07/03/2011

Festival da Canção 2011 - Homens da Luta - reacção inesperada



Hoje vi este vídeo no Facebook, introduzido pelo Miguel Cardina. Não resisti.

06/03/2011

"Luta é Alegria" dos Homens da Luta



Pelo menos é diferente!

Um economista transvertido de historiador

Conhecia o Sr. Campos e Cunha como um economista que tinha sido convidado por Sócrates para ser ministro da economia. Tantas asneiras disse que foi corrido por incompetência. Despeitado, passou a dizer mal dos Governos de Sócrates. Mas mesmo assim a sua critica incidia na área que lhe era específica.

Não é que este senhor, por ter lido este Natal dois livros de história, resolveu tornar-se historiador e escrever um artigo para o Público (sem link), denominado Salazar, que abarca quase três quartos da história do Século XX português?

O primeiro livro que leu refere-se à Primeira República e é de António José Telo. Não li o livro, mas a ser verdade o que diz Campos e Cunha dele - “chamar  à  I República  democracia e o  reino da liberdade é uma visão falsa. E Telo não teve medo de o mostrar” -, estamos perante a continuação da teoria reaccionária de Rui Ramos, o “camelot du roi à portuguesa”, como eu lhe chamei, e que, pelos vistos, tem feito escola. Já se sabe que a I República não foi feita por meninos do couro, reprimiu, e por vezes selvaticamente, a classe operária. Simplesmente para estes senhores, e não sei se é o caso de António José Telo, a I República foi menos democrática e liberal do que a monarquia constitucional e muitas vezes reprimiu e restringiu as liberdades mais do que o fascismo, que seria portanto um santinho, comparado com as maldades da República (ver os meus textos sobre este assunto aqui  e aqui).

Quanto ao segundo livro é a biografia de Salazar, de Filipe Ribeiro de Menezes, que pelos vistos foi lida em estado de candura, tanto à direita como à esquerda. Clara Ferreira Alves, no Eixo do Mal, acha que é uma sólida biografia ao estilo anglo-saxónico. Foi preciso Manuel Loff (Le Monde Diplomatique, Edição Portuguesa, nº 52, Fevereiro de 2011) vir referir algumas das barbaridades que lá se escreveram, para se compreender o verdadeiro significado da obra.

O que é mais espantoso é que Campos e Cunha, que não é nenhum jovenzito, nascido depois do 25 de Abril, precise de ter lido este livro para compreender alguma coisa sobre a história do salazarismo. A principal é que conclui que Salazar era um homem acossado. Acossados eram os seus opositores, principalmente os comunistas, que viviam na mais negra não existência, a clandestinidade, para poderem sobreviver e lutar contra o regime. Mas isso é coisa que não preocupa muito este senhor.

Mas investiguemos porque é que Campos e Cunha afirma que Salazar é um homem acossado?

É que Salazar não participou no golpe do 28 de Maio e teve que chegar a pulso onde chegou: a Presidente do Conselho e ao poder que deteve. Aqui é esquecer toda a história dessa época. Não tomar em consideração que Salazar foi o congregador de toda a direita reaccionária, católica e monarquista, que quando tomou posse como ministro das finanças, disse claramente que sabia o que queria e para onde ia. Que essa mesma direita, depois dos fracassos dos primeiros-ministros militares, encontrou nele o chefe de que necessitava. Não foi por ser acossado pela direita que ele se tornou ditador, foi posto lá por ela porque representava o seu denominador comum, o seu chefe carismático. Isto está estudado, e bem estudado, aparecer agora a escrever-se o contrário parece-me não passar de revisionismo histórico.

Mas o mais espantoso é a frase seguinte “acossado pelas influências revolucionárias da República Espanhola” e logo a seguir acossado com receio da anexação de Portugal pela Espanha de Franco.

Aqui então dá-se a inversão completa da história. Não foi Salazar que foi acossado mas sim a nascente República, pois foi Salazar que conspirou contra ela. Foi de Portugal que partiu o General Sanjurjo que iria comandar a sublevação e que depois morreu num desastre aéreo, quando se dirigia para Espanha. Foi com o apoio explícito de Portugal e do Governo português que aviões alemães e italianos conseguiram trazer Franco do Norte de África para Espanha e foi também com a nossa colaboração que as tropas sediciosas puderam passar da Andaluzia, através da Estremadura, para chegarem a Madrid e depois ao longo da guerra o apoio explícito em homens e material ao Governo insurrecto de Burgos.

Deixemos a história da Segunda Mundial, a possível invasão de Espanha, mas também o papel desempenhado por Salazar ao serviço de Sua Majestade para conseguir a neutralidade espanhola.

Mas depois toda a história pós-II Guerra Mundial é também a de um homem acossado. Acossado pela campanha de Norton de Matos e de Humberto Delgado e depois pela guerra de África e afirma Campos e Cunha: “Acossado até ao fim, em 1968”. Espantosa interpretação desta nossa história contemporânea que Campos e Cunha de certeza também viveu. Salazar é que estava acossado, mas Humberto Delgado é que foi assassinado às suas ordens em Espanha. Se não fosse ridículo, diria que era triste.

Por fim vem a velha discussão se Salazar era fascista e se o regime o seria? Já se sabe que para Campos e Cunha isso não se verifica. A discussão é antiga e não vou mais uma vez voltar a ela. Remeteria, se o Victor Dias não se importasse, para um post que ele fez e para os textos aí citados.

Para terminar, a mesma questão já por mim levantada no início, que é a comparação entre a repressão na Primeira República e no fascismo, que segundo Campos e Cunha, “Salazar não se compara mal”. Estamos mais uma vez no reino da historiografia de inspiração em Rui Ramos, que mais não passa do revisionismo em história, semelhante ao esforço que certos historiadores alemães têm feito para negar o Holocausto. Campos e Cunha, com a sua enorme ignorância, junta-se ao grupo.

PS. fotografia roubada ao já citado post de Vitor Dias.

23/02/2011

Duas formas de cepticismos a propósito da revolta árabe – II

Ainda não sei como se vai resolver a situação na Líbia, tenho para mim que ela é bem mais complexa do que a que teve lugar na Tunísia e no Egipto. Mas deixo para depois a sua análise. Declarando desde já que não tenho qualquer simpatia pelo Sr. Kadafi.

Nos dois posts que já escrevi (ver aqui e aqui) a que chamei primeiro revolução e hoje, mais de acordo com uma sugestão do Pacheco Pereira, chamo revolta árabe, transparece um certo cepticismo em relação ao que irá acontecer no futuro: se nos dois países, Tunísia e Egipto, serão as forças progressistas, democráticas e de esquerda que levarão a melhor.
Nesse sentido, gostaria hoje de manifestar a minha crítica a duas ideias dominantes que percorrem a blogosfera de esquerda, que ficaram fascinadas pelas movimentações de massas naqueles países. Facto que eu também saúdo, mas com todas as precauções e avisos que já referi.

A primeira é a comparação entre a revolta árabe e a queda do “socialismo real”, no Leste da Europa, já que na Rússia a situação foi um pouco diferente. Tenta-se comparar o que se passou no Leste europeu – as movimentações populares, o desmoronar dos regimes e a alegria posterior das massas – com o que se passou na Tunísia e no Egipto, e com o que hoje se está a passar, com maior ou menor intensidade, em grande número de países árabes.
Tenho para mim que a queda do “socialismo real” resultou de facto da acção popular, do descontentamento que lavrava naqueles países, da impossibilidade da “nomenclatura” manter por mais tempo uma ficção em que já não acreditava e do desejo da direcção soviética de deixar de controlar aqueles povos. Mas estes acontecimentos não originaram uma saída progressista e de esquerda. Admito que desembocaram numa democracia de tipo ocidental, mas tal como no Ocidente, e sem as mesmas defesas de que dispõe a classe operária desta área geográfica, as disparidades sociais aumentaram, a corrupção também, as minorias étnicas têm tido problemas graves (veja-se o que sucede nos países Bálticos com a minoria russa), a perseguição aos antigos membros e aos partidos comunistas é uma realidade e até, como no caso da Hungria, a supressão da liberdade de informação. Posto isto, acho estranho que alguém de esquerda ache que as duas alterações que se verificaram são do mesmo sinal. Em sociedades tão desiguais como são as árabes, sem uma intervenção forte dos sindicatos, se o caminho a seguir for o da Europa de Leste facilmente se instalará um capitalismo selvagem, ultraliberal, tal como se instalou nesses países. Este é portanto o meu primeiro cepticismo.

