Mostrar mensagens com a etiqueta crítica de cinema. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta crítica de cinema. Mostrar todas as mensagens

19/01/2010

Eric Rohmer (1920-2010)


Morreu segunda-feira, 11 de Janeiro, o realizador de cinema francês Eric Rohmer. Não estou a dar novidade nenhuma. É do domínio público e quase todos os blogs lhe dedicaram algumas linhas. Sem querer fugir à onda, achei por bem dar a minha versão daquele cineasta e acima de tudo lembrar tempos antigos, sobre a relação do cineclubismo nacional com a Nouvelle Vague, movimento em que ele se integrou. Simplesmente, tentando procurar algumas notícias que ilustrassem o que pretendia escrever, arrastei inevitavelmente a redacção deste post, mas confesso que encontrei pequenas pérolas na imprensa da época referentes a Eric Rohmer, de que vos irei dar conhecimento. Por outro lado, a RTP 2, aproveitando a onda, e ainda bem, programou no Sábado passado, a exibição dos dois primeiros filmes de Rohmer que foram exibidos em Portugal: A minha noite em casa de Maud e O joelho de Clair, que eu consegui ver, mesmo não tendo assistido ao início do primeiro filme.

Primeiro a biografia, retirada de propósito de um boletim de um cine-clube (ABC Cine-Clube de Lisboa, Fevereiro de 1985). Começa por errar no ano em que nasceu, diz 1923, quando foi 1920 e revela o seu verdadeiro nome Maurice Schérer (confirmei na Wikipédia). Depois acrescenta: “cineclubista ainda estudante, viria a fundar mais tarde, no imediato pós-guerra, com alguns amigos – entre eles Jacques Rivette e Jean-Luc Godard – uma pequena revista, La Gazette du Cinéma.
No início dos anos 50, ainda com o próprio nome, entra para a redacção dos Cahiers du Cinéma, dirigida por André Bazin e Jacques –Doniol Valcroze, na célebre equipa que integrava também Godard, Rivette, Truffaut e Chabrol.
A sua primeira experiência cinematográfica data de 1950, realizando Journal d’un Scélerat, curta-metragem, em 16 mm.
Le Signe du Lion (1959), a sua primeira longa-metragem, constituiu um dos filmes que marcaram o início da Nouvelle Vague
”.

A estreia dos primeiros filmes de Rohmer em Portugal.
A sua primeira longa-metragem é de 1959, ano assinalado como o do de início da Nouvelle Vague, em França. É do mesmo ano de À bout de souffle (O Acossado) de Jean-Luc Godard, o filme fetiche que dá início àquela corrente cinematográfica.
Entre 1959 e 1969, data da realização de Ma Nuit Chez Maud (A minha noite em casa de Maud), que eu penso que foi o seu primeiro filme a ser exibido comercialmente em Portugal (este blog confirma aquilo de que eu me lembrava, que se tinha estreado comercialmente no cinema Estúdio, do Império), só faz uma outra longa-metragem La Collectionneuse (A coleccionadora), em 1967, que só posteriormente, já em 1974, se estreará comercialmente em Portugal. Os filmes seguintes são de 1970 e 1971, respectivamente, Le Genou de Clair (O joelho de Clair, estreado em Portugal, em 1971) e L’Amour Après Midi (O amor às três da tarde, estrado em Portugal em 26/03/1973 – do programa do cinema Londres que eu possuo). Mas o seu filme seguinte, La Marquise d’O (A marquesa de O), um dos seus filmes que eu mais aprecio, é já de 1976. Por isso, a maioria das suas longas-metragens são quase todas eles realizados e exibidos depois do 25 de Abril de 74.

