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18/05/2010

Uma semana louca


A semana passada foi das mais espantosas em termos mediáticos. Numa altura em que o Governo lançava a maior operação de esbulho ao bolso dos portugueses e "dava o dito por não dito" em tudo o que já tinha dito, os media criaram um país artificial. Metade estava a comemorar a vitória do Benfica e a outra metade recebia beatificamente o Papa.
Hoje já sabemos que no fim-de-semana em que o Benfica era campeão uns senhores da União Europeia, de voz mais grossa, tinham dado uns berros que ou Portugal apertava os gasganetes dos seus cidadãos ou então o euro acabava. Vai daí, pela calada da noite, e parece que a reunião durou até de madrugada, dois senhores, um deles o conhecido Ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, e o outro uma tal Nogueira Leite, que, com ar angélico, nos aparece na televisão transvertido de comentador independente, negociaram, o primeiro em nome do PS e segundo em nome do PSD, as malfeitorias que iriam fazer aos portugueses. No dia seguinte de cara lavada José Sócrates e Passos Coelho concordam, parece com pequenas alterações, com as medias que aqueles dois senhores tinham acordado durante a noite.
Enquanto tudo isto se passava e o nosso destino era traçado quer por Bruxelas, quer por dois senhores que para isso não tinham sido mandatados nas eleições Outubro, os media dominantes continuavam alegremente a debitar a mais que desinteressante visita papal.
Só uma semana depois caímos na realidade e suspeito que ainda não nos apercebemos daquilo que nos irá acontecer.

No meio disto tudo dois pequenos apontamentos. Houve, parece que este fim-de-semana, a bênção das pastas dos “meninos-estudantes” que as quiseram levar a benzer. Grande reportagem nas televisões. A juventude sempre estouvada, de capa e batina, de pastas com fitinhas a receber bênção de suas excelências. Mas o que mais me indignou foi a resposta de um jovem à pergunta sobre as dificuldades que iria encontrar na vida real. Respondeu, com grande alegria e satisfação, concordando perfeitamente com as palavras que dizia, que trabalho era fácil de arranjar, um emprego é que era muito mais difícil. Como que se verifica a ideologia dominante e as faculdades de economia existentes já conseguiram moldar o espírito de um jovem que galhardamente se oferece como voluntário para a defesa da flexibilidade no emprego. Mal sabe ele que há alguns anos e provavelmente ainda hoje, quando um departamento de recursos humanos perguntava a um candidato a um emprego o que é que ele pretendia, se este respondesse trabalhar, era um passo andado para a admissão, se respondesse um emprego, de certeza que era recambiado pela mesma porta pela qual tinha entrado. São estes os exemplos dos jovens que estão a sair das nossas faculdades.

Outro pormenor teve a ver com a visita do Papa. Fátima Campos Ferreira (FCF), como mulher de mão da Igreja, assegurou a partir de Fátima a direcção para a RTP 1 de toda a informação da visita papal. Quem foi ela entrevistar, o inefável João César das Neves. Já se sabe que o Sr. Professor falou da riqueza espiritual de todo aquele “comovente” ajuntamento. Mas FCF não pode resistir a fazer um trocadilho entre a riqueza espiritual e a pobreza que iria afligir os bolsos dos cidadãos, ao que Sua Excelência respondeu que perante o fervor religiosos que se estava ali a viver quanto transitórias eram as medidas económicas que se estavam a tomar, nas costas de todos, digo eu.

19/04/2010

A queda de um anjo


Por diversas razões, a minha assistência a este blog tem sido espaçada. Apear disso, tento fugir daquilo com que vulgarmente se atafulha a blogosfera, evitando postar músicas, vídeos ou pequenos comentários chistosos. Continuarei, provavelmente para desespero dos meus leitores, a escrever longos linguados de reflexão “séria” sobre a situação política.
Hoje, irei mudar um pouco de agulha e, ao correr da pena, debruçar-me-ei sobre os males que atravessam a Igreja Católica que ultimamente têm sido tão badalados.

Em primeiro lugar referir-me-ia a um post de Rui Bebiano, da Terceira Noite e de Vias de Facto, com quem há tempos andei às turras, mas que hoje, acalmados os ares e reconhecendo mais uma vez a qualidade da escrita, me apetece comentar.
Tal como eu, Rui Bebiano considera este problema da pedofilia na Igreja como um epifenómeno, que terá a importância que os media lhe quiserem dar, mas que no fundo passará, digo eu, com uns pedidos de desculpa e umas lágrimas vertidas a tempo, como todos os outros pecadilhos sexuais da Igreja. Hoje já ninguém se apoquenta com o Crime do Padre Amaro, mas revelações daquele género causaram escândalo na Igreja do seu tempo.
Tenho também que reconhecer a maneira elegante com que Rui Bebiano trata Vasco Pulido Valente e a crónica que este, sobre aquele assunto, publicou este fim-de-semana no Público, afirmando que esta era uma “daquelas diatribes quebradiças e caturras com as quais intervala análises brilhantes e preclaras”. Sobre as análises preclaras tenho as minhas dúvidas, mas reconheço que, por vezes, com grande raiva minha, algumas vezes acerta. Já se sabe que se eu tivesse que responder àquele articulista nunca empregaria termos tão suaves para os seus dislates.

