13/04/2011

Os problemas da unidade de esquerda: encontro Bloco-PCP. Resposta a uma politóloga.

Num post  anterior falei dos problemas da unidade da esquerda, gostaria neste de abordar a recente reunião entre Bloco e PCP. Sucede que entretanto apareceu no Público, de ontem, sobre o mesmo tema, um texto de Marina Costa Lobo (MCL), que assina como professora do ICS-UL, mas que muitas vezes é apresentada como politóloga, ou seja, como comentadora política.

Tenho para mim que esta nova classificação dos comentadores políticos em politólogos é uma mistificação. Pretende-se com isto dar um carácter científico e imparcial a quem pura e simplesmente, baseando-se nas suas opções ideológicas e partidárias, pretende influenciar os seus concidadãos. Os politólogos por serem profissionais do estudo da política estão melhor informados do que qualquer outro cidadão interessado na coisa pública, não deixam, no entanto, de reflectir as suas opções político-ideológicas.

Por isso, o artigozinho de MCL não é mais do que uma opinião de direita sobre as posições do Bloco e do PCP. Servir-me-ei delas, criticando-as, para falar daquele encontro.

Resume MCL a reunião a uma estratégia que visaria um pacto de não-agressão e um ataque concentrado ao PS. Os seus objectivos seriam eleitorais e motivados por razões ideológicas. A sua causa mais imediata seria o pedido de ajuda externa feito por Sócrates e também o abandono definitivo por parte do Bloco de um “posicionamento moderadamente pró-UE”.

Logo aqui gostaria de fazer alguns comentários. Tal como afirmei no post referido a estratégia unitária do Bloco tinha privilegiado até determinada altura uma aliança com a esquerda do PS e os independentes que, em certo momento, povoaram a candidatura de Alegre e que constituíram o MIC. Como se viu, Alegre foi derrotado nas últimas eleições, a esquerda do PS regressou ao aprisco partidário, restam, no entanto, muitos independentes desorientados, sem saber o que fazer e para os quais André Freire recomendou a formação de um novo partido, o Bloco tem que lhes dar uma nova perspectiva e essa será sem dúvida diferente. Por isso, secundando alguns apelos de gente de esquerda, achou por bem, na continuação de uma constante aproximação na Assembleia da República, fazer uma diligência de reunião junto do PCP. Se isto visa um pacto de não agressão? Ainda é cedo para sabermos, mas é um disparate dizer que pretende ser um ataque concentrado ao PS. Pretende ser uma resposta de esquerda às políticas que o PS e a direita estão a desencadear em Portugal. Neste aspecto, para lá da retórica comicieira do PS, estes dois partidos apresentam-se como possível fonte de alternativa e resistência contra as medidas do FMI e do Banco Central Europeu.

No entanto, esta reunião não foi de modo algum uma resposta ao pedido de ajuda externa de Portugal. Como se sabe na segunda-feira da semana passada Sócrates garantia que tudo faria para não ter cá o FMI, quarta-feira aceitou a sua ajuda, por pressão dos bancos, sexta-feira reúnem-se os dois partidos. Estará convencida MCL que entre quarta-feira, dia do pedido de ajuda, e sexta os dois partidos combinaram encontrar-se. Como é público, a notícia desta reunião é muito anterior ao pedido de ajuda. Isto é uma das mentirolas que povoam todo o artigo. A seguir vem outra como seja o abandono da posição moderada do Bloco pró-EU.

Quem esteja minimamente a par das posições do Bloco sabe que este tem uma posição pró-europeia, mas defende uma outra Europa. Por isso está filiado no Partido da Esquerda Europeu, que luta por uma Europa solidária e não por uma UE conservadora e neo-liberal. Esta posição alterou-se só na cabeça de MCL. Há outros partidos de esquerda, como o Partido Comunista Grego, que tem uma posição claramente contra a UE, por acharem que a luta política se desenvolve em cada um dos países e não no seu conjunto. Sem querer desvirtuar a posição do PCP parece-me que se assemelha, apesar de não ser igual, à do PCG.

Segundo MCL, o Bloco e o PCP “decidiram não se rivalizar para melhor susterem o impacto de um potencial voto útil à esquerda”. Depois faz comparações entre as eleições de 2002, em que ganhou Durão Barroso, com as que se vão realizar a 5 de Junho, garantindo que nas primeiras a soma dos partidos não ultrapassou os 10%, coisa que agora poderia suceder, dado as situações serem semelhantes. Verifica-se aqui uma clara manipulação de dados. Em 2002 o Bloco concorria pela primeira vez, a sua percentagem foi de 2,2%. Nada permite, mesmo as sondagens, garantir que uma situação destas se verifique. No entanto, temos que estar atentos à erosão do Bloco de Esquerda, fundamentalmente pela campanha descabelada contra este partido, de que este texto é já um exemplo.

MCL ressuscita igualmente os temas fracturantes que eram a marca de água do Bloco inicial. Não sei se ele cresceu à sombra disso, a verdade é que já na sua última campanha eleitoral, em que teve os melhores resultados de sempre, essa temática estava há muito secundarizada.

Depois enumera o conjunto de temas em que o Bloco e o PCP têm, segundo ela, posições ideológicas semelhantes. São descritas de seguida todas aquelas situações que os neo-liberais passam a vida a combater. Seriam contra a redução dos funcionários públicos (onde já ouvi isto) e as parcerias público-privadas. Por aquilo que eu sei, não são só o Bloco e o PCP que são contra, pelo menos em palavras, o CDS e o PSD também. Seriam igualmente, pasme-se, contra o saneamento das contas da saúde e a avaliação dos professores do ensino básico e secundário. Esta última medida também teve o apoio do CDS e do PSD. Se é nisto que as posições ideológicas do Bloco e do PCP são semelhantes, pobre politóloga que não enxerga mais nada do que a vulgata neo-liberal.

Depois aprofunda as diferenças em relação à Europa dizendo que o Bloco as abandonou, gostaria que apresentasse provas desta afirmação. Ela é pura e simplesmente gratuita.

A seguir ressuscita o PREC, de 1975. Lembrando aqueles que queriam uma democracia liberal e os que queriam enveredar por caminhos alternativos, esquerdizantes, alinhando com o Terceiro-Mundo a que o Bloco teria regressado. Onde é que isso já vai e quem agora ressuscita o tema só tem uma finalidade regressar ao velho atlantismo tão típico da direita portuguesa, sempre pronta a segregar aqueles que teriam veleidades de não concordar com a NATO.

Finalmente um conselho ao Bloco: ao alinhar com o PCP perderia as ambições governamentais e portanto assumir-se-ia simplesmente como um partido de protesto. Há quanto tempo esta gente vem dizendo isto.

Para terminar, que o texto vai longo, este encontro do Bloco com o PCP permite na actual situação juntar os únicos dois partidos que de facto se opõem consequentemente à entrada e ao esbulhamento de Portugal pelo FMI, pela Alemanha e acima de tudo pelas classes dominantes nacionais, que neste momento estão de braço dado com a intervenção estrangeira em Portugal. Belo tema para internacionalistas e patriotas: fica para outra vez.

