Mostrar mensagens com a etiqueta URSS. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta URSS. Mostrar todas as mensagens

06/09/2010

Os neo-estalinistas


Pelas razões mais diversas, sendo sem dúvida a principal a preguiça (estamos em férias), tenho-me abstido de escrever qualquer comentário para este blog. Também os assuntos não têm sido assim tantos que mereçam um comentário mais apressado. Mas mais de um mês de paragem é efectivamente demais. Com exemplos destes não há leitores que resistam.
Não vou comentar esta novela de Verão entre o PSD e o PS. Já tinha dado a minha opinião sobre a proposta de revisão constitucional daquele partido, achando que ela se enquadrava na ofensiva da direita, mas agora, e concordando com as opiniões dos dois principais partidos à esquerda do PS, estou perfeitamente convencido que esta luta de galos visa unicamente ver quem consegue ganhar a parada, de modo a que tudo fique na mesma, ou seja, que a política de restrição orçamentais continue.
Não irei também debruçar-me sobre o candidato presidencial apresentado pelo PCP, apesar do texto que se segue tem já um pouco a ver com a opinião que eu tenho sobre a sua candidatura.
Irei, porque é um assunto, que me tem particularmente motivado, falar do artigo que São José Almeida escreveu, no Público, de 4 de Setembro, (sem link) sobre o PCP e que denominou Comunistas, sem vergonha! E que de facto também se refere ao candidato presidencial daquele partido.
O que é que verdadeiramente aborda aquele artigo? Numa súmula muito breve, e recorrendo ao próprio texto, podemos afirmar o seguinte: “aquilo que sobressai de uma análise mais atenta do discurso e das tensões internas mostra como o PCP, ao longo da última década, sofreu uma radical mudança no sentido da sua esquerdização e até, podemos assim dizer sem rodeios, da sua neo-estalinização.”
Esta verdade, que a autora parece ter vindo agora a descobrir acusando os restantes media e a maioria dos cidadãos de não ter reparado nela, foi de facto uma das principais causas do afastamento e posterior criação da Renovação Comunista por alguns militantes do PCP que não estavam satisfeitos como rumo que as coisas estavam a levar.
Mas, sem querer para mim pergaminhos especiais, ao longo deste blog, e de outros textos anteriores, não tenho feito outra coisa do que vindo a denunciar a crescente esquerdização do PCP e consequente afirmação de sectarismo. Parece-me desnecessário fazer links para esses textos, mas o leitor que me tenha acompanhado facilmente os localizará.
Depois São José Almeida mete-se por caminhos ínvios ao tentar estabelecer uma diferença entre esta actual neo-estalinização e os tempos mais recuados de Cunhal, chegando mesmo à reorganização de 1940-41. Ou seja, tenta dizer que nessa altura o partido não se afirmava como comunista, nem marxista-leninista e que agora isso passou a ser mais claro.
Já se sabe São José Almeida confunde a política de unidade definida no programa do Partido relativa à Revolução Democrática e Nacional ou o mais recente referente a Uma Democracia Avançada para o Século XXI, como uma descaracterização da afirmação de comunista, coisa que o Cunhal sempre soube distinguir, fazendo uma clara distinção entre as duas.
Mas isto é prosa fácil de jornalista apressada que, realçando com alguma percepção a realidade actual, desconhece a história do PCP.
Depois ainda descamba mais ao falar da ala social-democratizante e da esquerdista, marxista-leninista, na direcção do PCP. Não sei onde é que a senhora foi buscar tais alas, mas isto dá cor ao texto. E ainda, considera que elas sempre existiram ao longo dos seus 89 anos. Não vale a pena sobre este assunto insistir mais.
O que vale a pena aqui recordar e que é citado pela autora deste artigo é as preocupantes manifestações deste neo-estilinismo. Assim, “basta para tal consultar obras como o estudo panegírico de Ludo Martens, Um Outro Olhar sobre Stáline, editado em cima da Festa do Avante! do ano passado pelo site Para a História do Socialismo, que teve como chancela de legitimidade e de credibilização política e ideológica o prefácio de Carlos Costa. E que edita agora a obra de 1938, História do Partido Comunista da URSS. Breve Curso, em cujo prefácio Leandro Martins afirma: "Este "Breve Curso" é, assim, um contributo valioso para a batalha ideológica que se trava não apenas contra o inimigo de classe mas contra as vacilações e oportunismos que, como a obra mostra com clareza, convivem no seio das organizações revolucionárias e podem conduzir às derrotas dramáticas a que assistimos."
Sobre o primeiro livro citado escrevi um primeiro post que dava notícia da sua publicação primeiro na net e depois em edição escrita, com prefácio da Carlos Costa. Escrevi ainda uns comentários a um post de um pedante que escreve no blog 5 Dias e que era elogioso para com o livro e que depois resumi num outro post. Os leitores interessados encontrarão bastante informação nos dois posts referidos.
Quanto ao segundo livro História do Partido Comunista da URSS (bolchevique). Breve Curso foi feito alguma propaganda à volta da sua edição no site referido, com a apresentação da capa e garantindo que o mesmo estaria à venda na Festa do Livro, da Festa do Avante!. Este livro tem prefácio de Filipe Leandro Martins, que eu penso que ainda seja o chefe de redacção do Avante!.
Este livro, como muito bem diz a propaganda inserida naquele site, teve uma distribuição massiça. Só na União Soviética foram editados 600 mil exemplares e foi traduzido em numerosas línguas. E porquê? A sua autoria, que não é assumida na edição portuguesa, pelo menos na capa, é de Estaline e no capítulo IV, é incluído o célebre texto, que posteriormente foi divulgado separadamente, com autoria reconhecida de Estaline, Materialismo Dialéctico e Materialismo Histórico. Podemos pois afirmar que estes dois manuais constituem a base de toda a conversão da imensa riqueza do marxismo e do leninismo não só numa mentira histórica que era visão que Estaline queria que permanecesse da sua tomada do poder no Partido Comunista da União Soviética, bem como uma simplificação e codificação de toda a problemática histórico-filosófica do marxismo. Como é dito, o livro é de 1938, elaborado portanto no auge das purgas no PCUS e dos julgamentos e condenações à morte dos seus principais dirigentes. É pois isto que o PCP de forma encapotada nos oferece na Festa do livro, da Festa do Avante!.
O artigo de São José Lopes termina identificando Francisco Lopes com a ascensão desta corrente neo-estalinista no PCP, opinião com a qual estou de acordo e que oportunamente comentarei, mas acrescenta-lhe, borrando toda a pintura, e tornando simpática a figura de Francisco Lopes que “ele foi o jovem quadro que desde cedo mostrou que não tinha medo de dizer que era comunista. E tem sido seguido por um crescente grupo interno, uma tendência de comunistas que não têm vergonha de o ser.”
Ora nada disto é verdade e nunca ninguém no partido teve medo de dizer que era comunista, tinham era uma visão diferente do que tinha sido a história do movimento comunista e prezavam bastante a unidade das forças antifascistas e progressistas.

09/01/2010

Voltando sempre ao mesmo – Estaline, outra vez


Talvez pela idade ando sempre a repisar os mesmos temas, no entanto, por muito que queira fugir deles ei-los que regressam a galope pela porta da frente.
Assim, num post do blog 5 Dias era relatado um comentário boçal de um tal António Ribeiro Ferreira, que escreve no Correio da Manhã. Até aqui tudo bem. Podem consultar a história no link referido.
A propósito disso Carlos Vidal, no mesmo blog, resolve fazer uma citação de uma recensão que foi feita no Brasil, à edição naquele país do livro de Ludo Martens sobre Estaline, já por mim amplamente discutido neste meu post. Acrescentando-lhe: “Lendo toda a recensão de João Q. de Moraes … do livro de Ludo Martens, lê-se uma análise que não elogia Estaline, mas a necessidade de tratar de um tabu. Por isso, o texto de João Q. de Moraes não podia deixar de ser também crítico do livro de Martens, que seria interessante editar em Portugal. A juntar às já existentes e importantes ferramentas de Simon Sebag-Montefiore e em benefício do estudo do século XX.”
Em resposta a este post e a diversos comentários que por lá apareceram achei por bem informar sobre todos os dados de que dispunha e que estavam incertos no meu blog, no artigo referido.
Como é sabido, e eu não fujo à regra, o debate na Internet acaba sempre por resvalar para uma grande agressividade argumentativa, quando ainda se utilizam argumentos, ou por vezes para o puro lixo informático, que constitui o insulto, os textos sem sentido ou mal redigidos, ou ainda as meras abreviaturas importadas dos telemóveis, que tornam ilegível qualquer prosa que pretenda discutir ideias. No entanto, podemos dizer que a maioria dos comentários ao post referido se mantiveram no nível minimamente aceitável de argumentação.

