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04/09/2011

Alguma conta-corrente e as boas almas e o caso Líbio

Mais uma vez venho-me penitenciar junto dos meus leitores do atraso na actualização deste blog. Razões de saúde, sempre as mesmas, são uma das causas, mas também aquilo a que eu chamei anteriormente a errância estival. Desta vez, mais uma semana na Manta Rota, agora com neto e filha e os anos desta. O computador tal como foi, assim regressou, nem o abri. Mas, no fundo, uma enorme preguiça de escrever qualquer coisa que se visse.

O meu amigo Fernando Penim Redondo perguntou-me, em comentário apenso a um post anterior, se eu já tinha visto o Passos Coelho na Manta Rota. Respondi-lhe, com alguma sobranceria, que como ia pouco à praia ainda não o tinha lobrigado. De facto, não lhe tinha posto os olhos em cima, mas desta vez quando regressei à praia, a presença de Passos Coelho era motivo de todas as conversas. Só agora percebo porque em dado dia, nos inícios de Agosto, eu tinha visto um grupo de GNR numa rua perto da minha casa e um carro da mesma estacionado durante todo o dia. Na altura fiquei espantado. Disse para a Ana, lembrando recordações antigas, “a tropa repressiva já cá está”. Fui admoestado: então os rapazes não estavam ali a proteger os nossos bens. Só agora percebi que a sua presença não era por nós, mas devido às férias do primeiro-ministro. Há muito que a GNR deixara de aparecer para controlar o trânsito nos dias mais complicados. Depois disseram-me que no talho do mercado havia uma página de um jornal, com Passos Coelho e a mulher a andarem na Manta Rota. Como não quis dar a alegria ao açougueiro, que pelos vistos fornece a carne ao Primeiro-ministro (ver aqui), de estar a olhar com atenção para o recorte, nem percebi que jornal era, qual era a notícia, nem vi bem a fotografia. Disseram-me também, mas não pude confirmar, que no Expresso vinha uma fotografia com ele a sair do Algartalhos, um dos supermercados da praia, com a informação, extremamente relevante, que era o segundo ano consecutivo que usava as mesmas havaianas. Aqui resumo tudo o que sei da estadia de Passos Coelho na Manta Rota.

E saber que esta praia já teve fama de ser de esquerda, quando o Carlos Carvalhas vinha para cá, mas não só. Mas isso são contas de outro rosário, que ainda um dia vos hei-de contar.

Outro meu amigo, o Brissos, num comentário ao meu último post, informou-me através de uma notícia no seu blog que o Vítor Dias, tinha ficado sem acesso ao seu Tempo das Cerejas. Porque eu uma vez passei por uma situação que me pareceu semelhante, e achei que era das coisas mais horríveis que pode acontecer a um blogger, por isso, logo de seguida, acrescentei na Lista dos blogs que consulto quase diariamente o novo endereço do Tempo das Cerejas 2. Para que fique registado.



Escrevi no início dos acontecimentos na Líbia e da posterior intervenção da NATO dois posts onde dava endereços de sites que, de forma por vezes contraditória, apreciavam o caso Líbio (ver aqui  e aqui). Escrevi no último que as boas almas, para evitarem um suposto massacre pelas tropas do coronel Khadafi, apoiaram e até incentivaram a intervenção aérea da NATO neste país. Fiquei quase seis meses calado à espera do que aquilo iria dar. Hoje, sem a preocupação de vos fornecer novos sites ou informação recente só vos quero remeter para algumas notícias avulsas. Ouvi, penso que na televisão, que a NATO iria continuar os bombardeamentos em Sirte, para ver se população daquela cidade aceitava a rendição proposta pelo Conselho Nacional de Transição (CNT). Espantosa notícia, as boas almas acreditavam piamente que a autorização das Nações Unidas era para proteger a população civil dos bombardeamentos do coronel Khadafi. Afinal agora já são para obrigar as populações civis a se renderem. Como é previsível tudo isto foi uma grande mistificação com a colaboração activa de algumas boas almas.

Rui Tavares, em crónica assinada no Público (ver aqui), congratulava-se por o CNT não ter autorizado a instalação de bases na Líbia. Santa ingenuidade, eles já lá estão. A TOTAL francesa já assinou um contrato principesco para o petróleo líbio e a empresa italiana vai já a caminho.