12/04/2011

Em Abril, esperanças mil


O jantar em que se comemora o 25 de Abril. Para mais informações e lista da Comissão Promotora ver aqui

Ainda candidatura de Alegre e os problemas da unidade de esquerda

O meu amigo Brissos, da Essência da Pólvora desafiou-me, de acordo com uma promessa feita por mim, a justificar a escolha de Manuel Alegre para candidato de alguma esquerda.

Este assunto, diria, estava morto e enterrado se não fosse Alegre ter ressuscitado neste Congresso do PS. Parece que quando o Bloco apresentou a Moção de Censura também lhe fez algumas críticas. Espero que Alegre, porque não ganhou as eleições, e não foi por culpa do Bloco, mas sim dos seus amigos socialistas, que não votaram nele, não tente transformar aquele partido no bode expiatório do seu fracasso, que também foi o nosso?

Dito isto, tentemos justificar a escolha que na altura se fez e que considero acertada.

Tenho para mim que o Bloco de Esquerda é, na actual conjuntura, o único partido de esquerda que manifesta uma certa preocupação com a política de unidade. Ainda há bem pouco tempo, neste post, referi umas declarações de Alfredo Barroso afirmando que o PS não tinha uma política de unidade à sua esquerda. Quanto a mim o PCP também não a tinha, pode ser que agora isso se tenha alterado.

Por isso, depois das eleições presidenciais de 2006 e a seguir ao resultado de mais de um milhão de votos no Manuel Alegre, contra o candidato oficial do PS, o Bloco inicia uma aproximação àquele, de que resultou os encontros do Trindade e da Aula Magna. O primeiro foi grande um êxito, tanto mais que o Trindade era uma sala pequena e os milhares de pessoas que por lá apareceram não couberem, nem a metade delas. Já na Aula Magna, apesar de ser um sucesso, esta estava longe de estar cheia. No entanto, estes dois encontros não deixaram de ser um acontecimento político importante, o que levou o Manuel Alegre, naquele momento, a encarar a hipótese de formar um partido, permitindo assim que a ala esquerda do PS rompesse com o PS oficial. Tudo isto são dados objectivos, que não podem ser descartados, nem esquecidos.

Esta operação teve alguns contratempos. Manuel Alegre mostrou alguma indecisão na ruptura com o PS e o Bloco não a forçou, nem a acalentou. Teve algum receio do que é que poderia vir de uma cisão precipitada e que, provavelmente, não teria pernas para andar, a não ser levada às costas pelo Bloco.

Por este motivo, preferiu que Manuel Alegre optasse antes por aquilo que ele indiscutivelmente queria, que era ser candidato outra vez a Presidente da República. Foi isto de facto que veio a suceder. Já se sabe que Manuel Alegre não seria candidato unicamente do Bloco, teria que ser também do PS e aqui é que a porca torce o rabo. O tempo que mediou entre a decisão bloquista de insinuar que o apoiava para candidato a Presidente, na sua última Convenção, em 2009, a apresentação da sua candidatura, parece-me logo no início de 2010, com o apoio imediato do Bloco, o arrastamento da decisão do PS, já no Verão de 2010, a degradação do Governo de Sócrates e o agravamento da crise económica, permitiram que em Janeiro de 2011, quando tiveram lugar as eleições, já fosse bastante penoso o Bloco aparecer de mãos dadas, por interposta pessoa, o Manuel Alegre, com o PS de Sócrates.

Este facto foi tão difícil que nem os bloquistas estavam convencidos em votar Manuel Alegre, mas mesmo assim acho que cumpriram com escrúpulo os seus compromissos, nem o PS estava motivado para votar em Alegre. O que de facto sucedeu. Por outro lado, os eleitores de 2006, raivosos com o socratismo, fugiram desta vez do candidato, distribuindo os seus votos por Nobre, que cumpriu de facto a missão que Mário Soares lhe destinou, por Coelho, pela abstenção e pelos brancos e nulos. Esta é de facto a minha interpretação dos factos. Muita gente poderá estar em desacordo com isto.

No entanto, podemos dizer que o êxito do Bloco quer nas europeias, quer depois nas legislativas, que só foi ofuscado por ser ultrapassado pelo CDS, deveu-se em grande parte ao esforço unitário desenvolvido no Trindade e na Aula Magna.

A “esquerda grande” defendida por Louçã correspondia a esta aliança entre o Bloco, independentes e a ala esquerda do PS. Hoje percebe-se quão fraca é essa ala esquerda e como facilmente foi seduzida pelo canto de sereia do PS de Sócrates. Neste Congresso estavam lá todos, até o Ferro Rodrigues. Só não vi a Maria de Belém.

Esta não será uma história edificante, até porque não houve uma alteração de forças a favor da esquerda, que era o objectivo da vitória de Alegre. Mas só quem não mete as mãos na massa é que pode depois vir dizer que sempre previu o que iria acontecer.

PS.: Sobre este mesmo assunto já escrevi este post, no entanto todo o meu blog está cheio de referências aqui e acolá às actividades e posições de Manuel Alegre ao longo destes últimos anos.

11/04/2011

O moderno Frankenstein

Só me lembro de ouvir falar de Fernando Nobre pela primeira vez a propósito da invasão do Iraque pelos americanos e pelos seus amigos europeus. Fernando Nobre na altura, com alguma dignidade, opôs-se à invasão e deu a cara por isso. Tempos depois, a ATTAC de Sines convida-o para um debate sobre a guerra do Iraque, estive lá e tudo o que disse pareceu-me justo e acertado. Por isso, quando recentemente foi o mandatário nacional pelo Bloco de Esquerda para a lista às eleições europeias, não estranhei.

Mas não sabia, por culpa minha, da missa a metade. Fernando Nobre tinha sido apoiante de Durão Barroso, para primeiro-ministro – parece que depois ficou desiludido com o papel que este desempenhou na Cimeira das Lajes – e de António Capucho para a Câmara de Cascais. Pelo meio apoiou também um autarca do PS.

Quando se candidatou à Presidência da República e sabendo eu o frete que lhe tinham encomendado, de combater a candidatura de Manuel Alegre, fiquei profundamente desiludido. Mais fiquei quando ouvi o seu discurso de apresentação. Escrevi mesmo um post a denunciar alguma esquerda que se tinha deixado embalar pelas palavras do dito, exclusivamente por ódio sectário a Manuel Alegre.

Depois, na altura dos debates entre os candidatos a Presidente da República, fiz um outro post a que a propósito do debate entre Fernando Nobre e Francisco Lopes, considerei que uma das afirmações de Fernando Nobre era tão grave, que roçava perigosamente o fascismo. Esta classificação foi forte, mas o que Fernando Nobre disse não o era menos.

Pelos vistos, no momento de desespero e de desorientação em que muita gente de esquerda mergulhou, Nobre consegue uma votação menos má. Tornando-se por isso um candidato apetecível para qualquer um dos partidos do centrão. No entanto, nunca pensei que um candidato que tinha sido uma criação de Mário Soares, para entalar o seu “amigo” Manuel Alegre, se virasse contra o seu criador e fosse aceitar um lugar de destaque nas listas do PSD. Temos por isso um moderno Frankenstein, que foge ao destino que lhe tinham traçado.