Mas não é para vos contar esta história que aqui estou é simplesmente para constatar um facto que muito me impressiona: o ressuscitar do tema Estaline e de todo o conjunto de argumentos que anda à sua volta.
Os mais antigos como eu, que viveram a luta travada entre o PCP e os maoistas, no final dos anos 60 e durante os anos 70, saberão sem dúvida a importância que naquela altura Estaline tinha para estes últimos e como o PCP, sem nunca enveredar por uma crítica clara e desassombrada sobre aquele, assumia um claro repúdio a qualquer aproximação àquele dirigente soviético.
Hoje, já não existem maoistas, que emigraram para a direita, ou integram, com algum repúdio ou distanciamento crítico do seu passado, o Bloco de Esquerda. O problema é que ideologicamente o PCP se transformou, de certo modo, num herdeiro dessa gente e todo o universo de blogs, edições, cursos e opiniões expressas no Avante, vêm retomar, umas vezes às claras, outras vezes encapotadamente, a velha defesa de Estaline. Eu penso que isto tem a ver fundamentalmente com o refluxo ideológico que a derrota do “socialismo real” provocou naquele partido. Hoje, muitos dos que se reclamam do comunismo acham que qualquer crítica a Estaline e à ex-União Soviética constitui uma colaboração com o inimigo. Há um texto num comentário ao post, que venho a referir, do 5 Dias, que é elucidativo: “cada um escolhe o seu campo, afirmem-se como revisionistas, ou “renovadores”, mas por favor deixem de invocar o comunismo enquanto pactuarem com o campo que está mais interessado em o destruir”. É como que um regresso ao útero materno, incapazes que são de enfrentar o mundo moderno e a crítica. Por isso, todos aqueles que na ex-União Soviética, como Khruchtchev denunciaram Estaline, e o “culto da sua personalidade”, são hoje também incluídos no campo do revisionismo, tal como já o foram para os maoistas. Veja-se o título de um dos artigos publicados no site Para a História do Socialismo, de Kurt Gossweiler, Sobre o papel de Estaline e a quota-parte do revisionismo de Khrushchov na destruição da União Soviética.
Ilustrativo do que venho a dizer é, nos comentários ao post que venho a referir, esta prosa perfeitamente panegírica de uma obra de Estaline que sempre foi acusada de simplificar, dogmatizar e em última instância ser anti-marxista: “Razão para uma maior abertura e simpatia para o estudo e defesa da história dos filhos do povo que se associaram para construir tudo de novo e de raiz. Sem muitos livros, mas mesmo assim estou-me a lembrar de um, por acaso notável, que toda a gente deveria reler: “O materialismo dialéctico e o materialismo histórico” de José Estaline (Setembro de 1938, traduzido para português e editado em Outº1974 por Henrique A. Carneiro)”. Depois, esta citação que torna a dialéctica marxista no mais perfeito determinismo e que serve de “modo lapidar” para separar “revolucionários” de “reformistas”: “Se é verdade que a passagem das mudanças quantitativas lentas a mudanças qualitativas bruscas e rápidas é uma lei do desenvolvimento, é claro que as revoluções realizadas pelas classes oprimidas constituem um fenómeno absolutamente natural, inevitável. Consequentemente, a passagem do capitalismo ao socialismo e a libertação da classe operária do jugo capitalista podem ser efectuadas, não por transformações lentas, não por reformas, mas somente por uma mudança qualitativa do regime capitalista, pela revolução. Assim, para não nos enganarmos em política, é preciso sermos revolucionários e não reformistas” (Josef Stalin in “Materialismo Dialéctico e Materialismo Histórico”).
Pode-se dizer que isto é um caso isolado, no entanto, a própria oposição que o responsável pelo post faz entre a obra Ludo Martens e a de Simon Sebag-Montefiore, sobre Estaline (Estaline, a corte do czar vermelho e o Jovem Estaline, Edições da Alêtheia, da Zita Seabra), é já indicativa de que ou apoiamos Estaline ou só nos resta a crítica de direita.
Por estas razões, tendo a pensar que o enquistamento da posição comunista sobre Estaline é a principal responsável, a não ser em termos de resposta aos inimigos de classe, pela consequente ocupação de espaço pela direita e por certa esquerda, que toma como suas as reflexões da direita e acima de tudo as produzidas pelos ideólogos da Guerra-Fria. Todos eles, como já referi várias vezes, consideram os tempos de Estaline como a continuidade da época de Lenine, negam o valor libertador da Revolução de Outubro, no fundo, consideram que a URSS sempre foi um imenso Gulag. Já me tenho debruçado demasiadas vezes sobre esta batalha político-ideológica para voltar a ela, mas o espanto sobre este regresso ao estalinismo é que ainda não acabou.

02/01/2010

Estaline, mais uma vez


Num fórum de discussão a que eu, como já vos informei, também integro, foi dada uma informação muito curiosa. Num site, denominado Para a História do Socialismo, que eu penso que pode ser conotado com gente ligada ao PCP, apareceu um texto, colocado na zona da Biblioteca, chamado Um outro olhar sobre Stáline, de Ludo Martens, que é a tradução portuguesa do texto que apareceu em francês, num site com este interessante nome communisme-bolchevisme - altermondialisme, trotskisme et maoïsme contre marxisme-léninisme, e que pode ser visto aqui. Já se percebeu que o texto é uma apologia do estalinismo.
Mas o mais interessante disto tudo, é que foi dito nesse fórum, e foi confirmado num artigo que Paulo Fidalgo escreveu para o site da Renovação Comunista, que foi impressa uma edição de 500 exemplares do texto publicado na Internet, com prefácio de Carlos Costa, e que não teve distribuição comercial. Não sei como se pode obtê-la, nem nunca vi o livro.
Posteriormente, em comentário ao post de Fidalgo, alguém diria que Costa já não podia ser conotado com a direcção do PCP, dado que no último Congresso daquele partido tinha sido afastado do Comité Central contra sua vontade. Esta notícia pode ser consultada no site referido no comentário.
Por esta altura também e sem o carácter clandestino do livro de Ludo Martens, foi publicado em Beja, pela Cooperativa Cultural Alentejana CRL, Fuga da História? A revolução russa e a revolução chinesa hoje, de Domenico Losurdo, tradução de José Colaço Barreiros. O site de ODiário, também patrocinador da edição, reproduz o seu capítulo IV, Os anos de Lenine e Estaline. Um primeiro balanço, e indica onde o mesmo pode ser adquirido.
Domenico Losurdo é habitualmente publicado por aquele site, bem como pelo resistir.info. Neste pode encontrar igualmente o capítulo 2 do livro, mais um fotografia da sua capa e a lista dos artigos de Losurdo já publicados por aquele site. A publicação do livro mereceu igualmente uma pequena referência noticiosa no Avante.
A propósito de uma conferência de Losurdo em Lisboa já publiquei um post sobre a mesma, bem como a sua bibliografia em italiano e a que está traduzida no Brasil.
Este mesmo autor publicou recentemente um livro sobre Estaline, em italiano, que mereceu este comentário de Miguel Urbano Rodrigues em o site ODiário

Por tudo que escrevi, parece-me que as análises, umas encomiásticas, outras mais comedidas, a Estaline começam a progredir, primeiro na blogosfera e depois em formato mais íntimo, em edição impressa. No entanto, que fique claro, por tudo aquilo que tenho lido e ouvido de Losurdo e o pouco que li de Ludo Martens, há grandes diferenças entre eles, o primeiro é um académico reputado, com obra feita, e o segundo é um dirigente político de um pequeno partido maoista belga, o Partido dos Trabalhadores da Bélgica, que parece que anda a apelar à união de todos os partidos que se reivindicam do marxismo-leninismo (ver a Wikipedia)


Feita esta pequena introdução e porque na altura em que se debateu a questão Estaline no fórum eu escrevi um texto sobre este mesmo assunto, entendi que vos devia também transmitir estas minhas reflexões pessoais que muito provavelmente foram feitas em resposta a algumas das interrogações que lá se levantaram.
Entendo eu que a questão de Estaline é uma questão acima de tudo histórica e depois uma questão ideológica, ou seja, faz parte da batalha das ideias, englobando aqui aquilo que se pode considerar como a questão moral. Para melhor organizar o texto vou resumir este assunto a sete questões, algumas em forma de pergunta, que deixo à vossa reflexão.

I - Como questão ideológica central, podemos ainda hoje reclamarmo-nos herdeiros da Revolução de Outubro e de todo o manancial libertador que ela desencadeou? A resposta que dermos a esta pergunta é quanto a mim de crucial importância, para nos consideramos ainda comunistas. Isto não significa que achemos que ela se pode repetir nos tempos actuais, como já não o foi no tempo do próprio Lenine. O fracasso da Revolução no Ocidente, que condicionou todo o processo revolucionário de Outubro, e que motivou respostas diferentes consoante as diferentes correntes bolcheviques, não nos pode impedir de a considerar legítima e de a pensarmos em termos actuais. É isto que nos separa da social-democracia. Podemos fazer como grande número de partidos de esquerda, pôr este assunto entre parêntesis, mas quanto a mim ele ficará sempre com um “interdito” não verbalizado.

II - Um problema histórico e também ideológico: foi Estaline continuador de Lenine? Tudo o que aquele fez já tinha sido realizado por este. O GULAG e a violência já eram apanágio da Rússia leninista. Há muita gente de esquerda que defende este ponto de vista. Entre o partido do tempo de Lenine e de Estaline não há diferenças importantes. No fundo é aquilo que Moshe Lewin considera, criticamente, de que para alguns historiadores e ideólogos de uma certa esquerda e da direita, a União Soviética foi sempre um imenso GULAG. Ora eu defendo que as práticas e os métodos leninistas eram diferentes, que este se opôs ao carácter violento de Estaline e que nunca mandou matar os comunistas que se lhe opuseram. Este assunto merece uma análise histórica rigorosa e um debate ideológico firme.

