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09/04/2011

Um discurso alegre e um alegre Congresso

Alegre foi ao Congresso do PS e fez um discurso. Conforme o órgão de informação que ouvimos ou lemos, assim se realça mais a parte do discurso "sou um homem de esquerda que defende o diálogo à esquerda, mas quero dizer com toda a clareza o seguinte: não repitam o erro de 1975, não queiram dispensar os socialistas, porque não há soluções de esquerda sem o PS ou contra o PS”, ou então o ataque aos mercados financeiros, à influência neo-liberal na Europa ou a recusa de um Governo de bloco central, sublinhando as diferenças com o PSD (ver aqui e aqui).

Por outro lado, todos os comentadores são unânimes em afirmar que este é um Congresso que pretende captar o voto útil da esquerda. Mas de que modo. Sócrates explica: “os votos desperdiçados à nossa esquerda são votos que favorecem o caminho da direita para o poder”. “ A verdade é que só a concentração de votos no PS poderá travar a agenda liberal aventureira perigosa da direita pelos serviços públicos e pela recusa da protecção social do Estado”. Vitorino mais entusiasmado e servindo-se agora do discurso de Manuel Alegre, disse mesmo: «Esses eleitores (os de esquerda) terão que perguntar-se seriamente acerca do significado e do resultado de um voto em partidos que se mostram totalmente imprestáveis para a construção de uma solução de governo à esquerda, porque, como dizia Manuel Alegre, convençam-se de uma coisa: não há solução de Governo à esquerda sem o PS e muito menos contra o Partido Socialista». No entanto, lá vai dizendo, que admite a existência de consensos, de procurar «apoios alargados para lutarmos juntos contra a crise», mas diz que o importante é saber «quem está em melhores condições de liderar esse processo, de liderar essa procura de entendimentos alargados» (ver aqui).

Este discurso é simples, querem os votos da esquerda, à esquerda do PS, porque, afirmam, os partidos que os consubstanciam são “totalmente imprestáveis”, para depois fazerem consensos com a direita, já se sabe, se possível, em posição de força.

É espantoso que depois do apelo ao compromisso de 47 personalidades (Expresso de hoje), que de certeza não será de esquerda, a resposta que foi dada no Congresso é que todos estavam de acordo e que o PS tudo tinha feito para o conseguir, só gostaria de ser ele a dirigi-lo.

Por isso bem pode Manuel Alegre vir referir-se que é favorável ao diálogo à sua esquerda e que esta não pode ignorar o PS, que tudo está preparado para depois de terem os votozinhos dos eleitores da esquerda, fazerem os compromissos que entenderem com a sua direita.

Por isso, é uma ilusão que algum PS de esquerda alimenta que este partido, neste momento histórico que se está vivendo, quer travar qualquer diálogo à esquerda, querem é papar-nos o voto para fazerem depois a sua política de compromisso.

O combate vai ser difícil. Já percebemos que desta vez o PS pretende conquistar votos à esquerda. A inclusão de Ferro Rodrigues para cabeça de lista para Lisboa dá o tom. Mas já se fala em Manuel Alegre para Coimbra. Provavelmente ainda iremos ter muitas surpresas. Estejamos preparados para tudo.

01/01/2010

Uma azeda situação política


Ultimamente, a minha contribuição para este blog tem sido muito irregular. Já no post anterior dei algumas boas razões para isso. Agora poderia acrescentar a da época natalícia que se está a viver, pouco propícia à reflexão e mais ao convívio familiar ou à satisfação da gula, para aqueles que se podem dedicar com prazer a esse pecado. Tenho vindo a escrevinhar alguns textos, mas que, por uma razão ou outra, não os tenho inserido no meu blog. No entanto, porque senti necessidade de escrever para um fórum de discussão, onde também participo, o texto que a seguir vos apresento, aqui vai ele, com as correcções indispensáveis à sua publicação noutro local.