Engana-se o PSD se pensa que, com este candidato, irá conquistar votos à esquerda. Cai na mesma ilusão do PS quando se convenceu que Vital Moreira, por ser ex-PCP, iria atrair votos daquela área política. Os portugueses não perdoam a quem os andou a enganar, provavelmente por isso, e por outras razões, não votaram em Manuel Alegre porque o opositor ao candidato oficial do PS nas anteriores eleições veio a ocupar a mesma posição de Mário Soares, transformando-se, malgré lui, no candidato do socratismo.

PS.: afinal soube hoje pela TV que também tinha pertencido à Comissão Política da última candidatura de Mário Soares à Presidência da República. (12/04/11) Num comentário a este post avisam-me que também tinha andado metido com a Causa Monárquica, facto que eu já sabia, mas de que não me lembrava. Estranha personagem, com um ego maior do que o mundo.

10/04/2011

As risadas alarves da bem-pensância nacional

Vi ontem à noite o Eixo do Mal, da SIC Notícias. O programa está cada vez mais a perder interesse. Comparado com o Governo Sombra, da TSF, no mesmo estilo, fica, de longe, muitos pontos abaixo.

Quando foi criado, no Governo de Santana Lopes, ainda tinha alguma graça, é certo que com outros intervenientes. Hoje limita-se, dado alinhamento ideológico de cada um dos participantes, a ser uma discussão política sem qualquer interesse. Porque pretende ter graça e não ser um programa de comentário político, mas ao mesmo tempo não é um programa humorístico porque é demasiado ideológico.

Ontem à noite, depois da discussão dos temas da vinda do FMI e do Congresso PS, com dois dos intervenientes em directo de lá, chegou à altura de falar do encontro entre o Bloco e o PCP. Parece que o primeiro comentário foi de Pedro Marques Lopes, que eu em tempos, para indignação de muita boa gente, já tinha considerado um boçal de direita. Hoje, conhecendo melhor a personagem, tenho para mim que ele se tem vindo a comedir desde a sua primeira intervenção no programa, no entanto, a sua pobreza argumentativa, de um neo-liberalismo de cartilha, deixa tão a desejar, que contribui para a indigência do programa.

Ontem lá lhe veio a veia boçal e começou a rir-se mal se falou do encontro dos dois partidos. Clara Ferreira Alves segue pelo mesmo caminho, e Luís Pedro Nunes continua. Bem tentou Daniel de Oliveira falar a sério sobre o tema. Mas nem ele estava muito convencido nem o riso alarve dos outros lhe permitiu formular qualquer ideia. E assim, a burguesia bem-pensante se descarta de uma reunião que não sendo muito conclusiva é pelo menos um passo importante para a unidade da esquerda e deve ser assinalada como uma realidade nova no panorama político português. Assim, isso se verifique.

09/04/2011

Um discurso alegre e um alegre Congresso

Alegre foi ao Congresso do PS e fez um discurso. Conforme o órgão de informação que ouvimos ou lemos, assim se realça mais a parte do discurso "sou um homem de esquerda que defende o diálogo à esquerda, mas quero dizer com toda a clareza o seguinte: não repitam o erro de 1975, não queiram dispensar os socialistas, porque não há soluções de esquerda sem o PS ou contra o PS”, ou então o ataque aos mercados financeiros, à influência neo-liberal na Europa ou a recusa de um Governo de bloco central, sublinhando as diferenças com o PSD (ver aqui e aqui).

Por outro lado, todos os comentadores são unânimes em afirmar que este é um Congresso que pretende captar o voto útil da esquerda. Mas de que modo. Sócrates explica: “os votos desperdiçados à nossa esquerda são votos que favorecem o caminho da direita para o poder”. “ A verdade é que só a concentração de votos no PS poderá travar a agenda liberal aventureira perigosa da direita pelos serviços públicos e pela recusa da protecção social do Estado”. Vitorino mais entusiasmado e servindo-se agora do discurso de Manuel Alegre, disse mesmo: «Esses eleitores (os de esquerda) terão que perguntar-se seriamente acerca do significado e do resultado de um voto em partidos que se mostram totalmente imprestáveis para a construção de uma solução de governo à esquerda, porque, como dizia Manuel Alegre, convençam-se de uma coisa: não há solução de Governo à esquerda sem o PS e muito menos contra o Partido Socialista». No entanto, lá vai dizendo, que admite a existência de consensos, de procurar «apoios alargados para lutarmos juntos contra a crise», mas diz que o importante é saber «quem está em melhores condições de liderar esse processo, de liderar essa procura de entendimentos alargados» (ver aqui).

Este discurso é simples, querem os votos da esquerda, à esquerda do PS, porque, afirmam, os partidos que os consubstanciam são “totalmente imprestáveis”, para depois fazerem consensos com a direita, já se sabe, se possível, em posição de força.

É espantoso que depois do apelo ao compromisso de 47 personalidades (Expresso de hoje), que de certeza não será de esquerda, a resposta que foi dada no Congresso é que todos estavam de acordo e que o PS tudo tinha feito para o conseguir, só gostaria de ser ele a dirigi-lo.

Por isso bem pode Manuel Alegre vir referir-se que é favorável ao diálogo à sua esquerda e que esta não pode ignorar o PS, que tudo está preparado para depois de terem os votozinhos dos eleitores da esquerda, fazerem os compromissos que entenderem com a sua direita.

Por isso, é uma ilusão que algum PS de esquerda alimenta que este partido, neste momento histórico que se está vivendo, quer travar qualquer diálogo à esquerda, querem é papar-nos o voto para fazerem depois a sua política de compromisso.

O combate vai ser difícil. Já percebemos que desta vez o PS pretende conquistar votos à esquerda. A inclusão de Ferro Rodrigues para cabeça de lista para Lisboa dá o tom. Mas já se fala em Manuel Alegre para Coimbra. Provavelmente ainda iremos ter muitas surpresas. Estejamos preparados para tudo.

06/04/2011

Curso de Político Gratuito



Apesar de ser um pouco reaccionário, porque nem todos os políticos são iguais, achei graça a este vídeo que me enviaram. Por isso quero compartilhá-lo com os meus leitores.

04/04/2011

Um jantar à esquerda

Na passada sexta-feira reuniram-se num restaurante da capital, por sinal num sítio cheio de significado histórico e arquitectónico, um grupo de participantes no blog Alegro Pianíssimo, que foi criado para apoiar a candidatura de Manuel Alegre a Presidente da República. Já vos tinha dado conhecimento deste blog e até transcrevi para aqui os textos que fui lá publicando.

Várias eram as famílias políticas dos presentes, e como era inevitável falou-se da esquerda e da sua unidade. Um dos participantes afirmou mesmo que “a esquerda é um ponto de partida e não um ponto de chegada”. Uma frase bonita a que eu queria dar mais conteúdo, provavelmente pela minha tendência para me ligar ao real.

