06/11/2011

Um artigo do Avante

Advertência inicial: havia neste momento assuntos nacionais e internacionais muito mais interessantes para comentar do que o artigo de Jorge Messias, A máquina da morte e a utopia, no Avante, de 27 de Outubro. No entanto, como levantou tanta celeuma na blogosfera, extravasando desta para os media nacionais, senti-me na obrigação de o comentar, já que de modo geral não concordo com a abordagem que tem sido feita.

Tomei conhecimento desta história num post de Paulo Granjo, do 5 dias, que era mais uma crítica dirigido ao Director do jornal Avante, por ter permitido a publicação daquele artigo do que ao autor do mesmo (retratou-se posteriormente). O seu texto terminava, depois de fazer um link para o artigo, com uma frase que atribuía a um velho amigo: “meu querido partidinho”. Percebi que havia mouro na costa, mas não liguei. No dia seguinte (3/11/11), vejo que o assunto tinha chegado ao jornal Público, e parece que quem o desencadeou foi o escritor Richard Zimler, norte-americano, naturalizado português, que na sua página no Facebook terminava um pequeno apontamento no seu mural com esta frase: “Agradecia que condenasse o anti-Semitismo do PCP o mais rapidamente possível!» (pode-se ler aqui). Num comentário ao post de Paulo Granjo afirma-se que o autor emendou o seu texto inicial por outro mais benigno. Não sei se é verdade ou mentira, não sou “amigo” de Zimler.

O que está em causa nesta história é que Jorge Messias, o colunista do Avante, citou, no início da crónica que escreve regularmente para o tema Religiões, daquele periódico, um texto de Os protocolos dos sábios do Sião, que é um conhecido texto anti-semita, forjado pela polícia czarista e citado por Hitler, no seu Mein Kampf. Daí partiu-se, e com uma certa razão, para na blogosfera acusar o autor de anti-semita e o próprio PCP. É evidente que nem todos foram tão explícitos como a “primeira versão” do texto de Zimler e, com mais ou menos qualidade, levantaram questões pertinentes (ver aqui, aqui, aqui ou aqui). No entanto, quanto a mim ficaram-se muito atinentes à citação de um pequeno texto dos Protocolos.

Há já bastante tempo que  Jorge Messias vem falando dos Protocolos. Tem um artigo dedicado mesmo a este assunto: Raízes e metas dos “Sábios do Sião” (Avante, 13/10/11), continuado por outro, uma semana depois (Avante, 20/10/11), que traz igualmente uma citação dos referidos Protocolos. Podemos dizer que este é bem mais grave, porque na sua efabulação, considera-os como verdadeiros, dizendo mesmo: “o documento era real e as profecias autênticas – reconheceram observadores mais objectivos”. Isto só mostra como andamos pouco atentos ao que vem no Avante – diga-se de passagem, que eu leio-o todas as semanas e nunca pousei os meus olhos nesta rubrica – e de vez enquanto indignamo-nos à compita com uma citação que lá vem.

Porque é que Jorge Messias dá tanta importância a estes Protocolos? Porque eles provam a teoria da conspiração, que segundo o autor é da responsabilidade de sionistas - os dos Protocolos -, Vaticano e mações. Todos eles estariam a tentar dominar o mundo a favor do capitalismo, estabelecendo um centro único de comando. Já esta semana (Avante, 3 /11/11) o autor escreve mais um artigo, que termina assim: “Todas as grandes decisões políticas americanas se sujeitam, já, aos pareceres prévios do Vaticano.” Esclarecedor.

É grave a citação dos Protocolos, é como se alguém para atacar a plutocracia recorresse ao Mein Kampf, de Hitler. Mas o que é mais grave em tudo isto é que nada do que é dito tem a ver com o marxismo-leninismo, tão apregoada pelo PCP. Ou seja, no seu órgão central, alguém, com a tolerância da Direcção do Jornal, vem ao longo de uma série de artigos – não aprofundei todo o passado e penso que esta rubrica é bastante antiga –, com uma linguagem anti-capitalista e anti-imperialista, atribuir às religiões, seitas ou outras organizações paralelas, o domínio do mundo, quando as coisas são bem mais complexas e têm merecido estudo e investigação de um conjunto importante de marxistas, a começar em Marx, passando por Lenine, mas mais actualmente por uma série de investigadores que têm dedicado a sua vida ao estudos do capitalismo e do imperialismo de um ponto de vista marxista Para mim se é grave a citação, é bem mais grave toda a formulação, que eu já chamei de efabulação, que lhe está por trás. Jerónimo de Sousa na ânsia de justificar o injustificável diz (ver no blog da Joana Lopes o texto do Público, de 4/11/11, que volta novamente este assunto) que o texto “era mais ou menos filosófico”, como que a dizer que era de um tontinho.

Não gostava de terminar sem vos citar um blog onde, quem queira, pode encontrar muito do que Jorge Messias escreveu e, se consultar a primeira página, verá que, por modestos 30 €, poderá ter acesso a toda a conspiração mundial. Deus os proteja.

01/11/2011

O Partido dos self-made men

Já em tempos escrevi um post sobre a Ascensão e queda dos self-made men, baseando-me para isso em textos do Pacheco Pereira. Considerava este articulista que o PSD era composto por militantes deste tipo e que progressivamente tinha perdido o seu apoio a favor dos dirigentes autárquicos ou dos dirigentes saídos directamente da Juventude Social-democrata, sem qualquer experiência de vida (o caso mais recente é o de Passos Coelho). Na altura tentei discutir um pouco esta descrição dos militantes e dirigentes do PSD. Neste post não irei escrever sobre isso, mas tal como na altura considerava que os exemplos de self-made men (Oliveira e Costa e Dias Loureiro) eram pouco edificantes para aquele partido, também hoje aproveito para lembrar Duarte Lima, o mais recente caso da ascensão e queda de um self-made man. Todos eles, diga-se de passagem, amigos ou colaboradores de Cavaco Silva, também ele, um exemplo de self-made man, por acaso bem infeliz e pouco edificante. Mas isto já foi discutido por mim durante a campanha presidencial.

Nada tenho quanto às pessoas que se fazem a si próprias, que não nascendo num berço de oiro ou pelo menos num de prata, foram capazes de se alcandorar a níveis de vida ou de poder muito maiores do que aqueles que a sua classe social de origem lhes reservava. Temos exemplos em Portugal que merecem algum destaque. È o caso de Bento de Jesus Caraça e José Saramago, entre os grandes intelectuais do Século XX, mas podia citar muitos outros que, devido à sua militância em partidos de esquerda, subiram para degraus nunca antes esperados, os exemplos mais recente são o de Carvalho da Silva ou de Jerónimo de Sousa, mas temos o caso mais antigo de Bento Gonçalves.

Ora estes self-made men que militam no PSD são o exemplo contrário dos casos anteriores, cresceram apoiados num partido de centro-direita, o PSD, e depois serviram-se do Estado e dos contactos que essa sua função lhes proporcionou, para enriquecerem fraudulentamente e, no caso de Duarte Lima, para matarem pela ganância do dinheiro. Matou-se por 5 milhões de euros.

Por isso, bem pode Pacheco Pereira glorificar o PSD como o partido dos self-made men, que os exemplos citados pouco contribuem para a galeria dos heróis daquela organização partidária. É evidente que o PS também tem tectos de vidro. Armando Vara é o caso mais conhecido. São partidos do arco de governação, o que permite a alguns dos seus militantes capturarem o Estado e servirem-se dele para depois subirem na vida.

25/10/2011

Robespierre e Hitler, uma crítica

Há tempos resolvi comentar um post Sérgio Lavos referentes a cinco filmes da vida dele, cujo título em inglês começava por uma das letras do seu apelido. Na altura achei estranho que a selecção fosse feita na base do seu nome, hoje, como já referi em post anterior sobre a Líbia, parece-me provir de alguém um pouco egocêntrico. Mas isso é o que menos importa em relação a um post recente de Lavos.

Comecemos pelo princípio. Lavos, no post que dedicou à Líbia, e que eu comentei, escreveu: “Não há imagens da cabeça de Robespierre nem do corpo de Hitler envenenado” isto no meio de um texto atabalhoado a defender a morte de Kadafi.

Carlos Vidal, do 5 dias, depois de umas gracinhas sobre Lavos, reponde-lhe dizendo que Lavos não sabe “quem foi Robespierre, depois de o ter comparado a Hitler”. Como o senhor Vidal não é muito amado na esquerda não comunista – eu sendo um comunista não ortodoxo considero-o um pedante – houve logo quem se metesse ao barulho e fizesse um pequeno post sobre a defesa que ele fazia de Rosbespierre. Assim, Miguel Madeira, no Vias de Facto, considera estranho que Carlos Vidal defenda Robespierre, que não passaria de um social-democrata ou mesmo de um democrata-cristão. Brincadeira de mau gosto que só releva do pouco amor que aquele blogger desperta na blogosfera.