III - Foi justa a opção de Estaline pelo "socialismo no único país", pela colectivização forçada dos campos e pela industrialização a toque de caixa, aquilo que ele chamou a "revolução por cima" e que outros consideraram como a acumulação primitiva do "socialismo"? Trotsky não pensava
assim, esperava ainda pelas revoluções no Ocidente e Bukharine acreditava que a NEP, a Nova Política Económica, permitiria paulatinamente atingir, sem sobressaltos, e até com alguma diferenciação de classes sociais, aquilo que Estaline queria.
O que diversos autores nos dizem é que Estaline, enveredando por este método, permitiu o desenvolvimento capitalista na Rússia, passando por cima das debilidades estruturais da própria Rússia czarista e da própria burguesia russa. Seja como for o Partido Bolchevique apoiou esta actuação. Muitos marxistas, como Lukács, acharam que era a linha justa. E para muitos, foi
aquela que permitiu a URSS resistir ao avanço do nazi-fascismo na IIº Guerra Mundial. O XVIIº Congresso do PCUS, em 1934, chamado Congresso dos Vencedores, foi a consagração desta linha. Estamos nós de acordo com ela? Este é um problema histórico e ideológico importante.
IV - Foi a partir do assassinato de Kirov, também em 1934, que Estaline, que parece que não teve qualquer interferência nele, inicia na URSS os grandes processos políticos contra, primeiro, os seus opositores políticos dentro do Partido Comunista, todos grandes heróis da Revolução de Outubro, e depois contra os seus próprios apoiantes, mandando assassinar a maioria (há números concretos) dos participantes do Congresso referido. A URRS entre 1934 e o início da IIº Guerra Mundial foi a maior picadora de comunistas que alguma vez se verificou na história. Provavelmente, se fizermos bem as contas, Estaline mandou assassinar mais comunistas do que os 500 mil a 1 milhão que morreram na Indonésia nos anos 60.

V - A vitória da URSS na IIº Guerra Mundial tem sido um dos temas mais complexos de toda a historiografia da URSS e do debate de ideias contemporâneo. Primeiro, porque essa vitória justificaria todo o horror anterior e tudo lhe seria perdoado em seu nome. Segundo, porque ela permitiu uma maior liberalização do regime, mas reforçando até ao extremo a sua componente
nacionalista, com recurso às medalhas e fardamentos do tempo do Czar. Pelo contrário, há aqueles que a desvalorizam, dando unicamente importância aos sucessos militares no Ocidente, ou afirmando que a acção da URSS foi tão iníqua como a de Hitler, ao esmagar os povos da Europa de Leste. Tese hoje muito difundida nos países Bálticos e nos de Leste.
VI - Considerar que foram os próprios comunistas, que de um modo
muito pouco marxista, recorrendo à noção de “culto da personalidade”, denunciaram os crimes de Estaline, como sucedeu no XXº e XXIIº Congresso do PCUS, com os relatórios de Nikita Khrushchev. Ainda hoje o que se pretende em muitos casos, a que o PCP não foge, é desvirtuar o Relatório Secreto apresentado por Khrushchev no XXº Congresso. Daí a importância da sua análise e das repercussões que ele teve.

VII - Reconhecer que o regime que os revolucionários de Outubro desejavam não seria aquele que acabou em 1991, que os caminhos seguidos merecem uma análise do ponto de vista marxista. Que o que se passou em 1991, não foi uma libertação, mas a concretização prática do que muita da nomenclatura dita comunista queria de facto para a Rússia. Falar em traição, como gostam de garantir os nossos comunistas, é não compreender nada sobre a sociedade
que se desenvolveu na URSS.

13/11/2009

O mundo avança e eu a discutir o meu umbigo


Passei dois dias a escrevinhar sobre, primeiro, as minhas visitas ao Muro e, depois, a fazer a história das chamadas Democracias Populares.
Não li nada do que se foi escrevendo sobre o assunto e agora, passados estes dias, descubro que quase todos os blogs de referência se pronunciaram e, como vai sendo costume, o 5 Dias até discutiu entre si.
Porque estou convencido que ainda tenho coisas a dizer, aqui vão mais umas tantas reflexões sobre o tema

É interessante seguir a discussão na blogosfera, e vou só referir-me a alguns posts. O do Daniel de Oliveira, no Arrastão e os de Bruno Sena Martins, Ricardo Noronha, Carlos Vidal, Nuno Ramos de Almeida, Zé Neves, Tiago Mota Saraiva, todos no 5 Dias e, por último, um post de Miguel Serras Pereira, inserido no blog de Joana Lopes, Entre as Brumas da Memória. Só dois pequenos apontamentos. O primeiro, como, de certeza, Joana Lopes faz um apertado controlo dos comentários, consegue na respectiva caixa um nível de discussão bastante elevado. O segundo, é que não me abalançarei neste post a analisar pormenorizadamente cada um deles. Limitar-me-ei a algumas reflexões avulsas.

Fica-se com a ideia depois de ler tudo aquilo que se escreveu nos blogs que a discussão é mais moral do que política e, na maioria dos casos foge da História, com H maiúsculo, “como o diabo foge da cruz”, salvo seja. Alguns acrescentam-lhe alguma discussão teórica, mas de um modo geral evitaram confrontar-se com o real histórico. Não pretendo ser melhor, mas para mim a análise da queda do Muro de Berlim e o carácter simbólico que teve, com fim de um bloco militar e político, só pode ser analisada no seu devir histórico e não por padrões éticos ou que reflictam simplesmente uma opção ideológica.

I – Como se sabe o bolchevismo era o ramo de esquerda da social-democracia russa, que por sua vez estava integrada no movimento social-democrata europeu, agrupado na II Internacional. A falência desta, dada a participação dos partidos aderentes nos Governos de unidade nacional, que desencadearam a I Guerra Mundial levou à divisão da social-democracia em correntes de direita e de esquerda. Na Rússia esta separação era já anterior a esta situação, mas a defesa da continuação da Rússia na Guerra por parte dos mencheviques, a corrente de direita, e a sua recusa, por parte dos bolcheviques, foi uma das razões do desencadear da Revolução de Outubro. Durante a Guerra, a ala esquerda dos partidos sociais-democratas foi-se separando do partido mãe, dando mais tarde origem aos partidos comunistas da III Internacional. Foi a sua adesão a esta que obrigou todos eles a mudarem o nome de sociais-democratas para comunistas.
Quero eu com isto dizer que existe um tronco comum entre a social-democracia e o comunismo. Eu sei que isto se passou há cem anos, que hoje tem pouco sentido falar da história desta divisão, mas parece-me demasiado forçado separar tão rigidamente os partidos que se reclamam da social-democracia, do socialismo, se se quiser adoptar a terminologia do Sul da Europa, e os comunistas. Em dadas circunstâncias históricas, como foi a época das Frentes Populares ou durante e pouco tempo após a II Guerra Mundial, houve sérios movimentos de aproximação. Nesse sentido, tanto Daniel de Oliveira ou Miguel Serras Pereira não deveriam fazer separações tão rígidas. Não há nenhuma muralha da China a separar aquelas duas correntes. Por isso, em alguns casos, já nossos contemporâneos, as duas se aliaram

II – A Revolução de Outubro foi sem dúvida uma tentativa vitoriosa de transformar o real, de acelerar a história, de dar o poder às classes não privilegiadas. Teve uma repercussão mundial importante e permitiu de modo insofismável formar em quase todos os países então existentes partidos comunistas ligados à classe operária. Isto é um facto histórico indiscutível e perdurará na história da humanidade.
Os revolucionários de Outubro estavam convencidos que a sua Revolução iria triunfar na maioria dos países da Europa Ocidental, principalmente na Alemanha. E até muito tarde acreditaram nessa possibilidade e foi a sua derrota no ocidente que obrigou a virarem-se para a Rússia atrasada e camponesa, o que teve consequências trágicas. Daí ser importante, ler o que Gramsci disse (ver aqui) sobre as sociedades orientais e ocidentais e a situação do Estado em cada uma delas. Isto remeto-nos para as fantasias do real, de que fala Carlos Vital. A discussão não é entre os revolucionários que querem pôr em prática a sua revolução e os utopistas que sonham com coisas irrealizáveis. A discussão é como é possível no Ocidente conseguir as transformações práticas necessárias à alteração da sociedade e daí a proposta gramsciana da “guerra de posição”, da “conquista da hegemonia” e da formação de blocos históricos que possam “dirigir” a sociedade.

III – Por razões intrínsecas à própria sociedade russa, dá-se a vitória de uma das correntes dos bolcheviques sobre todas as outras. É a derrota da NEP, Nova Política Económica, e dos seus defensores como Bukharine, é a vitória de Estaline contra os desejos de Lenine, é a colectivização forçada, naquilo que Estaline considerou a “revolução por cima”, e a consequente industrialização com trabalho quase escravo. A vitória desta facção transformou a União Soviética não num país socialista, em que os trabalhadores se auto-governavam, mas numa ditadura negra, que começa por eliminar as outras correntes comunistas, para depois, numa sangria imparável, levar os próprios adeptos de Estaline. No entanto, é bom que se diga como o afirma Moshe Lewin, O que foi sistema soviético*, que um dos erros de apreciação da União Soviética “consiste em estalinizar todos o fenómeno soviético, como se ele tivesse sido um Gulag gigante desde o início até ao fim”. Khrushchov, quando em 1956 denuncia o estalinismo, inicia uma nova época na URSS. A situação altera-se e os campos de trabalho forçado (Gulag) são abertos. Podem os críticos actuais, sem qualquer perspectiva histórica, dizer que foi sempre assim, eu diria que não e nesta análise encontro muitos historiadores sérios, como Moshe Lewin (ver O Século Soviético, Campo da Comunicação, 2004, tradução do Miguel Serras Pereira). Isto não quer dizer que a sociedade soviética fosse socialista, era segundo Moshe Lewin, no artigo citado, um “absolutismo burocrático”, muito inspirado no seu passado czarista. Mas é com a perícia do entomologista, que classifica e analisa a realidade, que esta sociedade tem que ser observada. Não é como afirma Moshe Lewin, no já refrido artigo , “tomar o anticomunismo como linha condutora para o estudo da União Soviética”… “O anticomunismo (e as suas vertentes) não é um conhecimento histórico: é uma ideologia mascarada. Não apenas não corresponde à realidade do “animal político” em questão, mas empunha a bandeira da democracia paradoxalmente: explorando o autoritarismo do regime da União Soviética em prol de causas conservadoras ou piores”. Depois enumera dois exemplos: o do macarthismo nos Estados Unidos, ou da direita alemã que “visando limpar a imagem de Hitler ao colocar em primeiro plano as atrocidades cometidas por Estaline acarreta um uso abusivo da história”. E termina “em defesa dos direitos humanos o Ocidente provou alta indulgência para alguns regimes e bastante severidade para com outros (isso para não mencionar as violações que ele próprio comete desses direitos).”
Neste sentido, parece-me errado toda a simplificação que Daniel de Oliveira faz deste tema