Mas regressemos ao essencial, a crise da Igreja e a permanência, contra ventos e marés, da sua doutrina. Rui Bebiano atribui mesmo ao seu post o título Bento XVI não será Gorbatchev. E aqui tenho que reconhecer que a Igreja, com os seus 2000 mil anos de história, procede com mais inteligência do que aquele político que de uma penada, na esperança de o renovar, deitou por terra um importante movimento político, antecedendo o drama que atravessa hoje grande parte do movimento comunista que ou se renova e se destrói ou se mantém na mesma e é incapaz de crescer e de influenciar o andar do mundo. Mas não é deste drama que vos quero falar, nem a Igreja se poder confundir com aquele movimento.

Entendo que aquilo que tem vindo progressivamente a destruir as Igrejas na Europa Ocidental, principalmente a Católica, tem sido a irrupção do mundo moderno do modo de produção capitalista e as implicações sociais e ideológicas que isso acarreta.
Recorrendo a uma materialismo histórico um pouco apressado, explicaria assim os vários passos com que o mundo contemporâneo foi destruindo o peso ideológico e social das Igrejas. Em primeiro lugar a industrialização global, que recorreu à mão-de-obra camponesa, afastando dos campos e da actividade agrícola o grande exército de reserva que era o campesinato. No Portugal ainda dos meados do século passado, aquela massa bronca e atavicamente ligadas aos párocos das aldeias e que metia medo aos nossos republicanos, que nunca lhe deram o voto, aterrorizados com a força dos seus chefes católicos e monárquicos, foi dispersa pela emigração que despovoou os campos, levou gente para a Europa desenvolvida e para as cidades do litoral. Esta mole imensa pode hoje votar à direita, mas há muito que deixou de estar sobre a influência directa da Igreja.
Outro factor de extrema importância foi também, por força da industrialização global, a entrada da mulher no mundo do trabalho, garantindo-lhe uma independência que nunca se tinha verificado anteriormente. Por outro lado, e concomitantemente com isto, a capacidade de dominar o seu ciclo reprodutivo, ou seja, ser capaz de decidir quando é que quer ter filhos. A independência económica e reprodutiva é pois um factor importantíssimo para a mulher fugir à sujeição familiar que a Igreja sempre lhe quis impor.
Por último, e não menos importante, a necessidade de mão-de-obra mais qualificada abriu a porta do ensino a milhares de filhos de trabalhadores que puderam obter um grau de escolaridade mais elevada que os seus pais e permitiu o seu acesso ao conhecimento, tornando mais relativos os valores religiosos de interpretação do mundo. Associado a isto estão as novas formas de representação ideológica introduzidas pelo sistema capitalista dominante, que se traduzem através dos meios de comunicação social e da arte popular: cinema e música, que nada têm a ver com as tradicionais formas de transmissão da informação típicas dos nossos avós.
Estes são, quanto a mim, alguns dos factores que, apresentados de forma simplificada, fazem com que a Igreja perca hoje o domínio do mundo contemporâneo.

Resta acrescentar que nada disto é linear e aquilo que pode ser verdadeiro para a sociedade portuguesa não ter qualquer transposição, por exemplo, para os Estados Unidos onde a força das Igrejas fundamentalistas é cada vez mais assustadora. Ou, noutro aspecto, o proliferar nas sociedades ocidentais dos esoterismos, quantificado pelo aumento de prateleiras sobre este tema nas livrarias e pela criação de seitas e todo o tipo de consultas e apoios espirituais que vão proliferando nas nossas sociedades.

Por último, resta acrescentar que a religião, de uma forma alienada, tem servido como esteio da unidade nacional contra os domínios estrangeiros ou das potências imperiais. Foi o que se passou na Irlanda, principalmente na Irlanda do Norte, e na Polónia onde o catolicismo serviu para cimentar a unidade nacional contra o ocupante estrangeiro.
O mesmo se está a verificar, com todas as formas absurdas que isso acarreta, de o islamismo servir hoje como forma de resistência ao invasor e ao ocupante estrangeiro, seja ele israelita ou americano. Mas isto deixaria para outra ocasião.

25/03/2010

O Dia do Estudante de 1962. Um percurso pessoal.


