08/06/2009

Em contra ciclo. A subida da Esquerda


No post em que declarava o meu sentido de voto escrevi: Se, como forma de protesto, o Bloco e o PCP tiverem muitos votos ou o PSD ganhar, ninguém se importa muito com isso. É mais um deputado num Parlamento tão distante, que nem percebemos qual a sua função. E a derrota do PS, para quem não é ferrenho deste partido, corresponde a uma suave alegria.
Quando escrevi isto não pensava que este meu desejo se iria realizar completamente. E foi tão exagerado o modo como se cumpriu, que hoje até tenho medo que o meu pedido tenha ido longe demais.
E porquê, sendo as eleições europeias uma disputa a feijões, era necessário mostrar ao Governo de Sócrates que ele não era benquisto e esta era a melhor altura para o fazer, dadas as poucas implicações que isso teria na real governação do país. Ora o que sucedeu foi que o trambolhão do Sócrates foi tão grande que nos arriscamos, contra o que se esperava, a termos a Manuela Ferreira Leite, do PSD, em Setembro, aliada ao seu parceiro de sempre Paulo Portas, do CDS. Este é um perigo real que resulta destas eleições. Se a votação do PSD não assusta ninguém, já a sua soma com a do CDS chega exactamente aos 40%, o que, entendamos, é bastante perigoso.
Por isso, tal como já tinha escrito, acho que o PS em Setembro deve perder a maioria absoluta e ganhar por um ou dois deputados, o que o obriga a negociar. Se o fizer à direita provoca a sua implosão, à esquerda, pode abrir uma perspectiva de solução para a crise. O Sócrates no entanto não pode continuar, a esquerda nunca o aceitará.

A derrota do Sócrates/Vital Moreira nestas eleições é de facto histórica só comparável aos resultados das eleições de 1985, em que o PS teve 20,77 %, devido ao aparecimento do PRD. Agora teve 26,57 %. Este resultado vem confirmar aquilo que era visível na população portuguesa, já ninguém suportava a arrogância deste Governo e do seu Primeiro-Ministro e apaniguados. A queda foi brutal e merecida, pena foi que os votos que perdeu não se deslocassem todos para a sua esquerda.

Um dos casos mais espantosos de actual situação portuguesa, que irrita toda a direita e a põe em pânico, é de que a fuga de votos do centro-esquerda não foi para extrema-direita, mas sim para a esquerda, à esquerda dos socialistas.
Fazendo umas contas simples verifica-se que as perdas do PS se distribuem igualmente pelos conjuntos CDS/PSD (cerca de 295 000 votos) e BE/PCP (cerca de 284 000), com grande significado para o primeiro partido deste último conjunto.
Verifica-se pois que a especificidade portuguesa, muito dela, ao contrário do que a afirma direita, que a justifica com o atraso português, devida ainda à herança do 25 de Abril, não tem permitido o aparecimento de uma extrema-direita, apesar do CDS a poder representar, e facilita o desenvolvimento e a manutenção de uma esquerda com projectos alternativos à lógica capitalista.
Por isso, lá ouvi mais uma vez o politólogo Maltez afirmar, na TSF, que Portugal se encontra infelizmente em contra ciclo em relação ao resto da Europa. E ainda bem. Ao contrário da civilizadíssima Europa, a solução para a crise não será cavalgada pela extrema-direita, mas sim, espero eu, pela esquerda anti-capitalista.

