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02/07/2010

A “Esquerda Radical” um livro de Miguel Cardina


Fui ao lançamento do deste livro de Miguel Cardina, mas ainda não tinha tido oportunidade de o ler. Uns poucos dias de “molho” e eis que surge a ocasião. Lê-se numa tarde.
O próprio ante título deste livro diz tudo sobre o mesmo. “O essencial sobre”.
Estamos pois perante um pequeno resumo sobre aquilo que o autor entende por esquerda radical, principalmente no contexto sócio-político e ideológico dos anos sessenta e princípios de setenta do século passado.
Podemos reduzir a três os capítulos que o compõem. Primeiro uma visão da esquerda radical a nível internacional nos anos sessenta, depois a situação portuguesa com a descrição dos movimentos maoistas que, tal como cogumelos, surgiram nessa altura e depois de outros movimentos que o autor inclui na esquerda radical. Por último, a posição dos movimentos atrás referidos em diferentes contextos, que vão desde a guerra colonial, aos comportamentos humanos, e à recepção em Portugal das novidades ideológicas estrangeiras.
Podemos dizer que no “essencial” este livro cumpre com o seu objectivo dando-nos a informação indispensável à compreensão de uma época. Podemos dizer que há algum desequilíbrio entre uma informação bastante pormenorizada sobre a instalação das correntes maoistas em Portugal, que é completado com um célebre quadro que o autor já tinha divulgado em colóquios anteriores sobre o mesmo tema, e que tem sido objecto de grandes encómios, e o resto do livro. Penso que isto resulta de ser este o tema da tese de doutoramento de Miguel Cardina.

Dito isto, que me parece ser motivo suficiente para uma compra e leitura do mesmo, achei que devia discutir dois assuntos que o mesmo me suscitou.
Primeiro o título do livro. O autor, e bem, justifica a opção para designar todos os movimentos surgidos naqueles anos como “esquerda radical”. Considera que seria parcial chamá-los de “esquerdistas”, designação pela qual eram denominados pelo movimento comunista pró-soviético, de acordo com o livro clássico de Lenine, “Esquerdismo, doença infantil do comunismo” e de “esquerda revolucionária”, como alguns deles se gostavam de designar, por se oporem ao PCP “reformista”.
Simplesmente esqueceu o autor que em algumas traduções do livro de Lenine o termo “esquerdismo” se traduz por “radicalismo de esquerda”, o que não sendo a mesma coisa que esquerda radical, é no entanto bastante semelhante. É mesmo por esse termo, substituindo esquerda por pequeno-burguês, que Álvaro Cunhal designa alguns daqueles movimentos, chamando-lhes com acinte “radicais pequeno-burgueses de fachada socialista”. Por outro lado, a esquerda radical é ainda hoje a forma como Sócrates e alguns socialistas se referem aos movimentos que se situam à sua esquerda. Aparecendo o PS como uma esquerda moderada oposta a esses tais radicais. Pelas razões apontadas faz-me alguma comichão esta designação. Preferia provavelmente a da "extrema-esquerda" ou então de "extrema-esquerda radical", o que, parecendo ser o mesmo que "esquerda radical", não é vulgarmente utilizada nas diferentes acepções que eu acima referi.

Um segundo ponto refere-se ao primeiro capítulo. O autor tem a preocupação de dar muito rapidamente uma visão histórica dos diferentes modelos de acção e organização que se podem incluir na esquerda radical. Num deles, que o autor denomina “partido revolucionário”, que corresponde grosso modo à formação dos partidos comunistas e da III Internacional e aos dissídios posteriores (trotskismo e maoismo), esquece completamente origem daquele modelo e da ruptura que estabeleceu com a social-democracia da II Internacional, no final da I Guerra Mundial. Penso mesmo que em quase toda a sua obra, esquece que na origem de todo o movimento socialista/social-democrata e comunista, como depois o iríamos conhecer, tem a sua origem, mesmo que seja em contraponto, na II Internacional e no principal partido social-democrata da época, o partido social-democrata alemão. Para ilustrar esta minha afirmação basta ver este pequeno parágrafo para se perceber o que escrevo.
Depois do corte anarquista, na I Internacional, e do dissídio trotskista, o maoismo representa o terceiro grande cisma no movimento comunista internacional.” Ou seja, considera-se o anarquismo como um dissídio do comunismo e passa-se por cima da II Internacional e da criação do movimento comunista como o viríamos a conhecer no século XX. Quem fala a propósito da esquerda em Spartacus e em Thomas Müntzer não pode esquecer esta dissidência fundamental, com reflexos ainda nos dias de hoje, entre sociais-democratas e comunistas.

