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26/11/2010

Algumas conclusões políticas para a esquerda da Manifestação anti-NATO e da Greve Geral


Hoje, na sociedade portuguesa, verifica-se um claro fenómeno de crise social, com a pauperização das classes trabalhadoras, de crise económica, com a destruição da indústria produtiva, e política, com a incapacidade do principal partido do Parlamento de governar. Este facto tem acarretado uma crescente radicalização à esquerda. Acresce ainda o clima social vivido em alguns países da EU, tais como a Grécia, a França e a Grã-Bretanha, que tem alimentado o imaginário de certa esquerda. É pois neste clima que se movem os principais actores da esquerda.

Tendo em atenção este facto, torna-se impossível os principais partidos à esquerda do PS poderem contemporizar com este, principalmente com o seu Governo e com o seu chefe incontestado, José Sócrates. O PS pela política defendida e pelas propostas de Orçamento e de PECs apresentadas tem-se vindo a isolar cada vez mais da sua esquerda, praticando uma clara política de colaboração com a direita. Apesar de algumas vozes, que não chegam aos céus dos media, virem regularmente apelar para que se faça mais um esforço de diálogo entre o PS e as forças à sua esquerda, nunca isso esteve tão distante. Daí as dificuldades que a candidatura de Alegre enfrenta.

Como têm o Bloco e o PCP reagido a esta situação? O Bloco apresentando-se cada vez mais como um partido da esquerda não conciliadora, tentando sempre apresentar alternativas que forcem a sociedade portuguesa a evoluir para a esquerda. Há muito que ficaram para trás as causas fracturantes, que facilmente foram recuperadas pelo PS, e se virou para as preocupações sociais e do desenvolvimento económico. Recorrendo a certos chavões da gíria política, tornou-se um partido responsável, reformista e integrado no sistema, apesar de recusar, e bem, qualquer colaboração com o PS chefiado por Sócrates, mas apoiando um candidato da ala esquerda daquele partido, que em tempo oportuno soube dialogar com ele.

O PCP, seguindo na prática uma política semelhante, utiliza na sua definição ideológica e no seu convívio com as demais forças políticas um acentuado sectarismo e esquerdismo verbal, que o arrastam permanentemente para o isolamento, que de um modo geral é procurado, e que no campo internacional o levam a defender as coisas mais indefensáveis. Dai a apresentação de um candidato próprio à presidência da República, sem carisma e sem qualquer relevância política, a não ser dentro do seu partido. Deste facto resulta que na prática as votações do Bloco e do PCP sejam semelhantes na Assembleia da República, mas que depois na vida real não haja quaisquer consequências unitárias ou de acção comum, excepto aquelas que se desenvolvem no âmbito sindical, mesmo aí depois de muitas negociações e de pequenas escaramuças.

A radicalização da sociedade portuguesa acarretou o aparecimento, cada vez com maior visibilidade, do velho esquerdismo, sempre latente desde os anos 60 e 70 na sociedade portuguesa. Hoje simplesmente ele manifesta-se de maneira diferente. Não temos partidos a reivindicarem-se do passado do PCP, mesmo a tentar refundá-lo ou a criar um novo. Temos jovens anarquistas a lutarem contra o sistema ou alguns esquerdistas a assumirem que a luta é contra o capitalismo e não pela sua reforma. Mas temos também, e não tínhamos, ecologistas, mais ou menos radicais, ou apologistas de um viver alternativo à actual sociedade capitalista. Não sendo iguais, conservam igual radicalidade dos tempos antigos. E a crise social e económica do capitalismo tem os vindo a alimentar e a fazer progredir. Em que é que isto se reflecte nas relações destes grupos com os partidos de esquerda com representação parlamentar? Em primeiro lugar, o afastamento de alguma desta gente, os anarquistas nunca lá estiveram, do Bloco. Em segundo, uma recusa total em apoiar Manuel Alegre, o candidato também de Sócrates, como dizem. Em terceiro, uma certa aproximação ao PCP, com a esperança nunca verificada, de que este partido apoiasse um candidato unitário não comprometido com o PS, ou que, dado o seu esquerdismo verbal, os viesse a secundar na sua crescente radicalização social e política.

Em que é que as últimas lutas: manifestação anti-NATO e da Greve Geral, alteraram esta situação? Um maior afastamento dos movimentos radicais do Bloco, considerado um partido do sistema, ao aceitar integrar a parte da frente da manifestação anti-NATO e ao distanciar-se dos grupos que integravam a PAGAN, outra das plataformas que se propunha lutar contra a cimeira daquela organização militar, apesar de alguns dos seus aderentes continuarem a participar nela. E de não terem defendido uma manifestação no final da Greve Geral e terem-se ficado por um espectáculo de variedades na Praça da Figueira. Mas acima de tudo, e anterior àqueles factos, por ser um partido que concentra grande parte de sua actuação no Parlamento e apoia Manuel Alegre.
Em relação ao PCP, apesar de nunca terem morrido de amores pelos comunistas, achavam que teriam alguns pontos em comum. Rapidamente, na manifestação anti-NATO, verificaram o que é a acção trauliteira e sectária do PCP e é vê-los na net a desenterrar todo o conjunto de adjectivos que os seus pais espirituais de há cerca de quarenta anos despejavam sobre aquele partido. Por último organizaram uma manifestação anti-capitalista no dia Greve Geral, que garantem que foi um êxito, seguida de ocupação de uma casa da Câmara que estava devoluta . Tudo acções que não contaram com o apoio da CGTP e por tabela do PCP. A defesa do Francisco Lopes, como candidato à Presidência da República pelo PCP, também não tem contribuído para a sua aproximação àquele partido.

A esquerda está hoje profundamente dividida. Verifica-se de facto uma crescente esquerdização de sectores minoritários da sociedade portuguesa. Espero, no entanto, que isto seja o sinal de que alguma coisa está a mudar, que a correlação de forças será diferente no futuro e que possamos um dia ter a esperança de ter uma “esquerda grande” a governar este país.

22/09/2010

Presidenciais II


O último post que escrevi sobre este assunto, pretendia, sob a forma de comentário a um artigo que Cipriano Justo, da Renovação Comunista, tinha escrito para o Público, alertar para que o candidato do PCP não iria ser um factor de convergência da esquerda para derrotar a direita, mas sim, como resultado do sectarismo e do bloqueio do PCP, poder considerar-se como o único candidato verdadeiramente de esquerda e não comprometido com o PS e por isso incapaz de qualquer compromisso ou desistência para com o outro candidato da esquerda, Manuel Alegre, o melhor colocado para derrotar o da direita.
Sem ter obtido qualquer comentário, fui lendo em alguns blogs (ver aqui e aqui) que a personagem era tão ignorada dos votantes como dos próprios militantes do PCP, ou tão risível, que a sua cadidatura corresponderia a uma táctica de valorização de Manuel Alegre. Não estou de modo algum de acordo com isto e penso, por aquilo que já foi declarado pelo candidato do PCP, se Manuel Alegre não aparecerá também como um dos seus inimigos de estimação, para além, evidentemente de Cavaco Silva. Bem gostaria de estar enganado.

No meu texto não tinha examinado a situação de todos aqueles órfãos da extrema-esquerda nacional, desde que foi criado o Bloco, que eu classificarei de “esquerdistas”, que não se revêem na candidatura de Manuel Alegre e que ou defendem, em desespero de causa, o voto em Francisco Lopes ou então, como o José Neves, em algum candidato exótico, como Defensor de Moura.
Um dos primeiros mitos que esta extrema-esquerda acalentou foi o de que o PCP apresentasse um candidato unitário, tipo Carvalho da Silva, que permitisse o voto da esquerda, que não se quer sujar em compromissos espúrios. Já se sabe que aí o PCP trocou-lhes as voltas. Nunca este partido apresentou candidatos unitários a eleições presidenciais , com a vocação de perderem, mas representarem muito condignamente a “independência” de esquerda. Sabemos que o PCP preferiu, em 1976, arrostar com uma votação humilhante em Octávio Pato do que submeter-se à lógica minoritária e “esquerdista” de Otelo Saraiva de Carvalho. O mesmo se tendo passado com Maria de Lurdes Pintassilgo, em 1986, preferindo desistir a favor de Salgado Zenha do que apoiar aquela candidata.
Por isso, e bem, não puderam contar com o PCP para manterem as mãos puras ao votarem numa coligações anticapitalistas, que, em certas circunstâncias, só conduz à descrença e em nada contribui para a derrota do candidato da direita.
Outros ainda, em face do panorama, depois de terem deixado cair a sua admiração por o Fernando Nobre (ver este meu post), voltam-se para o único candidato, que sendo a emanação do colectivo, segundo a sua suposição idealista, acreditam que este lhes permitirá votarem em alguém que se reclama do anticapitalismo ou então que seja contra a NATO, como eu já vi escrito por aí. Como se Ramalho e Eanes, em quem os comunistas já votaram, fosse um paladino dessa luta.
No fundo é o reencontro do velho esquerdismo nacional, sempre a considerar-se incorruptível e mais revolucionário do que todos os outros e a não admitir acordos com a “burguesia”, com um PCP esgotado e fechado no gueto, que sempre foi considerado revisionista e reformista por estas boas almas, mas que presentemente, em desespero de causa, serve para poderem, sem compromisso, votar.
Alguns, mais puros, parece que se vão abster, porque meter as mãos na “merda” não é com eles.
A todos estes lembrarei que a posição “esquerdista” nunca foi boa conselheira. Espero pois que ainda recuperem, pois por vezes a vida obriga-nos a compromissos e à necessidade de sujarmos as mãos. E penso que custa menos engolir o sapo votando em Alegre do que em Mário Soares, esse sim um verdadeiro sapo peçonhento e dos perigosos.

