25/01/2011

A quadratura do círculo ou da impossibilidade de se ganhar estas eleições

Há tempos escrevi num post (6/11/10)  “De facto a situação está muito complicada e eu não gostaria de ignorar esta situação. Com um PS claramente comprometido com o centrão, ou mesmo com as políticas de direita, não há nenhum candidato de esquerda, mesmo independente e super partidário, que resista a que uma das suas bases de apoio não só não esteja nada interessada na sua eleição, dado que isso provavelmente só iria irritar os “mercados” internacionais a que ela está atada de pés e mãos, como esse facto inverteria a sua lógica de apoio à formação do um bloco central.
Se o candidato não perceber esta situação e continuar a tentar trazer todo o PS atrás de si está condenado à derrota mais clamorosa.
Não quero ser profeta em casa própria, até porque depois me envolvi, e bem, na campanha do Alegre escrevendo alguns post para um blog de apoio, Alegro Pianíssimo, no entanto, já pressentia que alguma coisa de mal poderia acontecer.
O problema central desta candidatura, é de que as eleições se realizaram no pior momento. Não era possível esbater uma das piores ofensivas contra os trabalhadores e simultaneamente fazer apelo à luta contra a ofensiva da direita se Cavaco ganhasse as eleições. Isto não era credível aos olhos do eleitorado. Por isso Cavaco, num rábula que já lhe tinha rendido em 1985, quando se soube distanciar do Governo de Bloco Central, apareceu em algumas das iniciativas da campanha como o chefe da oposição. Acalentou as manifestações do ensino privado contra os cortes nos subsídios. Deu apoio às manifestações contra o encerramento do metro da Lousã. Oh! Descaramento dos descaramentos, achou injustos os descontos no salário da função pública, depois de ter acabado de aprovar o orçamento que as autorizava.
Alegre só podia ter mais votação e quem sabe ganhar as eleições, se fizesse a fronda de todos os descontentamentos. Houve alguns brincalhões que se entretiveram na blogosfera a descobrir discursos de Alegre contra o Cavaco que se poderiam aplicar ipsis verbis contra Sócrates e, no entanto, ele só se ficava pelo primeiro.
Por outro lado, Alegre não era o candidato do PS, da família e das redes de compromissos estabelecidos. Por muito que a determinada altura se pensasse que o PS tinha posto a sua máquina ao seu serviço, a verdade é que se sabia que aqui e ali os responsáveis não apareciam, Em Setúbal Victor Ramalho, o responsável pela concelhia, nunca pôs os pés numa reunião.
Porque apoiou o Bloco Alegre, porque este representava a ala esquerda do PS, que é o eleitorado onde o Bloco poderá ir captar gente. Ficará o Bloco irremediavelmente ligado a esta derrota? Espero bem que não.

E os outro candidatos. Sobre Cavaco, já sabem o que penso, o conjunto abundante de post que redigi contra ele, dão bem o ódio que lhe voto e o discurso da noite das eleições revela bem o carácter mesquinho de tal personagem. É evidente que a vitória dele se deve a aparecer como o anti-Socrates e, por outro lado, ser um referencial da estabilidade e a possibilidade de arrebanhar toda a direita, que nestas coisas não tem os escrúpulos da esquerda e sabe em quem deve votar.

Nobre só em pequena parte representou aquilo que Manuel Alegre foi nas eleições presidenciais anteriores. Aí provavelmente com um pouco mais de esforço ele tinha juntado todos os descontentes com o estado a que isto tinha chegado. Nestas eleições, o discurso de Nobre foi completamente redondo, apelando a uma luta contra os partidos e a vida política nacional sem o mínimo de conteúdo. Vítor Dias lembrou, e bem, como em 76, um homem moribundo, a definhar num leito do hospital, Pinheiro de Azevedo, teve 14 e tal por cento, só porque - agora a interpretação já é minha - as pessoas não sabiam a onde ir votar. Concorriam nessas eleições Ramalho Eanes, apoiado pelo arco governamental: CDS, PSD e PS, Otelo pela extrema-esquerda e Octávio Pato, uma candidatura inventada pelo PCP, para não apoiar Otelo e não hostilizar Ramalho Eanes.
Já que a determinada altura me envolvi  com o Vítor Dias em polémica sobre o voto útil nas primeiras volta destas eleições. Gostaria agora de fazer a pergunta que na altura fiz: e se por um pouco mais de votos fosse o Nobre a passar à segunda volta, que faria o PCP depois de, no seu jornal ,o ter classificado como fascista? Coisa que diga-se de passagem, não sendo completamente verdade, tem algum fundo, vejam-se  as palavras de Nobre no debate com Francisco Lopes.

Quanto a Francisco Lopes não tenho nada a dizer. É sempre a mesma apagada e vil tristeza, mais 1% votos, menos 1% de votos e a incapacidade de arriscar para se sair disto.

Parece que houve para aí uns rapazes que foram votar no Coelho convencidos que ele era o candidato da esquerda. Se há uma coisa que aprendi ao longo dos anos de militância comunista é não me deixar arrastar pela inconsequência política. Pode ser que o homem até seja uma plataforma de oposição ao jardinismo. A ver vamos.

Vencendo Cavaco e completado este ciclo de impossibilidades de dissolução do Parlamento, agora é que começam as coisas complicadas, primeiro para o povo português e depois para os parlamentares. Vamos a ver quem politicamente tem unhas para tocar guitarra.

22/01/2011

Elogio ao camarada morto

Tinha falado com ele pelo telefone há dois ou três dias, disse-me que estava a tomar antibiótico para uma tosse horrível que o atacava, já tinha dificuldade em andar e falar. Respondi-lhe que iria arrebitar. No Domingo chegou, pela voz do Mário, a notícia de que tinha morrido naquela manhã, às 10h 30. O seu nome de guerra era Quim João, na vida civil chamava-se Joaquim João dos Santos Brás.

Conhecemo-nos no Liceu Gil Vicente, não sei quando, mas pelo menos tenho a certeza que no 6º e 7ºano eu estava na cadeira da frente e ele na de trás. Começou aí a nossa amizade, tinha eu 16 anos e ele 15.
Provavelmente, por incentivo meu, apareceu no grupo que se reunia, entre as 7 e as 8h da tarde, num gradeamento que ficava ao cimo da Angelina Vidal, do lado de quem vira para a rua da Graça. Por vezes era em frente, junto a uma venda de jornais, que nessa altura estavam arrumados em cima do passeio. Toda essa zona tinha o nome de Quatro Caminhos, que resultavam do cruzamento da Angelina Vidal, com a rua da Graça, Sapadores e Penha de França. Reunimo-nos aí bem mais de dez anos, até que a vida nos dispersou: casamentos, tropa, prisões, novas moradas, exílios, enfim a vida.
aqui tinha feito a descrição deste grupo.

Nos finais do nosso 7º ano, admitamos Primavera de 1961, por sugestão do pai do Mário, começamos a frequentar uns colóquios que se realizavam na Cooperativa dos Trabalhadores de Portugal, ali às Escadinhas do Duque. A primeira a que assistimos foi de Alberto Ferreira, sobre filosofia, já se sabe que encapotadamente sobre filosofia marxista. A sua importância sobre o meu espírito em formação foi tão grande que rapidamente ultrapassei a filosofia de António Sérgio, nessa altura un mâitre-à-penser para os jovens democratas da minha geração, e me aproximei rapidamente do marxismo. Sobre estas conferências já falei aqui.
Só gostava de acrescentar um pequeno episódio picaresco. No regresso a casa, sempre a pé, passava-se pela Praça do Chile e ia-se beber um copo de vinho verde à pressão, acompanhado de torresmos. Recordações da juventude!

No final do Verão de 1961, antes de entráramos para as diversas faculdades que cada um ia frequentar, o Quim João foi para o Técnico, Engenharia Civil, eu para Ciências, outros para Direito, chegou-nos de Paris um pândego, e digo isto hoje, porque na altura não tínhamos a clara consciência da vacuidade desta personagem, nosso colega no liceu, que vinha credenciado para organizar um grupo oposicionista aqui em Lisboa. Levámos a sério o convite e começámo-nos a reunir, tentando juntar novos amigos. Recolhemos fundos, muito poucos, comprámos ou deram-nos uma caixa de lápis vermelhos que escreviam nas paredes e eu e outro ainda andámos a apreçar uma máquina de stencil, objecto hoje pré-histórico, mas que era o único que nos permitia reproduzir centenas de comunicados. Rapidamente nos demos conta da inutilidade da nossa acção. Por muito que nos organizássemos éramos sempre uma gota de água no oceano e já havia outros a fazer o mesmo. O tal pândego nunca nos indicou quem eram os seus mandantes. Assim, ao fim de algum tempo acabámos a fazer conferências de aprofundamento ideológico. Esta experiência está também já relatadas no post anteriormente assinalado.

Em 1962, em 24 e 25 de Março, ia ter lugar o Dia do Estudante. Os episódios do primeiro dia já eu os descrevi aqui. Aí relato a agressão policial ao Quim João e a sua posterior prisão à saída do Hospital Santa Maria, onde se tinha ido tratar. A confirmação da história pelo próprio está num PS. aqui. A partir daí este meu amigo tornou-se um homem “politicamente suspeito”. Soube-o quando foi informado pelo aspirante que comandava o nosso pelotão em Mafra, que nos últimos dias de instrução o chamou a ele e, vejam lá, ao Correia de Campos, o ex-ministro do PS, que agora mostra simpatias por Cavaco Silva, para lhes transmitir essa informação, garantindo-lhes que ele não era polícia e que por isso não tinha que prestar informações à PIDE. Era o 25 de Abril já a despontar. Já agora, acrescento que fizemos juntos, em Mafra, os três primeiros meses de tropa. Pertencemos à incorporação de Abril de 70.

