Mostrar mensagens com a etiqueta Cine-clube. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cine-clube. Mostrar todas as mensagens

22/01/2011

Elogio ao camarada morto

Tinha falado com ele pelo telefone há dois ou três dias, disse-me que estava a tomar antibiótico para uma tosse horrível que o atacava, já tinha dificuldade em andar e falar. Respondi-lhe que iria arrebitar. No Domingo chegou, pela voz do Mário, a notícia de que tinha morrido naquela manhã, às 10h 30. O seu nome de guerra era Quim João, na vida civil chamava-se Joaquim João dos Santos Brás.

Conhecemo-nos no Liceu Gil Vicente, não sei quando, mas pelo menos tenho a certeza que no 6º e 7ºano eu estava na cadeira da frente e ele na de trás. Começou aí a nossa amizade, tinha eu 16 anos e ele 15.
Provavelmente, por incentivo meu, apareceu no grupo que se reunia, entre as 7 e as 8h da tarde, num gradeamento que ficava ao cimo da Angelina Vidal, do lado de quem vira para a rua da Graça. Por vezes era em frente, junto a uma venda de jornais, que nessa altura estavam arrumados em cima do passeio. Toda essa zona tinha o nome de Quatro Caminhos, que resultavam do cruzamento da Angelina Vidal, com a rua da Graça, Sapadores e Penha de França. Reunimo-nos aí bem mais de dez anos, até que a vida nos dispersou: casamentos, tropa, prisões, novas moradas, exílios, enfim a vida.
Já aqui tinha feito a descrição deste grupo.

Nos finais do nosso 7º ano, admitamos Primavera de 1961, por sugestão do pai do Mário, começamos a frequentar uns colóquios que se realizavam na Cooperativa dos Trabalhadores de Portugal, ali às Escadinhas do Duque. A primeira a que assistimos foi de Alberto Ferreira, sobre filosofia, já se sabe que encapotadamente sobre filosofia marxista. A sua importância sobre o meu espírito em formação foi tão grande que rapidamente ultrapassei a filosofia de António Sérgio, nessa altura un mâitre-à-penser para os jovens democratas da minha geração, e me aproximei rapidamente do marxismo. Sobre estas conferências já falei aqui.
Só gostava de acrescentar um pequeno episódio picaresco. No regresso a casa, sempre a pé, passava-se pela Praça do Chile e ia-se beber um copo de vinho verde à pressão, acompanhado de torresmos. Recordações da juventude!

No final do Verão de 1961, antes de entráramos para as diversas faculdades que cada um ia frequentar, o Quim João foi para o Técnico, Engenharia Civil, eu para Ciências, outros para Direito, chegou-nos de Paris um pândego, e digo isto hoje, porque na altura não tínhamos a clara consciência da vacuidade desta personagem, nosso colega no liceu, que vinha credenciado para organizar um grupo oposicionista aqui em Lisboa. Levámos a sério o convite e começámo-nos a reunir, tentando juntar novos amigos. Recolhemos fundos, muito poucos, comprámos ou deram-nos uma caixa de lápis vermelhos que escreviam nas paredes e eu e outro ainda andámos a apreçar uma máquina de stencil, objecto hoje pré-histórico, mas que era o único que nos permitia reproduzir centenas de comunicados. Rapidamente nos demos conta da inutilidade da nossa acção. Por muito que nos organizássemos éramos sempre uma gota de água no oceano e já havia outros a fazer o mesmo. O tal pândego nunca nos indicou quem eram os seus mandantes. Assim, ao fim de algum tempo acabámos a fazer conferências de aprofundamento ideológico. Esta experiência está também já relatadas no post anteriormente assinalado.

Em 1962, em 24 e 25 de Março, ia ter lugar o Dia do Estudante. Os episódios do primeiro dia já eu os descrevi aqui. Aí relato a agressão policial ao Quim João e a sua posterior prisão à saída do Hospital Santa Maria, onde se tinha ido tratar. A confirmação da história pelo próprio está num PS. aqui. A partir daí este meu amigo tornou-se um homem “politicamente suspeito”. Soube-o quando foi informado pelo aspirante que comandava o nosso pelotão em Mafra, que nos últimos dias de instrução o chamou a ele e, vejam lá, ao Correia de Campos, o ex-ministro do PS, que agora mostra simpatias por Cavaco Silva, para lhes transmitir essa informação, garantindo-lhes que ele não era polícia e que por isso não tinha que prestar informações à PIDE. Era o 25 de Abril já a despontar. Já agora, acrescento que fizemos juntos, em Mafra, os três primeiros meses de tropa. Pertencemos à incorporação de Abril de 70.

Mas a nossa maior experiência e que nos marcou para a vida inteira foi a nossa actividade no Cine-Clube Universitário de Lisboa (CCUL). Ele entrou mais cedo do que eu. Foi juntamente com o Mário oferecer-se para colaborar. A primeira tarefa que lhe deram foi arranjar mil envelopes e os respectivos selos para enviar uma circular aos sócios. Pensou que era simples. Na primeira capelista que entrou a pedir mil envelopes, deram-lhe para aí uns 50 e foi com muita sorte. Reunir os mil foi uma aventura. Chegou com eles, orgulhoso, ao cine-clube, ninguém lhe agradeceu aquele esforço. Continuou a trabalhar. No ano lectivo de 1967/68 torna-se seu presidente e inicia a época com um ciclo sobre cinema americano, que foi a sua glória, em que se destacam As duas feras, de Howard Hawks, A Corda, de Alfred Hitchcock, Serenata à Chuva, de Stanley Donen e Gene Kelly, Pistoleiros da Noite, de Sam Peckinpah e Jerry 8 ¾, do próprio Jerry Lewis, isto depois de um ano agitado em que tinha havido uma cena de pateada, relatada por mim aqui.
É evidente que o Quim João também tinha que estar presente quando da invasão do Cine-Clube pela PIDE. Ver aqui. No episódio que relato, de os pides nos ameaçarem com uns tabefes, era ele o principal destinatário, já que involuntariamente tinha tocado no telefone. Foi também ameaçado de prisão quando se dirigiu à PIDE para reclamar os ficheiros que nos tinham sido roubados.

Neste nosso círculo de amigos havia de entrar também o PCP. Como os dois pertencíamos ao Cine-Clube, achava o Partido que a nossa frente de trabalho era aquela e nunca nos pediu muito. Penso que durante um certo tempo era eu que recebia as quotas do Quim João e lhes dava depois destino. Acho que o envolvi a ele e a um primo meu numa distribuição nocturna de comunicados pelas caixas de correio de não sei que bairro. Sei que quando nos embrenhámos mais a sério na actividade partidária já não soube nada da sua vida política, nem ele da minha.