09/07/2010

Álvaro Cunhal, sete fôlegos do combatente.


Fui ao lançamento do livro de Carlos Brito, Álvaro Cunhal, sete fôlegos do combatente. Memórias, das Edições Nelson de Matos, que teve lugar em Lisboa. Podemos dizer que estavam lá todas aquelas categorias de cidadãos, que José Neves, num texto cheio de graça, publicou no Vias de Facto, Os seres humanos em geral e o PCP em Particular. Já se sabe que algumas categorias mais reaccionárias não estavam lá, nem os ortodoxos mais empedernidos e penso que o José Neves também não.
O livro foi apresentado pelo editor, que devido a eu estar muito mais velho já quase não me reconhecia, quando fomos amigos de juventude, pelo Manuel Alegre, que fez um discurso de circunstância, para não se comprometer com nenhuma das partes que o apoia para presidente da República, e pelo António Borges Coelho, que aos oitenta e tal anos começou a publicar uma história de Portugal em vários volumes. Valente historiador e cidadão, que, com grande clareza de raciocínio, não se eximiu de referir, citando o próprio Brito, quando Mário Soares se refugiou no Porto, no 25 de Novembro de 74 e pensava marchar à frente de toda a reacção contra a Comuna de Lisboa. No final, José Manuel Mendes leu textos do livro.
Sei que este lançamento se passou há mais de um mês, que já foi referido por toda a imprensa, mas não quis deixar de dar testemunho sobre o mesmo.

Quando fui ao evento já tinha lido o livro. Lê-se de uma penada. Hoje para vos fazer esta crítica reli quase metade do mesmo e continuo a percorrer com prazer as suas histórias e evocações. Para quem viveu aqueles acontecimentos no PCP, é um pouco a nossa vida que é passada em revista. Por isso recomendo-vos vivamente a sua leitura, que não perdem o vosso tempo.
O livro, ao contrário de outros, cujos autores deixaram o PCP, não é nenhum ajuste de contas com o passado e muito menos com Cunhal. É mesmo bastante elogioso para a personagem, simplesmente não tem aquele carácter litúrgico que os ortodoxos gostam de imprimir a tudo aquilo que escrevem sobre o “venerando” Secretário-geral. Não há grandes revelações. A não ser aquela que foi glosada até ao infinito a quando da morte de José Saramago, de Álvaro ter dito, quando foi preciso escolher um director para O Diário, que Saramago era um esquerdista. Depois disso muita coisa mudou e as relações entre os dois melhoraram bastante.
Podemos dizer que mesmo em relação ao 25 de Novembro, e à época que antecedeu aquela data, há um grande pudor no tratamento do assunto. Eu penso que as coisas foram um bocadinho mais complicadas do que aquilo que descreve Carlos Brito. Mas considero que este livro não é uma história dos acontecimentos, mas sim as memórias do período em que Álvaro Cunhal e Carlos Brito se relacionaram.
O mais importante de toda a descrição é a enumeração daquilo que Carlos Brito considere os sete fôlegos de Cunhal, ou seja, as suas principais contribuições teóricas e a sua tradução prática na linha do Partido.

Desconhecendo eu este trabalho de Brito, elaborei há já algum tempo dois posts onde de certo modo abordo igualmente alguns dos aspectos teóricos desenvolvidos no livro. O meu texto tinha por título: O PCP, a Revolução Democrática e Nacional e o rumo ao socialismo – Algumas contribuições para a caracterização do 25 de Abril. Parte I e II (ver aqui e aqui) Na altura Brito leu-os, teve o pudor de não fazer grandes comentários, mas informou-me que estava a preparar as suas memórias que abrangiam o período referidos nos meus textos.

Para Brito o primeiro grande fôlego da Álvaro Cunhal foi sem dúvida o Rumo à Vitória, de 1964, onde era plasmada a situação política portuguesa e as tarefas indispensáveis para o derrube do fascismo e a proposta da Revolução Democrática e Nacional como tarefa central a realizar a seguir à queda do fascismo. Brito afirma mesmo: “O eixo ideológico central do Rumo à Vitória é a Revolução Democrática e Nacional, uma criação teórica a que Álvaro Cunhal chegou depois de profundo estudo sobre a realidade do país, que lhe permitiu fixar a etapa da revolução portuguesa e as respectivas tarefas no processo mundial”.
Concordando eu no essencial com a afirmação anterior não quero no entanto deixar de citar, a partir de Brito, este texto de Cunhal, de 43. “Nós tornamos bem claro que sempre fomos e continuamos sendo pelo Poder Soviético. Mas as condições não estão maduras para a Revolução Proletária. Todas as energias e todas as forças se devem unir no momento presente para bater o inimigo comum – o fascismo”.
Faço esta citação porque no texto por mim elaborado apresento a Revolução Democrática e Nacional não como uma novidade teórica, mas como a tradução para Portugal, neste caso com alguma originalidade e bastante entrosamento nacional, das propostas apresentadas pela Internacional Comunista, a partir do seu VII Congresso (1935) e depois pelo movimento comunista internacional, durante e no pós II Guerra Mundial, que consistiam na criação de etapas intermédias que ou visavam a defesa contra o fascismo (é o caso das Frentes Populares) ou o derrube do mesmo e a sua substituição por um estado intermédio. E isto é tanta verdade, que em 1943 Álvaro Cunhal no seu informe ao III Congresso do PCP, para justificar esta nova orientação, então ainda recente, utiliza as expressões que Brito transcreve.
Gostaria aqui só de lembrar, a título de exemplo, que enquanto a Internacional Comunista na sua fase esquerdista, já por mim aqui referida, preconizava para Itália a revolução socialista e recusava a colaboração com as forças liberais e sociais-democratas, então denominadas de sociais-fascistas, Gramsci na prisão defendia a convocação de um Assembleia Constituinte. Parecendo que isto nada tem a ver como o tema que estamos a tratar, parece-me a mim ser extremamente importante, pois que o PCP actual, um pouco na linha dos esquerdistas dos anos 60 e 70, esquece as formulações da Revolução Democrática e Nacional e começa a refugiar-se, pelo menos no campo das palavras, num revolucionarismo, que eu diria, de pacotilha. Este assunto já foi por mim abordado diversas vezes (ver aqui e aqui).

Quais foram os outros fôlegos de Cunhal sublinhados por Brito. O segundo, que eu não dei particular importância no meu texto, foi a sua contribuição para o VII Congresso extraordinário do PCP, realizado em Outubro de 1974, que para além da supressão do termo ditadura do proletariado do seu programa, propõe um Plataforma de Emergência, de que eu já não me recordava, e que era muito mais recuada do as propostas avançadas na Revolução Democrática e Nacional. À luz da flexibilidade táctica de Cunhal compreende-se muito bem esta ideia.
O terceiro fôlego é aquele que resulta do golpe falhado do 11 de Março, que faz avançar o processo revolucionário a toda a força. Estas são páginas empolgantes de Brito a propósito da actividade aí desenvolvida por Cunhal. Estavam-se a concretizar todas as propostas da Revolução Democrática e Nacional (RDeN), com as nacionalizações e o começo da reforma agrária, Cunhal por isso resolveu acrescentar àquela revolução a expressão a caminho do socialismo. E a partir daí desenvolve toda uma teoria que Brito critica, e bem, de que em Portugal não podia vencer uma democracia burguesa, tipo ocidental. Assim, ou a RDeN derrubava os monopólios e então era possível alcançar a democracia, ou estes só sobreviviam num regime de ditadura. Como se veio a verificar depois do 25 de Novembro, e principalmente depois da revisão constitucional que acabou com as principais nacionalizações é possível num regime capitalista monopolista conviver com a democracia burguesa. Foi um erro de previsão de Cunhal, que Brito sublinha.

Há também no livro de Brito um aspecto, que eu dou bastante importância no meu texto, que é a pesada derrota que o PCP sofreu nas eleições para a Assembleia Constituinte. Brito considera que o avanço da contra revolução no Verão Quente de 1975 e as posições assumidas pelos militares moderados têm todas elas a ver com o resultado daquelas eleições, que dificultou que certos sectores do MFA continuassem a apoiar o vanguardismo da esquerda militar e do PCP, quando o seu resultado eleitoral não passou dos 12,5%. Eu próprio no meu texto remeto para os valores que outros partidos comunistas, como o francês e o italiano tinham obtido em eleições para a Constituinte depois da II Guerra Mundial, que eram sem dúvida muito superiores ao nosso, como para os resultados dos próprios bolcheviques na efémera Assembleia Constituinte da Rússia de então.