Que Miguel Cardina não me leve a mal mas isto foram só duas pequenas considerações sobre o seu livrinho, que em nada devem contribuir para a recusa da sua leitura, que recomendo.

17/05/2010

Pensar os pensadores do Socialismo: Trotsky


Para ampliar a imagem, para uma melhor leitura, basta clicar nela.

05/01/2010

Isto anda tudo ligado


Fui ontem ouvir uma conferência à FCSH, organizada pelo Instituto de História Contemporânea, da Universidade Nova de Lisboa. O conferencista é um Professor da UNICAMP, Universidade Estatal de Campinas, S. Paulo, Brasil, cujo nome completo é Álvaro Gabriel Bianchi Mendez, mas que assina os seus artigos como Álvaro Bianchi. O tema era referente ao Estado e Sociedade Civil em Gramsci.
Foi só a referência a Gramsci que motivou a minha deslocação. Como quem segue os meus posts já deve ter percebido, é um autor por quem tenho grande interesse e admiração, principalmente pela sua reflexão original sobre o tema da política, encarado de uma perspectiva marxista, mas utilizando uma terminologia e conceitos próprios. Para os mais distraídos sobre esta problemática, Gramsci (1881-1937) foi secretário-geral do Partido Comunista Italiano, tendo sido preso pelos fascistas italianos em 1926 e morreu pouco depois de ter sido libertado, em 1937. Foi nestas condições extremamente difíceis que elaborou sua principal obra teórica, que nunca foi publicada em vida, e que é hoje conhecida como os Cadernos do Cárcere. Durante os anos que esteve preso escreveu, umas vezes em forma de notas, outras de modo mais elaborado, em cadernos que foi numerando (32 no total) e que só foram editados em Itália depois da II Guerra Mundial.
Provavelmente, com mais vagar dedicarei alguns posts a este teórico e revolucionário italiano.
A conferência, teve pouca divulgação, por isso estiveram presentes, além do Fernando Rosas, que presidia à mesa e era da casa, a Raquel Varela, uma das organizadoras e que me enviou gentilmente o convite para a conferência. Como se recordam, fiz-lhe aqui um ataque serrado, simplesmente já no II Colóquio os Comunistas em Portugal, a que assisti, mas que nunca cheguei a relatar, conversámos agradavelmente, mantendo os nossos pontos de vista, mas sem a animosidade que eu manifestei no I. Estavam igualmente meia dúzia de maduros que se interessam por estas coisas e alguns alunos que por dever de ofício têm que assistir às conferências que os seus professores recomendam. Posso estar a ser injusto para eles, mas cheira-me, pela pressa com que saíram, que a conferência lhes dizia pouco.
A exposição de Álvaro Bianchi era clara, incidia sobre os Cadernos do Cárcere e, como afirmou, retomava os temas abordara num livro que publicou recentemente no Brasil chamado O laboratório de Gramsci (ver aqui a notícia da editora).
Porque não tomei notas e nem acho que vos deva maçar com os temas abordados pelo autor, direi só que gostei e que o autor faz, como afirmou, uma interpretação marxista revolucionário dos conceitos gramscianos, em oposição às visões liberais ou até euro-comunistas de Gramsci.
Foi afirmado, e bem, por um assistente do público que Portugal seria dos países da Europa onde menos se conhecia Gramsci. Por graça, chegou a afirmar que só talvez o Mónaco ignorasse tanto Gramsci como Portugal. A razão apresentada, foi de que, como os euro-comunistas na Europa e aqueles que em Portugal eram seus possíveis divulgadores se reivindicavam de Gramsci, isto provocaria no marxismo oficial, entenda-se no PCP, uma reacção negativa. Para mim, sendo esta uma possível razão, entendo que a principal é a de que a nossa intelectualidade nunca debateu no pós-25 de Abril o marxismo ou as obras dos seus continuadores, restando àqueles que ainda se reivindicam dessa corrente a escolástica marxista-leninista do PCP. Repare-se que este partido nunca fomentou o debate marxista, nem em Portugal alguma vez teve êxito uma revista que se reivindicasse e estudasse aquela corrente política.

