17/09/2011

Ainda a casa do Primeiro-ministro na Manta Rota

Mais uma vez me venho justificar junto dos meus leitores do atraso na publicação de novo post. As razões de saúde, que não melhora, continuam a ser um dos motivos, a que não se deixa de juntar, tal como já vos disse, a errância estival, que na verdade se resume a uma constante ida e vinda entre Lisboa e a Manta Rota.

Lá voltei eu mais uma vez àquela praia. Já tinha visto pela reportagem da TVI, que vos referi no post anterior, onde ficava situada a casa que o primeiro-ministro alugara. Desta vez verifiquei que não se situava a mais de 200 m da minha, de onde ainda se avistava uma parede e o telhado. Sei já quem é o dono, neste caso a dona, visto que o marido morreu. No entanto, nada disto valia uma linha se não tivesse sucedido aquilo que vos irei relatar.



Um dia antes da minha partida apareceu o actual dono da casa situada em frente da minha, que vinha tomar posse da casa que o pai, que morrera este ano, lhe tinha deixado. Conversa par ali, conversa para acolá, sou desafiado a ir visitá-la para ver os projectos que o meu vizinho tinha em mente para transformá-la. Quando cheguei ao pátio de trás não é que não avisto a piscina e toda a área envolvente da mesma, onde tinham passado férias o primeiro-ministro e a família, ainda por cima funcionando como balcão já que o terreno era desnivelado e o pátio do meu vizinho ficava mais alto do que a piscina de Sua Ex.ª. Pensei logo no local maravilhoso que os paparazzi dispunham para fotografar as intimidades ministeriáveis, era só encostarem-se ao muro e passar todo o dia disparar as suas máquinas fotográficas. Sei que nada disto sucedeu, porque a casa esteve fechada durante todo o mês de Agosto.

Mas mal eu tinha tido este pensamento de voyeur, eis que no dia a seguir me telefona o meu amigo, pior que estragado, porque estavam a pôr uma chapa de ondulada, em volta da piscina que lhe emparedava o seu quintal traseiro. Parece que tinha havido transmissão de pensamento. Não sei como é que o assunto se vai resolver, ainda não falei com este meu vizinho, mas sei que pelo menos irá bracejar contra tão indesejada medida.

04/09/2011

Alguma conta-corrente e as boas almas e o caso Líbio

Mais uma vez venho-me penitenciar junto dos meus leitores do atraso na actualização deste blog. Razões de saúde, sempre as mesmas, são uma das causas, mas também aquilo a que eu chamei anteriormente a errância estival. Desta vez, mais uma semana na Manta Rota, agora com neto e filha e os anos desta. O computador tal como foi, assim regressou, nem o abri. Mas, no fundo, uma enorme preguiça de escrever qualquer coisa que se visse.

O meu amigo Fernando Penim Redondo perguntou-me, em comentário apenso a um post anterior, se eu já tinha visto o Passos Coelho na Manta Rota. Respondi-lhe, com alguma sobranceria, que como ia pouco à praia ainda não o tinha lobrigado. De facto, não lhe tinha posto os olhos em cima, mas desta vez quando regressei à praia, a presença de Passos Coelho era motivo de todas as conversas. Só agora percebo porque em dado dia, nos inícios de Agosto, eu tinha visto um grupo de GNR numa rua perto da minha casa e um carro da mesma estacionado durante todo o dia. Na altura fiquei espantado. Disse para a Ana, lembrando recordações antigas, “a tropa repressiva já cá está”. Fui admoestado: então os rapazes não estavam ali a proteger os nossos bens. Só agora percebi que a sua presença não era por nós, mas devido às férias do primeiro-ministro. Há muito que a GNR deixara de aparecer para controlar o trânsito nos dias mais complicados. Depois disseram-me que no talho do mercado havia uma página de um jornal, com Passos Coelho e a mulher a andarem na Manta Rota. Como não quis dar a alegria ao açougueiro, que pelos vistos fornece a carne ao Primeiro-ministro (ver aqui), de estar a olhar com atenção para o recorte, nem percebi que jornal era, qual era a notícia, nem vi bem a fotografia. Disseram-me também, mas não pude confirmar, que no Expresso vinha uma fotografia com ele a sair do Algartalhos, um dos supermercados da praia, com a informação, extremamente relevante, que era o segundo ano consecutivo que usava as mesmas havaianas. Aqui resumo tudo o que sei da estadia de Passos Coelho na Manta Rota.

E saber que esta praia já teve fama de ser de esquerda, quando o Carlos Carvalhas vinha para cá, mas não só. Mas isso são contas de outro rosário, que ainda um dia vos hei-de contar.

Outro meu amigo, o Brissos, num comentário ao meu último post, informou-me através de uma notícia no seu blog que o Vítor Dias, tinha ficado sem acesso ao seu Tempo das Cerejas. Porque eu uma vez passei por uma situação que me pareceu semelhante, e achei que era das coisas mais horríveis que pode acontecer a um blogger, por isso, logo de seguida, acrescentei na Lista dos blogs que consulto quase diariamente o novo endereço do Tempo das Cerejas 2. Para que fique registado.



Escrevi no início dos acontecimentos na Líbia e da posterior intervenção da NATO dois posts onde dava endereços de sites que, de forma por vezes contraditória, apreciavam o caso Líbio (ver aqui  e aqui). Escrevi no último que as boas almas, para evitarem um suposto massacre pelas tropas do coronel Khadafi, apoiaram e até incentivaram a intervenção aérea da NATO neste país. Fiquei quase seis meses calado à espera do que aquilo iria dar. Hoje, sem a preocupação de vos fornecer novos sites ou informação recente só vos quero remeter para algumas notícias avulsas. Ouvi, penso que na televisão, que a NATO iria continuar os bombardeamentos em Sirte, para ver se população daquela cidade aceitava a rendição proposta pelo Conselho Nacional de Transição (CNT). Espantosa notícia, as boas almas acreditavam piamente que a autorização das Nações Unidas era para proteger a população civil dos bombardeamentos do coronel Khadafi. Afinal agora já são para obrigar as populações civis a se renderem. Como é previsível tudo isto foi uma grande mistificação com a colaboração activa de algumas boas almas.

Rui Tavares, em crónica assinada no Público (ver aqui), congratulava-se por o CNT não ter autorizado a instalação de bases na Líbia. Santa ingenuidade, eles já lá estão. A TOTAL francesa já assinou um contrato principesco para o petróleo líbio e a empresa italiana vai já a caminho.

Sobre isto não quero dizer mais nada, remetia-vos para o brilhante comentário, sem link, de Domingos Lopes, no Público de quinta-feira passada, O que era e o que vai ser a Líbia? Depois de desmascarar todos os horrores e disparates do coronel Khadafi, termina a fazer perguntas muito pertinentes sobre o que foi a intervenção da NATO e o que vai ser a Líbia.



PS.: Como não quero passar por mentiroso, tive no final o cuidado de ir confirmar no Google se as notícias que dava eram verdadeiras. O açougueiro a fornecer carne ao Primeiro-ministro é confirmada ainda no texto por um link para uma reportagem da TVI. O jornal de onde foi tirada o recorte é o Correio da Manhã, e a fotografia é dele e da mulher a virem do mercado com compras. A notícia do Expresso existiu e vem aqui 

10/08/2011

112 social



Eviaram-me este vídeo publicado no YouTube por borrachaverde. Achei tão significativo dos tempos que estamos a viver na saúde que não resisti em reproduzi-lo.

E a onde estão os “valores”, Senhor?

Ontem a televisão pública veio ressuscitar um general, Leonel de Carvalho, especialista em segurança, que penso que já se tinha reformado destas actividades. Chegou a ser, no tempo do PS, Coordenador do Gabinete de Segurança e aí produziu algumas a afirmações bastante comprometedoras, como apontar o aumento da criminalidade às comunidades imigrantes (ver aqui  e aqui). Mas não contente com isto já tinha ido às jornadas parlamentares do CDS defender a imputabilidade dos jovens a partir do 12 anos, ou seja, o seu internamento, facto que a lei só permite a partir dos 14 anos (ver aqui e a parte final da declaração de Luís Fazenda no Parlamento, já anteriormente assinalada).

Ontem, um especial informação do Telejornal reuniu, para comentar a situação em Inglaterra, o já referido General, um psicólogo, Carlos Poiares e, directamente de Inglaterra, a socióloga Maria do Mar. Como era previsível, tanto a socióloga como o psicólogo lá tentaram relacionar estes acontecimentos com a situação geral que neste momento se vive em Inglaterra, com o desaparecimento, por razões económicas, dos programas de ocupação dos jovens e outras razões sociais. Maria do Mar foi mais assertiva, até porque vive em Inglaterra, do que o seu colega psicólogo, que às duas por três já estava um pouco baralhado.

