
Na altura ainda pensei entrar na onda, simplesmente ou estas coisas se escrevem na data própria ou então deixam de ter sentido. Foi isso que sucedeu. Simplesmente, foi posta recentemente à venda uma nova edição do livro de Paul Preston, A Guerra Civil de Espanha (2011, Edições 70). Sucede que o comprei e o li de uma penada. Como gostei, achei por bem, mesmo com atraso, voltar ao tema falando do livro.
Penso que a tradução portuguesa é feita a partir da última edição inglesa de 1996, publicada na passagem do 60º aniversário do início da Guerra Civil. O livro na sua versão em inglês chama-se Uma História Concisa da Guerra Civil Espanhola, o que explica a ausência de bibliografia, de referências onomásticas e a descrição abreviada dos acontecimentos. Não se compara, em pormenor, com os livros que há muitos anos li de Hugh Thomas, uma edição da Ulisseia, ainda do tempo do fascismo, e o muito citado La Révolution y la Guerra de España, de Pierre Broué e Émilie Témine, numa tradução para castelhano, em dois volumes, editada no México, em 1962, pelo Fondo de Cultura Económico.
O livro de Paul Preston não nos engana ao que vem. Logo na Introdução declara que apoia os republicanos e denuncia os crimes do franquismo e a manutenção da sua ditadura até aos anos 70. No entanto, não escamoteia a realidade complexa da zona republicana e dos equilíbrios instáveis entre as diferentes forças que compunham a Frente Popular que governou a República durante a Guerra Civil, nem os desmandos e desordens iniciais ou as perseguições posteriores feita pelos comunistas do PCE e do PSUC (os comunistas da Catalunha), da polícia secreta soviética e de alguns socialistas moderados às organizações já anteriormente referidas: FAI, UGT e POUM.
Paul Preston toma igualmente posição perante o dilema, que atravessou a República, as memórias dos seus participantes e ainda hoje fornece material abundante para discussões mais ou menos sérias que por vezes aparecem na blogosfera nacional (ver aqui e o post já referido do Vias de Facto), ou seja, a opção entre guerra ou revolução, tomando aquele autor partido pela guerra.
Para se compreender o que está em causa eu resumiria assim o problema: uns defendem os comunistas e a URSS por terem privilegiado a ordem e vitória na guerra e outros acusam aqueles de traírem a revolução ao optarem primeiro pela vitória na guerra e só depois, se houvesse condições para isso, fazer a revolução.
Paul Preston logo na sua Introdução (pag. 21) não é meigo parar com aqueles que defendem a “revolução”. Diz ele: o debate sobre a “guerra ou revolução” tem ocupado os simpatizantes republicanos incapazes de aceitarem a derrota da esquerda. Durante o período da Guerra Fria, a noção de Estaline ter abafado a revolução em Espanha, ajudando a vitória de Franco, foi propagandeada com sucesso. Várias obras sobre a Guerra Civil de Espanha foram patrocinadas pelo Congresso para a Liberdade da Cultura, entidade financiada pela CIA, a fim de disseminarem essa ideia. O sucesso de uma aliança espúria entre anarquistas, trotskistas e combatentes da Guerra Fria eclipsou o facto de Hitler, Mussolini, Franco e Chamberlain serem os responsáveis pela vitória nacionalista, e não Estaline. Eu não diria melhor.
Em próximo post voltarei ao assunto, referindo-me a outro livro, já não tão recente como este, mas bastante interessante não só pelo seu conteúdo reaccionário, como a uma recensão que suscitou na blogosfera. Estou-me a referir ao livro de Stanley G. Payne, A Guerra Civil de Espanha, a União Soviética e o Comunismo, de 2006, da Ulisseia (agora já nas mãos da Leya).
2 comentários:
Pois é, ou se comemora na altura ou então... De qualquer maneira, três sugestões de leitura a juntar modestamente às tuas. Uma de carácter geral do Antony Beevor, The Batle for Spain, e do Orwell a Homenagem à Catalunha (relata os episódios passados em Barcelona opondo o POUM ao governo da Frente Popular e q referes no teu post) e Recordando a Guerra Espanhola. Como gosto de imagens, as fotos do Robert Capa e de Gerda Taro. Noutro registo, o "Viva la Muerte" do Arrabal, é já outra coisa, eu sei. Falta a música, aqui vai :
http://www.youtube.com/user/carlosgardel70#p/a/u/1/gX1QhvXeVkI
Caro Packard
Obrigado pelo teu comentário. Eu não pretendia ser exaustivo, nem fazer uma lista de temas ligados à Guerra Civil espanhola. Fiz uma recensão a um livro e comparei-o, em termos de pormenor histórico, com outros dois que tinha lido e que de facto são bastante conhecidos. As tuas sugestões são bem vindas. Em relação ao livro do Antony Beevor gostaria de escrever qualquer coisa. Li a tradução portuguesa da “Queda de Berlim” e, apesar da enorme quantidade de informação nele contida, fiquei com a ideia de que havia uma deliberada intenção de apoucar os soviéticos, o que não gostei. Já li qualquer crítica ao seu livro referente à Guerra Civil espanhola e daquilo que me recorda é que o autor pertence àquela categoria de historiadores que pretendem deslegitimar a República, pondo-a ao mesmo nível que os insurrectos fascistas, assunto que será tratado por mim no post a seguir. Quanto aos livros do Orwell eles são citados, a propósito da canção Ay Carmela no post, que eu refiro, do Miguel Serras Pereira, bem como o episódio do POUM.
Faltou de facto uma fotografia do Capa, por exemplo, aquela do miliciano a ser atingido por uma bala inimiga, mas optei, porque era disso que o post tratava, pela capa do livro de Preston. Quanto à peça do Arrabal, se é a que eu penso sobre o bombardeamento de Guernica, vi-a recentemente representada por um grupo amador, em Sines. O grupo não era famoso e a peça pareceu-me um pouco datada. Quanto ao site da música vou ver se num próximo post aproveito algumas das músicas. Já conhecia e gosto muito daquela “Si me quieres escribir”, pode ser que a publique.
Um abraço
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