Depois de assistir à conferência, resolvi ir ver no Google quem era este senhor que eu desconhecia. Para além de orientar na sua universidade estudos sobre o marxismo, escreve numerosos artigos sobre estes temas, tem um blog onde poderão ser encontrados e discutidos artigos seus e é secretário da revista Outubro, de que possuo um exemplar adquirido aquando do I Congresso Internacional Karl Marx, que trouxe até nós um bom número de autores brasileiros.
Mas o mais interessante, e que justifica o título deste post, é ter encontrado um artigo, Antitrotskismo: manual do usuário, de Bianchi, num site do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, que eu penso ser um partido brasileiro de influencia trotskista, em resposta a um outro de Miguel Urbano Rodrigues (MUR), chamado Apontamentos sobre Trotsky – O Mito e a realidade, publicado no site ODiário. É interessante ler estes dois artigos porque eles nos remetem para duas maneiras de fazer história e de discuti-la. MUR, que não é um académico e escreve ao correr da pena, faz afirmações que depois não pode provar e que resultam para o leitor do Avante ou da imprensa do PCP, que gosta desta prosa grandiloquente e cheia de verdades feitas. Bianchi, mais bem informado, tendo estudado os assuntos e com mais acesso a uma bibliografia actualizada vai desmontando todas as afirmações de MUR. Leiam e apreciem as diferenças.
Mas mais interessante foi que encontrei no texto de Bianchi, uma referência (nota 7) ao livro de Ludo Martens, Um outro olhar sobre Stáline, de que eu falei no post anterior, e de que afinal há uma edição brasileira: Stalin: um novo olhar, Rio de Janeiro: Revan, 2003.
Bianchi refere-se a ele afirmando que “o arqui ou arqueostalinismo ainda persiste”, ao contrário do que escreve MUR no seu artigo, e que como vimos no post anterior vai ganhando força nas hostes afectas ou próximas do PCP. Por sinal vim a saber que a edição portuguesa, com o tal prefácio do Carlos Costa, esteve à venda na Festa do Avante.
É interessante também notar que no artigo de MUR sobre o Estaline, de Losurdo, que eu cito igualmente no post anterior, aquele diga que em Portugal é acusado de trotskista, pelo artigo que escreveu sobre o Trotsky, e no Brasil por estalinista ortodoxo por professores das Universidades de Campinas (o nosso Álvaro Bianchi) e do Rio Grande do Sul, que não sei quem seja, e que segundo MUR lhe dedicaram trabalhos académicos.

Por último, e depois deste trabalho de investigação policial a que eu me gosto de dedicar na net, uma referência, que provavelmente irei desenvolver posteriormente, à revista Outubro, de que Álvaro Bianchi é secretário, que no exemplar que eu possuo tem um artigo interessantíssimo de Kevin J. Murphy, com o seguinte título Podemos escrever a história da Revolução Russa? Uma resposta tardia a Eric Hobsbawam (1), que levanta problemas sobre a historiografia da Revolução Russa quer durante a Guerra-fria quer depois e que retoma o problema por mim levantado na reflexão 2, do meu post anterior, sobre Estaline. Assim escreve ele: "o conhecimento ocidental sobre a União Soviética durante a Guerra-Fria foi dominado pelo que Stephen Cohen (autor de uma monumental biografia de Bukharine - JNF) apropriadamente chamou a “tese da continuidade”, que postulou uma evolução natural e directa da prática organizacional dos primeiros bolcheviques aos gulags, os campos de trabalho forçado."
(1) O texto original em inglês pode ser encontrado aqui
A fotografia é de Álvaro Bianchi