Não gostaria de terminar sem uma referência muito especial ao Bloco de Esquerda. Hoje este partido, e esperemos que se mantenha assim, é de facto um aglutinador possível para o aparecimento de uma alternativa à governação do bloco central.
Apesar de alguns defensores do PCP virem mais uma vez a falar dos grandes êxitos alcançados. O que vemos é este partido, não desaparecendo, como a direita gostaria que sucedesse, não ultrapassa uma mediania satisfeita. O seu crescimento é pequeno e anda há anos a tentar crescer qualquer coisa que se veja e não consegue. Por outro lado, a sua distribuição continua a ser extremamente regional. Tem força, como se viu nos distritos de Évora, Beja, Setúbal e até em Lisboa, onde ficou à frente do Bloco, mas no resto do país fica sempre atrás do Bloco. Hoje, este partido não só tem vindo a subir significativamente, agregando grande parte da esquerda descontente, como se distribuiu igualmente por todo o país. O Bloco, ao contrário do PCP, pode ser hoje um pólo agregador de um conjunto de cidadãos que, não se revendo nas políticas neo-liberais dos governos do bloco central, querem uma saída de esquerda para esta situação. Esperemos que o PCP compreenda alguma vez isto e que o seu tempo, como o grande partido histórico da esquerda em Portugal, está a passar e que novas esquerdas, mais dinâmicas e sem o peso do passado, o estão a substituir. Por isso o passo no caminho da unidade é indispensável

16 comentários:

Anónimo disse...

O BE é Marxista?Desenvolva o tema sff e,se puder...

F. Penim Redondo disse...

Com 63% de abstenções todos os cenários são teóricamente possíveis mas é preciso tomar estes resultados com parcimónia e evitar extrapolações baseadas no entusiasmo do momento.

O BE mais o PCP tiveram, em conjunto, menos votos do que o PCP dos velhos tempos.
Ninguém consegue imaginar, dada a rivalidade entre eles, que pudessem participar os dois, simultâneamente, numa solução de governo.
O que implica à partida para as legislativas 26(do PS)+10(do BE) contra os 40 da direita. Mas, como já disse, temos 63% que nada disseram no Domingo.

VÍTOR DIAS disse...

Magnifico, Nascimento Fernandes, este passo: «Apesar de alguns defensores do PCP virem mais uma vez a falar dos grandes êxitos alcançados. O que vemos é este partido, não desaparecendo, como a direita gostaria que sucedesse, não ultrapassa uma mediania satisfeita.»

Nas condições concretas portuguesa, não é «grande êxito ter mais 70 mil votos, mais 1,5%, voltar ao dois digitos e, ponto sempre esquecido pelos que agora sóo pensam em eleições, juntar isto com uma incomparável enraizamento social e intervenção na sociedade portuguesa.

Espantoso Nascimento Fernandes, não perceber que partir de baixo e chegar aos 10% é muito mais «fácil» (entre comas) do que ter 7,8 ou 9, e passar para 14%.
Se ambos, como desejo estivermos vivos, vamos então esperar pelos 14% do BE em 2014 e pelos seus 18% em 2019.

Ou então, concluir que, mais coisa menos coisa, todos podem ter de patinar à volta de um certo patamar.

Jorge Nascimento Fernandes disse...

Caro Fernando
Como eu disse logo no início estas eleições são como um jogo a feijões, o voto útil se encarregará de modificar quase tudo isto. No entanto as ilações que eu quero tirar daqui são as seguintes:
1º A soma PSD/CDS chega aos 40 %, com algum esforço e inabilidade do PS pode sair vencedora. Ora não era isto que eu queria. Bastava só um cartão vermelho.
2º A derrota do PS não sendo definitiva, é no fundo muito pesada, só comparável ao ano de 1985.
3º Ao contrário do que se disse para a Europa a nossa esquerda, que alinha no mesmo grupo do Parlamento Europeu subiu para 5 deputados o que é notável. Pode-se considerar uma especificidade portuguesa a inexistência de uma extrema-direita xenófoba e a subida da esquerda, à esquerda do PS.
4º A grande subida com contradições, que se irão manifestar nas próximas legislativas de um partido, BE, de um partido de esquerda. O que já leva as pessoas a falar de um caso para ser estudado. Basta ter ontem assistido aos discursos do Jerónimo e do Louçã para se ver a grande diferença que há entre um e outro. E isto quer se queira, quer não, tem um significado. Pode pronunciar uma substituição histórica na esquerda portuguesa.
5º A ideia mítica que o PCP chegou aos 20% só aconteceu em autárquicas, por um pequeno período. A partir da criação do PRD, que foi inspiração do PCP, o declínio deste partido tem sido irreversível. Ou seja nunca a esquerda teve uma votação tão alta.
É partir deste dado que se podem começar a desenvolver hipóteses.

