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21/02/2011

Duas formas de cepticismos a propósito da revolta árabe – I

Pacheco Pereira (PP) há muito que queria discutir na Quadratura do Círculo a questão do Egipto. Não o conseguiu. Vem agora num artigo no Público, de Sábado, e na sua rubrica semanal na SIC Notícias, Ponto Contraponto, dar a sua opinião sobre o que se passou naquele país.

O artigo do Público denomina-se mesmo Uma Narrativa Bizarra (sem link). Percebe-se logo que PP não está de acordo com a história que nos andam a contar sobre o que se passou no Egipto e, por tabela, na Tunísia. Uma revolução de cariz democrático-liberal encabeçada pelas massas educadas e utilizadores dos novos instrumentos comunicacionais, como os telemóveis, o Facebook, a net, etc.
Mas quem, segundo PP, nos anda a contar ou a vender esta história, são os media dominantes, esta última palavra é minha, que transformam as massas do Cairo e de Tunis nos bons e os ditadores nos maus. Para PP não se trata de uma revolução mas sim de uma revolta, a revolta árabe. Neste ponto até somos capazes de estar de acordo. Quanto ao resto acho graça: quem vive permanentemente através dos media – começa à quinta-feira na Quadratura do Círculo, penso que nesse mesmo dia tem uma coluna na revista Sábado, passa pelo Público ao fim-de-semana, e termina no Ponto Contraponto, da SIC Notícias, ao Domingo – não se pode queixar muito de que não seja um dos principais condicionadores dos media dominantes. Podemos afirmar que eles manifestam uma opinião à revelia daquilo que PP queria que eles dissessem.

Mas quais são os argumentos de PP para desconfiar que afinal os bons não são tão bons como se anda por aí a dizer. Primeiro, o ataque, com cariz sexual, a jornalistas que faziam reportagens na Praça Tahrir e ainda por cima chamando-lhes judias. Ora que eu saiba só vi uma jornalista queixar-se de ter sido molestada sexualmente, não vi várias, como diz o PP. Mas já uma é o suficiente. No entanto, ouvi dizer que os apaniguados de regime atacaram diversos jornalistas, mas isso não relata PP. Por outro lado, chamar judia no mundo árabe a alguém, e nesta altura, é o mesmo que, logo a seguir ao 25 de Abril, acusar-se um cidadão de ser da PIDE. As barbaridades cometidas por Israel em Gaza, são de tal ordem que nos permitem fazer a comparação, ficando aquela polícia muito mais bem colocada. Por isso, não me espanta nada que aquela acusação, apesar de não ser verdadeira, tivesse as consequências que teve. Mas, como em todos os casos deste tipo, é tomar a Nuvem por Juno. Se alguém tivesse dado no Rossio uns tabefes a um inocente cidadão, acusado injustamente de ser da PIDE, não se ia dizer que o povo que saiu à rua a festejar a libertação de Portugal da ditadura, não manifestava um enorme desejo de liberdade e democracia.

Mas a segunda razão invocada por PP é de uma reportagem em que se vê a multidão que estava concentrada na Praça a ajoelhar-se na sua totalidade e a rezar a Alá. Neste caso o PP poderá ter alguma razão, fazendo a comparação com os padrões ocidentais dos tempos modernos, posteriores à Revolução Francesa. Mas ainda não há muito tempo se viam as tropas e as massas apoiantes de Franco a rezar em público, contra os “malfeitores” comunistas e republicanos. É evidente que não estavam a fazer uma revolução, até porque no Ocidente todas elas se fizeram contra a vontade da Igreja. Mas já agora, eu não vi, mas não teria havido na Polónia umas missazinhas colectivas em glória do Solidariedade ou antes dos grevistas partirem para a luta? Tenho algumas dúvidas. Mas, nas informações prestadas nos media falou-se que os cristãos coptas do Egipto tiveram também direito à sua oração, com grande compreensão dos seus irmãos muçulmanos. No entanto, PP argumenta que se fossem agnósticos ou ateus, ou seja, se não se ajoelhassem, teriam tido problemas. Concordo, mas quem combateu no mundo árabe os lideres que defendiam a laicidade do estado? PP afirma que eram todos ditadores ou ligados a invasões estrangeiras, dos soviéticos, quer ele dizer. Mas o que fizeram os seus amigos do Ocidente? Puseram outros ditadores e organizaram outras invasões que em nada resolveram este problema.

Mas que pretende PP com todo este cepticismo? Instalar a dúvida entre todos os apoiantes da revolta árabe. Não serão eles afinal os mesmos fundamentalistas que dominam o Irão? Não quererão eles atacar o Ocidente ou destruir o Estado de Israel? Esta é pois a posição de PP. Por isso, eu concluiria que ele pensa que mais vale uma mão de ferro a controlar aquelas massas desordeiras e perigosas do que acreditar que o que elas querem é estabelecer uma democracia igual à do Ocidente. PP é um neo-conservador, que não vai cá em modernices, nem na fúria libertadora das massas. Ordem e disciplina, porque nunca se sabe o que elas desejam. Pacheco Pereira comporta-se aqui como o velho Salazar, que desconfiava sempre da vontade do povoléu.

Este é pois uma das formas de cepticismo. Num segundo post farei referência àquele que me assalta em contraposição a algumas das afirmações cheias de optimismo de muita da esquerda da nossa praça.

12/02/2011

O BE quer desenvolver uma cruzada contra os ricos e os bem sucedidos

Teve lugar, na passada 5ª feira, mais uma daqueles deliciosos programas “cheios de contraditório”, como o Pacheco Pereira gosta, chamado  Quadratura do Círculo, na SIC Notícias.
Como se sabe, a discussão decorre à volta de uma mesa entre um jornalista, que faz perguntas e modera os tempos de intervenção, e três figurões da nossa praça política: o Pacheco Pereira, deputado do PSD e intelectual, o António Lobo Xavier, militante do CDS e pertencendo em não sei quantos Conselhos de Administração, e António Costa dirigente importante do PS e Presidente da Câmara de Lisboa. Já se sabe que a maioria das vezes é uma luta de dois, a direita unida, contra um, o PS oficialíssimo. Mas, por vezes, como sucedeu agora, a propósito do aviso da moção de censura do Bloco de Esquerda, os três contra a esquerda, à esquerda do PS, principalmente contra o BE.
Já diversas vezes, me tenho referido a esta programa, a que muitos não ligam nenhuma, mas que reflecte um modo de pensar, nem sempre alinhado dos dois da direita, mas sempre oficial da parte do representante do PS, que já foi o Jorge Coelho e agora é o António Costa (AC).

Parece, segundo percebo, que os temas a discutir são propostos pelos participantes e desta vez estava em cima da mesa, da responsabilidade do AC o caso, bastante trágico, da velhota que esteve nove anos morta no seu apartamento, e de todos o aviso da moção de censura do BE.
O AC, que gosta destes temas populistas, lá introduziu o caso da velhota, fazendo um ar de indignação, e o Pacheco Pereira com sobranceria, de quem não discute coisas menores, a dizer que não estava interessado no tema, o que gostava era de discutir o caso do Egipto ou o da não entrega do relatório ao público sobre o que aconteceu no dia das eleições presidenciais, relativamente às dificuldades em votar. António Lobo Xavier, um pouco na mesma linha, termina a dizer que “à morte e aos impostos ninguém escapa”, o que neste caso era absolutamente verdade, já que foi devido a uma penhora das finanças ao apartamento da velhota que se descobriu o corpo dela.

Mas o que me interessa, depois deste longo arrazoado, foi de facto a fúria com que os três atacaram o BE a propósito do aviso feito por Louçã de que este iria apresentar uma moção de censura contra a política de direita seguida pelo Governo.
Destaquemos algumas frases de fino recorte literário, qualquer delas de Lobo Xavier a primeira a dizer que “a táctica do BE é de restaurante do Bairro Alto” e depois a acrescentar a frase que serve de título a este post.
AC faz o grande elogio do PCP, falando da sua inserção nos trabalhadores, garantindo que o BE é um fenómeno efémero, que não representa nada. PP acha que mesmo assim há camadas educadas, radicais e citadinas representadas pelo Bloco. O problema para Pacheco é que a liderança é ainda muito leninista, muito comunista, no sentido do comunismo radical, infantil diz o Costa, Pacheco Pereira aduz, sim naquele sentido em que Lenine chamava a doença infantil do comunismo. E PP acrescenta, eles actuam assim porque a sua direcção é trotskista, comunista e leninista. Caramba, como em tão pouco tempo tantas acusações perigosas e subversivas foram dirigidas contra o Bloco. Que inveja não sentiram os do PCP por isto não ser dirigido contra eles. Salva-se o Lobo Xavier, que no final, depois de AC e PP garantirem que o PCP era um partido fiável e que respeitava os acordos que se estabeleciam com ele, garantia que os outros se estavam a esquecer que o PCP era comunista, estatista, totalitário e apoia os regimes de Cuba e da Coreia do Norte. Ah! Caramba, despejou o saco.

No meio de isto tudo pareceu-me claro que do PS vem aí um ataque em forma ao Bloco, tentando passar a mão pelo pêlo do PCP. Não sei se será esta a estratégia do Sócrates?
E que o a direita, pela voz daqueles dois comentadores, não estaria com muita pressa em derrubar o Governo, excepto alguns homens do aparelho desejosos de ocupar taxos.
Pacheco Pereira perguntava mesmo que campanhas iriam fazer os partidos se houvesse agora eleições. O PS vitimizar-se-ia, apontando todas as malfeitorias que a subida do PSD ao poder acarretaria para o país. O PSD ou falava verdade, descrevendo as desgraças que nos esperam, e não tinha votos, ou prometia coisas que não podia dar e fazia uma campanha desonesta. Isto diz PP.

O Bloco Central, apesar dos insultos que todos os dias os partidos que o integram trocam entre si , está ainda para ficar. E a Quadratura do Círculo mais uma vez a demonstra como é bom apelar ao contraditório, mas não o aplicar.

17/12/2010

A propósito da WikiLeaks


Penso que a esquerda, através do meio que tem à sua disposição, que é principalmente a blogosfera, já disse quase tudo sobre a WikiLeaks e a direita já escreveu nos jornais de referência tudo aquilo que a indigna, ou seja, que se tem que preservar a diplomacia dos seus amigos americanos ou, muito mais bem dito, dos países ditos democráticos. Quanto aos que estão no meio, tudo que descredibiliza o seu “cavaleiro andante” José Sócrates e o seu aio Luís Amado provoca-lhe mau estar. Para estes dois últimos grupos a WikiLeaks é uma alvo a abater.