O segundo tem a ver com a alegria existente também em alguns blogs e parece que transparece de um artigo que vem no Público, do seu enviado ao Cairo, Paulo Moura, que glorificam a espontaneidade das massas, libertas das burocracias sindicais e políticas. Como se percebe, estou-me a referir aos sindicatos e aos partidos de esquerda que para certos revolucionários não passam de burocratas, sempre prontas a refrear a espontaneidade das massas. Tenho para mim que a ausência de sindicatos e partidos de esquerda fortes são indispensáveis para que seja possível haver uma saída progressista, democrática e de esquerda para a crise que aqueles países atravessam. Se as massas não tiverem palavras de ordem que as conduzam nesse sentido, facilmente os Irmãos Muçulmanos as poderão arregimentar. No entanto, já li artigos  em que as principais acções que se verificaram no Egipto não foram as que tiveram lugar na Praça Tahrir, mas sim as greves que se realizaram em diversos locais daquele país.

Em próxima oportunidade voltarei a este assunto, que pelos vistos vai, nos próximos tempos, ser inesgotável.

21/02/2011

Duas formas de cepticismos a propósito da revolta árabe – I

Pacheco Pereira (PP) há muito que queria discutir na Quadratura do Círculo a questão do Egipto. Não o conseguiu. Vem agora num artigo no Público, de Sábado, e na sua rubrica semanal na SIC Notícias, Ponto Contraponto, dar a sua opinião sobre o que se passou naquele país.

O artigo do Público denomina-se mesmo Uma Narrativa Bizarra (sem link). Percebe-se logo que PP não está de acordo com a história que nos andam a contar sobre o que se passou no Egipto e, por tabela, na Tunísia. Uma revolução de cariz democrático-liberal encabeçada pelas massas educadas e utilizadores dos novos instrumentos comunicacionais, como os telemóveis, o Facebook, a net, etc.
Mas quem, segundo PP, nos anda a contar ou a vender esta história, são os media dominantes, esta última palavra é minha, que transformam as massas do Cairo e de Tunis nos bons e os ditadores nos maus. Para PP não se trata de uma revolução mas sim de uma revolta, a revolta árabe. Neste ponto até somos capazes de estar de acordo. Quanto ao resto acho graça: quem vive permanentemente através dos media – começa à quinta-feira na Quadratura do Círculo, penso que nesse mesmo dia tem uma coluna na revista Sábado, passa pelo Público ao fim-de-semana, e termina no Ponto Contraponto, da SIC Notícias, ao Domingo – não se pode queixar muito de que não seja um dos principais condicionadores dos media dominantes. Podemos afirmar que eles manifestam uma opinião à revelia daquilo que PP queria que eles dissessem.

Mas quais são os argumentos de PP para desconfiar que afinal os bons não são tão bons como se anda por aí a dizer. Primeiro, o ataque, com cariz sexual, a jornalistas que faziam reportagens na Praça Tahrir e ainda por cima chamando-lhes judias. Ora que eu saiba só vi uma jornalista queixar-se de ter sido molestada sexualmente, não vi várias, como diz o PP. Mas já uma é o suficiente. No entanto, ouvi dizer que os apaniguados de regime atacaram diversos jornalistas, mas isso não relata PP. Por outro lado, chamar judia no mundo árabe a alguém, e nesta altura, é o mesmo que, logo a seguir ao 25 de Abril, acusar-se um cidadão de ser da PIDE. As barbaridades cometidas por Israel em Gaza, são de tal ordem que nos permitem fazer a comparação, ficando aquela polícia muito mais bem colocada. Por isso, não me espanta nada que aquela acusação, apesar de não ser verdadeira, tivesse as consequências que teve. Mas, como em todos os casos deste tipo, é tomar a Nuvem por Juno. Se alguém tivesse dado no Rossio uns tabefes a um inocente cidadão, acusado injustamente de ser da PIDE, não se ia dizer que o povo que saiu à rua a festejar a libertação de Portugal da ditadura, não manifestava um enorme desejo de liberdade e democracia.

Mas a segunda razão invocada por PP é de uma reportagem em que se vê a multidão que estava concentrada na Praça a ajoelhar-se na sua totalidade e a rezar a Alá. Neste caso o PP poderá ter alguma razão, fazendo a comparação com os padrões ocidentais dos tempos modernos, posteriores à Revolução Francesa. Mas ainda não há muito tempo se viam as tropas e as massas apoiantes de Franco a rezar em público, contra os “malfeitores” comunistas e republicanos. É evidente que não estavam a fazer uma revolução, até porque no Ocidente todas elas se fizeram contra a vontade da Igreja. Mas já agora, eu não vi, mas não teria havido na Polónia umas missazinhas colectivas em glória do Solidariedade ou antes dos grevistas partirem para a luta? Tenho algumas dúvidas. Mas, nas informações prestadas nos media falou-se que os cristãos coptas do Egipto tiveram também direito à sua oração, com grande compreensão dos seus irmãos muçulmanos. No entanto, PP argumenta que se fossem agnósticos ou ateus, ou seja, se não se ajoelhassem, teriam tido problemas. Concordo, mas quem combateu no mundo árabe os lideres que defendiam a laicidade do estado? PP afirma que eram todos ditadores ou ligados a invasões estrangeiras, dos soviéticos, quer ele dizer. Mas o que fizeram os seus amigos do Ocidente? Puseram outros ditadores e organizaram outras invasões que em nada resolveram este problema.

Mas que pretende PP com todo este cepticismo? Instalar a dúvida entre todos os apoiantes da revolta árabe. Não serão eles afinal os mesmos fundamentalistas que dominam o Irão? Não quererão eles atacar o Ocidente ou destruir o Estado de Israel? Esta é pois a posição de PP. Por isso, eu concluiria que ele pensa que mais vale uma mão de ferro a controlar aquelas massas desordeiras e perigosas do que acreditar que o que elas querem é estabelecer uma democracia igual à do Ocidente. PP é um neo-conservador, que não vai cá em modernices, nem na fúria libertadora das massas. Ordem e disciplina, porque nunca se sabe o que elas desejam. Pacheco Pereira comporta-se aqui como o velho Salazar, que desconfiava sempre da vontade do povoléu.

Este é pois uma das formas de cepticismo. Num segundo post farei referência àquele que me assalta em contraposição a algumas das afirmações cheias de optimismo de muita da esquerda da nossa praça.

Estado Mínimo, Crise Máxima



Universidade de Primavera


Estado Mínimo, Crise Máxima

25 a 27 de Fevereiro

Ovar , Pousada da Juventude

PROGRAMA

25 de Fevereiro, Sexta

a partir das 15H

acreditação

21H

conferência de abertura: 'Estado e Sociedade'

Luís Fazenda e José Manuel Pureza

26 de Fevereiro, Sábado

10h - 12h30

Sessão de trabalho - Serviço Nacional de Saúde

Aula: Pedro Ferreira - Professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra

Mesa Redonda: com João Semedo e Isabel do Carmo

13h

Almoço

14h30 - 17h30

Sessão de trabalho - Educação

Aula: Manuel Sarmento - Universidade do Minho

Mesa Redonda: com Ana Drago e Maria José Araújo

18h

Mesa redonda - Os jovens e as esquerdas

com João Mineiro, Leonor Figueiredo, Hugo Ferreira, Gonçalo Monteiro, Pedro Feijó

Moderação de Daniel Oliveira

Jantar

21h

Sessão de trabalho - Cultura

com António Pinto Ribeiro e Catarina Martins

27 de Fevereiro, Domingo

10h - 12h30

Sessão de trabalho Segurança Social

Aula: Carvalho da Silva - Secretário-Geral da CGTP


Participação – Entrada Livre, limitada a 60 inscrições (enviar e-mail para veraouniversidade@gmail.com)

Estadia (2 noites com P.A.) - 20€ (5€ para jovens e estudantes)

· Transferência para o NIB: 0036 0143 9910 0014 7015 0 (Montepio)

· Enviar e-mail para veraouniversidade@gmail.com, confirmando pagamento com dia e hora de transferência.

· A reserva da Estadia só será confirmada depois de efectuado o pagamento.

Deslocação - Para oferecer ou apanhar boleia enviar e-mail para veraouniversidade@gmail.com com telemóvel, cidade, dia e hora de partida e regresso.

Organização Fórum Manifesto

Centro de Estudos Sociais e Políticos

http://manifesto.com.pt/

20/02/2011

A bem-pensânsia nacional não gosta dos Deolinda


Vi ela primeira vez os Deolinda em 2009, num festival de Músicas do Mundo que se realizou na Póvoa do Varzim. O palco principal estava cheio com as atracções principais e nos palcos paralelos actuavam os grupos ainda sem nome feito, como aquele grupo. A sala estava repleta, a deitar por fora. Achei-lhes imensa graça, percebe-se logo, a partir do próprio nome da banda, que há uma grande ironia em tudo o que fazem. As suas canções, as que eu ouvi aí, não sendo panfletárias, criticavam o quotidiano com imensa graça.