Ao general cabia a função de, apesar de conceder que havia alguns problemas sociais, atribuir a culpa aos díscolos, como se chamavam antigamente, ou seja, em linguagem moderna, aos bandos organizados de ladrões que se juntam para pilharem as lojas. É evidente que os problemas sociais existem e são nitidamente a principal causa, mas, não tendo qualquer programa de luta organizada, caiem inevitavelmente no saque, a forma mais primitiva do conflito social.

Mas ao general não pôde faltar inevitavelmente a componente moralista. A culpa de tudo isto é a ausência de valores e do seu abandono. Provavelmente acrescentou mais qualquer coisa, simplesmente como não consigo descobrir um link para as suas declarações limitar-me-ei simplesmente a citar esta simples frase.

Quando esta gente, juntamente com a Igreja, vem falar de valores e da sua perda fico sempre aterrorizado. Nunca sei que valores e em que época eles os encontram. Será no tempo de Salazar e da PIDE? Será entre as duas guerras, no nazismo e no fascismo ou na Guerra Civil imposta por Franco a Espanha com o beneplácito da Igreja? Será na época vitoriana e na Alemanha do Kaiser? A minha resposta é que eles sonham com os valores da família burguesa que conheceram, com os pais austeros e as mães donas de casa, a orientar com mão de ferro a criadagem. Serão os valores que pacientemente a nossa amiga Joana Lopes, do Entre as Brumas da Memória, vem transcrevendo do livro da terceira classe do tempo da outra senhora (ver aqui  e aqui)?

Verdadeiramente, quando oiço falar em perda de valores, já estou como o outro, puxo da minha pistola.

Ainda a saga das gravatas

Mais uma vez venho pedir desculpa aos meus leitores mais fiéis por este atraso na actualização do blog. Questões de saúde, sempre as mesmas, e a errância estival são as causas principais. Por isso, se alguns dos temas são requentados é devido a este atraso.


Comecemos por um dos que mais me indignou.

A proposta de supressão da gravata no Ministério de Assunção Cristas tem dado pano para mangas. Só no jornal diário que leio, o Público, já saíram não sei quantos artigos.

Mas comecemos pelo princípio. Depois das notícias iniciais, São José de Almeida num artigo de balanço deste Governo lá faz referência à história das gravatas, não sem acrescentar que elas são um símbolo machista (não me recordo se foram estas as palavras exactas que empregou). Tenho respeito e consideração por esta jornalista, mas ao fazer referência a esta faceta da gravata somos levados a pensar que a menina do CSD, a quem coube em sorte o Ministério da Agricultura e do Ambiente, teve qualquer preocupação anti-machista com o desaconselhamento do seu uso. Ora, como é evidente não foi isso que a motivou.

De seguida vem um grande artigo no P2, o suplemento diário do Público, com a origem etimológica do termo gravata, com a consulta de psicólogos e sociólogos, com o número dos machos que havia Ministério do Ambiente e outras questões de extrema relevância. Mas a reposta às questões principais que o tema levanta, nada

Depois a tontinha da Helena Matos escreveu um artigo onde mistura gravatas com aventais, aqui os maçónicos, referindo-se à história das secretas. Que me recorde, nada de interessante é dito a propósito de gravatas, mas achou também que devia meter a colherada neste assunto. Por último Campos e Cunha, com medo que duvidassem da sua masculinidade, vem dizer que gosta de gravatas. Que espanto!

Em todos estes artigos nenhuma resposta é dada às questões principais levantadas pelo uso da gravata no Ministério: se antes do despacho da Ministra, era obrigatório usá-la e qual a disposição regulamentar que determinava isso? Quais os funcionários, tirando o estrito número daqueles que povoam os gabinetes ministeriais, tinha deixado de a usar ou se eram muitos aqueles que a usavam anteriormente?

As minhas perguntas são sempre as mesmas, mas depois de tantos artigos e reportagens ao menos que houvesse um jornalista que tivesse a curiosidade de se interrogar sobre estas pequenas questões, que esclareciam logo se não tinha havido por parte da ministra uma pura acção de propaganda, mas isso não interessa nada a jornalistas destes novos tempos.

P.S.: Por razões da sanidade mental de todos e por até ser impossível fazer links para artigos de opinião no Público, dispenso-me dessa prática neste post.

17/07/2011

Uma mão cheia de filmes

Estive a ler o post  que Sérgio Lavos redigiu para o seu blog, Arrastão, referente a cinco filmes de que gostou e que no nome original começam por uma das letras do seu apelido. É uma forma diferente de se fazer uma selecção. Apesar de não seguir o método, nada tenho a objectar.

Porque andei durante muitos anos embrulhado com o cinema, principalmente com o cine-clubismo, achei engraçada a escolha feita por alguém que, de acordo com a consulta efectuada no facebook, já nasceu depois do 25 de Abril, em 1975. Tirando o filme de David Lynch, já seu contemporâneo como jovem adulto, selecciona tudo filmes da minha geração e que há época foram bastante exibidos pelos cine-clubes, tirando o filme de Copolla, já posterior à decadência daquele meio de divulgação cinematográfica.

O que leva um jovem, em relação à minha idade, a escolher filmes antigos e não as novidades deste século? Não tenho resposta para isto, a não ser dizer que o cinema já não é o que era, mas isto é a constatação de um velho marreta que deixou de frequentar as salas de cinema e já só vive das suas memórias cinéfilas.

Mas o mais espantoso, e isso verifico com muitos jovens quando lhes propõem uma selecção, que vão todos calhar ao velho cinema americano e às suas glórias, esquecendo ou porque não viram ou porque não lhes interessa o cinema europeu, principalmente o italiano, o alemão e já não digo o francês, porque alguns ainda seleccionam Godard, para só falar daquelas cinematografias que tiveram algum impacto em Portugal nos anos 60 e 70.

Será que não havia nenhum filme começado por uma das letras do seu apelido de Visconti, de Antonioni, hoje já quase esquecido, de Zurlini, de Francesco Rosi, esse prodigioso autor de Salvatore Giuliano (1961), de quem hoje já ninguém se lembra. Ou recorrendo aos franceses de Trufaut, de Resnais, de Malle ou do alemão Fassbinder

Mas ainda voltando à sua selecção. Retirando Lynch muito mais recente que todos os outros, de quem gosto, mas não aprecio a temática, fica esse prodigioso Apocalypse Now, que nunca deverá ser esquecido, juntamente com Citizan Kane (1941), de Orson Wells, em qualquer selecção de filmes americanos.

Quanto aos outros gostaria de fazer algumas considerações. Vertigo era realizado por Hitchcock, autor pouco apreciado pela esquerda cine-clubista e muito elogiado pelos Cahiers du Cinema. Reconheço, porque revi recentemente em DVD alguns dos filmes daquele autor, que este é um dos seus melhores e é uma boa selecção.

On The Waterfront, foi quase de certeza um dos filmes mais exibidos pelos cine-clubes, não só porque tinha qualidade, mas porque abordava uma problemática ligada ao mundo do trabalho. No entanto, nunca nos esquecíamos de avisar que Elia Kazan, tinha denunciado os seus companheiros comunistas à Comissão das Actividades Anti-Americanas e que o filme era uma tentativa de justificação dessa suja actividade. Por muito que gostemos do filme, não há dúvida que o seu argumento, mesmo que encapotado, é a justificação dessa sua atitude.

Quanto a Billy Wilder, um dos nomes grandes do cinema americano, não escolheria entre os seus filmes de humor com a Marilyne Monroe o Quanto mais quente melhor (Some Like it Hot), mas sim O pecado mora ao lado (The Seven Year Itch), de 1955, mas talvez a letra inicial não fosse nenhuma das do seu apelido. Mas escolheria de certeza esse espantoso Sunset Boulevard (O crepúsculo dos deuses), de 1950, ainda na sua fase dramática.

Isto foi uma pequena brincadeira, feita por alguém que gosta muito de cinema, ou melhor dizendo, gostou muito de cinema e que vive da recordação dos melhores anos da sua vida, quando durante muito tempo colaborou na programação e seleccionou os textos de crítica aos filmes apresentados pelo Cine-Clube Universitário de Lisboa (CCUL).