Veio-me à memória sobre este assunto um episódio histórico e um filme que eu acho que se aplicam muito bem a este caso. O primeiro refere-se à divulgação pelo Governo Bolchevique, depois da conquista o poder, em 1917, em plena I Guerra Mundial, de todos os tratados secretos que existiam entre a Entente (França e Inglaterra) e o defunto Governo czarista e que punham a nu os objectivos imperialistas daquelas potências, que em nome de elevados princípios lançavam para a morte milhões dos seus cidadãos. Hoje quando o Império arrasa e destrói dois países – o Iraque e o Afeganistão – é bom que alguém nos desvende os segredos desta diplomacia de morte.

O segundo é um filme muito antigo, que só os da minha idade se recordaram de ter visto, de Alexander Mackendrick, que em inglês se chamava Sweet Smell of Success, mas que passou nos nossos ecrãs com o nome de Mentira Maldita. O filme é de 1957, estreado em Portugal em 1959, e tinha como actores principais Burt Lancaster e Tony Curtis, recentemente falecido. Acusava-se aí um determinado músico de Jazz, não querido da personagem importante desempenhada por Burt Lencaster, de ser “vermelho” e estar na posse de droga, que previamente lhe tinha sido metida na algibeira do sobretudo. A primeira acusação arruína-lhe a carreira e a segunda leva-o à prisão, pela mão do FBI. Quando hoje vimos Assange, o homem do WikiLeaks, ser acusado de ter sexo não consentido com duas mulheres adultas e deste não ser seguro, e por isso ser vítima de um mandato de captura internacional, vem-me à memória aquele filme e como hoje, principalmente na Suécia, as acusações de ser comunista já não arruínam carreiras, nem ninguém vai para a prisão por fumar a sua dose individual de droga. Mas praticar sexo não seguro ou fazê-lo sem este ser previamente autorizado, pode acarretar prisão. Depois vêm os moralistas afirmar que dois juízes, o sueco e o inglês, não prescindiam da sua independência para acusarem Jules Assange. Quem sou eu para duvidar disso, bastava que, tal como no filme, as duas mulheres fossem pagas pela CIA para atestarem toda a veracidade da história, coisa que aos olhos de qualquer cidadão normal não é impossível de acontecer.

Restam duas questões e uma dúvida sobre os dois pesos e as duas medidas do Sr. Pacheco Pereira. A primeira questão dirige-se aos que acham bem que se divulguem as falcatruas dos governos, mas que se deve preservar o segredo diplomático, porque sem isso não havia vida diplomática. Eu diria que todo o segredo é por natureza para ser revelado e que não há telegramas de embaixadas bons e outros maus. Quem é que decide? Para mim é extremamente útil saber que o Sr. Cavaco Silva é um despeitado, que faz política conforme é recebido ou não na sala Oval da Casa Branca, o que só vem confirmar a mediocridade da personagem. Com certeza que o homem do Millennium BCP não gostaria que dissessem que ele se ofereceu como espião aos americanos. Contudo, é extremamente importante saber como actuam os nossos banqueiros. Por isso a fronteira entre diplomacia séria e desonesta é muito ténue. Ao menos que eu possa escolher aquilo que me interessa. Por outro lado, estas revelações aconteceram agora, o Governo americano tomará de certeza as precauções devidas para evitar no futuro situações semelhantes. Não se apoquentem que o mundo não viverá no permanente sobressalto sobre as revelações constantes do segredo diplomático.

A segunda é a crítica de que a WikiLeaks não divulga nada sobre as ditaduras. Já se sabe que certos senhores gostariam de ter informação sobre as ditaduras que não gostam, porque relativamente às amigas dispensavam essa informação. Mas não há todos os dias, para aqueles países que são objecto da raiva do “ocidente”, informação abundante? Quem é que não sabe o que se passa em Cuba, na Venezuela, na Birmânia, na China, na Coreia do Norte ou no Irão? A informação que desconhecemos é sobre o que é que os Estados Unidos ou a UE andam a fazer nas nossas costas, pois sobre aqueles países tudo nos é dito e algumas coisas são mesmo inventadas. Nós sabemos é pouco sobre o que se passa na Arábia Saudita e noutros principados amigos do “ocidente”.

Por último os dois pesos e as duas medidas do Sr. Pacheco Pereira. Não foi ele que mais se entusiasmou com a revelação das escutas telefónicas a José Sócrates? Não achava ele, ao contrário dos socialistas, que sendo elas do domínio público podiam ser discutidas e comentadas? Porque é que agora se amofina tanto, escrevendo um artigo descabido sobre o acesso das massas ao conhecimento generalizado dos segredos diplomáticos? É porque a sua idolatrada América está em causa? É por isso eu falo da duplicidade daquele Sr.
PS. (28/12/10). Mão amiga informou-me, com toda a razão, que não era Entende, mas sim Entente (Entente Cordiale). Já está corrigido. Desculpem qualquer coisinha.

13/07/2010

A história da Carochinha de Pacheco Pereira


O Público de Sábado publicou dois artigos, um de Pacheco Pereira, Uma história da Carochinha que passa por ideologia, e outro de São José Almeida, A esquizofrenia política do PS. Qualquer deles referia-se às Jornadas Parlamentares do PS, que se tinham realizado nessa semana, e àquilo que tinha sido dito por Mário Soares, Ferro Rodrigues, Paulo Pedroso e pelo próprio José Sócrates contra o discurso neo-liberal e o PSD. No Domingo, Marcelo Rebelo de Sousa, no seu comentário semanal que agora mantém na TVI, disse que as afirmações lá proferidas constituíam uma viragem à esquerda do PS e um começo de apoio a Manuel Alegre e ao mesmo tempo um abandono por parte daquele partido da sua ancoragem ao centro, que foi deixado ao PSD. Por outro lado, é também uma tentativa de ir buscar votos à esquerda, BE e PCP, para o seu candidato presidencial.
Antes de me debruçar sobre os dois artigos referidos e para os quais não disponho de links, gostaria de comentar as palavras de Marcelo. O PS não necessita de fazer um discurso de esquerda por causa do seu candidato presidencial, este fá-lo por si, e já vai buscar garantidamente votos ao Bloco de Esquerda, que lhe deu o seu apoio. Este partido é que tem que elaborar um discurso de apoio ao candidato que seja exequível para os seus eleitores.

Quanto aos dois textos do Público eles são o exemplo de duas leituras, uma de esquerda, outra de direita da mesma realidade. O de São José Almeida, que é de esquerda, desmonta muito bem a esquizofrenia do PS, que na prática pratica uma política neo-liberal, conjuntamente com Passos Coelho e o PSD, e na teoria se afirma contra ela. O mais interessante naquele artigo é afirmação de que todas as declarações do PS foram feitas com ar negligente, sem qualquer base em textos teóricos previamente distribuídos, nem em reflexões anteriores. E, pior ainda, depois de ditas ninguém retirou qualquer consequência prática. Podia-se dizer que foram feitas para épater le bourgeois.
O outro, o de Pacheco Pereira, que é de direita, tenta, como o anterior, desmontar as afirmações do PS, considerando a narrativa dos acontecimentos que aquele partido elaborou e que levaram ao aparecimento do neo-liberalismo e da crise económica actual como uma história da Carochinha que passa como a posição ideológica do PS. Mas, ao mesmo tempo diz desconhecer o que é o neo-liberalismo e aponta o excesso de gastos sociais como a razão da actual crise .
Neste seu texto PP recorre a algumas das piruetas que costuma utilizar noutros artigos. Primeiro o ataque aos jornalistas. Afirma que estes engolem como verdadeiras todas as proclamações que lhes querem vender. Assim, acreditam que o PS está a discutir ideologia, quando afirma que é por uma opção ideológica que não embarca no neo-liberalismo do PSD. Já se sabe que aqui tem razão, os jornalistas tenderão sempre a simplificar tudo e a engolir como boas todas as frases feitas que lhes queiram vender. Mas isto tanto sucede com o PS, como com o PSD e CDS. Já não é tão fácil aceitarem como boas as opiniões do Bloco ou do PCP.
Depois PP recorre a alguns truques da sua velha cultura de esquerda para, lembrando Althusser, dizer que a esquerda já se esqueceu do marxismo, pois aquele filósofo francês afirmava que a ideologia, era uma visão destorcida, de classe, da realidade, opondo-a ao conhecimento científico do socialismo. Que o PS se esqueceu do marxismo não tenho a mais pequena dúvida, que Sócrates nunca soube o que era é para mim uma certeza, mas não venha PP meter tudo no mesmo saco e reduzir uma questão complexa que sempre foi motivo de discussão e aprofundamento entre marxistas, de que Althusser foi uma das partes, à ignorância dos actuais mentores do PS. Mas recorramos ao significado fraco que é dado ao termo ideologia no Dicionário de Política, de Norberto Bobbio e outros: "o sistema de crenças políticas, conjunto de ideias e valores cuja função é a de orientar comportamentos colectivos relativos à ordem pública". Segundo aqueles autores, o significado forte seria, na esteira de Marx, uma distorção do conhecimento. Mas não é nesta acepção que Sócrates e companhia o utilizam. Por isso PP mostra uma erudição descabida.
Depois todo o texto, na sequência da intervenção que PP já tinha feito na Quadratura do Círculo, da SIC Notícias, pretende baralhar quem foram os estatistas, termo agora em voga, e os neo-liberais, chegando à conclusão, que os Blairs, os Clintons e companhia é que foram neo-liberais e que o Chirac, de direita, é que foi o estatista. E que cá em Portugal, Sócrates é que neo-liberal de serviço.
PP não deixa de ter a sua razão, a esquerda social-democrata, há muito que deixou de defender, aquilo que lhe restava que era o estado social e, em seu nome, tem vindo a recuar, até ser difícil separá-la dos neo-liberais. Mas não tenhamos dúvidas o neo-liberalismo, com os rapazes de Chicago a darem cartas, começou sem dúvida nenhuma com a dupla Thatcher–Reagan. E que agora, aproveitando esta onda de crise e de endividamento dos estados para acudir à economia da casino dos bancos, estão na disposição de destruir de vez com o estado-social, continuando, com a caução dos socialistas, a dizer que é para o defender.
Pacheco Pereira numa verdadeira operação de mistificação política chega ao ponto de afirmar que quem destruiu o estado-social foram aqueles que o engordaram e que agora com a diminuição demográfica e a globalização já não é possível continuar a mantê-lo. Ora é aqui que a esquerda não social-democrata, nem comprometida com a Terceira Via blairista, tem que argumentar que o que se verifica é um excesso de produção e uma diminuição acentuada da taxa de lucro do capitalismo, que necessita da privatização das funções sociais do Estado e do dinheiro que este lhe cobra em impostos.
Na Quadratura do Círculo, Pacheco Pereira termina afirmando porque é que os ricos não pagam a saúde, achando que o SNS deveria ser só para os pobres, esquecendo que os ricos podem sempre recorrer à saúde privada, e que é a classe média que é incapaz de pagar a saúde quando ela chega a valores perfeitamente insuportáveis. Tenha Pacheco Pereira um cancrozinho e veja o que teria que pagar por um tratamento de quimioterapia num hospital privado, mesmo tendo um seguro de saúde, que nessas condições raramente é possível fazer. Até guinchava e não lhe estou a rogar essa praga
Pacheco Pereira é pena não discutir, porque não quer, com os que lhe podiam fazer frente, apanha sempre com gente comprometida com o enterro que a social-democracia nacional e europeia está a fazer ao estado-social.