Não me parece que seja precisa grande argúcia política para se perceber que a actual situação tem pouco a ver com a luta entre forças de direita e de esquerda e que a questão não está, como alguns pensariam, no problema das alianças à esquerda e na reorganização desta para resistir à direita, mas na chicana política, para ver quem mais depressa consegue encostar o adversário às cordas.
A seguir às eleições, andava um conjunto de personalidades da esquerda a recolher assinaturas para uma aliança à esquerda e já Sócrates, nada interessado nessa proposta fazia o seu número de consultar todos os partidos com assento parlamentar, quer estivessem, à sua direita ou à sua esquerda. Essas conversas vinham de alguém que não tinha qualquer vontade de fazer alianças, que pensava jogar em todos o carrinhos e que encara a política como um jogo para enganar os papalvos, não tendo dela qualquer visão ética.
Depois tivemos a encenações dos professores, das taxas moderadoras e do orçamento rectificativo, que passou com os milhões atribuídos a Alberto João, enquanto o Ministro da Finanças gritava no Parlamento que não contribuía para o regabofe da Madeira. Era este o sentido de Estado deste Governo. Quando percebeu que a oposição ia conseguir aprovar a suspensão do Código Contributivo eis que desencadeia, pela boca de diversos socialistas, incluindo o seu homem de mão na televisão, António Vitorino, uma barragem contra o Presidente da República para que este não promulgasse aquele diploma. A acompanhar tudo isto envolve-se em picardias com o próprio PR, de muito mau gosto e que nada de bom trarão para o equilíbrio e o regular funcionamento das instituições. Sem ser pitonisa política direi que este Governo e José Sócrates ainda acabarão muito mal. O pior disto tudo é se, ao utilizar esta estratégia de grande confusão e de ataques indiscriminados à esquerda e à direita, José Sócrates não irá dar de mão beijada o Governo à direita.
Sem ser seu apreciador e por vezes muito crítico das suas posições, não deixo de reconhecer que este texto de Miguel Sousa Tavares, no Expresso, de 24 de Dezembro, traduz fielmente aquilo que eu penso neste momento de José Sócrates e do seu Governo:
São crescentes os sinais de desorientação na maioria e na governação do país. Claramente, não há um rumo definido para enfrentar estes tempos tão complicado… Desenterrar dossiers como o da regionalização (… - para mim tanto podia ser este como outro – JNF) apenas serve para mostrar a desorientação que se apoderou do primeiro-ministro e o seu desespero de espingardear para todos os lados, criando uma tamanha confusão no campo de batalha que já ninguém sabe quais as ameaças, onde está o inimigo, que estratégia e armas usar. Perdido de si mesmo, Sócrates ensaia o papel de guerrilheiro, cercado de todos os lados mas disposto a resistir, numa qualquer Sierra Maestra que os Lelos de serviço ao PS propagandeiem. E daí a sua última tentação: trazer o Presidente para o campo da batalha e dar-lhe a escolher, de pistola apontada, uma de duas opções: ou está do nosso lado ou é inimigo.”
É pois nesta conjuntura, que tão bem está aqui descrita por Miguel Sousa Tavares, que há alguns comentadores (veja-se dois artigos de Cipriano Justo, no Público, o primeiro a 12/12/09, e aqui transcrito, e o segundo a 29/12/09 - Dois mil e dez: um resumo, e sem link) que acham que BE e PCP deviam pôr a mão por baixo deste Governo para ver se o tombo não era tão grande, na esperança de ver o PS continuar a governar para que a direita nunca tivesse possibilidades de aceder ao poder. O problema é que este Governo nada tem a ver com a esquerda e muito menos é um Governo sério, que na primeira volta, meteria os dois partidos à sua esquerda na algibeira, para maior glória do seu chefe e do seu grupo.
Hoje o problema central, que penso que está também posto ao PS, é como se deve libertar de Sócrates e de alguns dos seus apoiantes, pondo à frente do Partido uma personalidade de maior credibilidade e seriedade política.
Por isso qualquer objectivo da esquerda, à esquerda do PS, no sentido de colocar paninhos quentes na manutenção de Sócrates, só pode acarretar o desprestígio daquelas forças e a sua capacidade de formular e apoiar saídas de esquerda para o país. A manutenção deste stato quo ou o envolvimento grosseiro, juntamente com o PS, nestas guerrilhas e quezílias, que aquele está constantemente a desencadear, é sem dúvida nenhuma negativo. Aqueles dois partidos têm que, em cada situação, examinar as forças em presença e saberem como votar de modo a não comprometerem por oportunismo ou seguidismo o seu futuro.
Por isso, estou contra todos aqueles que entendem que implícita ou explicitamente, a esquerda, à esquerda do PS, devia apoiar este Governo e a sua minoria no Parlamento. Por este caminho não sigo.