Lista dos filmes seleccionados por Sérgio Lavos:

Lost Highway - David Lynch -1997

Apocalypse Now - Francis Ford Copolla – 1979

Vertigo - Alfred Hitchcock -1958

On The Waterfront - Elia Kazan -1954

Some Like it Hot - Billy Wilde - 1959

16/07/2011

Uma medida idiota de uma ministra pateta

Estou a falar da propaganda que hoje foi passada em todos os telejornais de que a Ministra da Agricultura, do Ambiente e de outras coisas mais permitia, autorizava, vá lá, para ser mais simpático, facilitava a apresentação dos seus funcionários sem gravata, para o ar condicionado não ser tão utilizado.

Tudo isto cheira a propaganda da mais boçal e ordinária.

Primeiro, não há nenhuma lei que obrigue os funcionários públicos a apresentarem-se de gravata e muito menos nos serviços que a senhora ministra tutela.

Segundo, pela imagens que foram mostradas, pareceu-nos que quem aparecia sem gravata eram os seus múltiplos secretários de estado – lá se via o homem do queijo limiano – e um jovenzito a gabar-se de ser engenheiro e que faz provavelmente parte  do staff do seu gabinete.

Terceiro, a maioria dos funcionários que trabalham nas direcções-gerais são mulheres, que são incentivadas a aparecerem com roupa mais larga. Não sei o que isto seja, nem se as próprias perceberão o que se lhes está a pedir.

Quarto, no meu tempo de funcionário do Ministério do Ambiente, nunca usei gravata e penso que o mesmo sucedia com quase todos os outros trabalhadores, excepto os mais velhos e as chefias.

Então no ex-Ministério da Agricultura, cujos técnicos estão quase permanentemente no campo, o seu traje é normalmente o adequado a esses trabalhos.

Ou seja, resumindo e concluindo, só nos gabinetes da ministra e dos secretários de estado é que esta medida vai ser acatada e andarão todos muitos satisfeitos a mostrar que cumpriram as ordens de S. Ex.ª. Algumas chefias mais ciosos do seu lugar seguirão a medida, o resto estar-se-á marimbando para aquilo que não passa de propaganda. Gostaria que os jornalistas fizessem um pequeno trabalho de investigação para saber quem é que no Ministério está a seguir estas determinações.

PS. 17/07/11: o disparate chega ao ponto de o Público, de Sábado, garantir que a Ministra assinou um despacho a dispensar os seus funcionários do uso da gravata. Mas que lei ou despacho anterior é que obrigava os funcionários a irem de gravata para o trabalho? Mas diz mais o Público, o uso de gravata é facultativo. Como sempre foi, sem ser preciso haver qualquer despacho. E termina com esta afirmação, mas quando "esteja em causa a imagem do Estado, ela (a gravata) volta a estar presente. “Para Bruxelas, vamos de gravata”, diz a ministra." Mas que determinação é que obrigava a ir-se a Bruxelas de gravata? Isto dependia da livre decisão do funcionário. Só o CDS, cheio de tiques conservadores, é que pode ser o responsável por esta historieta de gravatas e os jornalistas aceitam isto como verdades absolutas sem se interrogarem qual é o fundamento de tudo isto. Por aquilo que é dito na notícia fica-se a perceber que esta decisão só terá efeito nos gabinetes da Ministra e dos seus Secretários de Estado e provavelmente nos directores-gerais que, quando forem a despacho ao Ministério, para estarem de acordo com as novas normas, deixam a gravata no seu gabinete.

15/07/2011

Uma reunião do Fórum Manifesto – II

Estou convencido que as anteriores reuniões gerais da Fórum Manifesto funcionavam  como correia de transmissão, – apesar do passado político um pouco tenebroso desta afirmação –, entre a Comissão Política do Bloco, principalmente entre o Miguel Portas que fazia parte dela, e os participantes das reuniões e ao mesmo tempo servia para se tomar o pulso sobre qual era a sensibilidade geral às propostas apresentadas. Estou-me a lembrar de uma reunião feita nas vésperas do referendo sobre o IVG, em que o Miguel Portas traçou os limites em que a nossa intervenção devia decorrer se queríamos desta vez sair vencedores do mesmo.

Ora bem, poderemos dizer que esta última reunião teve características diferentes, não foi para ouvir o que a Comissão Política do Bloco tinha para nos dizer, mas sim para que esta ouvisse as posições do grupo dirigente do Manifesto. Nesse sentido, elaborou-se previamente um comunicado, que foi redigido pela maioria dos que o assinaram e que serviu de base para a discussão na reunião.

Se fizéssemos uma interpretação à moda do PCP diríamos que uma fracção do partido se reuniu à margem do mesmo e tentou impor a este as conclusões da sua reunião. No Bloco estas coisas são assumidas de modo mais natural, apesar de eu estar convencido que divergências nas suas correntes maioritárias nem sempre são aceites calma e tranquilamente.

Podemos dizer que o essencial do comunicado, já por mim lincado anteriormente, se pode resumir, segundo o meu ponto de vista, a este parágrafo: “mas, passados 13 anos, e ante um ciclo político qualitativamente novo, a renovação da equipa dirigente apresenta-se como um processo inevitável e inexorável. Ela deve ser realizada de forma sustentada e em unidade. E terá consequências na democracia que praticamos, porque a herança da fundação deixa de ser fonte de legitimação”. Ou então, ao ponto 14 que, na sua totalidade, defende a descorrentização do partido, entendendo aquela como o desaparecimento das três correntes maioritárias do Bloco: UDP, PSR e Manifesto. Podemos igualmente dizer, para não sermos injustos, que todo o capítulo denominado Renovar e “descorrentizar” o Bloco, é importante do ponto de vista dos objectivos do comunicado.

Gostaria de sublinhar que sou daqueles que considero que os problemas de organização e de direcção são importantes num partido político, e que não podem ser subestimados, mas que na maioria dos casos as  opções defendidas escondem divergências políticas, que se transformam rapidamente em diferenças quanto à organização ou à direcção política do movimento.

Conhecemos casos históricos que corroboram aquilo que acabei de dizer. Não foi o papel que os militantes deveriam desempenhar no Partido Social-democrata Russo que separou Bolcheviques (a maioria) dos Mencheviques (a minoria), foram divergências políticas que depois se vieram a revelar irredutíveis. Ainda mais recentemente, no PCP, o grupo que reclamava pela realização de um novo Congresso, não era só isto que queria, mas sim uma nova orientação política para o mesmo. E poder-se-ia dar muitos mais exemplos.

Por isso, na intervenção que tive em relação à redacção do próprio comunicado e na reunião interessou-me muito mais sublinhar os aspectos políticos, do que aquilo que eu considero um problema de forma, apesar de não o subestimar.

Assim, e para que conste, enviei para o conjunto de redactores a seguinte proposta, que não visava  corrigir ponto por ponto o texto em si, mas alertar para algumas posições:

Quando, … "assumamos a defesa do Estado Social e a democracia como os nossos eixos programáticos fundamentais" parece-me que, como programa político, é pouco. Que nós, na nossa batalha pela unidade, o proponhamos como programa mínimo, a ser aceite por um conjunto de forças sociais e políticas, parece-me bem. Que, neste momento, apresentemos como programa político do Bloco só estes objectivos, parece-me diminuto e pouco mobilizador e, acima de tudo, defensivo e redutor da nossa acção. A batalha
por outra economia e pelo socialismo não deve estar ausente das nossas propostas a longo prazo.

Por outro lado em relação à unidade apresentei igualmente esta proposta: “O que é dito no texto … merece a minha concordância, simplesmente apesar de sublinharmos os equívocos e as dificuldades que encontramos nessa política de unidade e dos passos já dados na sua realização, temos que reconhecer a sua dificuldade e acima de tudo sublinharmos que não bastam acordos de cúpula ou acções extraordinárias, aquilo a que alguém já chamou eventos, para que nos pareça que os nossos esforços têm êxito. É preciso uma prática quotidiana de unidade e, a acima de tudo, uma procura na base dessa mesma unidade. Temos que nos dirigir não só aos militantes do PS que discordam das práticas da sua direcção, como igualmente a todos aqueles que não têm partido, e que são muitos e já votaram PCP, PS ou até em nós. Há uma esquerda órfã quer de propostas exequíveis, quer de demonstrações de uma procura genuína da unidade.