Depois do 25 de Abril, também tivemos destinos diferentes no PCP, eu fiquei ligado primeiro aos professores e depois à função pública e ele ao sector intelectual, às coisas do cinema. Só mais tarde nos juntámos e fomos contemporâneos, na direcção do sector intelectual, eu novamente ligado ao cineclubismo, agora através do ABC Cine-Clube de Lisboa, e ele penso que continuava com o cinema. Depois a vida foi-lhe um pouco madrasta, a empresa onde trabalhava afastou-o, teve que recomeçar a meio da vida num novo emprego, numa Câmara Municipal, a de Grândola. Acho que gostou. Teve liberdade suficiente para fazer obra e melhorou sensivelmente a qualidade de vida de algumas populações. Orgulhava-se muito das suas criações. Com a doença veio a reforma. Entreteve-se nos últimos anos a compilar para DVD todos os filmes que possuía noutros formatos, instalou uma pequena sala de cinema na sua casa, em Grândola, e teve a felicidade de ver os seus filhos enveredarem profissionalmente pelo cinema, que foi desde o princípio, no cine-clube, a sua paixão.

Morreu  militante do PCP, mas muito descrente das suas possibilidades de renovação. Morreu, por isso, um camarada.

PS.: Imagem do filme A Desaparecida, de John Ford. Um filme de que gostava.

PS. (31/101/11): da leitura de um artigo de Pacheco Pereira, no Público, e de um post de Vítor Dias, no seu blog, percebi que a memória dos meus tempos de juventude tem algumas falhas. Chamei “máquina de stencil”, àquilo que na altura se chamava simplesmente copiógrafo e que utilizava, para imprimir vários milhares de comunicados, um stencil batido à máquina.

Um camarada do PCP e amigo enviou-me hoje um abraço em memória do Quim João, dizendo que tinha visto a notícia no Avante, de 27/01/11. Fui ler, afirmam que ele entrou para o Partido, em 1980, tirem-lhe menos 15 anos e estarão a falar verdade. Penso que não foi por desconsideração, mas a concelhia de Grândola devia andar mal informada.

15/03/2010

O fascismo quotidiano


Tenho sido daqueles que na blosgofera têm feito bastantes referências críticas a Rui Ramos. Quando este historiador escrevia todas as semanas no Público era certo e sabido que alguma ferroada lhe havia de dar a seguir. Hoje, por razões que só são justificáveis pela leitura que cada um faz dos jornais, não o sigo com tanto cuidado a sua coluna no Expresso como o fazia com a daquele diário. Assim, ainda no tempo em que eu escrevia para o DOTe.COMe critiquei-o pelo seu artigo sobre o resultado do referendo ao aborto. O mesmo se verificou quando fez o obituário de Luís Pacheco, desta feita já no Trix-Nitrix. Neste post chamei-lhe mesmo um “camelot du roi à portuguesa”, que segundo a definição que dei na altura eram um “grupo de provocadores católicos e monarquistas, adeptos da Action Française, de Charles Maurras, que pontificavam entre as duas guerras e que participaram activamente nos motins provocados pela extrema-direita em França, no dia 6 de Julho de 1934.” Que é um provocador é ele próprio que o afirma, ao dizer que “arranja sempre maneira de escandalizar a esquerda” (entrevista à Ler, de Janeiro de 2010), monarquista não tenho à mais pequena dúvida, católico não sei, mas o texto sobre o resultado do aborto leva-me a pensar isso.
Vem tudo isto a propósito da sua mais recente obra por todos incensada, História de Portugal, de que foi coordenador e autor da terceira parte, referente à idade contemporânea. Por me retrair sempre em relação aos livros muito propagandeados achei por bem não comprar a obra. Mas um dia destes, passando pela FNAC e para fazer horas, resolvi ir retirá-la da prateleira e pôr-me a lê-la nuns agradáveis sofás que aquela cadeia de livrarias põe ao dispor dos leitores de pouco recursos ou mais vagarosos na sua decisão de compra.
Fui logo ver o que Rui Ramos dizia sobre o fascismo, que ultimamente é vulgar designar como “Estado Novo” – esta é uma discussão para outra altura –. Fui cair num capítulo, sobre a repressão, que eu não sei se assim se chama, durante os primeiros anos da ditadura salazarista. Esta obra que, de acordo com os seus louvaminheiros, trás conceitos novos, tem a preocupação em quantificar a repressão e compara abundantemente os mortos e os presos políticos com o que se passou na República e pasme-se com a Itália democrática saída do pós-guerra, mas penso também com a França. Ou seja, para Rui Ramos o fascismo português era benigno e suportável não sendo pior até do que alguns regimes democráticos. Por isso, José Mattoso na recensão que faz ao livro no último Ípsilon, do Público, escreve de modo eufemista: “O carácter irreverente de Rui Ramos vem, por vezes, à tona em alguns dos seus comentários, o que talvez lhe traga a má vontade de alguns leitores”.
Eu não lhe chamaria irreverência, mas deliberada provocação à esquerda, como era típico dos jovens intelectuais fascistas dos anos trinta.
Esta apreciação do fascismo, reduzindo-o a números, que penso que sejam factuais, transforma a realidade política da repressão numa simples comparação numérica, esquecendo-se do que era o quotidiano de medo sob o olhar permanente da PIDE e de todos os organismos repressivos que foram criados para enquadrar a política salazarista.
Como exemplos de fascismo quotidiano e por serem aqueles de que sempre recordo quando falo destas coisas, citaria três simples casos passados comigo e que são muito menos aviltantes do que aquilo que a população portuguesa sofreu no seu conjunto.

Um dia, durante a minha juventude, a minha mãe sempre um pouco mais exaltada contra Salazar do que o meu pai, pessoa extremamente comedida, falou ao almoço mais alto do que era costume e logo foi admoestada pelo meu pai porque as suas palavras se podiam ouvir na rua. A minha mãe pede à empregada para fechar a porta da sala de jantar, o meu pai ainda mais irado responde que nem pensar, pois isso poderia levar a empregada a pensar que naquela casa se falava de coisas “subversivas”. Este episódio, que hoje parece ridículo, ficou registado indelevelmente na minha memória e ilustra bem como as famílias portuguesas incorporavam em si o medo que o fascismo inspirava.

