15/07/2011

Uma reunião do Fórum Manifesto – II

Estou convencido que as anteriores reuniões gerais da Fórum Manifesto funcionavam  como correia de transmissão, – apesar do passado político um pouco tenebroso desta afirmação –, entre a Comissão Política do Bloco, principalmente entre o Miguel Portas que fazia parte dela, e os participantes das reuniões e ao mesmo tempo servia para se tomar o pulso sobre qual era a sensibilidade geral às propostas apresentadas. Estou-me a lembrar de uma reunião feita nas vésperas do referendo sobre o IVG, em que o Miguel Portas traçou os limites em que a nossa intervenção devia decorrer se queríamos desta vez sair vencedores do mesmo.

Ora bem, poderemos dizer que esta última reunião teve características diferentes, não foi para ouvir o que a Comissão Política do Bloco tinha para nos dizer, mas sim para que esta ouvisse as posições do grupo dirigente do Manifesto. Nesse sentido, elaborou-se previamente um comunicado, que foi redigido pela maioria dos que o assinaram e que serviu de base para a discussão na reunião.

Se fizéssemos uma interpretação à moda do PCP diríamos que uma fracção do partido se reuniu à margem do mesmo e tentou impor a este as conclusões da sua reunião. No Bloco estas coisas são assumidas de modo mais natural, apesar de eu estar convencido que divergências nas suas correntes maioritárias nem sempre são aceites calma e tranquilamente.

Podemos dizer que o essencial do comunicado, já por mim lincado anteriormente, se pode resumir, segundo o meu ponto de vista, a este parágrafo: “mas, passados 13 anos, e ante um ciclo político qualitativamente novo, a renovação da equipa dirigente apresenta-se como um processo inevitável e inexorável. Ela deve ser realizada de forma sustentada e em unidade. E terá consequências na democracia que praticamos, porque a herança da fundação deixa de ser fonte de legitimação”. Ou então, ao ponto 14 que, na sua totalidade, defende a descorrentização do partido, entendendo aquela como o desaparecimento das três correntes maioritárias do Bloco: UDP, PSR e Manifesto. Podemos igualmente dizer, para não sermos injustos, que todo o capítulo denominado Renovar e “descorrentizar” o Bloco, é importante do ponto de vista dos objectivos do comunicado.

Gostaria de sublinhar que sou daqueles que considero que os problemas de organização e de direcção são importantes num partido político, e que não podem ser subestimados, mas que na maioria dos casos as  opções defendidas escondem divergências políticas, que se transformam rapidamente em diferenças quanto à organização ou à direcção política do movimento.

Conhecemos casos históricos que corroboram aquilo que acabei de dizer. Não foi o papel que os militantes deveriam desempenhar no Partido Social-democrata Russo que separou Bolcheviques (a maioria) dos Mencheviques (a minoria), foram divergências políticas que depois se vieram a revelar irredutíveis. Ainda mais recentemente, no PCP, o grupo que reclamava pela realização de um novo Congresso, não era só isto que queria, mas sim uma nova orientação política para o mesmo. E poder-se-ia dar muitos mais exemplos.

Por isso, na intervenção que tive em relação à redacção do próprio comunicado e na reunião interessou-me muito mais sublinhar os aspectos políticos, do que aquilo que eu considero um problema de forma, apesar de não o subestimar.

Assim, e para que conste, enviei para o conjunto de redactores a seguinte proposta, que não visava  corrigir ponto por ponto o texto em si, mas alertar para algumas posições:

Quando, … "assumamos a defesa do Estado Social e a democracia como os nossos eixos programáticos fundamentais" parece-me que, como programa político, é pouco. Que nós, na nossa batalha pela unidade, o proponhamos como programa mínimo, a ser aceite por um conjunto de forças sociais e políticas, parece-me bem. Que, neste momento, apresentemos como programa político do Bloco só estes objectivos, parece-me diminuto e pouco mobilizador e, acima de tudo, defensivo e redutor da nossa acção. A batalha
por outra economia e pelo socialismo não deve estar ausente das nossas propostas a longo prazo.

Por outro lado em relação à unidade apresentei igualmente esta proposta: “O que é dito no texto … merece a minha concordância, simplesmente apesar de sublinharmos os equívocos e as dificuldades que encontramos nessa política de unidade e dos passos já dados na sua realização, temos que reconhecer a sua dificuldade e acima de tudo sublinharmos que não bastam acordos de cúpula ou acções extraordinárias, aquilo a que alguém já chamou eventos, para que nos pareça que os nossos esforços têm êxito. É preciso uma prática quotidiana de unidade e, a acima de tudo, uma procura na base dessa mesma unidade. Temos que nos dirigir não só aos militantes do PS que discordam das práticas da sua direcção, como igualmente a todos aqueles que não têm partido, e que são muitos e já votaram PCP, PS ou até em nós. Há uma esquerda órfã quer de propostas exequíveis, quer de demonstrações de uma procura genuína da unidade.

Podemos dizer que os camaradas, tomando em consideração a minha recomendação inicial, a formularam de um modo diferente e que foi inscrita no ponto 4 do seguinte modo: a defesa do Estado social e, agora, do modelo constitucional democrático como “as tarefas prioritárias da acção política do Bloco de Esquerda na “era dos credores” e são elas que determinam as convergências e alianças à escala nacional e europeia”. Como objectivo limitado, para uma determinada época, parece-me bem e foi isso que eu fui defender na minha intervenção na reunião. Não deixando, no entanto, de sublinhar que o Bloco deve albergar no seu seio os dois paradigmas políticos que Rui Bebiano define no seu post, na Terceira Noite, a social-democracia de esquerda e o comunismo modernizado. O seu autor defende claramente o primeiro e ataca o segundo, eu entendo que o Bloco tem que ser a junção dos dois.

E é isso que eu continuarei a defender, mantendo-me como até agora na Fórum Manifesto.


PS. Já este post estava elaborado quando descobri no blog de Rui Bebiano, A terceira Noite, o post, Os dados estão lançados, que faz referências ao comunicado da Fórum Manifesto que eu venho a citar. Seria interessante que os meus leitores o lessem porque se há alguns pontos em comum, há outros sobre os quais tenho profundas divergências, o que é natural.

14/07/2011

Uma reunião da Fórum Manifesto - I

Realizou-se no Sábado, 9 de Julho, uma reunião aberta denominada O Bloco e os Caminhos da Esquerda, seguida de uma Assembleia-geral da Associação Fórum Manifesto, onde foram eleitos os novos corpos gerentes daquela Associação.
O que é a Fórum Manifesto?

Penso que os meus leitores, nem sempre a par destas picuinhices da esquerda portuguesa, querem um pouco mais de informação sobre este grupo.

Não vou ser rigoroso nas datas, pois só mais recentemente me integrei nele. No entanto, posso informar que a Fórum Manifesto é o continuador da Política XXI, um dos partidos fundadores do Bloco de Esquerda. A sua figura mais visível, não sei se o seu dirigente há época, era o Miguel Portas. Em determinada altura por razões que desconheço, foi abandonado o termo Política XXI e foi adoptado o nome da revista, que então o grupo do Miguel Portas editava, que era a Manifesto.

Possuo cinco números, que vão Novembro de 2002 a Abril de 2004. Recordo que pela mesma altura a Renovação Comunista, através do Campo da Comunicação, editou, dirigida pelo Edgar Correia, a revista Ideias à Esquerda. O primeiro número é da Primavera de 2003 e o quarto, e último número, é de 30 de Maio de 2005, que já estava pronto quando o Edgar faleceu.

Só me refiro a isto porque houve alguma disputa entre as duas, que no fundo tentavam abranger o mesmo tipo de leitores. Em relação à segunda senti-me fortemente ligado, tendo redigido mesmo alguns artigos e feito parte do seu Conselho Editorial.

Mas, como quase tudo que é revista de esquerda, também qualquer das duas não sobreviveu. No entanto, o grupo que editava a Manifesto continuou como associação política, na altura, ainda de modo informal, a ser uma das componentes do Bloco de Esquerda.

Eu devo ter sido convidado a participar nas suas reuniões por volta de 2005, quando houve uma aproximação entre aquele partido e a Renovação Comunista. Como eu já relatei em post  anterior, nas eleições legislativas de 2005 houve um acordo entre o Bloco e a Renovação Comunista, que se reflectiu na ida para o parlamento do João Semedo. Esse acordo foi depois prolongado para as autárquicas para Lisboa, no apoio dado a Sá Fernandes. Acho que participei em todas as reuniões da Fórum Manifesto a partir dessa data. A Direcção da Renovação ainda chegou a participar em peso numa delas, mas depois da ruptura com o Sá Fernandes, nunca mais apareceu.