Podemos dizer que os camaradas, tomando em consideração a minha recomendação inicial, a formularam de um modo diferente e que foi inscrita no ponto 4 do seguinte modo: a defesa do Estado social e, agora, do modelo constitucional democrático como “as tarefas prioritárias da acção política do Bloco de Esquerda na “era dos credores” e são elas que determinam as convergências e alianças à escala nacional e europeia”. Como objectivo limitado, para uma determinada época, parece-me bem e foi isso que eu fui defender na minha intervenção na reunião. Não deixando, no entanto, de sublinhar que o Bloco deve albergar no seu seio os dois paradigmas políticos que Rui Bebiano define no seu post, na Terceira Noite, a social-democracia de esquerda e o comunismo modernizado. O seu autor defende claramente o primeiro e ataca o segundo, eu entendo que o Bloco tem que ser a junção dos dois.

E é isso que eu continuarei a defender, mantendo-me como até agora na Fórum Manifesto.


PS. Já este post estava elaborado quando descobri no blog de Rui Bebiano, A terceira Noite, o post, Os dados estão lançados, que faz referências ao comunicado da Fórum Manifesto que eu venho a citar. Seria interessante que os meus leitores o lessem porque se há alguns pontos em comum, há outros sobre os quais tenho profundas divergências, o que é natural.

14/07/2011

Uma reunião da Fórum Manifesto - I

Realizou-se no Sábado, 9 de Julho, uma reunião aberta denominada O Bloco e os Caminhos da Esquerda, seguida de uma Assembleia-geral da Associação Fórum Manifesto, onde foram eleitos os novos corpos gerentes daquela Associação.
O que é a Fórum Manifesto?

Penso que os meus leitores, nem sempre a par destas picuinhices da esquerda portuguesa, querem um pouco mais de informação sobre este grupo.

Não vou ser rigoroso nas datas, pois só mais recentemente me integrei nele. No entanto, posso informar que a Fórum Manifesto é o continuador da Política XXI, um dos partidos fundadores do Bloco de Esquerda. A sua figura mais visível, não sei se o seu dirigente há época, era o Miguel Portas. Em determinada altura por razões que desconheço, foi abandonado o termo Política XXI e foi adoptado o nome da revista, que então o grupo do Miguel Portas editava, que era a Manifesto.

Possuo cinco números, que vão Novembro de 2002 a Abril de 2004. Recordo que pela mesma altura a Renovação Comunista, através do Campo da Comunicação, editou, dirigida pelo Edgar Correia, a revista Ideias à Esquerda. O primeiro número é da Primavera de 2003 e o quarto, e último número, é de 30 de Maio de 2005, que já estava pronto quando o Edgar faleceu.

Só me refiro a isto porque houve alguma disputa entre as duas, que no fundo tentavam abranger o mesmo tipo de leitores. Em relação à segunda senti-me fortemente ligado, tendo redigido mesmo alguns artigos e feito parte do seu Conselho Editorial.

Mas, como quase tudo que é revista de esquerda, também qualquer das duas não sobreviveu. No entanto, o grupo que editava a Manifesto continuou como associação política, na altura, ainda de modo informal, a ser uma das componentes do Bloco de Esquerda.

Eu devo ter sido convidado a participar nas suas reuniões por volta de 2005, quando houve uma aproximação entre aquele partido e a Renovação Comunista. Como eu já relatei em post  anterior, nas eleições legislativas de 2005 houve um acordo entre o Bloco e a Renovação Comunista, que se reflectiu na ida para o parlamento do João Semedo. Esse acordo foi depois prolongado para as autárquicas para Lisboa, no apoio dado a Sá Fernandes. Acho que participei em todas as reuniões da Fórum Manifesto a partir dessa data. A Direcção da Renovação ainda chegou a participar em peso numa delas, mas depois da ruptura com o Sá Fernandes, nunca mais apareceu.

Fórum Manifesto sentindo necessidade de se organizar, como parece que continuava a suceder com as outras correntes do Bloco, decidiu, já não me recordo quando, constituir-se formalmente em Associação  Fórum Manifesto, elaborar uns estatutos e eleger uma Direcção. Fui convidado a integrar o Conselho Geral.

Na Assembleia do dia 9 foi eleita uma nova Direcção, a segunda, em que continuo a integrar o Conselho Geral e em que o Presidente da Direcção Executiva é o José Guilherme Gusmão. O Miguel Portas integra unicamente o Conselho Geral, tal como o José Manuel Pureza e a Ana Drago, esta última pertencendo também à Direcção.

Este longo texto, aborrecido e um pouco auto-promocional, visa unicamente integrar os meus leitores nesta pequena história, de modo a que no próximo post que dedicarei à referida reunião não se sintam a nadar sobre este grupo obscuro que forma o Bloco de Esquerda. E digo obscuro, porque a imprensa quando se refere aos grupos fundadores do Bloco faz sempre referência à Política XXI, que, como eu provei, já não existe e em sua substituição há sim a Fórum Manifesto.

Onde é que estamos a ver este filme? A Argentina de Menem



Enviaram-me este vídeo que relata com grande veracidade o que foram as privatizações na Argentina de Menem. Prevejo, para infelicidade nossa, que em Portugal possa ser igual. (A referência ao Sonho de José Serra está relacionado com o que poderia acontecer ao Brasil se este candidato, da direita - tucano é a alcunha do seu partido -, ganhasse as eleições presidenciais)

12/07/2011

Um mês de ausência

Poder-vos-ia falar da angústia do escritor perante a página em branco. Mas não é verdade. É por pura preguiça, acompanhada de outras razões, algumas já várias vezes aqui invocadas por mim, como sejam as razões de saúde. Neste caso, também houve um arreliante vírus que, durante uns tempos, se instalou no computador, e que me duplicava os acentos. Apareceu como desapareceu e já não é a primeira vez. Houve também um constante nomadismo entre o Algarve, Sines e Lisboa que me dificultou a escrita. Estas foram as razões porque estive ausente tanto tempo da vossa companhia.

Durante este tempo tantas coisas aconteceram no país. Foi nomeado um dos governos mais à direita desde o 25 de Abril. Se tiver uma mãozinha do PS, pode mesmo vir a subverter os próprios princípios basilares da Constituição de Abril. Não haja oposição e muitas coisas irão mudar na nossa tão frágil República. Os seus ministros são tenebrosos, principalmente os independentes. Os outros são velhos conhecidos nossos, sempre habituados a truques e a trambiques para ver se apanham os papalvos. Os que não têm filiação partidária são técnicos formatados nas escolas americanas, prontos a executarem as ordens que o grande Satã lhes ditar. É gente do pensamento único, que não tem a mais pequena ideia do que é fazer política em Portugal e só pensa  em aplicar a cartilha que lhes ensinaram nas escolas que frequentaram. Tal como os nosso comentadores, contratados à peça, para todos em fila dizerem o mesmo, desde João Duque a Cantigas Esteves.

No PS a abolia é total, estão à espera que os dois galos de capoeira resolvam a disputa entre si. Dali pouca coisa virá. Só a Renovação Comunista é que ainda é capaz de iniciar as conclusões  do seu Conselho Nacional, do dia 25 de Junho, valorizando “as afirmações de personalidades do PS para defender a Constituição contra os propósitos descaracterizadores das propostas da direita”. Depois do discurso pífio de Maria de Belém na discussão do programa do Governo, dando a ideia que a esquerda do PS se escapuliu depois da derrota de Manuel Alegre, eis que há ainda alguém que está espera que o PS faça peito ao desvarios que este Governo de Direita irá provocar.

Para começar, o roubo de parte do nosso subsídio de Natal.

Tivemos também a classificação da nossa dívida como lixo por uma das agências de rating, a Moody’s. Maremoto nacional, com o Presidente a pôr-se em bicos dos pés para a acusar de grande malvadez, esquecendo que ainda há algum tempo achava normal as classificações que as agências de rating nos atribuíam. Deu como justificação que os tempos mudaram. Mudaram sim, caiu o Governo que ele odiava, chefiado por Sócrates, e derrotou o seu principal adversário nas eleições presidenciais e nomeou um Governo da sua confiança. Se juntarmos a isto as declarações do mais reaccionário que há sobre o Serviço Nacional de Saúde, temos um Presidente que perdeu toda vergonha e se põe declaradamente ao serviço do Governo de Direita. Hoje Governo, Presidente e provavelmente Assembleia da República formam uma tríada difícil de superar. São a direita em todo o seu despudor.

À esquerda, Bloco e PCP, penso que ainda não encontraram o tom próprio e o Bloco ainda anda a lamber as feridas da sua derrota.