Outro episódio, já era eu mais crescidinho, passou-se no Cine-Clube Universitário de Lisboa. Na altura eu era dirigente daquele cine-clube com a função de escolher os textos para os programas que eram entregues aos sócios sobre os filmes que eram exibidos. Lembro-me que o filme era O Ladrão de Bicicletas, e que no programa se fazia referência a “um mal remunerado empregado municipal”, que penso que era o herói do filme. Nessa altura, os programas eram enviados à Censura, e não é que esta não corta o termo “mal remunerado”, mesmo referindo-se este a um empregado municipal italiano. Fosse em que país fosse um empregado municipal nunca poderia ser “mal remunerado”. Este era o controlo que o fascismo fazia ao pensamento livre.

A terceira, esta mais grave, passa-se já depois do 25 de Abril. Como eu tinha, antes daquela data, alguma actividade política, era uma questão de precaução, quando se saía de casa espreitar sempre para todos os lados para ver se havia algum carro que me estivesse a seguir ou que pudesse intempestivamente surgir à minha frente para me prender. Tinha-se passado isso com alguns camaradas meus. Pois não é que já o 25 de Abril ia alto e os PIDEs estavam todos presos, quando me apanho ainda a olhar para todos os lados a ver se havia algum carro suspeito.
Este era o fascismo quotidiano, que nenhum número, mesmo que tente demonstrar a benignidade da repressão, pode apagar. O medo e a interiorização desse medo era nossa realidade e não há Rui Ramos nenhum que a consiga desvirtuar, mesmo que seja um provocador de pacotilha.

Numa segunda parte irei escrever sobre o pequeno texto, mas muito significativo, que Rui Ramos reserva à época das eleições do Humberto Delgado e que foi publicado no jornal i. Recordo ainda que, segundo a imprensa, Rui Ramos dedica 40 páginas ao PREC, apesar de estar mortinho por ler essas páginas, vou ainda resistir algum tempo até comprar o livro.

21/01/2010

Naquela noite no Cineclube


Estava eu a passar em revista os blogs que consulto diariamente, ou regularmente, quando nos Caminhos da memória dei com um post que se chamava Naquela madrugada de 21 de Janeiro de 1965. Percebi que devia estar relacionado com prisões pela PIDE e cheirava-me, dados os habituais escrevinhadores daquele blog, que teria a ver com a vaga de detenções que assolou o movimento estudantil nos finais de 1964 e nos princípios de 1965. Quem escrevia o post era um amigo meu, dos tempos do liceu Gil Vicente, o Artur Pinto, que apesar de andarmos na altura em faculdades diferentes, mantínhamos amigos comuns e não sei mesmo se não continuávamos alegremente a frequentar o Bairro da Graça onde eu morava e onde o Artur Pinto penso que também morou.
Mas não é para vos falar do Artur Pinto que aqui estou.
O que vos quero contar é que antes dessa vaga de prisões a que se refere o Artur Pinto, e em que estiveram envolvidos, hoje respeitáveis cidadãos deste país, verificou-se a prisão, entre outros, do Mário Neto, estudante na altura do IST e, na última vez que o vi, professor de uma escola superior de Coimbra. Mário Neto era na altura presidente do Cine-Clube Universitário de Lisboa (CCUL) e que, segundo um comunicado que fui desencantar ao armário das recordações, foi preso na noite de do dia 24 Novembro de 1964, cerca das 23 horas. Continua depois o comunicado: “no dia 25, à tarde, dois membros da direcção do CCUL, quando procuravam o Mário Neto em sua casa, foram igualmente presos”, eram o Fernando Costa Gomes, na altura mais conhecido pelo Bobocas, que penso que é um ilustre professor de matemática em algum país perdido da América Latina e o António Melo que, depois de muitos recomeços na vida, era, há uns tempos, editor. Mas, há muito anos que nada sei deles.
Já se sabe que, perante as notícias negras que se foram avolumando durante todo o dia 25, à noite a direcção que restava, em que eu me incluía, mais alguns colaboradores apareceram em força na sede do Cine-Clube. Pelas 22h e 30m a sede foi assaltada pela PIDE. Quem comandava o assalto era, nada menos nada mais, do que o célebre inspector José Gonçalves, o assassino de José Dias Coelho. Só viemos a saber disto mais tarde.
O comunicado, que eu venho citando, continua assim: “a sede do CCUL foi objecto de minuciosa busca por parte dos cinco agentes da PIDE. Na impossibilidade de encontrar qualquer documento incriminatório ou as armas que começaram por nos exigir, que a clareza das actividades do Cine-Clube e o constante controlo das autoridades tornavam evidentemente inadmissível, os autores do saque levaram todo o material de secretaria (incluindo ficheiros, propostas de novos sócios, números de telefone, actas, etc.) …". Depois relatava-se a ida no dia seguinte de alguns membros da Direcção à sede da PIDE saberem informações sobre a “situação em que se encontrava o nosso colega Mário Neto e das razões que justificaram a sua detenção e a busca que a nossa sede tinha sido submetida. Foi-nos respondido que não tínhamos o direito de fazer essas perguntas, que toda a Direcção era suspeita de actividades subversivas e que era do domínio público que a própria actividade do CCUL se subordinava a uma actividade ilegal”.
Terminava o comunicado, convocando uma Assembleia-Geral Extraordinária para o dia 7 de Dezembro de 1964, no IST. Dado os termos em que estava redigida a convocatória, a Assembleia foi proibida pela Direcção do IST. Convocou-se outra para 15 de Dezembro, com palavras mais comedidas, e que se realizou.
Pormenores desse assalto que nunca mais esquecerei. A sede do Cine-Clube situava-se num rés-do-chão pequeníssimo na Rua Francisco Sanches, perto da Praça do Chile e do cinema onde dávamos as sessões, que hoje já não existe, o cinema Imperial. Como o pessoal que já lá estava, mais os cinco agentes da PIDE, a sede ficou rapidamente irrespirável, e os próprios agentes bastante agressivos, já que estavam em clara inferioridade numérica. Identificaram e revistaram todos os presentes, tivemos que justificar todos os papelinhos que tínhamos connosco e elaboraram uma lista com os nossos nomes. No final vim a saber que um colaborador do CCUL, por sinal bastante gordinho e com um ar calmo, que desde que os pides chegaram até ao final não se tinha levantado da cadeira onde estava sentado, tinha passado desapercebido e não tinha sido identificado. Há sempre um episódio pícaro nestas coisas.
Depois de todos identificados um dos agentes foi à rua, penso que para telefonar para a sede da PIDE, com os nossos nomes, o que como hão-de compreender, até ele vir e verificar-se que ninguém ia preso tornou o ambiente ainda mais irrespirável. Houve uma pequena cena com o telefone que existia na sede. Fomos proibidos de telefonar ou receber chamadas. Quando o telefone tocou, um dos presentes, que estava sentado na mesa do telefone mexeu-se e deu-lhe um pequeno toque, foi o suficiente para sermos imediatamente insultados e estarmos à beira, pelo menos o “prevaricador”, de levar algumas chapadas. Depois de confirmarem que não havia ninguém para prender e de nos levarem, o que é sempre o mais importante para uma associação, o ficheiro dos sócios, lá se foram embora. Para experiência bastou.
Durante meses, não sei se anos, ia regularmente uma delegação à sede da PIDE pedir os ficheiros. Havia sempre desculpas para não nos darem. Na última vez a resposta foi tão ameaçadora, dando a entender que quem lá fosse da próxima podia ficar preso, que desistimos de os recuperar. Foi de certeza com as fotografias desses ficheiros que a PIDE pôde elaborar um levantamento de quem era de esquerda nas faculdades. Nós, à custa dos talões de cotas que os nossos cobradores, que eram da Polícia de Segurança Pública, tinham, fomos aos poucos e poucos reconstituindo os ficheiros.
Tempos depois, o nosso senhorio, que tinha alugado a sede em termos irregulares, vem-nos informar, com ar triste e pesaroso, como convém, que tínhamos que sair. Tivemos que ir pedir uma sala à Associação dos Estudantes do Técnico, que segundo me recordo era dirigida pelo Mário Lino, para instalarmos a sede do Cine-Clube, que durante ano, ano e meio, teve lá a as suas instalações.
Penso que, devido à primeira proibição da nossa Assembleia-geral e ao estatuto um pouco ambíguo do CCUL, pois todos os cine-clubes tinham os seus estatutos aprovados pelo Ministério do Interior – nessa altura os estatutos de qualquer colectividade precisavam de aprovação ministerial – enquanto que os do CCUL tinham sido aprovados pelo Ministério da Educação, foi pedida uma entrevista ao Ministro da Educação e lá fui eu mais alguém que não me recordo instalarmo-nos à porta do Secretário, do Secretário do Ministro, há espera dessa entrevista que, como era previsível, nunca veio. O ministério nessa altura era no Campo Santana.
Isto é a história de um tempo triste, em que para se desenvolver qualquer actividade cultural, que não fosse de apoio ao regime, exigia de nós esforços redobrados, fundos próprios e grande espírito de auto-sacrifício. Espero bem que estes tempos não voltem mais.
Fotografia da antiga sede da PIDE, que presentemente se transformou num condomínio privado.