Depois disto Lavos, como que a dar razão a Carlos Vidal, faz mesmo a comparação entre Robespierre e Hitler, citando uma frase de cada um. Esta resposta motiva uma reacção indignada, mas quanto a mim justa, de João Valente Aguiar, no 5 dias, tentando focar os problemas históricos e políticos que aquela comparação acarreta. Foi a partir deste texto que eu fui deslindar toda esta história. Por último Segio Lavos responde irado num post com o título A fina flor da elite intelectual de extrema-esquerda.

Provavelmente gastei demasiadas linhas com tão ruim defunto, mas eu, que não me considero de extrema-esquerda, acho  aquela comparação perigosa e mostrando alguma ignorância.

Modernamente, e principalmente na altura da comemoração do bicentenário da Revolução Francesa, uma conjunto de intelectuais, principalmente franceses, da direita neo-liberal, empreendeu a desvalorização da Revolução Francesa, destacando o seu período de Terror, e começaram a compará-la, no pior sentido, com a Revolução Bolchevique, afirmando que uma era herdeira da outra e que o “terror vermelho” era o prolongamento do Terror da Revolução Francesa. Consideravam, por isso, a nossa noção actual de democracia como herdeira da Revolução Americana e não da Francesa. Entre nós o mais lídimo representante desta corrente é João Carlos Espada, que escreveu ontem um artigo no Público, Sobre a Primavera Árabe e a constituição da liberdade, que vai um pouco no sentido por mim definido. Portanto, para estes autores se há alguém que se deva comparar a Robespierre é Lenine ou mesmo Estaline e nunca Hitler, dado que estes é que imitaram o Terror, levando-o a patamares até aí desconhecidos. Não sei pois onde Sérgio Lavos foi buscar esta comparação, talvez porque aqueles nomes serem um bocado incómodos, preferiu Hitler a Lenine, desvalorizando mais a acção de Robespierre. Fronçois Furet, um autor que depois de ser comunista, resolveu aderir à direita, no seu livro sobre O passado de uma Ilusão, Ensaio sobre a ideia do comunismo no século XX (1996, Editorial Presença), dedica parte do capítulo 3 (O encanto universal de Outubro), à comparação entre a Revolução Francesa e a Revolução de Outubro, referindo-se especialmente à época do Terror.

Parece-me pois estranho que alguém, que penso, ou deduzo, ser próximo do Bloco de Esquerda, possa retomar, piorando, esta comparação, que é típica de uma linha de pensamento da direita.

Para terminar recomendo-vos o livro interessantíssimo de Michel Christofferson, Les Intellectuels contre la Gauche, L’idéologie antitotalitaire en France (1968-1981) (2009, Agone) que dedica um capítulo a François Furet, que antes de escrever aquele ensaio se tinha dedicado com proveito e fama à Revolução Francesa, vista desta perspectiva aterrorizadora. Tentou mesmo influenciar as comemorações do bicentenário daquela, na mesma linha que a direita portuguesa, chefiada por Rui Ramos, tentou influenciar as comemorações do centenário da República.

Provavelmente Sérgio Lavos encontrará mais armas para a sua fogueira num livro que saiu recentemente, O livro negro da Revolução Francesa, de diversos autores, editado pela Alêtheia, da Zita Seabra (ver aqui a descrição do livro pela editora). Já tínhamos um precedente O Livro negro do Comunismo (1998, Livros Quetzal), agora temos este.

PS.: afinal Miguel Madeira, do Vias de Facto, resolveu levar-se a sério e então entrou em polémica com João Valente Aguiar, do 5 Dias, para saber se Robespierre era um jacobino radical (tipo burguês radical) ou um revolucionário consequente. Esta parte da polémica parece-me de uma infantilidade esquerdista.

24/10/2011

Líbia: testemunho de Lizzy Phelan



Ver também este texto de Atilio Boron.

Hoje, torna-se cada vez mais difícil defender o indefensável. Isto não significa que esteja de acordo com tudo é mostrado e escrito, mas no essencial dá para ver como certas boas almas foram enganadas ou se deixaram enganar pelos media ocidentais.

23/10/2011

Ainda a morte de Kadafi

Quando no post anterior critiquei Rui Bebiano, do A Terceira Noite, escrevi que o fazia porque ele era o único, que eu tivesse lido, entre os blogs que consulto quase diariamente, que tinha escrito sobre a morte de Kadafi. Depois de redigir isto resolvi ir ver outros que estão inseridos naquela lista e descobri que a morte do ditador tinha merecido mais comentários. Um de Miguel Serras Pereira, no Vias de Facto, outro de Sérgio Lavos, no Arrastão, e outro ainda Helena Borges, no 5 dias. Qualquer deles de significado diferente e feito por pessoas de diversas origens políticas, todos da esquerda.

Assim, o post de Miguel Serras Pereira (MSP) é muito linear, não se pode condenar a morte de Kadafi, sem condenar o ditador e muito menos fazer dele um exemplo a seguir. Aqui, o autor cita o texto de Helena Borges que tem só esta frase: “De pé, a resistir à colonização do seu país pelas Nações Unidas do Atlântico Norte”. Sem me pôr ao lado de MSP, porque acho que não basta só dizer isto, concordo que é um despautério a afirmação de Helena Borges. No entanto, MSP cita igualmente um post do Politeia, um blog de JM Correia Pinto, que eu achei bastante interessante, ao ponto de o incluir entre aqueles que eu consulto quase diariamente. O título é As democracias ocidentais aderem à acção directa, que desmonta completamente a responsabilidade do Ocidente nesta morte. MSP está de acordo e Joana Lopes também. Vi em comentários ao post.

Pior é o texto de Sérgio Lavos, um pouco egocêntrico. Depois de escrever o seu post, diz que a posição que tomou neste é diferente daquela que assumiu quando da morte de Saddam Hussein e termina dizendo que dá que pensar. Não sei quem é que deve pensar, se o autor se os seus leitores. Estes, com certeza, não estão nada preocupados com a sua mudança de posição.

A encimar o seu post lá vem a célebre fotografia do corpo de Mussolini e seus acólitos pendurados numa praça de Milão, que já tínhamos encontrado em João Tunes (ver post anterior). Depois, há uma arrevesada justificação desta morte, seguida de uma reflexão sobre a condição humana e uma velha advertência de que aquilo que vimos no ecrã não é a realidade, ou seja, nós não estamos a assistir à sua morte, mas sim vimo-la pelos olhos de alguém, que não é um observador desinteressado. Isto é verdade, mas que não nos sirva para ofuscar os acontecimentos. Sobre Sérgio Lavos falarei noutro post, pois escreveu uma das mais ignaras afirmações que alguém, que participa num blog de esquerda, pode fazer: comparou Rosbipierre a Hitler.

Dito isto, para que ninguém me acuse de me refugiar em críticas e não dar a minha opinião, aqui vai ela. A história está cheia de meandros e não se pode fazer comparações entre factos que ocorreram com dezenas ou centenas de anos de diferença. Quando foi do processo de Nuremberg ainda era normal condenar as pessoas à morte, daí os principais dirigentes nazis serem enforcados, hoje, no Tribunal Internacional de Haia, ninguém já é condenado à morte. Por outro lado, as circunstâncias fazem o momento, se não houvesse uma tropa disciplinada e obediente às hierarquias, Marcelo Caetano não sairia vivo do Largo do Carmo. Bastava que Salgueiro Maia o entregasse à multidão. Lenine teve que fuzilar os czares porque havia o perigo deles caírem nas mãos dos brancos. Talvez Mussolini, se não fosse fuzilado naquele momento, morresse na cama. A História é feita pelos homens e as suas circunstâncias.

Por isso, o que me aflige na morte de Kadafi, é que ele foi morto pela NATO por interposta “ira das massas”. A senhora Clinton já tinha garantido que ele ou era morto ou ia preso e Bush, a partir do momento que disse que pagava a quem apanhasse Osama bin Laden vivo ou morto, deu rédea livre para que se matasse qualquer inimigo da América.

Houve quem justificasse a morte de Kadafi às mãos dos familiares daqueles que tinham sido mortos ou torturados pelo ditador, lamento mas aquelas massas parecem-me mais cães assolados pelo ódio tribal do que vingadores de injustiças. Os chamados rebeldes não me oferecem confiança nenhuma e o futuro irá de certeza confirmar isto que escrevi.

22/10/2011

As boas almas e a morte de Kadafi

Talvez seja da idade, mas cada vez suporto menos, dentro da esquerda, os comunistas ortodoxos e as boas almas que estão sempre a pregar sobre a liberdade e a democracia, esquecendo-se de examinar cada caso em si e cedendo, porque são preguiçosas, à pressão mediática dos meios de informação ocidentais.

Vem tudo isto a propósito de alguns posts que li sobre a morte de Kadafi. João Tunes, do Água Lisa, sempre o mesmo, mas foi exclusivamente porque estive a consultar o seu blog por causa do meu post anterior, tem um pequeno apontamento exclusivamente com uma fotografia da cara de Assad, da Síria, e por cima dela duas linhas cruzadas feitas à mão. Este conjunto é encimado pelo título Siga-se…Assad. Já se sabe que a este senhor não lhe ocorreu pôr a cara do rei da Arábia Saudita, que do ponto de vista dos direitos das mulheres é um país bem mais horrível do que a Síria em relação àquele género.