Fui este ano, mais uma vez, ao jantar do aniversário do Dia do Estudante de 1962, que rememora, a 24 de Março, aquela data. O jantar decorreu na Cantina Velha da Cidade Universitária. Para além das caras conhecidas que ao longo dos anos fui recuperando e hoje já as identifico bem, encontrei algumas que o tempo foi esbatendo mas que descobri agora que estão vivas e de boa saúde. Dito isto passemos à história.

Entrei para a Faculdade de Ciências no ano lectivo de 1961-62. Posso dizer que era caloiro quando se deu a Crise Académica de 1962. Quando cheguei à Faculdade não era um jovem despolitizado, já há muito tinha feito a minha opção pela Oposição - o nome que se dava aos que se opunham ao regime salazarista -, esta já era também uma tradição da família. Recordo-me de que já me considerava marxista e próximo dos comunistas, mas tirando eu e os meus amigos, que me acompanhavam do liceu, não conhecia gente activa da Oposição, mesmo aquela que poderia pontificar no movimento associativo académico. Também não conhecia ninguém ligado ao PCP. Podemos dizer que quando cheguei à Faculdade andava como uma personagem de um livro, que já li há muitos anos, de César Pavese à procura dos comunistas, ou, para parodiar outro título literário, andava à procura de Deus.
Para meu azar as personagens que fui encontrando no meu curso estavam no lado oposto. No curso de Biologia a maioria eram mulheres. Descortinava-se um homem aqui e acolá. Os que me saíram na rifa – é bom que se diga que nessa época era normal os homens darem-se com homens e as mulheres com mulheres – foram o José Luís Pechirra, uma personagem sinistra, que os estudantes daquela altura conheceram bem, que se dizia que era da PIDE, pelo menos era um provocador da extrema-direita; o Antunes Dias, que era um ex-seminarista, muito reaccionário, mais velho do que eu; um jovem, que penso que se chamava Octávio, que tinha vindo de Goa e porque nesse ano (Dezembro de 1961) se deu a invasão daquela colónia, ficou isolado em Portugal, sem poder comunicar com os pais e por isso com grandes dificuldades económicas – compreende-se que não fosse favorável às ideias progressistas – e mais alguns, mas que afinavam quase todos pelo mesmo diapasão.
Por esse motivo, apesar de trocar apontamentos e por vezes algumas opiniões moderadamente políticas, tentei procurar outra gente que tivesse as mesmas afinidades políticas. Por isso, comecei a frequentar a Associação de Estudantes, fiz-me sócio, participava assiduamente nas suas Assembleias-gerais, e ao fim de pouco tempo já era notado como votando favoravelmente com a esquerda, ou seja, com a malta que era do “contra”. Aos poucos e poucos fui conversando, trocando opiniões. Um dia falando com um dos “contra”, o Carlos Plantier, que era do meu curso, mas mais velho – penso até que já morreu –, e porque ele dizia que tinha contactos com a Seara Nova, disse-lhe que era sobrinho do Ulpiano Nascimento colaborador, à época, daquela revista e hoje, com 95 anos, seu actual director. Sei que a partir daí passei a ser conhecido como o Nascimento, nome de guerra que nunca mais abandonou até sair da Faculdade e ir para a tropa, onde passei a ser conhecido por Fernandes, que era o que constava na farda.

Convém contar aqui o episódio das eleições para a Direcção da Associação de Estudantes. Todos os anos, chegado o Outono, tinha que se fazer eleições. Era normal concorrerem duas listas, parece-me que no ano anterior, por decisão da Assembleia-geral, a lista vencedora teve que incorporar alguns elementos da lista derrotada. Mas neste ano não estava previsto nada disso e assim apresentou-se uma lista chefiada pelo Nicolau, das geologias, e outra da oposição de esquerda, chefiada pelo Cordeiro, que eu penso que depois desertou para a FRELIMO, pois era de origem moçambicana. Sei que a primeira lista, seria constituída por gente que hoje se poderia enquadrar no centro-direita, com forte influência católica, da JUC, corporizada pelo António Ribeiro, que era também das geologias e filho do Professor Orlando Ribeiro. Verifiquei que foi um dos oradores da sessão solene invocativa dos 40 anos do dia de estudante de 1962. Acho que o Pechirra fazia parte também dessa lista. Sei que se chegou à noite das eleições, que eram realizadas em Assembleia-geral eleitoral e o clima estava electrizante. O Hernâni Pinto Bastos, filho do célebre médico que foi dirigente do PCP, e que encontrei mais uma vez neste jantar, insurgiu-se, contra umas provocações feitas por um homem da extrema-direita, legionário ou PIDE, chamado Rebordão. Chegou-se quase a vias de facto. Mas quem ganhou foi o centro-direita, o tal Nicolau.
Há tempos, num colóquio sobre a crise sino-soviética, que se realizou na Universidade Nova, em que alguns dos intervenientes recordaram as suas memórias associativas, eu lembrei essa célebre noite e garanti que as freiras que eram alunas tinham sido mobilizadas para sair à noite e ir votar na lista católica. A verdade é que não havia muitas freiras estudantes e não seriam elas as responsáveis pelo resultado obtido pelo centro-direita, o que sucedeu, e agora recordo, é que as meninas que estavam hospedadas nos lares dirigidos por freiras tiveram ordem de soltura nessa noite para vir votar na lista da JUC. Fez-se posteriormente uma Assembleia-geral só para discutir isto, mas não se chegou a conclusão nenhuma.