Para terminar gostava de assinalar duas coisas em que participei neste interim. A primeira foi a apresentação, num sala cheia, do Livro de Domenico Losurdo, Stalin, História crítica de uma lenda negra (Editora Revan), no ISCTE. Foram seus apresentadores Miguel Urbano Rodrigues, que falou mais do autor e João Arsénio Nunes, do livro. Este é uma edição brasileira, de que alguém se encarregou de trazer para Portugal uns tantos exemplares e que estava à venda no próprio dia do lançamento. Suspeito que dificilmente encontrará esta edição numa livraria perto de si, a não ser que encomende e isso costuma demorar meses. Gostaria de falar do seu lançamento e do livro, quando o tiver lido na totalidade.

Outro aspecto importante, que não quereria deixar passar em claro, foi a realização, no dia 9 de Julho, de uma assembleia do Grupo Manifesto, uma das correntes do Bloco de Esquerda. A Assembleia era antecedida de uma reunião, aberta a quem quisesse participar, e que se chamava O Bloco e os Caminhos da Esquerda. Foi editado um texto antes da reunião, que poderão encontrar aqui .

Sobre qualquer destes eventos, elaborarei, penso eu, o respectivo post.

08/06/2011

Algumas considerações sobre a estratégia de unidade do Bloco de Esquerda

Vai na blogosfera uma farta discussão sobre os resultados do Bloco nestas eleições (ver os exemplos mais expressivos aqui, aqui  e aqui). Até militantes do PCP, alguns de modo cordato, se meteram ao barulho (ver este, feito por alguém que vive longe do país, e este, fugiu-lhe, no entanto, o pé para criticar aqueles que, sendo do Bloco, abandonaram o PCP). A agitação vai tão forte que o Telejornal  chega mesmo a ter uma rubrica com declarações de Daniel de Oliveira e Joana Amaral Dias sugerindo a demissão dos dirigentes do Bloco, na sequência daquilo que todos os comentadores de direita têm vindo a pedir: se saiu Sócrates, porque não Louçã.

Quanto a esta última hipótese parece-me um disparate perfeito, mas não a irei discutir aqui.

Tal como tinha prometido no meu último post achava que a estratégia seguida pelo Bloco poderia merecer críticas, mas acima de tudo alguma reflexão mais ponderada. E quanto a mim esta estratégia, no caso do Bloco, tem muito a ver com a sua política de unidade e de procura de uma saída vitoriosa para a esquerda.

Há tempos, e a pedido, escrevi um post onde afirmava: tenho para mim que o Bloco de Esquerda é, na actual conjuntura, o único partido de esquerda que manifesta uma certa preocupação com a política de unidade. E depois tentava fazer a história das relações entre Manuel Alegre e o Bloco, que culminaram na derrota eleitoral daquele. Reforçando o que aí foi dito, tentaria, baseando-me na minha parca informação e até numa visão muito própria do Bloco, já que ainda não era seu militante nessa época, dar uma ideia, a partir de 2005, do que tem sido essa política de unidade.

Nas eleições legislativas de 2005 o Bloco integrou nas suas listas vários militantes da Renovação Comunista. A iniciativa provocou na altura grande agitação naquela Associação política, dado que alguns dos seus principais dirigentes, não concordavam com essa participação e desejavam um maior afastamento em relação ao Bloco. Para ser justo, até para com a memória de alguns, não direi o que pensavam, porque nunca o expressaram publicamente. O Bloco subiu nessa eleições e dessa colaboração resultou a eleição, devido a rotação dos deputados, de João Semedo, hoje respeitado dirigente e deputado  do Bloco. Mas, das ligações aí estabelecidas, e que tiveram seguimento nas duas candidaturas de Sá Fernandes à Câmara de Lisboa, não resta nada, só a entrada para o Bloco de alguns renovadores. Hoje a Direcção da Renovação Comunista afastou-se de vez do Bloco, apesar de fazer apelos patéticos, ainda antes das eleições, a um Governo de Esquerda, que englobasse o PS, o Bloco e o PCP.

Ainda em 2005, temos a eleição para vereador da Câmara de Lisboa de José Sá Fernandes, apoiado pelo Bloco. Nas intercalares de 2007, igualmente para Lisboa, novamente o apoio ao mesmo candidato. Não sei se foi nestas, se nas anteriores, que apareceu o célebre cartaz de O Zé faz falta. Mas o Zé passa rapidamente de enfant-terrible a diligente vereador de António Cota, o que torna impossível a continuação do apoio do Bloco. Mais uma tentativa unitária falhada.

Não sei se estão recordados, mas pela altura da ruptura com o Zé, Louçã ainda fala da possibilidade de Helena Roseta, nessa altura a chefiar um grupo de independentes, ser a próxima candidata à Câmara apoiada pelo Bloco. Não aceitou e depois de muitas peripécias, já por mim descritas muitas vezes, vai integrar a lista de António Costa para Lisboa. Mais uma vez a política de unidade desperdiçada.

No meio de tudo isto, temos o episódio Manuel Alegre, já acima assinalado e para o qual remeto os meus leitores. Com Manuel Alegre termina, e mal, a procura de unidade com gente que fosse ou independentes de esquerda ou da esquerda do PS. Ou seja, aquilo que a certa altura Louçã definiu como a esquerda grande, que englobava todos aqueles que eu tenho vindo a citar e as respectivas áreas políticas Esta política esgotou-se, eu diria mesmo que fracassou. E mais, bastou o Bloco apresentar uma moção de censura ao Governo PS ou ajudar a derrubar Sócrates e o PEC IV para muita desta gente, apesar dos esforços desenvolvidos de unidade com ela, que chegou à convivência na própria candidatura de Manuel Alegre, passar a reclamar a formação de um novo partido. Facto que não está esquecido e anda a aboborar numa coisa chamada Convergência e Alternativa. Nos seus escritos passaram a acusar o Bloco de ser um dos responsáveis pela direita ter ido para o poder (ver o meu post) e desse facto estar na origem dos desastrosos resultados do Bloco nestas eleições. Mesmo quando o Bloco apoiou Manuel Alegre achavam que aquele não devia ter dado tanto nas vistas, devia passar mais desapercebido, pois foi isto que matou o candidato.

Portanto, caros leitores, a unidade com as forças à direita do Bloco tem sido difícil, para não dizer quase impossível. Por isso, atendendo aos tempos que aí vinham, com o acordo entre a troika e os três partidos ditos do arco da governação, tornava-se urgente a reunião e provavelmente a colaboração estreita com as forças à sua esquerda, neste caso com o PCP. Isto foi defendido por muito boa gente, inclusive por mim.

Simplesmente, da parte do PCP houve, pelo menos de forma pública, um grande distanciamento em relação ao Bloco. Tinha-se encontrado com ele porque era um partido democrático – ainda continuam com esta designação pós-Abril. Era normal, não tinha qualquer significado. As declarações de Jerónimo vão sempre neste sentido (“Há muitos homens e mulheres, portugueses, preocupados com o futuro do país, que procuram dar uma contribuição para travar este rumo. Em relação ao BE, é preciso que clarifique os seus objectivos. Mas não temos nenhum preconceito em considerar que existam portugueses também preocupados com a situação dispostos a fazer um esforço para esse governo patriótico e de esquerda"). Mas por trás, no Avante, o insultozinho (Bloco de Elástico), e mesmo na campanha houve críticas públicas ao Bloco. Aqui também a unidade não avança muito.

Analisadas as circunstâncias, verifica-se que as propostas unitárias do Bloco com vista a uma saída de esquerda para a crise do país, encontram dificuldades. Penso que esta derrota do Bloco obriga-o pensar. Não pode estabelecer alianças a qualquer preço. Sempre na disposição de saídas rápidas e simples. A realidade obriga-nos a um trabalho de formiga, juntar os cacos que estão dispersos. Nem sempre o evento mais espectacular é a melhor saída. Por isso, tenho a ideia que nem o Bloco deve ser a muleta do PS ou, se quiserem, a boa consciência deste, nem ficar preso àquilo que o PCP faz ou defende. A sua autonomia prática é indispensável e provavelmente a unidade tem que começar na base, nos movimentos sociais, nos sindicatos, na vida associativa e local.

Por outro lado, temos que ter consciência, que mesmo uma acção consistente, como, por exemplo, foi a moção de censura, não pode ser despachada com duas tretas, tem que haver coerência nos nossos actos. O Bloco tem que voltar a ser um partido aglutinador da esquerda, contra-hegemónico e com propostas que permitam que a esquerda veja a luz ao fundo do túnel.