Não se lembrou também de pôr a cara do presidente do Iémen, que parece que regressou novamente ao seu pais, nem do rei do Bahrein, que com a ajuda dos sauditas “meteu na ordem”, com mortos e feridos, os revoltosos xiitas que pediam mais liberdade. Teve que recorrer ao inimigo número um das potências ocidentais e que diariamente é contestado nos media, que há muito se vão esquecendo dos outros casos de despotismo no Médio Oriente.

No post anterior, não fosse alguém ficar chocado com a morte macaca de Kadafi, expõe a fotografia de Mussolini e outros pendurados de cabeça para baixo numa praça de Milão e acrescenta quem não se indignou com este tratamento dado ao ditador italiano não se pode agora indignar com a morte de Kadafi, como se uma coisa tivesse a ver com a outra. Mas sobre a morte de Kadafi já escreverei a seguir.

Rui Bebiano, do A Terceira Noite, com mais classe e menos provocador, aborda também a morte de Kadafi. Lamenta-a, mas justifica-a, mas o pior é esta pequena frase “só porque andam uns quantos aviões pouco inocentes a cruzar os céus em voo picado”. Apesar de dizer que a intervenção dos aviões da NATO são pouco inocentes, dá pouca importância à sua intervenção. Eu sei que se fala na televisão em diversas versões para a morte de Kadafi e que as Nações Unidas já mandaram averiguar em que circunstâncias morreu. Contudo, depois da intervenção de um ministro do governo francês, que alardeando que foi um Mirage que detectou e bombardeou a coluna em que Kadafi seguia, não me restam dúvidas de que os ferimentos iniciais que se diz que existiam são da responsabilidade desse bombardeamento e que, quase de certeza, os rebeldes foram avisados da sua localização. Posteriormente, se foi morto ao sair do túnel (ver fotografia) onde se refugiou ou se andou em bolandas até ser morto são pormenores pouco importantes.

Tudo isto para dizer que se não fossem os aviões e os "consultores" no terreno da NATO que, de acordo com a resolução das Nações Unidas, tinham uma missão bem diferente, nunca os rebeldes tinham vencido e morto Kadafi. Ou seja, já que gostam de fazer comparações e tomarem posições de princípio, em que é que esta guerra diferiu da invasão do Iraque por Bush, que de certeza condenaram? Não conduziu qualquer delas ao derrube do ditador e à sua morte, seja por enforcamento, caso de Saddam Hussein, ou por fuzilamento, caso de Kadafi. No fundo, não foi devido à intervenção estrangeira, para mim do imperialismo, que estes ditadores caíram? Será que a diferença está no mandato das Nações Unidas, que no Iraque não existiu e na Líbia foi completamente subvertido?

Tanto num caso como noutro não sabemos o que o futuro reservará aqueles dois países, só sabemos é que o petróleo continuará a correr para os bolsos das grandes companhias petrolíferas e que, tanto num caso como noutro, pouco restará para a sua população. Mas sabemos mais que tanto a queda da estátua de Saddam como a tomada de Tripoli, foram saudadas pelo CDS como novos 25 de abris.

Alguma coisa está errada nestas apreciações.

Mas não deixaria também de assinalar esta outra frase no texto de Rui Bebiano: “Como custa a entender … o silêncio cúmplice diante dos milhares de mortos sírios de Bashar Al-Assad”. Mas quem é que é cúmplice? Todos os dias são noticiadas as mortes lá ocorridas. Há resoluções da União Europeia e das Nações Unidas sobre o assunto. A senhora Clinton já fez diversas advertências. O que é que queriam mais, talvez a NATO a bombardear com fins humanitários a Síria? Simplesmente, ali não há petróleo. O silêncio cúmplice tem baixado é sobre a repressão dos xiitas no Bahrein, com a ajuda dos sauditas, que como são amigos dos ocidentais são sempre esquecidos nestas coisas de direitos humanos. Tristes tempos que estamos vivendo.

PS.: Estes dois blogs foram referidos, um, porque ocasionalmente passei por ele, e outro, porque é uma das minhas consultas quase diárias, não foi por nenhuma animosidade especial. Provavelmente muitos outros saudaram a morte de Kadafi, simplesmente não os li.

Acabei de ler, no Público, A bizarra história da intervenção na Líbia (sem link), de José Pacheco Pereira, e acho que ele aborda este tema de uma perspectiva com que concordo. Eu sei que ele apoiou a intervenção no Iraque e que deve achar esta guerra uma intervenção da social-democracia (Obama), tal como já tinha sido a intervenção contra a Sérvia, que ele também não apoiou. Mas Pacheco Pereira quando está contra, seja em relação ao Governo ou à política internacional, é tão lúcido e apresenta por vezes tal argumentário que consegue ultrapassar as proclamações da esquerda sobre os mesmos temas.

21/10/2011

Mais uma vez a Guerra Civil espanhola – II

O prometido é devido. Apesar do atraso e da premência do desastre nacional remeto-vos para a segunda parte do post sobre a Guerra Civil espanhola.

Começo por referir, porque acho que se integra bem neste post, o livro sugerido num comentário anteriormente feito à primeira parte deste trabalho.

Estou e a aludir ao livro de Antony Beevor sobre a Guerra Civil espanhola, que em português leva o título de A Guerra Civil de Espanha (Bertrand Editora, 2006), já que o título original, citado no comentário, é The Batle for Spain, mantido na tradução brasileira da obra: A Batalha pela Espanha. É interessante saber que este livro foi reescrito e ampliado pelo autor em 2005, depois de ter acesso aos arquivos da ex-União Soviética. A primeira edição era de 1985, se me lembro bem do que li, e da qual foi feita uma tradução pela Livros do Brasil. Fiquei a saber tudo isto consultando, como é hábito, o motor de pesquisa da Google, o que me atrasou na redacção deste post.

Não li o livro, nem ainda o comprei, mas penso pelo que li sobre ele que se integra numa corrente revisionista que pretende deslegitimar a acção da República. Uma das conclusões do livro é de que se a República vencesse se tornaria numa ditadura comunista igual àquelas que posteriormente vieram a existir no Leste europeu, depois de 1945. Parece-me esta conclusão perfeitamente disparatada, porque é não perceber nada do que foi a acção da URSS antes da II Guerra Mundial e principalmente em Espanha, defendendo a segurança colectiva, que envolvia alianças com a Inglaterra e a França contra a Alemanha, daí ser impensável o apoio à revolução socialista, visto que a mesma impediria qualquer aliança com aqueles dois países. É esta a acusação base que é feita a Estaline por todos os movimentos à esquerda do PCE (anarquistas e POUM). Por outro lado, é não ter em conta o que se passaria durante a II Guerra Mundial, com as alterações que a mesma trouxe à reordenação da Europa. Provavelmente, neste caso, Salazar não se livraria de entrar na Guerra.

Pelo que li, igualmente nas recensões a este livro, Antony Beevor também não é nada meigo para com os franquistas, o que motivou alguma contestação critica (ver aqui, aqui  e aqui) da direita espanhola, onde esta última edição saiu originalmente. Num delicioso vídeo de um reaccionário brasileiro, que encontrei no YouTube, este livro também é citado, entre a numerosa literatura anticomunista que refere, aqui para provar que houve matança de gente do clero, mas acrescentando no início que é um livro esquerdista, porque, penso eu, não toma partido pela cruzada de Franco contra os ateus comunistas.

Escrito isto, que vai um pouco ao arrepio aceitação generalizada desta obra de Beevor, gostaria de voltar ao livro que aqui nos trás, este sim já por mim lido recentemente. Estamos a falar do livro de Stanley G. Payne, A Guerra Civil de Espanha, a União Soviética e o Comunismo, de 2006, da Editora Ulisseia.

Este livro insere-se igualmente na corrente historiográfica que pretende deslegitimar o Governo da República. Isto porque os defensores deste Governo, no fundo os partidos que compunham a Frente Popular, que ganhou as eleições em Fevereiro de 1936, - dela não constavam os anarquistas, por ser um dos seus princípios base não participar em eleições “burguesas” - sempre desejaram uma revolução ou um governo só da esquerda e ao ganhar as eleições apropriaram-se do poder como se pudessem de imediato pôr em prática as suas ideias. Já se sabe que isto é a visão de uma autor apoiante de Bush e neo-conservador (ver aqui), que tem uma visão enviesada do que é a democracia: qualquer governo que seja de esquerda e que deseje uma real transformação social, o que nem se pode dizer que estivesse a suceder em Espanha antes do golpe militar (Julho de 1936) é anti-democrático, os governos de direita, mesmo que sejam ditaduras, são sempre democracias, pois estão a fazer progressos para se democratizarem. É por isso que imediatamente acusaram Allende de pretender instalar no Chile uma ditadura comunista e preferiram Pinochet, esse “grande democrata”, a Allende.