Mas a nossa maior experiência e que nos marcou para a vida inteira foi a nossa actividade no Cine-Clube Universitário de Lisboa (CCUL). Ele entrou mais cedo do que eu. Foi juntamente com o Mário oferecer-se para colaborar. A primeira tarefa que lhe deram foi arranjar mil envelopes e os respectivos selos para enviar uma circular aos sócios. Pensou que era simples. Na primeira capelista que entrou a pedir mil envelopes, deram-lhe para aí uns 50 e foi com muita sorte. Reunir os mil foi uma aventura. Chegou com eles, orgulhoso, ao cine-clube, ninguém lhe agradeceu aquele esforço. Continuou a trabalhar. No ano lectivo de 1967/68 torna-se seu presidente e inicia a época com um ciclo sobre cinema americano, que foi a sua glória, em que se destacam As duas feras, de Howard Hawks, A Corda, de Alfred Hitchcock, Serenata à Chuva, de Stanley Donen e Gene Kelly, Pistoleiros da Noite, de Sam Peckinpah e Jerry 8 ¾, do próprio Jerry Lewis, isto depois de um ano agitado em que tinha havido uma cena de pateada, relatada por mim aqui.
É evidente que o Quim João também tinha que estar presente quando da invasão do Cine-Clube pela PIDE. Ver aqui. No episódio que relato, de os pides nos ameaçarem com uns tabefes, era ele o principal destinatário, já que involuntariamente tinha tocado no telefone. Foi também ameaçado de prisão quando se dirigiu à PIDE para reclamar os ficheiros que nos tinham sido roubados.

Neste nosso círculo de amigos havia de entrar também o PCP. Como os dois pertencíamos ao Cine-Clube, achava o Partido que a nossa frente de trabalho era aquela e nunca nos pediu muito. Penso que durante um certo tempo era eu que recebia as quotas do Quim João e lhes dava depois destino. Acho que o envolvi a ele e a um primo meu numa distribuição nocturna de comunicados pelas caixas de correio de não sei que bairro. Sei que quando nos embrenhámos mais a sério na actividade partidária já não soube nada da sua vida política, nem ele da minha.

Depois do 25 de Abril, também tivemos destinos diferentes no PCP, eu fiquei ligado primeiro aos professores e depois à função pública e ele ao sector intelectual, às coisas do cinema. Só mais tarde nos juntámos e fomos contemporâneos, na direcção do sector intelectual, eu novamente ligado ao cineclubismo, agora através do ABC Cine-Clube de Lisboa, e ele penso que continuava com o cinema. Depois a vida foi-lhe um pouco madrasta, a empresa onde trabalhava afastou-o, teve que recomeçar a meio da vida num novo emprego, numa Câmara Municipal, a de Grândola. Acho que gostou. Teve liberdade suficiente para fazer obra e melhorou sensivelmente a qualidade de vida de algumas populações. Orgulhava-se muito das suas criações. Com a doença veio a reforma. Entreteve-se nos últimos anos a compilar para DVD todos os filmes que possuía noutros formatos, instalou uma pequena sala de cinema na sua casa, em Grândola, e teve a felicidade de ver os seus filhos enveredarem profissionalmente pelo cinema, que foi desde o princípio, no cine-clube, a sua paixão.

Morreu  militante do PCP, mas muito descrente das suas possibilidades de renovação. Morreu, por isso, um camarada.

PS.: Imagem do filme A Desaparecida, de John Ford. Um filme de que gostava.

PS. (31/101/11): da leitura de um artigo de Pacheco Pereira, no Público, e de um post de Vítor Dias, no seu blog, percebi que a memória dos meus tempos de juventude tem algumas falhas. Chamei “máquina de stencil”, àquilo que na altura se chamava simplesmente copiógrafo e que utilizava, para imprimir vários milhares de comunicados, um stencil batido à máquina.

Um camarada do PCP e amigo enviou-me hoje um abraço em memória do Quim João, dizendo que tinha visto a notícia no Avante, de 27/01/11. Fui ler, afirmam que ele entrou para o Partido, em 1980, tirem-lhe menos 15 anos e estarão a falar verdade. Penso que não foi por desconsideração, mas a concelhia de Grândola devia andar mal informada.

As últimas acções de agitação

Colaborei durante os dias reservados à campanha eleitoral num blog colectivo de apoio a Manuel Alegre. Fizeram-me esse convite e aceitei. Não foi a primeira vez na vida que cooperei com socialistas e outros independentes. Na campanha de Jorge Sampaio para a presidência da Câmara de Lisboa, na sua primeira eleição, criaram-se estruturas comuns, em que eu participei em nome do PCP. Em qualquer dos casos não me arrependi. Fiz aquilo em que acreditava.

Não sei qual será o destino deste blog, Alegro Pianíssimo, mas desde já declaro que se houver segunda volta continuarei a colaborar e se houver propostas para o futuro nada me impedirá de ir ouvi-las. Já tenho anos suficientes para saber onde me meto.

Deixo-vos meus dois últimos posts para aquele blog.

“Ter mais de 60%, que é para a ripada ser maior aos talibãs”

Assim se exprimia um apoiante de Cavaco, em Oliveira do Hospital, em frente de uma câmara de televisão. A forma, como se vê, não é das mais elegantes, mas ao candidato e aos seus apoiantes não se exige mais. De quem, recorrendo à demagogia mais descabelada, aconselha a não se prolongar por mais umas semanas a campanha eleitoral porque “os custos seriam muito elevados para Portugal e para os portugueses”, ou de quem destina às mulheres o papel de fadas do lar, porque são elas “que gerem os orçamentos das famílias e são as mais bem preparadas para identificar onde está o rumo certo, aqueles que as podem ajudar para melhorar o bem estar dos seus maridos e dos seus filhos,” não se pode esperar um estilo diferente do dos seus apoiantes.
Cavaco, no seu discurso desconchavado, promete benesses a quem nele votar, os seus apoiantes, pelo contrário, prometem ripada nos talibãs, que somos nós.

É o fascismo doce que sempre se perfilou por detrás de palavras mansas e cordatas dos democratas “pós-25 de Abril”. Mas, está sempre à porta, à espera de poder entrar. Não é por acaso que Cavaco condecorou Pides e não Salgueiro Maia, ou permitiu que o seu Secretário de Estado interditasse o envio do livro de Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, a um prémio europeu. Mas também não é por acaso que se vai à PIDE declarar que se está integrado no regime. Este homem não tem qualquer pinta de democrata, só o é porque os tempos correm de feição a este tipo de Governo.

 
As “encomendas” de Cavaco Silva

Hoje Cavaco Silva declarou à Rádio Renascença que alguns jornalistas tinham recebido encomendas para abordar nos seus órgãos de informação as negociatas em que ele se tinha metido. Já se sabe que o termo negociata é meu.

É preciso ter desplante para vir apoucar os jornalistas por receberem encomendas que incomodam S. Exª e ter-se esquecido da encomenda que o seu assessor para a imprensa, Fernando Lima, fez a um tal jornalista do Público para fazer umas averiguações sobre certos senhores que frequentavam a sua comitiva, quando da sua deslocação à Madeira há alguns anos. Parece também que já se está a esquecer da encomenda que fez a José Manuel Fernandes para que este lançasse no Público a atoarda de que ele, Cavaco Silva, andava a ser escutado pelo Governo, isto numa altura em que o PSD, chefiado por Manuela Ferreira Leite, falava da "asfixia democrática".

Grande encomenda me saiu este Cavaco Silva, ficar-lhe-ia bem conhecer este ditado popular “quem tem telhados de vidro não atira pedras ao do vizinho”.

PS.: fotografia com a folha da ficha da PIDE preenchida pelo próprio Cavaco Silva, dizendo que estava integrado no regime. Clique para ampliar a imagem.

21/01/2011

Cavaco Silva: ligações perigosas



Uma pequena achega para o esclarecimento das trapalhadas em que se envolveu Cavaco Silva.

Boas razões para (não) votar Cavaco Silva



Esta é mesmo para brincar, dizendo coisas sérias.

Cavaco Silva - Sem comentários



Continuação do primeiro episódio que publiquei

19/01/2011

Caso BPN: O que esconde Cavaco?



A saga continua

BPN: Cavaco é vizinho de Oliveira e Costa no Algarve



Continua a série sobre Cavaco

Cavaco Silva, por qué sólo te callas?



Hoje vou iniciar uma série de vídeos alusivos a Cavaco. Começo por este, não sei se será o mais interessante?

15/01/2011

Porque devemos votar em Manuel Alegre

 Há para aí um conjunto de “rapaziada”, mas não só, que anda muito preocupada com conceitos de patriotismo e nacionalismo e outros temas, a propósito desta campanha eleitoral para a Presidência da República.

Um rapaz mais velhinho chega mesmo a transcrever um belo poema de Brel referente ao assassino de Jaurés, às vésperas da I Guerra Mundial, falando de social-patriotismo a propósito de todos os candidatos. Outro interroga-se em relação às posições que Manuel Alegre tomou sobre as propinas ou sobre as taxas moderadoras e termina “todo este patriotismo está a tornar o ar dentro desta latrina completamente irrespirável.” Aqui não se refere propriamente a Alegre, mas dá o tom sobre a campanha eleitoral. Outro, precisa melhor os conceitos e escreve: “O que se passa com a esquerda patriótica portuguesa, de Francisco Lopes a Manuel Alegre e ressalvando aqui as inúmeras diferenças entre ambos, é que tanto no seu internacionalismo como no seu patriotismo a questão da classe é secundária em relação à questão do povo.

Mas o que pensa esta gente que é uma campanha eleitoral para a Presidência da República? E o que pensam mesmo das campanhas eleitorais? Será que nunca votaram? Será que o partido onde depositaram o seu voto respondia a todas estas perguntas? Será que pensavam que o Manuel Alegre iria apelar à revolução europeia?

Eu às vezes interrogo-me em que mundo certas pessoas vivem. Posso admitir que alguns jovens e outros mais maduros optem conscientemente pelo anarquismo ou pela recusa em participarem nas eleições burguesas. Discuto e combato esta sua opção, mas se ela for seguida com coerência, admito que possam em todas as circunstâncias, recusar-se a votar. Mas, tendo ao longo da vida participado em eleições, ou seja, votado, e mesmo militado em partidos que vão a eleições, vêm agora pôr questões, que numa eleição presidencial têm pouco sentido e muito menos exigir dos candidatos, comprometidos com o sistema que nos governou nos últimos trinta e cinco anos, respostas claras às suas exigências políticas.

Neste tipo de eleição pretende-se, pretende a esquerda, acima de tudo, que quem seja eleito tenha do país uma visão progressista, se possível de esquerda, não pactue deliberadamente com o conservadorismo ou com o patronato reaccionário. No fundo, alguém que seja o contrário de Cavaco Silva. Pode-se também pedir, que quem vá para o lugar seja o aglutinador de um conjunto de forças de esquerda, e que propicie um deslocamento para a esquerda do eixo ideológico dominante.