Em resposta à situação de crise que se verificou no Verão de 75, realiza-se a 10 de Agosto uma reunião do Comité Central em Alhandra, onde Cunhal prenunciou um discurso que para Brito constituiu o seu quarto fôlego. Para evitar que o PCP fosse encostado ao muro era necessário negociar com todas as forças que de certo modo estavam ou eram do MFA, principalmente com o Grupo dos Nove que tinham acabado de publicar um manifesto muito crítico da esquerda militar e da acção de Vasco Gonçalves. Brito dá grande importância a este discurso e a esta reunião, considerando-a fundamental para a compreensão de tudo aquilo que veio a seguir e até, podemos dizê-lo, à passagem do PCP sem grandes estragos pelo 25 de Novembro. Estando no essencial de acordo com esta ideia, parece-me, no entanto, que o que ficará para a história não foi a vontade do PCP em negociar, mas a constante cavalgada dos acontecimentos que se foram produzindo a partir da formação do Governo de Pinheiro de Azevedo, o VI Governo Provisório. O próprio Brito conta o episódio em que participou da formação da FUP, uma união entre o PCP o MDP e algumas formações esquerdistas que só durou um dia, pois quando Álvaro Cunhal soube do assunto achou que era melhor o PCP retirar-se daquela organização. Mas não esquece igualmente a formação dos SUV, Soldados Unidos Vencerão, e até o próprio cerco da Assembleia Constituinte pelos operários da construção civil. É neste sentido, que sendo de valorizar as propostas de negociação apresentadas por Cunhal naquela importantíssima reunião do Comité Central, temos que na prática o PCP foi arrastado pelo torvelinho constante das acções esquerdistas. Por outro lado, a imagem que ao longo dos anos se tentou mostrar deste período foi sempre de um constante desgoverno, caracterizado ou pela cara tapada dos SUV ou pela saída de punho erguido dos deputados do PCP depois do cerco à Assembleia ter terminado ou pelo juramento do RALIS de punho no ar e para o qual o PCP em nada contribuiu. É por estas razões que ainda hoje o 25 de Novembro apresenta grandes áreas nebulosas e que acarretam múltiplas interpretações. Nesse aspecto Carlos Brito dá alguma contributo para o seu esclarecimento, mas não o faz, quanto mim, de modo definitivo.

Para Brito o quinto fôlego de Álvaro Cunhal foi a importância que este deu a partir do 25 de Novembro ao texto constitucional que viria a ser aprovado a 2 de Abril de 1976.
Aquele dirigente, como de outros dos partidos à direita, porque andaram arredados do trabalho dos constituintes, desconhecia o conteúdo do mesmo. Para Álvaro Cunhal foi uma agradável surpresa e partir daí passou a ser o seu maior defensor. Servindo-se do seu conteúdo, em que a expressão a caminho do socialismo estava incluída, Álvaro Cunhal muitas vezes repetiu que a Revolução Portuguesa caminhava para o socialismo. Brito glosa um pouco este tema, afirmando que Cunhal o fazia no sentido de defender o texto constitucional. No meu texto considero que foi um erro ou pelo menos uma grande ilusão continuar-se a definir a revolução portuguesa a caminho do socialismo depois da derrota do 25 de Novembro. Criou grandes ilusões nas massas e não favoreceu em nada a defesa e a compreensão das novas condições de actuação em regime democrático. Brito não foge ao tema e dá-lhe também o devido enquadramento.


Por último, temos o sexto e o sétimo fôlego. O sexto refere-se àquele espaço vazio que Álvaro descortinava na vida política portuguesa e que ele pensava preencher com o partido eanista. Hoje sabe-se que foi um erro e que o seu aparecimento desorganizou os resultados eleitorais subsequentes, permitindo no final as maiorias absolutas de Cavaco e uma diminuição acentuada dos votos no PCP. O sétimo foi a proposta de aprovação de um novo programa do Partido, Por uma Democracia Avançada no limiar do Século XXI, a que Brito dá grande importância, mas que no momento em que surgiu, Dezembro de 1988, no XII Congresso, passou desapercebido tanto no Partido, como na opinião pública.

Feita a esta descrição muito reduzida nos dois últimos fôlegos, Brito passa depois aos últimos anos de Cunhal e à contestação que deu origem à Renovação Comunista. Como em alguns episódios estive envolvido, sendo inclusive citado pelo próprio Brito, como muitos outros camaradas da Renovação, deixarei para momento mais oportuno esta apreciação. Sei que alguns dos actuais membros do PCP já começaram a bichanar, ainda que eu tivesse reparado não directamente. Da parte do Partido, que eu saiba, não houve ainda qualquer reacção oficial. É difícil tal é o bem fundamentado das apreciações de Brito. Termino pois com uma recomendação de leitura.

02/07/2010

A “Esquerda Radical” um livro de Miguel Cardina


Fui ao lançamento do deste livro de Miguel Cardina, mas ainda não tinha tido oportunidade de o ler. Uns poucos dias de “molho” e eis que surge a ocasião. Lê-se numa tarde.
O próprio ante título deste livro diz tudo sobre o mesmo. “O essencial sobre”.
Estamos pois perante um pequeno resumo sobre aquilo que o autor entende por esquerda radical, principalmente no contexto sócio-político e ideológico dos anos sessenta e princípios de setenta do século passado.
Podemos reduzir a três os capítulos que o compõem. Primeiro uma visão da esquerda radical a nível internacional nos anos sessenta, depois a situação portuguesa com a descrição dos movimentos maoistas que, tal como cogumelos, surgiram nessa altura e depois de outros movimentos que o autor inclui na esquerda radical. Por último, a posição dos movimentos atrás referidos em diferentes contextos, que vão desde a guerra colonial, aos comportamentos humanos, e à recepção em Portugal das novidades ideológicas estrangeiras.
Podemos dizer que no “essencial” este livro cumpre com o seu objectivo dando-nos a informação indispensável à compreensão de uma época. Podemos dizer que há algum desequilíbrio entre uma informação bastante pormenorizada sobre a instalação das correntes maoistas em Portugal, que é completado com um célebre quadro que o autor já tinha divulgado em colóquios anteriores sobre o mesmo tema, e que tem sido objecto de grandes encómios, e o resto do livro. Penso que isto resulta de ser este o tema da tese de doutoramento de Miguel Cardina.

Dito isto, que me parece ser motivo suficiente para uma compra e leitura do mesmo, achei que devia discutir dois assuntos que o mesmo me suscitou.
Primeiro o título do livro. O autor, e bem, justifica a opção para designar todos os movimentos surgidos naqueles anos como “esquerda radical”. Considera que seria parcial chamá-los de “esquerdistas”, designação pela qual eram denominados pelo movimento comunista pró-soviético, de acordo com o livro clássico de Lenine, “Esquerdismo, doença infantil do comunismo” e de “esquerda revolucionária”, como alguns deles se gostavam de designar, por se oporem ao PCP “reformista”.
Simplesmente esqueceu o autor que em algumas traduções do livro de Lenine o termo “esquerdismo” se traduz por “radicalismo de esquerda”, o que não sendo a mesma coisa que esquerda radical, é no entanto bastante semelhante. É mesmo por esse termo, substituindo esquerda por pequeno-burguês, que Álvaro Cunhal designa alguns daqueles movimentos, chamando-lhes com acinte “radicais pequeno-burgueses de fachada socialista”. Por outro lado, a esquerda radical é ainda hoje a forma como Sócrates e alguns socialistas se referem aos movimentos que se situam à sua esquerda. Aparecendo o PS como uma esquerda moderada oposta a esses tais radicais. Pelas razões apontadas faz-me alguma comichão esta designação. Preferia provavelmente a da "extrema-esquerda" ou então de "extrema-esquerda radical", o que, parecendo ser o mesmo que "esquerda radical", não é vulgarmente utilizada nas diferentes acepções que eu acima referi.

Um segundo ponto refere-se ao primeiro capítulo. O autor tem a preocupação de dar muito rapidamente uma visão histórica dos diferentes modelos de acção e organização que se podem incluir na esquerda radical. Num deles, que o autor denomina “partido revolucionário”, que corresponde grosso modo à formação dos partidos comunistas e da III Internacional e aos dissídios posteriores (trotskismo e maoismo), esquece completamente origem daquele modelo e da ruptura que estabeleceu com a social-democracia da II Internacional, no final da I Guerra Mundial. Penso mesmo que em quase toda a sua obra, esquece que na origem de todo o movimento socialista/social-democrata e comunista, como depois o iríamos conhecer, tem a sua origem, mesmo que seja em contraponto, na II Internacional e no principal partido social-democrata da época, o partido social-democrata alemão. Para ilustrar esta minha afirmação basta ver este pequeno parágrafo para se perceber o que escrevo.
Depois do corte anarquista, na I Internacional, e do dissídio trotskista, o maoismo representa o terceiro grande cisma no movimento comunista internacional.” Ou seja, considera-se o anarquismo como um dissídio do comunismo e passa-se por cima da II Internacional e da criação do movimento comunista como o viríamos a conhecer no século XX. Quem fala a propósito da esquerda em Spartacus e em Thomas Müntzer não pode esquecer esta dissidência fundamental, com reflexos ainda nos dias de hoje, entre sociais-democratas e comunistas.

Que Miguel Cardina não me leve a mal mas isto foram só duas pequenas considerações sobre o seu livrinho, que em nada devem contribuir para a recusa da sua leitura, que recomendo.

09/01/2010

Voltando sempre ao mesmo – Estaline, outra vez


Talvez pela idade ando sempre a repisar os mesmos temas, no entanto, por muito que queira fugir deles ei-los que regressam a galope pela porta da frente.
Assim, num post do blog 5 Dias era relatado um comentário boçal de um tal António Ribeiro Ferreira, que escreve no Correio da Manhã. Até aqui tudo bem. Podem consultar a história no link referido.
A propósito disso Carlos Vidal, no mesmo blog, resolve fazer uma citação de uma recensão que foi feita no Brasil, à edição naquele país do livro de Ludo Martens sobre Estaline, já por mim amplamente discutido neste meu post. Acrescentando-lhe: “Lendo toda a recensão de João Q. de Moraes … do livro de Ludo Martens, lê-se uma análise que não elogia Estaline, mas a necessidade de tratar de um tabu. Por isso, o texto de João Q. de Moraes não podia deixar de ser também crítico do livro de Martens, que seria interessante editar em Portugal. A juntar às já existentes e importantes ferramentas de Simon Sebag-Montefiore e em benefício do estudo do século XX.
Em resposta a este post e a diversos comentários que por lá apareceram achei por bem informar sobre todos os dados de que dispunha e que estavam incertos no meu blog, no artigo referido.
Como é sabido, e eu não fujo à regra, o debate na Internet acaba sempre por resvalar para uma grande agressividade argumentativa, quando ainda se utilizam argumentos, ou por vezes para o puro lixo informático, que constitui o insulto, os textos sem sentido ou mal redigidos, ou ainda as meras abreviaturas importadas dos telemóveis, que tornam ilegível qualquer prosa que pretenda discutir ideias. No entanto, podemos dizer que a maioria dos comentários ao post referido se mantiveram no nível minimamente aceitável de argumentação.

