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05/01/2010

Isto anda tudo ligado


Fui ontem ouvir uma conferência à FCSH, organizada pelo Instituto de História Contemporânea, da Universidade Nova de Lisboa. O conferencista é um Professor da UNICAMP, Universidade Estatal de Campinas, S. Paulo, Brasil, cujo nome completo é Álvaro Gabriel Bianchi Mendez, mas que assina os seus artigos como Álvaro Bianchi. O tema era referente ao Estado e Sociedade Civil em Gramsci.
Foi só a referência a Gramsci que motivou a minha deslocação. Como quem segue os meus posts já deve ter percebido, é um autor por quem tenho grande interesse e admiração, principalmente pela sua reflexão original sobre o tema da política, encarado de uma perspectiva marxista, mas utilizando uma terminologia e conceitos próprios. Para os mais distraídos sobre esta problemática, Gramsci (1881-1937) foi secretário-geral do Partido Comunista Italiano, tendo sido preso pelos fascistas italianos em 1926 e morreu pouco depois de ter sido libertado, em 1937. Foi nestas condições extremamente difíceis que elaborou sua principal obra teórica, que nunca foi publicada em vida, e que é hoje conhecida como os Cadernos do Cárcere. Durante os anos que esteve preso escreveu, umas vezes em forma de notas, outras de modo mais elaborado, em cadernos que foi numerando (32 no total) e que só foram editados em Itália depois da II Guerra Mundial.
Provavelmente, com mais vagar dedicarei alguns posts a este teórico e revolucionário italiano.
A conferência, teve pouca divulgação, por isso estiveram presentes, além do Fernando Rosas, que presidia à mesa e era da casa, a Raquel Varela, uma das organizadoras e que me enviou gentilmente o convite para a conferência. Como se recordam, fiz-lhe aqui um ataque serrado, simplesmente já no II Colóquio os Comunistas em Portugal, a que assisti, mas que nunca cheguei a relatar, conversámos agradavelmente, mantendo os nossos pontos de vista, mas sem a animosidade que eu manifestei no I. Estavam igualmente meia dúzia de maduros que se interessam por estas coisas e alguns alunos que por dever de ofício têm que assistir às conferências que os seus professores recomendam. Posso estar a ser injusto para eles, mas cheira-me, pela pressa com que saíram, que a conferência lhes dizia pouco.
A exposição de Álvaro Bianchi era clara, incidia sobre os Cadernos do Cárcere e, como afirmou, retomava os temas abordara num livro que publicou recentemente no Brasil chamado O laboratório de Gramsci (ver aqui a notícia da editora).
Porque não tomei notas e nem acho que vos deva maçar com os temas abordados pelo autor, direi só que gostei e que o autor faz, como afirmou, uma interpretação marxista revolucionário dos conceitos gramscianos, em oposição às visões liberais ou até euro-comunistas de Gramsci.
Foi afirmado, e bem, por um assistente do público que Portugal seria dos países da Europa onde menos se conhecia Gramsci. Por graça, chegou a afirmar que só talvez o Mónaco ignorasse tanto Gramsci como Portugal. A razão apresentada, foi de que, como os euro-comunistas na Europa e aqueles que em Portugal eram seus possíveis divulgadores se reivindicavam de Gramsci, isto provocaria no marxismo oficial, entenda-se no PCP, uma reacção negativa. Para mim, sendo esta uma possível razão, entendo que a principal é a de que a nossa intelectualidade nunca debateu no pós-25 de Abril o marxismo ou as obras dos seus continuadores, restando àqueles que ainda se reivindicam dessa corrente a escolástica marxista-leninista do PCP. Repare-se que este partido nunca fomentou o debate marxista, nem em Portugal alguma vez teve êxito uma revista que se reivindicasse e estudasse aquela corrente política.

Depois de assistir à conferência, resolvi ir ver no Google quem era este senhor que eu desconhecia. Para além de orientar na sua universidade estudos sobre o marxismo, escreve numerosos artigos sobre estes temas, tem um blog onde poderão ser encontrados e discutidos artigos seus e é secretário da revista Outubro, de que possuo um exemplar adquirido aquando do I Congresso Internacional Karl Marx, que trouxe até nós um bom número de autores brasileiros.
Mas o mais interessante, e que justifica o título deste post, é ter encontrado um artigo, Antitrotskismo: manual do usuário, de Bianchi, num site do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, que eu penso ser um partido brasileiro de influencia trotskista, em resposta a um outro de Miguel Urbano Rodrigues (MUR), chamado Apontamentos sobre Trotsky – O Mito e a realidade, publicado no site ODiário. É interessante ler estes dois artigos porque eles nos remetem para duas maneiras de fazer história e de discuti-la. MUR, que não é um académico e escreve ao correr da pena, faz afirmações que depois não pode provar e que resultam para o leitor do Avante ou da imprensa do PCP, que gosta desta prosa grandiloquente e cheia de verdades feitas. Bianchi, mais bem informado, tendo estudado os assuntos e com mais acesso a uma bibliografia actualizada vai desmontando todas as afirmações de MUR. Leiam e apreciem as diferenças.
Mas mais interessante foi que encontrei no texto de Bianchi, uma referência (nota 7) ao livro de Ludo Martens, Um outro olhar sobre Stáline, de que eu falei no post anterior, e de que afinal há uma edição brasileira: Stalin: um novo olhar, Rio de Janeiro: Revan, 2003.
Bianchi refere-se a ele afirmando que “o arqui ou arqueostalinismo ainda persiste”, ao contrário do que escreve MUR no seu artigo, e que como vimos no post anterior vai ganhando força nas hostes afectas ou próximas do PCP. Por sinal vim a saber que a edição portuguesa, com o tal prefácio do Carlos Costa, esteve à venda na Festa do Avante.
É interessante também notar que no artigo de MUR sobre o Estaline, de Losurdo, que eu cito igualmente no post anterior, aquele diga que em Portugal é acusado de trotskista, pelo artigo que escreveu sobre o Trotsky, e no Brasil por estalinista ortodoxo por professores das Universidades de Campinas (o nosso Álvaro Bianchi) e do Rio Grande do Sul, que não sei quem seja, e que segundo MUR lhe dedicaram trabalhos académicos.