Tudo isto é bom de escrever, o mais difícil é pô-lo em prática.

07/06/2011

Análise dos resultados eleitorais

O cenário que eu propunha aos meus leitores era do que o PS perdesse por poucos, mas houvesse uma maioria de esquerda e PSD-CDS ganhassem sem maioria. Isto permitiria provavelmente afastar José Sócrates e obrigar o PS a entrar para um bloco central, fragilizando qualquer governo que se formasse nesta situação de crise. A esquerda teria tempo de repensar a sua estratégia e, a longo prazo, ou havia novas eleições ou o PS se aliava à esquerda. Isto sonhava eu acordado, baseando-me naquilo que as sondagens iam debitando.

Como se viu, nada disto sucedeu. O cenário idealizado por mim agravou-se de tal modo, que aquilo que parecia uma saída para a crise política se transformou no seu completo bloqueio. Mas passemos aos resultados.

O PSD ganhou sem qualquer dúvida estas eleições e obtém com o CDS uma maioria de direita clara. É evidente que o PSD ficou bastante longe da maioria absoluta que pedia e até dos 40% que Durão Barroso tinha obtido em 2002. É interessante, como já alguém escreveu, que neste momento nenhum partido consegue chegar aos 40% para ganhar eleições: sucedeu assim com o PS em 2009 e agora com o PSD. Isto verifica-se porque o CDS cresceu e o Bloco veio permitir um aumento da votação à esquerda.

Por outro lado, o CDS, contrariando as sondagens, teve uma votação menor do que esperava, mas mesmo assim cresceu em percentagem, mais de 1%, e em deputados, mais 3.

Quanto ao PS não teve uma derrota estrondosa, mas, como os media já foram divulgando, desde 1987 que não tinha um resultado tão mau. Mesmo quando Ferro Rodrigues perdeu com Durão Barroso teve quase 38% dos votos. Só nos tempos de Cavaco Silva e da AD, de Sá Carneiro, é que os resultados do PS foram mais baixos do que este e isso já se passou há muitos anos.

Causa desta derrota e da vitória da direita. Para mim são duas, a primeira e a principal, foram os anti-corpos que Sócrates foi criando na população portuguesa e, mais do que isso, o estado a que permitiu que o país chegasse. Provavelmente já teria perdido em 2009, se não fosse a campanha desastrosa de Manuela Ferreira Leite e do seu núcleo dirigente e a intervenção idiota do Presidente da República a propósito das escutas telefónicas. Mas, neste momento, atendendo ao estado a que o país tinha chegado, era inevitável. A segunda causa, intimamente ligada à anterior, é psicológica e encontrei-a na conversa que tive com alguém que me é chegado: a festa acabou, temos que trabalhar mais, acabar com os feriados excessivos, temos que levar isto a sério, porque agora já me foram ao bolso. Parte da população interiorizou o discurso da direita. Convenceu-se que se está a viver pior, foi porque andaram a gastar o seu dinheiro à tripa forra, porque não se trabalha o suficiente e tem-se regalias a mais. Nos tempos das vacas gordas esta gente votava PS, hoje, quando lhe mexem nos seus ordenados, pensa que é o discurso da direita que a levará a bom porto e não a contestação da esquerda.

E a esquerda! Daqui para a frente e porque penso que o PS é de centro-esquerda, referir-me-ei só ao PCP e ao Bloco. Quanto ao PCP a verdade é que não pode festejar uma grande vitória. A única que lhe valerá para alguma coisa é a ter passado à frente do Bloco. Porque quantos aos resultados não são nada de excepcional. Subiu menos do que uma décima, de 7,86, em 2009, para 7,94%, e ganhou com isso um deputado. No entanto nas três últimas eleições, 2005, 2009 e 2011, as percentagens não têm fugido aos 7 vírgula qualquer coisa, só em 2002 é que teve 6,94%.Ou seja, levou cerca de dez anos a subir 1%. Podemos também afirmar que em toda a década de 90 não fugiu aos 8 vírgula qualquer coisa. Partido mais constante que este não há. Por isso, com base nos resultados eleitorais não se pode tirar qualquer conclusão de vitória ou derrota do PCP, está sempre na mesma.

Já o mesmo não se pode dizer do Bloco, depois duma ascensão meteórica uma queda de igual valor: 2,74%, em 2002, 6,35%, em 2005, 9,82%, em 2009, e 5,19% em 2011. A derrota foi suficientemente pesada para que não se tenham que tirar rapidamente ilações.

A primeira é se alguma vez o Bloco parou para pensar e descobrir qual é o seu eleitorado. Tenho para mim que é muito diverso, fragmentado e que em alguns casos pode até chegar à direita, seduzida pelo seu discurso justiceiro. Ora numa situação destas é difícil contentar todos. Por isso, se virmos as análises que aqui e ali têm sido feitas ao Bloco as ilações são variadas. Para uns não foi suficientemente de esquerda, para outros é uma repetição do PCP, sem ter a solidez deste. Para estes, o Bloco abandonou a sua matriz inicial social-democratizante, transformando-se num puro partido de protesto.

Eu tenho para mim que o Bloco deve tentar perceber o eleitorado que vota nele, que é francamente diferente do dos seus militantes. Eu, que há muitos anos ando nisto, fui encontrar no Bloco muito dos velhos militantes da UDP com quem em tempos tinha traçado armas pelo PCP. Ora esta gente, que hoje reconheço é tão generosa e bem intencionada como os velhos militantes do PCP de quem eu ainda continuo a ser amigo, não é de certeza o votante típico do Bloco e por isso tem que haver uma apreciação crítica desta situação. Mas há mais, há os erros recentes. O primeiro foi o apoio, provavelmente já fora de horas, a Manuel Alegre. Este apoio não nos trouxe o PS de esquerda, nem alguma esquerda, que eu defini, em textos anteriores, como aquela que claudicou perante o PS, como afastou todos aqueles que não admitiam qualquer colaboração com o PS de Sócrates. Para mim, a derrocada de hoje, começou antes, com a derrota expressiva de Manuel Alegre. Este foi sem dúvida nenhuma um assunto mal resolvido. Mas, pior ainda foi a moção de censura. Não por ter sido apresentada, mas a forma atabalhoada e ziguezagueante como foi embrulhada. A ofensiva dos media e dos comentadores encartados contra o Bloco, passando por alguns militantes do mesmo, foi devastadora.

Depois, provavelmente, a não ida até à troika, trouxe o afastamento de muita gente que votava no Bloco, sensível também às críticas dos media.

O Bloco deixou criar a ideia que era um partido que não fazia parte de uma alternativa, mas um partido de protesto e para isso já tínhamos o PCP.

Estas são algumas causas políticas desta derrota, que eu diria anunciada, do Bloco de Esquerda e provavelmente de toda a estratégia ultimamente seguida por este. Porque tenho sido um defensor desta estratégia, em post posterior gostaria de fazer algumas considerações mais profundas e talvez uma auto-crítica em relação àquilo que tenho defendido. Até breve.

03/06/2011

António Costa defende o Bloco Central

Vi ontem, mais uma vez, a Quadratura do Círculo. A direita está impante, parece que já tem a vitória no papo. Pacheco Pereira espera que o PSD ganhe com uma maioria folgada e Lobo Xavier acredita que o CDS vá upa! upa! a crescer. Não se querem comprometer com números, mas a felicidade assoma-lhes ao rosto. Acreditam que destas eleições irá resultar um Governo PSD-CDS e já lhe fazem recomendações. Pacheco Pereira mais prosaico, afirma que o PSD tem que descer à realidade e abandonar o seu programa. Bem intencionado, diz ele, mas inaplicável. O liberalismo não se coaduna bem com a realidade portuguesa.

Que a direita esteja satisfeita, ou queira mostrar que está, é compreensível, mas o que é mais grave é a atitude de António Costa, que já aceita como inevitável, pelo menos da sua conversa transparece isso, a derrota do PS. E depois desfia o rosário das queixas do PS em relação ao PSD. Volta com o cenário da irresponsabilidade na abertura da crise e com toda a tralha que José Sócrates nos tem andado a vender desde o princípio da mesma. Mas daquilo que ele mais se queixa é dessa intolerância da direcção do PSD ao não compreender o papel central que o PS tem no estabelecimento de consensos na sociedade portuguesa e, por isso, sente uma enorme amargura por ter sido afastado liminarmente por Passos Coelho da constituição do próximo Governo. Como injusto é aquele líder, quando o PS se ganhasse estaria na disposição de se aliar ao PSD para formar Governo, e isto foi dito com todas as letras. A vitória do PS nas próximas eleições acarretaria uma proposta de aliança ao PSD para governarem em conjunto.