Mas não é para vos contar esta história que aqui estou é simplesmente para constatar um facto que muito me impressiona: o ressuscitar do tema Estaline e de todo o conjunto de argumentos que anda à sua volta.
Os mais antigos como eu, que viveram a luta travada entre o PCP e os maoistas, no final dos anos 60 e durante os anos 70, saberão sem dúvida a importância que naquela altura Estaline tinha para estes últimos e como o PCP, sem nunca enveredar por uma crítica clara e desassombrada sobre aquele, assumia um claro repúdio a qualquer aproximação àquele dirigente soviético.
Hoje, já não existem maoistas, que emigraram para a direita, ou integram, com algum repúdio ou distanciamento crítico do seu passado, o Bloco de Esquerda. O problema é que ideologicamente o PCP se transformou, de certo modo, num herdeiro dessa gente e todo o universo de blogs, edições, cursos e opiniões expressas no Avante, vêm retomar, umas vezes às claras, outras vezes encapotadamente, a velha defesa de Estaline. Eu penso que isto tem a ver fundamentalmente com o refluxo ideológico que a derrota do “socialismo real” provocou naquele partido. Hoje, muitos dos que se reclamam do comunismo acham que qualquer crítica a Estaline e à ex-União Soviética constitui uma colaboração com o inimigo. Há um texto num comentário ao post, que venho a referir, do 5 Dias, que é elucidativo: “cada um escolhe o seu campo, afirmem-se como revisionistas, ou “renovadores”, mas por favor deixem de invocar o comunismo enquanto pactuarem com o campo que está mais interessado em o destruir”. É como que um regresso ao útero materno, incapazes que são de enfrentar o mundo moderno e a crítica. Por isso, todos aqueles que na ex-União Soviética, como Khruchtchev denunciaram Estaline, e o “culto da sua personalidade”, são hoje também incluídos no campo do revisionismo, tal como já o foram para os maoistas. Veja-se o título de um dos artigos publicados no site Para a História do Socialismo, de Kurt Gossweiler, Sobre o papel de Estaline e a quota-parte do revisionismo de Khrushchov na destruição da União Soviética.
Ilustrativo do que venho a dizer é, nos comentários ao post que venho a referir, esta prosa perfeitamente panegírica de uma obra de Estaline que sempre foi acusada de simplificar, dogmatizar e em última instância ser anti-marxista: “Razão para uma maior abertura e simpatia para o estudo e defesa da história dos filhos do povo que se associaram para construir tudo de novo e de raiz. Sem muitos livros, mas mesmo assim estou-me a lembrar de um, por acaso notável, que toda a gente deveria reler: “O materialismo dialéctico e o materialismo histórico” de José Estaline (Setembro de 1938, traduzido para português e editado em Outº1974 por Henrique A. Carneiro)”. Depois, esta citação que torna a dialéctica marxista no mais perfeito determinismo e que serve de “modo lapidar” para separar “revolucionários” de “reformistas”: “Se é verdade que a passagem das mudanças quantitativas lentas a mudanças qualitativas bruscas e rápidas é uma lei do desenvolvimento, é claro que as revoluções realizadas pelas classes oprimidas constituem um fenómeno absolutamente natural, inevitável. Consequentemente, a passagem do capitalismo ao socialismo e a libertação da classe operária do jugo capitalista podem ser efectuadas, não por transformações lentas, não por reformas, mas somente por uma mudança qualitativa do regime capitalista, pela revolução. Assim, para não nos enganarmos em política, é preciso sermos revolucionários e não reformistas” (Josef Stalin in “Materialismo Dialéctico e Materialismo Histórico”).
Pode-se dizer que isto é um caso isolado, no entanto, a própria oposição que o responsável pelo post faz entre a obra Ludo Martens e a de Simon Sebag-Montefiore, sobre Estaline (Estaline, a corte do czar vermelho e o Jovem Estaline, Edições da Alêtheia, da Zita Seabra), é já indicativa de que ou apoiamos Estaline ou só nos resta a crítica de direita.
Por estas razões, tendo a pensar que o enquistamento da posição comunista sobre Estaline é a principal responsável, a não ser em termos de resposta aos inimigos de classe, pela consequente ocupação de espaço pela direita e por certa esquerda, que toma como suas as reflexões da direita e acima de tudo as produzidas pelos ideólogos da Guerra-Fria. Todos eles, como já referi várias vezes, consideram os tempos de Estaline como a continuidade da época de Lenine, negam o valor libertador da Revolução de Outubro, no fundo, consideram que a URSS sempre foi um imenso Gulag. Já me tenho debruçado demasiadas vezes sobre esta batalha político-ideológica para voltar a ela, mas o espanto sobre este regresso ao estalinismo é que ainda não acabou.

02/09/2009

Como o "social-fascismo" irrompe na campanha eleitoral


Não será o assunto mais importante. Só um coca-bichinhos como eu se dedicaria a escrever sobre este tema exótico, quando a campanha eleitoral está aí em força, cheia de pequenos fait-divers que permitem trocadilhos chocarreiros, como as afirmações disparatadas da mandatária para a juventude do PS – a dos caroços e da empregada.
No entanto, foi sobre as afirmações relativas ao social-fascismo que me resolvi debruçar.
Vital Moreira já tinha dado o tom. Na crónica semanal que tem no Público, publicou na semana passada (25 de Agosto) um artigo intitulado Arcaísmos de esquerda (sem link). Entre outras asserções provocadoras para a esquerda, à esquerda do PS, tem esta afirmação:
Ao ouvir certas declarações mais destemperadas de alguns dirigentes do PCP e BE (ver os seus últimos congressos), dir-se-ia que voltámos ao tempo em que os partidos estalinistas qualificavam de “sociais-fascistas” os partidos sociais-democratas, contribuindo dessa forma para abrir um fosso irreparável na luta contra a ascensão do nazismo e do fascismo nos anos 30 do século passado. Agora, é evidente que não está em causa sequer o regime democrático, mas não podem restar muitas dúvidas de que a principal prioridade de tais partidos é derrotar o PS, mesmo que isso acarrete, como seria inevitável, a entrega do poder à direita”.
Irene Pimentel não lhe quis ficar atrás, ou não fosse Vital Moreira o ideólogo oficial do socratismo, e assim num post no Simplex apesar de dizer “que jamais utilizaria a História para comparações abusivas com a realidade actual”, afirma depois, “se o fizesse, vir-me-ia logo à cabeça a forma como o Partido Comunista Alemão contribuiu para a subida de Hitler ao poder, ao erigir os sociais-democratas como «sociais fascistas». Claro que, ao ser criado o primeiro campo de concentração em Dachau, foram lá encarcerados tanto sociais-democratas como comunistas, mas o mal já estava feito. Upsss! Do que me fui lembrar e até estou a dar ideias!”. Este post retorquia a um texto crítico de José Neves no 5 dias (foi uma grande “contratação” para aquele blog) e que mereceu deste a devida resposta.
Na minha área política, os renovadores comunistas, também é frequente recordarem-me em relação a esta campanha eleitoral os tristes dias da ascensão de Hitler ao poder e esta posição ultra-sectária da Internacional Comunista e do PC alemão.
Como escrevi um longo texto sobre o assunto, diria com algum carácter pioneiro entre nós, já que a maioria dos textos escritos por alguns historiadores comunistas se referem à radical ruptura da Internacional, em 1935, no seu VII Congresso, com esta posição, sinto-me na obrigação de me referir a este tema lançando algumas pistas que os textos em causa esquecem.
Em primeiro lugar quem utilizou em Portugal o termo social-fascista foram os "esquerdistas", nos ataques que dirigiam ao PCP, antes e depois do 25 de Abril. Era vulgar o MRRP e posteriormente a AOC, cujo o chefe era um conhecido provocador, chamado Eduíno Vilar, acusarem o PCP de ser social-fascista, na sequência das posições dos maoistas, que acusavam a União Soviética de ter um comportamento social-imperialista e de os partidos que a apoiavam serem sociais-fascistas. Na altura, esta designação, que os maoistas tinham ido buscar ao léxico da Internacional Comunista, do início dos anos 30, soava aos ouvidos da juventude esquerdista como uma grande novidade terminológica, esquecendo-se do seu triste passado. Mas na sequência destas críticas, a rapaziada o PS, a que andava de braço dado com alguns AOC, aqueles que afirmavam que um voto na AOC era uma espinha cravada na garganta do Cunhal, muitas vezes no entusiasmo da crítica deixaram-se arrastar por esta terminologia e chamavam sociais-fascistas aos militantes do PCP.
Por isso, alguns ideólogos do PS seria bom que metessem a mão na consciência e vissem quem iniciou e utilizou no passado esta terminologia.
Em segundo lugar, Vital Moreira ainda afirma que esta classificação dos sociais-democratas como sociais-fascistas abriu “um fosso irreparável na luta contra a ascensão do nazismo e do fascismo nos anos 30 do século passado”, já Irene Pimentel provavelmente menos preparada ideologicamente afirma: “vir-me-ia logo à cabeça a forma como o Partido Comunista Alemão contribuiu para a subida de Hitler ao poder, ao erigir os sociais-democratas como «sociais fascistas»”. Nesta citação aquele chavão não enfraqueceu unicamente a luta mas contribuiu igualmente para a subida de Hitler ao poder. Já estamos pois no perfeito delírio de atribuir aos comunistas alemães a responsabilidade de um facto que em primeiro lugar, tem origem na direita, que com um medo atávico do avanço dos comunistas alemães preferiu vender a República de Weimar ao seu carrasco, do que permitir a ascensão eleitoral do PC alemão.
Como exemplo histórico é péssimo , já que o sectarismo era comum aos dois partidos, aos sociais-democratas e aos comunistas alemães.
A crítica ao ultra-esquerdismo da Internacional Comunista desses anos pode ser citada como exemplo em relação ao actual sectarismo do PCP, mas nunca pode servir para isentar o PS de Sócrates de um comportamento direitista e igualmente sectário em relação às forças à sua esquerda, cujo o exemplo mais chocante é o artigo já referido de Vital Moreira. Nem pode muito menos servir de apelo ao voto útil no PS, como ingenuamente nos querem convencer os ideólogos daquele partido.
Por último gostaria de lembrar que foi a própria Internacional, ainda no tempo de Estaline, que fez a crítica severa a estas posições ultra-esquerdistas, e defendeu posteriormente, a partir do VII Congresso (1935), a união de socialistas e comunistas naquilo a que viria a chamar-se as frentes populares, que tanto êxito tiveram na França, na Espanha e no Chile. Quem no nosso país sempre denegriu o frentismo, criticando-o e achincalhando-o mesmo, foram alguns socialistas, de que de certeza Vital Moreira é herdeiro, que consideravam que estava ultrapassado pelo socialismo moderno e que não passava de um velharia histórica. Era bom pois que metessem todos a mão na consciência e não falassem de cor sobre assuntos bastante sérios, que dificilmente se enquadram na actual chicana política.
No cimo, fotografia de Rosa Luxemburgo, uma das fundadoras do Partido Comunista Alemão, assassinada em 1919, com a cumplicidade da social-democracia de direita. Uma pequena homenagem.