Fórum Manifesto sentindo necessidade de se organizar, como parece que continuava a suceder com as outras correntes do Bloco, decidiu, já não me recordo quando, constituir-se formalmente em Associação  Fórum Manifesto, elaborar uns estatutos e eleger uma Direcção. Fui convidado a integrar o Conselho Geral.

Na Assembleia do dia 9 foi eleita uma nova Direcção, a segunda, em que continuo a integrar o Conselho Geral e em que o Presidente da Direcção Executiva é o José Guilherme Gusmão. O Miguel Portas integra unicamente o Conselho Geral, tal como o José Manuel Pureza e a Ana Drago, esta última pertencendo também à Direcção.

Este longo texto, aborrecido e um pouco auto-promocional, visa unicamente integrar os meus leitores nesta pequena história, de modo a que no próximo post que dedicarei à referida reunião não se sintam a nadar sobre este grupo obscuro que forma o Bloco de Esquerda. E digo obscuro, porque a imprensa quando se refere aos grupos fundadores do Bloco faz sempre referência à Política XXI, que, como eu provei, já não existe e em sua substituição há sim a Fórum Manifesto.

Onde é que estamos a ver este filme? A Argentina de Menem



Enviaram-me este vídeo que relata com grande veracidade o que foram as privatizações na Argentina de Menem. Prevejo, para infelicidade nossa, que em Portugal possa ser igual. (A referência ao Sonho de José Serra está relacionado com o que poderia acontecer ao Brasil se este candidato, da direita - tucano é a alcunha do seu partido -, ganhasse as eleições presidenciais)

12/07/2011

Um mês de ausência

Poder-vos-ia falar da angústia do escritor perante a página em branco. Mas não é verdade. É por pura preguiça, acompanhada de outras razões, algumas já várias vezes aqui invocadas por mim, como sejam as razões de saúde. Neste caso, também houve um arreliante vírus que, durante uns tempos, se instalou no computador, e que me duplicava os acentos. Apareceu como desapareceu e já não é a primeira vez. Houve também um constante nomadismo entre o Algarve, Sines e Lisboa que me dificultou a escrita. Estas foram as razões porque estive ausente tanto tempo da vossa companhia.

Durante este tempo tantas coisas aconteceram no país. Foi nomeado um dos governos mais à direita desde o 25 de Abril. Se tiver uma mãozinha do PS, pode mesmo vir a subverter os próprios princípios basilares da Constituição de Abril. Não haja oposição e muitas coisas irão mudar na nossa tão frágil República. Os seus ministros são tenebrosos, principalmente os independentes. Os outros são velhos conhecidos nossos, sempre habituados a truques e a trambiques para ver se apanham os papalvos. Os que não têm filiação partidária são técnicos formatados nas escolas americanas, prontos a executarem as ordens que o grande Satã lhes ditar. É gente do pensamento único, que não tem a mais pequena ideia do que é fazer política em Portugal e só pensa  em aplicar a cartilha que lhes ensinaram nas escolas que frequentaram. Tal como os nosso comentadores, contratados à peça, para todos em fila dizerem o mesmo, desde João Duque a Cantigas Esteves.

No PS a abolia é total, estão à espera que os dois galos de capoeira resolvam a disputa entre si. Dali pouca coisa virá. Só a Renovação Comunista é que ainda é capaz de iniciar as conclusões  do seu Conselho Nacional, do dia 25 de Junho, valorizando “as afirmações de personalidades do PS para defender a Constituição contra os propósitos descaracterizadores das propostas da direita”. Depois do discurso pífio de Maria de Belém na discussão do programa do Governo, dando a ideia que a esquerda do PS se escapuliu depois da derrota de Manuel Alegre, eis que há ainda alguém que está espera que o PS faça peito ao desvarios que este Governo de Direita irá provocar.

Para começar, o roubo de parte do nosso subsídio de Natal.

Tivemos também a classificação da nossa dívida como lixo por uma das agências de rating, a Moody’s. Maremoto nacional, com o Presidente a pôr-se em bicos dos pés para a acusar de grande malvadez, esquecendo que ainda há algum tempo achava normal as classificações que as agências de rating nos atribuíam. Deu como justificação que os tempos mudaram. Mudaram sim, caiu o Governo que ele odiava, chefiado por Sócrates, e derrotou o seu principal adversário nas eleições presidenciais e nomeou um Governo da sua confiança. Se juntarmos a isto as declarações do mais reaccionário que há sobre o Serviço Nacional de Saúde, temos um Presidente que perdeu toda vergonha e se põe declaradamente ao serviço do Governo de Direita. Hoje Governo, Presidente e provavelmente Assembleia da República formam uma tríada difícil de superar. São a direita em todo o seu despudor.

À esquerda, Bloco e PCP, penso que ainda não encontraram o tom próprio e o Bloco ainda anda a lamber as feridas da sua derrota.

Para terminar gostava de assinalar duas coisas em que participei neste interim. A primeira foi a apresentação, num sala cheia, do Livro de Domenico Losurdo, Stalin, História crítica de uma lenda negra (Editora Revan), no ISCTE. Foram seus apresentadores Miguel Urbano Rodrigues, que falou mais do autor e João Arsénio Nunes, do livro. Este é uma edição brasileira, de que alguém se encarregou de trazer para Portugal uns tantos exemplares e que estava à venda no próprio dia do lançamento. Suspeito que dificilmente encontrará esta edição numa livraria perto de si, a não ser que encomende e isso costuma demorar meses. Gostaria de falar do seu lançamento e do livro, quando o tiver lido na totalidade.

Outro aspecto importante, que não quereria deixar passar em claro, foi a realização, no dia 9 de Julho, de uma assembleia do Grupo Manifesto, uma das correntes do Bloco de Esquerda. A Assembleia era antecedida de uma reunião, aberta a quem quisesse participar, e que se chamava O Bloco e os Caminhos da Esquerda. Foi editado um texto antes da reunião, que poderão encontrar aqui .

Sobre qualquer destes eventos, elaborarei, penso eu, o respectivo post.

08/06/2011

Algumas considerações sobre a estratégia de unidade do Bloco de Esquerda

Vai na blogosfera uma farta discussão sobre os resultados do Bloco nestas eleições (ver os exemplos mais expressivos aqui, aqui  e aqui). Até militantes do PCP, alguns de modo cordato, se meteram ao barulho (ver este, feito por alguém que vive longe do país, e este, fugiu-lhe, no entanto, o pé para criticar aqueles que, sendo do Bloco, abandonaram o PCP). A agitação vai tão forte que o Telejornal  chega mesmo a ter uma rubrica com declarações de Daniel de Oliveira e Joana Amaral Dias sugerindo a demissão dos dirigentes do Bloco, na sequência daquilo que todos os comentadores de direita têm vindo a pedir: se saiu Sócrates, porque não Louçã.

Quanto a esta última hipótese parece-me um disparate perfeito, mas não a irei discutir aqui.

Tal como tinha prometido no meu último post achava que a estratégia seguida pelo Bloco poderia merecer críticas, mas acima de tudo alguma reflexão mais ponderada. E quanto a mim esta estratégia, no caso do Bloco, tem muito a ver com a sua política de unidade e de procura de uma saída vitoriosa para a esquerda.

Há tempos, e a pedido, escrevi um post onde afirmava: tenho para mim que o Bloco de Esquerda é, na actual conjuntura, o único partido de esquerda que manifesta uma certa preocupação com a política de unidade. E depois tentava fazer a história das relações entre Manuel Alegre e o Bloco, que culminaram na derrota eleitoral daquele. Reforçando o que aí foi dito, tentaria, baseando-me na minha parca informação e até numa visão muito própria do Bloco, já que ainda não era seu militante nessa época, dar uma ideia, a partir de 2005, do que tem sido essa política de unidade.