06/06/2009

"Radicalismo extremista"


Já estou como um dos participantes do Eixo do Mal, da SIC Notícias, que passa horas a ver televisão e a ler jornais, penso eu, para se inspirar para o Inimigo Público, a página humorística do Público. Por sinal não lhe acho grande graça.
Pois eu, no meu afã de estar a par de tudo, não gastando tantas horas, lá vou papando programas infindos de informação e comentário político.
Vem isto a propósito de uma frase que ouvi ontem na Quadratura do Círculo, também da SIC Notícias, ao António Costa, e uma parecida, que escutei a um politólogo, hoje profissão muito em voga, que me pareceu chamar-se Maltez.
António Costa no debate que ontem travava com Pacheco Pereira acusava o PSD de, ao não privilegiar uma alternativa ao governo de Sócrates, deixar que os votos de protesto fugissem todos para o radicalismo extremista. O politólogo falava, a propósito de sondagens, das percentagens de votos atribuídas à esquerda revolucionária.
O caso de António Costa parece-me perfeitamente espantoso. Depois do ataque desferido no Congresso do PS ao Bloco de Esquerda, assisti numa Quadratura do Círculo ao riso alvar de todos os intervenientes a propósito dessas afirmações, que naquele debate foi o único momento em que todos estavam de acordo.
Ontem, en passant, sem nenhuma ênfase especial, lá veio o classificativo, que ou é sincero ou serve unicamente para que o público bem-pensante, que o está a ver, o leve a sério. Só não se percebe como é que esta personagem, que não tem qualquer rebuço em classificar os partidos à sua esquerda como radicais extremistas, quer depois na Câmara de Lisboa fazer alianças com eles. Como é que é possível nuns dias falar, de coração nas mãos, da necessidade das forças de esquerda se aliarem na Câmara para derrotarem a direita e noutros dias a sério ou em jeito de propaganda classificar os seus possíveis aliados de radicais extremistas. Alguma coisa não bate certo. É de certeza a pouca vontade de qualquer aliança para a Câmara de Lisboa.
Quanto à frase do politólogo, ela resulta de toda a conversa da direita. Esta não aprendeu nada desde os tempos do PREC, continua no mesmo esquema mental e de propaganda que sempre foi o seu. Tudo o que esteja à esquerda do PS, que proponha uma maior intervenção do Estado na economia, algumas nacionalizações, ou simples mudança de rumo, é revolucionário, extremista e incompatível com a nossa adesão à União Europeia, à NATO ou ao mundo ocidental.

Para combater estes preconceitos é pedido às forças políticas à esquerda do PS - no fundo, dando continuidade àquilo que Manuel Alegre admitiu como possível: dialogar à esquerda - um contributo, sem tergiversações, para um maior diálogo entre elas e capacidade para se apresentarem como alternativa de Governo. De facto, temos que deixar de ser força do protesto e elaborarmos um programa alternativo de saída para a crise. Esperemos por ele.

15/04/2009

Apelo à Convergência de Esquerda para a cidade de Lisboa


Provavelmente alguns dos meus leitores já se interrogaram que sendo eu membro da direcção da Renovação Comunista (RC) e deputado municipal independente pelo Bloco de Esquerda ainda não tenha dito nada sobre o Apelo à Convergência de Esquerda nas Eleições para Lisboa promovido inicialmente pela RC e subscrito por várias personalidades, que na altura da sua apresentação já ultrapassavam os 200 subscritores.
Aqui vai a minha opinião e a indicação do site onde o Apelo pode ser lido e subscrito.