1. Conto-vos uma história (já por mim aqui relatada) que se passou na véspera das comemorações populares de mais um 25 de Abril, manifestação organizada regularmente pela Associação 25 de Abril, com a participação de partidos e organizações de esquerda. Nesse ano, mais uma vez tentava-se redigir um comunicado comum, que pudesse agradar a todas as associações presentes. O PCP achava que o comunicado devia reflectir todos os atropelos que o Governo de José Sócrates estava na altura a provocar no país, e estávamos ainda no tempo das vacas gordas. O PS, como era natural, não concordava, nem o redactor da versão inicial do comunicado, o Eng. Aquilino Ribeiro Machado, estava de acordo com aquilo que considerava ser uma alteração total do seu texto. Eu, que representava nessa altura a Renovação Comunista no grupo, e porque estavam ainda muito presentes as propostas neo-liberais do Compromisso Portugal, tentei que o ponto comum entre todos fosse a defesa do Estado Social, em oposição à visão de direita que transparecia daquele grupo de reflexão. A princípio o PS não percebeu e levei por tabela algumas críticas. Depois, um pouco mais reflectido, acho que compreendeu as minhas intenções, mas nessa altura já era tarde e não houve comunicado comum nesse 25 de Abril. Tudo isto para dizer que havia um ponto comum que nos podia unir a todos naquele momento era a defesa do Estado Social.

Hoje, em tempo das vacas magras, essa defesa como tem sido feita pelo Governo de Sócrates conduz à sua completa desvirtuação. Mas já não é só a sua defesa e a maneira de a pôr em prática que pode provocar dificuldades na unidade da esquerda. Os aspectos económicos e financeiros complicaram-se de tal modo, que deram origem a propostas muito diferentes para a sua resolução. Nesse sentido, a unidade à esquerda está cada vez mais difícil.

O programa anti-neo-liberal, que pareceu nascer na Aula Magna e que juntou várias esquerdas, e que de certa forma está na base da candidatura de Manuel Alegre, foi rapidamente ultrapassado pela voragem da crise económica e financeira que atravessa o país. Daí a necessidade da esquerda apresentar planos alternativos para a sua resolução que ultrapassem os PEC, que os três partidos do “arco da governação” nos querem convencer que são o único modo de ultrapassar este estado de coisas.

2. Outro dos temas abordados neste jantar foi a necessidade do povo de esquerda obrigar as direcções dos partidos que lhes estão mais afins a executarem uma outra política, que force a unidade entre eles.

Sei que na história da esquerda isso já sucedeu. É muitas vezes relatado um episódio já muito distante, de 1934, em França, em que comunistas e socialistas, que marchavam em manifestações diferentes, convergiram para uma só, estando na origem daquilo que se veio a chamar a Frente Popular e a sua posterior vitória nas eleições de 1936. Mas esta coordenação de esforços resultou da ameaça directa do fascismo e dos acontecimentos por ele motivados a 6 de Fevereiro, em Paris (ver aqui). Já depois do 25 de Novembro de 1975, em Portugal, vários dirigentes do PCP falavam deste acontecimento e admitiam que as massas populares pudessem em certo momento forçar socialistas e comunistas a formarem um Governo. Foi nessa altura que apareceram cartazes do PCP a defenderem que nas eleições houvesse uma maioria de esquerda para a Assembleia da República. Na prática tal Governo nunca se concretizou, tal como agora.

Tenho para mim que sendo importante a pressão popular, têm que ser os partidos a ter uma política de unidade. Ainda não há muito tempo Alfredo Barroso, um homem da fundação do PS, num Expresso da Meia-Noite, achava, contra o escárnio das suas opositoras de direita, que o PS devia ter uma política de unidade para a sua esquerda. Pelo contrário, no último Congresso do PS o que se assistiu foi António Costa a insultar o Bloco de Esquerda, chamando-lhe “partido oportunista, que parasita a desgraça alheia” (ver aqui), dificultando qualquer unidade à sua esquerda.

Neste sentido vejo com bons olhos as propostas, ainda que muito tímidas, do Bloco e do PCP de puderem discutir um governo de esquerda para depois das eleições. É pelo menos, depois da campanha de Alegre, alguma coisa de concreto que aparece à esquerda.

3. Alguns homens de esquerda têm defendido que os partidos à esquerda do PS, devem apresentar a este algumas propostas de Governo ou até só de incidência parlamentar, que permitisse por um lado provar que afinal estão dispostos a assumir responsabilidades governativas, ao contrário da ideia dominante, papagueada pela direita e por algum PS, de que os partidos à sua esquerda não querem assumir essas responsabilidades, são só de protesto, e por outro obrigar o PS a aceitar ou a negar tal desiderato, ficando neste caso a responsabilidade do lado de quem não colabora. Este sonho, que cavalga a ideia de muita esquerda, e que parece que está na base da iniciativa política de formação de um novo partido, não compreende que o problema não está na assunção de responsabilidades governativas pela esquerda, à esquerda do PS, mas sim na definição de uma nova política de esquerda, que rompa com os tradicionais compromissos e compadrios com as exigências do grande patronato e que ideologicamente faça o mesmo em relação à ideologia neo-liberal dominante.

A opção não pode ser pois ou a esquerda, à esquerda do PS, é bem comportada e vai para o Governo, aceitando as regras do PS de José Sócrates e transforma-se assim num mero apêndice deste ou então, se não aceita estas condições, transforma-se numa organização de protesto, tribunícia, incapaz de apresentar uma ideia que seja exequível. A solução está em que o principal partido que se reivindica da esquerda, seja capaz de executar uma nova política que atraia todos os homens de esquerda ou então terá que compreender que poderão e deverão ser outros a fazê-lo. Não se pode pertencer ao “arco governamental” e andar a dançar o tango com a direita e depois vir reclamar que a esquerda não lhe dá apoio.

Estas parecem-me ser algumas reflexões que vos deixo sobre aquilo que constituiu o prato forte de um jantar à esquerda

Canto superior direito: fotografia ilustrando a junção das manifestações de socialistas e comunistas a 12 de Fevereiro de 1934, na Place de la Nation, em Paris

31/03/2011

O jogo das palavras

Sei que este meu post não irá facilitar a convergência da esquerda, à esquerda do PS, mas como lá diz o ditado popular, quem não sente não é filho de boa gente, achei por bem responder e acusar o toque relativamente a um post de Vítor Dias, sem destinatário certo, chamado As palavras e a sua contaminação - "Credível", dizem eles.

Diz Vítor Dias que quem utiliza como arremesso crítico contra o BE e o PCP o termo credível, por vezes acompanhado de exequível, sofre de um terrível desnorte ideológico e termina, sublinhando, "adjectivos como «credível» ou «exequível» estão absoluta e devastadoramente contaminados pela ideologia e pelas políticas dominantes e que, para elas, nada que as conteste, no todo ou em parte, jamais será «credível»."

Ora como no meu último post , referente à União das esquerdas e das suas dificuldades, utilizei um dos termos, a propósito de “programas exequíveis” do BE e do PCP, senti que o desnorte ideológico também me era dirigido.

Já agora gostaria de esclarecer o Vítor Dias que um programa exequível o era para as massas votantes e não para ser aceite pela ideologia dominante. Exequíveis eram também os oito pontos da Revolução Democrática e Nacional e não a conquista do socialismo já. Como é compreensível, quando um conjunto de forças se juntam, o seu programa será sempre o denominador comum entre elas e aquele que a dado momento é o objectivo possível da luta política e não o programa maioritário de cada uma delas. Isto é simples de perceber, tudo o mais são tretas que brotam de uma cabeça atacada de forte sectarismo partidário.

Como não sou de branduras, nem de grande compostura, quando penso que estão a a fazer de mim parvo espirro com força.