PS., (13/07/10): Com os mesmos argumentos e contando uma fábula igual, agora substituindo, no título, Carochinha por vulgata, aqui temo mais um texto de Pacheco Pereira na revista Sábado, sobre A vulgata ideológica dos socialistas, e transcrito no seu blog. Assim é fácil ganhar a vida. Começa-se num sítio a dizer uma coisa e depois transpõe-se com algumas alterações parar os outros locais onde colaboramos. Assim, temos a semana feita, com o mesmo argumentário recebe-se de três órgãos de comunicação social diferentes.

19/05/2010

Pacheco Pereira contradiz página oficial do Vaticano


Aos domingos, Pacheco Pereira (PP) tem um programa na SIC Notícias, chamado Ponto Contra Ponto, onde atribui notas, não numéricas, mas qualitativas, a diversos programas de televisão ou a artigos de jornais. Conhecendo a idiossincrasia de PP não é difícil adivinhar quem é que ele classifica como tendo feito bom ou mau trabalho. Mas esta sua arrogância soberana, que lhe permite classificar os mortais segundo a sua sobranceira opinião, atingiu nesta semana o cúmulo da ignorância e a deliberada manipulação das consciências.
Tal como a sua camarada Zita Seabra, mas esta tendo chegado mesmo à conversão, PP manifesta um grande respeito pela religião católica e principalmente por este Papa, não só porque lhe atribuiu grande grau de cultura, mas porque o considera conservador, defensor dos valores oficiais da direita católica. Nesse sentido, e sendo ele agnóstico, segundo já o afirmou, sempre que pode vem em defesa do Papa e dos valores que ele possa representar. Assim, teve o desplante de criticar uma jornalista da SIC por esta ter afirmado que aquele Estado era uma monarquia absoluta. Esta referiu também a data da criação do Estado do Vaticano, mas talvez por pudor não assinalou que este tinha resultado de um acordo entre o Papa da época e o Governo de Mussolini.
Que foi ela dizer. PP atribui-lhe mau trabalho, porque o Estado do Vaticano não era uma monarquia absoluta. Os Papas não têm filhos, portanto não é uma monarquia, e muito menos absoluta, já que se guia por muitas das regras do Estado Italiano, que é democrático.
Sucede que o Esquerda Republicana foi consultar o site oficial do Estado do Vaticano e não é que o próprio se considera uma monarquia absoluta, já que "o Chefe de Estado é o Sumo Pontífice, que tem plenos poderes legislativo, executivo e judicial."
Grande calinada oh! Pacheco, para outra vez mete a viola no saco.

Assisti não só às afirmações da jornalista da SIC Notícias e comentei: valente jornalista que classifica de absoluto o Estado do Vaticano, como ao programa de Pacheco Pereira, mas quem me alertou para o assunto foi um post de Joana Lopes, no Vias de Facto, que remete para o blog Esquerda Republicana, já referido, e este para a página oficial do Vaticano. O meu obrigado a todos que denunciaram este mau trabalho de PP.

22/03/2010

Ainda não levou com a última pazada de terra


Quando da publicação pelo SOL das escutas aos boys do PS, havia muito boa gente que dava o José Sócrates como morto. Garantiam mesmo que estava por dias, mesmo que esses dias fossem meses, já que a Assembleia não podia ser dissolvida senão a partir do final de Março ou princípio de Abril, não sei as datas precisas. A verdade é que o defunto não estava tão bem enterrado como os seus opositores desejavam.
Tal como afirmei em post anterior, Sócrates lançou uma contra ofensiva, que não lhe saiu tão mal como se podia pensar, visto que culminou, para sua sorte, na desgraça da Madeira, onde pôde aparecer como homem conciliador que, em nome do interesse nacional, esquece até os seus inimigos pessoais.
Depois teve a aprovação do Orçamento, umas sondagens que lhe são favoráveis e até esse fait-diver inventado por Santana Lopes que é, como a imprensa pressurosa lhe veio a chamar, a lei da rolha. Pelo caminho temos o PEC, que anda a causar alguns engulhos à direita, porque apesar de o criticar, não consegue deixar de exultar com algumas das medidas propostas, que lhe facilitariam muito a vida se alguma vez for Governo.

É evidente que no meio disto temos os candidatos à presidência do PSD, cada um a tentar mostrar quem é que faz mais peito ao Governo. Assim, saltam propostas de moções de rejeição de todos os lados, apesar de ter dúvidas se, depois de eleito, o vencedor irá apresentar uma moção desse tipo. Só se juntarmos a fome com a vontade de comer, ou seja, se a pressa de chegar ao poder for tão forte que o eleito se lance, sem medir as consequências para o seu partido, em algum raid suicida.
Pacheco Pereira, na última Quadratura do Círculo, prevendo provavelmente a vitória de Passos Coelho, que ele detesta, foi dizendo que os tempos não estavam fáceis para o PSD. E porquê? Porque, segundo ele, o partido só cresce em alturas de expansão económica, quando os empreendedores pensam que poderão fazer o caminho sozinhos, sem a ajuda do Estado ou, segundo afirma, “quando a sociedade tem forte mobilidade social”. Os tais famosos self-made men (ver este meu post) que lhe são tão caros e que podem ser representados por essas duas figuras tão prestimosas como são Oliveira e Costa e Dias Loureiro. Nos tempos de crise, em que todos se vêm abrigar nas asas do Estado, é mais provável ser o PS a crescer, porque, como diz, hoje a sociedade portuguesa “castrou esse dinamismo social”. Isto não tem pernas para andar, mas dá bem a ideia da visão pessimista que Pacheco Pereira tem do seu Partido.

Resta, a tão famosa ala esquerda do PS, que parece que em relação a este PEC resolveu vir distanciar-se dele. No entanto, e não subestimando as importantes declarações de Manuel Alegre e até, parece, os estados de alma de Vieira da Silva, a verdade é que penso que esta corrente, representada por algumas figuras institucionais do PS e não propriamente pelos outsiders mais conhecidos ou pelo conjunto de votantes de esquerda, é tão impotente em relação àquele partido como os renovadores comunistas o foram em relação ao PCP. Por razões diferentes, nem os primeiros conseguem romper com o PS e afirmar-se como corrente independente, nem os segundos são capazes de estabelecer uma corrente de opinião que seja verdadeiramente comunista e renovadora.

Feitas estas apreciações políticas, um pouco desconchavadas e muito descrentes de uma alteração rápida da situação, resta-me esperar para ver no que é que irá dar esta Comissão de Inquérito à compra da TVI pela PT e para saber se o primeiro-ministro mentiu ao Parlamento. O seu êxito ou fracasso trará, quanto a mim, algumas consequências para o Bloco de Esquerda, um dos seus promotores, já que numa manobra de antecipação José Sócrates, com grande descaramento, veio falar numa Santa Aliança entre a esquerda, que pretende ser esquerda, e o PSD. Mas isto é o papel que lhe compete, temos é que estar preparados para estes truques de prestigiador em fim de carreira, apesar de eu pensar que ainda faltam algumas pazadas para o enterrar de vez.

15/02/2010

O que nos está a acontecer – a Situação Política


Não quero deixar de começar este meu novo post sem referir um outro que encontrei no blog António Garcia Pereira, pela mão de Joana Lopes, do Entre as Brumas da Memória.
Aquele dirigente do MRRP, primeiro, levanta-se indignado contra a divulgação das escutas e o incumprimento da providência cautelar e depois termina dizendo: “É óbvio que Sócrates deve ser derrubado do poder, e merece-o por inteiro devido não apenas à política anti-popular e anti-patriótica do seu Governo como também à sua insuportável e ditatorial arrogância. Mas deve sê-lo pelos métodos políticos democráticos, abertos e claros e não por manobras executadas como meios ínvios, ilegais e democraticamente incontroláveis. Mas a verdade é que agora, e fruto dessa mesma sua postura de altivez, a saída de Sócrates do poder é já e cada vez mais, inclusive dentro do próprio PS, uma mera questão de calendário…”
Apesar de Garcia Pereira ser professor de direito e, por isso, respeitar intransigentemente a lei, isso não lhe deve toldar o raciocínio político. Enquanto Sócrates, com o apoio da direita, praticava aquela política "anti-popular e anti-patriótica" tinha índices de popularidade elevada e o PS garantia a maioria absoluta. Quando se começou a falar da sua licenciatura e depois do Freeport essa popularidade começou a baixar e o PS ficou-se pela maioria relativa. Bem pode agora Garcia Pereira dizer que é “uma mera questão de calendário” a “saída de Sócrates”, não fossem os casos que o Primeiro-Ministro foi criando, por culpa dele, evidentemente, ainda hoje o teríamos vitorioso à frente de uma nova maioria. Isto não quer dizer que valha tudo na luta política, apesar de não estarmos muito longe disso, mas as informações que obtivemos do que ele andava a tramar e sobre o seu carácter foram indispensáveis para o país perceber quem o governa.