Para poder elaborar esta pequena referência à recensão da obra de Rohmer em Portugal, fui desenterrar aos meus armários programas de cinec-clubes, onde verifiquei, para meu espanto, que nenhum, entre aqueles que eu possuo, anunciava, antes do 25 de Abril, qualquer exibição de um filme de Rohmer. Fui também procurar programas de sessões de cinema, tendo ficado espantado como, no início dos anos 70, os cinema que nessa altura se consideravam de arte e ensaio, mas não só, dedicavam aos filmes que exibiam folhas cuidadas, com traduções de crítica estrangeira, entrevistas com o realizador e a sua bio-filmografia, imitando desse modo a actividade desenvolvida, à época, pelos cine-clubes (foi aí que encontrei o programa referente a O amor às três da tarde). Depois, descobri recortes de jornais com críticas e balanços do ano cinematográfico e é sobre isso que vos quero dar conhecimento com mais detalhe.

Primeiro. Eduardo Prado Coelho, que era o crítico de cinema de A Capital, no início dos anos 70, assina uma recensão a um Festival de Cinema Francês, que teve lugar no final de 1972, e que foi mal organizada e, parece, nada representativo do cinema que se fazia em França, afirmando que L’amour l’aprés-midi (que nessa altura ainda não se tinha estreado em Portugal) era “reaccionário e intransitivo … (e) entra na lista negativa deste Festival”. Onde teríamos hoje um crítico, num jornal de referência, a dizer que um filme era reaccionário. Diferenças de época e de pensamento. Nessa altura a esquerda tinha espaço e força.
Segundo. António Pedro de Vasconcelos (APV), em local que eu não consegui identificar, quando ainda não era comentarista de bola nem realizador de “grandes” filmes e tinha opiniões, de que eu discordava, mas que eram críticas de um certo cinema acomodado que, por vezes, os cine-clubistas de esquerda toleravam, tem uma crítica ao filme em episódios Paris visto por... (Paris vu par…, estreado cá em 1972, mas que era de 1965), em que um deles é de Rohmer. APV afirma que este episódio não tem nada de especial, apesar de achar que a obra de Rohmer se revelaria mais interessante do que o seu contributo para aquele filme. Destaca, e de forma convincente, o episódio de Jean Rouch (1917-2004), que será lembrado pelos grandes documentários etnográficos sobre África.
Terceiro. Noutra crítica, APV, a propósito do Festival de Cinema Francês, que ele chama Semana e outros Quinzena, e onde foi exibido o já referido filme de Rohmer, considera que este “é um nome seguro para qualquer dos produtores, os mesmos que levaram anos a acreditar nos seus projectos”. Não está mal. Rohmer deixava de ser um dos enfant terrible da crítica dos Cahiers du Cinéma, para ser um realizador do sistema.
Quarto. Eduardo Geada era o crítico de cinema da Vida Mundial, revista que se voltou a publicar no final dos anos 60, início dos 70. Na recensão que faz ao filme Amor às três da tarde (V.M. 4/5/73) escreve: quando Eric Rohmer, um tanto ingenuamente, acredita que os seus filmes não têm ideologia, isso significa, sem mais, que a ideologia expressa no seu cinema coincide com a ideologia dominante, porque, como é sabido, as ideologias ignoram-se. Como não eram tíbios estes críticos de outrora.
Quinto. Nos longos balanços que Lauro António fazia para o Diário de Lisboa referentes aos anos cinematográficos que iam findando, iremos ver o pouco respeito que ele tinha por estes filmes de Rohmer. Assim no balanço de 1974, considera A Coleccionadora uma desilusão, depois de indicar mais de cem filmes bem melhores do que aquele.
No balanço de1973, O amor às três da tarde está igualmente incluído em as grandes desilusões do ano, a seguir aos filmes de reduzido interesse.
Paris visto por… merece no balanço de 1972, a inclusão outros filmes cuja visão não desmerece. Sobre estes balanços de Lauro António, APV, em local que eu não consegui identificar, diz que “a impressão com que se fica ao ler tão extensa enumeração é que a mulher a dias desarrumou as fichas do nosso crítico, de modo que os filmes como O Candidato ou O Recado apareçam na mesma prateleira que A regra do jogo”. Tão amáveis que estes críticos eram entre si.
No balanço de 1971, Lauro António inclui O joelho de Clair no grupo 4º, na coluna dos filmes a não perder também, isto depois de ter 46 filmes à frente.
Eduardo Prado Coelho, num jornal, que eu não consegui identificar, mas que penso que será A Capital, no seu balanço de 1971, coloca O joelho de Clair, em primeiro lugar numa lista de filmes que ele considera mais ou menos interessantes. Lá se salva a honra do convento.