Anónimo disse...

Cito:
"Se a votação do PSD não assusta ninguém, já a sua soma com a do CDS chega exactamente aos 40%, o que, entendamos, é bastante perigoso."

Estes resultados não são directamente extrapoláveis para as legislativas. Aqui a bancada esteve a assobiar o treinador, esperando que tenha mais juízo, mas sabendo que não seria por isso que ia já embora.

Nas legislativas o ponta de lança Rangel vai ser substituído por uma desastrada defesa central que terá de ser acompanhada por um interprete que traduza para o psdes politicamente correcto as gafes da senhora. Então, só em pensar que o treinador agora assobiado será substituído por tal personagem fará arrefecer os ânimos dos mais exaltados.
Com o desgaste deste centrão, a estratégia esboçada por Vital no discurso de ontem, acenando com os perigos do regresso da direita, já não colhe.

O PS não pode continuar a dizer votem em nós pelo que não somos, nem o PSD a dizer: votem em nós porque não somos como o PS.

O centrão está gasto, sem soluções e a instabilidade vai ser enorme.

J Cavalheiro

Jorge Nascimento Fernandes disse...

Em resposta a Vítor Dias

Em primeiro lugar, e porque o citei num recente post sobre a ausência de comentário sobre as eleições em período de recolhimento, que você diz que é por convicção democrática, queria-lhe dizer que pensava escrever um post em que criticava essa posição, que não é só sua, mas hoje, depois das eleições, não me sinto com coragem para o fazer. Mas penso que não é isso que nos separa. Esta é uma mera questão de pormenor.
Quanto aos pontos que levanta, eu, que já ando nisto há tanto tempo como o Victor Dias, mas sem a sua responsabilidade política, acho que há muito o PCP vive limitado a um certo patamar que não consegue ultrapassar, mesmo que umas vezes tenha mais votos e outras menos. É evidente que a interpretação para isto é diferente. E aquilo que eu quis dizer foi que o Bloco tem vindo a crescer em grande velocidade, vamos a ver se não se estatela, e por outro lado tem uma distribuição homogénea no todo nacional, ao contrário do que sempre sucedeu com o PCP que é um partido de áreas geográficas. Por estas razões poderia ser um aglutinador da esquerda em Portugal. Daí o meu apelo final à unidade.
Quanto ao crescimento do Bloco, que segundo a sua perspectiva pode ficar num certo patamar e não crescer, é uma questão de fezada. Como provavelmente eu não estarei cá nos anos que você indica, não poderei comentar consigo na altura se a sua fezada é melhor que a minha.
Quanto ao enraizamento social do PCP é uma evidência, simplesmente é por eleições, exceptuando em situações revolucionárias, que ninguém antevê, que, no essencial, a questão do poder se discute. Mas isto levaria a uma longa discussão para qual eu já dei alguma contribuição com o texto que indiquei no seu blog a propósito da chegada do Álvaro Cunhal a Portugal, depois do 25 de Abril.

Quanto ao José Cavalheiro
No essencial estou de acordo com o que dizes, só que eu, por qualquer preconceito intelectual, não percebo, nem me interesso por bola, por isso as referências que fazes são para mim, não digo chinês, mas talvez alemão.

F. Penim Redondo disse...

Caro Jorge, acho que não percebeste.

Eu contesto é tu dizeres "nunca a esquerda teve uma votação tão alta", é uma ilusão de óptica.

Em 1985, por ex., nas legislativas a APU teve 898.281 votos, o que é mais do que o BE e PCP juntos nas europeias de 2009 (não chegaram a 400.000 cada).

Jorge Nascimento Fernandes disse...

Caro Fernando
Reconheço que não deixas de ter alguma razão, simplesmente, se a votação real é importante, as percentagens em função do universo votante também o são. É por isso que muitas vezes se discute só percentagens e não votos, apesar de eu reconhecer que, por vezes, é necessário fazer algumas contas e tu, ainda bem, fizeste-as.

operário em luta disse...