Dito isto, eu compreendo o que atormenta Garcia Pereira e toda esquerda. No PCP por exemplo, quase que não se fala das escutas. Num blog, como o Castendo, de António Vilarigues não há uma única referência a este caso. É que quem está a comandar as operações ou a usufruir vantagens dela é a direita. São os seus homens de mão os principais actores deste melodrama. Garcia Pereira cita os exemplos de José Eduardo Moniz, que é fresco, ou das atitudes passadas do Arquitecto Saraiva, do SOL. Ninguém vê neles, excepto Pacheco Pereira (último Ponto, Contraponto), paladinos da liberdade. Mas, como diz o povo, “zangam-se as comadres sabem-se as verdades”. Por isso, considero esta situação de desgaste do Sócrates importante. Porque, lamento informar, ela dificilmente se alcançaria unicamente pela luta popular, conseguiram os professores em circunstâncias muito particulares e com uma Ministra que era um desastre.
Pelo que atrás se disse a esquerda teme que o apodrecimento da situação política traga a vitória da direita e de tudo aquilo que ela tem vindo a ameaçar fazer. Por isso trata este assunto com pinças. Só os meninos rabinos do 5 Dias (sem links específicos) é que resolveram, com grande ardor revolucionário, misturara-se, numa manifestação fracassada, com a gente da direita que defendia a liberdade de expressão.
Mas não podemos adiar por muito mais tempo o esclarecimento da situação política. Temos que nos preparar para novas eleições, para descermos à rua ou para exigirmos um novo Governo do PS, que dê um novo ânimo à esquerda e ao país. Não podemos deixar a situação arrastar-se e depois esperar, por milagre, que alguns votos da desagregação do PS nos caiam no regaço.
Pode ser que tudo passe e só depois das eleições presidenciais esta situação se resolva. É este o timing do Professor Marcelo. Mas quanto a mim pode ser que o assunto se resolva mais cedo. Mas tudo isto tem que ser discutido e pensado, mas acima de tudo temos que nos organizar para a luta, que os tempos que aí vêm não vão ser fáceis.

25/09/2009

Zangam-se as comadres, sabem-se as verdades


Escrevi um post sobre o problema das escutas e a luta do Presidente da República contra o PS/Governo, ou vice-versa, para influenciar o resultado destas eleições. Utilizei deliberadamente um tom duro e que deixava pouca margem entre as desonestidades de uns e as falsidades de outros.
Ontem ao ouvir a Quadratura do Círculo, da SIC Notícias, achei que o que tinha escrito era uma conversa de anjos, comparada com o que aqueles senhores disseram no programa.
Lobo Xavier mais informado, por ser da administração do Público, foi dizendo coisas espantosas, que, penso eu, sejam todas verdadeiras. Assim, o e-mail enviado para a Madeira existia e tinha aquele conteúdo. Bem pôde o José Manuel Fernandes andar a dizer que era falso ou outros a garantirem que era truncado, ficámos agora a saber que nada disso era verdade.
Segundo, houve uma “toupeira” – expressão do Lobo Xavier – dentro da redacção do Público, que passou cá para fora o e-mail de um colega e foi entregá-lo a alguém (?), que o levou a uma agência de comunicação, que segundo Pacheco Pereira trabalha para o PS. Pelo contrário, António Costa (AC) defendia que se devia prestar uma homenagem ao jornalista desconhecido que tinha conseguido restituir a dignidade a um jornal, que já tinha sido de referência. Isto foi dito, não estou a inventar.
Pacheco Pereira garantia que a agência de comunicação tentou colocar o e-mail em várias redacções de jornais, tendo o Expresso recusado a sua publicação.
Estas foram as revelações mais importantes, que permitiam a Pacheco Pereira (PP) deduzir que o PS tinha montado esta tramóia para atacar o PSD. António Costa, com ar de santo, a expressão não é minha, é do PP, garantia que os socialistas nada tinham feito, o PSD é que cavalgou a onda, o que é verdade, alimentando durante um dia a versão do Director do Público, quando afirmou que tinha sido escutado pelos serviços secretos. Mas mais, dizia sem se rir, que nem lhe passava pela cabeça que Cavaco Silva estivesse a par do assunto ou fosse responsável pelo conteúdo do e-mail. O que permitiu a Pacheco Pereira dizer que se AC estivesse ligado a um detector de mentiras, o ponteiro estaria em alta.

Não vos maço mais com esta história, só retiraria a afirmação espantosa de Pacheco Pereira de que esta tramóia servia, entre outras coisas, para fragilizar o PR, de modo a este não impedir uma aliança do PS com o Bloco de Esquerda. Este tema foi igualmente referido por Alberto João Jardim, num comício na Madeira, que, de dedo em riste, intimou o PR a garantir que proibiria a entrada do Bloco, esses comunistas, na área do Governo. Como o intelectual erudito e o populista boçal estão de acordo em relação ao Bloco.

Assim vai a campanha eleitoral.

14/09/2009

O impasse do conservadorismo nacional - II


Por típica moleza nacional ainda não tinha dado continuidade ao meu texto sobre o artigo de Pacheco Pereira, publicado no Público, de Sábado, 5 de Setembro. Mais rápido do que eu, alguém do blog Spectrum escreveu um post bastante bom sobre ele. Continuo, no entanto, a pensar que aquilo que quero dizer ainda poderá ser novidade e por isso mais uma vez me abalanço a comentar o referido artigo.

Em primeiro lugar, e porque isso tem sido nestas eleições o objectivo da direita, mas igualmente de Sócrates e do PS oficial, a classificação o Bloco e do PCP como os “dois partidos da esquerda mais extrema”. Pacheco Pereira classifica-os logo no título como da “esquerda revolucionária”.
Sócrates pouco incomodado com a fuga improvável de votos para o PCP, mas muito mais atordoado com a possível deslocação para o Bloco, chega mesmo a afirmar que este quer destruir a classe média portuguesa.
O primeiro-ministro segue mesmo aquela máxima que uma mentira repetida mil vezes pode parecer verdade. Assim, salta do frente a frente para declarações em comício e até, pasme-se, para a transcrição do debate, em tempo de antena na televisão, do seu ataque a Francisco Louçã, demonstrando que este, no afã de destruir a classe média, propunha a eliminação das deduções à colecta, o termo mais técnico, das despesas efectuadas com os gastos com a educação e a saúde. Bem pode toda essa retórica ser desmontada aqui, e noutros posts, provando que a proposta do Bloco se assemelhava a outras defendidas pelo cabeça de lista de Sócrates às europeias, Vital Moreira, estas sim bastante mais gravosas para a classe média. Houvesse mais escrutínio e independência jornalística, coisa que o Pacheco Pereira tem vindo a defender para ele e para o seu partido, mas nunca para os outros, que um qualquer órgão de informação teria denunciado esta manipulação do José Sócrates. Bastava fazer uma pequena investigação jornalística e recolher a opinião de alguns fiscalistas. Mas isso era se houvesse seriedade na imprensa.

Um segundo ponto, e este bem mais grave, que ressalta do texto de Pacheco Pereira: estão “ambos no ofício de parecer que são hoje o que não foram no passado próximo. Na verdade, embora o PCP e o BE sejam muito diferentes entre si, pela história, pela composição social, ambos estão como que presos num corpo sem cabeça. O corpo move-se bem, mas a direcção que é suposto ser a cabeça a dar está ausente, porque ambos perderam os "objectivos finais", perderam a grande estratégia, ou não a podem enunciar porque isso pareceria inaceitável em democracia.” E depois Pacheco Pereira enumera tudo aquilo a que eles são favoráveis mas que, por motivos de táctica, são obrigados a esconder. Logo o primeiro exemplo é elucidativo: “ambos desvalorizam as eleições "burguesas", mas estão transformados em partidos eleitorais”. Garante a seguir que eles não agem por “dolo”, mas “porque ficaram perdidos no meio de uma história que os condenou ao "movimento", como dizia Rosa Luxemburgo, e lhe retirou os "objectivos", os "fins", que não só não sabem como não podem enunciar.” É interessante que Pacheco Pereira recorra aqui ao livro de Rosa Luxemburgo Reforma ou Revolução, pondo estes dois partidos ao lado do reformista Eduard Bernstein, que Rosa critica, contra a revolução defendida por esta.
Mas passemos à crítica. Bem pode Pacheco Pereira, mais esperto que alguns dos seus epígonos, garantir que estes partidos não nos andam a enganar, mas que são simples náufragos da história. No entanto, Pacheco Pereira, mesmo que indirectamente, e alguns socialistas mais ousados (um deles já eu referi aqui ) voltam ao local do crime, ou sejam retomam uma velha tese da PIDE, de que os democratas que combatiam o fascismo, eram, na maioria dos casos, criptocomunistas, comunistas escondidos, que dizendo-se defensores da democracia pretendiam estabelecer o “domínio comunista”. Mas Pacheco Pereira ainda é mais rebuscado, e aí perfeito leitor dos Comunicados do Ministério do Interior do tempo de fascismo, é “porque com Louçã há dolo deliberado – ele sabe muito bem o que quer e não o diz –, mas não me parece que o mesmo aconteça com os eleitores do BE.” Ou seja, os chefes sabem muito bem onde querem conduzir as massas ignaras, tal como os agitadores comunistas que na clandestinidade conduziam estudantes, operários e outras grupos para as lutas, sabiam muito bem onde queriam chegar.

Há a seguir esse ataque mais desenfreado ao Bloco, que Pacheco há muito prossegue, associando-o às manifestações contra a globalização, à violência urbana, a todos os desacatos que por esse mundo têm lugar, mas que no nosso país, apesar dos esforços de Pacheco, de certas forças policiais, de alguns governadores civis mais irresponsáveis, e lamentavelmente de alguns meninos anarquistas, nunca se verificaram devido ao serviço de ordem montado e à grande experiência reivindicativa das massas trabalhadores. Assim, diz Pacheco: “em tempos de crise isso faz do BE uma organização que, por onde passa, deixa as sementes de um populismo, que começa na recolha de um voto de protesto radical mas que introduz agressividade e violência na vida política portuguesa. Brinquem e achem graça ao BE e depois queixem-se.” Ou seja, Pacheco, ameaça a burguesia – as classes médias – que se votarem no Bloco e lhe acharem graça, podem amanhã acordar, com os seus carros a serem queimados ou as montras das suas lojas a serem partidas. Já conhecíamos também da PIDE este tipo de prevenções.

Depois Pacheco enumera toda a fraseologia do Bloco e de Louçã, retirando-a do contexto, e explicando às massas o que ela significa e como tudo isto conduz “à repressão em nome da "justiça", dos "pobres", da "igualdade", da "revolução", é inevitável para se manter o "movimento". Perguntem a Chávez.”
Aqui temos o paradigma já não dos comunicados da PIDE, mas da direita americana de que Pacheco tanto gosta, em que tudo o que não se coaduna com a literatura para almas ingénuas, como são as dos políticos americanos, já cheira a fogueira comunista que, como já acabou a União Soviética, é agora encarnada em Chávez.