Nas eleições legislativas de 2005 o Bloco integrou nas suas listas vários militantes da Renovação Comunista. A iniciativa provocou na altura grande agitação naquela Associação política, dado que alguns dos seus principais dirigentes, não concordavam com essa participação e desejavam um maior afastamento em relação ao Bloco. Para ser justo, até para com a memória de alguns, não direi o que pensavam, porque nunca o expressaram publicamente. O Bloco subiu nessa eleições e dessa colaboração resultou a eleição, devido a rotação dos deputados, de João Semedo, hoje respeitado dirigente e deputado  do Bloco. Mas, das ligações aí estabelecidas, e que tiveram seguimento nas duas candidaturas de Sá Fernandes à Câmara de Lisboa, não resta nada, só a entrada para o Bloco de alguns renovadores. Hoje a Direcção da Renovação Comunista afastou-se de vez do Bloco, apesar de fazer apelos patéticos, ainda antes das eleições, a um Governo de Esquerda, que englobasse o PS, o Bloco e o PCP.

Ainda em 2005, temos a eleição para vereador da Câmara de Lisboa de José Sá Fernandes, apoiado pelo Bloco. Nas intercalares de 2007, igualmente para Lisboa, novamente o apoio ao mesmo candidato. Não sei se foi nestas, se nas anteriores, que apareceu o célebre cartaz de O Zé faz falta. Mas o Zé passa rapidamente de enfant-terrible a diligente vereador de António Cota, o que torna impossível a continuação do apoio do Bloco. Mais uma tentativa unitária falhada.

Não sei se estão recordados, mas pela altura da ruptura com o Zé, Louçã ainda fala da possibilidade de Helena Roseta, nessa altura a chefiar um grupo de independentes, ser a próxima candidata à Câmara apoiada pelo Bloco. Não aceitou e depois de muitas peripécias, já por mim descritas muitas vezes, vai integrar a lista de António Costa para Lisboa. Mais uma vez a política de unidade desperdiçada.

No meio de tudo isto, temos o episódio Manuel Alegre, já acima assinalado e para o qual remeto os meus leitores. Com Manuel Alegre termina, e mal, a procura de unidade com gente que fosse ou independentes de esquerda ou da esquerda do PS. Ou seja, aquilo que a certa altura Louçã definiu como a esquerda grande, que englobava todos aqueles que eu tenho vindo a citar e as respectivas áreas políticas Esta política esgotou-se, eu diria mesmo que fracassou. E mais, bastou o Bloco apresentar uma moção de censura ao Governo PS ou ajudar a derrubar Sócrates e o PEC IV para muita desta gente, apesar dos esforços desenvolvidos de unidade com ela, que chegou à convivência na própria candidatura de Manuel Alegre, passar a reclamar a formação de um novo partido. Facto que não está esquecido e anda a aboborar numa coisa chamada Convergência e Alternativa. Nos seus escritos passaram a acusar o Bloco de ser um dos responsáveis pela direita ter ido para o poder (ver o meu post) e desse facto estar na origem dos desastrosos resultados do Bloco nestas eleições. Mesmo quando o Bloco apoiou Manuel Alegre achavam que aquele não devia ter dado tanto nas vistas, devia passar mais desapercebido, pois foi isto que matou o candidato.

Portanto, caros leitores, a unidade com as forças à direita do Bloco tem sido difícil, para não dizer quase impossível. Por isso, atendendo aos tempos que aí vinham, com o acordo entre a troika e os três partidos ditos do arco da governação, tornava-se urgente a reunião e provavelmente a colaboração estreita com as forças à sua esquerda, neste caso com o PCP. Isto foi defendido por muito boa gente, inclusive por mim.

Simplesmente, da parte do PCP houve, pelo menos de forma pública, um grande distanciamento em relação ao Bloco. Tinha-se encontrado com ele porque era um partido democrático – ainda continuam com esta designação pós-Abril. Era normal, não tinha qualquer significado. As declarações de Jerónimo vão sempre neste sentido (“Há muitos homens e mulheres, portugueses, preocupados com o futuro do país, que procuram dar uma contribuição para travar este rumo. Em relação ao BE, é preciso que clarifique os seus objectivos. Mas não temos nenhum preconceito em considerar que existam portugueses também preocupados com a situação dispostos a fazer um esforço para esse governo patriótico e de esquerda"). Mas por trás, no Avante, o insultozinho (Bloco de Elástico), e mesmo na campanha houve críticas públicas ao Bloco. Aqui também a unidade não avança muito.

Analisadas as circunstâncias, verifica-se que as propostas unitárias do Bloco com vista a uma saída de esquerda para a crise do país, encontram dificuldades. Penso que esta derrota do Bloco obriga-o pensar. Não pode estabelecer alianças a qualquer preço. Sempre na disposição de saídas rápidas e simples. A realidade obriga-nos a um trabalho de formiga, juntar os cacos que estão dispersos. Nem sempre o evento mais espectacular é a melhor saída. Por isso, tenho a ideia que nem o Bloco deve ser a muleta do PS ou, se quiserem, a boa consciência deste, nem ficar preso àquilo que o PCP faz ou defende. A sua autonomia prática é indispensável e provavelmente a unidade tem que começar na base, nos movimentos sociais, nos sindicatos, na vida associativa e local.

Por outro lado, temos que ter consciência, que mesmo uma acção consistente, como, por exemplo, foi a moção de censura, não pode ser despachada com duas tretas, tem que haver coerência nos nossos actos. O Bloco tem que voltar a ser um partido aglutinador da esquerda, contra-hegemónico e com propostas que permitam que a esquerda veja a luz ao fundo do túnel.

Tudo isto é bom de escrever, o mais difícil é pô-lo em prática.

07/06/2011

Análise dos resultados eleitorais

O cenário que eu propunha aos meus leitores era do que o PS perdesse por poucos, mas houvesse uma maioria de esquerda e PSD-CDS ganhassem sem maioria. Isto permitiria provavelmente afastar José Sócrates e obrigar o PS a entrar para um bloco central, fragilizando qualquer governo que se formasse nesta situação de crise. A esquerda teria tempo de repensar a sua estratégia e, a longo prazo, ou havia novas eleições ou o PS se aliava à esquerda. Isto sonhava eu acordado, baseando-me naquilo que as sondagens iam debitando.

Como se viu, nada disto sucedeu. O cenário idealizado por mim agravou-se de tal modo, que aquilo que parecia uma saída para a crise política se transformou no seu completo bloqueio. Mas passemos aos resultados.

O PSD ganhou sem qualquer dúvida estas eleições e obtém com o CDS uma maioria de direita clara. É evidente que o PSD ficou bastante longe da maioria absoluta que pedia e até dos 40% que Durão Barroso tinha obtido em 2002. É interessante, como já alguém escreveu, que neste momento nenhum partido consegue chegar aos 40% para ganhar eleições: sucedeu assim com o PS em 2009 e agora com o PSD. Isto verifica-se porque o CDS cresceu e o Bloco veio permitir um aumento da votação à esquerda.

Por outro lado, o CDS, contrariando as sondagens, teve uma votação menor do que esperava, mas mesmo assim cresceu em percentagem, mais de 1%, e em deputados, mais 3.

Quanto ao PS não teve uma derrota estrondosa, mas, como os media já foram divulgando, desde 1987 que não tinha um resultado tão mau. Mesmo quando Ferro Rodrigues perdeu com Durão Barroso teve quase 38% dos votos. Só nos tempos de Cavaco Silva e da AD, de Sá Carneiro, é que os resultados do PS foram mais baixos do que este e isso já se passou há muitos anos.

Causa desta derrota e da vitória da direita. Para mim são duas, a primeira e a principal, foram os anti-corpos que Sócrates foi criando na população portuguesa e, mais do que isso, o estado a que permitiu que o país chegasse. Provavelmente já teria perdido em 2009, se não fosse a campanha desastrosa de Manuela Ferreira Leite e do seu núcleo dirigente e a intervenção idiota do Presidente da República a propósito das escutas telefónicas. Mas, neste momento, atendendo ao estado a que o país tinha chegado, era inevitável. A segunda causa, intimamente ligada à anterior, é psicológica e encontrei-a na conversa que tive com alguém que me é chegado: a festa acabou, temos que trabalhar mais, acabar com os feriados excessivos, temos que levar isto a sério, porque agora já me foram ao bolso. Parte da população interiorizou o discurso da direita. Convenceu-se que se está a viver pior, foi porque andaram a gastar o seu dinheiro à tripa forra, porque não se trabalha o suficiente e tem-se regalias a mais. Nos tempos das vacas gordas esta gente votava PS, hoje, quando lhe mexem nos seus ordenados, pensa que é o discurso da direita que a levará a bom porto e não a contestação da esquerda.