28/06/2009

Os novíssimos sectários



Para Tiago Mota Saraiva, desta vez cito-lhe o nome, não vá o “autor” ofender-se (ver aqui uma polémica antiga), o parágrafo inicial do referido Manifesto: “Estamos a atravessar uma das mais severas crises económicas globais de sempre. Na sua origem está uma combinação letal de desigualdades, de especulação financeira, de mercados mal regulados e de escassa capacidade política”, merece-lhe este comentário “Terá sido só isto? Já não é o sistema que provoca as crises para se reforçar, José Castro Caldas, Francisco Louçã, Ricardo Paes Mamede, João Rodrigues, Nuno Teles? O que mudou entretanto? É táctica política?

Voltando novamente a Carlos Vidal, noutro post: “o manifesto de economistas recentemente assinado por “socialistas” e “bloquistas”, com Francisco Louçã, mais cedo do que eu esperava, lá muito bem integrado.É um sinal para o futuro próximo. Uma estrela para guiar os novos magos: palavras para quê, é o manifesto dos “51″ em resposta em cima da hora e nos timings do PS ao manifesto dos “28″, desenvolvendo a agenda do PS: os chamados, pelo PS (!!), “investimentos públicos”!!!
Para não me acusarem de estar a desvirtuar o conteúdo destes post, macei-vos com esta prosa de blog, cheia de perguntas, pontos de exclamação e insinuações, que muitas vezes só os próprios e os amigos percebem. Para mim, que redijo longas laudas, muito bem explicadinhas, esta maneira de escrever é intragável. São gostos. Mas, o seu conteúdo é que interessa.
A verdade é que o que está aqui em causa é mais uma vez uma velha prática esquerdista de tentar meter tudo no mesmo saco. Como há economistas do PS e do Bloco a assinar aí temos a convergência do PS de Sócrates com o Bloco do Francisco Louçã. Está visto, mais depressa do que estas almas previam e gostavam que acontecesse, aí temos a aliança PS-BE.
São incapazes de perceber como esta junção de esforços entre gente de esquerda do PS com a “esquerda radical” (José Manuel Fernandes, do Público, dixit) do Bloco é importante, para romper os consensos neo-liberais e conservadores dos economistas do centrão. No fundo é a repetição do Trindade e da Aula Magna. Mas estes rapazes, com uma linguagem modernaça, convencidos que já não seguem os figurinos de antanho, recuperam a velha linguagem esquerdista: todos aqueles que em dado momento colaboraram em projectos unitários, que permitam subtrair à direita a sua influência ideológica, estão vendidos ao inimigo. No fundo, com a aparência de novidade, retomam o mesmo esquerdismo e sectarismo que em tempos atacou o “esquerdismo” português e que hoje, lamentavelmente, é apanágio do PCP.
PS. (28/06/09): Carlos Vidal volta novamente ao local do crime com um novo post sobre o Manifesto dos 51. Não o conheço pessoalmente, mas pela prosa parece-me um jovem intelectual pretensioso e convencido. E como todos os jovens desconhece que no fundo as ideias têm também um passado, uma história. E tudo o que ele diz não foge ao que diziam os nossos “esquerdistas” que no final dos anos 60 e princípio dos 70 se opunham ao PCP e à sua política de unidade com a pequena–burguesia, contra os monopólios, principal força de apoio ao fascismo. Achavam, que a luta se devia dirigir contra o capitalismo no seu conjunto e não contra os monopólios. Ser explorado por um grande ou pequeno-burguês era, para eles, a mesma coisa. Já se sabe que estas opções sociais e económicas correspondiam depois a escolhas políticas. Assim a luta pela unidade e contra o fascismo, correspondia para estes críticos à luta pela democracia burguesa e o que interessava era lutar pela democracia popular. Quer se queira quer não, estas velhas consignas “esquerdistas” estão mais uma vez implícitas na apreciação que Carlos Vidal faz do Manifesto dos 51. Mas isto digo eu que já há muitos anos conheço esta ladainha.
No mesmo blog, mas num post anterior, alguém que não sendo da minha geração, mas tendo a mesma origem política e fazendo um percurso, pelo menos, semelhante, diz, por outras palavras, o mesmo que eu. É o post de Nuno Ramos de Almeida, que juntamente com António Figueira, que presentemente não escreve sobre política, dão ainda alguma qualidade a este blog.

26/09/2008

“O Socialismo Traído”