Se Pacheco Pereira fosse um autor, em relação a esta prosa, para ser levado a sério, dir-lhe-ia, que tudo o que diz não tem qualquer consistência histórica. Não só ao considerar em 2009 o PCP como um partido revolucionário, e muito menos o Bloco de Esquerda, como o de chamar à colação a Rosa Luxemburgo. Esquecendo que na história do movimento comunista já muita coisa se passou depois da Revolução de Outubro. E que um partido como o Bloco de Esquerda já nada tem a ver com essa história, mas sim com os modernos partidos de esquerda, à esquerda da social-democracia, que por essa Europa, com maior ou menor êxito vão despontando, como por exemplo o partido da Esquerda Europeia, de que faz parte o Bloco.
Mas Pacheco Pereira fiel ao anti comunismo nacional, ressuscitando para uso caseiro a velha linguagem, um pouco disfarçada, da PIDE, mais não faz do que atacar o seu principal inimigo, ajustando contas como seu passado, já que o PCP, como objecto do seu trabalho, é melhor preservado dos seus dislates. Pacheco Pereira não perdoa que os da sua classe e profissão, e não o camponês atrasado do Alentejo ou o operário duma indústria em extinção, possam em qualquer altura votar Bloco e não na sua amada líder Manuela Ferreira Leite.

07/09/2009

O impasse do conservadorismo nacional – I


Já foi publicado um post de Miguel Cardina sobre o artigo de José Pacheco Pereira (JPP), Debate Louçã – Jerónimo: O Impasse da Esquerda Revolucionária, publicado no Público, de Sábado passado. Esperando dizer coisas novas, aqui vai a minha reflexão pessoal sobre o tema.
Pacheco Pereira, por razões do seu trabalho como historiador, tem mantido com o PCP relações de amor-ódio, que por vezes chegam mesmo ao elogio ou, pelo menos, à sua defesa. Nesse sentido é manifesto uma maior complacência de JPP pelas posições do PCP do que pelas do Bloco. Mas este facto, que no caso de JPP poderá simplesmente coincidir com os seus interesses profissionais, tem expressão significativa num conjunto vasto de comentadores de direita.
E porquê? Quanto a mim, neste momento o PCP, depois da queda do Muro de Berlim e do desabar do mundo do “socialismo real”, desperta pouco receio na direita portuguesa. Estamos longe do ódio e do silenciamento com que o PCP foi tratado depois do 25 de Novembro de 1975, principalmente a quando dos Governos do PS, sozinho ou acompanhado, e da Aliança Democrática. Soares Carneiro, com a arrogância de todos os generais fascistas, chegou a afirmar que se ganhasse as eleições para Presidente da República permitiria a existência legal do PCP e que essa seria a melhor maneira de o aniquilar.
Hoje, o PCP, ainda mantendo o mesmo espírito dessa época, continua a gritar que é ele o mais perseguido e o mais mal tratado na comunicação social. Penso que isso já não corresponde à realidade. É que hoje a Festa do Avante, os comícios do PCP e as opiniões do mesmo são vistas pelos media dominantes, por uma lado, como aquele turista que visita a reserva de índios, achando-lhes muita graça, mas que não se quer misturar com eles, e por outro como um património importante do nosso passado político, em que se mostram os heróis, quando eles já estão mortos e não podem voltar a agir. No entanto, é bom que se diga que a ofensiva ideológica contra o comunismo não esmoreceu, quer internacional quer nacionalmente. Com certa regularidade são publicados livros a demonstrar quão terríveis eram aquela ideologia e a experiência que dela se podia retirar. Mas isto é outro tema.
Já agora, porque vem a talho de foice, quando ontem no debate entre Manuela Ferreira Leite (MFL) e Francisco Louçã, aquela falou que as nacionalizações do pós 25 de Abril tinham arrasado o tecido produtivo português e que, por isso, já se sabia no que dariam as actuais propostas do Bloco, todos os comentadores das televisões informativas (ver o post anterior), com aquele sorriso alvar que caracteriza a direita, acharam que tinha sido a melhor intervenção de MFL. Ou seja, o PREC ainda mete medo à nossa direita.
Podemos dizer que o artigo do JPP é todo ele contra o Bloco, tema que já não é novo naquele articulista e que demonstra que este partido pode ser na conjuntura actual, ao contrário do que pensa o PCP, aquele que maiores engulhos trará ao cinzento quotidiano da política portuguesa.
Como já afirmei em post anterior, o Bloco pode ser, se para isso tiver capacidade e agilidade, a força política capaz de desbloquear o círculo vicioso em que se tem movido nos últimos anos a esquerda portuguesa, com um Partido Socialista a mostrar-se de esquerda quando está na oposição ou, como agora, em véspera das eleições, e a ser de direita quando está no Governo, e um PCP bloqueado, que mantém a sua identidade para não perder votos e a não poder ganhá-los porque a conserva. O Bloco aparece, à esquerda, como a força que é capaz de captar todos aqueles que no PS ansiavam por uma política de esquerda, mas que não se reviam no PCP, alguns comunistas que desejavam uma modificação na esquerda portuguesa ou no conjunto de independentes que flutuavam nesta área política.
No artigo seguinte prometo que, com mais rigor e menos subjectividade, fazer a apreciação da crítica que JPP faz ao Bloco e ao PCP.

06/06/2009

"Radicalismo extremista"


Já estou como um dos participantes do Eixo do Mal, da SIC Notícias, que passa horas a ver televisão e a ler jornais, penso eu, para se inspirar para o Inimigo Público, a página humorística do Público. Por sinal não lhe acho grande graça.
Pois eu, no meu afã de estar a par de tudo, não gastando tantas horas, lá vou papando programas infindos de informação e comentário político.
Vem isto a propósito de uma frase que ouvi ontem na Quadratura do Círculo, também da SIC Notícias, ao António Costa, e uma parecida, que escutei a um politólogo, hoje profissão muito em voga, que me pareceu chamar-se Maltez.
António Costa no debate que ontem travava com Pacheco Pereira acusava o PSD de, ao não privilegiar uma alternativa ao governo de Sócrates, deixar que os votos de protesto fugissem todos para o radicalismo extremista. O politólogo falava, a propósito de sondagens, das percentagens de votos atribuídas à esquerda revolucionária.
O caso de António Costa parece-me perfeitamente espantoso. Depois do ataque desferido no Congresso do PS ao Bloco de Esquerda, assisti numa Quadratura do Círculo ao riso alvar de todos os intervenientes a propósito dessas afirmações, que naquele debate foi o único momento em que todos estavam de acordo.
Ontem, en passant, sem nenhuma ênfase especial, lá veio o classificativo, que ou é sincero ou serve unicamente para que o público bem-pensante, que o está a ver, o leve a sério. Só não se percebe como é que esta personagem, que não tem qualquer rebuço em classificar os partidos à sua esquerda como radicais extremistas, quer depois na Câmara de Lisboa fazer alianças com eles. Como é que é possível nuns dias falar, de coração nas mãos, da necessidade das forças de esquerda se aliarem na Câmara para derrotarem a direita e noutros dias a sério ou em jeito de propaganda classificar os seus possíveis aliados de radicais extremistas. Alguma coisa não bate certo. É de certeza a pouca vontade de qualquer aliança para a Câmara de Lisboa.
Quanto à frase do politólogo, ela resulta de toda a conversa da direita. Esta não aprendeu nada desde os tempos do PREC, continua no mesmo esquema mental e de propaganda que sempre foi o seu. Tudo o que esteja à esquerda do PS, que proponha uma maior intervenção do Estado na economia, algumas nacionalizações, ou simples mudança de rumo, é revolucionário, extremista e incompatível com a nossa adesão à União Europeia, à NATO ou ao mundo ocidental.

Para combater estes preconceitos é pedido às forças políticas à esquerda do PS - no fundo, dando continuidade àquilo que Manuel Alegre admitiu como possível: dialogar à esquerda - um contributo, sem tergiversações, para um maior diálogo entre elas e capacidade para se apresentarem como alternativa de Governo. De facto, temos que deixar de ser força do protesto e elaborarmos um programa alternativo de saída para a crise. Esperemos por ele.

29/05/2009

Ascensão e queda dos self-made men


Pacheco Pereira quando andava zangado com o PSD, no tempo de Santana Lopes, escreveu um post em que valorizava o passado do seu partido perguntando: “O que é o PSD sem as suas figuras públicas que ainda conseguem falar para a universidade, para os jovens, para os empresários, para os sectores mais dinâmicos da sociedade? O que é o PSD sem os self made man que o fizeram, em vez dos assessores, dos mil e um detentores de cargos de nomeação estatal ou autárquica, sem profissão que não seja o partido?”
Poucos dias antes das eleições de 2005, em que o PSD sofreria uma das suas maiores derrotas eleitorais, escrevia no Público o seguinte: “desde meados dos anos 90, o partido perdeu o contacto com as forças vivas do seu eleitorado natural e nacional, os self-made-man de hoje, nas universidades, nas empresas, na vida pública, a favor de uma "autarcização" de todas as suas estruturas.”
Num outro blog, num texto um pouco recente, debita a melhor definição para este tema: “Foi esta composição que permitiu a classificação do PSD como partido dos self made man, gente independente do estado, que tomava conta da sua vida e que queria “progredir”.
Os textos referidos são bem elucidativos daquilo que quero provar. O PSD seria o partido dos self-made men, gente que se fez a si própria sem os favores e as sinecuras do Estado. Eram os heróis de Pacheco Pereira, quais novo pioneiros do Far West, que desbravavam novos territórios e cresciam com a Nação. À míngua de novos paraísos, estes ideólogos da direita embelezam e falsificam a realidade para a poder apresentar como estando de acordo com aquilo que gostariam que fosse. Para Pacheco Pereira o PSD seria o partido dos empreendedores nacionais, enquanto o PS recrutaria a sua clientela nos funcionários públicos, gente dependente do orçamento e incapaz de enriquecer por si própria.
Exemplos recentes vieram provar como tudo isto era diferente e que os self-made men do PSD, os Oliveira e Costa e Dias Loureiro, sempre se aproveitaram do Estado para à sua custa arranjarem uma teia de conhecimentos e de empenhos que lhes permitiu saídos da vida política, ou sempre a ela estando ligados, ir enriquecendo na actividade privada, até ao ponto de rebentarem, tal foi empanzinarmento que os vitimou.
Hoje torna-se claro que os responsáveis dos partidos do arco dito governamental vão alternadamente passando pelos Governos e vindo posteriormente a ocupar lugares nas empresas privadas. O caso de Jorge Coelho, Armando Vara, do PS, os dois já referidos do PSD ou Celeste Cardona do CDS, são bem o exemplo dos self-made men da sociedade portuguesa e aqueles que o Pacheco Pereira apontava como heróis. Se o fim dos do PSD é triste, porque a crise trouxe ao de cima todas as contradições do sistema, ainda estamos para ver o que irá acontecer a alguns dos outros. O Sócrates que se cuide.

