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27/10/2009

As eleições de 1969


Pediram-me para escrever duas ou três linhas sobre as eleições de 1969 para o site Caminhos da Memória referente ao tema Onde é que estavas no dia 26 de Outubro de 1969?, data das primeiras eleições para a Assembleia Nacional fascista, depois de Marcelo ter subido ao poder.
Escrevi primeiro meia dúzia de linhas e depois tomei-lhe o gosto e acrescentei mais qualquer coisinha.
Aproveitando essa minhas pequenas recordações, resolvi fazer este post que junta, para a posteridade, de um dia, as minhas fracas memórias do que fazia por essa altura e o pequeno activismo que tive nessa campanha eleitoral, em que a Oposição Democrática foi pela primeira vez às urnas em eleições para a Assembleia Nacional. Já o tinha feito, mas numas outras para Presidente da República, aquando da candidatura do Humberto Delgado, em 1958.

Por essa época acabava eu o longo curso de biologia na Faculdade de Ciências de Lisboa. Longo não pela sua duração, mas pelos anos que andei por lá a cabular. Por isso, nesse Outubro tinha que fazer impreterivelmente a última cadeira que me faltava para finalmente dar o curso por acabado. Era Física Geral. Mais simples para os biólogos do que para os físicos, mas um pincel de todo tamanho. Por isso, não recordando a data do exame, admito que a preparação para o mesmo me tivesse impedido de participar activamente na propaganda e agitação eleitoral. Pelo menos era uma boa desculpa.
Por outro lado, o meu pai, já farto de me ver a não fazer nada de “útil”, achou por bem arranjar-me nesse ano um pequeno biscate, das 6 da tarde às 9 da noite, no, penso que na altura se chamava assim, Gabinete de Estudos e Planeamento dos Transportes Terrestres, posteriormente viria a ser a Direcção-Geral dos Transportes Terrestres e hoje acho que é Instituto da Mobilidade e dos Transportes Terrestres. Sei que por essa época muitos jovens “associativos” (das Associações de Estudantes), acabados de formar, tinham por lá um biscate ou trabalhavam a tempo inteiro.
Eu fui contratado a tempo parcial para a tarefa, hoje ridícula, de, com mais cinco pessoas, somarmos, em máquinas eléctricas, mercadorias e passageiros que a CP (Caminhos-de-ferro de Portugal) transportava pelas diversas linhas que explorava. Reuníamo-nos ao fim da tarde e, em grupos de dois, com um a ditar e outro somar, escrevíamos o resultado numa folha de papel cheia de coluninhas. Do grupo então formado faziam parte dois ferroviários, que ao fim de algum tempo, depois de perceberem o que se pretendia, afirmavam que era possível obter na CP aqueles dados que pareciam tão úteis para o planeamento ferroviário do país.
No entanto, todos mantivemos um prudente silêncio, pois se se descobrisse que os dados já existiam, seríamos dispensados. Desse grupo fazia parte um jovem, penso que ainda estudante da Academia Militar, que vim a descobrir que é actualmente o Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, Valença Pinto. Pode-se dizer que era o único que levava aquilo a sério. Discutia com os dois ferroviários aquele intrincado problema de números de mercadorias e passageiros que eram transportados pelos caminhos-de-ferro e foi devido a ele, e às suas perguntas, que os homens da CP chegaram à conclusão que os dados já existiam.
Cada um estava lá devido a um “empenho”, como então se dizia, e o nosso futuro general, era sobrinho de um dos homens, Almeida Fernandes, ex-Ministro do Exército, que se tinha metido na Abrilada, com o Botelho Moniz – o golpe de estado contra Salazar que nunca chegou a concretizar-se e em que participou também Costa Gomes (ver uma versão aqui) -, e que, para completar o seu vencimento do exército, tinha também um biscate, ao fim da tarde, naquele Gabinete, visto ser oriundo da Engenheiro militar.
Como aquele era o meu primeiro emprego com horário fixo – já tinha feito umas traduções – e dado o meu espírito cumpridor, passei esse Verão, com a interrupção de uma semana de férias, a que tinha direito, a somar mercadorias e passageiros. Um dos presentes, estudante do técnico, sem muita necessidade de dinheiro e mais afoito faltou o mês completo de férias: não se trabalhava, não se recebia
Quando chegou a campanha eleitoral lá estava eu a fazer somazinhas.