Para compreender as teses de Stanley Payne remeto-vos para uma descrição que é feita na Wikipedia  relativamente ao pensamento revisionista sobre a Guerra civil espanhola a propósito da biografia de uma dos seus mais famosos defensores, Pio Moa, que foi apoiado, nos debates travados em Espanha sobre este assunto, por Payne. A tradução do texto foi automática, com correcções minhas:

1. Uma parte substancial da esquerda (os anarquistas, PCE, ERC - Esquerra Republicana de Catalunha e do sector de PSOE, liderado por Largo Caballero ) teve um carácter marcadamente antidemocrático, uma vez que considerava a República como um mero trampolim no caminho para seu objectivo final o da Revolução Social.


2. Este sector da esquerda espanhola organizou a revolta de Outubro de 1934.

3. As eleições de 1936 ocorreram numa república que não era democrática, A Frente Popular venceu por estreita margem de votos (mas com muito mais lugares no parlamento), devido a certos arranjos obscuros, como os denunciados pelo então Presidente da República, Niceto Alcalá Zamora , e corroborados, segundo Moa, pelas memórias de Azaña, Alcala-Zamora e Madariaga.

4. A situação de violência na rua e o real fervor revolucionário originou uma resposta simétrica em sectores da direita , a que se juntou uma parte de oficiais do Exército, desembocando toda esta escalada de violência - que culminou no assassinato por membros da Guarda de Assalto do deputado e líder da oposição, José Calvo Sotelo - na revolta de 18 de Julho de 1936 . Esta seria uma reacção desesperada de uma direita que não espera mais tempo, como a esquerda da Frente Popular vinha anunciado há anos.

Eu não podia traduzir melhor o pensamento de Stanley Payne expresso neste livro. Penso que Antony Beevor não pensa de igual modo, mas temo, pelas recensões que li, que apesar de ser muito mais crítico para com os franquistas, não deixa de deslegitimar a República, antevendo, se ela vencesse, um cenário de terror.

Falando mais concretamente do livro diria que o pior são as interpretações do autor relativamente à República e às suas intenções, pois que a descrição das acções do PCE e das ajudas da URSS e a intervenção dos agentes policiais que esta enviou para Espanha parecem-me bem fundamentadas e provavelmente a corresponderem à realidade. O problema é sempre do parti-pris de que parte.

Gostaria de sublinhar um dos aspectos que mais me chocou, foi a descrição daquilo a que se chama o “biénio negro” da República, ou seja os dois anos (1934-36) em que a direita governou. Como se sabe, em Outubro de 1934 ouve uma revolta dos mineiros asturianos que foi derrotada, este mesmo ano é referido num dos pontos anteriormente transcritos a propósito do pensamento de Pio Moa. Ora tanto Stanley Payne, como pelos vistos Moa, consideram que nesse Outubro ouve uma tentativa insurreccional generalizada, com responsabilidades do PSOE de Largo Caballero e da Generalitat da Catalunha. E que, por isso, a esquerda tinha-se antecipado à direita nos golpes revolucionários. Estive a ler este período tanto na obre de Preston, como na Hugh Thomas, qualquer deles referido por mim no post anterior, e verifiquei que se é um dado indiscutível que houve uma revolta dos mineiros asturianos, que foi reprimida por tropas da Legião sedeadas em Marrocos, já o resto da revolta generalizada está envolta em grande bruma e não é certo que tivesse existido, com as características que Payne lhe aponta.

Mas mais grave ainda é Payne achar o Governo da direita nada fez para eliminar as organizações revolucionárias que tinham organizado a insurreição e ainda mais acrescenta: “A repressão por parte da República, em 1934-35, foi de uma suavidade sem precedentes na história moderna da Europa Ocidental – mais suave do que em qualquer estado liberal ou semiliberal da Europa dos séculos XIX ou XX…” (pag.84). E que exemplos ele usa de repressão: a da Comuna de Paris, a da revolução de 1905-07 na Rússia dos czares, a da revolução na Alemanha, em1918-19, e, um caso que eu desconhecia, a do “golpe comunista” na Estónia “democrática”, em 1924. E termina esta página brilhante assim: “o falhanço da repressão dos revolucionários não constitui um benefício para a democracia liberal em Espanha, e pode ter apressado a sua destruição. Atroz como foi, a repressão dos communards de Paris em 1871, por exemplo, pode ter ajudado a estabilização inicial da Terceira República da classe média francesa, durante as décadas de 1870 e 1880”. Depois cita um caso finlandês de 1918, com muita repressão à mistura, que só ajudou a consolidar a democracia naquele país. Esta página, a 85, é um manual de como os estados devem lidar com as organizações revolucionárias e como as devem reprimir, que qualquer pessoa que se considere da esquerda não pode ler sem sentir um profundo horror.

Por estas razões custa-me perceber porque é que João Tunes, do blog Água Lisa, na recensão que faz a este livro o recomenda vivamente. Mesmo que haja um conjunto importante de informações sobre a acção do PCE e da URSS, dirigida por Estaline, tem que previamente se alertar as pessoas para a reccionarices anteriormente apontadas. Por outro lado, o ódio a Estaline e a todo o movimento comunista internacional da altura leva-o a fazer uma descrição da Guerra Civil espanhola que, cabe perfeitamente no tipo de revisionismo histórico que eu apontei em cima. Antony Beevor escreve, parece que logo no início do seu livro, que uma das primeiras vítimas desta guerra teria sido a verdade. João Tunes não foge deste ponto de vista, agravando-o. Por exemplo, Preston dedica o seu livro às Brigadas Internacionais, apesar de criticamente apreciar a acção de Estaline. João Tunes devido aos seus preconceitos não é capaz de olhar criticamente para acção dos comunistas, sem ter que ver em cada um deles a mão de Moscovo, ou seja, a mão de Estaline.

17/10/2011

Na antecâmara do fascismo

Passos Coelho fez um discurso em que se propunha esbulhar os portugueses em vários milhões de euros, deixando no ar a ideia de que a culpa era do colossal desvio orçamental que tinha sido descoberto nas finanças públicas. A responsabilidade cabia por inteiro ao anterior governo. Na Assembleia da República, no dia seguinte, voltou a afirmar que as medidas eram dele, mas o défice que as obriga não, que as televisões depressa identificaram como sendo deixado pelo PS. A seguir o CDS faz o número de exigir saber quem tinham sido os responsáveis ministério a ministério, divisão a divisão, por este colossal desvio, ou seja, quem em qualquer lugar tinha contribuído para isto suceder e continuava impune. O primeiro-ministro responde que se iria averiguar parceria público-privada a parceria público-privada, contracto a contracto, departamento a departamento quem, como e porquê estava na origem destes encargos insustentáveis. No meio tudo isto, o dirigente da Juventude Social-democrata diz que vai escrever ao Procurador-geral da República para pedir a criminalização dos responsáveis por este buraco orçamental. Tudo isto, misturado nos noticiários das televisões, fazia passar a ideia de que José Sócrates e o seu Governo poderiam vir a ser acusados na Justiça por este colossal desvio.

Repetiram-se estas notícias até à exaustão durante todo o dia, fazendo despontar nas pessoas o desejo de meter na cadeia o anterior Governo.

O que é que isto nos faz lembrar?

Não sendo capaz de resolver os problemas nacionais, a direita começa não só a criar os inimigos públicos internos, neste caso o anterior governo e os dirigentes por ele nomeados, como inicia a caça às bruxas tentando descortinar em cada gestor público ou governante um criminoso.

Como sabemos estes métodos são a antecâmara do fascismo que sempre encontrou na plutocracia, nos judeus e nos comunistas os responsáveis pelos males internos. É verdade que estes inimigos nem sempre foram os mesmos. Para os nazis eram os judeus os responsáveis pelos males da Alemanha,  por isso, exterminou-os. Para Franco eram todos aqueles que fizeram parte da Frente Popular que tentou impedir que ele tomasse o poder. Foram presos e a maioria fuzilada. Para Salazar e Marcelo eram todos aqueles que dissessem mal do Governo ou, na parte final, os que pusessem em causa a continuação da guerra colonial. Neste caso eram só metidos na prisão, excepto os que foram mortos pela PIDE.

Este tema da criminalização do Governo anterior e dos seus gestores é muito popular e tem encontrado eco em algumas personalidades da nossa vida intelectual. Por outro lado, tem sido levado com alguma leviandade e ligeireza por outros. Ainda ontem Marcelo Rebelo de Sousa, no seu comentário na TVI, achava melhor que em vez de se criminalizar e procurar os responsáveis, pois podia paralisar a máquina do Estado, que passaria o seu tempo a fazer investigações sobre o assunto, se propusesse uma lei que conduzisse ao mesmo, ou seja, aperfeiçoar a responsabilização criminal.

Não vi ainda ninguém, entre os comentadores de serviço, que achasse que este caminho era perigoso. Há mesmo alguns, como José Gomes Ferreira, o comentador económico da SIC Notícias, que propõem imediatamente a criminalização dos anteriores responsáveis (ver aqui). Já conhecíamos este senhor como um dos mais convencidos comentadores daquela estação de televisão.