24/03/2011

A união da esquerda e as suas dificuldades

Publicou Ricardo Paes Mamede no blog Ladrões de Bicicletas um post, chamado Momento de verdade para a esquerda portuguesa, donde sublinharia estes dois parágrafos:

E a esquerda? PCP e BE estão mais uma vez encurralados. Num cenário em que a situação interna e os constrangimentos externos deixam pouco espaço de manobra, não têm conseguido fazer muito mais do que anunciar que vem aí o desastre. Podem até ter razão. Mas para a maioria das pessoas, inclusive muitos dos seus eleitores, serão vistos ou como parte do problema (contribuindo para a ingovernabilidade) ou, pelo menos, como não sendo parte de qualquer solução.

Mas PCP e BE poderiam dar um sinal diferente. Poderiam ter a iniciativa de se apresentar com uma plataforma comum, propondo ao PS um conjunto de condições mínimas para apoiar uma solução para a crise assente numa maioria de esquerda no Parlamento. Uma solução que mostrasse que existem outros caminhos possíveis, mesmo com todos os constrangimentos internos e externos.

A transcrição é longa, mas parece-me que é indispensável para se poder compreender o que vem a seguir. José Neves, logo de seguida, No Vias de Facto, não assina por baixo, mas gosta de ler. Victor Dias, no Tempo das Cerejas, dá-lhe uma corrida em forma, a que Paes Mamede responde educada e contidamente. Não é como eu, que atiro a matar. Nuno Ramos de Almeida, no Cinco Dias, recomenda vivamente a leitura dos dois posts de Paes Mamede, num texto que denomina Para um programa comum das esquerdas em copy lefte e a finalizar José Neves volta novamente ao tema em A esquerda em Portugal nas próximas eleições .

Feita esta descrição rápida da agitação que este tema motivou na blogosfera, é evidente que associado à queda de José Sócrates e à proximidade de eleições, passemos àquilo que me interessa comentar.

Em vivi muito traumaticamente um período da política portuguesa que vai desde o lançamento do Apelo à Convergência de Esquerda nas eleições para Lisboa (ver aquiaqui, aqui  e aqui), penso que faz agora dois anos, a um Compromisso à Esquerda – Apelo à estabilidade governativa (ver aqui), publicado logo a seguir às eleições legislativas de finais de Setembro de 2009. Qualquer dos dois apelos assentava no pressuposto de que o PS estaria disposto a fazer unidade à esquerda e que a sua a esquerda estaria disposta a se “amarrar” aos interesses do PS. Lamento, mas muito da argumentação na altura aduzida para fundamentar aqueles dois apelos era um pouco a mesma do post inicial de Paes Mamede A esquerda à esquerda do PS propunha qualquer coisa ao PS e se ele não aceitasse a responsabilidade era de quem não aceitava. Em qualquer dos casos, o PS deu resposta, com mais êxito em Lisboa, porque levou Helena Roseta consigo, ridícula, excepto para os convertidos, em relação ao Governo do país, ao convocar todo o mundo para S. Bento.

Em resposta a esta recusa da esquerda, neste caso o Bloco, de alinhar como o PS, publicou recentemente André Freire, no Público, um artigo chamado A moção, o passado e o futuro (sem link disponível) que propunha a criação de um novo partido que correspondesse àquilo que André Freire considerava que deveria ser a missão do Bloco, que, por palavras minhas, seria a muleta do PS. Francisco Louçã, no Esquerda.net, já lhe deu a resposta política devida.

Neste mesmo sentido, iniciaram-se movimentações para criar um novo partido, que parece já estarem em marcha, tendo em vista que, com mais um partenaire, se consegue finalmente unidade de todos. Já se sabe o que é que este novo partido pretende, sem o dizer, é dispor dos deputados que faltam ao PS para governar.

Por isso quando vi o artigo do Paes Mamede e a recomendação da sua leitura pelo José Neves, pensei que novamente uma loucura mansa estava a atacar a esquerda portuguesa.

Pela postura posterior do José Neves, na sua análise de como se deve comportar a esquerda, e no artigo do Ramos de Almeida já encontro matéria suficiente para concordar. Ou seja, parece-me claro que com o PS oficial, o de José Sócrates, que mais uma vez vai concorrer às eleições, é impossível qualquer acordo. Ele e o seu partido representam aquilo que mais negativo existe na política portuguesa, a de estarem a fazer o “mal”, a atacarem as classes mais desfavorecidas e os interesses de quem trabalha, convencidos que estão a fazer o “bem” e a tentarem convencer-nos disso. Nesse sentido qualquer aliança ou proposta de entendimento com este PS e José Sócrates deve ser combatida. Evita-se assim criar ilusões nas massas populares e a presunção num conjunto de eleitores de que, se falarmos todos uns com os outros, nos entendemos para bem da esquerda.

Mas o que propõe José Neves e Ramos de Almeida já me parece razoável que é a unidade ou a colaboração ou qualquer outra forma de enlace entre o Bloco e o PCP, com a adesão de independentes, de gente do MIC ou mesmo algum PS de esquerda que para aí esteja mais virado. Por isso acho que Vítor Dias não tem razão no seu último parágrafo quando diz e sublinha: as pré-campanhas as campanhas eleitorais, por natureza e definição, não são um território para negociações entre partidos por via da comunicação social, antes são, por excelência, o território central da exposição dos projectos e propostas de cada partido, do seu diálogo directo com os eleitores e do esforço tenaz, combativo e confiante para conquistar uma influência maior e criar uma diferente correlação de forças que influencie a evolução da vida política e das soluções políticas e governativas após as eleições.

Já se sabe, que ninguém estaria à espera que houvesse negociações através da comunicação social, mas lá que a esquerda, à esquerda do PS, tinha muito mais força se aparecesse unida e com projectos exequíveis, é um facto. Não votaram os dois partidos na Assembleia da República em conjunto os segundos pontos das suas Resoluções em que propunham uma alternativa aos ditames do PEC e não votou o PS com a direita contra esses mesmos pontos? Se isto foi possível, porque não nos esforçarmos para apresentar em conjunto ao eleitor qualquer alternativa viável em vez de cada um por si.

Parece-me que isso está ao alcance da esquerda.

Imagem da Frente Poular de 1936, em França, vendo-se León Blum, da SFIO (Secção Francesa da Internacional Socialista - Partido Socialista da época) e Maurice Thorez, do PCF (Partido Comunista Francês).

21/03/2011

A propósito dos bombardeamentos da Líbia



Enviaram-me este vídeo. Riam-se um bocado.

O Impasse Líbio resolvido pelo Imperialismo

Há um conjunto de boas almas que povoam a Internet e por vezes o comentário político nas televisões para quem o mundo é a preto e branco. Há os maus e os bons, a injustiça e a justiça, a democracia e a ditadura. Se Muamar Kadafi é mau, injusto e ditador então porque não saudarmos a votação do Conselho de Segurança das Nações Unidas e a consequente intervenção de franceses, americanos e ingleses, apoiados nas bases aéreas italianas, e por esse obscuro emirato do Qatar, que parece que vai enviar quatro aviões, para mostrar o empenho dos árabes na intervenção.

Estas boas almas nunca se interrogam o que é que está em causa em cada situação concreta, quais são as forças em presença, que jogos políticos envolvem. Nunca se questionam que posições devem tomar as forças progressistas neste e naquela situação. Ignoram por completo a história, os seus ensinamentos e o passado de outras situações com os mesmos intervenientes. Fazem proclamações bombásticas ou apelos desesperados. Reduzem tudo a estados de alma e transformam todas as situações em opções morais.