Neste sentido, a esquerda tem-se dividido. Há quem procure o candidato que sirva para expressar os seus pontos de vista, independente de todos os outros. É, neste momento, a posição do PCP. Francisco Lopes nesse aspecto tem levado a água ao seu moinho e a sua candidatura “patriótica e de esquerda” tem muito a ver com o passado político do PCP, que neste aspecto foi ressuscitar as ideias da Revolução Democrática e Nacional, e sublinho nacional, e da sua oposição à União Europeia.

Nestas eleições, por razões que têm a ver com a posição do Bloco de Esquerda, não há nenhum candidato que expresse o ponto de vista da unidade da esquerda não-comunista e não social-democrata, de que o caso mais paradigmático foi o de Maria de Lurdes Pintassilgo, em 1986. E não sei se esta candidata iria corresponder a todas as exigências destes nossos jovens bloggers, alguns ainda sem idade para terem participado nelas.

Nobre, Defensor de Moura ou Coelho são fenómenos marginais à luta política, que poderão ter o seu nicho de mercado, mas não correspondem aos desejos destes nossos críticos.

Que representa pois, para mim a candidatura de Manuel Alegre. Uma possibilidade e a única de derrotar Cavaco, de inflectir neste momento a correlação de forças para a esquerda, retirando todo o peso negativo que é ter Cavaco na Presidência, a possibilidade, mesmo que remota, de uma recomposição da esquerda.

Dirão que é pouco, que a situação exige mais, outro candidato e outra política. Arranjassem-no, não se limitem a criticar e a recusar meter as mãos na massa. É fácil, descobrirem agora as contradições do candidato, mas ele é neste momento o melhor denominador comum para derrotar Cavaco Silva e como se torna claro, a eleição de um Presidente, não é a mesma coisa do que a de um parlamento, nem que de uma câmara municipal, que é por natureza plural. A eleição de um Presidente da República é uninominal, com todos os defeitos e virtudes que isso comporta. E é pois neste quadro concreto que, como actores políticos, têm que agir.

PS.: Texto igualmente publicado aqui

12/01/2011

Algumas contas de simples aritmética a propósito da eleição de Alegre


Joana Lopes faz aqui uma grande citação de um post do Victor Dias, em que este explica muito bem explicadinho, como é seu costume, porque é que não se deve apelar ao voto útil em qualquer dos candidatos que se opõem a Cavaco Silva.

Depois daquelas contas feitas, apeteceu-me rever a aritmética utilizada e refazer politicamente esta contabilidade.

Comecemos por uma afirmação que António Costa fez há tempos, na Quadratura do Círculo: se votarem, por exemplo, cem mil eleitores, Cavaco, para ser eleito à primeira volta, precisa de 50 mil votos mais um. Se votarem só 60 mil, Cavaco só necessita de 30 mil mais um. Por isso a abstenção favorece Cavaco e não os seus opositores. Ora o que é válido para Cavaco também é válido para o conjunto dos seus opositores, portanto por aí não podemos ir. Tudo depende qual dos lados se abstém mais. Assim, o princípio acima anunciado só faz sentido se todos aqueles que não suportam Cavaco, e não tenham candidato à sua medida, forem votar nos opositores ao actual Presidente da República. Por isso, José Neves, do blog Vias de Facto, como não gosta de nenhum, mas acima de tudo embirra com Cavaco, acha que é suficientemente exótico ir votar em Defensor de Moura. E não basta, como já disse a Comissão Nacional de Eleições, votar branco ou nulo, é preciso expressar validamente o voto para que ele entre na percentagem dos 50 %. Ou seja, deve-se votar em todos, menos em Cavaco.

No entanto, dito isto, vamos às contas do Victor Dias. Mesmo que Cavaco não tenha os 50% mais um, resta a pergunta e quem vai à segunda volta? Eu por mim não tenho dúvidas, quero que seja Manuel Alegre. Mas Victor Dias não deve com certeza ter esta preferência, por isso seria importante apelar e achar que o voto útil seria em Francisco Lopes, para que este possa ir à segunda volta. Foi por estas e por outras que em 1986, Salgado Zenha não foi à segunda volta, o que teria evitado todos aqueles sapos que tivémos que engolir. Maria de Lurdes Pintassilgo retirou-lhe os votos necessários para isso acontecer. Por este motivo, ou Victor Dias, sem o dizer já acredita na possibilidade de ser Manuel Alegre a ir à segunda volta com Cavaco ou implicitamente quer que isso suceda. Pois, de outro modo, apelaria ao voto útil no seu candidato, pois não é indiferente em quem se deposita o voto. Por este andar ainda Fernando Nobre se arriscaria a ir à segunda volta. E uma situação destas já se passou em França. Quando ninguém esperava, quem passou à segunda volta foi Le Pen.

Por isso, diria que estas coisas não são simples aritmética têm por trás alguma reflexão política. Se não gosta de Cavaco, e nenhum dos outros é da sua preferência, vote naquele que mais satisfaz o seu ego. Porque não em Coelho? Sempre poderia ir ao poleiro. Mas se quer votar conscientemente vote em Manuel Alegre, para garantir que seja este a ir à segunda volta.
Post com algumas alterações também aqui incluído.

11/01/2011

O Chefe da Oposição


No outro dia, em Peniche, uma manifestante gritava para Cavaco: “Não tenha medo deles”, logo o locutor, que conduzia a emissão televisiva, lhe perguntou: “quem eram eles?”. Resposta pronta da manifestante, o José Sócrates e o Ministro das Finanças.

O “eles”, não era Manuel Alegre ou qualquer dos outro dos candidatos que se perfilam à esquerda, era o Governo. Cavaco manteve-se calado, convém-lhe aparecer como chefe da oposição. Mas há mais, quase todos os dias os professores do ensino privado, em guerra com o Governo por causa dos cortes no subsídio a este tipo ensino, se têm manifestado à frente de Cavaco, não para o apoucarem, mas sim para lhe gritarem um pedido de SOS contra as malfeitorias governamentais. Apareceu mesmo um professor que veio explicar à televisão e a Cavaco que os gritos daquela manifestação não eram contra ele, mas representavam o grito de desagravo dos professores. Cavaco começa assim aparecer como o verdadeiro chefe da oposição contra o Governo.

Esta táctica já é antiga. Em 1985, depois de Cavaco tomar conta do PSD, rapidamente soube também aparecer como opositor ao Governo do Bloco Central, chefiado por Mário Soares, e de que ele, PSD, tinha feito parte.

Estes senhores são lestos em se desresponsabilizarem daquilo que fizeram. Quando lhe serviu para se mostrar responsável, o Orçamento foi aprovado devido ao seu empenho. Agora, as medidas gravosas que aí vêm já são só da responsabilidade do Governo. Como se vê rapidamente tiram o cavalinho da chuva dos seus comprometimentos passados.
PS.:
Chegou-me esta imagem via e-mail, achei graça e pu-la a encimar este post. Também publicado aqui.

09/01/2011

Um pequeno provocador de direita


Penso que Elísio Estanque, num artigo que escreveu para o Público, a 31/12/10, já disse tudo sobre o discurso da direita neofascista, encabeçada neste caso por Rui Ramos (RR) e Henrique Raposo, a propósito da prosa provocadora que estes senhores escreveram para o Expresso, de 18/12/10, sobre o candidato presidencial Manuel Alegre.

No entanto, porque há alguns pormenores que não foram abordados pelo articulista do Público em relação ao texto de RR, senti-me na obrigação de vir chamar a atenção para algumas das omissões deste historiador a propósito da escolha de Argel, pela FPLN e Alegre, e sobre a Guerra da Argélia.

Para além de outras provocações desnecessárias e de mau gosto, RR baseia a sua argumentação na ideia que a Manuel Alegre não está interessado em desenterrar o seu passado anti-fascista, principalmente a sua estadia em Argel, por ter trocado “o Portugal de Salazar pela Argélia de Ben Bella e de Boumédiène, um país onde também havia polícia política, tortura, censura e partido único, mas a um nível infinitamente mais bárbaro”. O que sabe ele do Portugal de Salazar se em texto recente, e recorrendo aos números de presos e mortos pelo regime fascista, acha que este era muito mais benigno do que o da Primeira República. Esquece o que era o fascismo quotidiano e o medo que inspirava nas populações – já escrevi sobre este assunto aqui.

Mas a escolha da Argel pela Frente Patriótica de Libertação Nacional, para poder emitir para Portugal e para as Colónias as emissões da rádio Voz da Liberdade, teve simplesmente a ver com o apoio que aquele país dava aos Movimentos de Libertação das colónias portuguesas, que naturalmente para Rui Ramos, ainda são os “turras”, e à libertação do povo português do jugo fascista. Coisa que os democráticos países da NATO, em que estava incluído Portugal não queriam e não podiam prestar. Se exceptuarmos a Suécia, que não pertencia à NATO, e que activamente apoiou os antifascistas portugueses, que lá se quisessem refugiar, sem actividade explicitamente política, e os movimentos de libertação, mais nenhum dos países na altura democráticos, teve qualquer tolerância para a luta contra o fascismo. Alguns mesmo colaboraram abertamente com o regime e as suas polícias ensinaram e prestaram colaboração à PIDE. São coisas que o nosso pequeno provocador esquece.

Depois faz referência à morte de dezenas de milhares de harkis, argelinos que serviram no exército colonial francês. Também aqui a sua parcialidade é enorme. Esquece que houve uma guerra colonial, que a democrática França se portou execravelmente impedindo a independência e reprimindo o levantamento nacional dos argelinos. As histórias de tortura do exército francês são conhecidas. La question, de Henri Alleg, de 1958, interdito em França, denuncia as torturas sofridas pelo autor. São coisas já esquecidas, que o nosso pequeno provocador não gosta de lembrar. Mas há mais, na democrática França, o colaboracionista Maurice Papon, posteriormente identificado e preso, quando era Chefe da Polícia de Paris, em 1961, mandou disparar sobre uma manifestação pacífica de argelinos, tendo morto cerca de 200, cujos corpos foram durante dias encontrados no Sena. Esta mais uma das histórias que RR não gosta de contar, só se lembra do caso harkis, para atacar a passagem de Manuel Alegre por Argel, onde, segundo o próprio, nunca houve qualquer interferência do Governo argelino sobre o conteúdo da rádio Voz da Liberdade, coisa que o Sr. RR não pode garantir para Portugal, onde a censura limitava a actividade de qualquer jornalismo.