Já vai longo o post e já vos revelei e recordei os recortes escondidos no meu armário de jovem cineclubista. Espero que não vos tenha maçado, simplesmente achei que numa época de crítica amável e pouco profunda, em que já ninguém se identifica com a esquerda ou a direita e são todos grandes cinéfilos, foi para mim interessante ressuscitar estes exemplos.
Fica por esclarecer a posição dos cine-clubes para com a Nouvelle Vague e a minha opinião, agora que revi recentemente dois filmes de Rohmer, sobre aquele autor. Direi para simplificar, que de memória recordo com grande prazer a Marquesa de O e que os dois filmes exibidos esta semana são simpáticos, levezinhos e que nos distraem durante uma noite como requer o grande cinema burguês, ou, como dizia o outro, a ideologia dominante.


PS. (19/01/10): nestas andanças pelo meu armário de recordações descobri, e quero disso dar notícia, que o João Tunes, que hoje escreve no blog Água Lisa, é o mesmo que em 1973 assinava a crítica de cinema, com o nome de João António Tunes, no Notícias da Amadora. Já conhecia o Tunes como dirigente do ABC Cine-Clube de Lisboa, antes do 25 de Abril. Penso até que ainda assegurámos, eu na direcção e ele em algum corpo directivo, os destinos do cine-clube depois daquela data histórica, numa época de grande refluxo do movimento, só não me lembrava desta sua actividade. Ainda desencantei três críticas: uma sobre A 10ª vítima (1965), um filme de Elio Petri (1929-1982), de que eu não me recordo nada, apesar de ser um realizador de que na altura gostávamos bastante, Matadouro 5 (1972), de George Roy Hill (1921-2002), de que também não me recordo, e Os camisardos (1970), de René Allio (1924-1995), de que já não me lembro, mas que penso que vi e que à época teve grande êxito entre a malta de esquerda dos cineclubes.