PS.: Pacheco Pereira no seu ódio visceral ao Bloco de Esquerda, bolçou hoje na Quadratura do Círculo mais umas aleivosias contra aquele Partido, na continuação de um texto publicado no Público, esse muito mais perigosos e que merecia uma reflexão crítica maior, assim descubra o texto e tenha paciência para o analisar.
PS. (04/06/09)
: chamaram-me a atenção, e bem, para que o plural de self-made man era self-made men. Por isso fui corrigir esse termo nos locais onde o termo era da minha lavra. No entanto, quando nas transcrições que fiz ele está no singular, não quis alterar a vontade do autor e deixei ficar de acordo com o original.

14/03/2009

Falemos de coisas mais importantes: Manuel Alegre

Tenho andado ultimamente enredado em pequenas quezílias pessoais ou confissões um pouco auto-punitivas, por isso não me tenho referido a alguns dos assuntos que marcam a actualidade.
Um certo “operário desempregado” acusou-me de não falar da manifestação da CGTP. Como já deve ter reparado o blog dedica-se mais à luta política-ideológica do que às agendas reivindicativas, por muito sérias que sejam. Por isso, não vejo qualquer razão para noticiar ou propagandear a manifestação e o seu indiscutível êxito, que foi por todos os media reconhecido.
Houve depois um outro assunto, provavelmente por não conseguir encontrar o tom certo, que ainda não abordei. Foi a visita de José Eduardo dos Santos a Portugal e a posição do Bloco de Esquerda, com que eu não estou de acordo.
Irei agora falar dos recentes desenvolvimentos daquilo que eu chamaria a novela Manuel Alegre.
Fui dos que saudei a sua candidatura às presidenciais. Ela prefigurava uma velha aspiração do PCP que era dividir o PS, daí o seu apoio ao PRD, do general Ramalho Eanes. É evidente que o apoio à criação daquele partido consistia unicamente em instrumentalizar a divisão do campo socialista, possibilitando até uma possível maioria de esquerda, no caso de Manuel Alegre as razões são mais profundas e nem sequer envolvem o PCP. Se as propostas presidenciais daquele político nem sempre me agradaram, a personagem, a sua entourage e aquilo que podiam significar tinham um peso político bastante diferente do que tinha a sido a criação do PRD, que no fundo acabou por resultar na passagem directa de eleitorado comunista e socialista para o PSD de Cavaco.
Tivemos depois os episódios da Trindade e da Aula Magna, com comícios em que participaram a título individual o Bloco de Esquerda e, no primeiro claramente, a Renovação Comunista. Quer se quisesse quer não, estes encontros, os discursos pronunciados e os temas abordados podiam deixar antever um ruptura de Manuel Alegre com o PS, o aparecimento de um novo partido e até a possibilidade, para já, do aparecimento de listas conjuntas Alegre-Bloco de Esquerda e, no futuro, a formação de um novo partido semelhante ao Die Linke alemão, que juntou socialistas de esquerda e comunistas pós-Muro.
Nada disto aconteceu, muito se especulou sobre de quem era a culpa, mas a verdade é que Alegre não rompe com o PS, não forma nenhum novo partido e o Bloco de Esquerda fala de Convergências à Esquerda, que se referem só a ele e a alguns independentes, como, por exemplo, para as europeias, o Rui Tavares.
Ontem Manuel Alegre, em declarações à Antena 1, já afirma: se a direcção do partido não dá um sinal da demarcação em relação à afirmação de um dirigente (José Lello) que diz que eu não tenho carácter, então não pode querer contar comigo como candidato a deputado nas próximas eleições. Ou seja, aquele político já admite participar nas listas do PS se este se demarcar do José Lello, coisa que não é difícil, se para conquistar uma maioria absoluta isso for necessário. E António Costa, na Quadratura do Círculo, da SIC Notícias, fala mesmo em coligação entre o PS oficial e Manuel Alegre. Proposta que hoje leva ao rubro Pacheco Pereira na sua crónica no Público, Uma coligação do PS-1 (Sócrates) com um PS-2 (Alegre) (ver aqui).
Sem saber como é que tudo isto irá acabar, parece-me, e espero que me engane, que findará numa coligação eleitoral um pouco original entre Alegre e o PS, em que este garante uns lugares na Assembleia e até, provavelmente, no Governo, como neste momento já tem a Ministra da Saúde, Ana Jorge, e acaba tudo com Manuel Alegre e Sócrates nos comícios eleitorais a darem vivas ao PS. Espero que este pesadelo não se concretize e que haja um pouco mais de dignidade na política.
Estamos todos cá para ver, é o meu desejo.

09/03/2009

Quando as comadres se zangam

Dada a minha proverbial prolixidade em relação aos assuntos que abordo perco normalmente a oportunidade falar neles quando acontecem, assim para manter o meu blog com novos posts recorro frequentemente a pequeno vídeos e agora até a fotografias. Por isso, quando me preparava para “malhar”, uma expressão que agora está muito em moda, mais uma vez num post de Rui Bebiano, que tinha lido, sem saber de quem era, em o Tempo das Cerejas, e que tinha considerado bastante reaccionário, reparo que já tinha sido ultrapassado pelos acontecimentos. É que a seguir a este já tinham sido publicados outros dois (ver aqui e aqui) tão reaccionários como o anterior, o que me levou a pensar que o autor ou se tinha definitivamente passado dos carretos ou então se comprazia no deleite de provocar os seus leitores de esquerda. Por isso, achei por bem não gastar mais cera com tão ruim defunto, ou seja, deixar de comentar os seus posts tal como não faço com os do 31 da Armada, do Blasfémias ou do Atlântico.
Resolvi, por isso, abordar uma zanga de comadres que tinha assistido na última quinta-feira na Quadratura do Círculo e que, apesar de já terem passado uma série de dias, me apetece comentar dado a sofreguidão com que António Costa defendeu o seu líder e como todos, com um sorriso nos lábios, estiveram de acordo com as boçalidades com que Costa mais uma vez mimoseou o Bloco de Esquerda.
A Quadratura do Círculo, quando começou há muitos anos na TSF com outra designação, tinha como intervenientes, que eu me recorde, o Pacheco Pereira, o único que se manteve fiel ao formato, alguém do CDS e o José de Magalhães, ainda deputado do PCP. O PS estava ausente, penso que representado pelo coordenador. Depois o José Magalhães, sem sair do Parlamento, mudou-se para a bancada do PS e o programa nunca mais teve ninguém à esquerda deste partido. O que neste momento se torna profundamente injusto dado que uma corrente de opinião, com mais de 20% de intenções de voto (Bloco de Esquerda mais PCP), está completamente ausente de um programa de discussão política. Este facto permite a manutenção do stato quo dominante, expresso por Pacheco Pereira, em nome do PSD, é verdade que nem sempre alinhado, por Lobo Xavier, em nome do CDS, dizendo praticamente os dois a mesma coisa, contra um PS oficial representado por um peso pesado, António Costa, que raramente foge à versão oficial dos acontecimentos.
Na Quadratura desta semana o único tema abordado foi o Congresso do PS. Pacheco Pereira iniciou as hostilidades com o ataque ao discurso que Sócrates pronunciou no primeiro dia, aquele em que ele atacou a imprensa, principalmente o Público e a TVI, e se vitimou, garantindo que havia contra ele uma campanha negra. Depois Lobo Xavier comparou o discurso do Primeiro-Ministro ao dos autarcas corruptos, quando dizem que está nas mãos do povo a decisão da sua continuação no Governo, e não nas mãos de “um qualquer director de jornal ou de televisão”. Já se sabe que o caso Freeport veio novamente à baila e aí António Costa contra-ataca e as coisas começaram a azedar. Costa, invocou o comunicado da Procuradoria, e hoje percebe-se o alcance daquele comunicado, dizendo que as Autoridade Judiciais não consideravam José Sócrates nem suspeito, nem arguido, nem sequer que estivesse a ser investigado e quem falasse no Freeport alinhava na campanha negra que aqueles media estavam a desencadear contra o Primeiro-ministro.
Para um observador distraído estas personagens pareciam estar muito zangadas. Já assisti na Assembleia Municipal de Lisboa a troca de acusações entre deputados do PSD e do PS que dariam, na vida real, para os intervenientes chegarem a vias de facto ou para nunca mais se falarem e não é que depois os encontro nos corredores em amena cavaqueira uns com os outros, como se nada se tivesse passado. Por isso, apesar do ar zangado de António Costa e principalmente de Lobo Xavier acabou tudo em bem, quando António Costa, dizendo que nisso convergia com o Pacheco Pereira, começou mais uma vez a malhar no Bloco de Esquerda.
Por último duas coisas marginais ao debate. António Costa veio recordar a expressão “um voto na AOC era um espinho cravado na garganta do Cunhal”, que eu referi a propósito da crítica que fiz a um post de Rui Bebiano. A associação de ideias tinha a ver com Espinho, o local onde se tinha realizado o Congresso do PS.
A segunda foi Costa ter afirmado que aderira ao PS, e à sua “luta pela liberdade”, quando este desencadeou o caso República. Triste exemplo este. Hoje sabe-se que o PS utilizou este caso, que nada teve a ver com o PCP, para nacional e principalmente internacionalmente desencadear um campanha mentirosa contra os comunistas que estariam a cercear a liberdade de imprensa em Portugal, aproveitando-se, é certo, da má fama que estes tinham noutros países.
PS. (10/03/09): ao contrário do que costuma aparecer nos media não existe o termo vitimização e vitimizar como eu escrevi neste post e em anteriores, mas sim vitimação e vitimar. Neste ainda resolvi fazer a correcção, em relação aos outros espero que os meus leitores que me desculpem mas que façam eles a alteração.