29/12/2008

Um herói do nosso tempo


É hoje comum as críticas, as graçolas, ao passado revolucionário de alguns dos políticos actuais. O passado pró-chinês de Durão Barroso volta não volta regressa à ribalta. Mas, não é só o dele, são, para meu deleite, o desse xaroposo João Carlos Espada ou do actual director do Público, a personificação da bem pensância nacional.
Vem isto a propósito de, no outro dia, ter aparecido na SIC Notícias o Carvalho da Silva e João Vieira Lopes, este último em nome da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal, de que é Vice-presidente, a pronunciarem-se sobre o chumbo pelo Tribunal Constitucional de um artigo do novo Código de Trabalho aprovado pela maioria PS no Parlamento. Já se sabe, Carvalho da Silva concordando com o chumbo e considerando que havia outros artigos igualmente inconstitucionais e João Vieira Lopes atacando a decisão do tribunal.
Tem sido vulgar João Vieira Lopes aparecer na televisão. Já esteve num Expresso da Meia-noite e aparece muitas vezes como porta-voz daquela associação do patronato. No entanto, não se pode dizer que seja uma figura pública conhecida e muito menos o seu passado. Refiro-me a ele unicamente porque o conheci e fui vítima, mesmo que indirecta, da sua militância política “esquerdista”.
Há tempos tinha lido um livro um pouco perturbador, por ser a confissão pública de um denunciante e da sua posterior colaboração com a PIDE, onde Vieira Lopes é amplamente citado. O livro chama-se Conquistadores de Almas e é de Pinto de Sá. Aí João Vieira Lopes aparece como responsável por uma das míriades de organizações marxistas-leninistas (M-L) que existiram nos finais dos anos 60, princípios de 70. A dele seria, segundo a informação prestada por aquele autor, o CCRM-L – Comités Comunistas Revolucionários Marxistas-Leninistas (ver aqui e também aqui, onde são citados os seus principais dirigentes, que incluía o actual ministro Mariano Gago).
Esta é de raspão a descrição da personagem pública. Mas que conheço eu do seu passado?
Como já aqui tenho referido, fui durante muitos anos dirigente do Cine-Clube Universitário de Lisboa (CCUL). Era vulgar, por causa da sua sede ser próximo do Instituto Superior Técnico e o cinema onde se realizavam as sessões ser na mesma área, que muitos dos seus colaboradores e dirigentes fossem alunos daquele Instituto. Como sempre sucedia, uma fornada de jovens alunos do Técnico apareceu nos finais dos anos 60 a oferecer-se para colaborar. João Vieira Lopes foi um deles, segundo alguns dados que recolhi pertenceu mesmo à Direcção de 1968-69. Por essa altura, já no fim da minha “longa” carreira universitária, tinha deixado de participar activamente no Cine-clube. Naquele ano lectivo, o último, entrei para a Direcção da Associação de Estudantes de Ciências. Este episódio já aqui foi relatado.
Como na preparação da lista candidata a Ciências fosse necessário fazer algumas reuniões, houve uma que inesperadamente não pôde ser feita na Associação, decidi por isso, como tinha a chave do Cine-clube, reunir lá. No dia seguinte contei isto ao Vieira Lopes. A resposta, própria de um pequeno tiranete, foi que assim me iriam tirar a chave. Ou seja, a lista era “associativa”, como então se chamava às listas progressistas, não havia qualquer perigo para a segurança do Cine-clube, mas sua excelência achava que devia exibir o seu poder.
Este episódio é um “fait-divers”, sem qualquer importância. O mais significativo é o que vem a seguir.
Provavelmente por volta de 1970 ou 71, num local que eu hoje não consigo precisar, houve uma reunião de dirigentes e colaboradores do Cine-clube em que eu estive presente. Não me lembro o que se ia discutir. Sei que a determinada altura Vieira Lopes, com ar sério, começa a falar de uma infiltração social-fascista no Cine-clube. Fiquei estarrecido. Não se estava a referir a mim, era evidente, eu era suficientemente mais velho do que os presentes para ter a pouca vergonha de me considerar um social-fascista infiltrado. Também não se referia a nenhum infiltrado da PIDE, como o termo fascista poderia deixar entender. Mas sim a dois colaboradores, também vindos do Técnico, que tinham, segundo me recordo, colaborado activamente num ciclo de cinema documental sobre a América Latina, com textos claramente de esquerda, e que para Vieira Lopes, e provavelmente a maioria dos presentes, deviam ser suspeitos de pertencer ou professar ideias próximas do PCP. Um deles, de facto, encontrei-o, depois do 25 de Abril, numa realização do PCP.
Para mim aquilo era um insulto, não podia contemporizar com afirmações daquele tipo. Protestei, como não encontrei eco, fui-me embora, nunca mais voltei ao CCUL.
Tempos depois telefonaram-me, pensei que era para me pedirem desculpa. Nada disso, era pura e simplesmente a pedirem-me a devolução de alguns livros que tinha requisitado à biblioteca. Assim se acabou uma relação de anos com o Cine-clube.
Vim a encontrar mais tarde o Vieira Lopes no assalto e destruição da Embaixada de Espanha, na rua do Salitre. Acontecimento que teve lugar nos tempos do PREC, a 27 de Setembro de 1975. Naquele dia já se antevia que a extrema-esquerda organizasse manifestações, pois tinham sido executados na véspera pelo regime de Franco cinco militantes bascos das FRAP e da ETA. Por isso, nessa noite, passei pela Avenida da Liberdade a caminho de casa, para ver o que se passava. Assisti à barafunda, ao incêndio da Embaixada e ao Vieira Lopes a comandar um bando de jovens que se preparavam para seguir para a outra dependência da Embaixada, existente na Praça de Espanha.