08/11/2008

"In Memoriam" de Carlos Porto


Conheci o Carlos Porto na Livraria Divulgação, que se situava na Rua D. Estefânia, perto do largo do mesmo nome. Ele e sua mulher (ver fotografia ao lado) eram à data os seus principais e únicos livreiros. Sabia que este conhecimento datava de meados dos anos 60, não conseguia precisar o ano.
Fui por isso procurar na Net alguma informação disponível sobre aquela livraria. Neste post encontrei o que procurava.
A Divulgação, cuja a sede era no Porto, abriu uma sucursal em Lisboa, em 1964. Fernando Pernes foi, até 1965, o seu primeiro responsável. Deixa à sua frente um jovem que eu conheci, o Soares da Costa, que na altura se apresentava como cine clubista, pois tinha trabalhado no Cine-Clube do Porto, e era um dos responsáveis aqui em Lisboa por uma revista de cinema, que aquele Cine-Clube editou. Ainda tentei lá publicar uma crítica ao filme que na altura muito me impressionou, o Evangelho Segundo Mateus, de Pasolini. Devia ser tão má, que nunca viu a luz do dia.
Segundo as informações que recolhi, a Soares da Costa seguiu-se o Carlos Porto, que veio, com a sua mulher, viver para Lisboa, para trabalharem na Livraria. O ano não está indicado. Mas eu apontaria para meados dos anos 60. Penso até, que o Carlos Porto chegou a trabalhar conjuntamente com o Soares da Costa.
É evidente, que esta informação impessoal, pouco acrescenta à biografia daquele crítico de teatro. Simplesmente para mim, naquela época, a Livraria Divulgação não era um local sem importância.
Todos os dias, provavelmente com algumas falhas, eu visitava aquela Livraria. Nessa altura, passava os meus dias no Cine-Clube Universitário de Lisboa (CCUL), cuja sede era perto da Praça do Chile, na Rua José Estêvão, e que, por sua vez, estava quase ao lado do cinema onde eram realizadas as sessões , o Imperial, hoje já desaparecido. Em anos de maior actividade o Cine-Clube chegou a ter sessões no Rex, aos Anjos (Av. Almirante Reis) e para captar o público de outras zonas da cidade, em Campo de Ourique, no cinema Paris. Tudo cinemas que pertencem ao passado.
Do Cine-Clube à Divulgação era um passo, e aquele jovem que eu era na altura, lá ia todos os dias cavaquear com o Carlos Porto e a sua mulher. Penso que me foi apresentado pelo Carlos Araújo, que viria depois a estar bastante ligado ao mundo da edição. Hoje, não sei se ainda trabalha para alguma editora, mas, antes do 25 de Abril, esteve na D. Quixote e foi o responsável pelos seus Cadernos, para cuja colecção de cinema ainda traduzi alguns textos.
Paravam na altura na Divulgação um grupo de jovens, alunos do Liceu Camões, que animavam com as suas risadas e piadas as longas tardes que nessa altura usufruíamos. Carlos Porto e a mulher tratavam aquele grupo como se fossem os seus filhos. Eu, um pouco mais velho, já estudante universitário com longa rodagem, gostava de larachar com os “miúdos”. A maioria seguiu para Direito, onde os fui encontrar na Secção Cultural. Ainda me convidaram para participar num colóquio com o Eduardo Prado Coelho e o Jorge de Silva Melo, penso que para falar do Blow-up, de Antonioni, e do Acidente, do Joseph Losey. Como me senti pequenino ao pé daqueles, já na altura, “importantes” intelectuais. Um dos jovens da Divulgação é hoje juiz no Tribunal Constitucional. É o Gil Galvão.
Mas, regressando ao Carlos Porto e à Divulgação. Era lá que de um modo geral eu comprava os meus livros proibidos. Deram-me crédito e um desconto de 10%, até à altura em que a Associação dos Livreiros proibiu qualquer desconto nos livros. Assim, aos poucos e poucos fui construindo a minha biblioteca. Quando a livraria foi vendida à Bertrand, em 1968, a minha dívida era significativa, paguei-a durante vários meses em suaves prestações.
Era lá que o Carlos Porto todas as semanas me guardava uma revista espanhola chamada Triunfo, de grande tiragem. Semelhante, por exemplo, à actual Visão. Há época, para nós, que tínhamos uma censura férrea, a revista foi uma grande novidade e em Espanha teve um papel importante na luta contra Franco. Também me guardava todos os meses uma revista espanhola de cinema, chamada Nuestro Cine. A sua filiação era marxista e, de um modo geral, era lá que ia buscar as críticas aos filmes que o Cine-Clube exibia.
Foi na Divulgação que também assisti à sessão de autógrafos do poeta soviético Ievtuchenko (Maio de 1967), de quem tinha sido lançada a Autobiografia Prematura, pela Dom Quixote. “Ainda hoje conservo a assinatura do poeta na foice e martelo que fazia parte de uma das suas fotografias que compunham o livro. Para quem não se recorde, Ievtuchenko foi autorizado a entrar em Portugal, conjuntamente com milhares de peregrinos que vinham de Espanha, para participar nas cerimónias de Fátima presididas por Paulo VI.” Escrevi isto num post a propósito e um livro de Joana Lopes Entre as Brumas da Memória.
Penso que coincidiu a venda da Livraria com a minha saída de activo colaborador do Cine-clube. A Divulgação acabava e com ela uma parte da minha vida. Depois, passei a frequentar a Livrelco, uma cooperativa livreira universitária, que a determinada altura foi tomada de rompante pelo MRRP, tal como depois foi a vez do CCUL. Mas eu já não pertencia à sua Direcção.
Carlos Porto, que eu me lembre, foi depois para uma livraria ao cimo da Rua Nova da Trindade, a Opinião. Fui lá uma tantas vezes. Não me ficava em caminho.
Encontrei-o ao longo da vida nos teatros que frequentei e no Partido, a que ambos pertencíamos, e sempre recordávamos, com a sua mulher, aquele grupo de jovens aguerridos que durante as tardes frequentavam a sua livraria.
A última vez que o vi, já muito abalado, foi na homenagem (30 de Outubro de 2007) promovida pelo ABC Cineclube ao seu antigo dirigente e crítico de cinema Manuel Machado da Luz.
Um abraço
Carlos Porto

