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21/01/2010

Naquela noite no Cineclube


Estava eu a passar em revista os blogs que consulto diariamente, ou regularmente, quando nos Caminhos da memória dei com um post que se chamava Naquela madrugada de 21 de Janeiro de 1965. Percebi que devia estar relacionado com prisões pela PIDE e cheirava-me, dados os habituais escrevinhadores daquele blog, que teria a ver com a vaga de detenções que assolou o movimento estudantil nos finais de 1964 e nos princípios de 1965. Quem escrevia o post era um amigo meu, dos tempos do liceu Gil Vicente, o Artur Pinto, que apesar de andarmos na altura em faculdades diferentes, mantínhamos amigos comuns e não sei mesmo se não continuávamos alegremente a frequentar o Bairro da Graça onde eu morava e onde o Artur Pinto penso que também morou.
Mas não é para vos falar do Artur Pinto que aqui estou.
O que vos quero contar é que antes dessa vaga de prisões a que se refere o Artur Pinto, e em que estiveram envolvidos, hoje respeitáveis cidadãos deste país, verificou-se a prisão, entre outros, do Mário Neto, estudante na altura do IST e, na última vez que o vi, professor de uma escola superior de Coimbra. Mário Neto era na altura presidente do Cine-Clube Universitário de Lisboa (CCUL) e que, segundo um comunicado que fui desencantar ao armário das recordações, foi preso na noite de do dia 24 Novembro de 1964, cerca das 23 horas. Continua depois o comunicado: “no dia 25, à tarde, dois membros da direcção do CCUL, quando procuravam o Mário Neto em sua casa, foram igualmente presos”, eram o Fernando Costa Gomes, na altura mais conhecido pelo Bobocas, que penso que é um ilustre professor de matemática em algum país perdido da América Latina e o António Melo que, depois de muitos recomeços na vida, era, há uns tempos, editor. Mas, há muito anos que nada sei deles.
Já se sabe que, perante as notícias negras que se foram avolumando durante todo o dia 25, à noite a direcção que restava, em que eu me incluía, mais alguns colaboradores apareceram em força na sede do Cine-Clube. Pelas 22h e 30m a sede foi assaltada pela PIDE. Quem comandava o assalto era, nada menos nada mais, do que o célebre inspector José Gonçalves, o assassino de José Dias Coelho. Só viemos a saber disto mais tarde.
O comunicado, que eu venho citando, continua assim: “a sede do CCUL foi objecto de minuciosa busca por parte dos cinco agentes da PIDE. Na impossibilidade de encontrar qualquer documento incriminatório ou as armas que começaram por nos exigir, que a clareza das actividades do Cine-Clube e o constante controlo das autoridades tornavam evidentemente inadmissível, os autores do saque levaram todo o material de secretaria (incluindo ficheiros, propostas de novos sócios, números de telefone, actas, etc.) …". Depois relatava-se a ida no dia seguinte de alguns membros da Direcção à sede da PIDE saberem informações sobre a “situação em que se encontrava o nosso colega Mário Neto e das razões que justificaram a sua detenção e a busca que a nossa sede tinha sido submetida. Foi-nos respondido que não tínhamos o direito de fazer essas perguntas, que toda a Direcção era suspeita de actividades subversivas e que era do domínio público que a própria actividade do CCUL se subordinava a uma actividade ilegal”.
Terminava o comunicado, convocando uma Assembleia-Geral Extraordinária para o dia 7 de Dezembro de 1964, no IST. Dado os termos em que estava redigida a convocatória, a Assembleia foi proibida pela Direcção do IST. Convocou-se outra para 15 de Dezembro, com palavras mais comedidas, e que se realizou.