Finalmente chega-se à véspera do Dia de Estudante que estava programado para os dias 24 e 25 de Março. Não me lembro se pensava participar nas suas actividades. Sei que Sábado de manhã, dia 24, e nessa altura o Sábado, pelo menos de manhã, era um dia normal de trabalho, eu estava na Faculdade em aulas, quando ao final da manhã chegam notícias de que o dia de Estudante tinha sido proibido e que a Cidade Universitária tinha sido invadida por polícias que tinham batido em professores e alunos. Decretou-se mobilização geral e apelou-se para que toda a gente fosse imediatamente para a Cidade Universitária para o que desse e viesse
Mas o que se passou nesse dia fica para outro post.

25/03/2009

Mais uma Assembleia Municipal

Como sabem sou deputado municipal independente pelo Bloco de Esquerda. Se leram os jornais e viram a televisão, o PSD resolveu apresentar na Sessão da Assembleia Municipal de Lisboa, que teve lugar ontem, uma moção de censura ao executivo camarário, que foi aprovada, já que o PSD tem a maioria absoluta naquele órgão municipal. Esta foi a informação mais relevante desta Sessão. Mas façamos um pouco de jornalismo e contemos o que se passou.
Existe uma prática comum no Parlamento, e penso que em todas as Assembleias, que é haver um período antes da ordem do dia, que reduzido aos seus acrónimos se transforma em PAOD. No início, quando comecei a frequentar as reuniões para preparação das assembleias municipais, sempre que falavam em PAOD fazia um ar de espanto, como se estivessem a falar chinês. Mas o tempo passou e hoje já pergunto, com grande desenvoltura, se esta ou aquela Assembleia tem ou não PAOD.
Ora na Assembleia de ontem havia um PAOD. Uma das moções apresentadas pelo PSD nesse ponto da ordem de trabalhos, depois dos considerandos, que regra geral todas as moções têm, deliberava “manifestar a sua profunda preocupação e censura pela incapacidade da Câmara Municipal de Lisboa, e do Dr. António Costa, em definirem uma estratégia municipal na área de segurança na cidade”… e “exigir que o Dr. António Costa apresente … o Plano Municipal de Segurança”.
Esta moção contou com os votos favoráveis do PSD, CDS, PCP e PEV (verdes), a abstenção do Bloco e o voto contra do PS.
A forma como estava redigida, a referência explícita ao Dr. António Costa, a sua divulgação antecipada por tudo o que era comunicação social faziam inegavelmente parte da campanha de Santana Lopes para a autarquia. O PCP e o PEV alinharam nestas zangas do Centrão, o Bloco, e bem, não se misturou com estas altercações, e absteve-se. Para que não subsistisse a ideia de que não estava interessado na segurança dos cidadãos de Lisboa, votou favoravelmente uma moção apresentada pelo PCP que criticava igualmente a estratégia do executivo camarário quanto às questões de segurança, mas relacionava a insegurança com os problemas sociais resultantes da crise que se vive.
Já se sabe que a aprovação daquela moção do PSD não teve qualquer efeito prático. Unicamente permitiu que aquele partido pudesse agitar nos media a incompetência do actual presidente da Câmara e foi imediatamente acompanhada de uma conferência de imprensa de Santana Lopes para tratar da sua grande obra, o túnel do Marquês.
As moções e recomendações apresentadas no PAOD foram várias. Pode-se dizer que se perde muito mais de metade, diria quase dois terços, da duração da Assembleia com este período. São as regras do sistema democrático.
O Bloco, entre outras moções, também apresentou uma, da minha autoria, Congratulando-se pelo êxito da Manifestação da CGTP-IN, de 13 de Março (ver em PS. a deliberação apresentada), que só contou os votos favoráveis do PCP, PEV e BE, e os votos contra das restantes bancadas, sendo portanto recusada. Depois da prosa sectária e vesga do editorial do último Avante, aos olhos daquele Partido, o Bloco lá estaria mais uma vez a aproveitar-se do êxito da mesma. Triste partido que se julga proprietário de tudo que acontece à esquerda.
Também no PAOD lá veio mais um voto de congratulação pela beatificação de D. Nuno Álvares Pereira, apresentada pelo PSD. Quando o vi, disse logo: “eu voto contra”. Penso que a restante bancada do BE teve dúvidas. No entanto, resolveu coordenar a sua actuação com a posição que tinha assumido na Assembleia da República, em que o voto também tinha sido negativo, fazendo uma declaração de voto. Nesta Assembleia referiu-se que no Estado laico os seus órgãos não se devem pronunciar sobre as resoluções tomada por qualquer dos seus grupos religiosos. Por mim a declaração teria sido mais violenta, primeiro porque os considerandos traçam uma biografia perfeitamente heróica daquela personagem, quando nem todos os historiadores estão de acordo em relação à sua importância histórica e humana. Por outro lado, os motivos apresentados pelo Vaticano para a sua beatificação são ridículos, o de se ter verificado um ”milagre” quando uma senhora, que ficou momentaneamente cega por ter derramado óleo a ferver nos olhos, resolveu rezar a D. Nuno e obteve “a graça” de passar a ver, com atestado passado por médico e tudo. Mas é a minha saudável veia anti-clerical que me vem ao de cima. Mas o que é mais incompreensível é a abstenção do PCP e do PEV, que nestas coisas de Igreja consideram que o “respeitinho” é muito bonito.
Quanto ao resto não teve história. O expediente do costume.