Sobre isto não quero dizer mais nada, remetia-vos para o brilhante comentário, sem link, de Domingos Lopes, no Público de quinta-feira passada, O que era e o que vai ser a Líbia? Depois de desmascarar todos os horrores e disparates do coronel Khadafi, termina a fazer perguntas muito pertinentes sobre o que foi a intervenção da NATO e o que vai ser a Líbia.



PS.: Como não quero passar por mentiroso, tive no final o cuidado de ir confirmar no Google se as notícias que dava eram verdadeiras. O açougueiro a fornecer carne ao Primeiro-ministro é confirmada ainda no texto por um link para uma reportagem da TVI. O jornal de onde foi tirada o recorte é o Correio da Manhã, e a fotografia é dele e da mulher a virem do mercado com compras. A notícia do Expresso existiu e vem aqui 

16/08/2008

Reflexões melancólicas de um blogonauta – Ainda o caso do Manta Beach Club


Depois de uma semana de paralisia provocada pelo meu tradicional lumbago e pela procura de um novo servidor da Internet, visto que aquele que tinha contratado estava-me a sair demasiado caro, dei conta que um conjunto anormal de comentários tinham sido inserido ao meu último post sobre um problema local, a instalação em pleno areal da praia da Manta Rota de uma discoteca extremamente barulhenta. Esta tinha sido financiada pela Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, a cujo concelho pertence aquela praia.
Tirando duas respostas minhas, tinha nada mais, nada menos, do que 13 comentários, uma fartura.
Andei eu a escrever prosa, que considero "interessantíssima", sobre os momentosos assuntos políticos da actualidade que não mereceram qualquer comentário dos internautas e um post, a que não dei grande importância, recebe uma chuva de comentários. Daí a melancolia de um blogonauta que se considera injustiçado pelos seus leitores.
Depois destas considerações iniciais, que dão sempre um cunho pessoal a um blog, que alguns consideram deveria ser só de intervenção cívica, vamos ao que interessa e actualizemos as notícias referentes a este “importantíssimo” problema local que é o Manta Beach Club.
As notícias pelos vistos começaram a chegar aos jornais. Uma vi eu na Visão, Insónia na Manta Rota, mas parece que houve cartas de leitores no Correio da Manhã, Jornal de Notícias e Diário de Notícias. Um jornal on-line do barlavento algarvio dedica-lhe várias notícias, sempre, no entanto, com um cunho apaziguador, dizendo que o som foi controlado e já está bastante mais baixo. O que é verdade, mas pelas por razões que me parecem prender-se mais com regime de ventos do que com uma diminuição significativa do volume de som. Considerando que houve de facto fiscalização, em algumas das noites o incómodo era mesmo assim evidente.
No entanto, nesta guerra entre os banhistas/moradores da Manta Rota e a referida discoteca houve um facto que se veio intrometer, desviando as atenções e pondo em causa a fiscalização que deveria ser efectiva.
No noite de quinta para sexta-feira da semana passada, ou seja de 7 para 8 de Agosto, parece que um grupo de agentes da Brigada de Fiscalização da GNR, que não estavam ao serviço, se envolveram em desacatos com os seguranças da discoteca, tendo um dos GNR recebido uns pontos na cabeça e o responsável camarário pela empresa que gere aquele espaço levado mesmo um soco.
No dia seguinte a Brigada de Fiscalização da GNR, mais outros organismos do Estado com idênticas funções, apareceram na discoteca e durante duas horas passaram a pente fino as diversas actividades desenvolvidas pela mesma. Este episódio deu para a Câmara retorquir, afirmando que pondera pôr em tribunal os GRN responsáveis pelos desacatos e mesmo a própria actividade de fiscalização que considera que procedeu com excessivo zelo. Ver aqui , aqui e aqui .
Na Antena 1 ouvi num comentário, antes do noticiário das sete da tarde, que advogava, na brincadeira, que deveria haver um período de nojo entre os desacatos que envolvessem indivíduos responsáveis pelas fiscalizações e os empregados das entidades fiscalizadas e a realização das respectivas fiscalizações, porque senão daria a ideia que havia retaliação pelo sucedido.
No fundo, o que isto denota é como um fait-divers, que nada tem a ver com o problema central que no traz aqui, o ruído excessivo, consegue desviar as atenções das malfeitorias da discoteca, transformando os donos desta de carrascos em vítimas. Penso que para nossa desgraça, quem devia ir a tribunal eram os responsáveis camarários por tão nefasto empreendimento, e não a Brigada de Fiscalização, nem os GNR considerados desordeiros. Não será tudo isto obra de bruxaria da Maya.
PS.: depois do êxito do post anterior, das frequentes notícias sobre a barulheira do Manta Beach Club e da inspecção das entidades oficiais, a verdade é que o barulho amainou. Há uma série de noites que não se houve nada, seja pelo regímen de ventos, que constantemente estão a soprar do Norte, seja por haver ordens para baixar o som, o certo é que as coisas melhoraram significativamente. Portanto, aquele meu post deixa, em parte, de ter razão de ser, tendo cumprido assim uma das suas finalidades, que era a de protestar. Levantam-se, no entanto, algumas interrogações. A primeira é ser a própria Câmara Municipal a promover empreendimentos deste tipo. A segunda é o local escolhido, em Área Protegida, mesmo ao pé da duna, facilitando por isso o seu pisoteio e perturbando provavelmente a fauna do frágil ecossistema dunar. Mas isso fica para outra oportunidade. Agora louvemos o sossego alcançado.