Pedi aos blogonautas, que nos seus blogs introduziram a pequena imagem referida nos posts anteriores, que nos explicassem a razão desse boneco. Como nenhum esteve para aí virado, tenho de admitir que ou ninguém me lê ou já criei suficiente entropia para não merecer qualquer resposta.
Mas não é sobre isto que venho falar e considero mesmo o assunto arrumado.
Foram publicadas ontem, como anexo ao Avante!, as Teses que a Direcção do PCP irá apresentar no XVIII Congresso daquele Partido. Apesar de alguns as considerarem como "literatura de terror" sou suficientemente masoquista para as tentar ler e dar, em post futuro, a minha opinião. Não me limitarei à notícia que foi publicada ontem no Público, que fala em “traição de dirigentes” como causa da derrota da URSS, tentarei, se para isso tiver forças e entusiasmo, apreciar outros pontos.
Hoje regresso a um dos meus “temas preferidos” que é o livro que foi publicado pelas Edições Avante!, que tem como título o Socialismo Traído. Por trás do colapso da União Soviética. Como se pode concluir pelos termos comuns utilizados as Teses têm uma relação directa com as preocupações manifestadas naquele livro. A terminologia usada nas Teses é mesmo “a traição de altos responsáveis do Partido e do Estado”, e ao contrário do que diz o Público, para quem esteja interessado em consultá-las, esta transcrição não é feita da página 15, mas da 17.
O Avante desta semana traz uma entrevista com os autores daquele livro, Thomas Kenny, economista, e Roger Keeran, historiador, militantes comunistas norte-americanos, bastante elucidativa de como o órgão oficial do PCP encara hoje o fim da União Soviética.
Da entrevista é de realçar, como já o tínhamos feito em artigo anterior a propósito do livro, a existência de duas tendências no PCUS: a de “direita”, “que defendia a incorporação de formas e ideias capitalistas”, e a de “esquerda”, que “apostava na luta de classes, num partido comunista forte e na defesa intransigente das posições da classe operária”, que os autores de forma mistificadora, comparam à linha menchevique e bolchevique existente antes da Revolução de Outubro. No artigo citado, eu já tinha referido quais os protagonistas de cada uma destas linhas. Poderíamos acrescentar a oposição entre Bréjenev e Andropov e Gorbatchov e Ligatchov, não referidas anteriormente. Os primeiros a representarem a direita e os segundos a esquerda.
Quanto aos períodos da história soviética em que cada uma destas linhas foi dominante os autores consideram que houve um primeiro período, nos anos 20, com a NEP, e com Bukharine, que afirmam que “ficou marcado não só pelo florescimento do capitalismo e dos sectores marginais e criminosos, mas também pelo alastramento de uma ideologia de direita, anti-socialista”. O que levado a letra justifica todos os abusos de Estaline ao mandar matar não só o seu principal ideólogo, Bukharine, como todos os aqueles que previamente foram classificados como marginais e criminosos.
Depois, segundo a entrevista, houve um “segundo período, mais prolongado e gradual”, que “teve início em meados dos anos 50, após a morte de Estaline. Khruchov foi a primeira peça deste puzzle.”
Como corolário destas afirmações o entrevistador conclui “praticamente todas as conquistas do socialismo que enumeraram na introdução do livro foram alcançadas em particular durante os anos 30, sob a direcção de Estaline…” e depois noutra pergunta acrescenta “mas se a tese do vosso livro está correcta, então as políticas de Estaline terão sido as mais correctas e as únicas que podiam garantir a construção do socialismo e defender as conquistas revolucionárias.” A que os autores respondem “o ódio a Estaline é tão cego e intenso que alguns críticos do nosso livro dizem que estamos errados e insistem que Estaline foi a causa do colapso da URSS”.
A terminar só gostaria de sublinhar o espantoso destas afirmações de que os ideólogos do PCP não se dão conta. Quando se defende que foi com Khruchov que começou a degenerescência do socialismo na URSS, está-se a retomar a velha tese maoista e “esquerdista” de que aquele político é o responsável pela instauração do capitalismo naquele país. No fundo andámos anos avalizar, com a ajuda de Cunhal, o comportamento da URSS, para virem agora os seus sucessores, como se nada se tivesse dito no passado, a publicarem no Avante! as velhas teses maoista sobre o fim do socialismo na URSS, com a ascensão da linha de direita, que na altura os pró-chineses chamavam revisionista.
A questão de Estaline, que parecia estar morta depois do XX Congresso do PCUS, e as teses maoistas que o pretendiam ressuscitar, e que tinham sido objecto de crítica severa, entram agora pela porta do cavalo, com pezinhos de lã, como se sempre no PCP se tivesse dito isto. É no fundo, como tenho afirmado, o sectarismo esquerdista a prevalecer.
É bom recordar também que nesta entrevista é retomada, sub-repticiamente, a velha tese estalinista que quanto mais o socialismo avança mais se agrava a luta de classes, o que serviu sempre para aquele político reprimir todos os seus opositores.
Não gostaria de terminar sem referir uma nota de rodapé com os dados biográficos de um dos apoiantes de Gorbatchov que foi citado na entrevista, Alekssander Iákovlev, cuja responsabilidade deve ser do entrevistador. Em que depois da descrição de um conjunto de malfeitorias que seriam da sua responsabilidade é dito que “faz publicar uma série de romances de escritores dissidentes e anti-soviéticos, bem como cerca de 30 filmes antes proibidos.” E termina, como justificando este excesso de liberalismo, “em Agosto de 1991 anuncia a decisão de abandonar o PCUS”. Como se não fosse um título de glória para alguém libertar filmes que anteriormente estavam proibidos. Este entrevistador nem sabe como os portugueses que conheceram o fascismo odeiam aqueles que lhes proibiam filmes.

PS.: A imagem que ilustra este post é de Bukharine, que tão vilipendiado é neste livro. Uma pequena homenagem a um dos heróis do movimento comunista. Mandado assassinar legalmente por Estaline.

12/09/2008

A memória dos textos


Joana Lopes publicou no seu blog, Entre as Brumas da memória , e em os Caminho da Memória , site mais ou menos afecto ao Movimento Não Apaguem a Memória, um documento que ela chama O grupo dos 16, porque foram 16 o número de militantes da Comissão Democrática Eleitoral (CDE) a assiná-lo, mas que no original tem o título de Porque saímos da CDE. O documento é de Julho de 1973, segundo percebi, e reflecte as razões porque diversos militantes abandonaram aquela Comissão, que antes do 25 de Abril agrupava as principais correntes políticas de oposição ao fascismo (naquela altura PCP e PS).
Por essa época estava eu quase a sair da tropa e não militava na CDE. Estava mesmo politicamente pouco activo. Tinha participado em 1969 numa das estruturas daquela Comissão, mas posteriormente a minha actividade resumiu-se à participação na organização clandestina do PCP para o exército. Recordo que foi o Barros Moura, já falecido, que estava na altura também a cumprir o serviço militar, e que eu não sabia quem era, que entrou em contacto comigo e me levou ao funcionário que era responsável por aquela estrutura na região de Lisboa.
Recordo-me, mas muito vagamente, de alguém ter dito que a Isabel do Carmo e o seu grupo tinham abandonado a CDE. Mas esta recordação é vaga e portanto, pouco precisa.
Mas o que me interessa sublinhar, não são estas memórias desconexas, sobre um tempo que já passou há muito. O importante é o texto do comunicado.
Recentemente publiquei um texto sobre O PCP, a revolução democrática e nacional e o rumo ao socialismo – Algumas contribuições para a caracterização do 25 de Abril (ver aqui e aqui ). Estes posts, que pouca gente leu e não foram discutidos, exceptuando aqui , referiam-se a alguns dos temas abordados naquele comunicado, que estavam relacionados com os objectivos que se pretendiam alcançar com a alteração da situação política em Portugal.
Se virem os três pontos que Joana Lopes transcreveu do comunicado verificam que eles são centrais nas opções políticas então discutidas:
«Não devemos criar a ilusão de que o capitalismo, sem a sua forma fascista, é menos capitalismo, é menos explorador.»
«E que significaria acabar com os monopólios e continuarem os pequenos e médios comerciantes e industriais? Como patrões que são, como burguesia que são, instalar-se-iam no poder e transformariam a sociedade a seu modo. E apesar de serem pequenos ou médios exploram menos, pagam melhor? Que diferença sente um trabalhador ao ser explorado por um pequeno, um médio ou um grande burguês?»
«Mas pôr como objectivo as liberdades – de expressão, de associação sindical, etc. – é pôr como objectivo uma sociedade democrática burguesa onde não pareceria haver censura, onde as pessoas se poderiam reunir e organizar “livremente”, onde os trabalhadores teriam sindicatos para defenderem os seus interesses, mas onde tudo se passaria com o capitalismo no poder.»
O que é que se criticava no comunicado? A unidade antifascista proposta pela CDE opondo-a à unidade pelo socialismo; a luta antimonopolistas em contraposição à luta anticapitalista – é espantoso que ainda no discurso de encerramento da Festa do Avante, Jerónimo de Sousa faça referência aos “interesses e aspirações de todas as classes e camadas sociais antimonopolistas” –; e a defesa da democracia burguesa em vez da “democracia” não capitalista.
Depois de resumir abreviadamente estas divergências entre os que ficaram e os que saíram, gostaria de tirar duas conclusões. Primeira, são os objectivos definidos pela CDE, que era nitidamente influenciada pelo PCP, e criticados no comunicado, que tornam depois difícil explicar, porque é que alguns ainda continuam a insistir que o PCP pretendia no pós-25 de Abril implantar o socialismo em Portugal, através de uma ruptura revolucionária, que instaurasse, como fez Lenine na Rússia, a ditadura do proletariado. Uma das alterações que o PCP introduziu nos seus estatutos aprovado no primeiro Congresso que realizou depois da Revolução dos Cravos foi a eliminação, quanto a mim justificada, do termo “ditadura do proletariado”. Por isso quando hoje o PCP se diz herdeiro da tradição leninista e acusa outras forças políticas de reformismo e eleitoralismo (ver o recente artigo de José Manuel Jara, no Avante! ), devia ter cuidado e reler os seus textos ainda recentes.
Segunda, quando hoje a maioria dos herdeiros dos “revolucionários” dessa época aparecem a criticar o anquilosamento actual do PCP, a defesa que faz das ditaduras de esquerda, etc., etc., que sendo fundadas, esquecem que, de um modo geral, as propostas que apresentaram no passado eram bem mais “perigosas”, do ponto de vista do normal funcionamento das instituições democráticas, do que aquelas que o PCP hoje propõe. Por isso, como todos temos telhados de vidro, era bom que tivéssemos mais pudor nas apreciações que fazemos uns aos outros.

20/05/2008

Reflexões em aberto sobre o Maio de 68


Num programa de Júlio Isidro, por sinal de uma piroseira indescritível, dedicado ao Maio de 68 e que passou na RTP I, na passada quarta-feira, Fernando Rosas, um dos convidados, considerou, por outras palavras, que, em oposição à visão de Sarkosy, que considerava que era necessário “liquidar a herança do Maio de 68”, o legado daqueles acontecimentos abriu as portas à modernidade dos nossos dias.