Pormenores desse assalto que nunca mais esquecerei. A sede do Cine-Clube situava-se num rés-do-chão pequeníssimo na Rua Francisco Sanches, perto da Praça do Chile e do cinema onde dávamos as sessões, que hoje já não existe, o cinema Imperial. Como o pessoal que já lá estava, mais os cinco agentes da PIDE, a sede ficou rapidamente irrespirável, e os próprios agentes bastante agressivos, já que estavam em clara inferioridade numérica. Identificaram e revistaram todos os presentes, tivemos que justificar todos os papelinhos que tínhamos connosco e elaboraram uma lista com os nossos nomes. No final vim a saber que um colaborador do CCUL, por sinal bastante gordinho e com um ar calmo, que desde que os pides chegaram até ao final não se tinha levantado da cadeira onde estava sentado, tinha passado desapercebido e não tinha sido identificado. Há sempre um episódio pícaro nestas coisas.
Depois de todos identificados um dos agentes foi à rua, penso que para telefonar para a sede da PIDE, com os nossos nomes, o que como hão-de compreender, até ele vir e verificar-se que ninguém ia preso tornou o ambiente ainda mais irrespirável. Houve uma pequena cena com o telefone que existia na sede. Fomos proibidos de telefonar ou receber chamadas. Quando o telefone tocou, um dos presentes, que estava sentado na mesa do telefone mexeu-se e deu-lhe um pequeno toque, foi o suficiente para sermos imediatamente insultados e estarmos à beira, pelo menos o “prevaricador”, de levar algumas chapadas. Depois de confirmarem que não havia ninguém para prender e de nos levarem, o que é sempre o mais importante para uma associação, o ficheiro dos sócios, lá se foram embora. Para experiência bastou.
Durante meses, não sei se anos, ia regularmente uma delegação à sede da PIDE pedir os ficheiros. Havia sempre desculpas para não nos darem. Na última vez a resposta foi tão ameaçadora, dando a entender que quem lá fosse da próxima podia ficar preso, que desistimos de os recuperar. Foi de certeza com as fotografias desses ficheiros que a PIDE pôde elaborar um levantamento de quem era de esquerda nas faculdades. Nós, à custa dos talões de cotas que os nossos cobradores, que eram da Polícia de Segurança Pública, tinham, fomos aos poucos e poucos reconstituindo os ficheiros.
Tempos depois, o nosso senhorio, que tinha alugado a sede em termos irregulares, vem-nos informar, com ar triste e pesaroso, como convém, que tínhamos que sair. Tivemos que ir pedir uma sala à Associação dos Estudantes do Técnico, que segundo me recordo era dirigida pelo Mário Lino, para instalarmos a sede do Cine-Clube, que durante ano, ano e meio, teve lá a as suas instalações.
Penso que, devido à primeira proibição da nossa Assembleia-geral e ao estatuto um pouco ambíguo do CCUL, pois todos os cine-clubes tinham os seus estatutos aprovados pelo Ministério do Interior – nessa altura os estatutos de qualquer colectividade precisavam de aprovação ministerial – enquanto que os do CCUL tinham sido aprovados pelo Ministério da Educação, foi pedida uma entrevista ao Ministro da Educação e lá fui eu mais alguém que não me recordo instalarmo-nos à porta do Secretário, do Secretário do Ministro, há espera dessa entrevista que, como era previsível, nunca veio. O ministério nessa altura era no Campo Santana.
Isto é a história de um tempo triste, em que para se desenvolver qualquer actividade cultural, que não fosse de apoio ao regime, exigia de nós esforços redobrados, fundos próprios e grande espírito de auto-sacrifício. Espero bem que estes tempos não voltem mais.
Fotografia da antiga sede da PIDE, que presentemente se transformou num condomínio privado.