Já uma vez chamei ao Sr. RR Um camelot du roi à portuguesa, cuja definição é de grupo de provocadores católicos e monarquistas, adeptos da Action française, de Charles Maurras, que pontificavam entre as duas guerras e que participaram activamente nos motins provocados pela extrema-direita em França, no dia 6 de Julho de 1934. Hoje, para minha alegria, vejo o Elísio Estanque chamar-lhe neofascista, não lhe vai mal também esta etiqueta.


PS.: também publicado aqui.

08/01/2011

Alegro Pianíssimo


Convidaram-me para integrar o novo blog, Alegro Pianíssimo, que nasceu para apoiar a candidatura de Manuel Alegre à Presidência da República.

Depois de resolver alguns conflitos com a informática, consegui finalmente colocar um meu primeiro post. Teve que haver ajudas, mas lá está ele certinho, graficamente, como mandam os seus responsáveis. Felicidades e que o candidato que eles e eu apoiamos tenha êxito, que é ir à segunda volta.

Como não vos quero obrigar a descobrirem o meu post num montão deles, aqui vos deixo o que escrevi. É mais uma das minhas recordações de juventude.

Quando a “voz” se ouvia em Argel

Já quase ninguém se lembra o que era estar acordado até à uma e meia da madrugada, para ouvir “aquela voz” que vinha de outro mundo para nos falar de liberdade. Era voz de Manuel Alegre, na rádio Voz da Liberdade, em Argel.

Na segunda metade dos anos 60, um grupo de jovens, já organizados partidariamente, resolveu enviar para Argel, por mão amiga, uma carta cheia de informações sobre o Portugal censurado.
Reunimo-nos e escrevemos à máquina não sei quantas páginas repletas de notícias e assinámo-la, cheios de confiança, “Grupo Bento Gonçalves”. Porque não se fica com cópia destas coisas, só me lembro de dois dos temas que foram abordados. Um era sobre a ponte Salazar, hoje, felizmente, 25 de Abril. Um de nós tinha a informação que aquela obra tão custosa à época não estava a dar o rendimento que se esperava, havia pouco movimento. Já se percebe, o que se teria escrito? Era uma obra do regime, que empobrecia a nação e não serviria as populações interessadas. Hoje, estas afirmações parecem-nos ridículas, mas na altura não o eram.
Mas o grosso da nossa informação consistia no tráfico de armas que, com a cumplicidade do Governo de Salazar, se fazia para o Biafra, uma província secessionista da Nigéria, que se tinha revoltado contra o poder central e era apoiada pelo Governo fascista português e por outros estados associados ao colonialismo, como a África do Sul e a Rodésia do Sul. Havia um importador português, ligado ao fascismo e à vida tauromáquica – na altura fez-se referência ao o nome –, que vendia as armas e as enviava não oficialmente para aquela província. Isto era grave, porque devido aos interesses obscuros do petróleo e ao cerco que a Nigéria impôs aquela província independente, estavam a morrer à fome milhares de pessoas. Este novo país nunca foi reconhecido pelas Nações Unidas e Portugal participava, através do comércio da morte, que era feito a partir de S. Tomé e Príncipe, do pequeno número de países que alimentava aquela guerra.
Tempos depois “aquela voz” noticiava algumas das nossas informações, juntamente com outras notícias, cuja fonte era a nossa carta. Como o noticiário não abundava, as informações por nós prestadas eram repetidas regularmente. Sentimos depois deste episódio um grande orgulho, a rádio Voz da Liberdade, prestava atenção a este apagado mas firme grupo de jovens. Tínhamos contribuído para a luta e a “voz” tinha-nos ajudado.

05/01/2011

Como uma “menina” “coquette” se transforma em vedeta pop da blogosfera


Vem este título a propósito de dois artigos de Helena Matos que foram bastante criticados na blogosfera.
O primeiro, no Público, com um título que pretende parafrasear Os Maias, de Eça de Queirós, Falharam a vida, meninos, o segundo, O que é um ex-activista?, publicado num dos blogs para onde escreve, Blasfémias.

Comecemos pelo último. Ricardo Noronha no Vias de Facto (ver também este post sobre o mesmo assunto), com paciência de santo, explica à referida “menina” o que é caso Battisti, acusado de pertencer a uma organização de luta armada em Itália no final dos anos 70. Percebe quem pode ou quem não está de má-fé, a mim parece-me que está de má-fé.

Quanto ao primeiro artigo, já mereceu muitas mais críticas na blogosfera. Rui Bebiano, em A Terceira Noite, acha, por palavras minhas, que não se deve gastar cera com tão ruim defunto e por isso nem critica o conteúdo do artigo. Joana Lopes, no Entre as Brumas da Memória, pergunta quem da actual governação pertence à geração de 60? A tal que, segundo Helena Matos, falhou a vida. Miguel Madeira, no Vias de Facto, faz uma pergunta semelhante. Victor Dias, em O tempo das Cerejas, escreve, citando nomes e com grande ironia, sobre os Expulsos da Geração de 60, e Ricardo Noronha, também no Vias de Facto, transcrevendo partes do artigo, refere-se, com muita graça, aos erros ortográficos dados por tal “menina” em post anterior.
Eu próprio, já várias vezes me tenho referido criticamente a Helena Matos. Destaco especialmente um post em que apontava para um conjunto de jornalistas que deliberadamente escreviam reaccionarices para os nossos media com a conivência das direcções desses órgãos de informação.

Apesar de tudo o que já se escreveu e de que fiz o levantamento, volto novamente ao assunto, porque pertenci à geração que frequentou a Universidade pelos anos 60 e, devido aos muitos anos que por lá andei, fui-a conhecendo razoavelmente.

Em primeiro lugar uma advertência. Tem pouco rigor histórico falar em geração, quando aquilo a que queremos fazer referência, é um conjunto muito particular da mesma. Não abrangemos todos aqueles que pela sua posição social, pelos azares da vida ou pelas razões mais diversas não tiveram possibilidades de, em determinada altura, frequentar a Universidade e, neste caso concreto, de terem participado no movimento estudantil e de se sentirem pertença a uma geração que se reúne todos os anos a 24 de Março, para comemorar o Dia de Estudante de 1962 e as crises académicas subsequentes.

Começa o texto de Helena Matos: “Nas fotografias que gostam de mostrar têm o cabelo revolto e um ar de quem tem a certeza de tudo.” Quem vir essas fotografias, principalmente as referentes a 1962, espantar-se-á com todos os estudantes de gravatinha, penteados e de casaco e as meninas de lenço, saia e meinha.
Isto só mostra a ignorância da “menina”, que desconhecendo o que é a geração de 60, está a imaginá-la pelos olhos do pós-25 de Abril.
A seguir acrescenta “Esse mundo onde público era sinónimo de justiça e gratuitidade rimava com solidariedade. Esse mundo onde governar bem equivalia a fazer cada vez mais promessas de redistribuição e onde o Estado passou a ser entendido como o grande doador.” Ora tudo isto é um disparate pegado. Mais uma vez, através de um olhar actual e recorrendo às polémica em curso sobre mais estado ou menos estado, se tenta caracterizar a geração de 60. Um completo falhanço
Politicamente esta geração sabia pouco do Estado Social. Os meus pais, de uma geração muito mais velha, ainda falavam da gratuitidade do Serviço Nacional de Saúde Inglês, que tinha sido implementada naquele país a seguir à II Guerra Mundial, e que era um espanto nessa altura para os cidadãos que no nosso país desconheciam o que era a saúde gratuita e universal. O mais que as gerações universitárias da época intuíam era a luta pela liberdade e pela democracia e os politicamente mais comprometidos falavam da revolução social, que nada tinha a ver com o Estado Social, mas sim com a tomada do poder pelos trabalhadores. E mesmo se ao longo da década foram surgindo alguns socialistas, o seu imaginário ia muito para lá do reformismo do PS francês ou da social- democracia alemã. Ainda me lembro do António Reis, hoje Grão-mestre da Maçonaria, achar, logo a a seguir ao 25 de Abril, que o programa do PS português se deveria assemelhar ao que em França, nessa altura, se chamava “reformismo revolucionário”, umas propostas apadrinhadas pelo sociólogo francês André Gorz. Já se sabe quanto mais se avança na década cada vez era maior o radicalismo da extrema-esquerda. Mesmo os militantes do PCP, que a longo prazo acreditavam na almejada revolução socialista, nessa altura discutiam o programa do Partido, a Revolução Democrática e Nacional, que a par das conquistas sociais, que era o que mais se poderia assemelhar com o Estado Social, defendiam a destruição dos monopólios com a sua consequente nacionalização, o que não corresponde ao textinho pífio da “menina” em causa.
Depois segue mais um chorrilho de asneiras sobre os jornalistas, confundindo a posição corajosa de alguns, poucos, que por entre linhas combatiam o regime fascista e que hoje estão todos reformados ou já faleceram e aquelas centenas de estagiários que invadem as redacções dos media, que trabalham quase de graça e fazem o jornalismo que se conhece, aceitando pespegar alguns escândalos nos jornais conforme o patrão deseja ou não. Nada disto é comparável e merece mais do que duas linhas.
Depois acrescenta mais umas reaccionarices sobre o ensino, que nesta altura, todos os da laia dela, como os Medina Carreira, tiveram que engolir, quando a apareceram recentemente os resultados do PISA.
A partir daqui começo a perder a paciência para continuar a seguir a prosa da “menina”. Tudo são asneiras e disparates, transportando para os ombros da pobre geração de 60, todas as discussões que hoje em dia se travam.
E o que é espantoso é que esta "menina" considere que, passados mais de 35 anos sobre o 25 de Abril, ainda seja a geração de 60, que hoje tem mais de sessenta anos e alguns já chegaram aos 70 e tal, e estão todos na reforma ou já faleceram, a responsável pelo que de mal acontece ao país e, segundo ela, tenha deixado às gerações vindouras um país mais pobre. Quando o principal político do período democrático, que esta “menina” de certeza admira, é o candidato Cavaco Silva, que foi aquele que mais anos esteve no poder depois do 25 de Abril e disso se gaba, e que, enquanto a geração dos anos 60 combatia pelo derrube do regime, fazia pela vidinha, indo à PIDE declarar que “estava integrado na ordem política vigente”. E são de certeza também amigos desta “menina”, aqueles que todos os dias nos enchem a casa com opiniões políticas, que são os legítimos herdeiros daqueles que já nos anos 60 eram os donos de Portugal: os Ricardo Espírito Santo e os Fernando Ulrich. É a estes senhores que esta “menina” deve ir pedir contas da situação a que Portugal chegou, ou talvez a um Eng. Sócrates que, enquanto que outros continuavam a lutar pela transformação social do seu país, ia, nos anos 80, fazendo casinhas na Covilhã e subindo paulatinamente na carreira política. Tenha dó e deixe a geração de 60 em paz.