(a fotografia é do antigo cinema Roma, onde hoje está sediada a Assembleia Municipal de Lisboa)
PS
.: Moção de congratulação pelo êxito da Manifestação da CGTP-IN, de 13 de Março, proposta de deliberação:
1. Saudar os trabalhadores que participaram na grande manifestação realizada na cidade de Lisboa, no dia 13 de Março, sob o lema Mudar de Rumo com mais empregos, salários e direitos;
2. Apelar aos órgãos de soberania para que ouçam e ponham em execução as exigências formuladas na resolução aprovada na Manifestação;
3. Apoiar as acções futuras propostas naquela resolução em que se destacam a participação activa nas comemorações que no dia 25 de Abril se realizam por todo o país e na grande jornada de luta do 1º de Maio;
4. Repudiar todas as declarações que visem diminuir o êxito da manifestação, incluindo aquelas que afirmam que os trabalhadores foram vítimas de manipulação política;
5. Entregar esta moção a todos os órgãos de soberania.

24/02/2009

Como um velho “communard” ainda incomoda cento e quarenta anos depois

Ao contrário do meu amigo Fernando Penim Redondo, do DOTeCOMe…o Blog, eu não considero este assunto encerrado e penso, apesar do ridículo da situação, que todo o barulho que se fizer à volta dele nunca será de mais, pois nestes últimos dias inesperadamente a mentalidade censória, com proibições e autos de apreensão, voltou a atacar.
Ao contrário do que afirmava um comentário ao meu post anterior, a verdade é que a censura explícita a actividades artísticas e literárias concretas só muito raramente é que actuou depois do 25 de Abril e em qualquer dos casos com alguns protestos públicos. Estou-me a lembrar do célebre filme Pato com laranja interrompido a meio da sua exibição na RTP 1 (1983), por pressão de alguns espectadores muito incomodados com umas maminhas que tinham aparecido, e a apreensão pela Judiciária do livro O Bispo de Beja, de Homem Pessoa, editado, em 1980, por Vítor Silva Tavares, das Edições & etc” (ver aqui uma interessante entrevista com o editor, que conta a história deste caso). É bom que não confundamos actos verdadeiramente censórios, com todos aqueles que diariamente nos obrigam a dobrar a língua, a nos rebaixarmos perante o patrão ou que impedem os jornalistas de publicarem nos media as suas livres opiniões. Porque são coisas diferentes e exigem respostas diferentes. Se misturamos tudo, às duas por três não somos capazes de nos indignar e protestar contra aquilo que comezinhamente chamamos censura.
Mas voltemos ao que interessa. No caso de Braga, que penso que já é do domínio público, três polícias apreenderam um livro que tinha na capa uma reprodução do célebre retrato de Gustave Courbet, A Origem do Mundo (1866), hoje exposto no Museu d’Orsay, em Paris e que retrata o sexo de uma mulher em posição que se pode considerar sensual. Tal como em Torres Vedras, em relação a um autocolante com um pesquisa no Google sobre “mulheres”, em que algumas apareciam despidas, que preenchia o ecrã de um computador Magalhães gigante, também em Braga houve cidadãos, neste último caso, segundo a PSP, mais do que um e que já provocavam “crescente agitação e levantar de ânimos”, que se indignaram com a exibição de um sexo de mulher.