Por último, e depois deste trabalho de investigação policial a que eu me gosto de dedicar na net, uma referência, que provavelmente irei desenvolver posteriormente, à revista Outubro, de que Álvaro Bianchi é secretário, que no exemplar que eu possuo tem um artigo interessantíssimo de Kevin J. Murphy, com o seguinte título Podemos escrever a história da Revolução Russa? Uma resposta tardia a Eric Hobsbawam (1), que levanta problemas sobre a historiografia da Revolução Russa quer durante a Guerra-fria quer depois e que retoma o problema por mim levantado na reflexão 2, do meu post anterior, sobre Estaline. Assim escreve ele: "o conhecimento ocidental sobre a União Soviética durante a Guerra-Fria foi dominado pelo que Stephen Cohen (autor de uma monumental biografia de Bukharine - JNF) apropriadamente chamou a “tese da continuidade”, que postulou uma evolução natural e directa da prática organizacional dos primeiros bolcheviques aos gulags, os campos de trabalho forçado."
(1) O texto original em inglês pode ser encontrado aqui
A fotografia é de Álvaro Bianchi

06/09/2008

O Tempo Desvela a Verdade


A notícia já não é de agora, tinha-a lido nos jornais sem dar grande importância. Até que li a coluna Opinião, de Eduardo Cintra Torres, no Público, de 30 de Agosto (como sempre é impossível linkar para os não assinantes), e que se intitulava O Mamilo da Verdade. Depois de a ler, fui consultar a Net para obter mais informação. Se eu não a considerasse trágica e reveladora dos tempos que vivemos, poderia tomá-la como inspiradora de um tema para uma opera buffa.
Do que estamos a falar.
O Sr. Sílvio Berlusconi escolheu para decorar a sala onde dá as suas conferências de imprensa, no Palácio Chigi, uma reprodução de um quadro do pintor barroco Gianbattista Tiepolo (1696-1770), denominado La Verita Svelata dal Tempo e que foi pintado por volta de 1743 (para mais informações ver, em italiano, aqui ). A tradução que se tem feito do nome do quadro varia entre O Tempo Desvela a Verdade, do próprio Cintra Torres, ou então O Tempo que Desvenda a Verdade, do Diário de Notícias, e de uma série de blogs brasileiros. Prefiro a primeira que corresponde mais ao significado simbólico do quadro, no sentido de o Tempo tirar o véu à Verdade. Já se sabe que ao tirar o véu à Verdade, esta fica quase nua, de seios e umbigo à mostra. Até aqui tudo normal. Se Berlusconi ganhava dinheiro mostrando nas suas televisões “gajas boas”, como escreve Cintra Torres, porque não rodear-se de belos quadros, que simbolicamente representam a mulher desvelada. Simplesmente os seus assessores não acharam graça a que o seu chefe aparece-se nas fotografias e na televisão por baixo de um farto seio da Verdade e então decidiram que deviam mandar retocar o quadro de modo a que o seio e o umbigo não fossem visíveis. Assim o “machão” Berlusconi já não aparece encimado pela auréola do mamilo da Verdade.
Como se vê, esta história só no registo da comédia poderá subsistir, porque encarada a sério revela a mentalidade ditatorial de um dos principais dirigentes desta União Europeia que se pretende apresentar ao resto do mundo como defensora da tolerância e da liberdade artística.

20/04/2008

Ponto da Situação


Pela leitura rápida que fiz de alguns blogs de referência reparei como as minhas intervenções na blogosfera se encontravam tão desfasadas da realidade. Acontecia-me a mim o mesmo que aos doutores da Igreja que, na Bizâncio cercada, continuavam a discutir o sexo dos anjos. Por isso resolvi entre dois post sobre Leituras de um Convalescente voltar um pouco à realidade.