I – O revisionismo da direita
Aquela proposta de liquidação do Maio de 68, insere-se num certo revisionismo histórico, que sendo coisa demasiado complicada para um político fogo-de-vista, como é o Sr. Sarkosy, percorre no entanto muito do pensamento conservador contemporâneo e pode, por isso, ser perceptível mesmo para políticos menos dotados para as “questões filosóficas”.
Hoje a direita conservadora, com o apoio de alguma esquerda bem-pensante, tenta eliminar da história todos os momentos de grande transformação social, que, por essa razão, são portadores de uma dose, por vezes não controlada, de violência. Assim valoriza unicamente a Revolução Americana, de que resultou a independência da América do Norte e, segundo ela, a formação das sociedades democráticas do Ocidente, opondo-a à Revolução Francesa, principalmente à fase de domínio jacobino, o chamado período do Terror. Abomina a Revolução Russa, considerando que Estaline é o continuador, para pior, dos métodos de Lenine, que por sua vez já se fora inspirar em Marx.
Depois, mais recentemente, o nazismo não seria mais do que uma resposta ao comunismo e a II Guerra Mundial só terminou com a queda do Muro de Berlim, porque primeiro se derrotou o “totalitarismo” nazi, que no princípio estava associado ao comunismo, e depois o “totalitarismo” comunista com a “libertação” dos povos do leste Europeu (Bush dixit: ver notícia no Público e a prosa reaccionaríssima de um comentador americano, traduzida para brasileiro). Para alguns conservadores, só por acaso, é que houve uma aliança entre as democracias e os comunistas, que na altura, e bem, se chamava antifascismo, e se realizou uma conferência de Yalta, em que o principal representante das democracias, Roosevelt, era, para aqueles, um chefe débil e à beira da morte. Sobre todos estes assuntos ver a prosa interessantíssima de António Figueira aqui e aqui .
Também, o conservadorismo nacional tenta rever a nossa história contemporânea. É a reabilitação do Rei D. Carlos e o estigma dos regicidas, com a tentativa de impedir a transladação de Aquilino Ribeiro para o Panteão. É a República transformada em antecâmara da ditadura, pois seria tão prepotente como que aquela (veja-se as declarações de Rui Ramos ao Primeiro de Janeiro ou ao programa Diga Lá Excelência ). É o PREC transformado em ditadura comunista (ver este artigo do Diário de Notícias sobre a morte do cónego Melo).
Chegou agora a vez do Maio de 68 e é vê-los em bicha, desde o Vasco Pulido Valente até ao João Carlos Espada, a combaterem a herança do Maio de 68.

II – O adquirido civilizacional progressista
Retomando as declarações iniciais de Fernando Rosas, lembremos outras que ele fez ao P2, do Público, de 2 de Maio. A propósito das afirmações de Sarkosy, considera que “mais tarde ou mais cedo, a lógica neoliberal do discurso político tinha que ir a Maio”. E acrescenta “os adquiridos civilizacionais progressistas de Maio só estarão seguros quando se escorarem numa verdadeira alternativa de poder à agenda e aos valores do neoliberalismo. Maio não é um fecho é uma abertura. Abre um campo de possibilidades muito actuais. Toda a nova esquerda europeia só pode ser pensada em função desse momento original e genético que são as revoluções de Maio”.
O discurso é empolgante, fala-se mesmo em revoluções, e não só no Maio de 68 francês. Mas é indispensável fazer uma reflexão mais fina. Pela minha parte tentarei fazê-la.
A parte mais consensual das heranças dos diversos Maios consiste talvez na conquista da igualdade de género, com a libertação da mulher das suas limitações sexuais, devido ao aparecimento da pílula, e com a sua independência económica, resultante do acesso maciço ao mercado de trabalho. Qualquer delas estarão mais ligadas a toda a década de 60 do que unicamente ao Maio de 68.
Quanto à transformação das mentalidades, o surgimento de um novo relativismo de valores e de uma maior liberdade individual – cada um por si –, é efectivamente um adquirido que eu continuaria a considerar mais da época do que do Maio de 68, mas que radica numa transformação social do assalariado de que irei falar a seguir.

III – A transformação da classe operária e da sua representação política
Penso que as greves operárias de 68 em França foram as maiores, na Europa Ocidental, da segunda metade do século XX, mas que constituíram também o fim de uma certa classe operária, como a entendíamos no pós-fordismo, integrada em grandes fábricas e fazendo parte de uma infindável linha de montagem, tal como era representada nos Tempos Modernos, de Chaplin. Em Portugal, com todos os atrasos que nos são característicos, tivemos também um exemplo dessa classe operária. Estava localizada na margem esquerda do Tejo e era constituída pela Siderurgia, pela CUF do Barreiro ou pelos estaleiros da Lisnave e Setenave.
Esta classe operária foi destruída. Terceirizou-se ou reformou-se. O que resta dela são hoje os operários de bata branca da Auto-Europa, ou então foi substituída por trabalhadores de Leste, por africanos ou brasileiros.
No resto da Europa a situação não foi muito diferente. Os grandes partidos operários desapareceram. Do PCF e do PCI já quase nada resta. Thatcher acabou por destruir a ala esquerda do Labour inglês. A social-democracia alemã está hoje muito mais desfigurada do que a que existia nos tempos de Willy Brandt .
Tudo isto teve efeitos devastadores, por um lado, na composição da esquerda europeia, por outro, na organização das forças capazes de resistir à ofensiva neoliberal.
Por isso, custa-nos a perceber que um filósofo respeitável como Daniel Bensaïd, em entrevista à Visão História, Abril de 2008, possa afirmar que “os trabalhadores estão menos organizados e, por isso, menos capazes para resistir à brutalidade da ofensiva neoliberal. Mas, por outro lado, estão menos controlados por aparelhos e mais livres para lutas espontâneas.” Ou seja, de acordo com dados por fornecidos pelo entrevistado, a CGT tinha na altura “3 milhões de filiados, hoje tem menos de 700 mil, já contando com os reformados. O Partido Comunista tinha entre 20 a 25% dos votos e tinha o controlo, quase o monopólio, sobre a maioria dos trabalhadores. Por isso, entre estudantes e trabalhadores, em 68 havia um muro de desconfiança. Não era uma desconfiança espontânea, mas construída, principalmente pela CGT e pelo PCF. Hoje esse muro foi destruído. Isso é positivo”. Estranho que alguém, sabendo o que é a ofensiva neoliberal, e a dificuldade de resistência dos trabalhadores a essa ofensiva, possa ainda acreditar, em nome da espontaneidade das lutas, que a destruição dos sindicatos operários e dos seus partidos foi benéfica para combater essa ofensiva. (ver igualmente uma entrevista sobre o Maio de 68 de Daniel Bensaïd ao Rebelion ).

IV – Crítica à herança política do Maio de 68
Voltemos ainda às declarações de Fernando Rosas à Visão História, repetindo as suas afirmações finais: “toda a nova esquerda europeia só pode ser pensada em função desse momento original e genético que são as revoluções de Maio”.
Estou bastante em desacordo com esta afirmação. Primeiro como já o afirmei no ponto anterior, lamento não considerar como estruturante de uma nova esquerda a destruição das mais importantes centrais operárias, nem dos seus partidos, mesmo que isso corresponda a uma maior espontaneidade das lutas.
Segundo, que podemos nós hoje pensar da herança maoista, há muito renegada no seu centro de origem, e que constitui sem dúvida um dos piores momentos de sectarismo e de esquerdismo do movimento marxista, não correspondendo de modo algum a visão humanista e rigorosa dos seus fundadores.
Terceiro, que podemos nós hoje dizer, que interesse verdadeiramente à transformação social da Europa e à luta contra a ofensiva neoliberal, que tenha haver com o guevarismo – com a teoria do foco ou a criação de um, dois ou três Vietnames –, ou com o respeitável pensamento de Trosky, só provavelmente com a sua crítica à burocracia do antigo “socialismo real”.
Que pode hoje a esquerda, a que se reclama do Partido da Esquerda Europeia, retirar do Maio de 68 senão nostalgia e recordação dos bons velhos tempos. Politicamente, lamento dizer, mas Maio está morto desse ponto de vista. Hoje o nosso trabalho é outro. Temos que ir provavelmente apanhar os cacos daquilo que deixámos pelo caminho: Gramsci em primeiro lugar, o austro-marxismo, algum do marxismo ocidental, tão renegado pela ortodoxia soviética, Rosa Luxemburgo e a sua crítica ao centralismo bolchevique, provavelmente a Bukarine e a defesa do mercado no socialismo.
Por isso, afirmei em post recente “que bem exprimido o Maio de 68, na sua forma comemorativa e retórica, pouco nos deixou que verdadeiramente seja transformador das sociedades hodiernas”.
Considero que esta afirmação é discutível, e que se pode confundir com os ataques da direita. Contudo, penso que ao comemorar o Maio de 68 não o podemos reduzir a adorno da mediatização triunfante, que tudo transforma em espectáculo, ou de uma certa esquerda que dele se serve para ajustar umas contas com os antigos partidos comunistas. Tal como em todas as comemorações, temos que valorizar o que ainda hoje está válido e qual a sua contribuição para o processo transformador, tendo sempre em conta que o nosso discurso se integra na luta ideológica que quotidianamente travamos com a ideologia dominante.