Têm alguns camaradas renovadores feito referência aos aspectos negativos deste Apelo. Assim, não só admitem que o mesmo pode sobrevalorizar e dar credibilidade ao candidato da direita, como reforçar a votação em António Costa porque, sendo o que está em melhor posicionado para derrotar a direita, promove o voto útil nele.
Nem no Apelo, nem na sua apresentação se realça exclusivamente esse facto. Santana Lopes não aparece como o papão que obrigaria a esquerda a unir-se de imediato. Este aspecto foi bem sublinhado na intervenção inicial de Paulo Fidalgo (ver fotografia) e na de um dos signatários, Aquilino Ribeiro Machado, na sessão de lançamento do Apelo. Esperemos pois que durante todo o desenrolar da recolha de assinaturas, aquele surja como defensor de uma coligação positiva e não apareça como uma união negativa contra alguém.
Os media com a ânsia de personalizar tudo, já garantiram que o candidato dos subscritores é António Costa, quando o que se disse, pela voz de Paulo Fidalgo, foi que sendo o PS o partido mais votado em Lisboa era natural que coubesse a ele a indicação do candidato a Presidente. O que não impede que subscritores mais próximos do PS vão garantindo que este é o seu candidato (ver aqui). Por outro lado, o Diário de Notícias refere-se mesmo a Frente anti-Santana arranca em Lisboa. Contra isto é muito difícil traçar armas, mas sabendo nós o que a casa gasta, não podemos ficar paralisados e não agir, porque os media nos deturpam as palavras.

Este Apelo já mereceu de dois dos seus principais destinatários algumas críticas que me parecem injustas. As primeiras vieram do PCP, que pela voz de um responsável pela organização de Lisboa diz que o PS virou completamente à direita e que por isso não se pode fazer coligações com ele. Por outro lado, o seu candidato ao executivo camarário desvaloriza a acção de António Costa (AC), garantindo que o mesmo favorece a “especulação imobiliária”, tal como os seus antecessores de direita. Parece-me que o primeiro é um argumento de circunstância, pois o PS não é um partido homogéneo, e nem todos os seus militantes a votantes se podem globalmente meter no mesmo saco. O segundo, uma desculpa sem grande fundamento, já que AC devido às enormes dificuldades económicas em que foi encontrar a Câmara pouco tem feito, para se lhe poder assacar essas malfeitorias.
Já Jerónimo de Sousa, mais agreste, depois de formular uma boutade em que ninguém acredita, ou seja, que já concorre coligado na CDU, garante que o PCP está mais interessado em discutir políticas do que lugares na Câmara, mal de que acusa o PS. Ora nem o Apelo, nem quaisquer declarações de AC levam a pensar que assim seja. Parece também uma desculpa, neste caso um pouco menos inocente.
Já o Bloco de Esquerda, pela voz de Francisco Louçã, garante que o Apelo “é uma forma de apoio a António Costa, mais nada” (Visão, de 9/4/09, sem link).
Este perigo, como se viu no início, é verdadeiro, mas aqui parece-me que a razão é outra. O Bloco, depois do fracasso da iniciativa junto de Helena Roseta, gostaria de passar desapercebido nestas eleições. O importante para aquele partido são as legislativas, que se irão realizar um pouco antes das autárquicas. Qualquer coligação com o PS, que não abrangesse toda a esquerda e que desse a entender que a sua luta contra aquele partido não é para valer, enfraquece a sua posição para as eleições legislativas. Por isso, qualquer proposta que chame a atenção para a necessidade de convergência à esquerda em Lisboa, abre um debate que desvia a atenção do essencial, que é tirar a maioria absoluta ao PS.
É evidente que estes argumentos utilizados para apreciar a posição do Bloco podiam também aplicar-se ao PCP, simplesmente este partido já apresentou argumentário que, no essencial, se pode considerar como pouco credível e por isso facilmente rebatível. Por outro lado, neste momento alimenta uma posição estratégica que pretende a todo o custo conservar a sua identidade política, não alimentando ilusões sobre alianças com outras forças, que não sejam aquelas que tradicionalmente estão debaixo da sua área de influência.
Já os parágrafos anteriores estavam redigidos quando no Esquerda.net se diz que dirigentes do Bloco declararam à imprensa que este Apelo “representa um apoio a António Costa que nada traz de novo ao debate sobre as políticas para a cidade".
Aqui, repetindo o que já tinham declarado à Visão, acrescentam qualquer coisa de inédito, que um Apelo político de personalidades tão diversas deveria desde logo propor um programa para a cidade. Lamento, mas considero esta, uma desculpa de mau pagador.

