Só Rui Tavares, numa intervenção a partir de Chicago, tentou introduzir alguns elementos de esperança, que rapidamente foram cortados pelo pivôt da emissão e que levou todos os outros a o rebaterem, sem o citarem.
Pacheco Pereira, que estava ao lado, na Quadratura do Círculo, com mau perder, afirmava que não via qualquer mudança no eleitorado, ao contrário do que tinha dito Rui Tavares, pois àquela hora a diferença entre os dois, quanto ao número de votantes, era diminuta. Hoje, com os resultados apurados, sabe-se que foi bastante maior.
Pacheco Pereira, que já tinha declarado noutro programa que era apoiante de McCain, não resistiu a mais uma vez, em êxtase, a falar da grande democracia americana, garantindo que em França, por exemplo, era impossível ser eleito um presidente negro.
Concluindo, tanto à esquerda – certa esquerda – como à direita há a preocupação de garantir que nada muda, excepto provavelmente o estilo.
Quanto a mim, Barack Obama não irá provocar uma Revolução nos Estados Unidos, provavelmente terá que fazer compromissos, mas está já a causar uma ruptura com a tradição ultra-conservadora que vinha a ser seguida, introduzindo no mundo actual um capital de esperança e de mudança, que pode nestas circunstâncias, de grave crise económica, favorecer no seu conjunto a esquerda. Ou seja, convém que em momentos de crise os ventos não soprem para a direita, mas sim no sentido do progresso.
É isto que o nosso Partido Comunista não percebe e que Sócrates, sempre a cavalgar a onda daquilo que está a dar, já introduziu no seu discurso. Espero que se estampe.

09/09/2008

Quanto mais reaccionário melhor – Parte II


Há tempos, antes de ter publicado esse grande sucesso que foi o meu post sobre o Manta Beach Club, tinha escrito um outro sobre um fenómeno que percorria os media portugueses e que se estava a avolumar no Público, que era o aparecimento de um conjunto de comentadores de direita, alguns mesmo profundamente reaccionários, que eram contratados em função da boçalidade dos seus comentários.
Palavras não eram ditas e no programa da SIC Notícias, o Eixo do Mal, o comentador residente José Júdice foi substituído por um outro chamado Pedro Marques Lopes, com ar de pegador de toros (ver fotografia ao lado), e que me pareceu demasiado jovem para ter vivido no tempo do fascismo.
José Júdice tinha comentários de direita, era anti-comunista, mas tinha a experiência de ter passado, antes do 25 de Abril, pela Pró-associação dos Liceus, e de pelo menos não fazer afirmações que roçassem o reaccionarismo mais boçal.
Quando abri a televisão no Sábado já o programa ia adiantado. Até certa altura, tudo parecia normal, quando de repente se fala na Festa do Avante e Pedro Marques Lopes, com um fúria típica de fascista, começa primeiro por dizer que se a Festa hoje parecia normal e era notícia nos principais órgãos de informação, devíamo-nos lembrar que já tinha apoiado as ditaduras mais sinistras do Planeta, chamando “colaboracionistas” (termo nada inocente) aos responsáveis que na Festa que promoviam aqueles regimes. Falou igualmente da propaganda que lá se fazia “desse ícone pop” chamado Che Guevara, tratado com grande desprezo, e em muitas outras coisas, enquanto lhe deram tempo de antena. Daniel de Oliveira lá foi defendendo a honra dos comunistas, considerando que a Festa do Avante tinha sido, em determinado momento, a maior manifestação de cultura popular existente no país, com que o outro gozou, considerando que era igual aos festivais do Sudoeste e do Super Rock, Super Bock. Lembrou o Daniel o papel desempenhado pelo PCP na resistência ao fascismo, a que outro retorquiu considerando que aquele partido queria implantar uma nova ditadura.
Estamos pois perante um reaccionário convicto, que a produção – As Produções Fictícias – foi buscar por essa mesma razão e que permite que um programa que alguém considerou estar desequilibrado para a esquerda, vá contar com dois comentadores de direita, Luís Pedro Nunes e o novo residente, uma PS envergonhada, Clara Ferreira Alves, e Daniel de Oliveira, do Bloco de Esquerda
Dirão alguns que isto se encontra equilibrado, pois eu acho que não. Primeiro falta alguém próximo do PCP, já que pelos vistos vai ser o bombo da festa nos próximos tempos, e depois tinha havido, até ao momento, a decência de o pessoal de direita ter um comportamento civilizado, onde a boçalidade dos novos tempos não prevalecia.
Mas não foi esse o critério seguido. Este novo espécime foi caçado na blogosfera. Parece que escreve para o Acidental, que eu não frequento, mas igualmente para o blog da revista Atlântico, que há tempos tinha uma capa com o Che Guevara com o bigodinho de Hitler. Elucidativo, não é.
É difícil adaptar-me a esta nova vaga que percorre com grande desenvoltura os media dominantes em que a boçalidade reaccionária está novamente a vir ao de cima e, mais do que isso, pagam-lhe para ser assim. Acho difícil ser de esquerda e conviver com esta gente.
PS.:Valha-me o Spectrum. Afinal sempre havia reaccionarice e da grossa, o mal foi eu não ter andado a procurar na net. Vejam este belo texto do senhor acima referido sobre o Governo Democrático de Allende. É muito difícil conviver com estes figurões.