Depois de ouvir isto, que já era a doutrina oficial de Sócrates, mas não tão explícita, lembrei-me de tudo aquilo que António Costa tem dito e fomentado nos seus amigos e das posições de alguma esquerda, que eu considerei que claudicou, que aconselha o voto no PS para travar a deriva neo-liberal do PSD ou o sonho de Sá Carneiro, uma maioria, um Governo e um Presidente. No primeiro caso, lembrei-me do abaixo-assinado para uma maioria de esquerda para a Câmara de Lisboa, que foi apoiado por António Costa e desencadeado por um grupo significativo de homens de esquerda e que no final serviu para Helena Roseta voltar ao redil socialista, para António Costa ganhar a Câmara e depois fazer um acordo com o PSD para dividir administrativamente a cidade de Lisboa, com claro prejuízo de um dos partidos de esquerda. O segundo caso é os apelos de alguma esquerda, mesmo que dirigidos a toda ela, mas que no fundo desejam canalizar para o PS a votação da esquerda, porque só este partido terá condições de resistir aos males que se avizinham.

Não gostaria de terminar sem assinalar que uma das causas que Pacheco Pereira atribui à subida do PSD nas sondagens é que este, na recta final, virou as suas baterias contra Sócrates, transformando estas eleições num plebiscito a favor ou contra o Primeiro-ministro. Ora este problema tem sido um pouco subestimado pela esquerda, ao considerar que o problema não está na personagem primeiro-ministro, mas sim nas políticas por ele desenvolvidas. Sendo isto verdade, não podemos esquecer a própria figura de Sócrates, dos seus casos, das suas aldrabices e invenções. Sócrates é um homem perigoso, que arrastou o PS atrás de si e que, tirando os seus apoiantes fanáticos, concita um profundo ódio em grande parte da população portuguesa e isto não se pode esquecer.

Sei que esta recomendação já vem um pouco tarde, mas muitas vezes não se pode separar o homem das políticas que prossegue. E às vezes, por um excesso de abstracção ideológica, ficamo-nos só pela política e esquecemos dos seus executantes.

31/05/2011

Españistán, de la Burbuja Inmobiliaria a la Crisis (por Aleix Saló)



Enviaram-me este vídeo sobre a bolha imobiliária e a crise em Espanha. Achei  tão interessante e verdadeiro, que resolvi compartilhar esta animação de Aleix Saló convosco.

28/05/2011

Preferes a peste ou a guerra?

Por motivos vários, mas que na maioria dos casos têm a ver com a minha saúde, não tenho escrito nada no blog. Mesmo a série de três posts que iniciei no princípio do mês, ainda não foi acabada e, para ser verdadeiro, já não me lembro bem o que pretendia escrever no último. Portanto ficará como está.

O que hoje me trás aqui, e que no fundo anda sempre à volta do mesmo, são dois artigos, um de Daniel de Oliveira, Sócrates ou Passos? Passo  e outro de Rui Tavares, Duas catástrofes. Resumidamente, qualquer deles critica a dicotomia, hoje obrigatoriamente imposta pelos media, entre votar Sócrates ou Passos Coelho. Rui Tavares é mesmo muito claro, a vitória de Passos Coelho iria provocar a catástrofe económica e social, com Sócrates teríamos a política. Qualquer deles não é muito favorável à tese desenvolvida na esquerda da igualdade entre os dois. Rui Tavares refere-se mesmo a um tempo mítico do PS, que eu penso que nunca existiu.

Em tempos, eu próprio já tinha abordado esta triste dicotomia, afirmando que PSD e CDS eram os nossos inimigos principais e o PS, o inimigo secundário. Isto mereceu, na altura, algumas críticas de certa ortodoxia. No entanto, em qualquer dos casos, eu não deixava de considerar estes dois blocos, pertençamente alternativos, como inimigos. Considerava simplesmente que tinham objectivos diferentes e que não seria indiferente o Governo de um ou de outro.

Hoje, torna-se para mim cada vez mais claro, que a contradição fundamental dos nossos dias é entre quem assinou o acordo com a troika estrangeira, como lhe chama Jerónimo de Sousa, e quem não o fez e resiste às suas imposições. É evidente, que nesta eleições esta diferença não está devidamente realçada, nem pelos media, que não estão interessados nisso, nem pelos próprios, Bloco e PCP, em que cada um por seu lado concorre nas respectiva bicicleta. Espero que no futuro e perante as expectativas que ameaçam o povo português estas duas forças, agregando à sua volta todos aqueles que se opõem à troika estrangeira, consigam transformar-se num pólo alternativo, com força suficiente para mudar o rumo das coisas.

Não queria terminar sem, no entanto, especular um pouco sobre os cenários possíveis e desejáveis no pós-eleições. Sou defensor que o PSD ganhe por muito poucos e não consiga com o CDS estabelecer uma maioria absoluta. Que o PS perca, mas que haja uma maioria dita de esquerda na Assembleia da República. Nada disto é impossível de suceder. As sondagens permitem tornar verosímil este cenário.

Qual era a vantagem disto? Era tornar impossível a criação de um Governo de direita, mas por outro lado obrigar o PS a verdadeiramente se confrontar com a sua derrota e possivelmente substituir José Sócrates, o que seria um bem para todos, e a cair, para cabal esclarecimento da esquerda que claudicou (ver o meu post), nos braços do PSD, para fazerem o bloco central. - Já se sabe que eu não acredito nas palavras de Manuel Alegre que defende que o PS se perder deve passar à oposição -. Um Governo assim teria muito pouca estabilidade e permitiria a qualquer momento derrubá-lo.

Resta acrescentar que o meu maior desejo é que o Bloco mantenha os 16 deputados que tinha e que fizeram um bom trabalho e que por óbvias razões irei votar Bloco de Esquerda.

PS.: Imagem de Os quatro cavaleiros do Apocalipse, de Albrecht Dürer (1471-1528). Quadro de 1498. Os quatro cavaleiros são a peste, a fome, a guerra e a morte.

25/05/2011

Eduardo Galeano- A verdade sobre a globalização capitalista



Enviaram-me esta interessante intervenção de Eduardo Galeano, um grande escritor uruguaio, autor dessa importante obra, que Chavéz ofereceu a Obama, As veias abertas da América Latina (1971). Há uma tradução portuguesa nas Edições Dinossauro.
Gostava que as boas almas que estão sempre prontas a enviar frechadas a Hugo Chávez ouvissem com atenção o que este magnífico narrador nos conta dele e da Venezuela actual.

18/05/2011

Contra a ingerência da da UE/FMI - Outro rumo é possível




19 DE MAIO, MANIFESTAÇÕES EM LISBOA E PORTO - NÃO AO “ACORDO”

Amanhã, dia 19 de Maio, a partir das 14.30 horas, em Lisboa e no Porto, a CGTP-IN promove duas grandiosas manifestações contra o “acordo” entre a troika e o governo do PS, com o apoio dos partidos da direita, PSD e CDS-PP.

Contra a recessão e o aumento do desemprego, das injustiças e das desigualdades, contra os cortes nos salários e nas pensões e o aumento brutal do custo de vida, a CGTP-IN apela à participação de trabalhadores, desempregados e população portuguesa nas manifestações marcadas para o Porto (com concentrações marcadas às 14.30 horas para as Praças dos Leões e da Batalha) e em Lisboa (com concentração marcada às 15.00 horas para o Largo do Calvário).

Manuel Carvalho da Silva discursará por volta das 16.30 horas, em Belém, Lisboa e João Torres, por volta das 16.15 na Avenida dos Aliados, Porto.

11/05/2011

A ofensiva neo-liberal, a esquerda que claudicou, e os salvadores da Pátria - II

Neste post irei dedicar-me àquela esquerda, provavelmente exígua, mas com algum acesso aos meios de informação, que há muito clama por um Governo PS, Bloco e PCP. Esquecendo quem é que comanda o PS, porque acha que não se deve imiscuir no assuntos internos dos outros partidos, se é José Sócrates ou aquela a que se convencionou chamar a ala esquerda do PS, que em determinada altura teve em Manuel Alegre o seu porta-voz.

O percurso daquela esquerda é variado e as personagens que a constituem provêm de diferentes sensibilidades políticas, todas de esquerda evidentemente. Por isso, limitar-me-ia a escrever sobre os factos mais recentes, já que em outras ocasiões, lhes fiz a crítica devida.