IV – A queda do Muro de Berlim e o desmoronar do “socialismo” a Leste tem que se compreender no contexto da apropriação daqueles países pela União Soviética ou no domínio que sobre eles foi exercido por aquele país. Sobre isso já escrevi o post anterior e penso não ser necessário repetir. É por isso compreensível, os festejos da Alemanha e até se quiserem as palavras de Angela Merkel, que mereceram apressada transcrição, mas que no fundo, não esquecendo o seu passado, festeja com orgulho a reunificação do país ou as opções anti-comunistas que são tomadas nas diferentes capitais de Leste. Situação já diferente é a da Rússia e das Repúblicas que dela se separaram em que um reencontro com o seu passado e a delineação do seu futuro no complexo mundo actual são objecto de renovada procura, passado que foi a sua loucura ocidentalizante encabeçada por Boris Yeltsin.
Como diferente foi a situação na ex-Jugoslávia, onde foi preciso a intervenção forçada, primeiro da diplomacia Alemã e depois dos bombardeamentos da NATO, para desmantelar e subverter o país existente.
Diferente é também Cuba, que devido às características autónomas da sua revolução, conseguiu manter a sua independência, mesmo nos anos mais sombrios do desaparecimento da União Soviética e da era Bush, e quer queiram quer não, é hoje respeitada e acolhida no seio dos nascentes estados progressistas da América Latina. Sem servir de modelo, penso que seria estultícia nossa, ou de muitos que escrevem para a net tentar dar lições sobre os caminhos que Cuba deve trilhar. Lula, que respeitamos, Chavez, que é motivo de escárnio das almas bem pensantes e outros mais, não se têm permitido dar conselhos ao “velho regime”.
A China é outro caso que, de momento e devido à exiguidade deste post, tratarei noutra altura.

V – Por tudo o que foi dito, ser-se comunista hoje é perceber a complexidade do que foi o fenómeno histórico do movimento comunismo e pensar que o mundo passado já não ressuscita. O marxismo-leninismo, como expressão ideológica do grupo dirigente da União Soviética, é hoje uma aberração histórica, que já nada interpreta e para que nada serve. Por isso, ser comunista hoje é pensar que há outros grupos e novas grupos sociais com quem nos podemos unir e formular para futuro a possibilidade de se alcançar uma sociedade outra, tendo sempre presente que o esforço de agregação e de junção de forças é complexo e exige trabalho, mas está ao nosso alcance. Nesse sentido, os novos partidos de esquerda que por essa Europa e em Portugal vão nascendo são hoje, nas circunstâncias actuais de centro do mudo capitalista ocidental, a alternativa ao conservadorismo, ao neo-liberalismo e à deriva direitista da social-democracia.
Hoje, o PCP é de facto um obstáculo à compreensão destas novas emergências, o que torna mais difícil o trabalho de reorganização do pensamento da esquerda em Portugal, mas a sua participação nesta nova esquerda é indispensável, quer queiram seus dirigentes quer não.

VI – Por último, a questão do modelo levantada por Miguel Serras Pereira. Por tudo aquilo que fui escrevendo nada me leva a pensar que o modelo dito “socialita” possa, depois de regulado, como agora se diz em relação ao capitalismo, vir a ser reposto. Primeiro, porque nas sociedades ocidentais ninguém de boa fé prevê qualquer revolução. Segundo, porque os passos que a esquerda não social-democrata tem que dar ainda estão tão no início, que muita água ainda há-de correr debaixo das pontes até que democraticamente ela esteja em condições de aceder ao poder e qual o programa irá aplicar? O futuro será sempre uma procura de novas saídas e de novos desafios, não está, como não esteve para os bolcheviques desenhado desde o início. Mas os erros da sua experiência histórica poderão servir para não se fazer igual.

* Margem Esquerda, ensaios marxistas, Boitempo editorial, 2007, 10: 39-53.
A fotografia é do Monumento à III Internacional (1919-1920), de Vladimir Tatlin.
Este post era para ser publicado logo a seguir aos post sobre o Muro, mas a premência de fazer referência ao Avante ainda no dia em que foi publicado levou-me a atrasar a publicação deste

10/11/2009

A queda de um muro. Reflexões históricas


Como eu esperava ninguém me respondeu à pergunta sobre onde pára o tal comunicado do PCP sobre o 20º aniversário da queda do Muro de Berlim. Ou porque não me lêem ou porque não sabem.

Antes de mais um estado de espírito. Ouvi ontem num programa da SIC Notícias, que tem dedicado longas horas a este tema, alguém da ex-RDA ou que lá tinha regressado, que “uma derrota é uma derrota”. Ninguém, que ainda se considera comunista, pode comemorar com alegria o fim, mesmo que simbólico, daquilo em que acreditou. Mas o problema não está só aí, é que podemos hoje dizer, e houve muitos que ao longo do século XX o foram dizendo, não sendo anti-comunistas, que aquela experiência nada tinha a ver com o socialismo, nem com a construção do comunismo e, por isso, a sua derrota foi benfazeja porque acabou com uma ficção. O seu fim podia mesmo ter dado lugar à construção de uma outra sociedade, essa sim a caminho do socialismo. Mas, para nossa desgraça, a alteração veio atrasada no tempo. Talvez com Khrushchov isso ainda fosse possível, talvez com a Primavera de Praga alguma coisa ainda se pudesse alterar, ou nos anos 20, se Estaline, como Lenine desejava, não tivesse vencido. São demasiadas hipóteses que não se confirmaram. Mas dizia eu que o problema não estava só na derrota ou mesmo, para os mais optimistas, no acabar com uma ficção. O problema central, e que pode ser mascarado com o acesso daqueles povos à democracia, é que quem venceu foi um sistema iníquo, o capitalismo, e mesmo sendo democrático no seu centro, isso não lhe altera a substância e o seu carácter agressivo. Ou seja, ao contrário, do que alguns ingenuamente pensaram com o fim da guerra-fria, os blocos militares não desarmaram, nem a guerra foi banida, em alguns casos tornou-se mesmo infinda. Por isso gostaria de terminar esta parte com a afirmação de que a saída do “socialismo real” ou do que alguns classificam como o capitalismo de Estado, não foi para uma sociedade melhor, como aquela que foi perscrutada no final da Segunda Guerra Mundial, mais à esquerda, mas consistiu na vitória do conservadorismo e do neo-liberalismo e na derrota do comunismo, mas também da social-democracia. Por isso entendo que hoje, para além da justa crítica e da reflexão precisa do que foram as sociedades do “socialismo real”, temos que convir que não caminhamos para um mundo melhor.