PS. I: segundo pude ler na net esta “menina” já tem 49 anos, no entanto, há umas fotografias, que também se podem ver na net, em que aparece com um ar tão jovem e primaveril que não resisti a chamar-lhe menina, com aspas.
PS. II: a fotografia que ilustra este artigo é de um Plenário de estudantes na Cidade Universitária, durante a Crise Académica de 1962.

04/01/2011

Ainda os debates presidenciais


Já muito desfasado no tempo, mas achando que não posso deixar em claro os debates eleitorais para a Presidência da República, aqui vai pois a minha opinião.
Não vi todos, e só a época em que tiveram lugar é que pode justificar esta minha falta de comparência a alguns. Também não vou repetir as frases feitas sobre a falta de interesse dos mesmos. São como são, ou como os candidatos quiseram que fossem, e portanto não nos podemos queixar, provavelmente se tivessem mais tempo e fossem já depois das Festas seria melhor. Mas aí já iriam cair no período eleitoral. Não tenho palpites, mas reconheço que a época foi má e o tempo dedicado à discussão foi pequeno. Provavelmente, muitos candidatos não teriam mais para dizer?

Começarei pelo primeiro, que muito me impressionou: Francisco Lopes (FL) versus Fernando Nobre (FN). Como era a sua estreia, Nobre ainda estava a adaptar-se. Foi um horror. Para além das suas descrições miserabilistas dos locais onde prestou assistência médica, em que ressalta a migalha no bico da galinha, temos a espantosa afirmação, que não reproduzo ipsis verbis, em que acusa o seu opositor de ser o representante de um sistema caduco, a que junta mais umas aleivosias. A princípio ainda pensei que FN estivesse atacado de anti-comunismo primário, referindo-se à ideologia comunista do seu oponente. Mas não, era ao regime democrático que ele se estava a referir, atacando FL por qualquer coisa de que este não tinha culpa. Fazia uma mistura perigosa que envolvia as actuais circunstâncias políticas e económicas, que são graves e resultam da responsabilidade do bloco central, aliado ou não ao CDS, com os próprios fundamentos do regime democrático, tornando assim todos os intervenientes políticos nacionais responsáveis pelas actuais circunstâncias. Esta afirmação roça perigosamente o fascismo, mesmo quando inconscientemente proferida. Parece-me que, em todo este debate, Francisco Lopes soube safar-se dos disparates do seu opositor.
Tempos depois vi Fernando Nobre versus Cavaco Silva e aqui já era Sr. Doutro para lá, Sr. Professor para cá. O respeitinho que é devido aos superiores. Triste figura a deste comparsa, por quem tinha até alguma consideração, que nunca percebeu que o papel que lhe destinaram Mário Soares e os seus acólitos, era simplesmente a de morder as canelas de Manuel Alegre. Convenceu-se que era um legítimo representante da “sociedade civil” e deu-se ares. Estatelou-se no chão.
Defensor de Moura, aquele em quem José Neves, em desespero de causa, aconselhava o voto, tem-se revelado melhor do que eu pensava. Parece que atacou Cavaco Silva de frente, surpreendendo o adversário e marcou pontos. Mas não vi este debate, só me refiro a ele pelos ecos que encontrei na imprensa. Vi o debate entre ele e Manuel Alegre e compreendi que Defensor de Moura não estava principalmente a concorrer contra Manuel Alegre, ainda bem. O seu papel será o de ser um bom avô que luta pela regionalização lá da sua Viana e contra a corrupção. A primeira ainda não se sabe se é uma virtude, a segunda é-o de certeza.
Vi também Manuel Alegre versus Francisco Lopes. Diria que estavam os dois contidos, para não darem a ideia que eram os principais inimigos. Mas quando no final do debate Manuel Alegre disse a tradicional amabilidade que não era devido ao PCP que a esquerda perdia as eleições presidenciais, Francisco Lopes respondeu-lhe que ele, Manuel Alegre, era o que estava melhor colocado para receber os votos dos defensores do actual Governo. Logo aí alguns comentadores mais apressados viram uma troca de amabilidades entre os dois, só não perceberam que Francisco Lopes dirigiu uma farpa a Manuel Alegre, colocando-o entre os actuais apoiantes do Governo de Sócrates.
No entanto, reconheço que Francisco Lopes se tem saído melhor do que aquilo que eu esperava, mas lamentavelmente isso não lhe dará mais votos do que aqueles que as sondagens lhe atribuem, ou eu estou muito enganado.
Depois vi um debate e meio, já não sei bem entre quem. Não tiveram história.
Por último, o entre Cavaco Silva e Manuel Alegre. Impressionou-me tanto como o primeiro.
O Cavaco foi de uma grande agressividade. O Manuel Alegre não enveredando pela resposta forte não sei se lucrou muito. Podemos dizer que para Cavaco a melhor defesa foi o ataque e este princípio foi um pouco fatal para Manuel Alegre. Mas quando se meteu pelo caso do BPN não se saiu muito bem, porque o problema de Cavaco não é de Oliveira e Costa e Dias Loureiro terem pertencido ao seu governo, é ter nomeado Dias Loureiro para o Conselho de Estado e até ao último momento o ter sustentado politicamente, já que legalmente o não podia substituir. O outro problema foi os ganhos astronómicos que obteve com a venda das acções da Sociedade Lusa de Negócios, 140% de lucro. Ora nisso Manuel Alegre atrapalhou-se, quase que teve medo de pegar no assunto. Depois em relação aos amigos de Cavaco quase que lhe deu razão, ao reafirmar o que Cavaco já tinha noutra altura dito, que não era responsável pelo que faziam os seus amigos passados vinte anos. Quando o Dias Loureiro ainda há bem pouco tempo se passeava no Conselho de Estado, com a sua complacência.
Quanto ao Estado Social é espantoso que Manuel Alegre não desmontasse essa aldrabice de Cavaco que é dizer que o apoio à caridade e aos institutos que a praticam é o apoio ao Estado Social. O Alegre aí podia e devia ter dado a volta.
É evidente que Manuel Alegre noutras alturas esteve bem e há quem pense que ao adoptar este tom moderado e de postura de Estado se distanciou de Cavaco, um político verrinoso e sobranceiro. A ver vamos se essa posição rende votos.
No entanto, não tenho dúvidas que quem não gostava de Cavaco ficou a a detestá-lo e a rogar-lhe todas as pragas do mundo.

Aqui está pois a minha visão dos debates. É evidente que, como apoiante de Manuel Alegre, quero que o meu candidato se saia bem e seja capaz de derrotar os seus opositores, mas tenho algumas dúvidas que isso tivesse acontecido com Cavaco Silva. No dia 23 saber-se-á o resultado, que não depende só destes debates.
PS. (5/1/11):
José Neves neste post vem reafirmar o voto à primeira volta em Defensor de Moura, que lhe faça bom proveito.
Já agora actualizava mais um dos disparates de Fernando Nobre no tal debate com Francisco Lopes, não teve melhor ideia do que propor a redução dos deputados para 100. É a demagogia à solta.

17/12/2010

A propósito da WikiLeaks


Penso que a esquerda, através do meio que tem à sua disposição, que é principalmente a blogosfera, já disse quase tudo sobre a WikiLeaks e a direita já escreveu nos jornais de referência tudo aquilo que a indigna, ou seja, que se tem que preservar a diplomacia dos seus amigos americanos ou, muito mais bem dito, dos países ditos democráticos. Quanto aos que estão no meio, tudo que descredibiliza o seu “cavaleiro andante” José Sócrates e o seu aio Luís Amado provoca-lhe mau estar. Para estes dois últimos grupos a WikiLeaks é uma alvo a abater.

Veio-me à memória sobre este assunto um episódio histórico e um filme que eu acho que se aplicam muito bem a este caso. O primeiro refere-se à divulgação pelo Governo Bolchevique, depois da conquista o poder, em 1917, em plena I Guerra Mundial, de todos os tratados secretos que existiam entre a Entente (França e Inglaterra) e o defunto Governo czarista e que punham a nu os objectivos imperialistas daquelas potências, que em nome de elevados princípios lançavam para a morte milhões dos seus cidadãos. Hoje quando o Império arrasa e destrói dois países – o Iraque e o Afeganistão – é bom que alguém nos desvende os segredos desta diplomacia de morte.

O segundo é um filme muito antigo, que só os da minha idade se recordaram de ter visto, de Alexander Mackendrick, que em inglês se chamava Sweet Smell of Success, mas que passou nos nossos ecrãs com o nome de Mentira Maldita. O filme é de 1957, estreado em Portugal em 1959, e tinha como actores principais Burt Lancaster e Tony Curtis, recentemente falecido. Acusava-se aí um determinado músico de Jazz, não querido da personagem importante desempenhada por Burt Lencaster, de ser “vermelho” e estar na posse de droga, que previamente lhe tinha sido metida na algibeira do sobretudo. A primeira acusação arruína-lhe a carreira e a segunda leva-o à prisão, pela mão do FBI. Quando hoje vimos Assange, o homem do WikiLeaks, ser acusado de ter sexo não consentido com duas mulheres adultas e deste não ser seguro, e por isso ser vítima de um mandato de captura internacional, vem-me à memória aquele filme e como hoje, principalmente na Suécia, as acusações de ser comunista já não arruínam carreiras, nem ninguém vai para a prisão por fumar a sua dose individual de droga. Mas praticar sexo não seguro ou fazê-lo sem este ser previamente autorizado, pode acarretar prisão. Depois vêm os moralistas afirmar que dois juízes, o sueco e o inglês, não prescindiam da sua independência para acusarem Jules Assange. Quem sou eu para duvidar disso, bastava que, tal como no filme, as duas mulheres fossem pagas pela CIA para atestarem toda a veracidade da história, coisa que aos olhos de qualquer cidadão normal não é impossível de acontecer.

