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16/03/2011

Será que ouvi bem?

Quando hoje, no meio da confusão política que de repente invadiu os noticiários das nossas TVs, ouvi alguém perguntar a Cavaco Silva o que pensava da crise política. Este, limitou-se a fazer a parte costumeira, respondendo que não estava ali para tratar deste assunto, mas a prestar uma homenagem aos mortos da guerra de África.

Depois ouvi parte do discurso e não queria acreditar. Não é que Cavaco instou os jovens a empenharem-se em “missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar”?

Cavaco dá assim como exemplo aos jovens de hoje aqueles que a contra gosto e obrigados foram combater os povos da colónias portuguesas, às ordens de um Governo ditatorial, que impôs uma política de submissão àqueles povos, que contra isso foram obrigados a lutar.

Já chegámos aqui? Cavaco Silva não pesará minimamente as palavras que diz? Ou então, o que vem confirmar as suas declarações à PIDE, ele foi para a guerra colonial com desprendimento e determinação para combater os “terroristas”. É este o triste presidente que temos.



PS. Permita-me o Victor Dias discordar de seu post sobre este mesmo assunto. É que a seguir à citação da frase de Cavaco, e afirmando que a critica, linka para um artigo que em tempos escreveu de resposta a outro do Pacheco Pereira sobre a deserção ou não da guerra colonial. A posição aí defendida, que eu também assumi, e que me parece bastante justa, nada tem a ver com esta citação de Cavaco, que propõe como modelo à actual juventude os jovens que foram obrigados a marchar para a guerra colonial.

23/01/2010

5 Décadas de asneira em Portugal


Costumo, vagares de um reformado, ouvir a revista da imprensa matinal quer da SIC Notícias, quer da RTPN. Calhou-me hoje ouvir a da SIC Notícias. Quem as comentava era um velho conhecido meu, José Manuel Anes. Sabia que tinha feito uma carreira no Laboratório da Polícia Judiciária, que se dedicava a temas esotéricos e de alquimia, mas já não me lembrava que era maçon, nem sabia que tinha tão intensa actividade lectiva, palestrante e de escrevinhador (ver página pessoal aqui). Penso que hoje aparecia na SIC Notícias na qualidade de candidato a presidente da direcção do Observatório de Segurança Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT), que eu suspeito que reúne tudo o que é conservador neste país.
Estive desatento aos comentários que fez sobre a maioria das notícias, no entanto, houve um que me chamou particularmente a atenção. Parece que no Diário de Notícias (DN) vinha um artigo que se referia ao terrorismo em Portugal. Posteriormente fui consultar o DN e o que estava lá escrito referia-se a 5 Décadas de Acção Armada em Portugal, de João Céu e Silva. Todo o artigo era perigoso, misturava acção armadas e atentados realizados antes e depois do 25 de Abril, relatava mais desenvolvidamente o caso do Assalto ao Santa Maria e do avião desviado por Palma Inácio e depois descrevia as acções da extrema-direita, do ELP e do MDLP, das FP-25 de Abril, e terminava com a ETA e com as prisões de dois etarras efectuadas recentemente no nosso país. Tinha também uma entrevista ao Carlos Antunes, encimada pelo título “Cunhal defendeu a insurreição armada”.
Logo o início, o artigo anuncia-se assim: “o terrorismo é a ameaça global deste início de milénio e o nosso país já foi fértil em explosões que mataram pessoas, destruíram instalações, navios e aviões e mudaram o curso da história.” - Talvez o 25 de Abril fosse uma acção terrorista –. Depois um pouco mais à frente: “um rol de actividades explosivas que a história oficial tem branqueado e esquecido, apesar da dimensão e do papel nas mudanças políticas que provocou nas últimas cinco décadas.”
Vale a pena ler, já que indiquei o link, porque é um manual da parvoíce e da mistificação histórica, misturando coisas muito diferentes, como as acções posteriores ao 25 de Abril, além das da ETA e de alguns atentados internacionais que se verificaram no nosso país. Mas isto é a imprensa que temos e pior ainda, ligada ao PS. O que diriam alguns históricos daquele partido por se misturarem no mesmo saco o Henrique Galvão, o desvio do avião pelo Palma Inácio e a ETA ou os atentados do ELP. Branqueamento da história diz o autor das linhas, o que precisava era de um curso acelerado da história do século XX de Portugal.
Mas o mais grave disto foram depois os comentários de Anes, que quando eu o conheci, nos anos 60, na Faculdade de Ciências, se declarava marxista e propunha que organizássemos entre nós cursos de formação de marxismo. Como esta gente muda.
Mas dizia este senhor que todos os atentados que provocassem vítimas civis e não aplicava a palavra inocente, porque dizia que todos somos culpados, eram de condenar e por isso não se coibia de modo algum de condenar, provavelmente, as acções do assalto ao Santa Maria, ou da ARA, ou mais algumas que provocaram, na época, a morte de pessoas não envolvidas no processo.
Esta gente, que desconhece ou já não se lembra da história e hoje vive obcecada com o terrorismo, não é capaz de compreender que no tempo de Salazar, a PIDE, que torturava e matava em nome do poder, era uma organização terrorista em nome do Estado fascista, contra o qual foram levadas a efeito algumas acções armadas. Mais, esquece que terroristas eram classificados pelo fascismo todos os movimentos de libertação das colónias. Nós não íamos combater um exército inimigo, mas sim um bando de terroristas, os “turras”.
Fiquei triste porque pessoas de quem eu tinha uma boa recordação, apesar do esoterismo das suas pesquisas, alinhassem hoje pela mentalidade dominante e essa sim branqueadora do Governo de Salazar-Caetano.
Foto de José Manuel Anes