Estas são reflexões gerais e de estado de espírito. Mas falemos da história.
Os países do Leste europeu, quando a Segunda Guerra Mundial começou eram, de um modo geral, países atrasados, governados por monarquias anacrónicas e apoiadas em ditadores ou mesmo governos de natureza fascista. Salvava-se desta situação a Checoslováquia, que tinha tradições democráticas, era mais desenvolvida que os países referidos e tinha um forte movimento comunista. Alguns daqueles países, como a Polónia, tinham graves contenciosos com a Rússia e serviram de tampão para a expansão do movimento comunista para a Europa Ocidental.
Como resultado da divisão da Europa em Yalta, entre a URSS e os Aliados Ocidentais, foi atribuída àquela, os países que integravam o que ficou conhecido pela Europa de Leste. E foi-lhe concedido porque esses países já estavam a ser libertados pelo Exército Vermelho. Tivessem os americanos desembarcado um ano antes na Europa ou tivessem, como queria Churchill, mas de muito difícil execução e de duvidosos proveitos, atacado a fortaleza Europa pelo Sul – viu-se o que aconteceu em Itália, onde subiram a passo de caracol – nunca a Europa Leste teria sido socialista. Provavelmente, ainda hoje alguns daqueles países seriam governados por alguma monarquia anacrónica ou algum tiranete de opereta.
Ou seja, o socialismo nos países de Leste foi imposto com a ajuda das baionetas do Exército Vermelho, o que não significa que não tivessem havido movimentações políticas importantes e verdadeira luta inter partidária. Os povos de Leste viram no Exército Vermelho os seus libertadores e os comunistas começaram sem dúvida a ganhar força, não só por terem resistido ao nazi-fascismo, mas por serem portadores de transformações sociais profundas em países onde se registavam grandes desigualdades sociais e atrasos estruturais evidentes. Mas, havia casos, como a Roménia onde eram praticamente inexistentes. É bom igualmente que se diga que esses partidos integravam Frentes Nacionais, com outras organizações políticas anti-fascistas e que o objectivo de Estaline era o do estabelecimento das chamadas Democracias Populares, que correspondiam grosso modo àquilo que o nosso PC propunha no seu programa como a Revolução Democrática e Nacional. No fundo era a tradução concreta do célebre “estado intermédio” ou “etapa intermédia”, entre o fascismo e a revolução socialista, já defendidos pela Internacional Comunista, no seu VII Congresso, em 1935.
Convém também acrescentar que a Checoslováquia e a Jugoslávia foram, por razões diferentes a excepção aos restantes casos. No primeiro país, os comunistas ganharam as eleições, com 38% dos votos, e portanto tiveram possibilidades de formar governo democraticamente. No segundo, os exércitos de Tito expulsaram os alemães antes da chegada dos russos e como o partido comunista saiu vitorioso na guerra de guerrilha, não estava interessado em fazer unidade com as restantes forças anti-fascistas, quase inexistentes, e em estabelecer um “estado intermédio”. Os jugoslavos defendiam e implantaram, ao contrário do que desejava Estaline, uma República Socialista.
A responsabilidade pelo início da guerra-fria é ainda hoje objecto de discussão histórica. Mas, não há dúvida que ela começa quando na Conferência de Potsdam, ocorrida já depois da guerra na Europa ter acabado, mas antes da vitória sobre o Japão, Truman avisa Estaline que já possuía uma “nova arma potente” e dias depois lança-a em Hiroshima e Nagasaki, ameaçando assim, mesmo que indirectamente, a URRS com a bomba atómica. Seja como for Estaline sempre limitou a sua área de influência aos países que lhe tinham sido atribuídos em Yalta, permitindo assim que os comunistas gregos, cujo país não estava na sua área de influência, fossem sacrificados num guerra civil cruenta conduzida primeiro por ingleses, depois por americanos.
O calendário é apertado e não me interessa agora enumerá-lo, mas ao Plano Marshall americano para apoiar o ocidente e permitir expulsar os comunistas dos Governos de Unidade Nacional estabelecidos a oeste correspondeu, por parte da União Soviética, à tomada do poder pelos Partidos Comunistas nos países de Leste, cujo exemplo mais significativo é o chamado Golpe de Praga (1948), em que os comunistas checos tomam sozinhos conta do poder expulsando todos os outros partidos da coligação governamental. A ficção das chamadas Democracias Populares, os tais “estados intermédios”, dá lugar à socialização forçada da economia e uma integração ainda mais forçada nos interesses económicos da União Soviética. Culminando tudo isto, no início dos anos 50, tal como nos processos de Moscovo de 1936-38, com o julgamento, na maioria das capitais dos países de Leste, de vários dirigentes comunistas (Processo Rajk, Budapeste, 1949; Processo Slansky, 1952, Praga). Tito, porque tinha maior poder e independência, resiste às directivas de Estaline e é expulso do movimento comunista e acusado dos piores desvios (1948). É mais uma vez o horror em nome do socialismo. Estes factos, hoje muito esquecidos, levaram à condenação à morte de muitos dirigentes dos PC nacionais, só porque em alguma vez na vida tinham defendido a independência dos seus partidos. Se tiver tempo ainda um dia hei-de relembrar aqui os heróis comunistas mortos pela sangria estalinista. É pois neste contexto desgraçado que a experiência socialista começa nas Democracias Populares. Depois são as ingerências, as mudanças de estilo. Ainda hoje foram mostradas nas televisões os protestos populares de 1953, na RDA. Ora elas correspondem à morte de Estaline e à luta pelo poder na ex-URRS. Parece que Beria, o terrível, as apoiou, contra a direcção que depois o matou. Em 1956, as alterações na Polónia e principalmente na Hungria, tiveram a ver com a destalinização iniciada por Khrushchov. Foi a alteração da equipa dirigente da URSS, com a subida ao poder de Gorbatchev, que deu também origem à queda do Muro de Berlim e depois ao desmoronar do “socialismo real” nos países de Leste.
Estes nunca foram verdadeiramente independentes desde o final da II Guerra Mundial, apesar da sua história, como a da URSS, não ser toda homogénea neste últimos 60 anos. Compreende-se pois bem que a queda do Muro fosse para estes países, não sei se para todo o seu povo, o aceder a uma liberdade que ainda não tinham conseguido alcançar.


Terminaria, para aqueles que acham que em termos globais nós devemos festejar a queda do Muro com a sentença de António Vitorino hoje na RTP I. A queda do Muro de Berlim só veio confirmar que não há alternativa à economia de mercado e que a única coisa que temos que fazer é regulá-lo. É por estas e por outras que a mim não me apetece comemorar a sua queda.
Cartaz de o filme A confissão (L’Aveu), 1970, de Costa Gravas, cujo argumento se baseia na obra, com o mesmo nome, de Artur London e é relativa ao Processo Slansky, que envolveu igualmente aquele autor.
PS. (11/11/09):
Como já vem sendo hábito, há pequenas alterações no post de carácter redaccional .

06/11/2009

Anda uma grande agitação na blogosfera: o caso de "5 Dias" – II


Cada um tem a sua própria agenda. Há os que todos os dias ou várias vezes ao dia põem um post novo sobre o que está a acontecer no país e no mundo ou aqueles, como eu, que por vezes lhes dá, com grande desfasamento, para pensarem sobre o que se vai postando na blogosfera. Não sou melhor que os outros, simplesmente sou mais lento a escrever e por isso quando faço qualquer comentário sobre os acontecimentos do dia já a minha opinião se tornou inútil. Mais vale escrever sobre temas que me incomodam , do que comentar notícias ultrapassadas.

Dito isto, uma pequena referência ao nome do post. Poderia ser o caso de Rita Rato, mas como não queria dar importância ao mesmo, chamei-lhe o caso de 5 Dias, pois foi neste blog que houve uma troca de opiniões mais acesa sobre aquele fait-divers.

Como é evidente tudo começa com a defesa de Rita Rato sobre a sua não resposta ao que era o Gulag quando questionada sobre o assunto, mas depois a discussão vai tomando forma e passa rapidamente para o próprio regime soviético, a ditadura na China, a liberdade de imprensa em Cuba e o próprio Gulag.
Ricardo Noronha começa com A culpa é do manchinhas e Carlos Vidal responde-lhe: Ainda a polémica sobre Rita Rato e uma rejeição completa do “socialismo democrático.
Este texto de Carlos Vidal é espantoso. Não conheci Carlos Vidal quando andei pelo Sector Intelectual de Lisboa do PCP, mas se ele fosse fazer esta conversa para os camaradas daquele sector, era ouvido com um sorriso nos lábios, pois pensariam que estava a efabular sobre coisas de que não tinha a mínima ideia. Se encontrasse então o Carlos Aboim Inglês, que foi um dos seus responsáveis e que era “teso” para o debate ideológico, era de certeza arrasado. Mas, porque me é dado perceber, começa a ser prática de alguns novos-vindos ao PCP e que escrevem no 5 Dias, repetirem por novas palavras, mais modernaças e menos perceptíveis, o mesmo que os velhos marxistas-leninistas “daquela casa” dizem, com os ensinamentos que foram beber à “Escola do Partido”, que eu também frequentei em cursilhos de fim-de-semana, ou então nos cursos mais demorados na URSS. Valha-nos ainda no “sector” (penso que ainda pertencem ao mesmo) a sensatez e a inteligência de intelectuais como um Manuel Gusmão ou como um João Arsénio Nunes, porque prosa desta é de uma pedanteria insuportável. São os ares dos tempos.
A partir do conceito de “acontecimento” e de “sequência política” Carlos Vidal pretende explicar a novidade da Revolução de Outubro e a acção de Gorbatchov, o “manchinhas”, que, como ele diz, “veio interromper a sequência “existência do estado socialista soviético”.
Ora a novidade da Revolução de Outubro, utilizando a terminologia clássica marxista, foi a transformação de uma revolução democrático-burguesa atrasada (a Revolução de Fevereiro, de 1917), numa revolução socialista vitoriosa (a Revolução de Outubro de 1917), que uniu uma classe operária incipiente ao imenso campesinato russo, desejoso de terra e de paz para a poder trabalhar. Esta foi a obra dos bolcheviques e da sua capacidade de construírem um partido e de o dotarem de uma grande força ideológica, obra devida principalmente à acção de Lenine. Mas isto só foi possível devido à particular situação da Rússia czarista. Gramsci, o grande revolucionário italiano, que morreu nas cadeias fascistas, dizia que nas formações sociais do Oriente (a Rússia czarista pode-se incluir nesta definição) o “Estado era tudo, a sociedade civil era primitiva e gelatinosa (*)”, predominava aí o Estado-coerção. Era portanto fácil, em dado momento, desenvolver aquilo que o político italiano, recorrendo à terminologia da I Guerra Mundial, designou como guerra de movimento, a que “impõe à luta de classes uma estratégia de ataque frontal … voltada para a conquista e conservação do Estado” (**). Ao contrário do que se passava nas formações sociais do Ocidente onde, segundo Gramsci, “havia entre o Estado e a sociedade civil uma justa relação e, ao oscilar o Estado, podia-se imediatamente reconhecer uma robusta estrutura de sociedade civil. O Estado era apenas uma trincheira avançada, por trás da qual se situava uma robusta cadeia de fortalezas e casamatas; em medida diversa de Estado para Estado, é claro, mas exactamente isto exigia um acurado reconhecimento de carácter nacional.” (**)
Com isto, Gramsci justificava a derrota da revolução no Ocidente e defendia aqui uma guerra de posição que, ao contrário da outra, defendesse que “as batalhas devem ser travadas inicialmente no âmbito da sociedade civil, visando a conquista de posições e de espaços, da direcção político-ideológica e do consenso dos sectores maioritários da população, como condição para o aceso ao poder de Estado e para a sua posterior conservação” **. Reside precisamente aqui a “luta pela conquista da hegemonia, da direcção política ou do consenso” **.
Parece-me pois que num breve post estes conceitos de Gramsci são muito mais produtivos que as noções de “acontecimento” e “sequência política”.
Parece-me por outro lado que utilizar a noção de sequência política para o que aconteceu no PREC é não perceber nada do que se passou e mais, é tomar dele a visão “esquerdista” da derrota da revolução pela traição do PCP ou, neste caso, pela traição de Mário Soares. Para não invocar os argumentos já por mim utilizados neste post, remeto os interessados para o mesmo.
Por último quando escreve que Gorbatchov, “e não se sabe bem por que carga de água”, veio interromper a sequência “existência do estado socialista soviético”, é não compreender o estado de degradação e a incapacidade de crescimento económico em que Brezhnev tinha deixado a URSS e todo o sistema soviético. A classe dirigente da época preferiu o capitalismo selvagem que lhe propunha o "ocidente", ao capitalismo de estado que lhe tolhia os movimentos e o crescimento. Mas esta é só uma explicação, não podemos é arrumar a questão com as patetices ditas por Carlos Vidal.
Voltarei se para tanto tiver “engenho e arte” , ou seja, paciência, a estes posts do 5 Dias.