02/01/2010

Estaline, mais uma vez


Num fórum de discussão a que eu, como já vos informei, também integro, foi dada uma informação muito curiosa. Num site, denominado Para a História do Socialismo, que eu penso que pode ser conotado com gente ligada ao PCP, apareceu um texto, colocado na zona da Biblioteca, chamado Um outro olhar sobre Stáline, de Ludo Martens, que é a tradução portuguesa do texto que apareceu em francês, num site com este interessante nome communisme-bolchevisme - altermondialisme, trotskisme et maoïsme contre marxisme-léninisme, e que pode ser visto aqui. Já se percebeu que o texto é uma apologia do estalinismo.
Mas o mais interessante disto tudo, é que foi dito nesse fórum, e foi confirmado num artigo que Paulo Fidalgo escreveu para o site da Renovação Comunista, que foi impressa uma edição de 500 exemplares do texto publicado na Internet, com prefácio de Carlos Costa, e que não teve distribuição comercial. Não sei como se pode obtê-la, nem nunca vi o livro.
Posteriormente, em comentário ao post de Fidalgo, alguém diria que Costa já não podia ser conotado com a direcção do PCP, dado que no último Congresso daquele partido tinha sido afastado do Comité Central contra sua vontade. Esta notícia pode ser consultada no site referido no comentário.
Por esta altura também e sem o carácter clandestino do livro de Ludo Martens, foi publicado em Beja, pela Cooperativa Cultural Alentejana CRL, Fuga da História? A revolução russa e a revolução chinesa hoje, de Domenico Losurdo, tradução de José Colaço Barreiros. O site de ODiário, também patrocinador da edição, reproduz o seu capítulo IV, Os anos de Lenine e Estaline. Um primeiro balanço, e indica onde o mesmo pode ser adquirido.
Domenico Losurdo é habitualmente publicado por aquele site, bem como pelo resistir.info. Neste pode encontrar igualmente o capítulo 2 do livro, mais um fotografia da sua capa e a lista dos artigos de Losurdo já publicados por aquele site. A publicação do livro mereceu igualmente uma pequena referência noticiosa no Avante.
A propósito de uma conferência de Losurdo em Lisboa já publiquei um post sobre a mesma, bem como a sua bibliografia em italiano e a que está traduzida no Brasil.
Este mesmo autor publicou recentemente um livro sobre Estaline, em italiano, que mereceu este comentário de Miguel Urbano Rodrigues em o site ODiário

Por tudo que escrevi, parece-me que as análises, umas encomiásticas, outras mais comedidas, a Estaline começam a progredir, primeiro na blogosfera e depois em formato mais íntimo, em edição impressa. No entanto, que fique claro, por tudo aquilo que tenho lido e ouvido de Losurdo e o pouco que li de Ludo Martens, há grandes diferenças entre eles, o primeiro é um académico reputado, com obra feita, e o segundo é um dirigente político de um pequeno partido maoista belga, o Partido dos Trabalhadores da Bélgica, que parece que anda a apelar à união de todos os partidos que se reivindicam do marxismo-leninismo (ver a Wikipedia)


Feita esta pequena introdução e porque na altura em que se debateu a questão Estaline no fórum eu escrevi um texto sobre este mesmo assunto, entendi que vos devia também transmitir estas minhas reflexões pessoais que muito provavelmente foram feitas em resposta a algumas das interrogações que lá se levantaram.
Entendo eu que a questão de Estaline é uma questão acima de tudo histórica e depois uma questão ideológica, ou seja, faz parte da batalha das ideias, englobando aqui aquilo que se pode considerar como a questão moral. Para melhor organizar o texto vou resumir este assunto a sete questões, algumas em forma de pergunta, que deixo à vossa reflexão.

I - Como questão ideológica central, podemos ainda hoje reclamarmo-nos herdeiros da Revolução de Outubro e de todo o manancial libertador que ela desencadeou? A resposta que dermos a esta pergunta é quanto a mim de crucial importância, para nos consideramos ainda comunistas. Isto não significa que achemos que ela se pode repetir nos tempos actuais, como já não o foi no tempo do próprio Lenine. O fracasso da Revolução no Ocidente, que condicionou todo o processo revolucionário de Outubro, e que motivou respostas diferentes consoante as diferentes correntes bolcheviques, não nos pode impedir de a considerar legítima e de a pensarmos em termos actuais. É isto que nos separa da social-democracia. Podemos fazer como grande número de partidos de esquerda, pôr este assunto entre parêntesis, mas quanto a mim ele ficará sempre com um “interdito” não verbalizado.