02/05/2008

Ainda o Maio de 68


No meu texto sobre o Maio de 68 , que a Joana Lopes que teve a amabilidade de citar, fiz referência genérica a alguns livros publicados em França sob a égide do Partido Comunista Francês (PCF) relativos aos acontecimentos que se acabavam de se desenrolar.
Um deles chamava-se Mai des prolétaires, foi escrito por Laurent Salini, estava integrado numa colecção de livros de algibeira chamada Notre Temps e era das Éditions Sociales, que eu no post referido traduzi por Edições Sociais, uma editora ligada ao PCF, que já desapareceu. O livro foi publicado em Novembro de 1968, portanto muito em cima dos acontecimentos.
No capítulo final, dedicado Em direcção ao socialismo, numa tradução da minha autoria, é afirmado o seguinte:
…“longe de transformar as “regras estratégicas em princípios morais”, nós (PCF) lutamos contra os esquerdistas não porque eles fossem “a vanguarda do movimento de Maio”, não porque eles preparassem a revolução, mas porque ao voltarem-se contra o Partido Comunista e a estratégia que propõe, travam o caminho do nosso povo em direcção ao socialismo, ajudam a contra-revolução, abrem caminho às forças reaccionárias. Combatemo-los, não porque queiram, apesar da nossa iniciativa, incentivar a luta proletária, mas porque trabalham para a enfraquecer, desviando-a dos seus objectivos. Combatemo-los porque, à tentativa de encontrar novos caminhos para o socialismo, opõem dogmas mortos, transpõem de forma livresca tácticas válidas noutros locais, mas inaplicáveis aqui, copiam tristemente experiências inspiradas por situações diferentes da nossa.
E, já que falamos de estratégia – os estrategas são muitos neste momento nas ruas de Paris – o que é que se entende por uma estratégia revolucionária senão aquela que tende a juntar efectivamente contra a burguesia e para lhe retirar o poder, forças decisivamente superiores às do adversário e a este unicamente. Toda a tentativa de dividir o movimento, toda a acção que conduza a formas de luta extremas de uma única parte das forças que se devem unir no combate contra o grande capital, toda a acção que isole um grupo de combatentes é necessariamente nefasta. É criminosa. Sobretudo quando, aproveitando a inexperiência da juventude, quer-se lançar esta, ou seja, a geração que vai carregar com o peso principal das lutas do futuro, em aventuras, que, magoando-a, arriscam-se a semear entre ela a derrota e o desencorajamento e a afastá-la do combate popular.” E o texto continuava neste termos.
É evidente, que esta é uma linguagem de palha, muito comum ontem e hoje a algum movimento comunista, no entanto, este texto não deixa de reflectir o que pensava o PCF sobre o movimento esquerdista e aquilo que ele propunha aos estudantes, bem como o que nós comunistas portugueses, ou pelo menos alguns de nós, também pensávamos sobre o assunto. E ainda hoje, sem me rever nesta fraseologia, reconheço que bem exprimido o Maio de 68, na sua forma comemorativa e retórica, pouco nos deixou que verdadeiramente seja transformador das sociedades hodiernas.
Quando ainda recentemente, no programa Prós e Contras, Fátima Campos Ferreira queria comparar o “é proibido proibir”, do Maio de 68, com a má educação de uma jovem que queria impedir que uma professora lhe retirasse o telemóvel, podemos perceber o que aquela data significa para muita gente. Lamento, mas eu não alinho nesta onda comemorativista.
Se integrarmos o Maio de 68 no conjunto de fenómenos que pelos anos 60 atravessaram as sociedades capitalistas do ocidente desenvolvido, e até algumas do socialismo real, e os confrontarmos com a posterior transformação do capitalismo, poderemos talvez compreender melhor o que se passou naqueles anos e enquadrá-los numa verdadeira perspectiva histórica.

22/04/2008

O Maio de 68


De repente, senti-me interpelado pela Joana Lopes, do blog Entre as Brumas da Memória, a falar do meu Maio de 68.
O Maio de 68 apanhou-me ainda na Faculdade de Ciências. Curso “longo”.
À época eu era militante do PCP, portanto, tínhamos um grande cuidado em saber qual era a posição do PCF sobre o que se passava em França. Por outro lado, em Portugal, começava-se a travar um luta importante contra a deriva esquerdista que ia afligir o movimento estudantil nos anos subsequentes, agravada é certo pelo Maio de 68. Posso garantir que se este assunto foi falado entre alguma juventude universitária, nesses mesmos meses, a verdade é que as suas maiores repercussões se verificaram no ano escolar seguinte, com a queda do Salazar e a nomeação do Marcelo Caetano.
Entre estes dois factos passou-se também a Primavera de Praga, que só em Agosto desse ano se tornou quente, com a ocupação daquele país pelas tropas do pacto de Varsóvia.
Quanto ao Maio de 68, há pelo menos da parte dos jovens universitários comunistas um grande distanciamento em relação às movimentações estudantis, que considerávamos esquerdistas. Opúnhamo-las à responsabilidade dos operários, que aos milhões se puseram a fazer greve e que foram posteriormente apoiados e enquadrados pelos sindicatos e pelo PCF. Líamos muita literatura vinda das Edições Sociais, ligadas ao PCF, que em post posterior poderei referenciar, e que nos afirmavam categoricamente que os estudantes nunca seriam vanguarda de nada, nem eram capazes de fazer a revolução. Só a classe operária era depositária dessa possibilidade de transformação. Aceitámos portanto os acordos que os sindicatos fizeram com o patronato para conseguir melhores regalias sociais.
No entanto, fiquei sempre com a ideia, via Rádio Argel, que nunca fui capaz de confirmar, que o nosso PCP se tinha demarcado do PCF. Não sei se isto foi imaginação minha se de facto aconteceu. Sei que em debate recente no Vitória (PCP) ninguém foi capaz de confirmar esta minha suspeita.
Todos conhecem o final desta história. De Gaulle apela às tropas francesas localizadas Alemanha e um milhão de franceses, com Malraux à frente, desfilam nos Campos Elísios. O PCF e PS francês sofrem uma grande derrota eleitoral, confirmando aquilo que nós já dizíamos, que tudo não tinha passado de uma “anarqueirada”, para utilizar a célebre expressão de Bento Gonçalves.
É evidente que para alguns de nós outras esperanças despontavam a leste. Conhecíamos pelas revistas o novo cinema checo (eu era dirigente do cine-clube universitário - CCUL), sabíamos que uma época de renovação e liberdade se abria naquele país. Acreditávamos, alguns de nós, na possibilidade de renovação do paradigma socialista. Eu estava de férias, na praia, quando soube da ocupação de Praga. Indignei-me. Tinha saído de Lisboa com a convicção, partilhada com mais camaradas, que os checos iam no bom caminho. Eis senão quando, em Setembro, chego a Lisboa, e a palavra de ordem do Partido era apoiar a invasão. Valeu-nos nessa altura uma célebre carta, não me recordo a quem era dirigida, de Fidel de Castro, a justificar a invasão e a falar da atitude egoísta de alguns países socialistas que queriam ganhar dinheiro com a ajuda a Cuba: referia-se à Jugoslávia. Penso que também tenho um livrinho, que saiu nessa altura, com estas discussões. Aceitámos pouco convencidos, mas sem dúvida pensando que tinha sido derrotado um perigoso desvio direitista.
Neste ínterim, Salazar cai da cadeira e Marcelo é nomeado. O movimento associativo estudantil ganha uma nova dinâmica. Pelo menos, na Faculdade de Ciências, o novo Governo autoriza que haja um processo eleitoral para instalar de novo a Associação de Estudantes, eleita pelos seus sócios, pois estava a ser regida por uma Comissão Administrativa nomeada pelo Governo.
É nesta perspectiva que o Maio de 68 se começa a fazer sentir. Para a Reunião Inter-Associações (RIA), que agrupava todas as Associações Estudantis de Lisboa, é eleito no princípio do novo ano escolar um novo Secretariado, de que faziam parte o Alberto Costa (o actual Ministro da Justiça), à época militante do PCP, o Jaime Gama (Presidente da Assembleia da República), e ligado, julgo eu, à linha PS, o Serras Gago, não sei o que é feito dele, e a Teresa Melhano, boa amiga que há muito tempo não vejo.
Logo no início as Associações pretendem confrontar o novo Governo com a agitação estudantil e por isso são lançadas algumas manifestações e contestações. Sei que não tiveram êxito, mas que levaram a uma situação caricata, que está relacionada com o Maio de 68. Jaime Gama, em nome do Secretariado da RIA, devia levar a um plenário um moção de convocação de uma manifestação. Não o fez e a moção ficou sempre no seu bolso. Era inevitável a sua demissão do Secretariado. O seu discurso de justificação pela atitude tomada começou assim: “Lisboa não é Nanterre” e depois partia para outros considerandos de que eu já não me recordo.
Quanto às eleições em Ciências, a influência do Maio de 68 começava-se a fazer sentir. Foi criado um mural onde todos podiam escrever o que lhes apetecia. Nada disto se passava anteriormente. Os discursos dos candidatos, principalmente dos mais jovens, o que não era o meu caso – fui candidato a vice-presidente – eram muito mais soltos, os temas de Maio começavam a fazer o seu percurso. Era possível fazer reuniões, que provavelmente teriam um nome especial, de acordo com a linguagem do Maio francês, por tudo e por nada. Muitos dos participantes, alguns chegados mesmo de França reclamavam-se da míriade dos pequenos partidos existentes entre os estudantes franceses. Tive dificuldade em adaptar-me a este novo estilo, fui considerado um revisionista de direita e progressivamente fui-me afastando da Associação.
Tempo depois e na linha do Maio de 68 rebenta a crise académica em Coimbra.
Tenho a certeza que depois de Maio, e com o atraso típico de Portugal, a Universidade não foi a mesma. Já em 69, penso que no final do ano lectivo 68/69, o Secretariado da RIA cai e o Arnaldo de Matos é eleito para ele. Em Ciências nunca mais ninguém do PCP pôs os pés na Direcção da Associação de Estudantes. As direcções seguintes eram na sua totalidade “esquerdistas”. Mesmo, o “pobre” cineclube que durante tantos anos tinha sido influenciado pelo PCP acaba os seus dias com direcções do MRRP.
Penso que o Maio de 68 esquerdizou de forma irreversível, até ao 25 de Abril, o movimento estudantil. Quanto às liberdades de género, sexuais e outras, penso que, desde 62-64, elas se foram progressivamente introduzindo no estrito universo universitário, tendo-se alargado por esta época. Mas ainda me recordo que havia alguns jovens que tinham sérios problemas com os pais, que não os autorizavam a passar noites fora de casa ou mesmo a poderem sair à noite.
Estas recordações feitas de chofre, sem recurso a papeis ou a bibliografia, poderão vir a ser completadas se para tanto acharem qualquer interesse nestas minhas memórias.