A fotografia que ilustra este post é de António Gramsci (1891-1937). Para os que estiverem mais interessados as referência citadas no post são retiradas de:
* António Gramsci, Cadernos do Cárcere. Edição de Carlos Nelson Coutinho, Civilização Brasileira, 2007, Rio de Janeiro: vol 3, pag. 262. Magnífica edição e tradução dos Cadernos do Cárcere, de António Gramsci, em 6 volumes, editada por Carlos Nelson Coutinho, e outros, para a editora Civilização Brasileira.
** Carlos Nelson Coutinho, Gramsci, um estudo sobre o seu pensamento político. Civilização Basileira, Rio de Janeiro, 2003: Pags. 147-148. Introdução bastante acessível e bem feita ao pensamento político de António Gramsci.
PS. (11/11/09):
Ma última linkagem, por erro, remetia para o post que estava a criticar e não para o meu post que pretendia referir.

02/11/2008

Funcionários públicos trucidados e um apêndice


Recebi na sexta-feira à noite um telefonema de um amigo perguntando-me se eu já tinha sido trucidado. Não percebi a graça. É que nessa noite ele tinha ouvido no Telejornal umas declarações de um Secretário de Estado afirmando que os funcionários públicos iriam ser trucidados. Pensei, percebeu mal a palavra. No entanto, pelo sim pelo não, fui ver se havia alguma referência no Público ou no Expresso do dia seguinte, pois uma afirmação daquele jaez merecia destaque especial. Nada.
Ontem à noite, durante a leitura dos meus blogs favoritos, encontrei no do Victor Dias referência ao assunto. O post remetia para uma notícia no Correio da Manhã , que começava assim: “O secretário de Estado da Administração Pública, Gonçalo Castilho dos Santos (ver fotografia ao lado), diz que o "mítico dia 1 de Janeiro de 2009" não marcará o início da reforma da Administração Pública, porque ela "já está no terreno" e alerta que quem não cumprir as exigências que a lei impõe "será trucidado". E continuava: "Trabalhadores, serviços e dirigentes que não estejam com a reforma serão trucidados", afirmou o governante, no encerramento do Congresso Nacional da Administração Pública. Para Castilho dos Santos, os funcionários devem ter a noção de que "a reforma já não pode andar para trás", pelo que "trucidará quem não estiver com ela". Depois seguiam-se mais uns considerandos, que quem quiser pode encontrar na notícia, já linkada, do Correio da Manhã.
É espantoso, como declarações deste jaez, que não sendo propriamente silenciadas – este meu amigo garantiu-me que as declarações do Secretário de Estado tinham aparecido na RTP 1 e na 2 – e havendo até referência no Correio da Manhã, as mesmas não tenham sido objecto de protesto das forças políticas da oposição e que não tenham, por exemplo, servido para galhofa pública, num programa como o Eixo do Mal ou em qualquer outro semelhante. Estas declarações não podem passar despercebidas, mas, pelos vistos, passaram. Só encontrei referência no blog já referido do Victor Dias, num comunicado do Sindicato dos Enfermeiros, e nos blogs República das Opiniões, Pharmácia de Serviço e Portugal Profundo (sem link para o post), estes dois últimos bastante reaccionários.
Também, por meu intermédio, apareceu uma referência no site da Renovação Comunista.
Ao menos que na blogosfera haja indignação, mas parece-me difícil

Para que o Victor Dias não fique todo vaidoso pela referência que faço ao seu post, E não se pode trucidá-los a eles?, quero afirmar que achei de muito mau gosto o texto que dedica ao João Semedo, que não se meteu com ele, mas sim com as novas interpretações que as Teses do PCP propõem para o desaparecimento da União Soviética, ao contrário do foi aprovado em Congressos anteriores sobre aquele mesmo acontecimento histórico. Victor Dias, sempre tão crítico em relação às apressadas generalizações que os outros fazem dos textos do PCP, fingiu não perceber que João Semedo põe a questão em forma de pergunta. Por acaso bastante pertinente, pois se o PCP acha que aquela sociedade estava bem e foi a traição de alguns que provocou o seu desmoronamento, então o PCP pode defender para Portugal um modelo semelhante, sem os traidores. Isto é simples, para aqueles que estão de boa fé a travar o debate político. O seu camarada Octávio Teixeira, com outras palavras, questionou-se também sobre os que as Teses dizem sobre o desmoronar da União Soviética. Victor Dias não foi capaz ainda de dar esse passo e provavelmente aproveitou este facto para lembrar ao PCP o que ele inscreveu no seu programa e não o que tem nas suas Teses. Não era necessário era servir-se do João Semedo para dizer isso.

A boçalidade de esquerda também existe, veja-se os comentários de alguns dos seus camaradas, que o menor mimo que têm para João Semedo é de “rachado”, só que estes não têm acesso aos jornais.

23/10/2008

"O Socialismo Traído" resposta a dois posts


Penso que a blogosfera também serve para o confronto de ideias, para a crítica, para o aprofundamento das questões e que não se deve cingir à notícia breve, aos estados de alma ou aos fait-divers comezinhos. Tenho alguma dificuldade em utilizar estes últimos predicados que exigem alguma prática de jornalismo, e deixo-me sempre arrastar pela fluência do "verbo", acabando a fazer longas análises daquilo que provavelmente se resumiria em duas ou três linhas. Por vezes também acaricio o meu ego, falando de mim e criticando os outros, no fundo reduzindo a blogsofera ao meu pequeno universo. Mas encaro-a assim e provavelmente continuarei a usá-la desse modo.
Vem isto a propósito de dois post que irei escrever: um, o presente, sobre duas críticas ao livro o Socialismo Traído, Por trás do colapso da União Soviética, de Roger Keeran e Thomas Kenny, publicadas no blog Hoje Há Conquilhas Amanhã Não Sabemos, e o outro, a seguir, sobre a recensão que o meu amigo Fernando Penim Redondo escreveu sobre a entrevista que Emmanuel Wallerstein concedeu ao jornal Le Monde, já por mim referida, relativa a O capitalismo chega ao fim (Le capitalisme touche à sa fin). Vamos a ver se cumprirei esta última promessa.
Quanto a este post gostaria de chamar a atenção para as duas críticas saídas no blog já referido relativas ao livro acima citado (ver a primeira (26/09/08) aqui e a segunda (22/10/08) aqui).
Já por duas vezes fiz referência àquele livro, quando relatei a minha ida à Festa do Avante! (14/09/08) para aquisição do mesmo, e a propósito de uma entrevista que os seus autores deram ao Avante! (26/09/08). Em qualquer dos casos parece-me que relatei com alguma seriedade as principais questões levantadas logo no início do livro, já que era a única parte que tinha lido, e as posições um pouco esdrúxulas do entrevistador e dos entrevistados sobre o fenómeno iniciado por Khrushchov, da destalinização da URSS.
Que diz o nosso blogger no seu último post (22/10/08), pequeno como convém para quem escreve na bloggosfera e pelo qual começo, por conveniência de estrutura deste post: “Foi o «centralismo democrático» – concebido, inicialmente, para resistir nas condições difíceis do czarismo, permaneceu intocável. De Lenine até Gorbatchov. A democracia interna nos partidos comunistas é, pois, uma treta. Ou melhor, é uma rolha. Qualquer voz discordante é decapitada. O último líder do PCUS no poder apenas usou a rolha para, num ápice, fazer cair o castelo de cartas. Nada mais simples.” Num livro que passa em análise os setenta anos de vida da União Soviética, será esta a única questão que merece ser realçada? Lamento, mas não será reduzir à expressão mais simples, ou seja, à crítica mais fácil, afirmar que “a democracia interna dos partidos comunistas é, pois, uma treta.” Parece-me que havia coisas bem mais interessantes para escrever sobre aquele livro do que isto.
O primeiro post (26/09/08), que dá início a esta série, mais longo, já tenta enquadrar de modo perfeitamente aceitável as principais preocupações do livro e do PCP, sobre cuja responsabilidade foi editado. Depois retira conclusões semelhantes às minhas, e que estão presentes no meu segundo post, a propósito da destalinização iniciada por Khrushchov.
“Ver isto escrito num livro editado pelos comunistas portugueses, em 2008, é estranho. É a repetição das teses dos comunistas chineses, na luta ideológica que mantiveram com os comunistas soviéticos, há 50 anos. Mao Tsétung, na altura, chamou-lhes revisionistas. Os autores de O Socialismo Traído, também. Com as mesmas palavras e os mesmos argumentos. É à luz da reflexão contida neste livro que devem ser revisitadas as posições de Álvaro Cunhal nos anos 60. O líder dos comunistas portugueses, em defesa de Khrushchov, disse e escreveu exactamente o contrário, com a agravante de conhecer as posições dos comunistas chineses.
Afinal, parece que, no plano ideológico, Álvaro Cunhal não acertou uma.
”
Não se depreende do arrazoado do texto porque é que Cunhal não acerta uma. O mais que se poderá dizer é que a actual Direcção do PCP, esquecendo o que no tempo de Cunhal se disse sobre o assunto, vem agora com pezinhos de lã, como eu por diversas vezes já tenho tentado provar, introduzir pela porta do cavalo, como se fossem pontos de vista sempre assumidos por ela, as posições esquerdistas sobre a destalinização e a questão de Estaline.
É evidente, que isto, não tem nada a ver com qualquer idolatria ao "camarada morto", mas porque na altura, já lá vão muitos anos, aderi ao comunismo e depois, posteriormente, ao PCP, devido à crítica ao estalinismo praticada com algum vigor no XXII Congresso do PCUS, que teve lugar em 1961, e sempre apoiada, pelo menos em palavras, pela Direcção de Cunhal, custa-me muito ver o actual PCP vir defender as posições do esquerdismo, que sempre combateu. E ver um blogger que, sem compreender isto, acaba por acusar Cunhal de um pecado que ele, por acaso, não cometeu.