A canção “que parva que sou”, cantada pela primeira vez no Coliseu, não me pareceu melodicamente com a mesma força das que tinha ouvido na Póvoa do Varzim, tinha no entanto uma letra que, com grande ironia, relatava o ar do tempo: as dificuldades em se arranjar um emprego, mesmo estudando, e a situação precária em que se encontram os jovens trabalhadores com habilitações.
Pela força e ironia da letra não só o Coliseu veio abaixo, como rapidamente a canção passou ao Facebook e depois para os blogs. Já se sabe que os jornalistas os, comentadores e os políticos, rapidamente a transformaram em motivo de comentário, discussão e bandeira política.

A semana que agora finda passou a discutir a canção e o seu significado e todos os blasés deste mundo acharam que deviam opinar criticamente sobre a mesma
Começou por um artigo José Manuel Fernandes, no Público, que eu não li na totalidade, mas que percebi logo o conteúdo. Culpava as gerações antigas, as do 25 de Abril, que garantiram trabalho fixo e que presentemente abandonavam estes jovens à sua sorte. Conclusão, maior flexibilidade no trabalho, todos se deviam tornar precários para maior glória do capitalismo nacional. A direita aproveitou deste modo a canção.

Mas o mais interessante, foi depois as discussões nos diversos programas televisivos. Como eu normalmente só vejo a SIC Notícias, é, de modo geral, a ela que me vou reportar.
Na Quadratura do Círculo, Pacheco Pereira, com a sua sobranceria de intelectual que não participa em modas, suspeito que não disse nada sobre o grupo. Lobo Xavier, como grande entendedor de música popular portuguesa, começou por desvalorizar os Deolinda dizendo que havia canções muito mais reivindicativas e críticas do que esta. E começa por citar o Sérgio Godinho. Que grande novidade! Só que o Sérgio Godinho já vem de antes do 25 de Abril e não é de certeza daquilo que este comentador gosta. Espantoso argumento para quem o que interessa é desvalorizar uma canção que neste momento critica os valores instituídos.
Mas a seguir tivemos o Expresso da Meia-Noite, também a discutir o mesmo tema: os precários e a canção. Convidaram Vicente Jorge Silva para mais uma vez vir justificar a sua célebre frase sobre a geração rasca, que por sinal, e de forma muito explícita, se transformou em geração à rasca e que se vai manifestar no dia 12 de Março. Já se sabe que aquele articulista, começou logo por desvalorizar os Deolinda, inclusive o nome. Provavelmente achou-o ordinário ou popularucho, não percebendo a ironia do mesmo.
Todo o resto da intervenção foi de uma auto-justificação de meter dó, em que o principal da argumentação não se percebia
Pedro Lomba, da direita, lá vinha com os argumentos da geração que tinha trabalho garantido e não permitia que nova lá chegasse.
Mas o que mais me espantou foi o Ricardo Costa a virar-se para o representante dos precários, de que não me lembro o nome, a dizer que a canção dos Deolinda só denunciava o problema não apresentava alternativas. De repente vi-me quarenta e tal anos atrás a discutir nos cineclubes, que um certo filme só descrevia a situação, que de um modo geral era o capitalismo, e não apresentava soluções, ou seja a solução revolucionária para ultrapassar aquela sociedade. É evidente que naquela altura isto não era dito por estas palavras tão explícitas, mas ficava subentendido que era isso que se pretendia. A resposta do nosso precário foi de que estávamos a falar de uma simples canção, que não tinha esses objectivos. Hoje no DOTE.COMe, do meu amigo Fernando Penim Redondo, num artigo de que discordo totalmente, intimida a pobre banda a fazer uma canção, vejam lá com que tema: “necessitamos de um novo modo de produção que funcione noutros moldes, que esteja adequado às tecnologias de hoje e aos meandros da globalização.”
Foi também dito pelo Ricardo Costa que hoje o Expresso trazia uma artigo da antiga Ministra da Educação a garantir que quem estudava tinha mais possibilidades de emprego e de sucesso que aqueles que não o faziam. Há gente a levar demasiado a sério uma canção, que não passa disso mesmo e que, com grande ironia, critica os tempos presentes. É com isso que a bem-pensância nacional não pode.

13/02/2011

A Esquerda depois da moção de censura

Ontem no Eixo do Mal, da SIC Notícias (não nos vou fazer outro relato do que lá se passou) Clara Ferreira Alves afirmava que o Bloco era afinal um partido colectivista, e outras coisas que tais, e não tinha correspondido às expectativas que se depositavam nele.
Para ela, para António Costa, e para outros tantos o Bloco de Esquerda deveria ser o apoia à esquerda do PS e a partir de agora não havia qualquer possibilidade de alguma vez se constituir um governo de coligação entre aquelas duas forças políticas.
Como já vos relatei no post anterior – um bocado aborrecido, diga-se de passagem – o Bloco, passou a ser o inimigo principal da ordem estabelecida. Para além da campanha da direita, aliada ao PS, de dizer que afinal este partido não serve para nada, aparece também a denúncia de que ele anda a enganar as pessoas. Tal como no tempo da PIDE se dizia que os democratas eram criptocomunistas (comunistas escondidos), agora o Bloco também passa por um partido democrcrítico de esquerda, mas afinal é comunista, trotskista, radical de esquerda e até colectivista.

José Neves já denunciou aqui esta nova argumentação e aqui também já falou da moção de censura que aquele partido vai apresentar, em termos que eu subscreveria.
Mas o mais espantoso foi este post elaborado por Tiago Mota Saraiva, que eu penso que é militante comunista, que muito lucidamente afirma que esta esquerda para certa gente deixou de ser “nova” e “sexy” e passou a “trotskista” e “radical” e Louçã deixou de ser “inteligente” para acumular “tiques revolucionários”. E mais do que isso faz uma crítica justa à posição assumida pela Renovação Comunista e por André Freire, terminando o post: “Toda esta concessão é embelezada pela ideia que a maioria silenciosa dos votantes no BE, gente séria e ponderada, deseja que este partido se constitua como um alicerce do PS e do Governo – exactamente como tantos outros partidos europeus fizeram com, aliás, extraordinários sucessos políticos e eleitorais…

De facto é isto que muita gente desejava que fosse o papel do Bloco de Esquerda, um partido engraçadinho, que retiraria votos ao PCP e serviria, nas alturas de aperto, para votar com o PS, as medidas de direita. Era este também o papel que o PCP gostaria que o Bloco representasse, para facilmente o classificar como social-democrata e como esse “grande” comunista Miguel Urbano Rodrigues lhe chama “esses pequeno burgueses enraivecidos”.
Neste aspecto não queria terminar sem sublinhar a boa prestação de Bernardino Soares no Expresso da Meia-noite, da SIC Notícias, desvalorizando as pequenas tricas que se querem criar entre o Bloco e o PCP.

PS.: Já que falamos de troskistas, aqui vai a fotografia do jovem revolucionário.
PS. (16/02/11): Não sei se a Clara Pinto Correia diria a mesma coisa, mas por amor á verdade corrijamos o nome para Clara Ferreira Alves.

12/02/2011

O BE quer desenvolver uma cruzada contra os ricos e os bem sucedidos

Teve lugar, na passada 5ª feira, mais uma daqueles deliciosos programas “cheios de contraditório”, como o Pacheco Pereira gosta, chamado  Quadratura do Círculo, na SIC Notícias.
Como se sabe, a discussão decorre à volta de uma mesa entre um jornalista, que faz perguntas e modera os tempos de intervenção, e três figurões da nossa praça política: o Pacheco Pereira, deputado do PSD e intelectual, o António Lobo Xavier, militante do CDS e pertencendo em não sei quantos Conselhos de Administração, e António Costa dirigente importante do PS e Presidente da Câmara de Lisboa. Já se sabe que a maioria das vezes é uma luta de dois, a direita unida, contra um, o PS oficialíssimo. Mas, por vezes, como sucedeu agora, a propósito do aviso da moção de censura do Bloco de Esquerda, os três contra a esquerda, à esquerda do PS, principalmente contra o BE.
Já diversas vezes, me tenho referido a esta programa, a que muitos não ligam nenhuma, mas que reflecte um modo de pensar, nem sempre alinhado dos dois da direita, mas sempre oficial da parte do representante do PS, que já foi o Jorge Coelho e agora é o António Costa (AC).