Portanto, para mim, além de umas autoridades parvalhonas, sempre prontas a zelarem pela "inocência" dos seus menores, o problema é dos cidadãos daquelas cidades, provavelmente respeitáveis chefe de família, que no esconso de uma esquadra ou de um tribunal são capazes de denunciar os seus semelhantes por exibirem aquilo que aos seus olhos não passa de maldade humana, ou seja, o que sempre indignou as Igrejas, a exibição da nudez, principalmente a feminina.
Os polícias, como sempre, comportam-se com aquela ignorância que já caracterizava a PIDE, quando apreendia, por exemplo, A República, de Platão, convencida que estava perante uma obra de propaganda aos ideais republicanos. Mas isso há-de ser sempre apanágio das polícias, já não deverá ser tanto de uma magistrada, que antes de se decidir a intervir, deveria ir ver o que estava a proibir. Mas também isso deve resultar da fraca cultura que inculcam nas nossas faculdades aos jovens estudantes.
Não estranharia se por detrás destes indignados cidadãos, que ao contrário da maioria, são os que me provocam mais repulsa, não estivesse a mão da Igreja, ou pelo menos, não fossem seus fiéis seguidores. No caso do livro atrás referido, “O Bispo de Beja”, foi um padre que fez a denúncia.
Quanto a Gustave Courbet (1819-1877), que hoje já era classificado como belga pela Televisão Pública, foi um grande pintor realista francês, de meados do século XIX, tendo sido considerado como o iniciador daquela corrente artística. Com cerca de cinquenta anos como republicano e socialista apoiou a Comuna de Paris, a primeira insurreição proletária, que durou entre 18 de Março e 28 de Maio de 1871, tendo sido eleito para o Conselho da Comuna, que governou Paris enquanto aquela subsistiu. Depois da repressão que se abateu sobre os communards (apoiantes da Comuna), Courbet foi preso e passou seis meses encarcerado, tendo em 1873, por um processo que lhe puseram relacionado com a sua actividade como communard, abandonado a França e indo morrer no exílio na Suíça. Hoje, quando um quadro seu é considerado por cidadãos obtusos e polícias estúpidos uma obra pornográfica, lembro aqui o intelectual comprometido como seu tempo e que sacrificou o descanso e a glória dos seus últimos anos pela verticalidade na acção.
Já estava este post publicado, quando começaram a chegar notícias com mais pormenores sobre o tinha acontecido em Braga.
Falava-se que a polícia interveio “para evitar desacatos”. Estes teriam sido provocados por crianças que repararam na capa do livro e chamaram mais para ver. As mães e os pais, em função da agitação dos filhos, foram também dar uma olhadela e todos juntos começaram a indignar-se com o conteúdo da capa, ameaçando “tomar medidas”. A ser verdade esta história, tudo isto cheira a histeria colectiva e de uns pais e umas mães que, não concordando, foram incapazes de levarem dali os filhos ou então, muito simplesmente, de dizerem que aquilo era parecido com o “pipi” delas. As criancinhas não foram o problema, foram os pais que, em nome delas quiseram dar asas à sua mentalidade retrógrada. Por isso, como tenho afirmado desde o princípio o problema não são só as polícias, mas sim os cidadãos que dão azo à sua veia delatora e persecutória.
Espantosamente a TVI dava a notícia destes factos afirmando que Courbet era um pintor renascentista. Será que naquela casa não haverá ninguém que antes de um noticiário consulte uma enciclopédia, nem que seja a wikipedia?

17/01/2009

Cautela com os amores, nem Alá sabe onde é que acabam?