Vai mal o país quando se propõe criminalizar aqueles de quem se discorda politicamente. Mas é interessante que Passos Coelho não queira falar em responsabilidade política. Para ele é mais simples apontar o dedo aos responsáveis do que hostilizar o PS, e a populaça aplaude. O PS sempre pode abster-se no orçamento de Estado e votar as leis fundamentais ao lado do Governo. Sócrates e alguns chefes de Divisão são mais facilmente responsabilizados por este desvio. No entanto, já há alguns, como Miguel Relvas, que querem a cabeça de alguns deputados que foram ministros, talvez Silva Pereira, pois riem-se muito no Parlamento e mandam apartes violentos aos deputados do PSD-CDS. Deviam estar com cara de enterro. Que tristeza, mas o grave é que isto pode ser a antecâmara do fascismo, agora com outro nome.


PS.: muitas destas afirmações são baseadas em declarações que li no Público e ouvi nas televisões. Não consigo fazer link para nenhuma delas porque hoje, apesar de todos órgãos de informação garantirem que estão presentes na Internet, depois, na prática, não se consegue aceder àquilo que nos interessa. No Público é preciso pagar para se ter acesso a toda a informação, dantes era só para os artigos de opinião. Nas TV dá-se este fenómeno curioso, na SIC o noticiário das oito só está acessível durante dois a três dias, como as notícias eram do dia 14, já não foi possível aceder. Nas outras duas televisões, os últimos noticiários ainda não foram inseridos, portanto, ainda não se chegou ao dia 14. Quanto à crónica do Professor Marcelo só se encontram extractos, não consegui aceder ao comentário integral e nenhum dos extractos era referente ao assunto por mim referido.

14/10/2011

As eleições na Madeira

Ainda que um pouco atrasado e sem dar continuidade à segunda parte do post sobre a Guerra Civil Espanhola, gostaria de comentar os resultados eleitorais da Madeira.

Era previsível que Alberto João levasse um tombo. Alguns acalentavam a esperança de que ele perdesse a maioria absoluta. De facto, isso não sucedeu, mas ficou abaixo dos 50%, perdeu quase 19 mil votos e desceu cerca de 16% em relação às eleições 2007. Se isso tiver consequências para ele e uma alteração na situação na Madeira, ainda bem. Mas temo, que passado este falatório eleitoral, regresse tudo à normalidade jardinista.

Falava-se da possibilidade do CDS ultrapassar o PS, mas que ultrapassasse em mais de 9 mil votos e em 6%, só num pesadelo de António José Seguro. Penso que a Madeira é ao único local do país, e refiro-me a municípios e regiões autónomas, em que o CDS é alternativa ao partido no poder. Em muitos locais do Alentejo quem fica em segundo lugar é a CDU. Não me consta que isso suceda com o CDS noutros sítios.

Depois resta a esquerda, à esquerda do PS. A CDU perde mais de 2 mil votos e 1,5% do eleitorado em relação às eleições anteriores, o Bloco de Esquerda, para minha infelicidade, desaparece do mapa. È o último partido, abaixo dos partidos fantasmas, que todos eles conseguem eleger um deputado, exceptuando o José Manuel Coelho, que nestas eleições concorria pelo PTP (Partido Trabalhista Português) (alguém conhece esta entidade política?), que não só consegue ter mais votos do que a CDU, como consegue eleger a filha, que estava em terceiro lugar na lista, porque mais nenhuma mulher tinha aceitado aquele posto.

Estes dados, que já todos conheciam, são verdades insofismáveis que já tinham sido comentadas até à exaustão.

Parece-me, no entanto, que o que há que realçar destas eleições foi o quase apagamento da esquerda, considerando o PS, um partido de centro-esquerda, também incluído. PS+CDU+BE tiveram no seu conjunto menos votos que o CDS. Isto é que é espantoso.

Cada um destes partidos terá uma explicação conjuntural para o que se passou. Eu por mim retiro a conclusão de que a esquerda não está a convencer o eleitorado de que pode ser uma alternativa para a crise. É evidente que a situação do PS é muito ambígua, ele não só não é alternativa, como é apontado como o responsável pela crise. Mas, como vimos no resultado das eleições nacionais, a esquerda à esquerda do PS não aparece também como alternativa. E é esta a desgraça nacional. Estou convencido que ninguém aceita ser espoliado do seu vencimento, mas passar da fase de aceitação passiva das desgraças que lhe estão a suceder à fase de revolta e de procura de outras soluções ainda está muito longe do pensamento comum. Há uns que apontam lá para Janeiro, quando os cortes começarem a valer. Eu, como não sou mecanicista, acredito que só quando ganharmos a consciência política das “massas espoliadas” e apresentarmos soluções em que elas acreditem é que é possível fazê-las passar da aceitação passiva à revolta organizada.

E é isto que tenho a dizer sobre as eleições na Madeira.

13/10/2011

!5 de Outubro - A Democracia sai à rua



PROTESTO APARTIDÁRIO, LAICO E PACÍFICO

- Pela Democracia participativa.

- Pela transparência nas decisões políticas.

- Pelo fim da precariedade de vida.


10/10/2011

Mais uma vez a Guerra Civil de Espanha - I

Quando da passagem do 75º aniversário do início da Guerra Civil espanhola, a 17 e18 de Julho deste ano, a maioria dos blogs de esquerda resolveu, e bem, assinalar a data, cada um com as suas opções ideológicas próprias. Estou-me a recordar do blog de Joana Lopes, Entre as brumas da memória, que nos remete para dois dossiers, um deles elaborado por El País e que era bastante interessante. Mas também, o que me causou alguma estupefacção, a referência que Miguel Serras Pereira, no Vias de Facto,  fazia a uma canção revolucionária espanhola, Ay Carmela, com uma letra em francês, que faz referência aos acontecimentos de Maio de 1937, em Barcelona – uma pequena guerra civil dentro da Guerra Civil geral, e que opôs as facções trotskistas (POUM) e anarquistas e a sua central sindical (FAI e UGT) ao Governo da Frente Popular, sedeado em Valência, principalmente à sua ala comunista e socialista moderada –, que eu conhecia com uma letra completamente diferente (pode-se ouvir a canção original no próprio post de Joana Lopes ou ler a letra aqui).

Na altura ainda pensei entrar na onda, simplesmente ou estas coisas se escrevem na data própria ou então deixam de ter sentido. Foi isso que sucedeu. Simplesmente, foi posta recentemente à venda uma nova edição do livro de Paul Preston, A Guerra Civil de Espanha (2011, Edições 70). Sucede que o comprei e o li de uma penada. Como gostei, achei por bem, mesmo com atraso, voltar ao tema falando do livro.

Penso que a tradução portuguesa é feita a partir da última edição inglesa de 1996, publicada na passagem do 60º aniversário do início da Guerra Civil. O livro na sua versão em inglês chama-se Uma História Concisa da Guerra Civil Espanhola, o que explica a ausência de bibliografia, de referências onomásticas e a descrição abreviada dos acontecimentos. Não se compara, em pormenor, com os livros que há muitos anos li de Hugh Thomas, uma edição da Ulisseia, ainda do tempo do fascismo, e o muito citado La Révolution y la Guerra de España, de Pierre Broué e Émilie Témine, numa tradução para castelhano, em dois volumes, editada no México, em 1962, pelo Fondo de Cultura Económico.

O livro de Paul Preston não nos engana ao que vem. Logo na Introdução declara que apoia os republicanos e denuncia os crimes do franquismo e a manutenção da sua ditadura até aos anos 70. No entanto, não escamoteia a realidade complexa da zona republicana e dos equilíbrios instáveis entre as diferentes forças que compunham a Frente Popular que governou a República durante a Guerra Civil, nem os desmandos e desordens iniciais ou as perseguições posteriores feita pelos comunistas do PCE e do PSUC (os comunistas da Catalunha), da polícia secreta soviética e de alguns socialistas moderados às organizações já anteriormente referidas: FAI, UGT e POUM.

Paul Preston toma igualmente posição perante o dilema, que atravessou a República, as memórias dos seus participantes e ainda hoje fornece material abundante para discussões mais ou menos sérias que por vezes aparecem na blogosfera nacional (ver aqui e o post já referido do Vias de Facto), ou seja, a opção entre guerra ou revolução, tomando aquele autor  partido pela guerra.

Para se compreender o que está em causa eu resumiria assim o problema: uns defendem os comunistas e a URSS por terem privilegiado a ordem e vitória na guerra e outros acusam aqueles de traírem a revolução ao optarem primeiro pela vitória na guerra e só depois, se houvesse condições para isso, fazer a revolução.