26/09/2008

“O Socialismo Traído”


Pedi aos blogonautas, que nos seus blogs introduziram a pequena imagem referida nos posts anteriores, que nos explicassem a razão desse boneco. Como nenhum esteve para aí virado, tenho de admitir que ou ninguém me lê ou já criei suficiente entropia para não merecer qualquer resposta.
Mas não é sobre isto que venho falar e considero mesmo o assunto arrumado.
Foram publicadas ontem, como anexo ao Avante!, as Teses que a Direcção do PCP irá apresentar no XVIII Congresso daquele Partido. Apesar de alguns as considerarem como "literatura de terror" sou suficientemente masoquista para as tentar ler e dar, em post futuro, a minha opinião. Não me limitarei à notícia que foi publicada ontem no Público, que fala em “traição de dirigentes” como causa da derrota da URSS, tentarei, se para isso tiver forças e entusiasmo, apreciar outros pontos.
Hoje regresso a um dos meus “temas preferidos” que é o livro que foi publicado pelas Edições Avante!, que tem como título o Socialismo Traído. Por trás do colapso da União Soviética. Como se pode concluir pelos termos comuns utilizados as Teses têm uma relação directa com as preocupações manifestadas naquele livro. A terminologia usada nas Teses é mesmo “a traição de altos responsáveis do Partido e do Estado”, e ao contrário do que diz o Público, para quem esteja interessado em consultá-las, esta transcrição não é feita da página 15, mas da 17.
O Avante desta semana traz uma entrevista com os autores daquele livro, Thomas Kenny, economista, e Roger Keeran, historiador, militantes comunistas norte-americanos, bastante elucidativa de como o órgão oficial do PCP encara hoje o fim da União Soviética.
Da entrevista é de realçar, como já o tínhamos feito em artigo anterior a propósito do livro, a existência de duas tendências no PCUS: a de “direita”, “que defendia a incorporação de formas e ideias capitalistas”, e a de “esquerda”, que “apostava na luta de classes, num partido comunista forte e na defesa intransigente das posições da classe operária”, que os autores de forma mistificadora, comparam à linha menchevique e bolchevique existente antes da Revolução de Outubro. No artigo citado, eu já tinha referido quais os protagonistas de cada uma destas linhas. Poderíamos acrescentar a oposição entre Bréjenev e Andropov e Gorbatchov e Ligatchov, não referidas anteriormente. Os primeiros a representarem a direita e os segundos a esquerda.
Quanto aos períodos da história soviética em que cada uma destas linhas foi dominante os autores consideram que houve um primeiro período, nos anos 20, com a NEP, e com Bukharine, que afirmam que “ficou marcado não só pelo florescimento do capitalismo e dos sectores marginais e criminosos, mas também pelo alastramento de uma ideologia de direita, anti-socialista”. O que levado a letra justifica todos os abusos de Estaline ao mandar matar não só o seu principal ideólogo, Bukharine, como todos os aqueles que previamente foram classificados como marginais e criminosos.
Depois, segundo a entrevista, houve um “segundo período, mais prolongado e gradual”, que “teve início em meados dos anos 50, após a morte de Estaline. Khruchov foi a primeira peça deste puzzle.”
Como corolário destas afirmações o entrevistador conclui “praticamente todas as conquistas do socialismo que enumeraram na introdução do livro foram alcançadas em particular durante os anos 30, sob a direcção de Estaline…” e depois noutra pergunta acrescenta “mas se a tese do vosso livro está correcta, então as políticas de Estaline terão sido as mais correctas e as únicas que podiam garantir a construção do socialismo e defender as conquistas revolucionárias.” A que os autores respondem “o ódio a Estaline é tão cego e intenso que alguns críticos do nosso livro dizem que estamos errados e insistem que Estaline foi a causa do colapso da URSS”.
A terminar só gostaria de sublinhar o espantoso destas afirmações de que os ideólogos do PCP não se dão conta. Quando se defende que foi com Khruchov que começou a degenerescência do socialismo na URSS, está-se a retomar a velha tese maoista e “esquerdista” de que aquele político é o responsável pela instauração do capitalismo naquele país. No fundo andámos anos avalizar, com a ajuda de Cunhal, o comportamento da URSS, para virem agora os seus sucessores, como se nada se tivesse dito no passado, a publicarem no Avante! as velhas teses maoista sobre o fim do socialismo na URSS, com a ascensão da linha de direita, que na altura os pró-chineses chamavam revisionista.
A questão de Estaline, que parecia estar morta depois do XX Congresso do PCUS, e as teses maoistas que o pretendiam ressuscitar, e que tinham sido objecto de crítica severa, entram agora pela porta do cavalo, com pezinhos de lã, como se sempre no PCP se tivesse dito isto. É no fundo, como tenho afirmado, o sectarismo esquerdista a prevalecer.
É bom recordar também que nesta entrevista é retomada, sub-repticiamente, a velha tese estalinista que quanto mais o socialismo avança mais se agrava a luta de classes, o que serviu sempre para aquele político reprimir todos os seus opositores.
Não gostaria de terminar sem referir uma nota de rodapé com os dados biográficos de um dos apoiantes de Gorbatchov que foi citado na entrevista, Alekssander Iákovlev, cuja responsabilidade deve ser do entrevistador. Em que depois da descrição de um conjunto de malfeitorias que seriam da sua responsabilidade é dito que “faz publicar uma série de romances de escritores dissidentes e anti-soviéticos, bem como cerca de 30 filmes antes proibidos.” E termina, como justificando este excesso de liberalismo, “em Agosto de 1991 anuncia a decisão de abandonar o PCUS”. Como se não fosse um título de glória para alguém libertar filmes que anteriormente estavam proibidos. Este entrevistador nem sabe como os portugueses que conheceram o fascismo odeiam aqueles que lhes proibiam filmes.

PS.: A imagem que ilustra este post é de Bukharine, que tão vilipendiado é neste livro. Uma pequena homenagem a um dos heróis do movimento comunista. Mandado assassinar legalmente por Estaline.

14/09/2008

A razão da minha ida à Festa do "Avante!"