Parece, segundo percebo, que os temas a discutir são propostos pelos participantes e desta vez estava em cima da mesa, da responsabilidade do AC o caso, bastante trágico, da velhota que esteve nove anos morta no seu apartamento, e de todos o aviso da moção de censura do BE.
O AC, que gosta destes temas populistas, lá introduziu o caso da velhota, fazendo um ar de indignação, e o Pacheco Pereira com sobranceria, de quem não discute coisas menores, a dizer que não estava interessado no tema, o que gostava era de discutir o caso do Egipto ou o da não entrega do relatório ao público sobre o que aconteceu no dia das eleições presidenciais, relativamente às dificuldades em votar. António Lobo Xavier, um pouco na mesma linha, termina a dizer que “à morte e aos impostos ninguém escapa”, o que neste caso era absolutamente verdade, já que foi devido a uma penhora das finanças ao apartamento da velhota que se descobriu o corpo dela.

Mas o que me interessa, depois deste longo arrazoado, foi de facto a fúria com que os três atacaram o BE a propósito do aviso feito por Louçã de que este iria apresentar uma moção de censura contra a política de direita seguida pelo Governo.
Destaquemos algumas frases de fino recorte literário, qualquer delas de Lobo Xavier a primeira a dizer que “a táctica do BE é de restaurante do Bairro Alto” e depois a acrescentar a frase que serve de título a este post.
AC faz o grande elogio do PCP, falando da sua inserção nos trabalhadores, garantindo que o BE é um fenómeno efémero, que não representa nada. PP acha que mesmo assim há camadas educadas, radicais e citadinas representadas pelo Bloco. O problema para Pacheco é que a liderança é ainda muito leninista, muito comunista, no sentido do comunismo radical, infantil diz o Costa, Pacheco Pereira aduz, sim naquele sentido em que Lenine chamava a doença infantil do comunismo. E PP acrescenta, eles actuam assim porque a sua direcção é trotskista, comunista e leninista. Caramba, como em tão pouco tempo tantas acusações perigosas e subversivas foram dirigidas contra o Bloco. Que inveja não sentiram os do PCP por isto não ser dirigido contra eles. Salva-se o Lobo Xavier, que no final, depois de AC e PP garantirem que o PCP era um partido fiável e que respeitava os acordos que se estabeleciam com ele, garantia que os outros se estavam a esquecer que o PCP era comunista, estatista, totalitário e apoia os regimes de Cuba e da Coreia do Norte. Ah! Caramba, despejou o saco.

No meio de isto tudo pareceu-me claro que do PS vem aí um ataque em forma ao Bloco, tentando passar a mão pelo pêlo do PCP. Não sei se será esta a estratégia do Sócrates?
E que o a direita, pela voz daqueles dois comentadores, não estaria com muita pressa em derrubar o Governo, excepto alguns homens do aparelho desejosos de ocupar taxos.
Pacheco Pereira perguntava mesmo que campanhas iriam fazer os partidos se houvesse agora eleições. O PS vitimizar-se-ia, apontando todas as malfeitorias que a subida do PSD ao poder acarretaria para o país. O PSD ou falava verdade, descrevendo as desgraças que nos esperam, e não tinha votos, ou prometia coisas que não podia dar e fazia uma campanha desonesta. Isto diz PP.

O Bloco Central, apesar dos insultos que todos os dias os partidos que o integram trocam entre si , está ainda para ficar. E a Quadratura do Círculo mais uma vez a demonstra como é bom apelar ao contraditório, mas não o aplicar.

O começo de uma revolução

Escrevi a 9 de Fevereiro um texto um pouco descrente do que poderia vir a acontecer no Egipto. Não via uma saída para o impasse em que as coisas estavam, pelo menos naquele fim-de-semana.

Hoje, depois da queda do ditador e da alegria dos milhões de egípcios, reconheço que as coisas evoluíram mais depressa do que eu antevia. No entanto, mais uma vez vejo gente a embandeirar em arco com aquilo que é só um começo. Não estamos ainda na revolução, mas sim a comemorar a queda do ditador. Foi isso que fizemos logo no 25 de Abril e depois no 1º de M aio. E no entanto, tínhamos de avanço sobre os egípcios, os PIDES presos e um exército dividido e com a baixa oficialidade pouco disposta a entregar de mão beijada o poder aos generais. Fomos saudados por toda a Europa. Hoje todo o mundo dá os parabéns ao Egipto, no entanto o poder está entregue a generais que durante anos foram o sustentáculo de regime e com ele se reproduziram e enriqueceram. Para lá da alegria que tudo isto me causa, como sou macaco com o rabo demasiado pelado, desconfio que a situação ainda esteja muito longe de estar resolvida, mesmo com o apoio de milhões, a revolução pode ser facilmente empalmada pelas antigas castas dirigentes.

Saudemos o começo da revolução e esperemos pelo seu triunfo.

PS.: rapaziada apressada já começou a fazer comparações históricas e a elaborar teorias. Não se precipitem, a história dá muitas voltas e nada é como a gente pensa.

Glórias do jornalismo português

Durante toda esta semana e no final da anterior um dos temas dominantes foi a possibilidade do PCP apresentar uma moção de censura ou votar uma apresentada pela direita.

Tudo isto começou com uma entrevista  de Jerónimo de Sousa a Maria Flor Pedroso, no dia 4 de manhã, sexta-feira, na Antena 1, depois tivemos já na segunda-feira seguinte, no Frente a Frente, da SIC Notícias, Benardino Soares a falar do mesmo assunto e, que eu tivesse reparado, António Filipe fez o mesmo na RTPN, terminando com Jerónimo de Sousa, a dar justificações ou directamente aos jornalistas ou numa intervenção numa reunião. Isto para não referir que não houve cão nem gato da comunicação social que não tivesse opinado sobre este assunto. Ou seja, até ao Bloco dizer que apresentava a sua moção de censura, esta quinta-feira, o tema da moção de censura do PCP foi objecto de variadas referências mediáticas.

Pode-se dizer que a comunicação social deturpou tudo o que o PCP disse, mas que o seu secretário-geral e alguns dos seus destacados dirigentes falaram no assunto é uma verdade indesmentível.

Pacheco Pereira, ontem, na Quadratura do Círculo, que provavelmente merecerá um post à parte, dizia para criticar o Bloco e defender o PCP, como é seu costume, que só tinha havido uma referência soft de Jerónimo de Sousa sobre o assunto. Mentira, como todos bem sabem e viram, houve igualmente as intervenções referidas.

Depois disto o que se esperava que o jornal do Partido Comunista, o Avante!, fizesse? Que desse a notícia da entrevista de Jerónimo, dos comentários dos seus deputados ou dos esclarecimentos posteriores de Jerónimo.

Durante a semana estive quase para fazer um post sobre o assunto, no entanto, apesar de ter ouvido a entrevista do Jerónimo, achei que seria melhor esperar pela saída do jornal do seu Partido, até na esperança de poder copiar ipsis verbis o que Jerónimo tinha dito a Flor Pedroso, em vez de estar a ouvir e a transcrever o que ouvia na rádio.

Pois rien de rien, nada, nicles. O Avante! era completamente omisso sobre este assunto, nem a entrevista de Jerónimo foi transcrita. Nem mesmo naquela rubrica que eu considero a Noite da Má Língua do Avante!, o Actual, há qualquer referência ao assunto, excepto uma pequena frase a dizer que o PSD não apresentava nenhuma moção de censura. Não sei onde foram descobrir isso, é tão verdade como o Público garantir que o PSD iria votar a moção do PCP.

Não seria natural que o jornal do Partido reflectisse o que os seus dirigentes dizem? Deixo no ar esta interrogação, quem quiser que tire as conclusões.

09/02/2011

Quando a direita tenta empalmar uma revolução

Um fantasma percorre o Norte de África, é o fantasma da revolução.
Com esta adulteração das palavras de Marx, do Manifesto do Partido Comunista, quis simplesmente alertar para o optimismo excessivo que percorre a esquerda e até alguma direita, mais dada a ficar estarrecida quando houve a palavra democracia.

Dando uma rápida olhadela aos últimos anos da política mundial, e sem valorizar o que se passou a Leste, já nesse longínquo ano de 1989, e depois nas sequelas montadas pelas forças reaccionárias locais, como seja a Revolução Laranja, na Ucrânia, uma outra, a Revolução Rosa, na Geórgia e mais algumas em Belgrado ou noutras capitais do antigo “socialismo real”, tenho para mim que as últimas “revoluções” que envolveram milhões de manifestantes na rua se verificaram nas Filipinas (1986), para correr com o ditador Marcos ou, anteriormente, no Irão, para acção idêntica contra o Xá (1979). No caso das Filipinas não me recordo que alguma alteração notável tivesse ocorrido depois da queda do ditador. Só o episódio bem caricato da sua mulher Imelda, ter concorrido a umas eleições presidenciais posteriores (1992) e ter tido ampla cobertura mediática das revistas de coração, contra o que seria normal que era ser presa e julgada por ter delapidado os dinheiros públicos em sapatos.
Quanto à queda do Xá, sendo de facto uma situação bem mais complexa do que a das Filipinas, no fundo acabou também, depois de vencidos as forças populares e laicas como o TUDEH, o Partido Comunista do Irão, com o poder a ser açambarcado por uma clique religiosa, os Ayatollahs.