Não me irei debruçar sobre estas declarações extremamente infelizes do Cardeal Patriarca de Lisboa. Há quem admita que o senhor estaria com uns copitos a mais e que, por esse motivo, a tradicional vigilância opinativa que a Igreja impõe aos seus ministros foi abandonada por momentos. No entanto, elas podem ser entendidas como uma crítica ao multiculturalismo defendido no “Ocidente” por certa esquerda ou por aqueles que advogam o politicamente correcto. Hoje a direita e alguma esquerda são contra a permissividade em relação a outras civilizações, culturas e comportamentos que afrontam claramente os valores ditos ocidentais. É evidente que, na maioria dos casos, aquilo que se critica refere-se normalmente aos praticantes da religião muçulmana.
É sobre isto que gostava de fazer alguns comentários.
Primeiro, manifestei-me na altura própria em artigo na net, que hoje já não sei a onde é que anda para poder linkar, contra as posições de alguma esquerda que achava que se deviam censurar as gravuras sobre Maomé publicadas num jornal dinamarquês de extrema-direita. Pensava eu, que não se devia proibir a publicação daquelas gravuras, ao contrário da posição na altura igualmente assumida pela Igreja Católica, pois estaríamos a abrir a porta para que qualquer crítica à religião pudesse ser censurada em nome da ofensa aos seus praticantes. Nesse artigo enumerava os atentados à liberdade desencadeados em Portugal, já depois do 25 de Abril, em nome dos valores ditos religiosos. Recordava um episódio antigo (1979) de uma bomba que rebentou junto ao cinema que estava a exibir As Horas de Maria, do António de Macedo.
Segundo, penso que se deve criticar todos os atentados aos direitos das mulheres praticados em países muçulmanos, bem como a permissão em alguns daqueles países da justiça ser regida pela lei corânica. Mas esta crítica não deve ser desenquadrada das implicações políticas e sociais que estes comportamentos acarretam às populações que são vítimas destas tradições. Sabemos que muitas vezes atrás destes princípios religiosos vem a defesa do conservadorismo social e político, a manutenção das classes dominantes no poder e a preservação de estruturas sociais arcaicas. Por isso, quando hoje se assiste à crítica das acções de grupos ditos extremistas, muitas vezes recorrendo a estes estereótipos, deixa-se ficar no esquecimento países ditos “amigos do Ocidente”, cujo exemplo mais flagrante é Arábia Saudita, cuja classe dominante pratica até ao horror aquele tipo de comportamentos sobre as suas populações.
Terceiro, manifesto-me igualmente contra a crítica a certos movimentos islamitas baseada em valores civilizacionais, que permitem absolver Israel, garantido que os seus comportamentos seriam iguais aos nossos – esquecendo-se que Israel é um Estado confessional – e condenar, por exemplo, os palestinianos, hoje influenciados pelo Hamas. A defesa desta posição não visa mais, em última instância, do que permitir o domínio destes povos por hierarquias corruptas ao serviço dos interesses do imperialismo “ocidental”.
Quarto, foi o “Ocidente” que contribuiu para eliminar certas direcções políticas que defendiam a modernidade nestas sociedades, ao combater por todos os meios os movimentos laicistas, que de um modo geral representavam uma ideologia progressista e anti-imperialista, apoiando, na maioria dos casos, os movimentos islamitas que defendiam um regresso aos valores corânicos tradicionais.
Enumerarei, um pouco ao correr da pena, todos os casos de que me lembro.
O golpe apoiado pela CIA, em Agosto de 1953, contra Mohammed Mosadeq, no Irão, que tinha nacionalizado a Anglo-American Oil Company e que seguia um programa nacionalista e anti-imperialista naquele país.
A inclusão da Síria como um dos inimigos do Ocidente, mas que é governada desde 1963, com mão de ferro, por um partido laico e que se clama como socialista, o partido Baas, cujo nome oficial é Partido Baas Árabe Socialista. Este partido também dominava o Iraque, de Saddam Hussein, outro dos poucos países laicos da região, é certo que regido por uma ditadura sangrenta, mas que foi apoiada pelo Ocidente quando atacou a República Islâmica do Irão.
A luta contra o regime de Nasser, no Egipto, que nacionalizou o Canal de Suez (Julho de 1956), quer explicitamente, atacando-o directamente, como fizeram ingleses e franceses em Outubro de 1956, na sequência da nacionalização do Canal, ou apoiando os Irmãos Muçulmanos, grupo de inspiração religiosa, que foi um instrumento da monarquia saudita para combater Nasser e os nacionalistas árabes. Hoje o Egipto é governado por uma oligarquia corrupta apoiada por Israel e pelos Estados Unidos.
O caso mais conhecido é a luta empreendida pelos mujahidin contra o Afeganistão socialista, dominado pelas tropas do Exército Soviético, apoiados às claras pelos americanos. É interessante ter ouvido há tempos um depoimento do jornalista da RTP, Barata-Feyo, que andou por aquelas paragens, e afirmou que a única altura em que as mulheres afegãs se puderam libertar da burka, frequentar a escola pública e exercer a sua profissão foi quando os comunistas estavam instalados em Kabul. Barata-Feyo não se pode considerar com apoiante de qualquer movimento ou país comunista.
Por último, o caso mais recente do Hamas, na Palestina, que foi apoiado por Israel para combater a Fatah, um movimento laico, que no entanto, dadas suas recentes cumplicidades com aquele país e a grande corrupção dos seus dirigentes se deixou ultrapassar no apoio popular por aquele movimento religioso.

No fundo, resumindo e concluindo, o "Ocidente", ou melhor o imperialismo, primeiro franco e anglo-saxónico e depois americano, e o seu testa de ferro que é Israel, têm vindo a contribuir para a vitória das forças islamitas, derrotando ou corrompendo qualquer saída laica e progressista, que neste contexto teria que ser nacionalista e anti-imperialista.
È pois nesta conjectura que a luta de uns contra o multiculturalismo e a oposição bacoca de outros, que consiste na justificação de algumas das mais aberrantes práticas religiosas muçulmanas, devem ser criticadas, defendendo uma saída laica, progressista e anti-imperialista para os povos e países que seguem aquela religião.