Aqui temos o percurso de um “revolucionário”, um herói do nosso tempo, que depois de estar “sempre, sempre ao lado dos trabalhadores” se passou, com armas e bagagens, para o lado do patronato.

08/11/2008

"In Memoriam" de Carlos Porto


Conheci o Carlos Porto na Livraria Divulgação, que se situava na Rua D. Estefânia, perto do largo do mesmo nome. Ele e sua mulher (ver fotografia ao lado) eram à data os seus principais e únicos livreiros. Sabia que este conhecimento datava de meados dos anos 60, não conseguia precisar o ano.
Fui por isso procurar na Net alguma informação disponível sobre aquela livraria. Neste post encontrei o que procurava.
A Divulgação, cuja a sede era no Porto, abriu uma sucursal em Lisboa, em 1964. Fernando Pernes foi, até 1965, o seu primeiro responsável. Deixa à sua frente um jovem que eu conheci, o Soares da Costa, que na altura se apresentava como cine clubista, pois tinha trabalhado no Cine-Clube do Porto, e era um dos responsáveis aqui em Lisboa por uma revista de cinema, que aquele Cine-Clube editou. Ainda tentei lá publicar uma crítica ao filme que na altura muito me impressionou, o Evangelho Segundo Mateus, de Pasolini. Devia ser tão má, que nunca viu a luz do dia.
Segundo as informações que recolhi, a Soares da Costa seguiu-se o Carlos Porto, que veio, com a sua mulher, viver para Lisboa, para trabalharem na Livraria. O ano não está indicado. Mas eu apontaria para meados dos anos 60. Penso até, que o Carlos Porto chegou a trabalhar conjuntamente com o Soares da Costa.
É evidente, que esta informação impessoal, pouco acrescenta à biografia daquele crítico de teatro. Simplesmente para mim, naquela época, a Livraria Divulgação não era um local sem importância.
Todos os dias, provavelmente com algumas falhas, eu visitava aquela Livraria. Nessa altura, passava os meus dias no Cine-Clube Universitário de Lisboa (CCUL), cuja sede era perto da Praça do Chile, na Rua José Estêvão, e que, por sua vez, estava quase ao lado do cinema onde eram realizadas as sessões , o Imperial, hoje já desaparecido. Em anos de maior actividade o Cine-Clube chegou a ter sessões no Rex, aos Anjos (Av. Almirante Reis) e para captar o público de outras zonas da cidade, em Campo de Ourique, no cinema Paris. Tudo cinemas que pertencem ao passado.
Do Cine-Clube à Divulgação era um passo, e aquele jovem que eu era na altura, lá ia todos os dias cavaquear com o Carlos Porto e a sua mulher. Penso que me foi apresentado pelo Carlos Araújo, que viria depois a estar bastante ligado ao mundo da edição. Hoje, não sei se ainda trabalha para alguma editora, mas, antes do 25 de Abril, esteve na D. Quixote e foi o responsável pelos seus Cadernos, para cuja colecção de cinema ainda traduzi alguns textos.
Paravam na altura na Divulgação um grupo de jovens, alunos do Liceu Camões, que animavam com as suas risadas e piadas as longas tardes que nessa altura usufruíamos. Carlos Porto e a mulher tratavam aquele grupo como se fossem os seus filhos. Eu, um pouco mais velho, já estudante universitário com longa rodagem, gostava de larachar com os “miúdos”. A maioria seguiu para Direito, onde os fui encontrar na Secção Cultural. Ainda me convidaram para participar num colóquio com o Eduardo Prado Coelho e o Jorge de Silva Melo, penso que para falar do Blow-up, de Antonioni, e do Acidente, do Joseph Losey. Como me senti pequenino ao pé daqueles, já na altura, “importantes” intelectuais. Um dos jovens da Divulgação é hoje juiz no Tribunal Constitucional. É o Gil Galvão.
Mas, regressando ao Carlos Porto e à Divulgação. Era lá que de um modo geral eu comprava os meus livros proibidos. Deram-me crédito e um desconto de 10%, até à altura em que a Associação dos Livreiros proibiu qualquer desconto nos livros. Assim, aos poucos e poucos fui construindo a minha biblioteca. Quando a livraria foi vendida à Bertrand, em 1968, a minha dívida era significativa, paguei-a durante vários meses em suaves prestações.
Era lá que o Carlos Porto todas as semanas me guardava uma revista espanhola chamada Triunfo, de grande tiragem. Semelhante, por exemplo, à actual Visão. Há época, para nós, que tínhamos uma censura férrea, a revista foi uma grande novidade e em Espanha teve um papel importante na luta contra Franco. Também me guardava todos os meses uma revista espanhola de cinema, chamada Nuestro Cine. A sua filiação era marxista e, de um modo geral, era lá que ia buscar as críticas aos filmes que o Cine-Clube exibia.
Foi na Divulgação que também assisti à sessão de autógrafos do poeta soviético Ievtuchenko (Maio de 1967), de quem tinha sido lançada a Autobiografia Prematura, pela Dom Quixote. “Ainda hoje conservo a assinatura do poeta na foice e martelo que fazia parte de uma das suas fotografias que compunham o livro. Para quem não se recorde, Ievtuchenko foi autorizado a entrar em Portugal, conjuntamente com milhares de peregrinos que vinham de Espanha, para participar nas cerimónias de Fátima presididas por Paulo VI.” Escrevi isto num post a propósito e um livro de Joana Lopes Entre as Brumas da Memória.
Penso que coincidiu a venda da Livraria com a minha saída de activo colaborador do Cine-clube. A Divulgação acabava e com ela uma parte da minha vida. Depois, passei a frequentar a Livrelco, uma cooperativa livreira universitária, que a determinada altura foi tomada de rompante pelo MRRP, tal como depois foi a vez do CCUL. Mas eu já não pertencia à sua Direcção.
Carlos Porto, que eu me lembre, foi depois para uma livraria ao cimo da Rua Nova da Trindade, a Opinião. Fui lá uma tantas vezes. Não me ficava em caminho.
Encontrei-o ao longo da vida nos teatros que frequentei e no Partido, a que ambos pertencíamos, e sempre recordávamos, com a sua mulher, aquele grupo de jovens aguerridos que durante as tardes frequentavam a sua livraria.
A última vez que o vi, já muito abalado, foi na homenagem (30 de Outubro de 2007) promovida pelo ABC Cineclube ao seu antigo dirigente e crítico de cinema Manuel Machado da Luz.
Um abraço
Carlos Porto