I – Eleições italianas
Primeiro gostaria de manifestar o meu espanto e tristeza por os comunistas italianos ou os seus herdeiros não terem qualquer representação parlamentar. Aquele que tinha sido o mais forte partido Comunista do Ocidente, que maior contribuição tinha dado para a actuação dos comunistas em regime de democracia parlamentar e que era herdeiro do legado desse grande teórico que tinha sido Antonio Gramsci, deixa de estar representado no Parlamento e no Senado italianos. Um pesadelo.
A nossa direita exultou. Teresa de Sousa afirma no Público, de 16/4, que esse facto “representa uma saudável clarificação” e continua: “aliás, se há um sinal de novidade e de regeneração do sistema político italiano ele vem daí – da esquerda que não é essa "esquerda". Talvez esperançada que em Portugal se dê alguma vez essa mesma clarificação, que o PCP e BE deixem de vez de estar presentes no Parlamento e que o PS sozinho e sem qualquer constrangimento possa afirmar que representa toda a esquerda.
Segundo afirmar o óbvio, os italianos gostam imenso destas personagens histriónicas, que de Mussolini a Berlusconi, sempre representaram o pior da vida política italiana. Mas isto é uma constatação, que não justifica em nada o que se passou.
Terceiro referir por graça que uma das causas que foi apontada por Daniel de Oliveira, no seu interessante artigo no Arrastão, para a perda de votos dos comunistas foi a sua integração numa coligação, a que chamaram Esquerda Arco-Íris (Sinistra L’Arcobaleno), tendo a foice e o martelo desaparecido dos boletins de voto. Pelo contrário, em Portugal o PCP sempre concorreu debaixo de outra sigla (excepto nas duas primeiras eleições do pós-25 de Abril) e foi a direita, com a cumplicidade do PS, que obrigou a incluir nos boletins de voto o seu símbolo.
É evidente que tudo isto são opiniões avulsas, de quem está longe da realidade italiana e não dispõe de instrumentos de apreciação que lhe permitam fazer a análise do resultado das eleições naquele país.

II – O “entendimento” nos professores
Já muito se escreveu sobre este acordo, que os sindicatos designam por “entendimento”, entre os professores representados pelos seus órgãos de classe e o Ministério da Educação.
Penso que todos aqueles que, como o Miguel Sousa Tavares, queriam uma política de porrete para meter os sindicatos na ordem se vêm agora frustrados porque estes foram a solução do problema e não, como eles julgavam, a causa do mesmo.
Por outro lado, achei graça que uns anos depois da vaga esquerdista ter sido derrotada neste país, ainda alguns ingénuos e outros ressabiados, como a Ana Benavente, porque não tiveram o protagonismo que gostariam de ter, clamam que os sindicatos traíram a vontade dos professores. Já se sabe que os media fizeram imediatamente grande eco destas posições e assim entrevistaram um professor que declarou que mais valia morrer de pé do que ceder. Só a grande ingenuidade e a falta de experiência política-sindical pode levar alguns a fazerem estas declarações e a tomarem esta posição. Quem já anda nisto há muitos anos e se bateu sempre contra o esquerdismo e a falsa radicalidade pode perceber que este tipo de posições surge sempre quando a luta abrange novas camadas. A falta de experiência histórica é sempre má conselheira.

III - A lei do divórcio
Por minha grande ignorância eu pensava que o problema do divórcio estava resolvido em Portugal, eis senão quando o BE apresenta uma lei que, segundo eu depreendi, acabava com o divórcio litigioso e permitia, por opção única e exclusiva de um dos cônjuges, a separação. Na altura não dei grande importância ao assunto. Mas eis que o BE volta à carga, depois de ver o seu primeiro projecto chumbado, e o PS no mesmo dia anuncia que irá apresentar um lei que, com diferenças que parece que são significativas, vai no mesmo sentido. Achei em princípio bem.
Feito o anúncio, não é que a Igreja faz constar que está contra e um dos seus membros chega a clamar que estávamos perante um Estado “militantemente ateu”. “Coitado” do Sócrates, podem-no acusar de muitas coisas mas desta é que ele de certeza não estava à espera.
A Igreja tem, quanto a mim, toda a liberdade para se pronunciar sobre este assunto, não pode é fazer afirmações extravagantes como aquela que reproduzo e acho que é um disparate vir clamar contra o fim do divórcio litigioso, quando este, segundo as estatísticas, não representou no ano passado mais do que 6% do total de divórcios e hoje os que se realizam por mútuo consentimento estão, parece-me, bastante facilitados sem, que eu conheça, objecções de fundo daquela instituição.
Mas o mais grave, não foi a posição da Igreja, foi o que disseram os comentadores de direita, desde Vasco Pulido Valente a Constança Cunha e Sá, que criticaram e disseram que estávamos perante uma grave ofensa à Igreja feita pelo Governo do PS. Estas críticas são feitas unicamente porque pensam que o PS cedeu ao BE, ou seja, às “causas fracturantes” deste partido, abandonando por instantes a sua política de direita de que eles tanto gostam. Até porque é gente que nem católica é, que já se divorciou inúmeras vezes e que portanto não é por razões de fé, mas pela sua atávica formação de direita que toma posição contra esta legislação.

Como o texto já vai longo deixo para outra oportunidade o caso Fernanda Câncio e a demissão de Luís Filipe Menezes