Vem a propósito, citar um belo documentário de Diana Andringa e Flora Gomes sobre a guerra colonial na Guiné, As duas faces da Guerra, onde no episódio final exibido pela RTP, se destaca, com provas concretas no terreno, esta frase sempre repetida de Amílcar Cabral, “não fazemos a guerra contra o povo português, mas sim contra o colonialismo”. Hoje quando a reacção e os sionistas tentam confundir a esquerda, que ao atacar o imperialismo americano e o expansionismo sionista, nos tentam opor o rótulo de anti-americanos e anti-semitas, temos que lhes devolver as belas palavras de Amílcar Cabral afirmando que a nossa luta não é contra o povo americano nem contra os judeus. Mas temos igualmente que fugir, mesmo que achemos justificada alguma diarreia anti-semita, da defesa das práticas e dos actos que vão nessa direcção.

29/11/2008

“Substituir uma fezada por outra” ou a conversão de António Gramsci


Nesta ânsia de estarmos permanentemente a actualizar os nossos blogs somos muitas vezes levados pela análise superficial, pela piada dita engraçada, pelo comentário sem substância. Eu próprio sou arrastado pela necessidade de todos os dias assinar o ponto e por isso de me perder na espuma dos dias.
Vem tudo isto a propósito de um post que Joana Lopes inseriu no seu blog sobre uma pretensa conversão de António Gramsci no leito de morte à Santa Teresinha do Menino Jesus. A novidade foi dada por um arcebispo italiano, a imprensa daquele país rapidamente pegou nela e vem reproduzida no Público.es de Espanha.
Rui Bebiano enquadra-a perfeitamente e considera-a que se trata “de uma provocação anticomunista, digna dos melhores tempos da Guerra Fria.” Eu não diria melhor, mas não deve andar muito longe das provocações católicas, que sempre utilizaram Fátima com essa mesma finalidade, inclusive a da conversão da Santa Rússia.
Mas o que nos diz Joana Lopes “A ser verdade, não foi o primeiro – e não terá sido o último – a substituir uma fezada por outra. (Amanhã, vou ler o Avante! com uma atenção redobrada.)”
Sem considerar que há personagens intocáveis, encontramos pelos menos alguns pensadores e políticos que pelo seu sacrifico pessoal, pela sua postura, e pela sua inteligência – o juiz fascista que o condenou à prisão dizia que era necessário impedir este homem de pensar – que merecem um pouco mais de rigor na apreciação das suas vidas. Não se pode impunemente, a propósito de António Gramsci, dizer que substituiu uma fezada por outra.
Gramsci foi sem dúvida nenhuma, entre os intelectuais que foram responsáveis por aquilo que se costuma designar por “marxismo ocidental”, um dos pensadores mais originais e que mais se distanciaram da visão estalinista do mesmo. Os conceitos que desenvolveu de “hegemonia”, de “bloco histórico” ou o de “guerra de posição”, aquela que corresponderia à luta possível da classe operária ocidental, são hoje extremamente importantes na luta política.
Nos comentários ao post de Joana Lopes há logo alguém, um erudito em relação ao que se publica em inglês, que vem afirmar que está ser editado naquela língua uma edição crítica dos “Cadernos do Cárcere”, tendo já sido editado o terceiro volume. Pois eu informo que no Brasil, em português, já existe uma edição daqueles Cadernos em seis volumes, dirigidos pelo gramsciano Carlos Nelson Coutinho (edição de Carlos Nelson Coutinho, com a colaboração de Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2001), que escreveu igualmente, para quem estiver interessado, um estudo sobre o pensamento político Gramsci (Gramsci – um estudo sobre o seu pensamento político, Civilização Brasileira, 1999)
Para terminar lembraria à Joana Lopes que só por grande ironia é que o Avante! dedicaria algumas linhas a Gramsci, pois o apego do PCP ao marxismo-leninismo há muito que impediu de pensar e encarar outras correntes do marxismo.
PS.: é evidente que esta crítica ao post da Joana Lopes não invalida a qualidade do seu blog, nem o belo trabalho que tem desenvolvido em Caminhos da Memória.

24/10/2008

Louvado sejas, ó "Magalhães"


Video do programa Zé Carlos dos Gatos Fedorentos

Segundo noticia o Sol, esta Brincadeira com Magalhães abre processo contra os Gato Fedorento. No corpo da notícia é só dito que alguns católicos queixaram-se à Entidade Reguladora da Comunicação Social.
Por mim, é mais uma vez o fundamentalismo católico, igual ao muçulmano, a não suportar a crítica e a brincadeira. Já uma vez escrevi sobre isto. São iguaizinhos.
Tal como a extrema-direita europeia, e não só, divulgou as caricaturas sobre Maomé, tenho igual prazer em divulgar este excelente momento de humor