07/10/2008

Na morte de Diniz Machado - Recordações do Primeiro Festival de Cinema de Lisboa


Por vezes dá-me para recordar e à míngua de não ter notícias para comentar, apesar de não faltarem assuntos, resolvi contar como conheci o Diniz Machado e como participei no Primeiro Festival de Cinema de Lisboa, organizado pela Casa da Imprensa, em 1964.
Eu pertencia à Direcção do Cine Clube Universitário de Lisboa (CCUL). O movimento cine-clubista de Lisboa, apesar de não ter nada a ver com a organização daquele festival, tinha boas relações com a Casa da Imprensa, e penso até que iria ter alguma participação no júri ou na atribuição de um prémio. Coube-me, à falta de alguém para a meio do dia ter disponibilidade para reuniões, ir falar com o Diniz Machado, um dos principais organizadores daquele Festival.
Já não me recordo da longa conversa que tive com o Diniz Machado, sei que ele estava preocupado com a possibilidade do júri, de forte influência católica, como convinha no tempo do fascismo, atribuir o prémio a uma xaropada espanhola chamada Dulcineia, inspirada numa personagem do D. Quixote, em vez de a Fellini 8 ½, de Frederico Fellini, que estava também a concurso.
O Festival, que tinha oficialmente o pomposo nome de I Festival Internacional de Arte Cinematográfica, teve lugar no cinema S. Luís e os filmes que foram exibidos eram propostos pelas Distribuidoras. Todos eles foram previamente visados pela censura, o que implicou cortes significativos em algumas das obras exibidas. Na maioria dos casos iriam pouco tempo depois ter estreia comercial nas salas de cinema. Era o Festival possível no tempo do fascismo.
Sei que houve mais dois, em 1965 e 1966, em que foram permitidos filmes apresentados directamente pelo produtor ou por entidades não comerciais, não sei se com cortes da censura, mas de certeza com a autorização explícita daqueles serviços.
Deste Festival retenho duas coisas. A primeira está relacionada com os bilhetes que foram atribuídos aos cine-clubes. A mim, porque tinha a missão de fazer crítica de alguns dos filmes, a Direcção do CCUL deu-me bilhetes para todas as sessões, que era uma cadeira num camarote, nos outros cineclubes era à vez. Sucedeu que apareceram mais candidatos do que bilhetes, e então, todas as noites, era organizada uma entrada com vista a enganar os porteiros, tentando-se encaixar todos os cineclubistas nos dois camarotes que nos foram atribuídos. Nunca percebi como foi possível durante tantos dias enganar aqueles profissionais, nem consigo perceber como tanta gente coube nos camarotes.
Outro aspecto, esse muito mais desconhecido, foi que a “malta” do CCUL influenciada, na altura, por um jovem português, que dizia que trabalhava no Piccolo Teatro di Milano e era amigo de alguém da Direcção, achava que se podia interferir com as decisões do júri ou então preparar o público para ver com outros olhos os filmes presentes no Festival. O que estava em causa é que no Festival ia ser exibido um filme que reflectia uma visão marxista da sociedade e que de modo muito coerente aplicava ao cinema os princípios brechtianos da distanciação. O filme era Salvatore Giuliano, em português O Bandido da Sicília, de Francesco Rosi. A história, em forma de inquérito, relatava o papel desempenhado por aquele bandido no contexto da máfia siciliana e do seu assassinato por aquela organização, nunca nos mostrando de frente o bandido, de modo a que nunca nos identificássemos com ele.
O filme a abater era o Fellini 8 ½, que hoje, passados tantos anos, sobrevive incólume ao desejo iconoclasta daqueles jovens.
Que nos propúnhamos fazer. Reuniram-se os cine clubistas de esquerda e as ideias foram mais que muitas. Desde o lançamento em plena exibição do filme de panfletos a reflectir as nossas posições, à distribuição de críticas à entrada da sala. Já se sabe que a primeira proposta foi desde logo abandonava. Dava, naquele tempo, para irmos parar à PIDE sem sabermos porquê. Foi decidido fazer-se um dépliant, com pequenas críticas a cada um dos filmes exibidos, em que se mostrava como O Bandido da Sicília era o filme que melhor “reflectia” a realidade italiana. Já se sabe, quando o papel ficou pronto já há muito que o Festival tinha acabado e penso que hoje ainda estamos a dever o dinheiro da sua impressão à tipografia que na altura se prestou a imprimi-lo.
No meio disto há um episódio caricato que relembro hoje, passados que já são mais de 40 anos sobre o assunto. Havia na Direcção dois responsáveis, um deles que depois desempenhou um cargo importante na reitoria da Universidade Clássica de Lisboa, que na altura, muito influenciados pelos novos tempos que vinham do Partido Comunista Italiano, propuseram ao grupo de jovens mais aguerridos que convidassem para discutir o tal documento os representantes do Cine Clube Católico, que nessa altura, participavam conjuntamente com os cineclubes de esquerda no já referido apoio ao Festival. Eu achei a ideia disparatada, não que eu não fosse sensível à unidade com os católicos, mas para um objectivo que tinha fins claramente de apoio a uma dada proposta estética, não tinha o mínimo sentido solicitarmos a participação dos católicos nesse projecto. Fui apodado de sectário e desconhecedor das novas realidades que percorriam a Europa. Obediente, e porque as minhas ideias não tiveram vencimento na Direcção, quando o grupo se reuniu propus aos católicos a sua participação na elaboração do tal dépliant. Já se sabe que polidamente recusaram.
Como manda o bom senso, que nestas coisas nem sempre prevalece, o filme que ganhou o Festival foi o Fellini, 8 ½. Nem os receios do Diniz Machado se concretizaram nem as preocupações sociais e políticas daqueles jovens se realizaram. Hoje, passados estes anos recordo a boa conversa que tive com Diniz Machado, a justa vitória do Fellini 8 ½, e a qualidade estética e social do filme de Rosi.