E a esquerda! Daqui para a frente e porque penso que o PS é de centro-esquerda, referir-me-ei só ao PCP e ao Bloco. Quanto ao PCP a verdade é que não pode festejar uma grande vitória. A única que lhe valerá para alguma coisa é a ter passado à frente do Bloco. Porque quantos aos resultados não são nada de excepcional. Subiu menos do que uma décima, de 7,86, em 2009, para 7,94%, e ganhou com isso um deputado. No entanto nas três últimas eleições, 2005, 2009 e 2011, as percentagens não têm fugido aos 7 vírgula qualquer coisa, só em 2002 é que teve 6,94%.Ou seja, levou cerca de dez anos a subir 1%. Podemos também afirmar que em toda a década de 90 não fugiu aos 8 vírgula qualquer coisa. Partido mais constante que este não há. Por isso, com base nos resultados eleitorais não se pode tirar qualquer conclusão de vitória ou derrota do PCP, está sempre na mesma.

Já o mesmo não se pode dizer do Bloco, depois duma ascensão meteórica uma queda de igual valor: 2,74%, em 2002, 6,35%, em 2005, 9,82%, em 2009, e 5,19% em 2011. A derrota foi suficientemente pesada para que não se tenham que tirar rapidamente ilações.

A primeira é se alguma vez o Bloco parou para pensar e descobrir qual é o seu eleitorado. Tenho para mim que é muito diverso, fragmentado e que em alguns casos pode até chegar à direita, seduzida pelo seu discurso justiceiro. Ora numa situação destas é difícil contentar todos. Por isso, se virmos as análises que aqui e ali têm sido feitas ao Bloco as ilações são variadas. Para uns não foi suficientemente de esquerda, para outros é uma repetição do PCP, sem ter a solidez deste. Para estes, o Bloco abandonou a sua matriz inicial social-democratizante, transformando-se num puro partido de protesto.

Eu tenho para mim que o Bloco deve tentar perceber o eleitorado que vota nele, que é francamente diferente do dos seus militantes. Eu, que há muitos anos ando nisto, fui encontrar no Bloco muito dos velhos militantes da UDP com quem em tempos tinha traçado armas pelo PCP. Ora esta gente, que hoje reconheço é tão generosa e bem intencionada como os velhos militantes do PCP de quem eu ainda continuo a ser amigo, não é de certeza o votante típico do Bloco e por isso tem que haver uma apreciação crítica desta situação. Mas há mais, há os erros recentes. O primeiro foi o apoio, provavelmente já fora de horas, a Manuel Alegre. Este apoio não nos trouxe o PS de esquerda, nem alguma esquerda, que eu defini, em textos anteriores, como aquela que claudicou perante o PS, como afastou todos aqueles que não admitiam qualquer colaboração com o PS de Sócrates. Para mim, a derrocada de hoje, começou antes, com a derrota expressiva de Manuel Alegre. Este foi sem dúvida nenhuma um assunto mal resolvido. Mas, pior ainda foi a moção de censura. Não por ter sido apresentada, mas a forma atabalhoada e ziguezagueante como foi embrulhada. A ofensiva dos media e dos comentadores encartados contra o Bloco, passando por alguns militantes do mesmo, foi devastadora.

Depois, provavelmente, a não ida até à troika, trouxe o afastamento de muita gente que votava no Bloco, sensível também às críticas dos media.

O Bloco deixou criar a ideia que era um partido que não fazia parte de uma alternativa, mas um partido de protesto e para isso já tínhamos o PCP.

Estas são algumas causas políticas desta derrota, que eu diria anunciada, do Bloco de Esquerda e provavelmente de toda a estratégia ultimamente seguida por este. Porque tenho sido um defensor desta estratégia, em post posterior gostaria de fazer algumas considerações mais profundas e talvez uma auto-crítica em relação àquilo que tenho defendido. Até breve.

03/06/2011

António Costa defende o Bloco Central

Vi ontem, mais uma vez, a Quadratura do Círculo. A direita está impante, parece que já tem a vitória no papo. Pacheco Pereira espera que o PSD ganhe com uma maioria folgada e Lobo Xavier acredita que o CDS vá upa! upa! a crescer. Não se querem comprometer com números, mas a felicidade assoma-lhes ao rosto. Acreditam que destas eleições irá resultar um Governo PSD-CDS e já lhe fazem recomendações. Pacheco Pereira mais prosaico, afirma que o PSD tem que descer à realidade e abandonar o seu programa. Bem intencionado, diz ele, mas inaplicável. O liberalismo não se coaduna bem com a realidade portuguesa.

Que a direita esteja satisfeita, ou queira mostrar que está, é compreensível, mas o que é mais grave é a atitude de António Costa, que já aceita como inevitável, pelo menos da sua conversa transparece isso, a derrota do PS. E depois desfia o rosário das queixas do PS em relação ao PSD. Volta com o cenário da irresponsabilidade na abertura da crise e com toda a tralha que José Sócrates nos tem andado a vender desde o princípio da mesma. Mas daquilo que ele mais se queixa é dessa intolerância da direcção do PSD ao não compreender o papel central que o PS tem no estabelecimento de consensos na sociedade portuguesa e, por isso, sente uma enorme amargura por ter sido afastado liminarmente por Passos Coelho da constituição do próximo Governo. Como injusto é aquele líder, quando o PS se ganhasse estaria na disposição de se aliar ao PSD para formar Governo, e isto foi dito com todas as letras. A vitória do PS nas próximas eleições acarretaria uma proposta de aliança ao PSD para governarem em conjunto.

Depois de ouvir isto, que já era a doutrina oficial de Sócrates, mas não tão explícita, lembrei-me de tudo aquilo que António Costa tem dito e fomentado nos seus amigos e das posições de alguma esquerda, que eu considerei que claudicou, que aconselha o voto no PS para travar a deriva neo-liberal do PSD ou o sonho de Sá Carneiro, uma maioria, um Governo e um Presidente. No primeiro caso, lembrei-me do abaixo-assinado para uma maioria de esquerda para a Câmara de Lisboa, que foi apoiado por António Costa e desencadeado por um grupo significativo de homens de esquerda e que no final serviu para Helena Roseta voltar ao redil socialista, para António Costa ganhar a Câmara e depois fazer um acordo com o PSD para dividir administrativamente a cidade de Lisboa, com claro prejuízo de um dos partidos de esquerda. O segundo caso é os apelos de alguma esquerda, mesmo que dirigidos a toda ela, mas que no fundo desejam canalizar para o PS a votação da esquerda, porque só este partido terá condições de resistir aos males que se avizinham.

Não gostaria de terminar sem assinalar que uma das causas que Pacheco Pereira atribui à subida do PSD nas sondagens é que este, na recta final, virou as suas baterias contra Sócrates, transformando estas eleições num plebiscito a favor ou contra o Primeiro-ministro. Ora este problema tem sido um pouco subestimado pela esquerda, ao considerar que o problema não está na personagem primeiro-ministro, mas sim nas políticas por ele desenvolvidas. Sendo isto verdade, não podemos esquecer a própria figura de Sócrates, dos seus casos, das suas aldrabices e invenções. Sócrates é um homem perigoso, que arrastou o PS atrás de si e que, tirando os seus apoiantes fanáticos, concita um profundo ódio em grande parte da população portuguesa e isto não se pode esquecer.

Sei que esta recomendação já vem um pouco tarde, mas muitas vezes não se pode separar o homem das políticas que prossegue. E às vezes, por um excesso de abstracção ideológica, ficamo-nos só pela política e esquecemos dos seus executantes.

31/05/2011

Españistán, de la Burbuja Inmobiliaria a la Crisis (por Aleix Saló)



Enviaram-me este vídeo sobre a bolha imobiliária e a crise em Espanha. Achei  tão interessante e verdadeiro, que resolvi compartilhar esta animação de Aleix Saló convosco.

28/05/2011

Preferes a peste ou a guerra?

Por motivos vários, mas que na maioria dos casos têm a ver com a minha saúde, não tenho escrito nada no blog. Mesmo a série de três posts que iniciei no princípio do mês, ainda não foi acabada e, para ser verdadeiro, já não me lembro bem o que pretendia escrever no último. Portanto ficará como está.