11/10/2008

Aquele Querido Mês de Agosto


Finalmente fui ver Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes, e a minha antiga veia de crítico de cinema regressou.
Comecemos primeiro pela região onde se desenrola o filme.
Por motivos familiares conheço bem aquela região, costumo ir para uma aldeia situada na parte leste do concelho de Arganil e o filme passa-se principalmente, em Coja e zonas limítrofes, situadas a nordeste daquele concelho. Fiz já algumas vezes o percurso que começa em Coja, passa pela Fraga da Pena, onde o tio que veio da França tira algumas fotografias com a família, e que é referida como sendo um lugar muito fresco na conversa entre os dois actores. É de facto um sítio encantador, onde se encontram fragas e cascatas de água. Depois pode-se seguir para a Mata da Margaraça, situada na Paisagem Protegida da Serra do Açor. A importância da Mata, que no filme é mostrada com o nome das árvores que a povoam, resulta do seu coberto vegetal ser o originário daquela zona das Beiras, que progressivamente tem sido substituído por plantações de pinheiros, eucaliptos e acácias. A sede da Paisagem Protegida situa-se na Mata, numa casa recentemente reconstituída onde se manteve a traça original. Pareceu-me que algumas cenas do filme foram lá filmadas ou então noutra, também reaproveitada, situada um pouco mais abaixo.
Depois segue-se a imensa Serra do Açor, onde se desenrola grande parte do filme, e por onde se pode chegar à aldeia de Piódão, uma pequena maravilha, ainda preservada, com as casa todas elas em xisto e com telhados negros de ardósia.
Ao contrário do que diz o meu amigo Fernando Penim Redondo as casas da região, que ainda conservam a construção original, são de xisto e não de granito.
A partir daí pode-se descer para Aldeia das Dez, já no concelho de Oliveira do Hospital, onde se encontra o santuário da Senhora das Preces, local onde se realiza todos os anos uma festa religiosa importante.
Passemos agora à paisagem humana. As interpretações dos críticos sobre o povo que habita o filme podem resumir-se a duas. Uns, consideram que as imagens daquelas aldeias são semelhantes às das reservas de índios, que de vez em quando devemos visitar, como sucede com a Aldeia dos Macacos que regularmente vemos no Jardim Zoológico. Outros, recorrendo à metáfora da Cidade e das Serras, de Eça de Queiroz, consideram que está ali o Portugal profundo, opondo-o aos blasés da cidade, limitados ao estreito mundo dos seus pequenos blogs.
A todos eles eu gostaria de perguntar: será que são as excursões dos habitantes das Beiras que enchem o Pavilhão Atlântico, no Parque das Nações, quando o Tony Carreira lá canta? Não serão os nossos vizinhos aqui dos arredores de Lisboa, ou mesmo da cidade, que o enchem?
No filme é mostrado um camponês aí na casa dos 60 anos que tinha visto o seu vizinho matar a mulher à machadada. Todos ficámos impressionados com a descrição e a falta de emoções do protagonista. No entanto, muito provavelmente a neta daquele homem já tem uma licenciatura, ocupa um lugar no banco ou numa companhia de seguros em Coimbra ou na sede do Concelho ou ensina numa escola da região e provavelmente consulta a Internet e os blogs. No Algarve, na Manta Rota, que conheço bem, o neto de um antigo pescador deu-me recentemente os parabéns pelo meu blog. É evidente que o Algarve foi civilizado à força. Mas, na pequena aldeia da Beira que refiro, já há algumas casas com piscina, coisa impensável há uns anos atrás, e meninas que se passeiam em roupão de banho pela aldeia naquele querido mês de Agosto. As mães já tinham emigrado para Lisboa ou para França onde, com alguma sorte e muito trabalho, tinham conseguido bons empregos ou amealhado algum dinheiro e as filhas já “doutoras” ou filhos “arquitectos”, como no filme, ou a estudar para isso, lá frequentam a festa da aldeia e dançam ao som de bandas semelhantes às que nos são mostradas no ecrã.