Eu sei que quem ler isto dirá: este está a defender o relativismo cultural ou então a real politike, aceitando tudo em nome dos interesses dos estados, dos governos, da esquerda ou da revolução. Não é nada disso, cada caso precisa de ser examinado em concreto e estudado. Só um conhecimento profundo da realidade nos permitirá agir sobre ela e tomar posições progressistas sobre a mesma.

Num post anterior, em que falava do Impasse Líbio, forneci-vos, para lerem, diversos sites onde havia posições contraditórias, mas não reaccionárias, sobre a realidade daquele país.

Pois hoje, depois dos ataques militares que a coligação desencadeou sobre a Líbia, recomendo àquelas boas almas, que desde logo começaram a tomar posições morais sobre o assunto, novas leituras e mais prudência. Ainda vão ter que ficar com o menino nos braços e não saberem o que fazer dele.

Para já, qual a moral do Sr. Sarkosy, um homem que vendeu aviões militares à Líbia de Kadafi, apoiou o regime ditatorial da Tunísia, parece que recebeu dinheiro para a sua campanha eleitoral do ditador líbio, para iniciar, com uma fúria repentina, os bombardeamentos na Líbia? É a este senhor que certas boas almas recorrem para impor a zona de exclusão aérea, coisa que ninguém sabe bem o que é, nem como se vai desenrolar essa interdição?

E as nossas boas almas, que conhecem o longo historial de intervenções imperialistas em toda a parte do mundo iniciadas pelos Estados Unidos, com a ajuda por vezes da Inglaterra, são capazes de acreditar numa palavra do que este país nos possa dizer sobre a sua "intervenção humanitária" na Líbia? É espantoso, depois de tudo o que se passou ao longo do século passado, com as intervenções dos americanos na América Latina, no extremo e médio oriente e na própria Europa (Sérvia e Kosovo) ainda acreditam candidamente nas palavras do imperialismo.

Porque razão se intervém na Líbia, dizendo que Kadafi quer assassinar o seu povo, e se esquece o que se está a passar no Iémen, onde hoje morreram mais 50 manifestantes assassinados pelo regime, ou no Bahrein, onde há uma clara intervenção de tropas da “democrática” Arábia Saudita?

É triste que estas boas almas se deixem apanhar nas suas simples dicotomias.

Junto indico mais um conjunto de sites onde podem obter mais informação sobre este tema: Aumenta o perigo de intervenção imperialista na Líbia  (02/03/11. Interessante introdução ao tema); Liga Árabe repudia ataque internacional à Líbia; Liga Árabe e Rússia pedem o fim da operação militar na Líbia; Os perigos da intervenção humanitária na Líbia, artigo de Robert Frisk (ver igualmente outros artigos do site brasileiro Carta Maior - O portal da esquerda); La intervención occidental en Libia y la represión en Bahrein. Por hoje fiquemos por aqui.

19/03/2011

Provocação ou incompetência?

Em tempos antigos, nos Governos de Mário Soares, Sá Carneiro ou Cavaco Silva, era normal o Telejornal, da RTP 1, estar ao serviço dos interesses destas personagens, que para isso nomeavam administrações obedientes e submissas. Era vulgar, e lembro-me bem disso, que uma greve da função pública fosse noticiada lá para o fim do Telejornal e fosse despachada, muitas vezes em termos provocatórios, em meia dúzia de segundos. Com o advento dos canais privados de televisão e devido às necessidades da concorrência, os telejornais, de um modo geral, passaram a noticiar as manifestações da CGTP ou as greves da função pública com mais objectividade e pormenor, apesar daqueles não deixarem de ser controlados pelo poder político.

Vem isto a propósito do modo como no Telejornal de hoje se noticiou a manifestação da CGTP, por mim anunciada no post anterior.

José Rodrigues do Santos (JRS), logo no início do Telejornal, depois das notícias dos primeiros ataques à Líbia, começa por dizer que funcionários do Sector Público concentraram-se em Lisboa num protesto nacional organizado pela CGTP. Grande mentira. Depois temos a reportagem do local para onde o sector público tinha sido convocado, dizendo que os 600 mil (onde sei onde foram arranjar este número) funcionários se fizeram representar por uns milhares. Pouca gente, porque ainda estávamos no início da concentração, digo eu, com a repórter a tentar apanhar o anedótico e a fazer comparação com a manifestação do dia 12, da geração à rasca e, terminando, dizendo que estas pessoas queriam protestar contra o Estado por este ser um mau patrão. No fundo, ainda descobríamos que aqueles manifestantes eram adeptos do Passos Coelho e queriam emagrecer o Estado. A finalizar, a repórter lá diz que estes trabalhadores se juntaram aos restantes manifestantes.

Corta e regressamos ao JRS, que seguir fala da manifestação do sector privado que teve início no Saldanha. O mesmo tipo de reportagem, mas termina com a repórter a afirmar que milhares de pessoas do sector público e privado se juntaram da Avenida da Liberdade. Finalmente lá temos só uma manifestação.

Quase no final do Telejornal, passado que foram cerca de quarenta minutos sobre as imagens iniciais, diz-se que Carvalho da Silva atacou o Plano de Austeridade, o Governo e também o PSD “na manifestação”. Aqui já nos perdemos e não sabemos a que manifestação se está a referir o JRS. Finalmente, é apresentado um pequeno excerto do discurso do dirigente da Intersindical, dizendo que ele tinha sido pronunciado na manifestação da CGTP. Esta reportagem é mais abrangente, pois são entrevistados os lideres do PCP e do Bloco e é mostrada a intervenção musical dos Homens da Luta. Imagens, não muitas, da Avenida cheia de gente.

Deste pequeno relato, ressaltam duas coisas ou um desejo deliberado de enganar os telespectadores, baralhando-o com duas manifestações que não existiam e depois, no final, quando as pessoas já estavam noutra, dar-se a verdadeira reportagem, ou então uma amostra da grande incompetência que vai por aquela casa. O jornalista que alinhou o noticiário não foi capaz de perceber que as duas primeiras reportagens se referiam ao início da concentração que, como sempre sucede, é em locais diferentes, consoante as áreas laborais, associativas ou partidárias dos manifestantes. O alinhamento no final do Telejornal da intervenção de Carvalho da Silva pode-se também justificar com a chegada tardia da reportagem para ser editada. Mas em qualquer dos casos revelando um desinteresse, que roça mesmo a provocação, que já só se justifica pelo fim de festa homens do PS na Televisão Pública.

17/03/2011

Contra o Desemprego, a Vida Cara e as Injustiças - Mudança de Políticas


Covém lembrar que dia 19, Sábado, há uma manifestação convocada pela CGTP.

16/03/2011

Será que ouvi bem?

Quando hoje, no meio da confusão política que de repente invadiu os noticiários das nossas TVs, ouvi alguém perguntar a Cavaco Silva o que pensava da crise política. Este, limitou-se a fazer a parte costumeira, respondendo que não estava ali para tratar deste assunto, mas a prestar uma homenagem aos mortos da guerra de África.