O que hoje me trás aqui, e que no fundo anda sempre à volta do mesmo, são dois artigos, um de Daniel de Oliveira, Sócrates ou Passos? Passo  e outro de Rui Tavares, Duas catástrofes. Resumidamente, qualquer deles critica a dicotomia, hoje obrigatoriamente imposta pelos media, entre votar Sócrates ou Passos Coelho. Rui Tavares é mesmo muito claro, a vitória de Passos Coelho iria provocar a catástrofe económica e social, com Sócrates teríamos a política. Qualquer deles não é muito favorável à tese desenvolvida na esquerda da igualdade entre os dois. Rui Tavares refere-se mesmo a um tempo mítico do PS, que eu penso que nunca existiu.

Em tempos, eu próprio já tinha abordado esta triste dicotomia, afirmando que PSD e CDS eram os nossos inimigos principais e o PS, o inimigo secundário. Isto mereceu, na altura, algumas críticas de certa ortodoxia. No entanto, em qualquer dos casos, eu não deixava de considerar estes dois blocos, pertençamente alternativos, como inimigos. Considerava simplesmente que tinham objectivos diferentes e que não seria indiferente o Governo de um ou de outro.

Hoje, torna-se para mim cada vez mais claro, que a contradição fundamental dos nossos dias é entre quem assinou o acordo com a troika estrangeira, como lhe chama Jerónimo de Sousa, e quem não o fez e resiste às suas imposições. É evidente, que nesta eleições esta diferença não está devidamente realçada, nem pelos media, que não estão interessados nisso, nem pelos próprios, Bloco e PCP, em que cada um por seu lado concorre nas respectiva bicicleta. Espero que no futuro e perante as expectativas que ameaçam o povo português estas duas forças, agregando à sua volta todos aqueles que se opõem à troika estrangeira, consigam transformar-se num pólo alternativo, com força suficiente para mudar o rumo das coisas.

Não queria terminar sem, no entanto, especular um pouco sobre os cenários possíveis e desejáveis no pós-eleições. Sou defensor que o PSD ganhe por muito poucos e não consiga com o CDS estabelecer uma maioria absoluta. Que o PS perca, mas que haja uma maioria dita de esquerda na Assembleia da República. Nada disto é impossível de suceder. As sondagens permitem tornar verosímil este cenário.

Qual era a vantagem disto? Era tornar impossível a criação de um Governo de direita, mas por outro lado obrigar o PS a verdadeiramente se confrontar com a sua derrota e possivelmente substituir José Sócrates, o que seria um bem para todos, e a cair, para cabal esclarecimento da esquerda que claudicou (ver o meu post), nos braços do PSD, para fazerem o bloco central. - Já se sabe que eu não acredito nas palavras de Manuel Alegre que defende que o PS se perder deve passar à oposição -. Um Governo assim teria muito pouca estabilidade e permitiria a qualquer momento derrubá-lo.

Resta acrescentar que o meu maior desejo é que o Bloco mantenha os 16 deputados que tinha e que fizeram um bom trabalho e que por óbvias razões irei votar Bloco de Esquerda.

PS.: Imagem de Os quatro cavaleiros do Apocalipse, de Albrecht Dürer (1471-1528). Quadro de 1498. Os quatro cavaleiros são a peste, a fome, a guerra e a morte.

25/05/2011

Eduardo Galeano- A verdade sobre a globalização capitalista



Enviaram-me esta interessante intervenção de Eduardo Galeano, um grande escritor uruguaio, autor dessa importante obra, que Chavéz ofereceu a Obama, As veias abertas da América Latina (1971). Há uma tradução portuguesa nas Edições Dinossauro.
Gostava que as boas almas que estão sempre prontas a enviar frechadas a Hugo Chávez ouvissem com atenção o que este magnífico narrador nos conta dele e da Venezuela actual.

18/05/2011

Contra a ingerência da da UE/FMI - Outro rumo é possível




19 DE MAIO, MANIFESTAÇÕES EM LISBOA E PORTO - NÃO AO “ACORDO”

Amanhã, dia 19 de Maio, a partir das 14.30 horas, em Lisboa e no Porto, a CGTP-IN promove duas grandiosas manifestações contra o “acordo” entre a troika e o governo do PS, com o apoio dos partidos da direita, PSD e CDS-PP.

Contra a recessão e o aumento do desemprego, das injustiças e das desigualdades, contra os cortes nos salários e nas pensões e o aumento brutal do custo de vida, a CGTP-IN apela à participação de trabalhadores, desempregados e população portuguesa nas manifestações marcadas para o Porto (com concentrações marcadas às 14.30 horas para as Praças dos Leões e da Batalha) e em Lisboa (com concentração marcada às 15.00 horas para o Largo do Calvário).

Manuel Carvalho da Silva discursará por volta das 16.30 horas, em Belém, Lisboa e João Torres, por volta das 16.15 na Avenida dos Aliados, Porto.

11/05/2011

A ofensiva neo-liberal, a esquerda que claudicou, e os salvadores da Pátria - II

Neste post irei dedicar-me àquela esquerda, provavelmente exígua, mas com algum acesso aos meios de informação, que há muito clama por um Governo PS, Bloco e PCP. Esquecendo quem é que comanda o PS, porque acha que não se deve imiscuir no assuntos internos dos outros partidos, se é José Sócrates ou aquela a que se convencionou chamar a ala esquerda do PS, que em determinada altura teve em Manuel Alegre o seu porta-voz.

O percurso daquela esquerda é variado e as personagens que a constituem provêm de diferentes sensibilidades políticas, todas de esquerda evidentemente. Por isso, limitar-me-ia a escrever sobre os factos mais recentes, já que em outras ocasiões, lhes fiz a crítica devida.

Aquando da apresentação da moção de censura do Bloco, ao Governo do PS, esta esquerda não esteve parada. Prevenia os incautos contra os perigos de se derrubar um Governo de centro-esquerda para o substituir por um de centro-direita. André Freire, um dos ideólogos desta corrente, veio clamar mesmo pela formação de um novo partido já que o Bloco não correspondia àquilo que se esperava dele, ser um auxiliar precioso da governação socialista, no fundo, ser a muleta do PS.

Mas as palavras de Freire não caíram em saco roto, rapidamente um grupo de cidadãos, diria que são sempre os mesmos, reúne-se e eis que surge um novo Manifesto, denominado por uma Convergência e Alternativa. Submetem pois “à consideração do PCP, do BE, e do PS, dos respectivos responsáveis mas também dos seus eleitores” as considerações que acima explanaram, “com um único objectivo: através do diálogo e do debate alcançar uma convergência política que possa oferecer aos Portugueses uma forte alternativa de esquerda.” No meio destas piedosas intenções não se esquecem de atribuir culpas ao Bloco e ao PCP, por o PCP e o BE não terem “ousado avançar para as próximas eleições com uma grande coligação das esquerdas através da mobilização de activistas dos movimentos sociais e de personalidades diversas representativas de sectores progressistas da sociedade portuguesa”. Mas a seguir isentam o PS de qualquer culpa ao manifestar “que não basta denunciar a submissão da actual direcção do PS às políticas de austeridade exigidas pelos mercados financeiros e pela UE. Sobretudo, é preciso que as restantes esquerdas aceitem iniciar um processo de convergência tendo em vista produzir uma alternativa política suficientemente credível para que, no futuro e sob pressão do eleitorado, o PS reconheça que tem um interlocutor com quem pode fazer um acordo político para tirar o País da crise.”

Paralelamente, a Associação Política Renovação Comunista pronuncia-se sobre o momento político  actual afirmando a dada altura que “não é esta a altura de discutir as condutas na última legislatura, sobre as quais a História por certo fará um dia a sua avaliação. Não é altura de discutir as divergências e os cálculos que motivaram a queda do governo do Partido Socialista sem cuidar das condições ulteriores de reforço à esquerda da correlação de forças e precipitaram o pedido de intervenção do FMI”. Depois de passar uma esponja em branco sobre a Governação socialista, restam-lhe as piedosas intenções de esperar que “o Partido Socialista e o conjunto da esquerda, à luz da Constituição da República que a direita visa anular, honrem a sua natureza de forças construtoras de uma democracia política, económica e social ao lado das classes trabalhadoras e das classes intermédias.”

É que bom que se diga que grande parte dos subscritores do referido Manifesto pertencem igualmente à direcção da Renovação Comunista.

Que conclusões tirar das posições desta esquerda que, no seu afã, sempre louvável, de manter a unidade de esquerda, considera o PS no seu conjunto como um partido de esquerda e acha que é possível, neste momento, um entendimento com aquele partido, quando o programa de ajuda externa já foi aprovado por Sócrates e propagandeado por este como bom.