II - Um problema histórico e também ideológico: foi Estaline continuador de Lenine? Tudo o que aquele fez já tinha sido realizado por este. O GULAG e a violência já eram apanágio da Rússia leninista. Há muita gente de esquerda que defende este ponto de vista. Entre o partido do tempo de Lenine e de Estaline não há diferenças importantes. No fundo é aquilo que Moshe Lewin considera, criticamente, de que para alguns historiadores e ideólogos de uma certa esquerda e da direita, a União Soviética foi sempre um imenso GULAG. Ora eu defendo que as práticas e os métodos leninistas eram diferentes, que este se opôs ao carácter violento de Estaline e que nunca mandou matar os comunistas que se lhe opuseram. Este assunto merece uma análise histórica rigorosa e um debate ideológico firme.

III - Foi justa a opção de Estaline pelo "socialismo no único país", pela colectivização forçada dos campos e pela industrialização a toque de caixa, aquilo que ele chamou a "revolução por cima" e que outros consideraram como a acumulação primitiva do "socialismo"? Trotsky não pensava
assim, esperava ainda pelas revoluções no Ocidente e Bukharine acreditava que a NEP, a Nova Política Económica, permitiria paulatinamente atingir, sem sobressaltos, e até com alguma diferenciação de classes sociais, aquilo que Estaline queria.
O que diversos autores nos dizem é que Estaline, enveredando por este método, permitiu o desenvolvimento capitalista na Rússia, passando por cima das debilidades estruturais da própria Rússia czarista e da própria burguesia russa. Seja como for o Partido Bolchevique apoiou esta actuação. Muitos marxistas, como Lukács, acharam que era a linha justa. E para muitos, foi
aquela que permitiu a URSS resistir ao avanço do nazi-fascismo na IIº Guerra Mundial. O XVIIº Congresso do PCUS, em 1934, chamado Congresso dos Vencedores, foi a consagração desta linha. Estamos nós de acordo com ela? Este é um problema histórico e ideológico importante.
IV - Foi a partir do assassinato de Kirov, também em 1934, que Estaline, que parece que não teve qualquer interferência nele, inicia na URSS os grandes processos políticos contra, primeiro, os seus opositores políticos dentro do Partido Comunista, todos grandes heróis da Revolução de Outubro, e depois contra os seus próprios apoiantes, mandando assassinar a maioria (há números concretos) dos participantes do Congresso referido. A URRS entre 1934 e o início da IIº Guerra Mundial foi a maior picadora de comunistas que alguma vez se verificou na história. Provavelmente, se fizermos bem as contas, Estaline mandou assassinar mais comunistas do que os 500 mil a 1 milhão que morreram na Indonésia nos anos 60.

V - A vitória da URSS na IIº Guerra Mundial tem sido um dos temas mais complexos de toda a historiografia da URSS e do debate de ideias contemporâneo. Primeiro, porque essa vitória justificaria todo o horror anterior e tudo lhe seria perdoado em seu nome. Segundo, porque ela permitiu uma maior liberalização do regime, mas reforçando até ao extremo a sua componente
nacionalista, com recurso às medalhas e fardamentos do tempo do Czar. Pelo contrário, há aqueles que a desvalorizam, dando unicamente importância aos sucessos militares no Ocidente, ou afirmando que a acção da URSS foi tão iníqua como a de Hitler, ao esmagar os povos da Europa de Leste. Tese hoje muito difundida nos países Bálticos e nos de Leste.
VI - Considerar que foram os próprios comunistas, que de um modo
muito pouco marxista, recorrendo à noção de “culto da personalidade”, denunciaram os crimes de Estaline, como sucedeu no XXº e XXIIº Congresso do PCUS, com os relatórios de Nikita Khrushchev. Ainda hoje o que se pretende em muitos casos, a que o PCP não foge, é desvirtuar o Relatório Secreto apresentado por Khrushchev no XXº Congresso. Daí a importância da sua análise e das repercussões que ele teve.

VII - Reconhecer que o regime que os revolucionários de Outubro desejavam não seria aquele que acabou em 1991, que os caminhos seguidos merecem uma análise do ponto de vista marxista. Que o que se passou em 1991, não foi uma libertação, mas a concretização prática do que muita da nomenclatura dita comunista queria de facto para a Rússia. Falar em traição, como gostam de garantir os nossos comunistas, é não compreender nada sobre a sociedade
que se desenvolveu na URSS.

