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05/02/2012

A TDT, um roubo aos telespectadores mais desprotegidos

No dia 1, quando me preparava para comprar uma televisão, por outras razões que nada tinham a ver com o apagão analógico que se verificou nesse dia na região de Lisboa e no Barlavento algarvio, entrou pela loja dentro uma mulher esbaforida porque tinha ficado nesse dia sem ver televisão. O aparelho tinha sido adquirido naquele estabelecimento há dois dias. Um empregado, com alguma paciência, foi-lhe dizendo que talvez ela não tivesse os canais bem sintonizados ou que a antena não estivesse direccionada devidamente. Vim-me embora e nesse mesmo dia telefona um familiar da minha mulher a dizer-lhe que uma tia, já com noventa anos, tinha ficado sem ver televisão e que ele já tinha providenciado a instalação do Meo, porque o técnico que arranja as antenas demoraria quinze dias a ir lá, coisa incomportável para uma senhora daquela idade, que o único entretém que tem é ver televisão. A minha mulher achou que era um desperdício de dinheiro fazer uma assinatura do Meo para uma pessoa que toda a sua vida se tinha habituado a ver unicamente quatro canais e não queria mais do que isso. Parece que se arranjou um técnico que foi mais rapidamente a sua casa. É bom que se esclareça que a televisão era nova, porque a anterior já não tinha possibilidades, de acordo com as informações prestadas no anúncio da RTP, de se lhe adaptar um descodificador.

Toda esta prosa tem unicamente a finalidade de vos garantir por experiências vividas por mim o que tem sido o apagão analógico na região de Lisboa, pior com certeza será no Algarve serrano, como os jornais já têm noticiado.

Para todos aqueles que têm televisão paga e mais uma série de serviços a ela acoplados é difícil perceber o que esta passagem para o digital custou às pessoas de menores recursos económicos. Porque não foi só o gasto com o descodificador, foi quase sempre a necessidade de orientar de novo as antenas ou fazer uma nova sintonização, isto para não falar dos casos do interior do país onde a transferência do analógico para o digital deixou as famílias sem televisão, obrigando-as a montar uma antena parabólica.

E qual foi a vantagem obtida pelas pessoas? Uma melhor imagem? Mas que é que isso interessa. Eu quase que tenho a certeza de que essa não era a preocupação dominante. Mais canais para ver gratuitamente? Nem pensar, porque isso era o negócio da TV por cabo. Ficou-se com os mesmos quatro canais, entregou-se a instalação do digital ao inimigo, ou seja à PT, que estava interessada em aumentar o número de assinaturas,  favoreceu-se o negócio das lojas de electrodomésticos e dos técnicos de televisão e obrigou-se as pessoas a gastar muito mais dinheiro do que aquele que era propagandeado.

Os telespectadores mais afectados foram os mais desfavorecidos, principalmente os idosos, porque eram aqueles que viam a televisão tradicional e têm dificuldade de em poucos dias despender as importâncias que são exigidas pela mudança de sinal. E mais, são aqueles que dificilmente compreenderão o que tecnicamente se está a passar e poderem rapidamente arranjar as melhores soluções para os problemas que são levantados pelo apagão. Mesmo o recurso ao apoio aos mais necessitados, tão propagandeado, deve exigir uma burocracia imensa e não cobre todas as despesas.

Já agora, queria recordar que não há muito tempo se deu a transferência para o gás da cidade, quem pagou os seus custos foi a companhia responsável por essa mudança. Ainda ganhei um fogão novo. Mas, recordo-me, que na minha infância, quando se passou da rede de 110 V para a rede de 220 V, foi a companhia de electricidade que igualmente aguentou com os custos. É evidente que em qualquer destes casos as companhias queriam manter a fidelidade dos seus consumidores, enquanto aqui, como a televisão é de graça, já que não há taxa explícita, foram os telespectadores que pagaram. Mais um roubo aos utentes do serviço de TV.

PS.: (08/02/11). A adaptação da antena do prédio onde morava a tia da minha mulher à TDT custou ao condomínio a bonita soma de 500,00 €. Por aqui se vê como é uma fraude dizer-se que só basta comprar o adaptador. É necessário, por vezes, adquirir uma televisão nova, como neste caso, o adaptador e reorientar a antena que, muitas vezes, por estar velha, precisa de peças novas. É isto que o contribuinte tem que pagar.

22/12/2011

O pluralismo na televisão (ou a ausência dele)

Ontem depois do ver o Telejornal da RTP, cerca das nove horas da noite, mudei de canal porque o programa seguinte era uma reportagem sobre a reacção de ex-soldados, na acualidade, às mensagens que  anteriormente tinham enviado, durante a Guerra Colonial, para os seus familiares que estavam na Metrópole e que terminavam invariavelmente com o “adeus, até ao meu regresso”. Pensei que era um programa revivalista das grandezas do Império e da sua perda. Não se falava em Guerra Colonial, mas do Ultramar.

Passei então para a SIC Notícias onde, no Jornal das Nove, pontifica o Mário Crespo. Depois de umas curtas notícias há sempre um convidado. Ontem era a Zita Seabra para falar do Querido Líder que tinha acabado de falecer na Coreia do Norte. Pelo que depois percebi falou de vários países do “socialismo real”. No dia anterior tinha sido convidado o professor de Economia, Cantiga Esteves, que propunha, nada menos, que se festejasse os quarenta anos do último orçamento em que tinha havido um equilíbrio das contas, ou seja, um dos últimos orçamentos de antes do 25 de Abril. Mas o convidado mais catita foi o patrão dos patrões ter ido àquele canal comentar a Greve Geral. Aqui está um rapaz que se insurgiu com o controlo da televisão feito pelo Sócrates e que tão pluralista é no seu programa.

Incomodado com aquela súbita aparição de um fantasma do passado, passei para a TVI 24 Horas, que neste momento tem fama de ser mais à esquerda do que a SIC Notícias. Quem comentava os últimos seis meses do Governo de Passos Coelho era Helena Matos, uma menina provocadora e reaccionária, que é contratada para desempenhar o papel que se espera que faça.

Mais uma vez incomodado, passei para a RTP Informação, estava um senhor, de seu nome Manuel Teixeira, que eu desconheço quem seja, que garantia, de forma atabalhoada, que o aumento das taxas moderadores no SNS era uma medida indispensável.

Desesperado voltei à reportagem. Puxava à lágrima, como era evidente. Quarenta e tal anos depois mostrar a alguém as suas imagens de quando era jovem é sempre comovente, ainda para mais, como nessa altura não havia gravadores de vídeo, os próprios nunca as tinham visto, só os seus familiares. No entanto, não talvez inocentemente, foi mostrado um grupo de soldados em que o sargento, provavelmente miliciano, cantava uma canção de Adriano Correia de Oliveira. Isto só mostra como o regime já não conseguia controlar os seus militares que, em pleno teatro de guerra, cantavam canções de quem a combatia. Faz-me lembrar uma história que o meu amigo Fernando Penim Redondo, do DOTeCOMe, costuma contar que, em plena guerra na Guiné, os soldados festejaram com grande alegria a morte de Salazar.

O regime estava já morto, mas agora querem-no fazer ressuscitar. O pluralismo na televisão é o que se vê, apesar da aparência democrática, anda tudo afinado pelo mesmo diapasão.