Isto era esta pois o que fazia na época e, dito isto, passemos às minhas memórias da campanha eleitoral.
No site referido, escrevi eu mais ou menos isto: lembro-me de estar organizado num pequeno grupo de bairro, provavelmente por morarmos todos na freguesia de Santa Engrácia, em que entrava o José Manuel Carvalho, antigo colega do Gil Vicente e que vim encontrar no pós 25 de Abril na organização da função pública do PCP, a sua companheira e um “amigo” já maduro, trabalhador dos telefones, da electricidade ou da água, já não me lembro, que posteriormente encontrei também no PCP. Três jovens “intelectuais” e um trabalhador. Reunimo-nos algumas vezes para distribuir propaganda e recolher fundos. Onde nos reunimos e se estas reuniões foram antes e depois das eleições – porque se pretendia que a estrutura da CDE continuasse – já não me recordo.
No local onde fazia uns biscates, o tal onde somava mercadorias e passageiros da CP, andei a fazer o mesmo. Um dos ferroviários disse-me que me dava uma pequena contribuição por ser eu a pedir, não por ser a CDE, outros, acho que me que deram sem pestanejar. Já se sabe que não fui pedir nada ao futuro general, nem esses assuntos se abordavam à sua frente.
Lembro-me que os dois ferroviários me descreveram a paralisação que houve na Estação do Rossio, em que um candidato pela CDE, funcionário da CP – hoje já sei que se chamava Firmino dos Santos e a Helena Pato deu dele um belo retrato no site –, pôs a cabeça no rail para impedir que os comboios circulassem. Essa descrição comoveu-nos, foi arriscada e perigosa.
Escrevi uma segunda memória, motivada por um post do Victor Dias, em que recordei uma idas a uma sedezinha da CDE, na Travessa do Calado. Lembro-me de lá ter chegado um dia e ver entrar o Rogério Paulo a protestar, porque achava que tinham alugado uma sede no fim do mundo e ainda por cima num sítio impossível de se chegar. Nessa altura Lisboa era um pouco mais pequena.
Noutra altura recordo o Joaquim Benite a virar-se para mim, quase sem me conhecer, e a dizer-me: “precisávamos de um jovem como tu para ser candidato a deputado”. Fiquei tão atrapalhado, que nem sei o que lhe respondi. Já se sabe que não fui candidato a nada.
Acho que à segunda sede, no Campo Pequeno, nunca fui. Devia ser naquela altura em que andava a estudar para o exame. Recordo, no entanto, ter ido a um comício no Teatro Estúdio de Lisboa, que ficava em Entrecampos, junto à Feira Popular. Lembro-me do Lindley Cintra a falar e acho que apresentou o já referido Firmino dos Santos.
É evidente que depois disto tudo votei pela primeira vez e na CDE. Os meus pais também oposicionistas, mas que não se tinham atrevido a votar para Humberto Delgado, pois tinham medo de represálias, visto serem funcionários públicos e os votos serem facilmente identificados, lá se encheram de coragem, os tempos também eram outros, e foram os dois votar CDE.

Para uma visão política do que aconteceu a entrevista de José Tengarrinha à Seara Nova e transcrita no referido site dá bem o panorama e o significado político daquelas eleições. Pouco mais teria a acrescentar.