-Eu, desenvolvo pois então.
-O BÈ é marxista?
R:Cruzes canhoto, isso do marxismo tem peso histórico afasta do BÈ esse cálice.-O BÈ é a esquerda moderna sem história a "esquerda plural"
São assim como um substituto para casos de emergência -e tal - enfim são o resultado da A luta dos poucos com muito, contra os muitos com muito pouco .
Mas onde li isto? -Porra; que a guerra vêm de longe, é mais velha que a sé de Braga.Para já são só 0,05 mas é só para já se a coisa azedar podem muito bem pegar na criança ou colo de dar-lhe muita mais farinha maezena...

Anónimo disse...

Perguntei ao sr. se o BE é Marxista, ou tem nojo de responder,ou não sabe....
Ou a politica não é paar ser levada a sério e essa coisa da teoria não é pra levar a sério,logo basta ter fé(se calhar,'qdo lá estiver também me oriento como estes gajos').
Só não percebo é que o sr ser biólogo e não ter base da teoria dos genes...é como um engº electrotécnico não se baseasse nas eq de James Maxwell,os fisicos na teoria da Relatividade-sobre Einstein vá a resistir.info ler artg de Albert Einstein sobre a sociedade.
AH!mas resistir.info deve-lhe cheirar a comunistas apesar de ser o órgão difusor mais completo,mais justo,mais abenegado em prole dum mundo melhor-e,diz-me você-o que pode ser melhor q o Porche de Dias loureiro,um granda democrata?

Anónimo disse...

O silêncio 'tumular'(salvo seja)diz tudo o que não se pode dizer.Pode-se dizer que o BE tem tabus-um deles,é este!Touché!
Contando com a abstenção o PSD teve apenas 11.9%,o PS 10%, a CDU e o BE 4% e o CDS 3.1%-ISTO É QUE É PARA DEBATER !DE resto é onanismo

operáro a caminho de Delphos disse...

-Pois, mas isso era se abstenção contasse se houvesse mandatos para abstenção se...assim fosse era a mesma coisa pois não consta que cadeiras vazias valham alguma coisa... claro que também se tinha de contar com os que tivessem morrido depois da limpeza anterior e pedir-lhes opinião -talvez fossemos obrigados a consultar o Oráculo de Delfos, para saber das opiniões dos vivos e dos mortos.
quando eu me abstenho nas reunião da cooperativa - olhe abstenho-me prontos.

operário no microscópio disse...

o problema é outro o problema é que o senhor doutor não está interessado em causar mossa ao Berloques ...não lhe interessa para nada a ética na politica isso era dantes há umas semanas atrás pedi ao senhor doutor para comentar o trabalho dos eurodeputados que findavam os seus mandatos e ....népia o caro senhor fez ouvidos de mercador... ou melhor de biólogo mandando pró complexo de Golgi a questão...

Anónimo disse...

Estou mui contente com esta nossa discussão politico-teorica.Os srs. do BE são mui prá-frentex,muito abertos é um club de entelecetuais, a bem dizer.A vossa profunda concepção da sociedade até me causa pele de galinha.Mas, Dr. pq é q o Miguel Portas teve um score(tá a ver?também sei amaricano)baixissímo,deplorável,miserável-deve ter andado a fumar ganzas de modos que andava sempre com a 'touca' o que não dava para levar à prática os comprimisos para com o eleitorado feito através das promessas,patati-patata.
Outra sr. dr.,fui votante do BE desde o princípio até às penúltimas eleições e tenho mais que fazer(fica para a próxima q'esta é sobre a democracia e o seu xistema(sic!) justo!

Anónimo disse...

3Ganda fórum de discussão.É esta a Nova esquerda!!!!É só fezadas....ahahahahahah.Com estes gajos não vamos a lado nenhum!

Anónimo disse...

Rosa Luxemburgo,conhece Dr?Não,não é essa do judo....
Deplorável.