Hoje, compreende-se que o separar de águas é entre aqueles que se preparam para resistir à troika e aqueles que a aceitam de bom grado, afirmando que conseguiram negociar um bom programa. Nesse sentido, podemos dizer que aquela esquerda claudicou, apesar de manter uma linguagem crítica em relação àquilo que nos querem impor, pensa que é possível dormir com o inimigo, acreditando que se a esquerda, à esquerda do PS, fizesse um esforçozinho este viria às boas dialogar com ela. Quando o que está neste momento em causa é trazer todos aqueles que no PS ou fora dele estão interessados em formar um pólo alternativo à aceitação das imposições da troika.

Penso que este problema é a contradição principal dos dias hoje e que a proposta de um Governo de Esquerda, do Bloco, ou Patriótico e de Esquerda, do PCP, apesar de não serem para já, podem ser, se tiverem pernas para andar, uma alternativa no futuro, muito mais alargada, é certo, a esse centrão medíocre e liberalizador que todos à compita nos querem impor.

Quanto aos salvadores da Pátria ficará para post posterior, porque hoje já são  muitos os candidatos.

08/05/2011

A ofensiva neo-liberal, a esquerda que claudicou, e os salvadores da Pátria - I

Por razões várias, não tenho escrito nada. Quando penso postar qualquer coisa relativa à espuma dos dias eis que já passou tanto tempo, que aquilo que queria dizer perdeu toda a actualidade. Por isso escreverei sobre um assunto que nos irá ocupar durante longos e penosos anos.

Já deu para perceber que o “acordo” que Portugal subscreveu com a chamada troika é composto por duas partes, a primeira que visa transferir forçadamente dos nossos bolsos uma soma considerável de dinheiro para os bancos e os agiotas internacionais. É a parte do aumento dos impostos, do corte das pensões, da impossibilidade de deduzir despesas com a saúde e outras no IRS. É também o aumento da electricidade e dos transportes e, para não ser exaustivo, mais um conjunto de horrores que tornarão a nossa vida num inferno. A segunda parte, que delicia, os nossos políticos, desde o PS ao CDS, que consiste naquilo que eles há muito tempo chamam as reformas estruturais, mas que no fundo não passam da desregulamentação neo-liberal da nossa estrutura económica, acima de tudo da já frágil e débil regulamentação do trabalho, tornando-a mais flexível e permitindo aos patrões despedir por menor preço e à segurança social pagar menos, e durante menos tempo, o subsídio de desemprego. O que é que isto significa? Que o trabalhador amocha perante o patrão para não ir para a rua e aceite trabalhos degradados para não ficar completamente descalço, sem qualquer subsídio. É o reino do salve-se quem puder, em que os patrões terão a faca e queijo na mão.

Contra esta barbárie civilizacional os três partidos, daquilo que a imprensa dominante classifica do arco governamental, apressaram-se, à compita, a dizer que foram eles os responsáveis por tão ignóbil compromisso e que tinha sido devido à sua perseverança negocial que se tinha obtido um acordo tão “favorável”. Foi ver a triste figura de Sócrates a dizer o que o acordo não era e Catroga, nervoso e a suar por todos os lados, a garantir que o que de bom lá estava tinha sido da responsabilidade do PSD e dele. De seguida, o CSD assegura-nos o mesmo. Triste espectáculo.

Dito isto, o mais espantoso é que no conjunto de gente que é tocada por aqueles três partidos, principalmente no PS, não haja ninguém que se levante e diga que o rei vai nu, que o acordo é mau e que expresse a sua crítica às medidas propostas. O mais espantoso é que o aceitam. Acham que aqui e ali até nem se foi tão longe como eles desejavam, e que é gravoso para o povo português, mas era inevitável, porque se estava a viver, segundo dizem, acima das nossas possibilidades. Alguém viveu, que não fomos nós, os que dependemos diariamente do nosso trabalho.

Por tudo isto, o próximo governo será formado pelos três partidos que assinaram de cruz o acordo. Todos juntos ou aos pares, e as combinações possíveis são só mais três, lá estarão eles na disposição de garantirem que o acordo será aplicado.

Restam o Bloco e o PCP como resistentes. Cada um à sua maneira protestou, não falaram com a troika, e dispõem-se agora a lutarem contra as medidas propostas.

Aqui, direi eu, é que a porca torce o rabo. Por razões que têm a ver com idiossincrasias próprias, pelos eleitorados diferentes que tocam e no caso do Bloco pela franja ainda recente que abrange, tem-se a sensação, aumentada pelos media e comentadores, que não estão a conseguir aparecer como um frente unida contra estas medidas. É verdade que se está numa altura de conquistar votos, o que torna as coisas ainda mais difíceis. Mas parece claro que toda a esquerda, que está contra o acordo, todas as organizações sociais, neste caso os sindicatos, que se lhe opõem, não foram capazes de criar uma frente única contra esta situação. Antes do acordo proliferaram manifestos que hoje já ninguém recorda e em nada influenciaram o seu desfecho. Actualmente deveria haver uma frente única, com vozes de economistas, intelectuais e políticos que constituíssem a grande fronda que se opõe e luta contra o acordo. Ora nada disto está a suceder, na esquerda está cada um para seu lado, isto para já não falar daquela que claudicou e continua a sonhar, em condições completamente diferentes, com um governo de esquerda, PS, Bloco e PCP, tal Carmelinda Pereira, ressuscitada ao fim de trinta anos.

Mas isto fica para novo post.

30/04/2011

Contra as injustiças. Mudar de Políticas


Amanhã, desfile entre o Martim Moniz e a Alameda.

25/04/2011

Quando se usa a posição dominante nos media para criticar o partido a que se pertence

Vem isto a propósito da intervenção de Daniel de Oliveira no último Eixo do Mal.

Mas comecemos por aquilo que está relacionado com o post anterior, a tolerância de ponto. Também neste programa os comentadores residentes se atiraram como gato a bofe à tolerância de ponto concedida pelo Governo aos funcionários públicos. Pedro Marques Lopes chegou a afirmar que um sindicalista dos quadros técnicos tinha criticado essa decisão. Ora esse sindicalista é Bettencourt Picanço, da direcção do PSD. Era natural que tomasse essa posição, já que o seu partido fizera o mesmo. Depois chegou-se a sugerir que os outros sindicalistas tomassem igual posição e os dislates continuaram por aí fora. Tenho para mim que esta gente não percebe o que está em jogo.

Quando um funcionário entra para a administração pública tem um certo número de regalias e um certo número de deveres. Apesar de hoje as formas de contratação na função pública serem muito diferentes do que eram no meu tempo, sei que não existe nenhum contrato colectivo de trabalho entre os funcionários e o patrão-Estado, é a legislação que regularmente vai sendo produzida, com a consulta, muitas vezes formal, dos órgãos representativos dos trabalhadores, que rege as suas regalias e deveres. Por isso o Estado não pode ter para os funcionários público mais dias de descanso do que estabelece a legislação geral. Pelo contrário, um Contrato Colectivo de Trabalho, na parte que regula os dias de descanso dos trabalhadores, pode ter maior ou menor número do que aqueles que são estabelecidos por lei. E há ainda os contratos de empresa e as práticas das empresas. Sei que no sector bancário também é concedida a tarde de Quinta-feira Santa e igualmente a véspera de Natal. Ora bem, um funcionário público sabe que ao longo dos anos lhe têm sido concedidos esses dias. Não faz parte do seu contrato, porque não o têm, mas o normal é verificar-se, e este normal tem-se registado sempre. Como eu dizia a minha memória chegava aos anos 50.

Só ultimamente, com a demagogia que assola os Governos, as oposições e os media é que aquilo que era um facto de gestão corrente da administração pública, se transformou, num caso nacional que merece sempre os comentários sarcásticos dos media, e muitas vezes das oposições e desta vez até de uma funcionária do FMI.

Penso que sobre este assunto fui claro, apesar de não ser jurista.


Quanto ao título que encabeça o post só me limitaria, para não azedar as excelentes relações estabelecidas no grupo Manifesto, uma das associações políticas que compõem o Bloco de Esquerda, a dizer o seguinte. Parece-me que cada um dos comentadores tem a possibilidade de escolher os temas a tratar em cada programa. Daniel de Oliveira deve de certeza ter escolhido o tema a posição do Bloco perante a invasão da Líbia, num programa anterior, e agora este sobre a recusa do PCP e do Bloco em “negociar” com o a troika. Digo isto porque em qualquer deles foi unicamente o Daniel de Oliveira que falou, os outros comentaristas limitaram-se a “mandar as bocas” costumeiras, sem terem nada a acrescentar àquilo que Daniel de Oliveira disse. No primeiro caso até nem se estava a perceber a quem se referia Daniel de Oliveira e foi Pedro Marques Lopes que esclareceu que ele se referia ao Bloco de Esquerda.