Restam duas questões e uma dúvida sobre os dois pesos e as duas medidas do Sr. Pacheco Pereira. A primeira questão dirige-se aos que acham bem que se divulguem as falcatruas dos governos, mas que se deve preservar o segredo diplomático, porque sem isso não havia vida diplomática. Eu diria que todo o segredo é por natureza para ser revelado e que não há telegramas de embaixadas bons e outros maus. Quem é que decide? Para mim é extremamente útil saber que o Sr. Cavaco Silva é um despeitado, que faz política conforme é recebido ou não na sala Oval da Casa Branca, o que só vem confirmar a mediocridade da personagem. Com certeza que o homem do Millennium BCP não gostaria que dissessem que ele se ofereceu como espião aos americanos. Contudo, é extremamente importante saber como actuam os nossos banqueiros. Por isso a fronteira entre diplomacia séria e desonesta é muito ténue. Ao menos que eu possa escolher aquilo que me interessa. Por outro lado, estas revelações aconteceram agora, o Governo americano tomará de certeza as precauções devidas para evitar no futuro situações semelhantes. Não se apoquentem que o mundo não viverá no permanente sobressalto sobre as revelações constantes do segredo diplomático.

A segunda é a crítica de que a WikiLeaks não divulga nada sobre as ditaduras. Já se sabe que certos senhores gostariam de ter informação sobre as ditaduras que não gostam, porque relativamente às amigas dispensavam essa informação. Mas não há todos os dias, para aqueles países que são objecto da raiva do “ocidente”, informação abundante? Quem é que não sabe o que se passa em Cuba, na Venezuela, na Birmânia, na China, na Coreia do Norte ou no Irão? A informação que desconhecemos é sobre o que é que os Estados Unidos ou a UE andam a fazer nas nossas costas, pois sobre aqueles países tudo nos é dito e algumas coisas são mesmo inventadas. Nós sabemos é pouco sobre o que se passa na Arábia Saudita e noutros principados amigos do “ocidente”.

Por último os dois pesos e as duas medidas do Sr. Pacheco Pereira. Não foi ele que mais se entusiasmou com a revelação das escutas telefónicas a José Sócrates? Não achava ele, ao contrário dos socialistas, que sendo elas do domínio público podiam ser discutidas e comentadas? Porque é que agora se amofina tanto, escrevendo um artigo descabido sobre o acesso das massas ao conhecimento generalizado dos segredos diplomáticos? É porque a sua idolatrada América está em causa? É por isso eu falo da duplicidade daquele Sr.
PS. (28/12/10). Mão amiga informou-me, com toda a razão, que não era Entende, mas sim Entente (Entente Cordiale). Já está corrigido. Desculpem qualquer coisinha.

14/12/2010

Uma biografia pouco íntima


Saiu recentemente o livro Álvaro Cunhal, retrato pessoal e íntimo. Biografia, do jornalista Adelino Cunha, da Esfera dos Livros. O seu lançamento revestiu-se de alguma pompa e circunstância: foi apresentado por António Vitorino e na net encontram-se várias referências a esse lançamento, com o discurso do seu apresentador (ver aqui e aqui), e ao acolhimento que o livro teve na imprensa. Chega-se mesmo a mostrar vídeos de alguns dos testemunhos orais que foram recolhidos pelo autor (ver aqui e aqui). No entanto, que eu reparasse, numa consulta provavelmente apressada, ainda não li nenhuma recensão crítica ao mesmo. Sem pretender ser único, aqui vai a minha opinião sobre o mesmo.

Quanto a mim o livro é bastante desigual, notando-se que o autor conseguiu obter informação sobre alguns factos concretos da vida de Cunhal e que sobre outros teve que passar por cima, recorrendo a descrições vagas sobre o movimento comunista internacional, sobre a URSS ou mesmo sobre o PCP. Podemos mesmo dizer que quando falta tema ao autor este se desloca vários anos para a frente ou para trás na vida do Álvaro, pondo-nos um pouco à nora sobre o seu encadeado.
Os primeiros passos de Cunhal na Juventude Comunista e depois no PCP e os primeiros contactos internacionais são fracos e pouco documentados. O mesmo se verifica com a sua estadia em Paris, nos últimos anos que antecederam o 25 de Abril. A parte mais conseguida é a sua terceira prisão que se verificou em 1949, quando residia clandestino no Luso, a fuga de Peniche, em 1960, a vida em Moscovo, com a companheira e a filha, quando o seu partido e ele próprio resolveram que devia sair definitivamente do país, e depois os tempos pós 25 de Abril, mais fáceis de documentar. Mesmo assim, estes muito falhos de informação sobre as últimas conspirações em que se envolve para recuperar o partido e correr com os renovadores, que ameaçavam a sua visão do mesmo.

Os objectivos do livro são traçar o retrato pessoal e íntimo do biografado, mais do que perspectivar a sua vida política, o que não é inteiramente verdade como se verá mais adiante. Para concretizar aquele desiderato socorre-se dos depoimentos da irmã, Eugénia Cunhal, da mãe da sua filha, Isaura Moreira, da própria filha, Ana Cunhal, e de Cândida Ventura, mas isto é um caso à parte, que será examinado posteriormente. No entanto, já na biografia de Pacheco Pereira, com que esta inevitavelmente terá que se confrontar, essa parte íntima também é relatada através do retrato psicológico do Álvaro feitos por aquele autor, simplesmente este pára na fuga de Peniche, não tendo ainda publicado a parte referente ao nascimento da filha e à vida em Moscovo e em Paris e ao pós-25 de Abril. Por outro lado, aquilo que é apontado como novidade neste livro, já Pacheco Pereira o tinha feito, que é a interpretação dos seus romances, assinados com o nome de Manuel Tiago, como sendo, em parte, autobiográficos.

Pode-se dizer que há uma grande empatia entre o autor e Álvaro Cunhal, apesar de estabelecer uma diferença entre o Cunhal da clandestinidade e o dirigente que vive no exílio, na alta-roda do movimento comunista. Já se sabe que, para Adelino Cunha, o primeiro é muito mais genuíno que o segundo. No entanto, verdade seja dita, Cunhal nunca é apresentado como sedento de poder, que teve que destronar Pavel (Francisco Paula de Oliveira), nos anos 30, ou Júlio Fogaça nos anos 50, para poder ser secretário-geral, como é frequentemente referido. E mais, os anos mais negros do partido, com acusação de assassínios de “traidores”, são aqueles em que Álvaro está ausente, por estar preso.

Há em todo o livro uma clara oposição entre o que foram os propósitos do movimento comunista internacional e da própria URSS e os do Cunhal, enquanto os primeiros são sempre criticados utilizando um certo anti-comunismo de pacotilha, o segundo prossegue com objectivos que, mesmo que sendo errados, são suficientemente nobres para poderem ser seguidos pelo biografado. É esta a parte que de certo modo mais confunde no livro e o torna desse ponto de vista desinteressante e, quer queira ou não o autor, ocupam grande parte da sua espessa biografia, de mais de 600 páginas.
Convém realçar, porque é verdade, que na parte final relativa à ascensão de Gorbachev e depois de Ieltsin o autor não se perde em rodriguinhos elogiosos e dá uma visão bastante desencantada deste último período da URSS e depois já da Rússia.

Destaco também os depoimentos de Cândida Ventura e de Santiago Carrillo. A primeira é um caso espantoso, que antes do o ser já o era. Segundo as palavras da própria e do autor, parece que desde sempre (anos 50) já era dissidente, e só se manteve no Partido para ver como é que era, tendo saído unicamente em 1976. Chega mesmo a ser apresentada como agente dupla, não se sabe de quê. Em post anterior já tinha feito referências pouco abonatórias em relação a esta antiga militante do PCP, que na altura da invasão da Checoslováquia pelo Pacto de Varsóvia, em Agosto de 1968, era designada por Flausino Torres, no seu livro póstumo chamado Diário da Batalha de Praga, como a “responsável”. Há uma história pouco clara em relação ao papel desempenhado nessa altura por Álvaro Cunhal. Segundo Cândida Ventura este tê-la-ia avisado de que queriam matar o renovador checo Alexandre Dubcek. Flausino Torres é muito mais peremptório no papel negativo e perfeitamente ditatorial do Álvaro. Acredito muito mais na versão de Flausino Torres.
Quanto a Santiago Carrillo, aparece aqui e acolá, a propósito e a despropósito, fazendo declarações sobre Álvaro Cunhal e o PCP. O autor por possuir essas declarações achou por bem que as tinha que incluir e daí polvilhar o livro com elas.

Restam duas críticas que me parecem importantes. A primeira é a recusa do autor em incluir em notas de rodapé ou no final de cada capítulo a referência de onde foram retiradas as abundantes citações transcritas no livro. Apresenta uma bibliografia final que quanto a mim não é suficiente.
A segunda é a forma descuidada, a carecer de revisão, de algumas referências a datas e a pessoas. O 28 de Maio não foi a 26. O levantamento da Marinha Grande não foi em 1944, mas sim em 34. Do Pacto Germano-Soviético não resultou a anexação da Bielo-Rússia e da Ucrânia. Vasco Gonçalves não foi substituir Otelo no Comando da Região Militar de Lisboa, mas sim Vasco Lourenço. Fala-se da terceira prisão do Álvaro a seguir refere-se a segunda. Buenos Aires em dois parágrafos quase seguidos aparece referida como uma cidade cosmopolita, etc., etc.

Para terminar e para que não digo que só faço crítica negativa, podemos dizer que é um livro agradável de se ler e que facilmente se percorrem as 600 páginas sem especial cansaço ou maçada.