Depois ouvi parte do discurso e não queria acreditar. Não é que Cavaco instou os jovens a empenharem-se em “missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar”?

Cavaco dá assim como exemplo aos jovens de hoje aqueles que a contra gosto e obrigados foram combater os povos da colónias portuguesas, às ordens de um Governo ditatorial, que impôs uma política de submissão àqueles povos, que contra isso foram obrigados a lutar.

Já chegámos aqui? Cavaco Silva não pesará minimamente as palavras que diz? Ou então, o que vem confirmar as suas declarações à PIDE, ele foi para a guerra colonial com desprendimento e determinação para combater os “terroristas”. É este o triste presidente que temos.



PS. Permita-me o Victor Dias discordar de seu post sobre este mesmo assunto. É que a seguir à citação da frase de Cavaco, e afirmando que a critica, linka para um artigo que em tempos escreveu de resposta a outro do Pacheco Pereira sobre a deserção ou não da guerra colonial. A posição aí defendida, que eu também assumi, e que me parece bastante justa, nada tem a ver com esta citação de Cavaco, que propõe como modelo à actual juventude os jovens que foram obrigados a marchar para a guerra colonial.

08/03/2011

O Impasse Líbio

Há muitos anos, quando a escola era risonha e franca, considerava-se que o conjunto das forças  progressistas, que se opunham ao imperialismo, era constituído pelos países socialistas, pelos movimentos de libertação nacional e países que se tinham libertado do colonialismo e ainda pelos partidos comunistas e dos trabalhadores dos países capitalistas. Hoje toda esta realidade se modificou, já não existe o campo socialista, os movimentos de libertação venceram de um modo geral, mas deixaram-nos algumas abencerragens, como a Argélia ou Angola, e os países anti-imperialistas transformaram-se, como no caso da Líbia e de Angola, em amigos do imperialismo. Apoiámos em nome do anti-imperialismo ditadores inqualificáveis, de que Muamar Kadafi é uma exemplo. Posteriormente, a troco do petróleo ou de outra riqueza qualquer, passaram a ser tratados como amigos e o pior é que eles acreditaram que eram bem vistos no Ocidente.

Chegou a hora do ajuste das contas e o Ocidente capitalista prefere os seus, a convertidos de última hora. Por isso, tal como referia Fidel de Castro, que tanto escandalizou alguns comentadores mais angelicais, aqui temos Barak Obama e a NATO a prepararem-se para invadir a Líbia, com o apoio sempre reverente da União Europeia. Podem morrer milhares de habitantes na Costa do Marfim, onde um ditador se mantém depois de ter perdido as eleições e esmagar os protestos populares, simplesmente ali não há petróleo e já é trivial vermos pretos a morrerem.

Como se percebe não há da minha parte qualquer simpatia por Kadhafi e pelo seu sistema de governação. Simplesmente ninguém sabe quem são os seus reais opositores, que se manifestam com bandeiras do antigo reino da Líbia, que Kadafi transformou em República. Muita da linguagem dos insurrectos, que nos chega via televisão, assemelha-se aquela que noutras partes do mundo tem antecedido as intervenções americanas. Esta revolta deve muito a desinteligências tribais. Não sei se sabem, mas a parte que está em poder dos anti-Kadafi, corresponde à antiga Cirenaica e a que ficou com Kadahafi à chamada Tripolitânia, zonas que ao longo da história percorreram caminhos diferentes.

Vou vos fornecer um conjunto de sites onde podem ler versões de esquerda, mas manifestando opiniões diversas. Alguns referem-se à revolta no mundo árabe e outros em particular a Kadafi: Las raíces de las revueltas árabes y lo prematuro de las celebraciones (6/03/11); Do mundo árabe à América Latina  (27/02/11); Libia en el gran juego  (25/02/11); Las tribus contra el búnker (28/02/11); Libia: Medios occidentales estarían mintiendo para legitimar una intervención extranjera (1/02/11); Esquizofrenia líbia  (2/03/11); EUA têm plano secreto para armar os rebeldes líbios  (7/03/11).

Para terminar, só referir-me, com grande gozo, que  Pacheco Pereira garantia que a narrativa dos media não reproduzia correctamente o que se estava a passar a propósito da revolta árabe na Tunísia e no Egipto (já referi isso aqui). E eu pergunto-lhe, se presentemente, depois de ouvir todos os media, e numa situação tão fluida como aquela que se vive na Líbia, acha correcto a posição catastrofista dos meios de informação dominantes? Para mim toda esta situação faz-me lembrar o que se dizia da revolta na Roménia, antes da queda e fuzilamento de Nicolae Ceausescu, em que se falava de milhares de mortos que depois se verificou não existirem.

Lamentavelmente acho que o caso da Líbia não vai acabar bem, terminará provavelmente com uma intervenção ocidental ou, como dizia o ministro italiano das relações exteriores, logo no início da contenda, com a criação na Cirenaica “do nascimento de um emirado islâmico da Líbia oriental”, que quanto a mim se poderá estender a toda a Líbia.

07/03/2011

Festival da Canção 2011 - Homens da Luta - reacção inesperada



Hoje vi este vídeo no Facebook, introduzido pelo Miguel Cardina. Não resisti.

06/03/2011

"Luta é Alegria" dos Homens da Luta



Pelo menos é diferente!

Um economista transvertido de historiador

Conhecia o Sr. Campos e Cunha como um economista que tinha sido convidado por Sócrates para ser ministro da economia. Tantas asneiras disse que foi corrido por incompetência. Despeitado, passou a dizer mal dos Governos de Sócrates. Mas mesmo assim a sua critica incidia na área que lhe era específica.

Não é que este senhor, por ter lido este Natal dois livros de história, resolveu tornar-se historiador e escrever um artigo para o Público (sem link), denominado Salazar, que abarca quase três quartos da história do Século XX português?

O primeiro livro que leu refere-se à Primeira República e é de António José Telo. Não li o livro, mas a ser verdade o que diz Campos e Cunha dele - “chamar  à  I República  democracia e o  reino da liberdade é uma visão falsa. E Telo não teve medo de o mostrar” -, estamos perante a continuação da teoria reaccionária de Rui Ramos, o “camelot du roi à portuguesa”, como eu lhe chamei, e que, pelos vistos, tem feito escola. Já se sabe que a I República não foi feita por meninos do couro, reprimiu, e por vezes selvaticamente, a classe operária. Simplesmente para estes senhores, e não sei se é o caso de António José Telo, a I República foi menos democrática e liberal do que a monarquia constitucional e muitas vezes reprimiu e restringiu as liberdades mais do que o fascismo, que seria portanto um santinho, comparado com as maldades da República (ver os meus textos sobre este assunto aqui  e aqui).

Quanto ao segundo livro é a biografia de Salazar, de Filipe Ribeiro de Menezes, que pelos vistos foi lida em estado de candura, tanto à direita como à esquerda. Clara Ferreira Alves, no Eixo do Mal, acha que é uma sólida biografia ao estilo anglo-saxónico. Foi preciso Manuel Loff (Le Monde Diplomatique, Edição Portuguesa, nº 52, Fevereiro de 2011) vir referir algumas das barbaridades que lá se escreveram, para se compreender o verdadeiro significado da obra.

