Pelas razões mais diversas, sendo sem dúvida a principal a preguiça (estamos em férias), tenho-me abstido de escrever qualquer comentário para este
blog. Também os assuntos não têm sido assim tantos que mereçam um comentário mais apressado. Mas mais de um mês de paragem é efectivamente demais. Com exemplos destes não há leitores que resistam.
Não vou comentar esta novela de Verão entre o PSD e o PS. Já tinha dado a minha opinião sobre a proposta de revisão constitucional daquele partido, achando que ela se enquadrava na ofensiva da direita, mas agora, e concordando com as opiniões dos dois principais partidos à esquerda do PS, estou perfeitamente convencido que esta luta de galos visa unicamente ver quem consegue ganhar a parada, de modo a que tudo fique na mesma, ou seja, que a política de restrição orçamentais continue.
Não irei também debruçar-me sobre o candidato presidencial apresentado pelo PCP, apesar do texto que se segue tem já um pouco a ver com a opinião que eu tenho sobre a sua candidatura.
Irei, porque é um assunto, que me tem particularmente motivado, falar do artigo que São José Almeida escreveu, no
Público, de 4 de Setembro, (sem
link) sobre o PCP e que denominou
Comunistas, sem vergonha! E que de facto também se refere ao candidato presidencial daquele partido.
O que é que verdadeiramente aborda aquele artigo? Numa súmula muito breve, e recorrendo ao próprio texto, podemos afirmar o seguinte: “
aquilo que sobressai de uma análise mais atenta do discurso e das tensões internas mostra como o PCP, ao longo da última década, sofreu uma radical mudança no sentido da sua esquerdização e até, podemos assim dizer sem rodeios, da sua neo-estalinização.”
Esta verdade, que a autora parece ter vindo agora a descobrir acusando os restantes media e a maioria dos cidadãos de não ter reparado nela, foi de facto uma das principais causas do afastamento e posterior criação da Renovação Comunista por alguns militantes do PCP que não estavam satisfeitos como rumo que as coisas estavam a levar.
Mas, sem querer para mim pergaminhos especiais, ao longo deste
blog, e de outros textos anteriores, não tenho feito outra coisa do que vindo a denunciar a crescente esquerdização do PCP e consequente afirmação de sectarismo. Parece-me desnecessário fazer
links para esses textos, mas o leitor que me tenha acompanhado facilmente os localizará.
Depois São José Almeida mete-se por caminhos ínvios ao tentar estabelecer uma diferença entre esta actual neo-estalinização e os tempos mais recuados de Cunhal, chegando mesmo à reorganização de 1940-41. Ou seja, tenta dizer que nessa altura o partido não se afirmava como comunista, nem marxista-leninista e que agora isso passou a ser mais claro.
Já se sabe São José Almeida confunde a política de unidade definida no programa do Partido relativa à Revolução Democrática e Nacional ou o mais recente referente a Uma Democracia Avançada para o Século XXI, como uma descaracterização da afirmação de comunista, coisa que o Cunhal sempre soube distinguir, fazendo uma clara distinção entre as duas.
Mas isto é prosa fácil de jornalista apressada que, realçando com alguma percepção a realidade actual, desconhece a história do PCP.
Depois ainda descamba mais ao falar da ala social-democratizante e da esquerdista, marxista-leninista, na direcção do PCP. Não sei onde é que a senhora foi buscar tais alas, mas isto dá cor ao texto. E ainda, considera que elas sempre existiram ao longo dos seus 89 anos. Não vale a pena sobre este assunto insistir mais.
O que vale a pena aqui recordar e que é citado pela autora deste artigo é as preocupantes manifestações deste neo-estilinismo. Assim, “
basta para tal consultar obras como o estudo panegírico de Ludo Martens, Um Outro Olhar sobre Stáline, editado em cima da Festa do Avante! do ano passado pelo site Para a História do Socialismo, que teve como chancela de legitimidade e de credibilização política e ideológica o prefácio de Carlos Costa. E que edita agora a obra de 1938, História do Partido Comunista da URSS. Breve Curso, em cujo prefácio Leandro Martins afirma: "Este "Breve Curso" é, assim, um contributo valioso para a batalha ideológica que se trava não apenas contra o inimigo de classe mas contra as vacilações e oportunismos que, como a obra mostra com clareza, convivem no seio das organizações revolucionárias e podem conduzir às derrotas dramáticas a que assistimos."
Sobre o primeiro livro citado escrevi um primeiro
post que dava notícia da sua publicação primeiro na
net e depois em edição escrita, com prefácio da Carlos Costa. Escrevi ainda uns comentários a um
post de um pedante que escreve no blog
5 Dias e que era elogioso para com o livro e que depois resumi num outro
post. Os leitores interessados encontrarão bastante informação nos dois
posts referidos.
Quanto ao segundo livro
História do Partido Comunista da URSS (bolchevique). Breve Curso foi feito alguma propaganda à volta da sua edição no
site referido, com a apresentação da
capa e garantindo que o mesmo estaria à venda na Festa do Livro, da
Festa do Avante!. Este livro tem prefácio de Filipe Leandro Martins, que eu penso que ainda seja o chefe de redacção do
Avante!.
Este livro, como muito bem diz a propaganda inserida naquele
site, teve uma distribuição massiça. Só na União Soviética foram editados 600 mil exemplares e foi traduzido em numerosas línguas. E porquê? A sua autoria, que não é assumida na edição portuguesa, pelo menos na capa, é de Estaline e no capítulo IV, é incluído o célebre texto, que posteriormente foi divulgado separadamente, com autoria reconhecida de Estaline,
Materialismo Dialéctico e Materialismo Histórico. Podemos pois afirmar que estes dois manuais constituem a base de toda a conversão da imensa riqueza do marxismo e do leninismo não só numa mentira histórica que era visão que Estaline queria que permanecesse da sua tomada do poder no Partido Comunista da União Soviética, bem como uma simplificação e codificação de toda a problemática histórico-filosófica do marxismo. Como é dito, o livro é de 1938, elaborado portanto no auge das purgas no PCUS e dos julgamentos e condenações à morte dos seus principais dirigentes. É pois isto que o PCP de forma encapotada nos oferece na Festa do livro, da
Festa do Avante!.
O artigo de São José Lopes termina identificando Francisco Lopes com a ascensão desta corrente neo-estalinista no PCP, opinião com a qual estou de acordo e que oportunamente comentarei, mas acrescenta-lhe, borrando toda a pintura, e tornando simpática a figura de Francisco Lopes que “
ele foi o jovem quadro que desde cedo mostrou que não tinha medo de dizer que era comunista. E tem sido seguido por um crescente grupo interno, uma tendência de comunistas que não têm vergonha de o ser.”
Ora nada disto é verdade e nunca ninguém no partido teve medo de dizer que era comunista, tinham era uma visão diferente do que tinha sido a história do movimento comunista e prezavam bastante a unidade das forças antifascistas e progressistas.