No fundo foi o Daniel que escolheu os temas, o que não é simpático para o Bloco.

Acrescentaria só mais uma coisa, como o próprio Daniel de Oliveira disse, não se está neste momento a tratar de uma negociação, a troika só está a ouvir para formular uma política para Portugal. Daniel de Oliveira chegou mesmo a ridicularizar o PSD por pensar que estava a negociar. Mas no caso do Bloco e do PCP, mudou rapidamente de opinião e citou Lenine, quando este teria dito que até com o Diabo negociava para salvar a Revolução e de facto fê-lo, ao assinar com os alemães um tratado de paz que era quase a confissão de uma derrota nacional. Mas fê-lo e salvou a Revolução. Mas aqui, com diz Daniel de Oliveira, não se está a negociar, simplesmente a informar o inimigo das nossas posições. Parece-me desinteressante fazê-lo. Simplesmente acho que isto é discutível, ou seja, tudo se discute, mas só o devemos fazer quando há contraditório, estarmos a pô-lo em prática, sabendo que o nosso partido não tem as mesmas possibilidades de o concretizar, nem o acesso privilegiado aos media que o Daniel tem, não me parece justo. E mais não digo para não azedar as relações.

23/04/2011

Demagogia ordinária

Tenho estado doente e por isso não tenho escrito nada. No entanto, não resisti em postar sobre a demagogia ordinária que ataca os comentadores de serviço, os jornalistas à procura de louvores, o chefe do PSD em busca de mais votos e até uma portuguesa ao serviço do Império, que quer morigerar os hábitos dos indígenas locais, como nos gosta de tratar, com desprezo, Vasco Pulido Valente. Em que consiste a dita demagogia? Garantir que o país seria muito mais feliz se acabasse de vez com os feriados, mas acima de tudo com essas malfadadas tolerâncias de ponto que só servem para criar maus hábitos à tribo nacional (ainda segundo VPV), levando-a à preguiça e contagiando, por arrastamento, todos os bons trabalhadores do privado.

Esta história já é antiga. Todos os anos uma televisão mais atenta aos gostos do patrão indica, logo no início de um novo ano, em que dias calham os feriados, as pontes que se podem fazer e como isso contribui para a ruína do país. Já houve partidos que como mote para a campanha eleitoral propunham a redução do número de feriados. Parece-me que um deles foi o Partido Popular Monárquico, que de certeza queria acabar de vez com o 5 de Outubro.

Todos os anos, as centrais patronais vêm à carga com este tema. Cavaco Silva chegou a ter pronta legislação que colocava todos os feriados à segunda-feira. Parece que era o que se fazia no Reino Unido. O que permitia que o 25 de Abril se comemorasse a 24. Mas como a Igreja não achou bem – datas religiosas são para cumprir em dia certo – e Mário Soares, então Presidente da República, num acesso de lucidez, achou que o significado dos feriados não se devia modificar, lá foi por água abaixo o tal decreto-lei. O que não invalidou que Cavaco, num excesso de amor ao trabalho, não tenha anulado em 1993 a tal tolerância de ponto no dia de Carnaval, o que lhe valeu, como se sabe, uma considerável perda de popularidade.

Mas voltemos ao que estava em jogo nesta Páscoa. Há dezenas de anos, que, segundo o que a minha memória abarca poderá chegar aos anos 50, ainda em pleno fascismo, sempre houve tolerância de ponto na tarde de Quinta-feira Santa . Isto porque sendo eu filho de funcionários públicos e tendo toda a minha vida trabalhado na função pública, me recordo bem dos dias em que os meus pais estavam em casa e depois dos dias em que podia partir para umas mini-férias da Páscoa. Segundo, lembro-me igualemente de ouvir à minha mãe dizer que Salazar dava tolerância de ponto na tarde de quinta-feira, mas tinha suprimido o feriado de Sexta-feira Santa, pois achava, tal como hoje, que em dia de penitência não se podia permitir que os trabalhadores ficassem em casa a divertir-se. Parece-me que foi Marcelo Caetano que atribuiu o feriado de sexta-feira santa aos trabalhadores portugueses.

Nessa altura, tal como agora, havia tolerância de ponto em datas excepcionais, que o governo queria celebrar, como, por exemplo, a visita de Isabel II, de Inglaterra, e agora as visitas do Papa e na já referida tarde de Quinta-feira Santa e na véspera do Natal. Mais recentemente, penso que já depois do 25 de Abril, ficou à disposição dos governos darem tolerância de ponto no dia de Carnaval e com alguns Governos, mais perdulários, a atribuírem com critérios de 50%, mais do que um dia na época do Natal ou em algumas pontes. Este último caso que, com razão, gerou alguma controvérsia,  não tem sido ultimamente concedido, pelo menos com carácter oficial.

Mas voltemos à tolerância de ponto de quinta-feira. Como se sabe, não é só o Estado que a dá, os bancos fazem o mesmo, e são privados, e até o chefe da CIP, que criticou o Estado por o fazer, a deu aos seus funcionários, o que é normal em muitos serviços privados.

Normalmente também se compara esta generosidade do estado português para como indígena nacional com o que se passa nos outros países europeus, em que nós seríamos a cigarra e eles a formiga. Nos anos em que andei por Bruxelas habituei-me a ver de tudo, principalmente os funcionários da Comissão, que usufruíam de longe muito mas regalias que o indígena nacional.

Parece-me pois de grande demagogia, própria da época de terror neo-liberal que estamos a viver, querer acabar com a tolerância de ponto na quinta-feira, para nos porém a trabalharem mais essa tarde. A única justificação é amedrontar-nos tanto no presente, para que nos tornemos insensíveis às malfeitorias que aí vêm.

25 de Abril, sempre!


Defile do 25 de Abril do Marquês de Pombal para o Rossio, às 15 h

16/04/2011

A tropa fandanga que nos governa

Ouvi ontem, como e meu costume, a Quadratura do Círculo. Teve a vantagem de dar uma novidade e de ordenar um pouco melhor os meandros da crise política que envolveu o PEC IV.

Comecemos pelo princípio. Criou-se a narrativa de que José Sócrates tinha iniciado as discussões em Bruxelas sobre o PEC IV sem quase dizer nada a ninguém. Não falou na véspera, quando se discutia a moção de censura do Bloco na Assembleia da República. Parece que nessa noite tinha feito um curto telefonema a informar Passos Coelho do que iria suceder no dia seguinte em Bruxelas, mas não disse nada ao Presidente da República. Na sexta-feira, ao mesmo tempo que se apresentava o PEC IV em Bruxelas, Teixeira dos Santos dava uma conferência de imprensa em Lisboa. Segundo a narrativa que nos veio a ser contada pela maioria dos comentadores políticos, José Sócrates, ao ignorar os actores políticos, pretendia abrir uma crise política. Outros achavam que este comportamento tinha sido involuntário, que se devia só ao mau feitio do Primeiro-Ministro. O PS argumentava mesmo que tudo isto era uma questão de forma e que o principal era entabular negociações com os partidos. Houve mesmo artigos a garantirem que a democracia era uma questão formal e o comportamento do Primeiro-Ministro era grave. E entre estas duas interpretações estabeleceu-se uma guerra de palavras entre PSD e PS.

No fim-de-semana passado o Expresso trazia uma caixa em que dizia simplesmente que afinal não tinha havido só um telefonema de Sócrates para Coelho, mas sim uma reunião. Logo a seguir, entrevistando Passos Coelho, Judite de Sousa faz-lhe a pergunta directamente, ao que este responde que é verdade e lá perdemos um dia com os dois partidos, PS e PSD, a insultarem-se. O primeiro dizendo que afinal tinha havido reunião e o segundo a desvalorizar a importância dessa reunião e das informações aí prestadas.