Passada que foi a agitação da blogosfera provocada pela realização da Festa do Avante! eis que me decido a revelar as razões porque, no Domingo, de fugida, resolvi ir à Festa do Avante!.
Para além de razões familiares, que não são para aqui chamadas, queria comprar um livro publicado pelas Edições Avante!, lançado durante a Festa com a presença dos autores e chamado O Socialismo Traído – Por detrás do colapso da União Soviética, de Roger Keeran e Thomas Kenny. Não estive presente na sua apresentação, que foi Sábado, mas aceito este pequeno relato do sucedido.
Sempre imaginei a venda de livros e discos na Festa como uma realização semelhante a uma que era promovida há muitos anos pelo PCF, que se chamava a Semana do Livro Marxista, onde nunca fui, mas pela descrição dos colóquios lá realizados e pelo aspecto gráfico dos seus cartazes, sempre encheu o meu imaginário de comunista rodeado de livros marxistas. Por isso, sempre encarei a Feira do Livro e do Disco com uma grande frustração. Os livros estavam sempre cheios de pó, todos a monte e, muitas vezes, na tenda onde se promovia a sua venda, havia um calor insuportável, dado que esta funcionava como estufa.
No entanto, no princípio, em que o PCP tinha duas editoras, a Avante! e a Caminho e até uma distribuidora importante, as coisas eram ligeiramente melhores. Havia fundos editoriais, onde se podiam encontrar algumas preciosidades por tuta-e-meia.
Hoje, depois da venda Caminho, a Feira do Livro é um autêntico deserto. Não há fundos editoriais a preços de saldo (pelo menos não vi). Tudo tem um aspecto de ser despejado a eito e não há critério, nem selecção dos livros. Vi lá mesmo um livro fascista sobre o 25 de Abril (25 de Abril – Marxismo e Revolução, da Nova Arrancada), que talvez fosse seleccionado pelo título. E critério e selecção não significam censura. Há anos comprei na Festa esse belo livro de Pierre Daix, Acreditei na Manhã – Um Comunista revela os motivos porque abandonou o Partido, e sempre considerei que era o local certo para o adquirir, apesar de não esperar lá encontrá-lo.
Dito isto, passemos à primeira impressão sobre o livro que adquiri.
O Socialismo Traído pretende justificar a queda da União Soviética dando uma interpretação muito favorável àquela que a actual Direcção do PCP gostaria que fosse: a traição de Gorbatchov e de alguns membros da sua equipa. Simplesmente filia-a numa linha que vem desde Bukharine e Kruchtchov e termina no político já citado. Passando, pasme-se, por Jdanov. A boa, a da classe operária, seria a de Lenine, Estaline e Malenkov.
O capítulo que estou a ler onde estas duas linhas são referidas, localiza-se ainda no princípio do livro, e chama-se Duas tendências na Política Soviética. Retoma, ainda que não o diga, um velho hábito dos manuais de marxismo-leninismo, que era a existência de duas linhas, uma idealista e outra materialista, isto aplicava-se à arte, à filosofia, e neste caso à política, a linha pequeno-burguesa e do campesinato e a da classe operária.
Neste mesmo capítulo é feita a espantosa afirmação que Gorbatchov teria lido a biografia de Bukharine feita pelo historiador norte-americano Stephen F. Cohen. - Livro que eu recomendo vivamente a quem se interessa por estes temas da história da URSS e de que há uma edição brasileira (Cohen, Stephen. Bukharin, uma biografia política”, Paz e Terra, 1990). -Segundo os autores do livro que vimos citando “de acordo com um conselheiro próximo de Gosbatchov, Anatoli Tcherniaev, foi então que Gorbatchov decidiu reabilitar Bukharine, e a reavaliação de Bukharine “abriu as comportas para a reconsideração de toda a nossa ideologia”” (Keeran, R e Kenny, T., O Socialismo Traído, “Avante!”, pag. 29). Depois de assassinado legalmente por Estaline, Bukharine torna-se assim o responsável ideológico pelo fim da URSS.
Mas há mais. Afirma-se a determinada altura “Kruchtchov concentrou-se na alegada (sublinhado meu) repressão de Estaline sobre os líderes do Partido e afirmou que metade dos delegados ao XVII Congresso e 70 % de Comité Central foram mortos. Ken Camaron, biógrafo de Estaline, concluiu que é “difícil acreditar que os números de Kruchtchov estão correctos”. E a seguir, entre parêntesis, afirma-se que “usando os arquivos soviéticos recentemente abertos, os estudiosos (o estudioso citado é unicamente Michael Parenti -JNF) determinaram o número total de execuções de 1921 a 1953 em 799 455, muito abaixo dos milhões estimados por Robert Conquest, Roi Medvedev e outros académicos anti-soviéticos” (idem, pag. 41).
Os autores que avalizaram estas duas afirmações são ambos americanos, com obra publicada. O primeiro contesta um assunto que foi objecto de consenso na própria direcção do PCUS e que vem relatado, num documento universalmente aceite como verdadeiro, que é o Relatório Secreto de Kruschtchov. O segundo levanta a questão dos números de mortos, também debatida a propósito dos nazis, mas que são tão absurdamente grandes, que mais cem mil ou um milhão pouca importância tem em função da barbaridade do acontecido.
Por aqui me fico, esperando dentro em breve fazer uma crítica ao livro em questão. Ficando este cheirinho como forma de despertar o apetite a quem queira debruçar-se sobre a questão do fim da URSS.
PS.: Como as Edições "Avante!" ainda não publicitaram o livro referido, tive que recorrer à fotografia da edição original.

16/04/2008

Leituras de um convalescente – O nazismo e o fim de Hitler

Saí do hospital com uma contratura lombar. Um jeito, ao deslocar-me na cama, no último dia de internamento, fez com que em vez de sair do hospital pelo meu próprio pé tivesse que ser transportado numa cadeira de rodas. Daí resultou que a primeira semana em casa fosse passada deitado na cama, com um saco de água quente nas costas. E, para entreter o tempo, livros à volta. Já não era a primeira vez que isto me sucedia e em qualquer dos casos pude sempre pôr em dia as minhas leituras.
Começar por onde? Por aquele que me pareceu mais simples e mais descritivo. Assim, estriei-me com o livro de António Louçã e de Isabelle Paccaud, O Segredo da Rua do Século, Ligações perigosas de um dirigente judeu com a Alemanha nazi (1935-1939) (Fim de Século, 2007). É a descrição do desmoronar de uma reputação, de alguém acima de qualquer suspeita, que sempre, no entanto, tivera com o fascismo português as melhores relações, mas de quem não se suspeitava até ao momento que tivesse sido condecorado pela Alemanha nazi. Livro bastante interessante, relata inclusivamente o papel que o jornal O Século desempenhou na propaganda daquele regímen entre nós. Estas revelações provocaram alguns engulhos à comunidade judaica portuguesa, que não acredita naquelas ligações e apareceu em força em sua defesa. Quanto a mim não me restam dúvidas. Sempre me recordo o nome do Moses Amzalak como um dos figurões do salazarismo.
Passei em seguida para A Queda, Hitler e o fim do Terceiro Reich, de Joachim Fest (Guerra e Paz, 2007). Em jeito de chamariz a editora acrescenta na sua capa “O livro que deu origem ao Filme”. De facto, este livro juntamente com o depoimento da última secretária de Hitler, Traudl Junge, expresso em Até ao Fim, Um relato verídico da secretária de Hitler (Dinalivro, 2005), que eu já tinha lido, inspiraram o argumento do filme A Queda, Hitler e o fim do Terceiro Reich, do realizador alemão Olivier Hirschbiegel. Este filme tinha provocado em mim um grande impacto na altura em que se estreou, ao ponto de ter comprado o DVD respectivo quando este apareceu à venda e tê-lo visionado quase fotograma a fotograma. Isto porque me impressionou de sobremaneira o universo claustrofóbico em que os dirigentes do III Reich tinham vivido os seus últimos dias, bem como o suicídio dos principais dirigentes nazis, que é amplamente mostrado no filme. Conhecia o caso de Hitler e da sua mulher, de Goering, que não é relatado no filme, e que se verificou durante o julgamento do responsáveis nazis em Nuremberga, provavelmente já teria lido referências ao de Goebbels, mas nunca ao da sua mulher e ao assassinato dos seus cinco filhos e muito menos ao da oficialidade mais responsável, que na parte final do filme, e penso que com veracidade, quase que praticam um suicídio colectivo.
Do livro não me ficou mais do que aquilo que eu sabia do filme. Quem, como eu, tiver a curiosidade de conhecer os últimos dias do nazismo pode de facto ler os dois livros que serviram de inspiração ao filme. Mas penso que seria igualmente interessante contar a história do cadáver de Hitler, ou do que restou dele, e como a sua falsa ausência alimentou durante tanto anos a Guerra-fria. Um trabalho documentado e sério sobre isto exige-se, pelo menos eu não o conheço.
Por último, e integrado neste conjunto de livros li o O Livro de Hitler, (Alethëia, 2006) que de acordo com o que é dito na capa constitui um “Dossier secreto do NKVD, encomendado por Josef W. Estaline, organizado com base no interrogatório feito em Moscovo, entre 1948 e 1949, a Otto Günsche, oficial das SS e responsável pela agenda político-militar de Hitler, e a Heinz Linge, mordomo de Hitler”. O livro tem um prefaciador e dois organizadores. O prefácio é um pequeno compêndio de revisionismo histórico na linha de que Hitler estava bem para Estaline. Cito alguns exemplos, só para recordar aos meus leitores em que consiste esta nova maneira de tratar a história da Segunda da Guerra Mundial. Interroga-se o prefaciador: “o que terá levado ao interesse mútuo entre os líderes das duas mais fanáticas ideologias que, no século XX, precipitaram Europa no abismo?” Ou seja, para este prefaciador, a responsabilidade pela II Guerra Mundial é de Hitler e Estaline, os estados ocidentais nada tiveram a ver com isto. Mas para além de outros mimos, bem mais graves, temos igualmente este: “A vitória militar, que ditava a ofensiva contra a União Soviética, levou-a a aliar-se a Estados Ocidentais com ideologias pelo menos tão opostas como a da Alemanha de Hitler, nomeadamente os Estados Unidos e a Grã-Bretanha”. Ou seja, o prefaciador esquece que em Junho de 1941, quando Hitler invadiu a URSS, os Estados Unidos ainda não tinham entrado na guerra, e que foi Churchill, sozinho a enfrentar o esforço de guerra contra a Alemanha nazi, quem propôs de imediato uma aliança com a URSS.
Não será este o espaço indicado para debater este novo revisionismo histórico, encabeçado hoje pela direita e por alguma esquerda sem referenciais históricos. Quanto ao livro em si é uma história, que engloba os últimos dias do nazismo e de Hitler, redigida para agradar aos soviéticos, já que os narradores estavam prisioneiros daqueles. Não retive na memória nada que merecesse especial destaque.
Em próximo capítulo irei fazer referência a outras leituras sobre temas diferentes.