29/12/2008

Um herói do nosso tempo


É hoje comum as críticas, as graçolas, ao passado revolucionário de alguns dos políticos actuais. O passado pró-chinês de Durão Barroso volta não volta regressa à ribalta. Mas, não é só o dele, são, para meu deleite, o desse xaroposo João Carlos Espada ou do actual director do Público, a personificação da bem pensância nacional.
Vem isto a propósito de, no outro dia, ter aparecido na SIC Notícias o Carvalho da Silva e João Vieira Lopes, este último em nome da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal, de que é Vice-presidente, a pronunciarem-se sobre o chumbo pelo Tribunal Constitucional de um artigo do novo Código de Trabalho aprovado pela maioria PS no Parlamento. Já se sabe, Carvalho da Silva concordando com o chumbo e considerando que havia outros artigos igualmente inconstitucionais e João Vieira Lopes atacando a decisão do tribunal.
Tem sido vulgar João Vieira Lopes aparecer na televisão. Já esteve num Expresso da Meia-noite e aparece muitas vezes como porta-voz daquela associação do patronato. No entanto, não se pode dizer que seja uma figura pública conhecida e muito menos o seu passado. Refiro-me a ele unicamente porque o conheci e fui vítima, mesmo que indirecta, da sua militância política “esquerdista”.
Há tempos tinha lido um livro um pouco perturbador, por ser a confissão pública de um denunciante e da sua posterior colaboração com a PIDE, onde Vieira Lopes é amplamente citado. O livro chama-se Conquistadores de Almas e é de Pinto de Sá. Aí João Vieira Lopes aparece como responsável por uma das míriades de organizações marxistas-leninistas (M-L) que existiram nos finais dos anos 60, princípios de 70. A dele seria, segundo a informação prestada por aquele autor, o CCRM-L – Comités Comunistas Revolucionários Marxistas-Leninistas (ver aqui e também aqui, onde são citados os seus principais dirigentes, que incluía o actual ministro Mariano Gago).
Esta é de raspão a descrição da personagem pública. Mas que conheço eu do seu passado?
Como já aqui tenho referido, fui durante muitos anos dirigente do Cine-Clube Universitário de Lisboa (CCUL). Era vulgar, por causa da sua sede ser próximo do Instituto Superior Técnico e o cinema onde se realizavam as sessões ser na mesma área, que muitos dos seus colaboradores e dirigentes fossem alunos daquele Instituto. Como sempre sucedia, uma fornada de jovens alunos do Técnico apareceu nos finais dos anos 60 a oferecer-se para colaborar. João Vieira Lopes foi um deles, segundo alguns dados que recolhi pertenceu mesmo à Direcção de 1968-69. Por essa altura, já no fim da minha “longa” carreira universitária, tinha deixado de participar activamente no Cine-clube. Naquele ano lectivo, o último, entrei para a Direcção da Associação de Estudantes de Ciências. Este episódio já aqui foi relatado.
Como na preparação da lista candidata a Ciências fosse necessário fazer algumas reuniões, houve uma que inesperadamente não pôde ser feita na Associação, decidi por isso, como tinha a chave do Cine-clube, reunir lá. No dia seguinte contei isto ao Vieira Lopes. A resposta, própria de um pequeno tiranete, foi que assim me iriam tirar a chave. Ou seja, a lista era “associativa”, como então se chamava às listas progressistas, não havia qualquer perigo para a segurança do Cine-clube, mas sua excelência achava que devia exibir o seu poder.
Este episódio é um “fait-divers”, sem qualquer importância. O mais significativo é o que vem a seguir.
Provavelmente por volta de 1970 ou 71, num local que eu hoje não consigo precisar, houve uma reunião de dirigentes e colaboradores do Cine-clube em que eu estive presente. Não me lembro o que se ia discutir. Sei que a determinada altura Vieira Lopes, com ar sério, começa a falar de uma infiltração social-fascista no Cine-clube. Fiquei estarrecido. Não se estava a referir a mim, era evidente, eu era suficientemente mais velho do que os presentes para ter a pouca vergonha de me considerar um social-fascista infiltrado. Também não se referia a nenhum infiltrado da PIDE, como o termo fascista poderia deixar entender. Mas sim a dois colaboradores, também vindos do Técnico, que tinham, segundo me recordo, colaborado activamente num ciclo de cinema documental sobre a América Latina, com textos claramente de esquerda, e que para Vieira Lopes, e provavelmente a maioria dos presentes, deviam ser suspeitos de pertencer ou professar ideias próximas do PCP. Um deles, de facto, encontrei-o, depois do 25 de Abril, numa realização do PCP.
Para mim aquilo era um insulto, não podia contemporizar com afirmações daquele tipo. Protestei, como não encontrei eco, fui-me embora, nunca mais voltei ao CCUL.
Tempos depois telefonaram-me, pensei que era para me pedirem desculpa. Nada disso, era pura e simplesmente a pedirem-me a devolução de alguns livros que tinha requisitado à biblioteca. Assim se acabou uma relação de anos com o Cine-clube.
Vim a encontrar mais tarde o Vieira Lopes no assalto e destruição da Embaixada de Espanha, na rua do Salitre. Acontecimento que teve lugar nos tempos do PREC, a 27 de Setembro de 1975. Naquele dia já se antevia que a extrema-esquerda organizasse manifestações, pois tinham sido executados na véspera pelo regime de Franco cinco militantes bascos das FRAP e da ETA. Por isso, nessa noite, passei pela Avenida da Liberdade a caminho de casa, para ver o que se passava. Assisti à barafunda, ao incêndio da Embaixada e ao Vieira Lopes a comandar um bando de jovens que se preparavam para seguir para a outra dependência da Embaixada, existente na Praça de Espanha.