Mas o que é que ontem foi confirmado no programa da SIC Notícias, que Miguel Relvas, do PSD, tinha na manhã da conferência de imprensa apoiado as medidas do PEC IV e Pacheco Pereira afirmou que tinha havido um SMS dirigido aos deputados do PSD para que não fizessem comentários até ao fim do dia da reunião em Bruxelas, para não a prejudicar. Depois também se confirmou que na noite de sexta-feira, Marco António, vice-presidente do PSD, teria dito numa reunião que ou Passos Coelho escolhia ter eleições no país ou tinha eleições no Partido, tendo o líder do PSD preferido eleições no país.

Conclusão desta história. Toda a narrativa que nos foi contada, de Sócrates na sombra a esgueirar-se para Bruxelas e não dizer nada a ninguém é uma mentira pegada. Afinal tinha ido falar com o outro parceiro com quem andou a dançar o tango.

Mas igualmente o que é espantoso é que, perante a mentira de Passos Coelho, dizendo que só tinha havido um telefonema sem importância, Sócrates não tivesse vindo desmentir a situação, deixando avolumar a crise. Só quando lhe foi útil é que resolveu esgrimir contra Coelho esse encontro. Estão pois bem um para o outro e o pior é que é o país está a sofrer. Por outro lado, isto mostra também como muitas vezes se escreve no ar e se inventam narrativas que se enquadram muito bem no discurso, mas que no fundo não correspondem à realidade.

Somos mesmo governados por uma tropa fandanga.

13/04/2011

Os problemas da unidade de esquerda: encontro Bloco-PCP. Resposta a uma politóloga.

Num post  anterior falei dos problemas da unidade da esquerda, gostaria neste de abordar a recente reunião entre Bloco e PCP. Sucede que entretanto apareceu no Público, de ontem, sobre o mesmo tema, um texto de Marina Costa Lobo (MCL), que assina como professora do ICS-UL, mas que muitas vezes é apresentada como politóloga, ou seja, como comentadora política.

Tenho para mim que esta nova classificação dos comentadores políticos em politólogos é uma mistificação. Pretende-se com isto dar um carácter científico e imparcial a quem pura e simplesmente, baseando-se nas suas opções ideológicas e partidárias, pretende influenciar os seus concidadãos. Os politólogos por serem profissionais do estudo da política estão melhor informados do que qualquer outro cidadão interessado na coisa pública, não deixam, no entanto, de reflectir as suas opções político-ideológicas.

Por isso, o artigozinho de MCL não é mais do que uma opinião de direita sobre as posições do Bloco e do PCP. Servir-me-ei delas, criticando-as, para falar daquele encontro.

Resume MCL a reunião a uma estratégia que visaria um pacto de não-agressão e um ataque concentrado ao PS. Os seus objectivos seriam eleitorais e motivados por razões ideológicas. A sua causa mais imediata seria o pedido de ajuda externa feito por Sócrates e também o abandono definitivo por parte do Bloco de um “posicionamento moderadamente pró-UE”.

Logo aqui gostaria de fazer alguns comentários. Tal como afirmei no post referido a estratégia unitária do Bloco tinha privilegiado até determinada altura uma aliança com a esquerda do PS e os independentes que, em certo momento, povoaram a candidatura de Alegre e que constituíram o MIC. Como se viu, Alegre foi derrotado nas últimas eleições, a esquerda do PS regressou ao aprisco partidário, restam, no entanto, muitos independentes desorientados, sem saber o que fazer e para os quais André Freire recomendou a formação de um novo partido, o Bloco tem que lhes dar uma nova perspectiva e essa será sem dúvida diferente. Por isso, secundando alguns apelos de gente de esquerda, achou por bem, na continuação de uma constante aproximação na Assembleia da República, fazer uma diligência de reunião junto do PCP. Se isto visa um pacto de não agressão? Ainda é cedo para sabermos, mas é um disparate dizer que pretende ser um ataque concentrado ao PS. Pretende ser uma resposta de esquerda às políticas que o PS e a direita estão a desencadear em Portugal. Neste aspecto, para lá da retórica comicieira do PS, estes dois partidos apresentam-se como possível fonte de alternativa e resistência contra as medidas do FMI e do Banco Central Europeu.

No entanto, esta reunião não foi de modo algum uma resposta ao pedido de ajuda externa de Portugal. Como se sabe na segunda-feira da semana passada Sócrates garantia que tudo faria para não ter cá o FMI, quarta-feira aceitou a sua ajuda, por pressão dos bancos, sexta-feira reúnem-se os dois partidos. Estará convencida MCL que entre quarta-feira, dia do pedido de ajuda, e sexta os dois partidos combinaram encontrar-se. Como é público, a notícia desta reunião é muito anterior ao pedido de ajuda. Isto é uma das mentirolas que povoam todo o artigo. A seguir vem outra como seja o abandono da posição moderada do Bloco pró-EU.

Quem esteja minimamente a par das posições do Bloco sabe que este tem uma posição pró-europeia, mas defende uma outra Europa. Por isso está filiado no Partido da Esquerda Europeu, que luta por uma Europa solidária e não por uma UE conservadora e neo-liberal. Esta posição alterou-se só na cabeça de MCL. Há outros partidos de esquerda, como o Partido Comunista Grego, que tem uma posição claramente contra a UE, por acharem que a luta política se desenvolve em cada um dos países e não no seu conjunto. Sem querer desvirtuar a posição do PCP parece-me que se assemelha, apesar de não ser igual, à do PCG.

Segundo MCL, o Bloco e o PCP “decidiram não se rivalizar para melhor susterem o impacto de um potencial voto útil à esquerda”. Depois faz comparações entre as eleições de 2002, em que ganhou Durão Barroso, com as que se vão realizar a 5 de Junho, garantindo que nas primeiras a soma dos partidos não ultrapassou os 10%, coisa que agora poderia suceder, dado as situações serem semelhantes. Verifica-se aqui uma clara manipulação de dados. Em 2002 o Bloco concorria pela primeira vez, a sua percentagem foi de 2,2%. Nada permite, mesmo as sondagens, garantir que uma situação destas se verifique. No entanto, temos que estar atentos à erosão do Bloco de Esquerda, fundamentalmente pela campanha descabelada contra este partido, de que este texto é já um exemplo.

MCL ressuscita igualmente os temas fracturantes que eram a marca de água do Bloco inicial. Não sei se ele cresceu à sombra disso, a verdade é que já na sua última campanha eleitoral, em que teve os melhores resultados de sempre, essa temática estava há muito secundarizada.

Depois enumera o conjunto de temas em que o Bloco e o PCP têm, segundo ela, posições ideológicas semelhantes. São descritas de seguida todas aquelas situações que os neo-liberais passam a vida a combater. Seriam contra a redução dos funcionários públicos (onde já ouvi isto) e as parcerias público-privadas. Por aquilo que eu sei, não são só o Bloco e o PCP que são contra, pelo menos em palavras, o CDS e o PSD também. Seriam igualmente, pasme-se, contra o saneamento das contas da saúde e a avaliação dos professores do ensino básico e secundário. Esta última medida também teve o apoio do CDS e do PSD. Se é nisto que as posições ideológicas do Bloco e do PCP são semelhantes, pobre politóloga que não enxerga mais nada do que a vulgata neo-liberal.

Depois aprofunda as diferenças em relação à Europa dizendo que o Bloco as abandonou, gostaria que apresentasse provas desta afirmação. Ela é pura e simplesmente gratuita.

A seguir ressuscita o PREC, de 1975. Lembrando aqueles que queriam uma democracia liberal e os que queriam enveredar por caminhos alternativos, esquerdizantes, alinhando com o Terceiro-Mundo a que o Bloco teria regressado. Onde é que isso já vai e quem agora ressuscita o tema só tem uma finalidade regressar ao velho atlantismo tão típico da direita portuguesa, sempre pronta a segregar aqueles que teriam veleidades de não concordar com a NATO.

Finalmente um conselho ao Bloco: ao alinhar com o PCP perderia as ambições governamentais e portanto assumir-se-ia simplesmente como um partido de protesto. Há quanto tempo esta gente vem dizendo isto.

Para terminar, que o texto vai longo, este encontro do Bloco com o PCP permite na actual situação juntar os únicos dois partidos que de facto se opõem consequentemente à entrada e ao esbulhamento de Portugal pelo FMI, pela Alemanha e acima de tudo pelas classes dominantes nacionais, que neste momento estão de braço dado com a intervenção estrangeira em Portugal. Belo tema para internacionalistas e patriotas: fica para outra vez.

12/04/2011

Em Abril, esperanças mil


O jantar em que se comemora o 25 de Abril. Para mais informações e lista da Comissão Promotora ver aqui