Em relação ao PS reconheço que é o Partido que sai mais favorecido com este Apelo. António Costa já nas eleições anteriores tinha alimentado a possibilidade de uma coligação para Lisboa. Se fez os esforços necessários, não sei. Mas na altura muitas das respostas que obteve tinham a ver com o timing apertado daquelas eleições. Depois foi conseguindo pescar à linha os vereadores que lhe faltavam. Teve êxito. Hoje deixa correr ideia que também estaria interessado num coligação. No entanto, ao fazer no Congresso do PS as declarações que fez, tornou muito difícil qualquer aliança para a cidade de Lisboa. Reconheço que depois de se chamar "parasita "a uma força política não seja fácil convencê-la que se fez aquelas declarações no calor da polémica. Já temos, contudo, conhecido volte faces mais espectaculares e em política tudo é possível. Constato que este é o obstáculo mais difícil de vencer.
O medo que as forças minoritárias de esquerda têm que este Apelo favoreça o PS e António Costa poderia ser combatido se qualquer delas fosse capaz de dar a volta por cima e encostar o PS à parede, confrontando-o com as suas verdadeiras intenções. Sei que é uma operação arriscada, mas não impossível.

Quanto à Renovação e à sua intervenção neste Apelo algumas considerações se devem fazer. Na recente história deste movimento político a sua preocupação unitária é conhecida. Dissidente do PCP e pretendendo renovar o movimento comunista em Portugal é fácil compreender a sua pulsão unitária, que só a crescente sectarização do PCP tem vindo a destruir como património histórico daquele movimento. Nesse sentido, a redacção de um apelo à convergência em Lisboa é compreensível e desejável e vai pois no sentido do seu passado. Simplesmente, a sua intervenção na realidade política diária, a inserção dos seus militantes nas forças políticas existentes, provoca sempre nos momentos em que há que fazer opções à esquerda algumas divisões e incompreensões. No fundo, a Renovação Comunista balança entre o ser uma força política interveniente na realidade ou em transformar-se num movimento de discussão e de estudo da situação do comunismo hoje. Já foi assim a quando das anteriores eleições legislativas (as de 2005) em que uma parte maioritária da Renovação decidiu fazer um acordo com o Bloco de Esquerda contra a vontade de uma minoria. Hoje, novamente, alguns renovadores são sensíveis às posições do Bloco e consideram desadequado lançar este Apelo que irá favorecer a estratégia do PS e de António Costa. Recordam com alguma nostalgia as últimas eleições presidenciais em que os renovadores se distribuíram pelas diferentes candidaturas de esquerda.
É quanto a mim o dilema que a RC enfrenta e que mais cedo ou mais tarde os seus dirigentes e militantes têm que dirimir, decidindo se querem ser um grupo de estudo ou um movimento de intervenção política, com uma estratégia própria.

E o que pensa o autor destas linhas de tudo isto, já que não pode unicamente ficar na pele de comentador da sua própria participação. Em primeiro lugar valoriza a tradição unitária comunista assinando o Apelo e considerando que ele corresponde a um amplo anseio de um grande número de eleitores que desejam que a esquerda se apresente unida às eleições municipais para a cidade de Lisboa. Até porque isso já foi possível e correu bem.
Em segundo, entende que o Apelo deve privilegiar os aspectos positivos que essa unidade representaria para a cidade. Não isentando de culpas qualquer dos intervenientes se ele não se concretizar. Nunca devemos em qualquer caso assumir a posição de idiotas úteis da candidatura de António Costa.
Em terceiro, pensar que a Renovação Comunista pode e deve assumir uma maior intervenção política, podendo-se mesmo transformar em partido, não se limitando a aparecer exclusivamente na época das eleições, já que a falta de intervenção política constante leva muito dos seus militantes a procurarem outras forma mais expeditas de militância.
Por último desejar que o Apelo tenha êxito e que a convergência das esquerdas em Lisboa seja uma realidade.