22/12/2008

“O regresso a Marx” de Pacheco Pereira


Pacheco Pereira (PP), que é entre os ideólogos da nossa direita aquele que provavelmente leu Marx e consegue, sem dizer disparates, alinhar duas ideias sobre o pensamento marxista, meteu-se no último Sábado, no Público* , contras aqueles que advogam um regresso a Marx. Arranjou uma série de moinhos de vento contra quem investir e resolveu, de uma penada, dizer mal dos comentadores apressados - as “modas mediáticas” - que falam de Marx, com a ignorância com que de um modo geral falam de tudo, da “esquerda independente” que advoga esse regresso e, por tabela, do próprio pensamento marxista.
De facto, se há hoje muitos comentadores que acham que já estaríamos a caminho do socialismo, porque o capitalismo está em crise e os Estados advogam uma maior intervenção na economia dos seus países, há igualmente aqueles que consideram que nos pressuposto ideológicos dessa intervenção estaríamos a seguir as propostas de Marx. Ou seja, como o Estado intervém, como o sistema capitalista está em crise e como há ricos e pobres em luta eis que Marx teria razão e seria necessário regressar a ele. Contra estes moinhos de vento é fácil a PP traçar armas.
Por outro lado, ele tenta criar alguma confusão ao atacar igualmente aquilo que ele chama a “esquerda independente” e as “modas mediáticas”: “Se ao menos o "regresso a Marx" se traduzisse numa leitura de Marx, um dos autores fundamentais da nossa contemporaneidade, ainda valia a pena. Não é isso que se passa, mas a deterioração acentuada do pensamento da chamada "esquerda independente" e das modas mediáticas”.
Não sei o é que PP entende por “esquerda independente”, se é a de Manuel Alegre, a do Bloco de Esquerda, a dos organizadores do Congresso Marx, de todos aquele que não se revêem no “marxismo-leninismo” do PCP.
Mas falemos de coisas sérias. Gostaria de responder a Pacheco Pereira com este interessante período, contido num artigo de Flávio Aguiar, saído no site brasileiro Agência Carta Maior: “os banqueiros do mundo estão lendo Marx, tentando discernir o que aconteceu. As esquerdas estão relendo Keynes, tentando discernir o que fazer.” Ora é isto que de certo modo os nossos articulistas não percebem e que serve a Pacheco Pereira para misturar no mesmo caldeirão todos aqueles que propõem, disparatadamente ou não, um regresso a Marx.
Vamos por partes. Tudo o que PP diz sobre a intervenção e o papel do Estado, não é de facto um regresso a Marx, mas sim a Keynes. Tal como o articulista diz no artigo citado a esquerda neste momento tem que reler Keynes porque andou muito à pressa a libertar-se do “estado social”. A Terceira Via trabalhista foi isso mesmo.
Mas onde PP se engana redondamente é quando afirma, aqui achincalhando e desvirtuando o pensamento de Marx: “Na crítica ao capitalismo moderno que Marx fez no Capital e em outros textos, na sua convicção "científica" da inevitabilidade da "autodestruição" do capitalismo, formulada em "leis" a que Marx e Engels atribuíam o mesmo estatuto das leis de Newton, nenhuma se aplica à actual situação de crise económica e financeira, nem as análises, nem as soluções.” Ora é isto que os autores marxistas contestam e se os banqueiros se vêm agora obrigados a ler Marx é porque poderão encontrar nele explicações para a crise que o sistema financeiro e produtivo capitalista atravessam. Já circularam na net diversos textos de autores marxistas que, à luz de Marx, explicavam esta crise. Posso dar um exemplo, mas há vários.
É evidente que há aqui uma questão importante e é essa que, de certo modo, despertou o renovado interesse das esquerdas em Marx e o manifesto ódio das direitas a esse renascimento. Com o desaparecimento do “socialismo real” não foi só o “marxismo-leninismo” que entrou em colapso, a direita na sua ofensiva contra aqueles que ainda pensavam que o comunismo seria uma saída, depois de devidamente expurgado as excrescências estalinistas, passou a atacar também Marx como um dos responsáveis pelo Goulag soviético. Parecia pois que o marxismo estaria enterrado para sempre nos escombros do Muro de Berlim e eis que ele renasce das cinzas, capaz, mais uma vez de dar um contributo para a explicação do mundo actual e para a sua transformação. Isto, não podem elas suportar.

*O link é para o Abrupto, o blog de Pacheco Pereira, já que não é possível aceder aos textos do Público sem pagar. Pacheco Pereira resolve no seu post publicar uma fotografia da estátua de Marx que está no seu túmulo no cemitério de Highgate, em Londres, acrescentando, por pura maldade, uma bicada contra as flores amarelecidas que teriam sido postas “por uma delegação do PC dos Estados Unidos, aquele que tinha mais membros do FBI do que militantes genuínos”. Não havia necessidade disto.
A fotografia que está no post é a do Abrupto

05/11/2008

« Les beaux esprits se recontrent »: entre Obama e McCain pouca diferença há


Admirei como ontem à noite os participantes da Quadratura do Círculo, da SIC Notícias, iam actualizando, em tempo real, um blog que aquela estação de televisão lhes tinha posto à disposição. Para mim a actividade de bloguista é solitária e exige concentração, por isso demoro tempo na elaboração de um post e chego sempre atrasado à actualidade.
Assim, gostaria de ter feito um post In Memorium do Carlos Porto, que conheci quando era jovem, e que continua a estar entre os meus projectos, e um outro, a que chamaria Cidadãos acima de qualquer suspeita, referente ao conjunto de fotografias que aparecia na segunda-feira, no jornal Público, e que fazia a listagem de todos os políticos que tinham influenciado as decisões do BPN. Este post já perdeu oportunidade, não é que aqueles cidadãos tivessem, por acaso, recuperado a respeitabilidade, mas porque já passaram alguns dias sobre a exibição das suas carantonhas e hoje o affair do BPN é já passado, perante a eleição de Barack Obama, como Presidente dos Estados Unidos.
Este meu post pretende analisar como à esquerda e à direita, tem havido a preocupação de evitar a venda de ilusões, num caso à “classe operária”, noutro impedir que a esquerda embandeire em arco com aquela eleição. Ou seja, les beaux esprits se recontre.
Assim vejamos, em nota hoje distribuída à imprensa o PCP, não desmerecendo aquilo de que é vulgarmente acusado – sectarismo e dogmatismo –, afirma: “a eleição de Barack Obama como presidente dos EUA está longe de corresponder às expectativas que a gigantesca campanha mediática mundial procurou criar para construir a ilusão de uma mudança e de uma viragem na política dos EUA e do seu papel na esfera internacional.” E diz mais: “não ignorando diferenças entre os candidatos republicano e democrata, a verdade é que ambas as candidaturas não disfarçam o seu vínculo a um projecto de dominação no plano económico, ideológico e militar do mundo.”
Para o PCP, provavelmente a único diferença que há entre os candidatos é um ser preto e outro branco, mas ambos estão vinculados ao projecto de dominação imperialista do mundo. Como estas almas são simples.
Mas o que nos diz a direita. Rui Ramos esse ideólogo reaccionário e monarquista, transvertido em neo-liberal reaganista e thatcherista, como convinha há alguns tempos atrás, afirma, logo abrir, num artigo que publicou no Público, da semana passada: “Em tempos, houve quem acreditasse que o mundo iria mudar com a eleição de Barack Obama. E talvez ainda haja quem guarde a fé – mas são cada vez menos.
É que o mundo, como constatámos entretanto, não precisou de Obama para mudar. Talvez por isso, a bolha de entusiasmo começou notoriamente a diminuir. O candidato também não ajudou. Com a sua campanha habilidosa e esquiva, limitou-se a acrescentar mais uns gramas de incerteza à incerteza geral. Neste momento, ninguém sabe como vai estar o mundo no ano que vem, e também ninguém sabe que presidente poderá ser Obama.
” E Rui Ramos termina: “Se não fosse a cor da pele, este jovem político eloquente e disposto a tudo para chegar ao topo já nos teria lembrado os nossos velhos conhecidos Clinton e Blair. Em 1997, também os conservadores ingleses tentaram fazer de Blair uma espécie de comunista disfarçado, enquanto os seus entusiastas ficaram a aguardar uma nova política exterior ("ética") e uma nova economia (de "Terceira Via"). O mundo já não é o que era em 1997. Mas o estilo de Obama é, no fundo, o desse tempo. Ora, a Terceira Via pode ter sido uma alternativa às políticas da década de 1980, mas desde então tornou-se parte do percurso que fizemos para chegar onde estamos. Aonde mais nos poderá levar?”
Comparando estas afirmações com o comunicado do PCP, verifica-se que Obama nada nos trará de novo, para aquele Partido será a manutenção do capitalismo imperialista, para o professor reaccionário será o déjà vu, que poderia ter sido uma alternativa na década de 80, mas que agora será a continuação na continuidade.
Mas não se ficou por aqui a intervenção da direita. A SIC Notícias montou todo um aparato mediático – desta vez acompanhado de uma descarada publicidade, com a complacência dos comentadores, a uma marca de portáteis – para irmos acompanhando as eleições e para simultaneamente arrefecer os arrebatamentos da esquerda. Assim, convidou Nuno Rojeiro, apoiante de Barack Obama, que defendia que a eleição deste serviria para pôr o “taxímetro a zero”, de modo a fazer-nos esquecer a política de Bush e tornar impossível que a esquerda europeia e mundial continuasse a atribuir aos Estados Unidos tudo aquilo que acontece de mal no mundo. Como o PCP devia ter gostado de ouvir isto. No fundo Obama servia principalmente para enganar as massas.
Miguel Monjardino, outro comentador, defendia que, juntamente com Obama, iriam ser eleitos um conjunto de senadores democratas conservadores que impediriam quaisquer veleidades de esquerda a Obama. Só Rui Tavares, numa intervenção a partir de Chicago, tentou introduzir alguns elementos de esperança, que rapidamente foram cortados pelo pivôt da emissão e que levou todos os outros a o rebaterem, sem o citarem.
Pacheco Pereira, que estava ao lado, na Quadratura do Círculo, com mau perder, afirmava que não via qualquer mudança no eleitorado, ao contrário do que tinha dito Rui Tavares, pois àquela hora a diferença entre os dois, quanto ao número de votantes, era diminuta. Hoje, com os resultados apurados, sabe-se que foi bastante maior.
Pacheco Pereira, que já tinha declarado noutro programa que era apoiante de McCain, não resistiu a mais uma vez, em êxtase, a falar da grande democracia americana, garantindo que em França, por exemplo, era impossível ser eleito um presidente negro.
Concluindo, tanto à esquerda – certa esquerda – como à direita há a preocupação de garantir que nada muda, excepto provavelmente o estilo.
Quanto a mim, Barack Obama não irá provocar uma Revolução nos Estados Unidos, provavelmente terá que fazer compromissos, mas está já a causar uma ruptura com a tradição ultra-conservadora que vinha a ser seguida, introduzindo no mundo actual um capital de esperança e de mudança, que pode nestas circunstâncias, de grave crise económica, favorecer no seu conjunto a esquerda. Ou seja, convém que em momentos de crise os ventos não soprem para a direita, mas sim no sentido do progresso.
É isto que o nosso Partido Comunista não percebe e que Sócrates, sempre a cavalgar a onda daquilo que está a dar, já introduziu no seu discurso. Espero que se estampe.