PS:. Fui consultar os meus arquivos e descubro que havia a concurso algumas das obras-primas do cinema italiano da época: Dois Irmãos, Dois Destinos (Cronaca familiare), de Valérico Zurlini, e A Noite, de Michelângelo Antonioni, e ainda do sueco Ingmar Bergman, Luz de Inverno. Eu fiz a crítica a um filme hoje desconhecido, O Apaixonado, de Pierre Étaix, para a Página de Cinema Plano, do Notícias da Amadora.

17/07/2008

Ainda o caso de Ingrid Betancourt e das FARC


Nos últimos dias tenho vivido um “grande” drama político. De repente dei-me conta que me encontrava politicamente isolado frente ao combate que, por interposta força guerrilheira, as FARC, se está a travar entre uma esquerda, que eu chamaria “bem pensante”, e os conhecidos “cavernícolas” do PCP.
O caso começou nalguns blogs de consulta diária, passou pelos media e continua em ondas de choque a merecer comentários aqui e acolá. Quase que poderia dizer que é hoje a pedra de toque que separa a esquerda não PCP daquele Partido. Por esse motivo, uma posição como a que expressei aqui é incómoda e acarreta-me necessariamente muitas incompreensões e críticas, valha-me o meu camarada Saboteur, que no Spetrum, fez um elogio à minha intervenção.
Afirmava nesse post que não tinha informação suficiente para me poder pronunciar com inteireza sobre o que eram as FARC e os seus métodos de actuação, nem conhecia em pormenor a Colômbia e o seu Governo para sobre eles traçar uma opinião definitiva, como os comentadores da blogosfera gostam de fazer.
Fui recolher material, abri mesmo um ficheiro dedicado ao assunto. Pode ser que com tempo e vagar comente o que se tem dito na blogosfera.
No entanto, não gostaria desde já de passar em claro dois casos que me parecem paradigmáticos das posições simplistas e acríticas, que resultam de uma opção por tudo ou nada, em que o meio-termo ou uma análise mais rigorosa é deixada ao abandono.
O primeiro refere-se a um post que Daniel de Oliveira colocou no seu site, “Pode alguém ser livre se outro alguém não é?”, em que considera que tanto é crime capturar alguém e levá-lo para Guantánamo, como faz o Governo dos Estado Unidos, como ter raptado Ingrid Betancourt e conservá-la prisioneira durante anos, como fizeram as FARC. Por isso considera que não se pode pedir que o Governo português interdite os voos para Guantánamo, como o fez o Grupo Parlamentar do PCP, e a seguir defender a não criminalização das FARC por terem raptado pessoas que não estão directamente envolvidas na luta que se trava na Colômbia, como disse Jerónimo de Sousa, em declarações citadas aqui.
Daniel de Oliveira esquece que as consequências dos dois actos são completamente diferentes. Enquanto Bush pode passear pelo mundo, indo até uma cimeira do G8 onde, segundo a imprensa, se comeu trufas e caviar, e ninguém, exceptuando meia dúzia de manifestantes enraivecidos, facilmente afastados pela polícia, lhe chama criminoso ou o prende. Já um dirigente das FARC se sair da selva corre o risco de ser morto, como recentemente ocorreu aos dirigentes daquela organização que estavam em solo equatoriano, e a organização a que pertencem é classificada pelo “mundo ocidental” como terrorista, com as consequências que isso acarreta, quer para ela quer para todos aqueles que em qualquer lado lhe manifestem alguma solidariedade. Como se vê pelo que digo o crime não acarreta para todos as mesmas consequências. Ou seja, o crime pode ser o mesmo, como diz Daniel de Oliveira, simplesmente há uns que são mais criminosos do que outros. Isto devia levar a pensar os nossos apressados comentadores.
O segundo caso prende-se com o estado de saúde de Ingrid Betancourt. João Tunes no seu blog, depois de alguns considerandos que eu me abstenho de comentar, para não azedar um conhecimento que foi estabelecido ainda nos tempos “heróicos” do ABC Cine-Clube de Lisboa, fala de “aqueles cínicos que acharam que ela “até vinha em bom estado” e longe da prostração comatosa que lhe competiria como sequestrada”. Vítor Dias no seu blog comenta, com ironia, depois de mostrar uma fotografia de Ingrid toda airosa na Festa do 14 de Julho, em França, que não irá falar da sua saúde.
Quanto a mim, que fico satisfeito por a senhora estar de boa saúde, acho no entanto que não se pode deixar passar em claro a campanha mediática que foi desencadeada a propósito do estado de saúde de Ingrid. Dizia-se que estava bastante doente e que a sua vida estava em perigo. Ou seja, estivemos perante um caso claro de manipulação da opinião pública, coisa que pelos vistos não ofendeu muito os nossos comentaristas de serviço.
Em qualquer dos casos, parecem-me dois exemplos em que se olha muito para a árvore e pouco para a floresta.
PS.: Já depois deste post estar publicado Fernando Penim Redondo queixava-se aqui do fanatismo que atravessava a rede por pessoas com posições ditas liberais. Citava o caso de João Tunes a propósito da China, que eu me abstenho de comentar pelas razões já expostas em cima, e de um blog, com um nome um bocado esdrúxulo, como o meu, que o critica pela sua posição quanto à saúde de Ingrid Betancourt. Neste caso, tal como o de João Tunes, os comentadores não se indignaram com todos aqueles que deliberadamente manipularam a opinião pública, mas sim com os que ficaram espantados por ver a senhora de boa saúde.