09/03/2009

Quando as comadres se zangam

Dada a minha proverbial prolixidade em relação aos assuntos que abordo perco normalmente a oportunidade falar neles quando acontecem, assim para manter o meu blog com novos posts recorro frequentemente a pequeno vídeos e agora até a fotografias. Por isso, quando me preparava para “malhar”, uma expressão que agora está muito em moda, mais uma vez num post de Rui Bebiano, que tinha lido, sem saber de quem era, em o Tempo das Cerejas, e que tinha considerado bastante reaccionário, reparo que já tinha sido ultrapassado pelos acontecimentos. É que a seguir a este já tinham sido publicados outros dois (ver aqui e aqui) tão reaccionários como o anterior, o que me levou a pensar que o autor ou se tinha definitivamente passado dos carretos ou então se comprazia no deleite de provocar os seus leitores de esquerda. Por isso, achei por bem não gastar mais cera com tão ruim defunto, ou seja, deixar de comentar os seus posts tal como não faço com os do 31 da Armada, do Blasfémias ou do Atlântico.
Resolvi, por isso, abordar uma zanga de comadres que tinha assistido na última quinta-feira na Quadratura do Círculo e que, apesar de já terem passado uma série de dias, me apetece comentar dado a sofreguidão com que António Costa defendeu o seu líder e como todos, com um sorriso nos lábios, estiveram de acordo com as boçalidades com que Costa mais uma vez mimoseou o Bloco de Esquerda.
A Quadratura do Círculo, quando começou há muitos anos na TSF com outra designação, tinha como intervenientes, que eu me recorde, o Pacheco Pereira, o único que se manteve fiel ao formato, alguém do CDS e o José de Magalhães, ainda deputado do PCP. O PS estava ausente, penso que representado pelo coordenador. Depois o José Magalhães, sem sair do Parlamento, mudou-se para a bancada do PS e o programa nunca mais teve ninguém à esquerda deste partido. O que neste momento se torna profundamente injusto dado que uma corrente de opinião, com mais de 20% de intenções de voto (Bloco de Esquerda mais PCP), está completamente ausente de um programa de discussão política. Este facto permite a manutenção do stato quo dominante, expresso por Pacheco Pereira, em nome do PSD, é verdade que nem sempre alinhado, por Lobo Xavier, em nome do CDS, dizendo praticamente os dois a mesma coisa, contra um PS oficial representado por um peso pesado, António Costa, que raramente foge à versão oficial dos acontecimentos.
Na Quadratura desta semana o único tema abordado foi o Congresso do PS. Pacheco Pereira iniciou as hostilidades com o ataque ao discurso que Sócrates pronunciou no primeiro dia, aquele em que ele atacou a imprensa, principalmente o Público e a TVI, e se vitimou, garantindo que havia contra ele uma campanha negra. Depois Lobo Xavier comparou o discurso do Primeiro-Ministro ao dos autarcas corruptos, quando dizem que está nas mãos do povo a decisão da sua continuação no Governo, e não nas mãos de “um qualquer director de jornal ou de televisão”. Já se sabe que o caso Freeport veio novamente à baila e aí António Costa contra-ataca e as coisas começaram a azedar. Costa, invocou o comunicado da Procuradoria, e hoje percebe-se o alcance daquele comunicado, dizendo que as Autoridade Judiciais não consideravam José Sócrates nem suspeito, nem arguido, nem sequer que estivesse a ser investigado e quem falasse no Freeport alinhava na campanha negra que aqueles media estavam a desencadear contra o Primeiro-ministro.
Para um observador distraído estas personagens pareciam estar muito zangadas. Já assisti na Assembleia Municipal de Lisboa a troca de acusações entre deputados do PSD e do PS que dariam, na vida real, para os intervenientes chegarem a vias de facto ou para nunca mais se falarem e não é que depois os encontro nos corredores em amena cavaqueira uns com os outros, como se nada se tivesse passado. Por isso, apesar do ar zangado de António Costa e principalmente de Lobo Xavier acabou tudo em bem, quando António Costa, dizendo que nisso convergia com o Pacheco Pereira, começou mais uma vez a malhar no Bloco de Esquerda.
Por último duas coisas marginais ao debate. António Costa veio recordar a expressão “um voto na AOC era um espinho cravado na garganta do Cunhal”, que eu referi a propósito da crítica que fiz a um post de Rui Bebiano. A associação de ideias tinha a ver com Espinho, o local onde se tinha realizado o Congresso do PS.
A segunda foi Costa ter afirmado que aderira ao PS, e à sua “luta pela liberdade”, quando este desencadeou o caso República. Triste exemplo este. Hoje sabe-se que o PS utilizou este caso, que nada teve a ver com o PCP, para nacional e principalmente internacionalmente desencadear um campanha mentirosa contra os comunistas que estariam a cercear a liberdade de imprensa em Portugal, aproveitando-se, é certo, da má fama que estes tinham noutros países.
PS. (10/03/09): ao contrário do que costuma aparecer nos media não existe o termo vitimização e vitimizar como eu escrevi neste post e em anteriores, mas sim vitimação e vitimar. Neste ainda resolvi fazer a correcção, em relação aos outros espero que os meus leitores que me desculpem mas que façam eles a alteração.