Aquando da apresentação da moção de censura do Bloco, ao Governo do PS, esta esquerda não esteve parada. Prevenia os incautos contra os perigos de se derrubar um Governo de centro-esquerda para o substituir por um de centro-direita. André Freire, um dos ideólogos desta corrente, veio clamar mesmo pela formação de um novo partido já que o Bloco não correspondia àquilo que se esperava dele, ser um auxiliar precioso da governação socialista, no fundo, ser a muleta do PS.

Mas as palavras de Freire não caíram em saco roto, rapidamente um grupo de cidadãos, diria que são sempre os mesmos, reúne-se e eis que surge um novo Manifesto, denominado por uma Convergência e Alternativa. Submetem pois “à consideração do PCP, do BE, e do PS, dos respectivos responsáveis mas também dos seus eleitores” as considerações que acima explanaram, “com um único objectivo: através do diálogo e do debate alcançar uma convergência política que possa oferecer aos Portugueses uma forte alternativa de esquerda.” No meio destas piedosas intenções não se esquecem de atribuir culpas ao Bloco e ao PCP, por o PCP e o BE não terem “ousado avançar para as próximas eleições com uma grande coligação das esquerdas através da mobilização de activistas dos movimentos sociais e de personalidades diversas representativas de sectores progressistas da sociedade portuguesa”. Mas a seguir isentam o PS de qualquer culpa ao manifestar “que não basta denunciar a submissão da actual direcção do PS às políticas de austeridade exigidas pelos mercados financeiros e pela UE. Sobretudo, é preciso que as restantes esquerdas aceitem iniciar um processo de convergência tendo em vista produzir uma alternativa política suficientemente credível para que, no futuro e sob pressão do eleitorado, o PS reconheça que tem um interlocutor com quem pode fazer um acordo político para tirar o País da crise.”

Paralelamente, a Associação Política Renovação Comunista pronuncia-se sobre o momento político  actual afirmando a dada altura que “não é esta a altura de discutir as condutas na última legislatura, sobre as quais a História por certo fará um dia a sua avaliação. Não é altura de discutir as divergências e os cálculos que motivaram a queda do governo do Partido Socialista sem cuidar das condições ulteriores de reforço à esquerda da correlação de forças e precipitaram o pedido de intervenção do FMI”. Depois de passar uma esponja em branco sobre a Governação socialista, restam-lhe as piedosas intenções de esperar que “o Partido Socialista e o conjunto da esquerda, à luz da Constituição da República que a direita visa anular, honrem a sua natureza de forças construtoras de uma democracia política, económica e social ao lado das classes trabalhadoras e das classes intermédias.”

É que bom que se diga que grande parte dos subscritores do referido Manifesto pertencem igualmente à direcção da Renovação Comunista.

Que conclusões tirar das posições desta esquerda que, no seu afã, sempre louvável, de manter a unidade de esquerda, considera o PS no seu conjunto como um partido de esquerda e acha que é possível, neste momento, um entendimento com aquele partido, quando o programa de ajuda externa já foi aprovado por Sócrates e propagandeado por este como bom.

Hoje, compreende-se que o separar de águas é entre aqueles que se preparam para resistir à troika e aqueles que a aceitam de bom grado, afirmando que conseguiram negociar um bom programa. Nesse sentido, podemos dizer que aquela esquerda claudicou, apesar de manter uma linguagem crítica em relação àquilo que nos querem impor, pensa que é possível dormir com o inimigo, acreditando que se a esquerda, à esquerda do PS, fizesse um esforçozinho este viria às boas dialogar com ela. Quando o que está neste momento em causa é trazer todos aqueles que no PS ou fora dele estão interessados em formar um pólo alternativo à aceitação das imposições da troika.

Penso que este problema é a contradição principal dos dias hoje e que a proposta de um Governo de Esquerda, do Bloco, ou Patriótico e de Esquerda, do PCP, apesar de não serem para já, podem ser, se tiverem pernas para andar, uma alternativa no futuro, muito mais alargada, é certo, a esse centrão medíocre e liberalizador que todos à compita nos querem impor.

Quanto aos salvadores da Pátria ficará para post posterior, porque hoje já são  muitos os candidatos.

08/05/2011

A ofensiva neo-liberal, a esquerda que claudicou, e os salvadores da Pátria - I

Por razões várias, não tenho escrito nada. Quando penso postar qualquer coisa relativa à espuma dos dias eis que já passou tanto tempo, que aquilo que queria dizer perdeu toda a actualidade. Por isso escreverei sobre um assunto que nos irá ocupar durante longos e penosos anos.

Já deu para perceber que o “acordo” que Portugal subscreveu com a chamada troika é composto por duas partes, a primeira que visa transferir forçadamente dos nossos bolsos uma soma considerável de dinheiro para os bancos e os agiotas internacionais. É a parte do aumento dos impostos, do corte das pensões, da impossibilidade de deduzir despesas com a saúde e outras no IRS. É também o aumento da electricidade e dos transportes e, para não ser exaustivo, mais um conjunto de horrores que tornarão a nossa vida num inferno. A segunda parte, que delicia, os nossos políticos, desde o PS ao CDS, que consiste naquilo que eles há muito tempo chamam as reformas estruturais, mas que no fundo não passam da desregulamentação neo-liberal da nossa estrutura económica, acima de tudo da já frágil e débil regulamentação do trabalho, tornando-a mais flexível e permitindo aos patrões despedir por menor preço e à segurança social pagar menos, e durante menos tempo, o subsídio de desemprego. O que é que isto significa? Que o trabalhador amocha perante o patrão para não ir para a rua e aceite trabalhos degradados para não ficar completamente descalço, sem qualquer subsídio. É o reino do salve-se quem puder, em que os patrões terão a faca e queijo na mão.

Contra esta barbárie civilizacional os três partidos, daquilo que a imprensa dominante classifica do arco governamental, apressaram-se, à compita, a dizer que foram eles os responsáveis por tão ignóbil compromisso e que tinha sido devido à sua perseverança negocial que se tinha obtido um acordo tão “favorável”. Foi ver a triste figura de Sócrates a dizer o que o acordo não era e Catroga, nervoso e a suar por todos os lados, a garantir que o que de bom lá estava tinha sido da responsabilidade do PSD e dele. De seguida, o CSD assegura-nos o mesmo. Triste espectáculo.

Dito isto, o mais espantoso é que no conjunto de gente que é tocada por aqueles três partidos, principalmente no PS, não haja ninguém que se levante e diga que o rei vai nu, que o acordo é mau e que expresse a sua crítica às medidas propostas. O mais espantoso é que o aceitam. Acham que aqui e ali até nem se foi tão longe como eles desejavam, e que é gravoso para o povo português, mas era inevitável, porque se estava a viver, segundo dizem, acima das nossas possibilidades. Alguém viveu, que não fomos nós, os que dependemos diariamente do nosso trabalho.

Por tudo isto, o próximo governo será formado pelos três partidos que assinaram de cruz o acordo. Todos juntos ou aos pares, e as combinações possíveis são só mais três, lá estarão eles na disposição de garantirem que o acordo será aplicado.

Restam o Bloco e o PCP como resistentes. Cada um à sua maneira protestou, não falaram com a troika, e dispõem-se agora a lutarem contra as medidas propostas.

Aqui, direi eu, é que a porca torce o rabo. Por razões que têm a ver com idiossincrasias próprias, pelos eleitorados diferentes que tocam e no caso do Bloco pela franja ainda recente que abrange, tem-se a sensação, aumentada pelos media e comentadores, que não estão a conseguir aparecer como um frente unida contra estas medidas. É verdade que se está numa altura de conquistar votos, o que torna as coisas ainda mais difíceis. Mas parece claro que toda a esquerda, que está contra o acordo, todas as organizações sociais, neste caso os sindicatos, que se lhe opõem, não foram capazes de criar uma frente única contra esta situação. Antes do acordo proliferaram manifestos que hoje já ninguém recorda e em nada influenciaram o seu desfecho. Actualmente deveria haver uma frente única, com vozes de economistas, intelectuais e políticos que constituíssem a grande fronda que se opõe e luta contra o acordo. Ora nada disto está a suceder, na esquerda está cada um para seu lado, isto para já não falar daquela que claudicou e continua a sonhar, em condições completamente diferentes, com um governo de esquerda, PS, Bloco e PCP, tal Carmelinda Pereira, ressuscitada ao fim de trinta anos.

Mas isto fica para novo post.