O que é mais espantoso é que Campos e Cunha, que não é nenhum jovenzito, nascido depois do 25 de Abril, precise de ter lido este livro para compreender alguma coisa sobre a história do salazarismo. A principal é que conclui que Salazar era um homem acossado. Acossados eram os seus opositores, principalmente os comunistas, que viviam na mais negra não existência, a clandestinidade, para poderem sobreviver e lutar contra o regime. Mas isso é coisa que não preocupa muito este senhor.

Mas investiguemos porque é que Campos e Cunha afirma que Salazar é um homem acossado?

É que Salazar não participou no golpe do 28 de Maio e teve que chegar a pulso onde chegou: a Presidente do Conselho e ao poder que deteve. Aqui é esquecer toda a história dessa época. Não tomar em consideração que Salazar foi o congregador de toda a direita reaccionária, católica e monarquista, que quando tomou posse como ministro das finanças, disse claramente que sabia o que queria e para onde ia. Que essa mesma direita, depois dos fracassos dos primeiros-ministros militares, encontrou nele o chefe de que necessitava. Não foi por ser acossado pela direita que ele se tornou ditador, foi posto lá por ela porque representava o seu denominador comum, o seu chefe carismático. Isto está estudado, e bem estudado, aparecer agora a escrever-se o contrário parece-me não passar de revisionismo histórico.

Mas o mais espantoso é a frase seguinte “acossado pelas influências revolucionárias da República Espanhola” e logo a seguir acossado com receio da anexação de Portugal pela Espanha de Franco.

Aqui então dá-se a inversão completa da história. Não foi Salazar que foi acossado mas sim a nascente República, pois foi Salazar que conspirou contra ela. Foi de Portugal que partiu o General Sanjurjo que iria comandar a sublevação e que depois morreu num desastre aéreo, quando se dirigia para Espanha. Foi com o apoio explícito de Portugal e do Governo português que aviões alemães e italianos conseguiram trazer Franco do Norte de África para Espanha e foi também com a nossa colaboração que as tropas sediciosas puderam passar da Andaluzia, através da Estremadura, para chegarem a Madrid e depois ao longo da guerra o apoio explícito em homens e material ao Governo insurrecto de Burgos.

Deixemos a história da Segunda Mundial, a possível invasão de Espanha, mas também o papel desempenhado por Salazar ao serviço de Sua Majestade para conseguir a neutralidade espanhola.

Mas depois toda a história pós-II Guerra Mundial é também a de um homem acossado. Acossado pela campanha de Norton de Matos e de Humberto Delgado e depois pela guerra de África e afirma Campos e Cunha: “Acossado até ao fim, em 1968”. Espantosa interpretação desta nossa história contemporânea que Campos e Cunha de certeza também viveu. Salazar é que estava acossado, mas Humberto Delgado é que foi assassinado às suas ordens em Espanha. Se não fosse ridículo, diria que era triste.

Por fim vem a velha discussão se Salazar era fascista e se o regime o seria? Já se sabe que para Campos e Cunha isso não se verifica. A discussão é antiga e não vou mais uma vez voltar a ela. Remeteria, se o Victor Dias não se importasse, para um post que ele fez e para os textos aí citados.

Para terminar, a mesma questão já por mim levantada no início, que é a comparação entre a repressão na Primeira República e no fascismo, que segundo Campos e Cunha, “Salazar não se compara mal”. Estamos mais uma vez no reino da historiografia de inspiração em Rui Ramos, que mais não passa do revisionismo em história, semelhante ao esforço que certos historiadores alemães têm feito para negar o Holocausto. Campos e Cunha, com a sua enorme ignorância, junta-se ao grupo.

PS. fotografia roubada ao já citado post de Vitor Dias.

23/02/2011

Duas formas de cepticismos a propósito da revolta árabe – II

Ainda não sei como se vai resolver a situação na Líbia, tenho para mim que ela é bem mais complexa do que a que teve lugar na Tunísia e no Egipto. Mas deixo para depois a sua análise. Declarando desde já que não tenho qualquer simpatia pelo Sr. Kadafi.

Nos dois posts que já escrevi (ver aqui e aqui) a que chamei primeiro revolução e hoje, mais de acordo com uma sugestão do Pacheco Pereira, chamo revolta árabe, transparece um certo cepticismo em relação ao que irá acontecer no futuro: se nos dois países, Tunísia e Egipto, serão as forças progressistas, democráticas e de esquerda que levarão a melhor.
Nesse sentido, gostaria hoje de manifestar a minha crítica a duas ideias dominantes que percorrem a blogosfera de esquerda, que ficaram fascinadas pelas movimentações de massas naqueles países. Facto que eu também saúdo, mas com todas as precauções e avisos que já referi.

A primeira é a comparação entre a revolta árabe e a queda do “socialismo real”, no Leste da Europa, já que na Rússia a situação foi um pouco diferente. Tenta-se comparar o que se passou no Leste europeu – as movimentações populares, o desmoronar dos regimes e a alegria posterior das massas – com o que se passou na Tunísia e no Egipto, e com o que hoje se está a passar, com maior ou menor intensidade, em grande número de países árabes.
Tenho para mim que a queda do “socialismo real” resultou de facto da acção popular, do descontentamento que lavrava naqueles países, da impossibilidade da “nomenclatura” manter por mais tempo uma ficção em que já não acreditava e do desejo da direcção soviética de deixar de controlar aqueles povos. Mas estes acontecimentos não originaram uma saída progressista e de esquerda. Admito que desembocaram numa democracia de tipo ocidental, mas tal como no Ocidente, e sem as mesmas defesas de que dispõe a classe operária desta área geográfica, as disparidades sociais aumentaram, a corrupção também, as minorias étnicas têm tido problemas graves (veja-se o que sucede nos países Bálticos com a minoria russa), a perseguição aos antigos membros e aos partidos comunistas é uma realidade e até, como no caso da Hungria, a supressão da liberdade de informação. Posto isto, acho estranho que alguém de esquerda ache que as duas alterações que se verificaram são do mesmo sinal. Em sociedades tão desiguais como são as árabes, sem uma intervenção forte dos sindicatos, se o caminho a seguir for o da Europa de Leste facilmente se instalará um capitalismo selvagem, ultraliberal, tal como se instalou nesses países. Este é portanto o meu primeiro cepticismo.

O segundo tem a ver com a alegria existente também em alguns blogs e parece que transparece de um artigo que vem no Público, do seu enviado ao Cairo, Paulo Moura, que glorificam a espontaneidade das massas, libertas das burocracias sindicais e políticas. Como se percebe, estou-me a referir aos sindicatos e aos partidos de esquerda que para certos revolucionários não passam de burocratas, sempre prontas a refrear a espontaneidade das massas. Tenho para mim que a ausência de sindicatos e partidos de esquerda fortes são indispensáveis para que seja possível haver uma saída progressista, democrática e de esquerda para a crise que aqueles países atravessam. Se as massas não tiverem palavras de ordem que as conduzam nesse sentido, facilmente os Irmãos Muçulmanos as poderão arregimentar. No entanto, já li artigos  em que as principais acções que se verificaram no Egipto não foram as que tiveram lugar na Praça Tahrir, mas sim as greves que se realizaram em diversos locais daquele país.

Em próxima oportunidade voltarei a este assunto, que pelos vistos vai, nos próximos tempos, ser inesgotável.