Aqui temos o percurso de um “revolucionário”, um herói do nosso tempo, que depois de estar “sempre, sempre ao lado dos trabalhadores” se passou, com armas e bagagens, para o lado do patronato.

10/11/2008

Congresso Internacional Karl Marx / 1º Colóquio “Os Comunistas em Portugal”


Congresso Internacional Karl Marx

Vai realizar-se nos dias 14, 15 e 16 de Novembro, na faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, o Congresso Internacional Karl Marx. A organização é da Cultura, do Instituto de História Contemporânea e da Transform!. Para obter o programa completo, clique aqui .
Pretendia inserir o programa neste post. Mas, como estas habilidades dão sempre muito trabalho, achei que era melhor remeter os interessados para o próprio site onde está toda a programação, com o nome das comunicações e dos seus autores.
Para fazer a ligação com o capítulo seguinte, gostaria de realçar que algumas das comunicações apresentadas neste Congresso têm o mesmo protagonista e título de outras que foram apresentadas no Colóquio de Os Comunistas em Portugal.

Devo confessar que, quando tive conhecimento que este Congresso ia ter lugar, imaginei que as comunicações seriam referentes a aspectos da obra de Marx, principalmente à parte filosófica, política e económica, e que eu não tinha nada preparado, nem estava particularmente activo na reflexão sobre o seu pensamento.
Hoje, depois de ver o programa e de o confrontar com algumas das comunicações que foram apresentadas no Colóquio sobre Os Comunistas em Portugal, fico triste porque o texto que elaborei e a que dei o nome O PCP, a Revolução Democrática e Nacional e o rumo ao socialismo – Algumas contribuições para a caracterização do 25 de Abril, aqui publicado, e também neste blog, não era inferior a outros que eu já conheço e que são comuns às duas realizações. No fundo este Congresso tem uma abrangência tão vasta, que quase tudo pode ser incluído, e, com muito mais razão, qualquer reflexão sobre o Partido Comunista, como era o meu caso. A uma semana do Congresso já não vou a tempo de apresentar qualquer comunicação. Paciência, é a vida.

1º Colóquio “Os Comunistas em Portugal”