Mas mais ainda, quando uma velhota diz no filme que tem a voz entaramelada porque teve um AVC, pergunto-me: se este facto tivesse ocorrido há 20 ou 30 anos, a mulher saberia o que tinha tido e salvar-se-ia com a mesma facilidade? Hoje, de um modo geral, uma ambulância do INEM chega a uma aldeia do interior a tempo de salvar uma vida.
E que dizer da luz eléctrica que não terá mais de 40 anos ou das estradas alcatroadas que não têm mais de 20,vá lá 30 anos.
Tudo isto para mostrar que nós somos os filhos ou os netos deste nosso povo, deste Portugal que em 30 anos se modificou, penso que para muito melhor, e se hoje olhamos enfastiados para o nosso passado é porque já não nos lembramos das berças donde todos viemos. Exceptuando aqueles que, bem nascidos, sempre tiveram lugar à mesa da Nobreza ou da Igreja.
Por isso, parece extremamente bem feita a descrição deste “nosso” Portugal.
Entrando na apreciação propriamente do filme, aquilo que menos me agradou foi a existência de dois registos: o documental e a ficção. Bem podem alguns críticos citar Godard para justificar a sua interpenetração. Apesar da passagem de um ao outro estar bem dada. O melhor exemplo é o do tio da rapariga que começa em “off” a falar durante a procissão, parecendo ao espectador que era o relato verídico de mais um caso de aldeia, e acaba integrado na história ficcionada. Ou então, o oposto, a manutenção dentro do quadro documental da figura do Moleiro do Rio, que todos os anos pelo Carnaval se atira para o rio Alva.
O filme poderia ser um belo documentário sobre a região e a frustração de uma equipa de cinema que não consegue realizar o filme a que se propunha, no entanto, entendeu o autor passar à ficção e integrar numa história as personagens que já nos vinha apresentando. Contudo, a sua ficção, ao resumir-se à hora final, faz com que as personagens tenham pouca espessura e acima de tudo permite que aquela descambe para o drama de “faca e alguidar”, quando estabelece a relação amorosa entre o pai, a filha e o sobrinho. Por isso entendo que se perdeu um belo documentário sobre uma operação falhada de filmagens e se ganhou pouco com uma história de ficção.
Resta ainda, e não sei se foi essa a preocupação do autor, a desconstrução do próprio filme, muito em voga nos anos 60 do século passado. A passagem dos actores de personagens que povoam o documentário a intérpretes de ficção, a cena da procura de actores para o filme, com o gag do jogo da malha pelo meio, ou o final, com o genérico a correr, em que o realizador interpela o director de som porque este captara sons que lá não estavam, tem a finalidade, penso eu, de chamar a atenção para o facto de estarmos perante um filme, em que tudo é representação e reconstrução da realidade. No entanto como o registo inicial era documental nunca haveria o perigo de nos identificarmos com as personagens, nem nos deixarmos arrastar pelo drama amoroso. Quando Bergman, em Persona (A Máscara), recorreu a esse subterfúgio, ele tinha coisas importantes a dizer e chamava a atenção para que aquilo que mostrava era cinema e não a vida. Mas nem todos podem ser Bergmans.
No entanto, recomendo vivamente a visão de Aquele Querido Mês de Agosto, mas gostaria que o tom de comiseração para com aquela "pobre gente" fosse de vez abandonado, porque ela não o merece.