12/09/2008

A memória dos textos


Joana Lopes publicou no seu blog, Entre as Brumas da memória , e em os Caminho da Memória , site mais ou menos afecto ao Movimento Não Apaguem a Memória, um documento que ela chama O grupo dos 16, porque foram 16 o número de militantes da Comissão Democrática Eleitoral (CDE) a assiná-lo, mas que no original tem o título de Porque saímos da CDE. O documento é de Julho de 1973, segundo percebi, e reflecte as razões porque diversos militantes abandonaram aquela Comissão, que antes do 25 de Abril agrupava as principais correntes políticas de oposição ao fascismo (naquela altura PCP e PS).
Por essa época estava eu quase a sair da tropa e não militava na CDE. Estava mesmo politicamente pouco activo. Tinha participado em 1969 numa das estruturas daquela Comissão, mas posteriormente a minha actividade resumiu-se à participação na organização clandestina do PCP para o exército. Recordo que foi o Barros Moura, já falecido, que estava na altura também a cumprir o serviço militar, e que eu não sabia quem era, que entrou em contacto comigo e me levou ao funcionário que era responsável por aquela estrutura na região de Lisboa.
Recordo-me, mas muito vagamente, de alguém ter dito que a Isabel do Carmo e o seu grupo tinham abandonado a CDE. Mas esta recordação é vaga e portanto, pouco precisa.
Mas o que me interessa sublinhar, não são estas memórias desconexas, sobre um tempo que já passou há muito. O importante é o texto do comunicado.
Recentemente publiquei um texto sobre O PCP, a revolução democrática e nacional e o rumo ao socialismo – Algumas contribuições para a caracterização do 25 de Abril (ver aqui e aqui ). Estes posts, que pouca gente leu e não foram discutidos, exceptuando aqui , referiam-se a alguns dos temas abordados naquele comunicado, que estavam relacionados com os objectivos que se pretendiam alcançar com a alteração da situação política em Portugal.
Se virem os três pontos que Joana Lopes transcreveu do comunicado verificam que eles são centrais nas opções políticas então discutidas:
«Não devemos criar a ilusão de que o capitalismo, sem a sua forma fascista, é menos capitalismo, é menos explorador.»
«E que significaria acabar com os monopólios e continuarem os pequenos e médios comerciantes e industriais? Como patrões que são, como burguesia que são, instalar-se-iam no poder e transformariam a sociedade a seu modo. E apesar de serem pequenos ou médios exploram menos, pagam melhor? Que diferença sente um trabalhador ao ser explorado por um pequeno, um médio ou um grande burguês?»
«Mas pôr como objectivo as liberdades – de expressão, de associação sindical, etc. – é pôr como objectivo uma sociedade democrática burguesa onde não pareceria haver censura, onde as pessoas se poderiam reunir e organizar “livremente”, onde os trabalhadores teriam sindicatos para defenderem os seus interesses, mas onde tudo se passaria com o capitalismo no poder.»
O que é que se criticava no comunicado? A unidade antifascista proposta pela CDE opondo-a à unidade pelo socialismo; a luta antimonopolistas em contraposição à luta anticapitalista – é espantoso que ainda no discurso de encerramento da Festa do Avante, Jerónimo de Sousa faça referência aos “interesses e aspirações de todas as classes e camadas sociais antimonopolistas” –; e a defesa da democracia burguesa em vez da “democracia” não capitalista.
Depois de resumir abreviadamente estas divergências entre os que ficaram e os que saíram, gostaria de tirar duas conclusões. Primeira, são os objectivos definidos pela CDE, que era nitidamente influenciada pelo PCP, e criticados no comunicado, que tornam depois difícil explicar, porque é que alguns ainda continuam a insistir que o PCP pretendia no pós-25 de Abril implantar o socialismo em Portugal, através de uma ruptura revolucionária, que instaurasse, como fez Lenine na Rússia, a ditadura do proletariado. Uma das alterações que o PCP introduziu nos seus estatutos aprovado no primeiro Congresso que realizou depois da Revolução dos Cravos foi a eliminação, quanto a mim justificada, do termo “ditadura do proletariado”. Por isso quando hoje o PCP se diz herdeiro da tradição leninista e acusa outras forças políticas de reformismo e eleitoralismo (ver o recente artigo de José Manuel Jara, no Avante! ), devia ter cuidado e reler os seus textos ainda recentes.
Segunda, quando hoje a maioria dos herdeiros dos “revolucionários” dessa época aparecem a criticar o anquilosamento actual do PCP, a defesa que faz das ditaduras de esquerda, etc., etc., que sendo fundadas, esquecem que, de um modo geral, as propostas que apresentaram no passado eram bem mais “perigosas”, do ponto de vista do normal funcionamento das instituições democráticas, do que aquelas que o PCP hoje propõe. Por isso, como todos temos telhados de vidro, era bom que tivéssemos mais pudor nas apreciações que fazemos uns aos outros.

01/07/2008

Caminhos da Memória


Foi criado, no dia 15 de Junho, um novo blog, chama-se Caminhos da Memória. Segundo o editorial é feito por amigos da Associação Não Apaguem a Memória, mas não é o órgão oficioso da mesma, ou seja, como eles afirmam, as suas opiniões não comprometem aquela Associação.
O blog está bem feito, é sério, no sentido das opiniões expressas, não serem “engraçadinhas”, nem provocadoras, e percebe-se ao que vêm e o que querem.
Digo isto, porque hoje muitos blogs são escritos para os amigos, que antecipadamente já conhecem as graças de cada um. São muitas vezes redigidos com os pés, pois não se percebe o querem dizer, ou então estão cheios de provocações, dirigidas aos seus inimigos declarados. Eu que gosto das coisas bem explicadinhas, por isso escrevo grandes laudas, e que me irritam as “private jokes”, sou portanto apoiante deste blog.
Sei que haverá algumas opiniões com que não concordarei, mas como penso que a informação é sempre útil, e este blog é essencialmente informativo, parece-me pois que encontrarei nele ampla matéria para me reavivar a memória.
Um abraço aos blogonautas e que tenham muitos leitores.