04/12/2010

A minha alma está parva! A Propósito de um comentário do PCG sobre o PCC


Ainda não há muito tempo, a propósito da atribuição do prémio Nobel da Paz a um chinês que estava na prisão por motivos políticos, fiz aqui referência a um artigo de Albano Nunes, publicado no jornal Avante! Esse artigo continha algumas pérolas, das quais destaco: “E a verdade é que a atribuição deste Prémio Nobel é realmente «inseparável das pressões económicas e políticas» sobre a República Popular da China, e a opinião do PCP é a de que essa escolha não tem nada de inocente, antes se insere numa escalada de pressões contra este país que, pense-se o que se pensar sobre a sua política interna e externa, está a resolver colossais problemas de desenvolvimento económico, social e cultural e desempenha um papel crescente positivo na cena internacional.” E continuava: “E é óbvio que não vão no sentido da Paz pressões como as que têm sido exercidas sobre a China para que escancare às multinacionais o seu mercado interno, valorize a sua moeda, aceite normas ambientais que considere incompatíveis com o seu desenvolvimento, limite as suas relações internacionais.
E não é que através de um post de alguém que eu penso que está ligado ao PCP, não vou ter a um comentário do Partido Comunista Grego (KKE) sobre as opiniões de um homem importante do Departamento Internacional do Comité Central do Partido Comunista Chinês (PCC) sobre a Internacional Socialista e o PASOK, o partido socialista que neste momento governa a Grécia e que, tal como cá, é responsável pelas terríveis medidas de austeridade que se abateram sobre aquele país. Esse comentário estava incluído no site Resistir.info, fortemente ligado ao PCP
Este comentário começava logo assim: “É bem sabido que o KKE chegou à conclusão de que estão a desenvolver-se relações capitalistas na China de hoje, com a peculiaridade de que isto está a acontecer sob a liderança política do partido governante o qual usa o título "comunista". E depois continuava “As consequências deste desenvolvimento são bem conhecidas: a elevação da China ao topo dos países com as taxas mais aceleradas de desenvolvimento capitalista e o maior número de multimilionários, a abolição de importantes conquistas dos trabalhadores, tais como cuidados de saúde e educação gratuitas, os quais os trabalhadores têm agora de pagar, e a existência de milhões de desempregados e trabalhadores com baixa remuneração.” E a meio do comentário tinha esta afirmação “As opções anti-povo do governo PASOK são saudadas e apoiadas por responsáveis chineses, na medida em que são combinadas com a abertura da estrada para os monopólios chineses.” E terminava deste modo “Depois de tudo isto, alguém poderia perguntar-se se o PC da China está a ficar pronto para abandonar a sua última "folha de parreira" – o seu título.
Meios bem informados costumam garantir que o nosso PCP está muito próximo do PCG. Pelos vistos não alinham pela mesma cartilha em relação ao PCC e neste caso até me parece que o PCG, ao contrário de muitas outras coisas que afirma, tem toda a razão. Albano Nunes tem que fazer alguma reciclagem, pois pelos vistos as pressões para que a China “escancare às multinacionais o seu mercado interno”, não seriam sobre este país, mas sim deste sobre a Grécia, para que abra a as suas estradas aos “monopólios chineses”.
E para que não se diga que entre os comunistas não há alguma diversidade de pensamento, recomendo-vos o site ODiario.info, onde foi publicado este texto do comunista italiano Domenico Losurdo, que faz grandes encómios à China.
Pelos vistos ODiari.info e o Resistir.info não alinham pela mesma cartilha e o pior é que as opiniões do PCG também não coincidem com a voz avisada de um dirigente destacado do PCP. Que grande bagunça já vai por aquela casa!

02/12/2010

Como o PS, o PCP e a CGTP servem de válvula de escape para a tensão social – Conclusão


As trocas e baldrocas dos partidos do “arco governamental” são conhecidas. No entanto, o CDS ao propor ao PS que este faça parte da possível maioria governamental que se venha a formar, para além de interesses próprios, visa não só forçar este partido a assumir os custos das medidas draconianas que estão para vir, como evita que ele fique à rédea solta na oposição. O PS seria assim um factor de controlo do descontentamento popular, permitindo o isolamento dos chamados partidos do protesto. Mas situações destas têm-se vindo a suceder, com pequenas alterações, desde o 25 de Abril

O que é novo nas declarações referidas no post anterior é o papel que alguns comentadores de direita atribuem agora ao PCP e à CGTP. Os parabéns dados àquele partido são, quanto a mim, bastante embaraçosos. Mas apreciemos a manifestação anti-NATO e a Greve Geral separadamente. Comecemos pela primeira.

De um artigo (parcialmente transcrito aqui) bastante interessante de São José Almeida, publicado no mesmo jornal e no mesmo dia em que Pacheco Pereira escreve o seu, destacamos, porque está relacionado com aquilo que temos vindo a afirmar, esta parte: “É cristalino que está em curso a adopção de um discurso de propaganda que pretende criar um clima de temor às forças de segurança e de isolamento do que pode ser o protesto. Esta estratégia de intimidação é transparente e consiste em passar a mensagem – que é de forma estranhamente acrítica reproduzida pelos jornalistas – de que há manifestantes perigosos e, por isso, é preciso fechar num quadrado sob escolta de polícia de intervenção uma manifestação que é feita pela Marcha Mundial das Mulheres, a ATTAC, as Panteras Rosa, um grupo de rastafári (para quem não saiba é um movimento religioso pacifista) e um grupo de anarquistas, mais um deputado do BE, José Soeiro (um dos mais preparados deputados em exercício) e um militar de Abril (Mário Tomé).” E termina, fazendo eu uma ligação da manifestação anti-NATO à Greve Geral: “A greve geral foi um sinal político do descontentamento que existe já e de como a revolta pode estar latente. É esse medo da rua que leva à deriva securitária que se assiste em Portugal. E que, por mais ridícula que seja, é grave e põe em risco as regras da democracia tal como a conhecemos até hoje.
Ora bem, este artigo, que tem a ver unicamente com a acção securitária da polícia, permite no entanto que se infira que ao se isolar e entregar aos cuidados da polícia a repressão ou a marginalização de “manifestantes perigosos”, está-se a consentir que no futuro seja fácil atacar trabalhadores em greve ou que muito legitimamente façam a sua propaganda ou que organizem piquetes para a mesma. Por isso, faz sentido que José Neves, no Vias de Facto retome, adaptando, o poema sempre atribuído a Brecht, mas que parece não ser dele:

Primeiro levaram os anarquistas,
Mas eu não me importei
Porque não era nada comigo.

Agora levaram-me a mim
E quando percebi,
Já era tarde.


Ora no Avante, de 26/11/10, lê-se isto: “Ao contrário do que muitos anunciaram e outros tantos desejaram, a manifestação decorreu sem incidentes. Não houve sangue, nem distúrbios, nem violência. Não se partiu vidros nem houve carros incendiados, apesar de uns ânimos mais exaltados terem concentrado as atenções de quem, consciente ou inconscientemente, tem por missão transformar o episódio no acontecimento, mostrar a árvore para que não se veja a floresta.
Não é de surpreender que assim tivesse sido. A centena de organizações que promoveu a jornada estava bem identificada, desde a maré rubra das bandeiras comunistas às organizações sindicais, do movimento das mulheres às organizações de reformados, de imigrantes, agricultores, colectividades..., a mostrar que ali estava gente que luta, sim, mas para construir um mundo de paz.
” Como se pode concluir, este texto permite não só que os comentadores de direita agradeçam ao PCP não ter havido distúrbios, nem violência, como favorece o isolamento daqueles que "consciente ou inconscientemente" têm por missão provocá-los. Pode o PCP sentir-se muito incomodado com afirmações daqueles comentadores, não pode é fugir à triste realidade de ser considerado como uma válvula de escapa para a tensão social, colaborando assim "consciente ou inconscientemente" com a direita.

Quanto à Greve Geral podemos dizer que a situação já é diferente. Não tenho dúvidas que os sindicalistas da CGTP se esforçaram ao máximo para que ela tivesse êxito, simplesmente, a manutenção da tradição de no fim de uma greve geral não se fazer qualquer acção de protesto ou de massas, parece-me ser um grave erro, a corrigir em futuras paralisações gerais. Recordo-me que no final dos anos 70 ou início de 80, uma greve da função pública, que acompanhei de perto como sindicalista, terminaria com uma manifestação em S. Bento, que foi desconvocada há última da hora por não se ter comunicado a tempo ao Governo Civil a sua realização. Este facto provocou uma enorme desilusão entre os trabalhadores.
Penso que os agradecimentos à CGTP pelo desenrolar ordeiro da greve se deve bastante à maturidade dos trabalhadores e também ao desejo do Governo de não se intrometer demasiado. Recordo-me também duma greve em que o Ângelo Correia interveio como Ministro da Administração Interna, que ficou conhecida como a revolução dos pregos, já que ele se socorreu de meia dúzia de pregos, inventados ou reais, espalhados numa estrada para acusar os grevistas de intuitos revolucionários. Nesta, a tensão esteve ao rubro e aí a CGTP não foi apontada como o cordeiro manso como agora se verificou, também a força sindical era outra e talvez os dirigentes do PCP tivessem outra têmpera.

Tal como já afirmei em outros posts o que se passou na manifestação anti-NATO e nas acções desencadeadas pela polícia nas fronteiras não auguram nada de bom quer para a esquerda, quer para as liberdades democráticas.

01/12/2010

Como o PS, o PCP e a CGTP servem de válvula de escape para a tensão social – II


Analisadas as declarações sobre o PS, inseridas no post anterior, passemos às que se referem ao PCP e, por tabela, as relativas à CGTP, de interpretação um pouco mais complicada.

Tudo começa quando Pacheco Pereira (PP), na Quadratura do Círculo, de quinta-feira da semana passada (ainda sem link), afirma que foi devido ao PCP que a manifestação anti-NATO e a Greve Geral correram de forma tão pacífica. Não me recordo das palavras exactas, mas este tema foi retomado na crónica que escreve para o jornal Público ao Sábado.
Que afirma PP?
O tónus da luta política não pode contrariar a emergência em que vivemos. Um bom exemplo dessa atitude tem sido tomado pelo PCP, mesmo que não o admita ou enuncie. Na verdade, quer o que se passou na cimeira da NATO, quer o modo como foi conduzida a greve geral mostra que o PCP não pretende radicalizar a conflitualidade, e, bem pelo contrário, actua de forma decisiva, se preciso for, para a conter. Na cimeira da NATO só o comportamento da manifestação do PCP-CGTP e do seu serviço de ordem, em colaboração com a polícia, permitiu o isolamento dos sectores mais radicais que pretendiam aproveitar a presença de um grande número de manifestantes para proceder a violências e destruições. Isolados e cercados pela polícia, que actuou também com grande profissionalismo, os manifestantes violentos não conseguiram provocar qualquer distúrbio significativo, mesmo quando forçaram uma manifestação ilegal. Este facto é excepcional e não se verificava já há vários anos, numa cimeira com esta dimensão e projecção”.
Depois o artigo espraia-se sobre a Greve Geral, e também sobre o papel desempenhado pelo PCP para lhe retirar a conflitualidade social.
Lançado este mote por PP, foi ver de seguida uma série de comentadores a retomarem o mesmo tema. Com alguma malícia Clara Ferreira Alves diz o mesmo, no Eixo do Mal (ver minuto 27,49), “gostaríamos todos que no futuro o descontentamento social seja canalizado desta forma civilizada e organizada e absolutamente decente em que os trabalhadores se limitam, como é seu direito, … a organizarem uma forma de protesto e portanto estamos todos muito descansados enquanto isto for assim, … porque daqui para o futuro as coisas vão ser diferentes”.
Marcelo Rebelo de Sousa, no seu comentário semanal, na TVI, diz claramente que tem que se dar uma palavra de agradecimento ao PCP e à CGTP. “O PCP tem uma coisa boa é um partido disciplinado, certinho. Com o PCP não há arruaças, nem com a CGTP”. Depois, compara o que se verificou em Portugal com o que se passou na Grécia e em França, em que houve desacatos. Por último lembra que a participação da UGT na Greve Geral é indicativo daquilo que espera um governo de centro direita que aí venha, uma união entre o PS, a esquerda moderada, com a esquerda PCP e Bloco de Esquerda, traduzida na acção conjunta da UGT e CGTP.