Paul Preston logo na sua Introdução (pag. 21) não é meigo parar com aqueles que defendem a “revolução”. Diz ele: o debate sobre a “guerra ou revolução” tem ocupado os simpatizantes republicanos incapazes de aceitarem a derrota da esquerda. Durante o período da Guerra Fria, a noção de Estaline ter abafado a revolução em Espanha, ajudando a vitória de Franco, foi propagandeada com sucesso. Várias obras sobre a Guerra Civil de Espanha foram patrocinadas pelo Congresso para a Liberdade da Cultura, entidade financiada pela CIA, a fim de disseminarem essa ideia. O sucesso de uma aliança espúria entre anarquistas, trotskistas e combatentes da Guerra Fria eclipsou o facto de Hitler, Mussolini, Franco e Chamberlain serem os responsáveis pela vitória nacionalista, e não Estaline. Eu não diria melhor.

Em próximo post voltarei ao assunto, referindo-me a outro livro, já não tão recente como este, mas bastante interessante não só pelo seu conteúdo reaccionário, como a uma recensão que suscitou na blogosfera. Estou-me a referir ao livro de Stanley G. Payne, A Guerra Civil de Espanha, a União Soviética e o Comunismo, de 2006, da Ulisseia (agora já nas mãos da Leya).

03/10/2011

A polícia, o chanfalho e a direita portuguesa

Durante 48 anos a direita portuguesa sempre recorreu ao chanfalho ou ao cassetete para pôr na ordem os trabalhadores portugueses. Salazar propunha que se desse uns “safanões a tempo” naqueles que protestavam para se evitar males maiores. A direita sempre foi caceteira e sempre recorreu à repressão para dirimir os conflitos e protestos sociais e políticos. Nós já nos esquecemos disso, mas é bom recordá-lo às novas gerações.

O célebre capitão Maltês, de pingalim na mão, a dar ordem aos seus polícias para arrearem nos estudantes, é uma imagem que nunca mais me há-de esquecer e que dá bem a ideia do que era a direita portuguesa no tempo do fascismo.

Hoje, cheia de boas maneiras e de sorriso nos lábios lembra-nos que se não formos a bem, e resistirmos às propostas da troika, recorrerá com sempre o fez aos mesmos métodos que a está habituada. Veja-se as declarações de Pedro Passos Coelho, ameaçando a esquerda se ela não se portasse bem (ver aqui – esta versão tem a resposta das centrais sindicais e dos principais líderes de esquerda).

Mas este episódio passou-se no Verão, quando se poderia dizer que o primeiro-ministro andava de cabeça esquentada pelo Sol da Manta Rota. As palavras foram esquecidas e a direita nunca mais  falou no assunto, apesar do tema vir sempre à baila, quando os jornalistas interrogam alguém da esquerda, sobre se este estava à espera de tumultos sociais devido a esta política.

Mas eis que hoje o tema se torna mais grave. Na primeira página do Diário de Notícias (ver aqui), logo ao alto, vinha a notícia PSP e Secretas à espera dos maiores tumultos desde os tempos do PREC e em baixo como se as duas coisas estivessem relacionadas 100 mil pessoas saíram à rua na primeira “manif” da era Passos Coelho. Já conhecíamos a vocação do Diário de Notícias para jornal provocador. Ainda nos lembramos do célebre e-mail que este jornal publicou na campanha eleitoral do Verão de 2009, violando a mais elementar ética profissional e que esteve na base da vitória de Sócrates. Agora, como o governo mudou, aí temos o Diário de Notícias a deixar sair uma notícia, obviamente encomendada, sobre um relatório secreto da Polícia sobre possibilidades de agitação social. À noite todas as televisões pegaram no assunto (ver, por exemplo, aqui e aqui), cada uma ao seu estilo, mas todas elas relacionando a manifestação do dia anterior como o primeiro ensaio da futura agitação social.

Estamos perante um acto grave de provocação da direita, com o auxílio da polícia (PSP) e de uns rapazes dos sindicatos da mesma, que a despropósito, resolveram também meter o bedelho onde não eram chamados. Espero que meditem se é assim que pensam contar com a solidariedade da população para as suas lutas sociais.

É evidente que nas muitas notícias que a TV propalou há uma mais benignas, afirmando que a PSP não tem medo das manifestações da CGTP, mas sim daquelas que estão previstas para o dia 15 de Outubro, que não têm um interlocutor bem definido, e que até, pecado dos pecados, se realizam simultaneamente com outras no estrangeiro, com o perigo agravado de alguns alienígenas se poderem deslocar ao nosso país. Noutros telejornais deu-se também como exemplo, bem personificado, a ocupação do Jornal da Madeira, para garantir o pluralismo de opinião, por candidatos do Partido Nova Democracia. E a ocupação do Ministério da Educação por meia dúzia de professores não colocados, que suponho eu tinham a aprovação e cobertura do sindicato.

Está-se pois a criar um clima intimidatório que visa unicamente afastar gente das manifestações, garantindo que elas podem vir a ser perigosas. Tudo isto, acompanhado de reportagens, como uma que ontem foi mostrada na RTP, onde se interrogava na praia porque é que as pessoas tinham preferido estar ali a ir à manifestação. Pergunta completamente a despropósito, já que aquilo que se pretendia mostrar era o bom tempo que fazia e a e grande afluência em as praias ainda tinham. Hoje igualmente foi-se ouvir a opinião de um sociólogo sobre o assunto, José Adelino Maltez, que, com ar muito douto, dizia que não havia perigo de agitação social porque a pessoas não se interessariam por tal coisa, preferindo não ligar a estes temas. Como voltámos alegremente, pela mão deste politólogo de serviço, ao velho lema salazarista “a minha política é a do trabalho”.

Mas o mais grave disto tudo é a informação de que o SIS está igualmente a estudar este assunto e a infiltrar agentes nas estruturas ditas subversivas, para prevenir futura agitação. Penso pois para mim que, tal como tempo da PIDE, aí teremos uma senhor agente a tentar chegar à cúpula da Intersindical para saber o que ela decide em matéria de manifestações ou de lutas sociais, ou a tentar chegar à Comissão Política do PCP ou do Bloco para conhecer e informar qual é o futuro programa de agitação destes partidos.

Foi por isso que a reacção, incluindo o PS, nunca quis que estes partidos participassem na Comissão de Acompanhamento das suas actividades. Espero que um devido protesto seja lavrado por eles na Assembleia da República pela insinuação rascosa que foi feita.

Os tempos vão ser duros e temos que nos preparar para uma luta feroz contra a direita no poder que a única coisa que conhece e sempre utilizou foi a chanfalhada ou a bufaria para reprimir os trabalhadores.

01/10/2011

Contra o EMPOBRECIMENTO e as INJUSTIÇAS




Participa sábado na manifestação da CGTP Contra o Empobrecimento e as Injustiças. 15h do Saldanha aos Restauradores

29/09/2011

Os concursos televisivos de cultura geral

Penso que este não seja um tema suficientemente digno para merecer um post, no entanto, como estes concursos preenchem parte do meu serão e tenho sobre os mesmos opinião, não deixarei de vos maçar com este assunto.

Há anos escrevi qualquer coisa sobre o tema. Resolvi descrever-vos a minha participação no concurso que na altura corria na RTP, Um Contra Todos. No entanto, apesar da canseira porque passei nesse concurso, o pezinho continuava-me a puxar para concorrer ao último que decorreu naquela estação de televisão, Quem quer ser Milionário? Alta Pressão. Foi só o bom-senso da Ana Maria que me impediu de concretizar tal desiderato.

E de facto ela tinha razão, bastava-me sair uma daquelas perguntas em que equipa joga o jogador tal ou qual é a último álbum da cantora pop x ou qual foi o filme em que entrou o actor y, já que presentemente vou muito pouco ao cinema, para ser mandado para a bancada sem apelo nem agravo.

De facto estes concursos recorrem a um conjunto de perguntas em que se algumas, por acaso, são de cultura geral, como aquelas que um cidadão bem informado deve conhecer, como, por exemplo, quem escreveu Por quem os Sinos Dobram? ou qual foi o primeiro Presidente da República a seguir ao 25 de Abril? A maioria é de uma vacuidade atroz, que afasta qualquer adicto diário de cultura geral, na expressão feliz de José Carlos Malato, de participar neles.

Tenho para mim que estes concursos têm algumas exigências. Primeiro é melhor haver diversas alternativas, as tradicionais quatro hipóteses, do que ser só pergunta-resposta. Este último caso exige que o concorrente perceba perfeitamente o que se quer, por vezes há alguma ambiguidade, e por outro lado que a nossa memória, principalmente nos da minha idade, não nos traia. Podemos saber responder, mas esquecemo-nos momentaneamente da resposta. Segundo, não faz muito sentido manter uma modalidade como aquela que foi seguida há algum tempo, que era opor o saber de criancinhas que tinham acabado de estudar certas matérias na escola e adultos que há muito se tinham afastado da mesma. O que estava em causa não era a cultura de uns contra os outros, mas quem tinha mais recentemente recapitulado o programa escolar. Por último, e não menos importante, deve existir empatia que entre o apresentador e os concorrentes.

Mas tudo isto vem a propósito da substituição na RTP do concurso Quem quer ser Milionário? Alta pressão, que de facto já há muito tempo se arrastava na televisão, por uma um outro chamado O Elo Mais Fraco, expressão que me lembra sempre a de Lenine referindo-se à Rússia, que era o elo mais fraco do imperialismo, daí a revolução ter começado naquele país. Mas isto são memórias de alguém que vê política em tudo.