05/08/2008

Manta Beach Club, um caso errado de investimento autárquico


Penso que um blog não se destina só à luta ideológica serve também para denúncia de injustiças, atropelos à lei, casos de corrupção ou atitudes de prepotência das autoridades.
Neste caso a história é simples, mas ilustrativa do que é a situação de nepotismo do poder local, com a completa complacência das autoridades policiais, que deviam preservar o interesse de todos, mas que no fundo são tolerantes com quem manifestamente desrespeita a lei porque mexe lá por cima os cordelinhos.
A história conta-se em três penadas.
A praia da Manta Rota é uma das melhores do Sotavento algarvio. As sua águas são cálidas, o declive para entrar na água é muito suave, o que permite a sua utilização por crianças, o areal é imenso e, ao contrário da maioria das praias situadas nas ilhas barreira, que protegem a costa do Sotavento algarvio e que fazem parte do Parque Natural da Ria Formosa, esta tem acesso directo por carro, não necessitando de se atravessar de barco os braços da ria para se chegar à praia.
Há mais de sessenta anos que a frequento. Foi através dela que fui conhecendo a evolução do Algarve. De praia de pescadores e camponeses, com meia dúzia de veraneantes - sem luz, sem água canalizada nem saneamento básico, onde se chegava no Verão por charrete semelhante às do Far-West, a partir da estação de caminhos-de-ferro de Vila Nova de Cacela - até um vilarejo completamente descaracterizado, cheio de urbanizações turísticas, mas agora já apetrechado com as características da modernidade: luz, água e esgotos, supermercados, quiosques de venda de jornais e revistas e caixas Multibanco.
Presentemente, depois das obras patrocinadas pelo programa Polis (ver fotografia), o acesso à praia passou-se a fazer por passadiços aéreos para não deteriorar as dunas nem a sua vegetação, foram construídos amplos parques de estacionamento, onde já não nos enchemos de poeira como sucedia antigamente, há parques infantis para a pequenada e um amplo espaço central pavimentado e iluminado, interdito a carros, onde à noite se pode apanhar fresco, conversar, andar de bicicleta ou de patins. É a nova Manta Rota, como dizem os habitantes locais.
Já se sabe que não há bela sem senão: foi autorizada a construção de um restaurante em madeira, o que está correcto, mas que quebra completamente a vista sobre o mar.
Mas depois deste novo ordenamento da praia, o que se louva, logo alguém pensou que praia sem discoteca de luxo, cheia de gente VIP, não era praia que se apresentasse e então vá de montar, junto ao parque de estacionamento de automóveis localizado no lado direito de quem desce para o mar, em terrenos pertencentes ao Parque Natural da Ria Formosa, o Manta Beach Club. Ou seja, completada a obra havia que empinocá-la.
Para mim tudo bem, não penso frequentar tal espaço, nem roçar-me pelos VIP deste mundo. Mas eis que chega Sábado, dia 2 de Agosto, o barulho da mesma invade toda a Manta Rota. Tentei começar a dormir ao som de música de discoteca, não consegui, e às quatro horas da manhã, já desesperado, telefonei para a GNR local a protestar contra o ruído. A resposta que obtive foi de que nada podiam fazer, a discoteca estava licenciada pela Câmara e estava autorizada a fazer barulho e as forças policiais nem sequer tinham aparelhos para medir o ruído. Depois falei com outras pessoas que tinham ido protestar directamente junto de um carro da GNR que estava parado perto da discoteca, que obtiveram respostas semelhantes, agora com a insinuação de que haveria pressões superiores para se fechar os olhos. O próprio vereador da Câmara de Vila Real de Santo António que tinha assinado a autorização estaria presente, dizia-se. Maya, a vidente, que na estação pública de televisão realiza espectáculos de bruxaria, seria uma das principais responsáveis.