22/04/2008

O Maio de 68


De repente, senti-me interpelado pela Joana Lopes, do blog Entre as Brumas da Memória, a falar do meu Maio de 68.
O Maio de 68 apanhou-me ainda na Faculdade de Ciências. Curso “longo”.
À época eu era militante do PCP, portanto, tínhamos um grande cuidado em saber qual era a posição do PCF sobre o que se passava em França. Por outro lado, em Portugal, começava-se a travar um luta importante contra a deriva esquerdista que ia afligir o movimento estudantil nos anos subsequentes, agravada é certo pelo Maio de 68. Posso garantir que se este assunto foi falado entre alguma juventude universitária, nesses mesmos meses, a verdade é que as suas maiores repercussões se verificaram no ano escolar seguinte, com a queda do Salazar e a nomeação do Marcelo Caetano.
Entre estes dois factos passou-se também a Primavera de Praga, que só em Agosto desse ano se tornou quente, com a ocupação daquele país pelas tropas do pacto de Varsóvia.
Quanto ao Maio de 68, há pelo menos da parte dos jovens universitários comunistas um grande distanciamento em relação às movimentações estudantis, que considerávamos esquerdistas. Opúnhamo-las à responsabilidade dos operários, que aos milhões se puseram a fazer greve e que foram posteriormente apoiados e enquadrados pelos sindicatos e pelo PCF. Líamos muita literatura vinda das Edições Sociais, ligadas ao PCF, que em post posterior poderei referenciar, e que nos afirmavam categoricamente que os estudantes nunca seriam vanguarda de nada, nem eram capazes de fazer a revolução. Só a classe operária era depositária dessa possibilidade de transformação. Aceitámos portanto os acordos que os sindicatos fizeram com o patronato para conseguir melhores regalias sociais.
No entanto, fiquei sempre com a ideia, via Rádio Argel, que nunca fui capaz de confirmar, que o nosso PCP se tinha demarcado do PCF. Não sei se isto foi imaginação minha se de facto aconteceu. Sei que em debate recente no Vitória (PCP) ninguém foi capaz de confirmar esta minha suspeita.
Todos conhecem o final desta história. De Gaulle apela às tropas francesas localizadas Alemanha e um milhão de franceses, com Malraux à frente, desfilam nos Campos Elísios. O PCF e PS francês sofrem uma grande derrota eleitoral, confirmando aquilo que nós já dizíamos, que tudo não tinha passado de uma “anarqueirada”, para utilizar a célebre expressão de Bento Gonçalves.
É evidente que para alguns de nós outras esperanças despontavam a leste. Conhecíamos pelas revistas o novo cinema checo (eu era dirigente do cine-clube universitário - CCUL), sabíamos que uma época de renovação e liberdade se abria naquele país. Acreditávamos, alguns de nós, na possibilidade de renovação do paradigma socialista. Eu estava de férias, na praia, quando soube da ocupação de Praga. Indignei-me. Tinha saído de Lisboa com a convicção, partilhada com mais camaradas, que os checos iam no bom caminho. Eis senão quando, em Setembro, chego a Lisboa, e a palavra de ordem do Partido era apoiar a invasão. Valeu-nos nessa altura uma célebre carta, não me recordo a quem era dirigida, de Fidel de Castro, a justificar a invasão e a falar da atitude egoísta de alguns países socialistas que queriam ganhar dinheiro com a ajuda a Cuba: referia-se à Jugoslávia. Penso que também tenho um livrinho, que saiu nessa altura, com estas discussões. Aceitámos pouco convencidos, mas sem dúvida pensando que tinha sido derrotado um perigoso desvio direitista.
Neste ínterim, Salazar cai da cadeira e Marcelo é nomeado. O movimento associativo estudantil ganha uma nova dinâmica. Pelo menos, na Faculdade de Ciências, o novo Governo autoriza que haja um processo eleitoral para instalar de novo a Associação de Estudantes, eleita pelos seus sócios, pois estava a ser regida por uma Comissão Administrativa nomeada pelo Governo.
É nesta perspectiva que o Maio de 68 se começa a fazer sentir. Para a Reunião Inter-Associações (RIA), que agrupava todas as Associações Estudantis de Lisboa, é eleito no princípio do novo ano escolar um novo Secretariado, de que faziam parte o Alberto Costa (o actual Ministro da Justiça), à época militante do PCP, o Jaime Gama (Presidente da Assembleia da República), e ligado, julgo eu, à linha PS, o Serras Gago, não sei o que é feito dele, e a Teresa Melhano, boa amiga que há muito tempo não vejo.
Logo no início as Associações pretendem confrontar o novo Governo com a agitação estudantil e por isso são lançadas algumas manifestações e contestações. Sei que não tiveram êxito, mas que levaram a uma situação caricata, que está relacionada com o Maio de 68. Jaime Gama, em nome do Secretariado da RIA, devia levar a um plenário um moção de convocação de uma manifestação. Não o fez e a moção ficou sempre no seu bolso. Era inevitável a sua demissão do Secretariado. O seu discurso de justificação pela atitude tomada começou assim: “Lisboa não é Nanterre” e depois partia para outros considerandos de que eu já não me recordo.
Quanto às eleições em Ciências, a influência do Maio de 68 começava-se a fazer sentir. Foi criado um mural onde todos podiam escrever o que lhes apetecia. Nada disto se passava anteriormente. Os discursos dos candidatos, principalmente dos mais jovens, o que não era o meu caso – fui candidato a vice-presidente – eram muito mais soltos, os temas de Maio começavam a fazer o seu percurso. Era possível fazer reuniões, que provavelmente teriam um nome especial, de acordo com a linguagem do Maio francês, por tudo e por nada. Muitos dos participantes, alguns chegados mesmo de França reclamavam-se da míriade dos pequenos partidos existentes entre os estudantes franceses. Tive dificuldade em adaptar-me a este novo estilo, fui considerado um revisionista de direita e progressivamente fui-me afastando da Associação.
Tempo depois e na linha do Maio de 68 rebenta a crise académica em Coimbra.
Tenho a certeza que depois de Maio, e com o atraso típico de Portugal, a Universidade não foi a mesma. Já em 69, penso que no final do ano lectivo 68/69, o Secretariado da RIA cai e o Arnaldo de Matos é eleito para ele. Em Ciências nunca mais ninguém do PCP pôs os pés na Direcção da Associação de Estudantes. As direcções seguintes eram na sua totalidade “esquerdistas”. Mesmo, o “pobre” cineclube que durante tantos anos tinha sido influenciado pelo PCP acaba os seus dias com direcções do MRRP.
Penso que o Maio de 68 esquerdizou de forma irreversível, até ao 25 de Abril, o movimento estudantil. Quanto às liberdades de género, sexuais e outras, penso que, desde 62-64, elas se foram progressivamente introduzindo no estrito universo universitário, tendo-se alargado por esta época. Mas ainda me recordo que havia alguns jovens que tinham sérios problemas com os pais, que não os autorizavam a passar noites fora de casa ou mesmo a poderem sair à noite.
Estas recordações feitas de chofre, sem recurso a papeis ou a bibliografia, poderão vir a ser completadas se para tanto acharem qualquer interesse nestas minhas memórias.