As quatro hipóteses do concurso anterior foram substituídas neste por pergunta-resposta. Os concorrentes são deliberadamente mal tratados, para dar ao programa um ar agressivo. As suas profissões são objecto de gozo ou desprezo e não há qualquer conversa significativa entre o apresentador e os concorrentes. Pelo contrário, no programa anterior, que podia ser substituído por outro de formato idêntico, gerava-se uma empatia entre o apresentador, o José Carlos Malato, e os concorrentes que por vezes chegava à pieguice, quando valorizava excessivamente os filhos pequenos dos concorrentes ou suas mãezinhas, adoradoras do Malato. É também verdade que este programa vivia muito do ego desmesurado do apresentador, rondando sempre entre a sua hipocondria e a sua gordura. Mas verdade seja dita era possível ter uma conversa sobre a vida e a actividade profissional dos concorrentes, e, nalguns casos, o Malato interrogava-os, quando a pergunta se proporcionava, sobre política, religião ou algum tema candente do momento. Se as respostas não eram famosas, a culpa não era dele. De um modo geral a cultura e as opiniões de quem concorria não fugiam ao medíocre e ao mainstream, mas isso faz parte, quanto a mim, da grande ignorância cultural do nosso povo. Posso garantir que esta possibilidade de intervenção, se por acaso concorresse e fosse interpelado, era a parte que mais me motivava em participar. Gosto de me armar em carapau de corrida. Mas como já escrevi, provavelmente levava com um pergunta sobre em que clube jogava o jogador x, passando pela vergonha de não saber e ser recambiado por ignorância.

26/09/2011

Alberto João, um caso já antigo de reaccionarismo

De repente, aquele que era conhecido como o soba da Madeira, segundo a expressão feliz de Miguel Sousa Tavares, transformou-se na vergonha nacional, lançado ao opróbrio público, capaz de igualar com toda a cáfila de monstros da história portuguesa. A televisão pública, sempre respeitosa e obediente para com o poder dominante, não teve pejo em acelerar as imagens de uma reportagem dedicada às inúmeras inaugurações que todos os dias Alberto João fez em vésperas da campanha eleitoral.

Não quero com isto passar qualquer atestado de bom comportamento a tão odiosa figura, simplesmente entendo que transformado em inimigo público número um, ou melhor ainda, em bobo da corte, Jardim passa a ser uma personagem risível, em vez daquilo que ele sempre foi, um provocador afascistado ao serviço da direita, que sempre tratou os seus concidadãos madeirenses como seres de segunda, com o beneplácito dos políticos do Continente, ou seja, do PS e do PSD e com grande gáudio dos media nacionais.

É bom recordar, e para isso nem me socorro a qualquer biografia, que este senhor ainda jovem era já protegido dos capatazes do regime fascista e que tudo se estava a preparar para depois da sua carreira na Madeira passar provavelmente com êxito para o Continente. Alberto João estava pois fadado para ser um jovem quadro do regime fascista.

Veio o 25 de Abril e este homem transfigura-se em democrata, aceitando com proveito a nova ordem estabelecida. Não me interroguem sobre as relações deste senhor com o bando independentista daquela ilha, nem os passos que deu para ser o chefe de fila do PSD. Só sei que já revolução ia alta e este senhor era utilizado pela televisão pública ao serviço da contra-revolução para participar nos debates que exigiam alguém da extrema-direita caceteira. Alberto João era, nesse sentido, um dos chefes de fila da luta ideológica que o reaccionarismo nacional travava nessa altura, como hoje os economistas de serviço, “brilhantes” professores universitários, são utilizados para nos vender os sacrifícios que a direita e o patronato nos querem impor. Os tempos são outros e o raciocínio pouco elaborado e boçal de Alberto João já não serve para o debate em curso. É preferível utilizar os senhores doutores cheios de manhas e prosápias que, com palavras mansas, vão tentando enganar os tolos deste país.

E quando me refiro a Alberto João, estou-me a lembrar de debates concretos que assisti na televisão em que S. Ex.ª punha e dispunha da argumentação necessária para nos convencer das virtudes do seu   reaccionarismo militante. Se não me engano, até participou num sobre o Serviço Nacional de Saúde.

A utilização regular desta personagem, a que se juntavam entrevistas com ar sério, convenceram-no em certo momento que poderia ter algum futuro político no Continente. Depressa os seus serviços foram dispensados para tão altos voos. Ele que continuasse na Madeira a governar os seus súbditos, porque a partir de certa altura já só servia para o anedotário nacional e para tentar aumentar as audiências dos telejornais.

Dito isto, só quero lamentar como este senhor teve uma sobrevida tão longa e que para mim ele nunca passou de um reaccionário com poder suficiente para fazer mal aos seus concidadãos da Madeira, com toques aqui e acolá que roçavam mesmo o fascismo. Gente desta tem que se pôr no seu lugar e não se lhes pode dar confiança, de modo a serem levados como inimputáveis.



17/09/2011

Ainda a casa do Primeiro-ministro na Manta Rota

Mais uma vez me venho justificar junto dos meus leitores do atraso na publicação de novo post. As razões de saúde, que não melhora, continuam a ser um dos motivos, a que não se deixa de juntar, tal como já vos disse, a errância estival, que na verdade se resume a uma constante ida e vinda entre Lisboa e a Manta Rota.

Lá voltei eu mais uma vez àquela praia. Já tinha visto pela reportagem da TVI, que vos referi no post anterior, onde ficava situada a casa que o primeiro-ministro alugara. Desta vez verifiquei que não se situava a mais de 200 m da minha, de onde ainda se avistava uma parede e o telhado. Sei já quem é o dono, neste caso a dona, visto que o marido morreu. No entanto, nada disto valia uma linha se não tivesse sucedido aquilo que vos irei relatar.



Um dia antes da minha partida apareceu o actual dono da casa situada em frente da minha, que vinha tomar posse da casa que o pai, que morrera este ano, lhe tinha deixado. Conversa par ali, conversa para acolá, sou desafiado a ir visitá-la para ver os projectos que o meu vizinho tinha em mente para transformá-la. Quando cheguei ao pátio de trás não é que não avisto a piscina e toda a área envolvente da mesma, onde tinham passado férias o primeiro-ministro e a família, ainda por cima funcionando como balcão já que o terreno era desnivelado e o pátio do meu vizinho ficava mais alto do que a piscina de Sua Ex.ª. Pensei logo no local maravilhoso que os paparazzi dispunham para fotografar as intimidades ministeriáveis, era só encostarem-se ao muro e passar todo o dia disparar as suas máquinas fotográficas. Sei que nada disto sucedeu, porque a casa esteve fechada durante todo o mês de Agosto.

Mas mal eu tinha tido este pensamento de voyeur, eis que no dia a seguir me telefona o meu amigo, pior que estragado, porque estavam a pôr uma chapa de ondulada, em volta da piscina que lhe emparedava o seu quintal traseiro. Parece que tinha havido transmissão de pensamento. Não sei como é que o assunto se vai resolver, ainda não falei com este meu vizinho, mas sei que pelo menos irá bracejar contra tão indesejada medida.

04/09/2011

Alguma conta-corrente e as boas almas e o caso Líbio

Mais uma vez venho-me penitenciar junto dos meus leitores do atraso na actualização deste blog. Razões de saúde, sempre as mesmas, são uma das causas, mas também aquilo a que eu chamei anteriormente a errância estival. Desta vez, mais uma semana na Manta Rota, agora com neto e filha e os anos desta. O computador tal como foi, assim regressou, nem o abri. Mas, no fundo, uma enorme preguiça de escrever qualquer coisa que se visse.

O meu amigo Fernando Penim Redondo perguntou-me, em comentário apenso a um post anterior, se eu já tinha visto o Passos Coelho na Manta Rota. Respondi-lhe, com alguma sobranceria, que como ia pouco à praia ainda não o tinha lobrigado. De facto, não lhe tinha posto os olhos em cima, mas desta vez quando regressei à praia, a presença de Passos Coelho era motivo de todas as conversas. Só agora percebo porque em dado dia, nos inícios de Agosto, eu tinha visto um grupo de GNR numa rua perto da minha casa e um carro da mesma estacionado durante todo o dia. Na altura fiquei espantado. Disse para a Ana, lembrando recordações antigas, “a tropa repressiva já cá está”. Fui admoestado: então os rapazes não estavam ali a proteger os nossos bens. Só agora percebi que a sua presença não era por nós, mas devido às férias do primeiro-ministro. Há muito que a GNR deixara de aparecer para controlar o trânsito nos dias mais complicados. Depois disseram-me que no talho do mercado havia uma página de um jornal, com Passos Coelho e a mulher a andarem na Manta Rota. Como não quis dar a alegria ao açougueiro, que pelos vistos fornece a carne ao Primeiro-ministro (ver aqui), de estar a olhar com atenção para o recorte, nem percebi que jornal era, qual era a notícia, nem vi bem a fotografia. Disseram-me também, mas não pude confirmar, que no Expresso vinha uma fotografia com ele a sair do Algartalhos, um dos supermercados da praia, com a informação, extremamente relevante, que era o segundo ano consecutivo que usava as mesmas havaianas. Aqui resumo tudo o que sei da estadia de Passos Coelho na Manta Rota.