Este Colóquio, que foi publicitado neste blog, realizou-se no passado fim-de-semana, na Biblioteca Museu República e Resistência.
Há que sublinhar que ele foi organizado pela revista Política Operária, que foi dirigida por Francisco Martins Rodrigues (FMR) até à sua morte, ocorrida há alguns meses. Chico Martins, como era mais conhecido, era um dissidente dos anos 60 do PCP, tendo o seu afastamento resultado de sérias divergências políticas com este Partido, quer no modo como encarava a Revolução em Portugal, quer pela posição pró-chinesa que assumiu no dissídio sino-soviético, quer quanto ao papel que Estaline desempenhou na União Soviética. Pode-se dizer, para simplificar, que FMR saiu pela esquerda do PCP e assim se manteve até ao final da vida. Por isso, sem o nomear explicitamente este Colóquio era também uma homenagem àquele revolucionário. Muitos dos oradores a isso se referiram.
Era evidente que estas opções determinaram que o Colóquio fosse mais a defesa de uma determinada concepção política, do que uma reflexão desapaixonada sobre o Movimento Comunista em Portugal. No entanto, houve a preocupação de convidar maioritariamente académicos, com estudos feitos nesta área que, na maioria dos casos, reflectiram serenamente sobre a história, a sociologia e até a antropologia do comunismo e dos comunistas em Portugal. Não fosse algumas reflexões mais apaixonadas, que depois referirei, estávamos perante uma selecção bastante razoável do pensamento académico sobre o assunto. Faltaram, no entanto, e eu sei que tentaram convidá-los, o João Arsénio Nunes, que esteve presente durante a maioria das comunicações e que é um dos poucos historiadores do PCP, filiados no Partido, com trabalhos publicados nesta área, e o José Neves, que tem uma tese de doutoramento sobre Comunismo e Nacionalismo em Portugal – Política, Cultura e História no Século XX, e cuja defesa presenciei e que foi por mim assinalada neste post. É provável que haja muitos outros trabalhos notáveis de académicos sobre os comunistas, mas que eu não conheço.
Um dos males do Colóquio, é que se pretendeu meter o Rossio na Rua da Betesga, provavelmente o que irá suceder no Congresso que se lhe segue. Facto extremamente difícil de controlar, dado que ao pretender abranger um vasto leque de temas é preciso forçar a pontualidade do começo das sessões. Assim, a partir de certa altura fomos a mata-cavalos, sem tempo para a discussão e obrigando os intervenientes a terem que cortar nas suas intervenções. É sempre difícil, nestes casos, conseguir um balanço entre tudo aquilo que se quer comunicar e o seu debate. São opções que os organizadores têm que assumir e utilizar pulso de ferro se querem que haja tempo para tudo.
Dito isto, passemos às comunicações propriamente ditas. O seu programa está afixado neste post, por isso não me irei referir a ele pormenorizadamente.
O primeiro bloco de comunicações, sexta-feira ao fim da tarde, tinha a intenção de dar um retrato do PCP em três fases distintas da sua história: a sua origem, o período da Frente Popular defendida no VII Congresso da Internacional Comunista e depois uma experiência menos importante de frentismo, verificada entre 1956 e 1958, e que resultou do XX Congresso do PCUS. Quanto a mim, e por isso interroguei a mesa sobre este aspecto, faltava a experiência importantíssima de frentismo dos anos da II Guerra Mundial, que em Portugal tiveram repercussão na criação do MUNAF e no MUD. A mesa concordou.
O segundo bloco desse dia, com um trabalho que será igualmente apresentado no Congresso sobre Marx, referia-se às posições de Mário Dionísio em relação ao PCP, de que tinha sido seu militante, quando este no seu livro A Paleta e o Mundo estabelece uma clara distinção entre a liberdade de criação artística existente na União Soviética nos primeiros anos da revolução e o que depois se veio a verificar, com a imposição do realismo socialista, facto que até à data o PCP tinha ignorado. O autor estabelece claramente uma distinção entre os dois períodos, criticando certa historiografia universitária inglesa revisionista que tem insistido na tecla de que o período leninista da liberdade artística, que dura até 1934, anunciaria o período repressivo estalinista. Confrontei o autor da comunicação sobre aquilo que é hoje para mim uma pedra de toque de toda a historiografia oficial reaccionária e não só, também social-democrata, de que não haveria diferenças entre aqueles dois períodos, que a União Soviética, desde o início, tinha sido “um imenso Gulag”. Em resposta o autor, fugindo um bocado à minha pergunta, responde-me, e bem, que no PCP, pelo menos no apogeu do neo-realista, os comunistas também eram responsáveis por essa confusão, ao não valorizarem ou nem sequer reconhecerem a diferença, no campo da arte, entre os dois períodos.
Depois segue-se uma comunicação relativa a um inquérito sociológico de Manuel Loff , que publicou recentemente um livro interessante, O Nosso Século é Fascista, e de Bruno Monteiro sobre a adesão comunista em Portugal (1960-1974), com trabalho de campo junto de operários que aderiram ao PCP naqueles anos.
No Sábado de manhã, incapaz de me levantar cedo, não pude assistir às comunicações também de inquérito sociológico – que me perdoem os sociólogos, sobre a terminologia que estou aqui a usar – relativas às comunistas do Couço, às companheiras das casa do Partido e aos testemunhos autobiográficos de autores comunistas. Ainda cheguei a tempo de assistir à parte final desta última comunicação e ao debate relativo às anteriores, que me pareceram bastante interessantes. Pecando provavelmente por excesso, consideraria todo este conjunto, mais um intervenção que houve da parte da tarde sobre mineiros, como as mais interessantes do Colóquio, já que pelo tipo de pesquisa que empreendem, fogem ao estereotipo ideológico sobre o PCP e a sua história.