As massas levantaram-se na Tunísia, o ditador Ali teve que fugir à pressa. Mas o que ficou foi um primeiro-ministro do seu partido e um Governo, que eu saiba, sem a confiança da oposição. A Tunísia acalmou, pode ser que as forças populares tenham possibilidades de impor uma nova ordem e estabelecer um regime mais democrático que reflicta os interesses das massas populares empobrecidas por uma família de cleptómanos. Tudo, no entanto, ainda está em aberto.
Quanto ao Egipto, depois de grandes esperanças do derrube rápido do ditador, eis que este, numa manobra de mestre,  lança a sua polícia à civil, mais os ladrões recentemente libertos das prisões, aquilo que o general Loureiro do Santos, no Prós e Contras, não teve o pudor de chamar os Tonton Macoute, de Mubarack, sabendo nós que aquela força eram o bando terrorista do ditador Duvalier, pai e filho, do Haiti. Este último parece que reapareceu ultimamente neste país.
Apesar das notícias do dia darem conta que se reacenderam as manifestações na cidade do Cairo, até ao momento, dado por um lado a técnica de terra queimada aplicada pelo ditador com as suas milícias terroristas e a passividade dos militares, está difícil de encontrar uma saída revolucionária e democrática para a situação. Temo, e porque a pressão dos Estados Unidos e de Irael vai nesse sentido, que se tente encontrar uma saída negociada, que modifique alguma coisa para que tudo fique na mesma., como dizia Lampedusa no seu livro O Leopardo.

É mesmo esta a minha preocupação principal e porquê?
As exigências de democracia são legítimas, mas as classes dominantes, com a ajuda dos Estados Unidos, poderão sempre reverter a seu favor a aspiração democrática e progressista das populações. A juntar a isto, não tanto na Tunísia, mas principalmente no Egipto, temos que a principal força oposicionista são os Irmãos Muçulmanos, que na história daquele país nunca representaram um papel progressista, mas  foram a arma de arremesso de sauditas e americanos contra o nacionalismo e neutralismo nasseriano.

A inexistência de um pólo alternativo democrático, progressista e laico não existe com força política em nenhum daqueles países do Norte de África, se exceptuarmos a Argélia no passado, por isso temo que o espírito de revolução e de alteração do statu quo não tenha qualquer concretização visível que possa corresponder a uma saída democrática e revolucionária para aqueles povos.

PS.: (12/02/11) a versão mais rigorosa que eu conheça do Manifesto em português é a dirigida por Vasco Magalhães-Vilhena (Edições Avante!, 1975). A tradução da primeira frase do Manifesto é a seguinte: “Anda um espectro pela Europa – o espectro do Comunismo”, adaptando ao meu texto diria “Anda um espectro pelo Norte de África – o espectro da Revolução”. Devia aos leitores este rigor, que era uma das características desse grande filósofo que foi Vasco Maglhães-Vilhena, hoje já completamente esquecido.

02/02/2011

A resposta do PS ao diálogo com os partidos à sua esquerda

Em diversos artigos que, por sinal, têm sido publicados no Público, alguns intelectuais de esquerda, têm feito referências à necessidade de diálogo entre as esquerdas.

Cito os dois dos mais importantes, o de Rui Tavares, no Público, de 27/01/11, e transcrito no seu blog, ruitavares.net/blog,  e o de André Freire, no Público, de 31/01/11, e transcrito no site do MIC – Movimento de Intervenção e Cidadania 

No primeiro dos artigos sublinharia esta parte: “Não poder a esquerda convergir é um péssimo vício nacional. Como qualquer vício, não desaparece de um momento para o outro. E enquanto dura impede-nos de ser um país normal e uma democracia em que da alternância nasça alternativa. Ora isso é um sinal de subdesenvolvimento, não só do país, mas sobretudo da própria esquerda — que continua a comportar-se como se devesse alguma coisa aos sectários que dentro de cada partido.” Não quero neste momento entrar em polémica com Rui Tavares, gostaria unicamente de sublinhar o seu desejo legítimo de convergência da esquerda.

Do segundo sublinho também este longo período: “A impossibilidade histórica de as esquerdas se entenderem em Portugal, ao contrário do que se passa em muitos países europeus, sobretudo após o fim da Guerra Fria, é um problema não só para a relação entre representantes e representados (os segundos apoiam maioritariamente tal entendimento, os primeiros não), mas também para o equilíbrio do sistema político (a direita coopera, a esquerda não) e para a normalização da nossa democracia (já para não falar da brutal redução da influência dos votantes da esquerda radical, sempre excluídos do Governo). Claro que todos sabemos que há vários factores que tornam esse entendimento muito difícil (temos um dos partidos socialistas mais alinhados ao centro da UE; a esquerda radical não fez a devida actualização ideológica, parece não aceitar os nossos compromissos europeus e, sobretudo, parece não aceitar que, tendo em conta o seu estatuto de minoria, poderia apenas influenciar um eventual governo de "esquerda plural", nunca determinar as suas orientações fundamentais). Mas, apesar de tudo isso, é importante que os agentes políticos e os cidadãos (de esquerda) dêem passos no sentido de superar esse bloqueamento, uma patologia do nosso sistema político.” Não vou igualmente polemizar com André Freire, meu colega do blog Alegro Pianíssimo, de apoio a Manuel Alegre. Também este autor defende que é importante que os agentes políticos superem os bloqueamentos da esquerda.

Depois destas duas recomendações, que merecem discussão séria, mas de cuja viabilidade tenho muitas dúvidas, obtivemos hoje a resposta do PS, pela voz de Jorge Lacão. O PS propõe ao PSD como tema de revisão constitucional ou de lei eleitoral, não percebi, a redução do número de deputados de 230 para 180, já que este número está inscrito na Constituição, e também a falaciosa proposta de ligar os eleitos aos eleitores.
Aqui temos pois como o PS pensa resolver o problema das alianças à sua esquerda, fazendo-a desaparecer da Assembleia da República, ou reduzindo-a à sua expressão mais simples.
Como todos percebem reduzindo o número de deputados diminui-se a proporcionalidade e se juntar-mos a isto um outro sistema de eleição dos deputados, podemos acabar de vez com os pequenos partidos. Reduz-se a Assembleia a uns tantos deputados do PS e outros tanto do PSD, para rodarem entre si conforme as conveniências.
Aqui temos pois a resposta ao diálogo entre as esquerdas.

31/01/2011

Sectarismos, ódios e paranóias - II

O episódio do post anterior, a minha altercação com Vítor Duas, não tinha qualquer importância se não se inserisse numa campanha particularmente sectária do PCP contra o Bloco de Esquerda. Farto de trocar farpas com Vítor Dias estou eu. Simplesmente notei o particular acinte em atacar Francisco Louçã, chamando-lhe trafulha, a propósito de um post meu que não fazia qualquer referência àquele bloquista.

Mas comecemos pela campanha. Logo numa daquelas crónicas bastante arrevesadas que se publicam na rubrica Actual (Avante, de 27/01/11) vem um texto de ataque a Luís Fazenda (LF), assinado por Jorge Cordeiro, que é um mimo de sectarismo. Em resposta a argumento racionais de LF, vem a calúnia e a mentira, principalmente aquela que diz que o Bloco votou sozinho ao lado do PS a nacionalização dos prejuízos do BPN. A mentira não é nova, tem origem num artigo de opinião de Honório Novo, no Jornal de Notícias. João Semedo já lhe tinha respondido no Esquerda.net, com um artigo chamado O sectarismo é sempre um mau caminho, em que desmentia as afirmações de Honório Novo, até porque o Bloco tinha votado contra a lei da nacionalização, com toda a restante oposição. Simplesmente como já tinha sucedido em tempos, na mesma rubrica, com a afirmação de que Manuel Alegre se tinha abstido no Código do Trabalho, agora mente-se dizendo que o Bloco votou ao lado do PS no caso BPN. A mentira muitas vezes repetida pode parecer verdade.

Mas vamos ao mais importante, o comunicado do Comité Central. Dizia este: “A fuga em frente ensaiada pelo BE para encontrar noutros responsabilidades que lhe pertencem, não pode iludir o facto de ter partilhado com o PS e o seu governo o apoio a uma candidatura objectivamente comprometida com o essencial da política e opções que nos últimos trinta anos conduziram o país à actual situação. E sobretudo o facto de, mais do que empenho no objectivo de derrotar Cavaco Silva e a política de direita, o que se viu por parte do BE foi a intenção de tirar vantagens do apoio a Manuel Alegre ditado por critérios de calculismo partidário.