E saber que esta praia já teve fama de ser de esquerda, quando o Carlos Carvalhas vinha para cá, mas não só. Mas isso são contas de outro rosário, que ainda um dia vos hei-de contar.

Outro meu amigo, o Brissos, num comentário ao meu último post, informou-me através de uma notícia no seu blog que o Vítor Dias, tinha ficado sem acesso ao seu Tempo das Cerejas. Porque eu uma vez passei por uma situação que me pareceu semelhante, e achei que era das coisas mais horríveis que pode acontecer a um blogger, por isso, logo de seguida, acrescentei na Lista dos blogs que consulto quase diariamente o novo endereço do Tempo das Cerejas 2. Para que fique registado.



Escrevi no início dos acontecimentos na Líbia e da posterior intervenção da NATO dois posts onde dava endereços de sites que, de forma por vezes contraditória, apreciavam o caso Líbio (ver aqui  e aqui). Escrevi no último que as boas almas, para evitarem um suposto massacre pelas tropas do coronel Khadafi, apoiaram e até incentivaram a intervenção aérea da NATO neste país. Fiquei quase seis meses calado à espera do que aquilo iria dar. Hoje, sem a preocupação de vos fornecer novos sites ou informação recente só vos quero remeter para algumas notícias avulsas. Ouvi, penso que na televisão, que a NATO iria continuar os bombardeamentos em Sirte, para ver se população daquela cidade aceitava a rendição proposta pelo Conselho Nacional de Transição (CNT). Espantosa notícia, as boas almas acreditavam piamente que a autorização das Nações Unidas era para proteger a população civil dos bombardeamentos do coronel Khadafi. Afinal agora já são para obrigar as populações civis a se renderem. Como é previsível tudo isto foi uma grande mistificação com a colaboração activa de algumas boas almas.

Rui Tavares, em crónica assinada no Público (ver aqui), congratulava-se por o CNT não ter autorizado a instalação de bases na Líbia. Santa ingenuidade, eles já lá estão. A TOTAL francesa já assinou um contrato principesco para o petróleo líbio e a empresa italiana vai já a caminho.

Sobre isto não quero dizer mais nada, remetia-vos para o brilhante comentário, sem link, de Domingos Lopes, no Público de quinta-feira passada, O que era e o que vai ser a Líbia? Depois de desmascarar todos os horrores e disparates do coronel Khadafi, termina a fazer perguntas muito pertinentes sobre o que foi a intervenção da NATO e o que vai ser a Líbia.



PS.: Como não quero passar por mentiroso, tive no final o cuidado de ir confirmar no Google se as notícias que dava eram verdadeiras. O açougueiro a fornecer carne ao Primeiro-ministro é confirmada ainda no texto por um link para uma reportagem da TVI. O jornal de onde foi tirada o recorte é o Correio da Manhã, e a fotografia é dele e da mulher a virem do mercado com compras. A notícia do Expresso existiu e vem aqui 

10/08/2011

112 social



Eviaram-me este vídeo publicado no YouTube por borrachaverde. Achei tão significativo dos tempos que estamos a viver na saúde que não resisti em reproduzi-lo.

E a onde estão os “valores”, Senhor?

Ontem a televisão pública veio ressuscitar um general, Leonel de Carvalho, especialista em segurança, que penso que já se tinha reformado destas actividades. Chegou a ser, no tempo do PS, Coordenador do Gabinete de Segurança e aí produziu algumas a afirmações bastante comprometedoras, como apontar o aumento da criminalidade às comunidades imigrantes (ver aqui  e aqui). Mas não contente com isto já tinha ido às jornadas parlamentares do CDS defender a imputabilidade dos jovens a partir do 12 anos, ou seja, o seu internamento, facto que a lei só permite a partir dos 14 anos (ver aqui e a parte final da declaração de Luís Fazenda no Parlamento, já anteriormente assinalada).

Ontem, um especial informação do Telejornal reuniu, para comentar a situação em Inglaterra, o já referido General, um psicólogo, Carlos Poiares e, directamente de Inglaterra, a socióloga Maria do Mar. Como era previsível, tanto a socióloga como o psicólogo lá tentaram relacionar estes acontecimentos com a situação geral que neste momento se vive em Inglaterra, com o desaparecimento, por razões económicas, dos programas de ocupação dos jovens e outras razões sociais. Maria do Mar foi mais assertiva, até porque vive em Inglaterra, do que o seu colega psicólogo, que às duas por três já estava um pouco baralhado.

Ao general cabia a função de, apesar de conceder que havia alguns problemas sociais, atribuir a culpa aos díscolos, como se chamavam antigamente, ou seja, em linguagem moderna, aos bandos organizados de ladrões que se juntam para pilharem as lojas. É evidente que os problemas sociais existem e são nitidamente a principal causa, mas, não tendo qualquer programa de luta organizada, caiem inevitavelmente no saque, a forma mais primitiva do conflito social.

Mas ao general não pôde faltar inevitavelmente a componente moralista. A culpa de tudo isto é a ausência de valores e do seu abandono. Provavelmente acrescentou mais qualquer coisa, simplesmente como não consigo descobrir um link para as suas declarações limitar-me-ei simplesmente a citar esta simples frase.

Quando esta gente, juntamente com a Igreja, vem falar de valores e da sua perda fico sempre aterrorizado. Nunca sei que valores e em que época eles os encontram. Será no tempo de Salazar e da PIDE? Será entre as duas guerras, no nazismo e no fascismo ou na Guerra Civil imposta por Franco a Espanha com o beneplácito da Igreja? Será na época vitoriana e na Alemanha do Kaiser? A minha resposta é que eles sonham com os valores da família burguesa que conheceram, com os pais austeros e as mães donas de casa, a orientar com mão de ferro a criadagem. Serão os valores que pacientemente a nossa amiga Joana Lopes, do Entre as Brumas da Memória, vem transcrevendo do livro da terceira classe do tempo da outra senhora (ver aqui  e aqui)?

Verdadeiramente, quando oiço falar em perda de valores, já estou como o outro, puxo da minha pistola.

Ainda a saga das gravatas

Mais uma vez venho pedir desculpa aos meus leitores mais fiéis por este atraso na actualização do blog. Questões de saúde, sempre as mesmas, e a errância estival são as causas principais. Por isso, se alguns dos temas são requentados é devido a este atraso.


Comecemos por um dos que mais me indignou.

A proposta de supressão da gravata no Ministério de Assunção Cristas tem dado pano para mangas. Só no jornal diário que leio, o Público, já saíram não sei quantos artigos.

Mas comecemos pelo princípio. Depois das notícias iniciais, São José de Almeida num artigo de balanço deste Governo lá faz referência à história das gravatas, não sem acrescentar que elas são um símbolo machista (não me recordo se foram estas as palavras exactas que empregou). Tenho respeito e consideração por esta jornalista, mas ao fazer referência a esta faceta da gravata somos levados a pensar que a menina do CSD, a quem coube em sorte o Ministério da Agricultura e do Ambiente, teve qualquer preocupação anti-machista com o desaconselhamento do seu uso. Ora, como é evidente não foi isso que a motivou.

De seguida vem um grande artigo no P2, o suplemento diário do Público, com a origem etimológica do termo gravata, com a consulta de psicólogos e sociólogos, com o número dos machos que havia Ministério do Ambiente e outras questões de extrema relevância. Mas a reposta às questões principais que o tema levanta, nada

Depois a tontinha da Helena Matos escreveu um artigo onde mistura gravatas com aventais, aqui os maçónicos, referindo-se à história das secretas. Que me recorde, nada de interessante é dito a propósito de gravatas, mas achou também que devia meter a colherada neste assunto. Por último Campos e Cunha, com medo que duvidassem da sua masculinidade, vem dizer que gosta de gravatas. Que espanto!

Em todos estes artigos nenhuma resposta é dada às questões principais levantadas pelo uso da gravata no Ministério: se antes do despacho da Ministra, era obrigatório usá-la e qual a disposição regulamentar que determinava isso? Quais os funcionários, tirando o estrito número daqueles que povoam os gabinetes ministeriais, tinha deixado de a usar ou se eram muitos aqueles que a usavam anteriormente?

As minhas perguntas são sempre as mesmas, mas depois de tantos artigos e reportagens ao menos que houvesse um jornalista que tivesse a curiosidade de se interrogar sobre estas pequenas questões, que esclareciam logo se não tinha havido por parte da ministra uma pura acção de propaganda, mas isso não interessa nada a jornalistas destes novos tempos.

P.S.: Por razões da sanidade mental de todos e por até ser impossível fazer links para artigos de opinião no Público, dispenso-me dessa prática neste post.