02/03/2009

“A Campanha Negra”. Congresso do PS – Parte II


Podem alguns vir dizer que “não se deve gastar cera com tão ruim defunto”, ou seja, que o Congresso do PS não vale dois posts seguidos. No entanto, acho que se deve dizer mais qualquer coisa, pois este Congresso entronizou “a campanha negra” contra o seu Secretário-geral e o partido que dirige.
Sócrates e os seus apaniguados já há muito tinham lançado o mote contra “a campanha negra” de que ele e o PS estavam a ser vítimas. Mas foi neste Congresso que se tornou doutrina oficial. A partir de agora há dois tipos de portugueses, aqueles que acreditam na “campanha negra” e os que duvidam.
Mas o mais espantoso é que todos os membros do PS, mesmo quando vestem a pele de comentadores “independentes”, quer António Vitorino, nas Notas Soltas, quer António Costa, na Quadratura do Círculo, assumem em uníssono esse desiderato. As palavras podem ser diferentes, mas no fundo defendem sempre o mesmo: há uma “campanha negra” contra Sócrates e o PS. Santos Silva vai mesmo mais longe, quem a puser em causa está já colaborar com essa campanha.
Neste Congresso “a campanha negra” adquiriu uma forma mais elaborada. Passou a ter o rosto de um director de jornal e de uma televisão. Logo vozes pressurosas se apressaram a descodificar qual era o jornal, o Público, e a televisão, a TVI. Depois era uma carta anónima que ajudava à festa. Com tão pouco, “a campanha negra” não ia longe, mas foi o suficiente para que todos à porfia se esfalfassem para agradar ao chefe e garantir que havia uma campanha.
O PS já é useiro e vezeiro em campanhas negras e cabalas. No caso de Casa Pia estava montada uma cabala para atacar o Paulo Pedroso e o Ferro Rodrigues. Aí, mesmo assim, havia mais probabilidades de acertarem, mas no entanto a direcção daquele partido teve o bom senso de parar com a vitimização, abandonando, e bem, a tese da cabala.
Quanto se fala de “campanha negra”, vem novamente ao de cimo a tese da vitimização que, segundo alguns, poderá render alguns votos, mas principalmente poderá fazer a ponte para aquilo que segundo Marcelo Rebelo de Sousa irá acontecer, ou seja, rapidamente a Procuradoria vai dar por encerrado este caso, provando por A mais B que Sócrates não é suspeito, nem nunca foi. Provavelmente só restarão corruptores e não corrompidos e por isso encerra-se a investigação.
Toda esta prosa, que relata o óbvio, pretende unicamente chamar a atenção para aquilo que mais me confrange em toda esta história que é tornar-se doutrina oficial uma boutade que, em momento mais infeliz, se deixa escapar contra acusações que, segundo o visado, podem parecer injustas. Nesse sentido, só tendo uma clara noção de que vai tudo acabar em “águas de bacalhau” e que Sócrates poderá mais uma vez emergir da adversidade como um vencedor é que se transforma um caso de justiça numa “campanha negra”.

Tudo o mais que se diga do Congresso é inútil, a imprensa os blogs já fizeram o relato completo. Quanto à escolha de Vital Moreira para candidato ao Parlamento Europeu, tenho as minhas dúvidas quanto à sua eficácia. Escolher ex-comunistas para roubar votos aos comunistas já se revelou, no passado, um disparate, principalmente quando o seu afastamento em relação ao PCP é de 180 º. Em relação ao Bloco, parece-me outro disparate, pois naquele partido ninguém se revê na prosa e no discurso apparatchik daquele intelectual, sempre pronto, do ponto de vista ideológico, a justificar os disparates mais irrelevantes de José Sócrates e do seu Governo. Não é pessoa por quem se tenha qualquer admiração intelectual e quem o afirma é que está a fazer figas por trás, pois Vital Moreira é o exemplo, devido aos seus artigos, do chico-esperto que já em tempos acusei alguns do porta-vozes do PS. Para a direita, por outro lado, tem suficientes anti-corpos de esquerda que não justificam que se gaste cera com tão ruim defunto. E acabo assim como comecei.