O segundo bloco da manhã foi dedicado ao maoismo em Portugal e aos Partidos ML. Foram apresentadas comunicações bem informadas, académicas, que só muito indirectamente tomavam partido por esta causa. Permitiram durante a sua apresentação os momentos mais relaxantes do Colóquio, já que a terminologia usada naquele tempo por estes movimentos era de facto espantosa. Houve alguém que atrás de mim identificou, uma das fases mais ridículas que foram apresentadas, como do João Isidro, recentemente falecido.
Os blocos da parte da tarde foram os mais polémicos. Apesar da primeira intervenção, que coube a João Madeira, não apresentar essas características. Foi relativa à defesa que o PCP fez em Maio de 64, pelo efeito da cisão Martins Rodrigues, de acções especiais para acompanharem as manifestações do 1º de Maio e nalguns casos propondo interligação dessas acções com as próprias manifestações. Essas acções especiais consistiam em actos de sabotagem, corte de linhas de alta tenção, ataques à polícia, etc. Na zona de Grândola esse tipo de acções chegou a concretizar-se com rebentamentos, sem qualquer efeito, em pontes, visando isolar o Concelho. Posteriormente, foram abandonadas e até, segundo percebi, criticadas. O autor considerou-as como um desvio esquerdista. Desconhecia estes episódios.
A intervenção mais polémica e quanto a mim completamente descabelada, e tanto mais grave visto que pretende vir a ser uma tese de doutoramento, foi a de Raquel Varela sobre o papel do PCP no processo revolucionário de 1974-75. Esta autora irá apresentar no Congresso sobre Marx uma comunicação semelhante, cujo nome é O PCP no PREC.
Raquel Varela que estudou um período muito curto da nossa Revolução, entre o 25 de Abril e o VII Congresso do PCP, em Outubro de 74, formula a tese muito defendida em alguns meios esquerdistas que o PCP traiu a Revolução aliando-se à burguesia e reprimindo as suas aspirações populares. Chegou mesmo a dizer que a burguesia devia fazer uma estátua ao PCP porque foi este Partido que permitiu que a democracia se implantasse em Portugal. Deixando-se arrastar por estas considerações chega a afirmar que o principal objectivo do PCP era entregar Angola ao MPLA e por isso aos soviéticos. Aqui recorre já ao arsenal reaccionário, que tem muitas vezes defendido este ponto de vista. Esta comunicação pela terminologia usada, pelos preconceitos que manifesta fugiu ao espírito que até aí vinha prevalecendo, de estudo sereno e académico da realidade, para passar à pura construção e manipulação ideológica. Raquel Varela assenta toda a sua interpretação nos comunicados do PCP e nas entrevistas dos seus dirigentes, no entanto parte de um parti-pris tão grande contra aquele Partido que é incapaz de interpretar a realidade. Um só exemplo, na sua comunicação afirma que a burguesia contou com a colaboração do PCP no primeiro Governo Provisório do Spínola. Na sala estava um “capitão de Abril”, o Luz, de que não me recordo o primeiro nome, que no final esteve a falar comigo e que me contou o seguinte: quem quis que o PCP estivesse representado no primeiro Governo Provisório tinham sido os capitães, que achavam que o PCP era imprescindível, e que o Spínola tinha acedido porque considerava que era melhor ter o PCP ao pé de si do que longe. Ou seja, dizia este “capitão” Luz a “burguesia” era eu e os meus camaradas. Como por vezes a história tem meandros que são mais simples do que as grandes construções que sobre ela fazemos.
Depois seguiu-se a intervenção de um brasileiro, Valério Arcary, que também vem apresentar uma comunicação ao Congresso Marx e que falou com aquela descontracção própria dos brasileiros. Apesar de ser favorável à interpretação da oradora anterior, soube com grande subtileza pôr o problema noutros termos e com outra elevação, chegando mesmo a afirmar que a interveniente tinha que refazer algumas interpretações da sua tese.
No bloco seguinte e último, aquele que teve que ser a mata-cavalos, houve uma intervenção um pouco semelhante à de Raquel Varela, disseram-me que o orador era seu marido, mas agora virada para a posição do PCP sobre o Estado, principalmente sobre o livro de Álvaro Cunhal A Questão do Estado, a Questão Central de Cada Revolução. Pareceu-me também influenciada por um certo esquerdismo, mas dados os saltos que o autor teve que fazer para concluir a sua intervenção é um pouco difícil chegar àquela conclusão. Depois tivemos a já referida intervenção sobre os mineiros, que continuavam a ser mineiros sem trabalharem na mina. Com um relato bastante interessante sobre a diferença entre o ser mineiro no passado e o ser mineiro hoje, gente especializada na condução de máquinas, que se desloca de mina em mina, sem ter raízes em parte nenhuma.
Por último e a encerrar os trabalhos tivemos o ponto político de Ana Barradas, a companheira de Francisco Martins Rodrigues, que explanou as etapas do seu pensamento e que simultaneamente não deixou de traçar um panorama catastrófico do que tinha sido a história do movimento comunista e a situação da revolução mundial. O objectivo já não era apresentar uma comunicação académica mas formular preocupações políticas. Estou na maioria dos casos em desacordo com o que disse, mas considero-a mais como uma opinião política do que histórica.
Termino reconhecendo os méritos da iniciativa, mas achando que um debate destes tem que ser feito, com a participação de gente que ainda permanece comunistas, mas que já saiu do PCP, para nos contarem a sua história, com a colaboração de historiadores e investigadores académicos. Isto porque o PCP se recusa a fazer a sua história, como em Congresso ficou decidido.