Onde é que o Bloco foi “buscar noutros a responsabilidade que lhe pertencem”? Quando disse que perdeu as eleições e que toda a esquerda também as perdeu? Já se sabe que, como o PCP nunca perde eleições, vir alguém dizer por ele que perdeu, é motivo suficiente para o PCP acusar outros de alijarem responsabilidades. Ora o objectivo do PCP não era chegar à segunda volta e derrotar Cavaco? Oh! Não? Não tendo conseguido isso e os seus resultados não constituirem uma afirmação de força, não tem motivos para cantar vitória, como mais uma vez ensaiou fazê-lo nestas eleições. O Bloco não veio dizer que foi devido ao PCP que se perderam as eleições, disse que toda a esquerda perdeu e com ela também o PCP.

Depois a afirmação, sempre sectária, de “ter partilhado com o PS e o seu Governo o apoio a uma candidatura objectivamente comprometida com o essencial da política e opções que nos últimos trinta anos conduziram o país à actual situação.” Mas, não lhe bastando dizer isso, afirma a seguir que não foi para derrotar Cavaco e a política de direita que o Bloco apoiou o Alegre, mas por meros critérios de “calculismo partidário”. Ou seja, o Bloco não compartilhou com o PS e o seu Governo o apoio a uma candidatura comprometida com os últimos trinta, sublinho trinta, anos de política de direita, o que o iliba aos olhos do PCP de ser um partido reformista e social-democrata, digo eu, pois o comunicado não diz isso. Mas fê-lo simplesmente por mero calculismo partidário.

O Comité Central do PCP devia ter vergonha daquilo que diz, pois nos últimos trinta anos apoiou à primeira volta Ramalho Eanes, que era um oficial tão de esquerda, que agora apareceu a apoiar Cavaco. Apoiou também Salgado Zenha à primeira volta, que era responsável pela ofensiva contra a Intersindical, na questão da unicidade sindical e que chegou a ser Ministro da Economia, o que levou Cunhal fazer uma boa piada, afirmando que ele próprio dizia que não percebia nada de finanças. Este caso foi um claro exemplo, para utilizar as palavras do actual PCP, de oportunismo partidário. Mas mais espantoso ainda, que maior responsável pelo estado a que isto chegou do que Mário Soares, que o PCP apoiou, sugerindo que depois tomassem sais de fruto, numa segunda volta. E não foi Jorge Sampaio também responsável pela política destes trinta anos? E não desistiu Jerónimo de Sousa a favor dele numa primeira volta?

Já se sabe que todas estas palavras visam hoje transformar o PCP no rei da resistência ao socratismo, mas é incapaz de propor, apara além dos muros muito apertados dos Verdes e da Intervenção Democrática, uma política de unidade com as outras forças políticas.
Não foram as anteriores posições do PCP sobre as eleições presidenciais que estiveram erradas, é o seu actual sectarismo é que é hoje o inimigo principal da esquerda.

Gostaria de lembrar um texto que em tempos escrevi sobre o Desvio Esquerdista e Sectário da Internacional Comunista (1929-1934)  em que citava as palavras de Isaa Deutscher: “Os partidos sociais-democratas e reformistas rotulados como “sociais-fascista”, deviam ser considerados como os inimigos mais poderosos do comunismo. Para a revolução socialista, a ala esquerda dos partidos sociais-democratas devia ser considerada como obstáculo até maior do que a ala direita: “quanto mais à esquerda mais perigosa”. Qualquer cooperação ou contacto entre líderes comunistas e sociais-democratas trazia o risco da contaminação.
No fundo, é isto que se passa hoje como o nosso PCP, quanto mais à esquerda está qualquer partido concorrente mais perigoso é. Ou seja, incapazes, ao contrário do que sucedeu no passado, de formular uma linha de unidade, encerram-se numa fortaleza em que aqueles partidos que mais próximo deles estão, passam a ser os seus piores inimigos.

30/01/2011

Sectarismos, ódios e paranóias - I

No post anterior sobre o resultado das eleições para a Presidência da República fiz referência, por duas vezes, ao nome de Vítor Dias, do blog O Tempo das Cerejas. A primeira foi inócua, já que eu concordava com a relação que ele estabelecia, apesar dos contextos serem bastante diferentes, entre a votação de Pinheiro de Azevedo, em 1976, e a de Fernando Nobre agora. São assuntos passados, que só velhos como nós é que se recordam.

A segunda é relativa a uma pequena polémica que travei aqui com ele, a propósito da sua repetida afirmação de que votar nos opositores a Cavaco A, B ou C, na primeira volta, era aritmeticamente a mesma coisa, a que eu respondia que politicamente votar em A ou B não era a mesma coisa, já que não era indiferente quem ia à segunda volta, se a houvesse. Se a escolha fosse em Nobre, era para o PCP um bocado difícil apelar na segunda volta ao voto nele, depois de o seu jornal “o ter classificado como fascista.” Mas a seguir acrescentava: “coisa que diga-se de passagem, não sendo completamente verdade, tem algum fundo, vejam-se  as palavras de Nobre no debate com Francisco Lopes”. Este “vejam-se” remetia para um post anterior, onde fazia uma análise dos debates e, a propósito do realizado entre Francisco Lopes e Fernando Nobre, dizia que este tinha feito afirmações que roçavam “perigosamente o fascismo”.

Que me responde Vítor Dias nos comentários ao meu post, que eu tinha-me que pôr de acordo com Francisco Louçã porque enquanto que este dizia que “Nobre fez uma campanha com traços populistas – o jornal do PCP chama-lhes “fascistas”, o que é certamente inaceitável –“, para mim, que não tinha engravidado (penso que seja esta a expressão, pois o que escreve VD foi "engracidou") de ouvido, o jornal do PCP classifica-o “como fascista”, no singular. E termina VD “espero que considere que chamar «fascistas» a TRAÇOS DE POPULISMO NÃO é A MESMA COISA QUE CHAMAR FASCISTA AO CANDIDATO.
Como se percebe, para quem leu o meu texto, eu não citava o Francisco Louçã, mais remetia para um texto meu anterior até ás eleições, enquanto que o de Louçã é posterior, e apesar de não transcrever ipsis verbis o que dizia o jornal do PCP, até concordava com ele, pois achava que, no debate com Francisco Lopes, as afirmações de Nobre roçavam “perigosamente o fascismo”.
Percebe-se deste primeiro comentário que não só VD não lê com cuidado os textos que critica, como os apoiantes de Alegre teriam que seguir as palavras de Louçã, tal como ele, VD, bebe de certeza os comunicados do Comité Central.

O segundo comentário ainda é mais sectário. Porque, não tendo percebido nada do que escrevi, continua a dizer que eu fazia uma referência crítica ao Avante. Percebe-se perfeitamente que no meu post não havia qualquer referência crítica ao Avante, havia sim uma referência crítica às contas aritméticas de VD que podiam não bater certo com as contas políticas.
E depois num gesto de puro sectarismo, ódio e paranóia, vem referir a propósito de nada que Francisco Louçã trafulhou (verbo que não existe segundo o Portal de Língua Portuguesa) duas vezes. Quando atribuía autoria de uma crónica assinada ao jornal do PCP. Rábula muito antiga de VD, que sempre quis separar as crónicas assinadas no Avante, das posições do seu director, como se elas não reflectissem o mesmo pensamento. Se o seu blog, nos textos de opinião, reflecte sempre as posições do seu Partido, não havia de acontecer isso no jornal Avante.
Depois numa apreçada manipulação transforma os “traços populistas”, que segundo Louçã “seriam, para o jornal do PCP “fascistas”, em fascista, cometendo assim o mesmo erro que me atribui a mim logo no seu primeiro comentário. De facto o que dizia o articulista é que o pensamento político de Nobre era fasciscante e não fascista, mas em qualquer dos casos, como VD sublinhou no seu primeiro comentário, era o pensamento político e não o candidato que era fascista.

Já se sabe que isto não teria importância nenhuma se VD se limitasse simplesmente a comentar as minhas afirmações, quando o que pretendia era por um lado dizer que eu contradizia Louçã. Como se no Bloco, ao contrário do que sucede no PCP, não haja liberdade pública de se discordar de Louçã, ou seja de quem for, e ao mesmo tempo chamar trafulha a Francisco Louçã, numa clara manifestação de sectarismo, ódio e paranóia.

Em próximo post irei comentar as posições do PCP sobre o Bloco, de que VD é, neste momento, um simples peão de brega.