08/08/2009

Argumentos de prostíbulo

Já tinha feito referência neste blog à rapaziada do Simplex, que de repente, à compita com a blogosfera da extrema-direita, passaram a produzir prosa do mais demagógico e irracional que se pode imaginar. Mas achava, para bem da sanidade mental dos meus leitores e da blogosfera, que não lhes daria qualquer importância. No entanto, os factos são visíveis, todos os blogs de esquerda com um mínimo de vergonha na cara fazem referências aos disparates que esse conjunto de escrevinhadores – que eu inicialmente pensei que era formado por meninos ladinos à procura de vencer na vida, mas que depois reparei que já tinham idade para ter juízo – vai debitando diariamente para os blogs a que têm acesso, mas indubitavelmente para o mais sensacional de todos, que é o Simplex.
Aquilo que me chamou mais a atenção foi a prosa de um senhor chamado Tomás Vasques, que tem um blog denominado Hoje à Conquilhas Amanhã não Sabemos, que, por razões reciprocidade, seleccionei para minha lista de blogs.
Mas o que é que me despertou a atenção? Primeiro, este texto no Simplex, que ele também publica no seu blog. O título dá logo o tom do post, BE, o trotskismo de corpo inteiro, depois, aparece esta prosa: O «socialismo do século XXI» (do Bloco) é uma mera adaptação à «realidade concreta» de um processo de soviétização da sociedade portuguesa. Não há meio-termo, por muito que almas bem intencionadas se esforcem. O argumento de que o BE é uma facção do «socialismo de esquerda» e é parte da «esquerda democrática» é areia nos olhos. Mas, o pior, é que, quem hoje contribui para o crescimento eleitoral do BE, amanhã – se os amanhãs pudessem cantar – seriam os primeiros a amaldiçoar a sua sorte, como aconteceu em Havana e hoje está a acontecer em Caracas.
Destaco-a para que os meus leitores mais velhinhos se lembrem a onde é que já leram isto. Nos comunicados da PIDE, nas páginas do Diário da Manhã, o órgão da União Nacional fascista, no Agora, no Novidades e outros primores, que a gente da minha idade se recorda pela vilania com que tratavam os oposicionistas: ou que eram ingénuos porque acreditavam nas boas intenções dos comunistas, ou eram criptocomunistas - lembram-se deste termo -, ou seja comunistas escondidos, que debaixo da capa da oposição levavam o “bom povo português” para os braços da União Soviética.
Este é só um dos posts. Mas temos mais, num que ele denomina Venezuela. Democracia, e que foi só publicado no seu blog, tem esta afirmação espantosa: A comunidade internacional … reagiu prontamente ao contra-golpe dos militares em Tegucigalpa, apesar de este ter a cobertura de todas as instituições democráticas hondurenhas. Mas, agora, perante mais um golpe de Chávez na frágil e maltratada democracia Venezuelana, ao encerrar 32 rádios e 2 televisões criticas do regime, a comunidade internacional mantém um silêncio cúmplice. E depois seguem-se a descrição indiscriminada de todos os terrores que no século XX foram cometidos por regimes ditos “comunistas”. Este senhor também recorre aqui à velha argumentação salazarista, de que só o seu regime é que lutava contra o comunismo, porque a comunidade internacional, ao deixar que os “terroristas” atacassem as nossas colónias, era cúmplice da sua actividade, permitindo o avanço do comunismo em África. Neste caso será na América Latina.
É este senhor, que para além de ter o blog referido, escreve igualmente para o Simplex, que me parece que foi feito para propagandear as delícias do socratismo, passou agora também a escrever, pasme-se, para um blog do semanário Sábado, chamado Blog de Esquerda.
Eu, se fosse do PS, teria vergonha de apoiantes deste calibre, mas vergonha foi coisa que a gente de Sócrates há muito perdeu.
PS.: A fotografia é de Trotsky ainda jovem e é reproduzida a partir do artigo de Tomás Vasques. Aparece a encimar este post como um pequena homenagem a quem, juntamente com Lenine, soube conduzir à vitória a Revolução de Outubro.