27/03/2009

A Guerra – colonial, do ultramar, de libertação


Que eu tenha reparado, pelo menos naqueles blogs que eu frequento regularmente, nenhum falou desta magnífica série que está a ser exibida pela RTP 1, da autoria de Joaquim Furtado.
Já tinha visto os anteriores episódios e vi os que compõem esta nova série. Para quem não saiba exibem-se às quartas-feiras, por volta das 9h30 da noite.

A guerra colonial foi o facto mais importante que se desenrolou nos últimos anos do regímen fascista em Portugal. A minha geração, ou com idades aproximadas, sofreu-a de uma maneira ou de outra: desertando ou cumprindo o serviço militar obrigatório, que lhe levou no mínimo três anos da sua vida, quando não a morte, a deficiência física ou psíquica.
No entanto, não era disto que queria falar, mas do conhecimento que tínhamos dela. Hoje, pela primeira vez estou a conhecer factos que desconhecia. Cada um teve um conhecimento parcelar da guerra, ou seja, conheceu unicamente a sua guerra e nunca o geral. A censura, a repressão fascista, tornavam impossível conhecer os factos, ao contrário do que sucede hoje que é possível acompanhar pelos media qualquer guerra, por mais distante que seja. Mas o problema não resultava só da globalização informativa que hoje se verifica. Provavelmente, um jovem que seguisse atentamente as notícias da época saberia mais sobre a Guerra do Vietname do que sobre a Guerra Colonial. A missão do regímen era omitir e deturpar os factos. De acordo com os media censurados, nada se passava, a não ser pequenas acções de bandoleiros que gostavam de perturbar o sono das populações. Mesmo quem tivesse acesso à imprensa e às rádios clandestinas não teria uma informação geral do que se passava em todos os teatros de operações, nem muito menos a opinião dos guerrilheiros dos movimentos de libertação, nem dos meandros do poder fascista.
É bom que isto conste. Porque é que um homem da minha idade (65 anos), que sempre se preocupou com a política, membro do Partido Comunista, que ouvia, quando podia, as rádios de Argel e do PCP, na Roménia, lia o Avante clandestino, comprava à socapa alguns livros estrangeiros, como o de Gérard Chaliand sobre o PAIGC (Lutte armée en Afrique, Maspero, 1967), ainda hoje se espanta com o que se passou e com o encadear dos factos. Posso parcer ingénuo para aqueles que são especialistas nesta matéria. Mas não fazia a mais pequena ideia do desastre da retirada de Madina do Boé, ou do ataque a Teixeira de Sousa, em Angola, perpetrado pela UNITA. Desconhecia, como foi revelado num episódio da outra série, a influência de Franz Fanon, de quem tinha lido o livro Os Danados da Terra, nas acções da UPA no Norte de Angola no início da guerra. E podemos acrescentar muito mais factos.

Poderão dizer que sou um ignorante da nossa história contemporânea. Não é verdade. Mas o conhecimento da guerra colonial, tirando os relatos dos que lá combateram e da repulsa que ela nos merecia, é do ponto de vista factual um grande vazio histórico. Esta parte da nossa história contemporânea só agora se começa a fazer e esta série contribui decisivamente para isso.