25/01/2011

A quadratura do círculo ou da impossibilidade de se ganhar estas eleições

Há tempos escrevi num post (6/11/10)  “De facto a situação está muito complicada e eu não gostaria de ignorar esta situação. Com um PS claramente comprometido com o centrão, ou mesmo com as políticas de direita, não há nenhum candidato de esquerda, mesmo independente e super partidário, que resista a que uma das suas bases de apoio não só não esteja nada interessada na sua eleição, dado que isso provavelmente só iria irritar os “mercados” internacionais a que ela está atada de pés e mãos, como esse facto inverteria a sua lógica de apoio à formação do um bloco central.
Se o candidato não perceber esta situação e continuar a tentar trazer todo o PS atrás de si está condenado à derrota mais clamorosa.
Não quero ser profeta em casa própria, até porque depois me envolvi, e bem, na campanha do Alegre escrevendo alguns post para um blog de apoio, Alegro Pianíssimo, no entanto, já pressentia que alguma coisa de mal poderia acontecer.
O problema central desta candidatura, é de que as eleições se realizaram no pior momento. Não era possível esbater uma das piores ofensivas contra os trabalhadores e simultaneamente fazer apelo à luta contra a ofensiva da direita se Cavaco ganhasse as eleições. Isto não era credível aos olhos do eleitorado. Por isso Cavaco, num rábula que já lhe tinha rendido em 1985, quando se soube distanciar do Governo de Bloco Central, apareceu em algumas das iniciativas da campanha como o chefe da oposição. Acalentou as manifestações do ensino privado contra os cortes nos subsídios. Deu apoio às manifestações contra o encerramento do metro da Lousã. Oh! Descaramento dos descaramentos, achou injustos os descontos no salário da função pública, depois de ter acabado de aprovar o orçamento que as autorizava.
Alegre só podia ter mais votação e quem sabe ganhar as eleições, se fizesse a fronda de todos os descontentamentos. Houve alguns brincalhões que se entretiveram na blogosfera a descobrir discursos de Alegre contra o Cavaco que se poderiam aplicar ipsis verbis contra Sócrates e, no entanto, ele só se ficava pelo primeiro.
Por outro lado, Alegre não era o candidato do PS, da família e das redes de compromissos estabelecidos. Por muito que a determinada altura se pensasse que o PS tinha posto a sua máquina ao seu serviço, a verdade é que se sabia que aqui e ali os responsáveis não apareciam, Em Setúbal Victor Ramalho, o responsável pela concelhia, nunca pôs os pés numa reunião.
Porque apoiou o Bloco Alegre, porque este representava a ala esquerda do PS, que é o eleitorado onde o Bloco poderá ir captar gente. Ficará o Bloco irremediavelmente ligado a esta derrota? Espero bem que não.

E os outro candidatos. Sobre Cavaco, já sabem o que penso, o conjunto abundante de post que redigi contra ele, dão bem o ódio que lhe voto e o discurso da noite das eleições revela bem o carácter mesquinho de tal personagem. É evidente que a vitória dele se deve a aparecer como o anti-Socrates e, por outro lado, ser um referencial da estabilidade e a possibilidade de arrebanhar toda a direita, que nestas coisas não tem os escrúpulos da esquerda e sabe em quem deve votar.

Nobre só em pequena parte representou aquilo que Manuel Alegre foi nas eleições presidenciais anteriores. Aí provavelmente com um pouco mais de esforço ele tinha juntado todos os descontentes com o estado a que isto tinha chegado. Nestas eleições, o discurso de Nobre foi completamente redondo, apelando a uma luta contra os partidos e a vida política nacional sem o mínimo de conteúdo. Vítor Dias lembrou, e bem, como em 76, um homem moribundo, a definhar num leito do hospital, Pinheiro de Azevedo, teve 14 e tal por cento, só porque - agora a interpretação já é minha - as pessoas não sabiam a onde ir votar. Concorriam nessas eleições Ramalho Eanes, apoiado pelo arco governamental: CDS, PSD e PS, Otelo pela extrema-esquerda e Octávio Pato, uma candidatura inventada pelo PCP, para não apoiar Otelo e não hostilizar Ramalho Eanes.
Já que a determinada altura me envolvi  com o Vítor Dias em polémica sobre o voto útil nas primeiras volta destas eleições. Gostaria agora de fazer a pergunta que na altura fiz: e se por um pouco mais de votos fosse o Nobre a passar à segunda volta, que faria o PCP depois de, no seu jornal ,o ter classificado como fascista? Coisa que diga-se de passagem, não sendo completamente verdade, tem algum fundo, vejam-se  as palavras de Nobre no debate com Francisco Lopes.

Quanto a Francisco Lopes não tenho nada a dizer. É sempre a mesma apagada e vil tristeza, mais 1% votos, menos 1% de votos e a incapacidade de arriscar para se sair disto.

Parece que houve para aí uns rapazes que foram votar no Coelho convencidos que ele era o candidato da esquerda. Se há uma coisa que aprendi ao longo dos anos de militância comunista é não me deixar arrastar pela inconsequência política. Pode ser que o homem até seja uma plataforma de oposição ao jardinismo. A ver vamos.

Vencendo Cavaco e completado este ciclo de impossibilidades de dissolução do Parlamento, agora é que começam as coisas complicadas, primeiro para o povo português e depois para os parlamentares. Vamos a ver quem politicamente tem unhas para tocar guitarra.

22/01/2011

Elogio ao camarada morto

Tinha falado com ele pelo telefone há dois ou três dias, disse-me que estava a tomar antibiótico para uma tosse horrível que o atacava, já tinha dificuldade em andar e falar. Respondi-lhe que iria arrebitar. No Domingo chegou, pela voz do Mário, a notícia de que tinha morrido naquela manhã, às 10h 30. O seu nome de guerra era Quim João, na vida civil chamava-se Joaquim João dos Santos Brás.

Conhecemo-nos no Liceu Gil Vicente, não sei quando, mas pelo menos tenho a certeza que no 6º e 7ºano eu estava na cadeira da frente e ele na de trás. Começou aí a nossa amizade, tinha eu 16 anos e ele 15.
Provavelmente, por incentivo meu, apareceu no grupo que se reunia, entre as 7 e as 8h da tarde, num gradeamento que ficava ao cimo da Angelina Vidal, do lado de quem vira para a rua da Graça. Por vezes era em frente, junto a uma venda de jornais, que nessa altura estavam arrumados em cima do passeio. Toda essa zona tinha o nome de Quatro Caminhos, que resultavam do cruzamento da Angelina Vidal, com a rua da Graça, Sapadores e Penha de França. Reunimo-nos aí bem mais de dez anos, até que a vida nos dispersou: casamentos, tropa, prisões, novas moradas, exílios, enfim a vida.
aqui tinha feito a descrição deste grupo.

Nos finais do nosso 7º ano, admitamos Primavera de 1961, por sugestão do pai do Mário, começamos a frequentar uns colóquios que se realizavam na Cooperativa dos Trabalhadores de Portugal, ali às Escadinhas do Duque. A primeira a que assistimos foi de Alberto Ferreira, sobre filosofia, já se sabe que encapotadamente sobre filosofia marxista. A sua importância sobre o meu espírito em formação foi tão grande que rapidamente ultrapassei a filosofia de António Sérgio, nessa altura un mâitre-à-penser para os jovens democratas da minha geração, e me aproximei rapidamente do marxismo. Sobre estas conferências já falei aqui.
Só gostava de acrescentar um pequeno episódio picaresco. No regresso a casa, sempre a pé, passava-se pela Praça do Chile e ia-se beber um copo de vinho verde à pressão, acompanhado de torresmos. Recordações da juventude!

No final do Verão de 1961, antes de entráramos para as diversas faculdades que cada um ia frequentar, o Quim João foi para o Técnico, Engenharia Civil, eu para Ciências, outros para Direito, chegou-nos de Paris um pândego, e digo isto hoje, porque na altura não tínhamos a clara consciência da vacuidade desta personagem, nosso colega no liceu, que vinha credenciado para organizar um grupo oposicionista aqui em Lisboa. Levámos a sério o convite e começámo-nos a reunir, tentando juntar novos amigos. Recolhemos fundos, muito poucos, comprámos ou deram-nos uma caixa de lápis vermelhos que escreviam nas paredes e eu e outro ainda andámos a apreçar uma máquina de stencil, objecto hoje pré-histórico, mas que era o único que nos permitia reproduzir centenas de comunicados. Rapidamente nos demos conta da inutilidade da nossa acção. Por muito que nos organizássemos éramos sempre uma gota de água no oceano e já havia outros a fazer o mesmo. O tal pândego nunca nos indicou quem eram os seus mandantes. Assim, ao fim de algum tempo acabámos a fazer conferências de aprofundamento ideológico. Esta experiência está também já relatadas no post anteriormente assinalado.