29/10/2008

Obama News


Há uns tempos atrás, provavelmente quando da última eleição do Bush, o Pacheco Pereira, com ar embevecido, disse na Quadratura do Círculo que os Estados Unidos da América eram uma grande democracia. Pacheco Pereira, à direita nem é dos piores, simplesmente há alturas que o seu posicionamento ideológico como que oblitera o seu pensamento, levando-o a fazer afirmações que não resistem ao mais pequeno confronto com a realidade. O mesmo já se tinha verificado a quando da Guerra do Iraque. Aí, deliciado com as suas reflexões, começou a falar da incapacidade guerreira da Europa, da “velha Europa”, sempre à procura da paz e da concórdia universal, contra a necessidade de lutarmos de armas na mão contra aqueles que estavam a pôr em causa o nosso modo de vida. Os EUA seriam pois os seus verdadeiros heróis, dispostos a sacrificar a paz em defesa dos valores. Esquecia-se Pacheco Pereira que era o fascismo que exaltava as capacidades bélicas dos povos e condenava o pântano democrático que conduzia à destruição das mais excelsas virtudes das nações. Lamento só agora trazer isto à colação e nunca ter guardado os textos de Pacheco Pereira, porque seria interessante confrontá-lo agora com as afirmações desse tempo.
Mas vem tudo isto a propósito deste interessante e-mail que recebi, e que penso que circula entre os seus amigos, de Fernando Almeida Sousa Marques que vive nos Estados Unidos e que nos tem enviado regularmente notícias sobre a campanha eleitoral naquele país. Neste também se refere ao processo eleitoral americano, que ao contrário do que diz Pacheco Pereira, não é tão democrático como se pensa.

Caros amigos,
A uma semana do fecho das urnas, aqui vão algumas observações.
1. SUPREMO TRIBUNAL
Os membros do Supremo Tribunal são vitalícios. Como são nomeados pelo Presidente e se prevê que, nos próximos 2 anos, pelo menos dois deles possam ser substituídos, o próximo residente da Casa Branca poderá ter uma influência decisiva na alteração da correlação de forças actuais. Um dos principais problemas (que os sectores mais conservadores gostam de transformar em "papão") é o do aborto. O actual Tribunal tem uma maioria escassa (5 contra 4) que não penaliza o aborto e dá liberdade a cada Estado para legislar nesta matéria. Os que se intitulam de "pro-life" (contra os que se intitulam de "pro-choice") desejam uma vitória de McCain.
2. PRESIDENTE
As sondagens apontam para uma vitória de Obama que poderá ser, inclusivamente, bastante ampla. Mas, sondagens são sondagens e os resultados finais só serão sabidos depois do dia 4 próximo. Se McCain perder a Pennsylvania (onde tem 10 pontos percentuais a menos que Obama nas sondagens dos últimos dias) perderá certamente as eleições.
3. CONGRESSO - SENADO
Neste momento, dos 100 Senadores, 49 são Democratas, 49 são Republicanos e 2 são Independentes. Em caso de empate, o Presidente do Senado (que é por direito próprio o Vice-Presidente dos EUA), intervém. As previsões apontam para um resultado esmagador para os Republicanos: perderão oito lugares. Isto aponta para uma relação no Senado, depois destas eleições, de 59 para o Partido Democrático, contra 41 para o Republicano.
4. CONGRESSO - HOUSE OF REPRESENTATIVES
Também aqui se prevê uma vitória do Partido Democrático, aumentando a vantagem que já hoje têm.
5. DISTRIBUIÇÃO DE PODERES
Face a este cenário, depois do dia 4 de Novembro, não é apenas possível e provável haver um Presidente chamado Barack Obama. Também é possível e provável ter uma maioria democrática no Senado e outra na câmara baixa (House of Representatives). Como é possível e provável que o Supremo Tribunal se mantenha favorável a todos aqueles que são contra a penalização do aborto. Aqui está uma consequência de 8 anos de desvario republicano e de um presidente impreparado.
6. ABSTENÇÃO
Por um lado, é previsível que a abstenção venha a ser a menor de sempre, desde que há eleições nos EUA (habitualmente, nas presidenciais, é de cerca de 50%). Por outro lado nunca houve um tão grande número de cidadãos inscritos nos cadernos eleitorais. Fácil é prever que, nunca como agora, haverá tantos eleitores, tantos votos para contar. Se, numa situação destas, houver uma vitória, em todas as frentes, do Partido Democrático é previsível que o Partido Republicano passe por um período conturbado da sua vida (que já está a viver, embora tente ser disfarçado por McCain e Palin). Também é previsível que se confirmem as fragilidades do sistema eleitoral americano que não está habituado, nem preparado, para uma tão grande participação eleitoral. A ver vamos o que se irá passar.
...
HOJE É FÁCIL RECONHECER QUE 80% DOS AMERICANOS PERCEBEM ISTO. MAS HÁ UNS ANOS ATRÁS, NÃO SÓ POR AQUI, MAS TAMBÉM UM POUCO POR TODO O MUNDO, QUEM SE OPUSESSE ÀS POLÍTICAS ULTRA-LIBERAIS, MILITARISTAS E IMPERIAIS DA CLIQUE QUE DOMINOU ESTE PAÍS, ERA POR VEZES MALTRATADO E RIDICULARIZADO.
Como senti isso na própria pele, não admira que aguarde o dia 5 de Novembro para abrir a janela, olhar para o mundo que se imagina para lá do horizonte e sorrir.
...
Boa noite e boa sorte,
Fernando

Espero que o autor não me leve a mal por me ter servido do seu e-mail, mas diria que é por uma boa causa e que isso merece desculpa.

14/10/2008

O fim do capitalismo


Antes que o meu amigo Fernando Penim Redondo publique um post sobre o artigo de Immanuel Wallerstein (IW), Le capitalisme touche à sa fin, publicado no Le Monde, de 11/10/08 (ver aqui e aqui) e que foi oportunamente traduzido para o blog Antreus, de António Abreu, resolvi publicar este post que já tinha em mente, mas que devido à minha proverbial inacção ainda não tinha posto em prática. O Fernando já tinha ameaçado o António Abreu que iria fazer um post sobre o assunto, espero que o faça, para confrontarmos ideias.
Em post anterior, provavelmente com um título pouco feliz, já tinha chamado a atenção para que não bastava os locutores e alguns comentadores falarem da intervenção do Estado e da nacionalização da banca, para que o capitalismo caísse. Era necessário dar-lhe um piparote. No fundo, levantava a velha questão do poder e recorria a uma polémica, referente a outros assuntos, mas de grande actualidade, entre Charles Bettelheim e Paul Sweezy. Ou seja, introduzia a luta política e a Política, com maiúscula inicial, nos problemas da crise. Provavelmente ninguém me leu, nem o tema despertou qualquer interesse.
No entanto, nestes últimos dias alguns comentadores recorrem à política para falar da crise. Pacheco Pereira diz mesmo É à política e não ao Estado que devemos regressar e Rui Tavares afirma É preciso ter lata . No entanto, qualquer dos artigos, por razões diferentes, não aborda as minhas preocupações. O primeiro ataca Sócrates e a politiquice do primeiro-ministro e a sua pretensa defesa da intervenção estatal. Chegando a afirmar que “desde a história do diploma e das casinhas que o personagem me aparece bem mais perigoso do que antes”. Eu, que fui seu subordinado no Ministério do Ambiente e que tive a desgraça de tê-lo como chefe de delegação nas conversações para a aprovação do Protocolo de Cartagena sobre Segurança Biológica, em Montreal, confirmo para pior todas as crítica que lhe façam. Ainda um dia hei-de contar esta história.
Quanto ao segundo artigo chama a atenção para que foram os políticos, com a sua permissividade, que permitiram que a "ganância dos executivos" chegasse onde chegou. Sendo isto verdade, o certo é que os comentadores de direita, com algumas inverdades pelo meio, pretendem concluir, com afirmações semelhantes, que a culpa é do Estado, chegando a afirmar que a maioria dos bancos responsáveis por este desgoverno têm capitais públicos.

Mas regressemos ao que nos trouxe aqui. Entre os muitos artigos que na net começaram a circular sobre esta crise realço o de IW, inicialmente referido, que de um ponto de vista histórico e sistémico aborda o fim do capitalismo, considerando que actualmente este está na sua “fase terminal”.
O mais preocupante neste artigo de IW, é que ao contrário do que os marxistas sempre afirmaram, acreditando, como ele diz, “num progresso contínuo e inevitável”, é possível em trinta ou quarenta anos “vermos instalar-se um sistema de exploração ainda mais violento do que o capitalismo, do que, pelo contrário, aparecer um sistema mais igualitário e redistributivo”.
Mas como anteriormente IW afirmava “estamos num período, bastante raro é certo, onde a crise e a impotência dos poderosos deixa um espaço ao livre arbítrio de cada um: há agora um período de tempo durante o qual todos teremos a oportunidade de influenciar o futuro pela nossa acção individual. Mas como esse futuro será a soma do número incalculável dessas acções, é absolutamente impossível prever qual o modelo que finalmente irá prevalecer.”
Penso eu, provavelmente ingenuamente, que a acção política dos homens tenha possibilidades de canalizar as acções referidas para “um sistema mais igualitário e redistributivo”, a que chamaria socialismo. Mas é possível que isso não suceda, e aqui divirjo, tal como IW, da crença inelutável dos comunistas ortodoxos que pensam que ao sistema capitalista sucederá inevitavelmente o socialismo.
Só para dar um exemplo, a crise de 1929, não foi ainda o fim do capitalismo, mas a solução encontrada por alguns para a resolver foi o reforço do fascismo e o aparecimento do nazismo, que trouxe muito mais sofrimento e exploração do que formas anteriores de domínio sobre os trabalhadores.
Temos pois que admitir que a solução para a crise pode desembocar num sistema de exploração ainda mais violento do que o capitalismo, mas que a nossa acção pode de facto inverter essa tendência.
Dêmos pois força à política.