“Partido oportunista, que parasita a desgraça alheia”. O Congresso do PS – Parte I


Foi com esta acusação forte que António Costa se referiu ao Bloco de Esquerda no Congresso do Partido Socialista. Estava dado o mote, o Bloco seria naquele Congresso o bombo de festa, e não fui só eu que notei, todos os comentadores se referiram a isso.
Mas, acrescentemos alguns pormenores. No noticiário da noite de Sábado da SIC, Ricardo Costa, irmão de António Costa, dá conta deste assunto da seguinte maneira: “comecemos por recordar aquela que é sem dúvida a polémica política do momento, a picardia violenta entre o Bloco de Esquerda e o Partido Socialista”. Estranha forma de relatar uma “picardia”, empregando o sua expressão, que tinha sido começada, sem aviso prévio, por António Costa, do PS, no discurso que tinha pronunciado de manhã no Congresso e não pelo BE. A resposta dada à hora de almoço por António Louçã, na comemoração do décimo aniversário do seu partido, esteve à altura: “tanta raiva, e tanto insulto grotesco, porque eu pergunto ao país, quem são os parasitas? …”, já se imagina quem eles são. À noite António Costa reage (não tenho link para estas declarações) em entrevista a uma TV: “caiu a máscara ao BE, afinal revelou-se como ele é”. Não se percebe depois dos mimos da manhã de António Costa qual deveria ser a resposta do Bloco, diria que estava de acordo e que para a próxima iria portar-se melhor. Como não foi esta, afirma-se que lhe caiu a máscara. Quem me parece que ficou completamente desmascarado foi António Costa, que se portou como José Lello, porque depois do que disse, nunca mais pode vir para a Câmara de Lisboa reclamar pela unidade de esquerda.
O mais espantoso na intervenção de António Costa foi as razões que ele invocou para a ruptura do acordo com o BE. Segundo o Presidente da Câmara, o acordo com o Bloco de Esquerda foi escrupulosamente cumprido por ele, coisa que “eles”, BE, “nem sequer contestam”, mas estes ao verem reforçadas as competências de José Sá Fernandes, eleito como independente nas suas listas, “como são alérgicos a assumir qualquer responsabilidade governativa”, resolveram romper o acordo. Completa mentirola. Primeiro, o BE nunca rompeu o acordo com o PS, mais, este assunto até foi objecto de votação na assembleia concelhia, e a posição de romper o acordo não foi aprovada. Segundo, a ruptura verificou-se com o seu vereador independente, que deixou de ter o apoio daquele partido por razões completamente diferentes. Pelas posições assumidas por Sá Fernandes numa série de dossiers, principalmente em relação aos contentores de Alcântara. Assim, pela voz de António Costa fica o Bloco a saber que este e o PS, consideram que o acordo deixou de valer, e que uma ruptura entre o Bloco e o seu vereador é interpretada por aquele como uma ruptura entre o BE e o PS.
Algumas consequências o BE tem que tirar deste caso. Acordos desta natureza têm que ser assumidos com menos ligeireza e ser mais bem estruturados, de modo a que não seja assacada ao Bloco as responsabilidades da ruptura de acordos com um partido, que como ficamos agora a saber, é pouco sério nestas trapalhadas.
Não foram só estas as referências ao Bloco, também o “inefável” José Lello, se pronunciou sobre aquele partido. Com a subtileza de um elefante, lá foi defendendo que o Bloco fazia purgas ao estilo estalinista ou trotskista (tem que se decidir por um deles). Ainda pensei que fosse a Joana Amaral Dias, mas não, era o José Sá Fernandes que, não sendo militante do Bloco, era assim purgado por este. Triste sina de quem tem militantes com esta subtileza.
Os comentários gerais a estes factos eram de que tinha sido um erro o PS neste Congresso ter erigido o BE como o seu principal inimigo. Hoje, Marcelo Rebelo de Sousa, no seu comentário semanal na RTP I, afirma que o ataque do PS nada tem a ver com o medo de perder eleitores para aquele partido (eu não estaria tão confiante como Marcelo) mas sim para apelar ao centro para que votem no PS e lhe dêem a maioria absoluta, porque senão terão o Bloco, que frequentemente foi acusado de partido radical e extremista, a dificultar a acção do Governo. Ou seja, a velha táctica anti-comunista, que tanto êxito teve nos tempos do PREC, ou o PS ou a extrema-esquerda.
Em próximos post irei falar mais deste Congresso.