Em 1962, em 24 e 25 de Março, ia ter lugar o Dia do Estudante. Os episódios do primeiro dia já eu os descrevi aqui. Aí relato a agressão policial ao Quim João e a sua posterior prisão à saída do Hospital Santa Maria, onde se tinha ido tratar. A confirmação da história pelo próprio está num PS. aqui. A partir daí este meu amigo tornou-se um homem “politicamente suspeito”. Soube-o quando foi informado pelo aspirante que comandava o nosso pelotão em Mafra, que nos últimos dias de instrução o chamou a ele e, vejam lá, ao Correia de Campos, o ex-ministro do PS, que agora mostra simpatias por Cavaco Silva, para lhes transmitir essa informação, garantindo-lhes que ele não era polícia e que por isso não tinha que prestar informações à PIDE. Era o 25 de Abril já a despontar. Já agora, acrescento que fizemos juntos, em Mafra, os três primeiros meses de tropa. Pertencemos à incorporação de Abril de 70.

Mas a nossa maior experiência e que nos marcou para a vida inteira foi a nossa actividade no Cine-Clube Universitário de Lisboa (CCUL). Ele entrou mais cedo do que eu. Foi juntamente com o Mário oferecer-se para colaborar. A primeira tarefa que lhe deram foi arranjar mil envelopes e os respectivos selos para enviar uma circular aos sócios. Pensou que era simples. Na primeira capelista que entrou a pedir mil envelopes, deram-lhe para aí uns 50 e foi com muita sorte. Reunir os mil foi uma aventura. Chegou com eles, orgulhoso, ao cine-clube, ninguém lhe agradeceu aquele esforço. Continuou a trabalhar. No ano lectivo de 1967/68 torna-se seu presidente e inicia a época com um ciclo sobre cinema americano, que foi a sua glória, em que se destacam As duas feras, de Howard Hawks, A Corda, de Alfred Hitchcock, Serenata à Chuva, de Stanley Donen e Gene Kelly, Pistoleiros da Noite, de Sam Peckinpah e Jerry 8 ¾, do próprio Jerry Lewis, isto depois de um ano agitado em que tinha havido uma cena de pateada, relatada por mim aqui.
É evidente que o Quim João também tinha que estar presente quando da invasão do Cine-Clube pela PIDE. Ver aqui. No episódio que relato, de os pides nos ameaçarem com uns tabefes, era ele o principal destinatário, já que involuntariamente tinha tocado no telefone. Foi também ameaçado de prisão quando se dirigiu à PIDE para reclamar os ficheiros que nos tinham sido roubados.

Neste nosso círculo de amigos havia de entrar também o PCP. Como os dois pertencíamos ao Cine-Clube, achava o Partido que a nossa frente de trabalho era aquela e nunca nos pediu muito. Penso que durante um certo tempo era eu que recebia as quotas do Quim João e lhes dava depois destino. Acho que o envolvi a ele e a um primo meu numa distribuição nocturna de comunicados pelas caixas de correio de não sei que bairro. Sei que quando nos embrenhámos mais a sério na actividade partidária já não soube nada da sua vida política, nem ele da minha.

Depois do 25 de Abril, também tivemos destinos diferentes no PCP, eu fiquei ligado primeiro aos professores e depois à função pública e ele ao sector intelectual, às coisas do cinema. Só mais tarde nos juntámos e fomos contemporâneos, na direcção do sector intelectual, eu novamente ligado ao cineclubismo, agora através do ABC Cine-Clube de Lisboa, e ele penso que continuava com o cinema. Depois a vida foi-lhe um pouco madrasta, a empresa onde trabalhava afastou-o, teve que recomeçar a meio da vida num novo emprego, numa Câmara Municipal, a de Grândola. Acho que gostou. Teve liberdade suficiente para fazer obra e melhorou sensivelmente a qualidade de vida de algumas populações. Orgulhava-se muito das suas criações. Com a doença veio a reforma. Entreteve-se nos últimos anos a compilar para DVD todos os filmes que possuía noutros formatos, instalou uma pequena sala de cinema na sua casa, em Grândola, e teve a felicidade de ver os seus filhos enveredarem profissionalmente pelo cinema, que foi desde o princípio, no cine-clube, a sua paixão.

Morreu  militante do PCP, mas muito descrente das suas possibilidades de renovação. Morreu, por isso, um camarada.

PS.: Imagem do filme A Desaparecida, de John Ford. Um filme de que gostava.

PS. (31/101/11): da leitura de um artigo de Pacheco Pereira, no Público, e de um post de Vítor Dias, no seu blog, percebi que a memória dos meus tempos de juventude tem algumas falhas. Chamei “máquina de stencil”, àquilo que na altura se chamava simplesmente copiógrafo e que utilizava, para imprimir vários milhares de comunicados, um stencil batido à máquina.

Um camarada do PCP e amigo enviou-me hoje um abraço em memória do Quim João, dizendo que tinha visto a notícia no Avante, de 27/01/11. Fui ler, afirmam que ele entrou para o Partido, em 1980, tirem-lhe menos 15 anos e estarão a falar verdade. Penso que não foi por desconsideração, mas a concelhia de Grândola devia andar mal informada.

As últimas acções de agitação

Colaborei durante os dias reservados à campanha eleitoral num blog colectivo de apoio a Manuel Alegre. Fizeram-me esse convite e aceitei. Não foi a primeira vez na vida que cooperei com socialistas e outros independentes. Na campanha de Jorge Sampaio para a presidência da Câmara de Lisboa, na sua primeira eleição, criaram-se estruturas comuns, em que eu participei em nome do PCP. Em qualquer dos casos não me arrependi. Fiz aquilo em que acreditava.

Não sei qual será o destino deste blog, Alegro Pianíssimo, mas desde já declaro que se houver segunda volta continuarei a colaborar e se houver propostas para o futuro nada me impedirá de ir ouvi-las. Já tenho anos suficientes para saber onde me meto.

Deixo-vos meus dois últimos posts para aquele blog.

“Ter mais de 60%, que é para a ripada ser maior aos talibãs”

Assim se exprimia um apoiante de Cavaco, em Oliveira do Hospital, em frente de uma câmara de televisão. A forma, como se vê, não é das mais elegantes, mas ao candidato e aos seus apoiantes não se exige mais. De quem, recorrendo à demagogia mais descabelada, aconselha a não se prolongar por mais umas semanas a campanha eleitoral porque “os custos seriam muito elevados para Portugal e para os portugueses”, ou de quem destina às mulheres o papel de fadas do lar, porque são elas “que gerem os orçamentos das famílias e são as mais bem preparadas para identificar onde está o rumo certo, aqueles que as podem ajudar para melhorar o bem estar dos seus maridos e dos seus filhos,” não se pode esperar um estilo diferente do dos seus apoiantes.
Cavaco, no seu discurso desconchavado, promete benesses a quem nele votar, os seus apoiantes, pelo contrário, prometem ripada nos talibãs, que somos nós.

É o fascismo doce que sempre se perfilou por detrás de palavras mansas e cordatas dos democratas “pós-25 de Abril”. Mas, está sempre à porta, à espera de poder entrar. Não é por acaso que Cavaco condecorou Pides e não Salgueiro Maia, ou permitiu que o seu Secretário de Estado interditasse o envio do livro de Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, a um prémio europeu. Mas também não é por acaso que se vai à PIDE declarar que se está integrado no regime. Este homem não tem qualquer pinta de democrata, só o é porque os tempos correm de feição a este tipo de Governo.

 
As “encomendas” de Cavaco Silva

Hoje Cavaco Silva declarou à Rádio Renascença que alguns jornalistas tinham recebido encomendas para abordar nos seus órgãos de informação as negociatas em que ele se tinha metido. Já se sabe que o termo negociata é meu.

É preciso ter desplante para vir apoucar os jornalistas por receberem encomendas que incomodam S. Exª e ter-se esquecido da encomenda que o seu assessor para a imprensa, Fernando Lima, fez a um tal jornalista do Público para fazer umas averiguações sobre certos senhores que frequentavam a sua comitiva, quando da sua deslocação à Madeira há alguns anos. Parece também que já se está a esquecer da encomenda que fez a José Manuel Fernandes para que este lançasse no Público a atoarda de que ele, Cavaco Silva, andava a ser escutado pelo Governo, isto numa altura em que o PSD, chefiado por Manuela Ferreira Leite, falava da "asfixia democrática".

Grande encomenda me saiu este Cavaco Silva, ficar-lhe-ia bem conhecer este ditado popular “quem tem telhados de vidro não atira pedras ao do vizinho”.

PS.: fotografia com a folha da ficha da PIDE preenchida pelo próprio Cavaco Silva, dizendo que estava integrado no regime. Clique para ampliar a imagem.

21/01/2011

Cavaco Silva: ligações perigosas



Uma pequena achega para o esclarecimento das trapalhadas em que se envolveu Cavaco Silva.

Boas razões para (não) votar Cavaco Silva



Esta é mesmo para brincar, dizendo coisas sérias.