Pensei logo em corrupção: vereador recebe um tanto para deixar passar discoteca barulhenta. Tudo se conjugava: capitais sem nome, para obterem lucro, corrompiam vereador da Câmara e em conjunto com alguém do jet-set promoviam discoteca de luxo junto dos VIP deste país, não se importando com o sossego de quem queria passar umas férias descansadas na Manta Rota.
Mas afinal nada disto é verdade, a minha veia anti-capitalista não se pôde concretizar. Foi a própria Câmara, por intermédio de uma empresa municipal, a Sociedade de Gestão Urbana, que investiu 200 mil euros na montagem da discoteca, com mais outros 200 mil dos privados, e contratou Maya para gerir a parte VIP do empreendimento. Não contentes com isto, acrescentavam às notícias que aquela era uma discoteca “ecológica”, já que era possível montá-la e desmontá-la completamente.
Garanto-vos que quase não queria acreditar. Quando me disseram isto pela primeira vez, disse à pessoa em questão que andava a ouvir muito as vozes da oposição à actual vereação. Depois apresentaram-me argumentos de peso. Por último, fui ver à Internet. Era verdade.
Resumindo, a Câmara ou a empresa municipal vocacionada para estas coisas achou que a melhor maneira de lançar a Manta Rota no circuito das praias in era apoiar a criação de uma discoteca VIP. Esquece a Câmara, primeiro, que não pode ir contra o sossego dos veraneantes, segundo, que as características da Manta Rota sempre foram muito diferentes de uma praia da moda. É uma praia de famílias com filhos pequenos, pacata, que podendo ser uma “seca” para os adolescentes e para alguns jovens adultos à procura de emoções fortes, corresponde muito bem aos anseios dos seus veraneantes, não precisando de uma discoteca para se desenvolver, que é sempre o objectivo dos autarcas.
Não pode a Câmara permitir níveis de ruído inadmissíveis. Há regras na lei que impedem de certeza, mesmo com autorização camarária, que o nível de ruído ultrapasse um determinado valor e as autoridades são obrigadas a fiscalizar e a fazer cumprir essas determinações. Não podemos viver numa selva em que, por determinado empreendimento estar autorizado, é possível fechar os olhos, tornando insuportável a vida dos outros.
Quanto à discoteca “ecológica” é pura mistificação. Esquecem-se que o ruído produzido há-de necessariamente perturbar a fauna daquele frágil ecossistema que integra um Parque Natural e que um acréscimo de população há-de acarretar um maior pisoteio da zona dunar.
No fundo, isto é a história de como uma Câmara, na ânsia de agradar às populações suas votantes e para fazer progredir uma terra, consegue transformar uma acção que pretendia ser meritória num pesadelo ou transformar umas férias repousantes num inferno.
PS.: O êxito deste post continua. Já provavelmente o Manta Beach Club encerrou e ainda há anónimos a escreverem comentários sobre o tema. No post a seguir, em que prestava mais informação, acrescentei um PS em que afirmava que o barulho já era inexistente ou não incomodava. Por isso, para além de algumas questões de fundo, que acho não ser oportuno discutir neste blog, que nada tem a ver com questões de política local, o objectivo primeiro do meu post estava alcançado, era eu e a maioria dos veraneantes terem sossego para poderem dormir descansados o resto das suas férias. Por isso, dou por encerrada a polémica. Tenho muito gosto que continuem a dirimir no meu blog os vossos argumentos sobre se aquele post devia ter sido publicado, que tipo de turista é o seu autor, ou se o Manta é bom ou mau para o desenvolvimento local. No entanto, não esperem que vos dê resposta. Por mim o assunto está encerrado. Esperemos pelo próximo ano (03/09/08).