28/09/2008

O Forte de Peniche transformado em Pousada de Portugal


Já tinha lido no Público a notícia de que o Forte de Peniche, antiga prisão de anti-fascistas, se ia transformar em Pousada. Como a política normalmente seguida por este blog não é reagir de imediato ao noticiário do dia, tinha-a deixado passar. No entanto Joana Lopes, aqui, e Irene Pimentel, em Caminhos da Memória , chamam a tenção para o facto.
Há anos visitei o Forte de Peniche e lamentei a sensação de abandono a que estava votado. Percebia-se que mais uns anos e o monumento ou, pelo menos, a antiga parte celular se degradaria completamente. Simplesmente, nunca pensei que a solução fosse entregar a sua preservação às Pousadas de Portugal, que neste momento pertencem ao grupo Pestana.
Irene Pimentel perguntava, com muita graça, se está à espera que os “«clientes» bebam um copo, num hipotético bar, erguido junto ao «parlatório», onde os familiares visitavam os presos políticos com uma placa de vidro encimado por uma rede de permeio e os guardas a vigiarem? Ou que dêem um mergulho na piscina, junto à «furna» isolada em cimento, que servia de «segredo», para punir os presos políticos? Ou ainda que façam parapente para o mar, ou escalada dos muros, para reviver as fugas audaciosas dos presos políticos?” Estas perguntas eram dirigidas ao Presidente da Câmara que tinha afirmado «Com um investimento previsto de dez a 15 milhões de euros, a nova unidade deve compatibilizar a função hoteleira com a “preservação da memória da prisão política”».
Parece-me a mim, primeiro, que não será um grupo privado que melhor irá preservar um património colectivo e que representa um pouco da nossa história contemporânea. Segundo, estranha-se que um Presidente de Câmara da CDU, que estará muito mais habilitado que outros para a preservação da memória, seja o defensor de uma solução como a preconizada. Terceiro, mesmo que o grupo Pestana não pratique todas as maldades que ironicamente Irene Pimentel lhe atribui, não estou a ver como será possível este Forte ser visitado diariamente por portugueses e estrangeiros interessados em conhecer como era uma prisão do tempo do fascismo. Poderíamos ter um Forte e a sua área carcerária muito bem preservada, o que me parece desde já manifestamente impossível dada a falta de espaço para a Pousada propriamente dita, mas só visitada pelos utentes da Pousada, que provavelmente se estariam nas tintas para a sua anterior função.
Pense a Câmara, em colaboração com a entidade responsável pela gestão daquele património, em explorar aquele Forte como museu evocativo dos anos do fascismo e cumprirá de certeza uma grata aspiração dos habitantes de Peniche que foram sempre contra a utilização do seu Forte como prisão de anti-fascistas