Este é o tom geral com que a direita, e não estou a incluir aí Clara Ferreira Alves, aprecia a acção “civilizada” do PCP. Em próximos episódios retirarei algumas conclusões que destas declarações e que, segundo constato, não foram ainda comentadas por ninguém.

Como o PS, o PCP e a CGTP servem de válvula de escape para a tensão social – I


Alguns dos links aqui incluídos já estão um pouco envelhecidos, no entanto, achei oportuno mostrá-los para vos dar conta de um conjunto de afirmações feitas ultimamente por comentadores da direita, que a esquerda não pode ignorar.

A 6 de Novembro fazia referência, num post, a três opiniões que, durante aquela semana, mereceram os meus comentários. Fiz dois sobre elas e nunca tive vagar para fazer o terceiro. – Não há nada como ser reformado para se ter falta de tempo. – O último referir-se-ia a declarações de António Lobo Xavier (ALX) e de António Costa, na Quadratura do Círculo (ver minuto 36,45), sobre a indispensável participação do PS na execução de um orçamento tão terrível para o povo português como aquele que na altura tinha sido aprovado na generalidade. Disse António Costa: “o PS tem melhores condições político e sociais para conduzir este processo de consolidação do que o PSD”, e ALX acrescenta: “contra o PS é que é difícil”. Já antes (ver a partir do minuto 31,15) ALX justificava a necessidade de ser o PS a cumprir este orçamento: “é que é muito melhor, inclusivamente do ponto de vista político, fazer tudo o que é possível em articulação com o PS, para que pelos menos este orçamento seja executado”.
Dias depois, no Vias de Facto, João Tunes (JT) chamava a atenção para este artigo de Diogo Feio, do CDS, no Jornal de Notícias. A JT só interessava a sugestão daquele deputado centrista de ser “com recato” que se deviam processar as negociações entre os três partidos do “arco governamental” (PS, PSD e CDS), a mim interessava-me mais esta parte do artigo: “Terão de ser eles a assumir, de forma duradoura e em conjunto, o caderno de encargos. Para isso é necessário que com recato se entendam sobre um conjunto de linhas gerais.
Ninguém pode pensar que uma expectável futura derrota eleitoral do PS leve à exclusão deste partido do arco da responsabilidade. Essa será sempre uma decisão sua, mas também dos restantes partidos do arco de Governo. Esses têm de reflectir hoje sobre a melhor forma de permitir essa inclusão futura, porque nas ruas deverão apenas ficar os partidos de protesto
."

Em todas estas declarações é notório, por um lado, o CDS a puxar pelo PS para ser ele a aguentar as previsíveis dificuldades da governação e, por outro, o PS a oferecer os seus préstimos para essa função.
Aqui temos uma clara união de esforços, uns impõem restrições e outros oferecem-se para as pôr em prática.
Neste cenário o PSD, esquecendo os conselhos avisados do CDS e do patronato, no desejo de abocanhar todo o poder, é provável que dispense o PS desta colaboração.
Tem um próximo capítulo.

26/11/2010

Algumas conclusões políticas para a esquerda da Manifestação anti-NATO e da Greve Geral


Hoje, na sociedade portuguesa, verifica-se um claro fenómeno de crise social, com a pauperização das classes trabalhadoras, de crise económica, com a destruição da indústria produtiva, e política, com a incapacidade do principal partido do Parlamento de governar. Este facto tem acarretado uma crescente radicalização à esquerda. Acresce ainda o clima social vivido em alguns países da EU, tais como a Grécia, a França e a Grã-Bretanha, que tem alimentado o imaginário de certa esquerda. É pois neste clima que se movem os principais actores da esquerda.

Tendo em atenção este facto, torna-se impossível os principais partidos à esquerda do PS poderem contemporizar com este, principalmente com o seu Governo e com o seu chefe incontestado, José Sócrates. O PS pela política defendida e pelas propostas de Orçamento e de PECs apresentadas tem-se vindo a isolar cada vez mais da sua esquerda, praticando uma clara política de colaboração com a direita. Apesar de algumas vozes, que não chegam aos céus dos media, virem regularmente apelar para que se faça mais um esforço de diálogo entre o PS e as forças à sua esquerda, nunca isso esteve tão distante. Daí as dificuldades que a candidatura de Alegre enfrenta.

Como têm o Bloco e o PCP reagido a esta situação? O Bloco apresentando-se cada vez mais como um partido da esquerda não conciliadora, tentando sempre apresentar alternativas que forcem a sociedade portuguesa a evoluir para a esquerda. Há muito que ficaram para trás as causas fracturantes, que facilmente foram recuperadas pelo PS, e se virou para as preocupações sociais e do desenvolvimento económico. Recorrendo a certos chavões da gíria política, tornou-se um partido responsável, reformista e integrado no sistema, apesar de recusar, e bem, qualquer colaboração com o PS chefiado por Sócrates, mas apoiando um candidato da ala esquerda daquele partido, que em tempo oportuno soube dialogar com ele.

O PCP, seguindo na prática uma política semelhante, utiliza na sua definição ideológica e no seu convívio com as demais forças políticas um acentuado sectarismo e esquerdismo verbal, que o arrastam permanentemente para o isolamento, que de um modo geral é procurado, e que no campo internacional o levam a defender as coisas mais indefensáveis. Dai a apresentação de um candidato próprio à presidência da República, sem carisma e sem qualquer relevância política, a não ser dentro do seu partido. Deste facto resulta que na prática as votações do Bloco e do PCP sejam semelhantes na Assembleia da República, mas que depois na vida real não haja quaisquer consequências unitárias ou de acção comum, excepto aquelas que se desenvolvem no âmbito sindical, mesmo aí depois de muitas negociações e de pequenas escaramuças.

A radicalização da sociedade portuguesa acarretou o aparecimento, cada vez com maior visibilidade, do velho esquerdismo, sempre latente desde os anos 60 e 70 na sociedade portuguesa. Hoje simplesmente ele manifesta-se de maneira diferente. Não temos partidos a reivindicarem-se do passado do PCP, mesmo a tentar refundá-lo ou a criar um novo. Temos jovens anarquistas a lutarem contra o sistema ou alguns esquerdistas a assumirem que a luta é contra o capitalismo e não pela sua reforma. Mas temos também, e não tínhamos, ecologistas, mais ou menos radicais, ou apologistas de um viver alternativo à actual sociedade capitalista. Não sendo iguais, conservam igual radicalidade dos tempos antigos. E a crise social e económica do capitalismo tem os vindo a alimentar e a fazer progredir. Em que é que isto se reflecte nas relações destes grupos com os partidos de esquerda com representação parlamentar? Em primeiro lugar, o afastamento de alguma desta gente, os anarquistas nunca lá estiveram, do Bloco. Em segundo, uma recusa total em apoiar Manuel Alegre, o candidato também de Sócrates, como dizem. Em terceiro, uma certa aproximação ao PCP, com a esperança nunca verificada, de que este partido apoiasse um candidato unitário não comprometido com o PS, ou que, dado o seu esquerdismo verbal, os viesse a secundar na sua crescente radicalização social e política.

Em que é que as últimas lutas: manifestação anti-NATO e da Greve Geral, alteraram esta situação? Um maior afastamento dos movimentos radicais do Bloco, considerado um partido do sistema, ao aceitar integrar a parte da frente da manifestação anti-NATO e ao distanciar-se dos grupos que integravam a PAGAN, outra das plataformas que se propunha lutar contra a cimeira daquela organização militar, apesar de alguns dos seus aderentes continuarem a participar nela. E de não terem defendido uma manifestação no final da Greve Geral e terem-se ficado por um espectáculo de variedades na Praça da Figueira. Mas acima de tudo, e anterior àqueles factos, por ser um partido que concentra grande parte de sua actuação no Parlamento e apoia Manuel Alegre.
Em relação ao PCP, apesar de nunca terem morrido de amores pelos comunistas, achavam que teriam alguns pontos em comum. Rapidamente, na manifestação anti-NATO, verificaram o que é a acção trauliteira e sectária do PCP e é vê-los na net a desenterrar todo o conjunto de adjectivos que os seus pais espirituais de há cerca de quarenta anos despejavam sobre aquele partido. Por último organizaram uma manifestação anti-capitalista no dia Greve Geral, que garantem que foi um êxito, seguida de ocupação de uma casa da Câmara que estava devoluta . Tudo acções que não contaram com o apoio da CGTP e por tabela do PCP. A defesa do Francisco Lopes, como candidato à Presidência da República pelo PCP, também não tem contribuído para a sua aproximação àquele partido.

A esquerda está hoje profundamente dividida. Verifica-se de facto uma crescente esquerdização de sectores minoritários da sociedade portuguesa. Espero, no entanto, que isto seja o sinal de que alguma coisa está a mudar, que a correlação de forças será diferente no futuro e que possamos um dia ter a esperança de ter uma “esquerda grande” a governar este país.

25/11/2010

Quinteto Académico



Depois da Greve Geral, não há nada como festejarmos o seu êxito com humor. Descobri esta pequena pérola no blog Blogre