14/02/2010

O que nos está a acontecer – a Liberdade de Imprensa


Com este título suficientemente vago, pretendo iniciar uma reflexão sobre o que se está a passar neste país.

Começo por um lamento. Escrevi já alguns textos (aqui e aqui) de índole pessoal sobre José Sócrates e o seu comportamento numa reunião internacional, ainda como Ministro do Ambiente, em que eu também participei, e que quanto a mim não tiveram quaisquer comentários significativos. Hoje, depois de tudo o que se sabe dele, até no modo como se relaciona com os seus homens de mão (veja-se o Sol desta semana), a apreciação que eu faço do seu carácter parece-me corresponder à realidade. Mas este é só um dos aspectos do problema que representa a manutenção de José Sócrates à frente dos destinos do país. Irei abordar outros.

Vamos agora às tão faladas liberdades de expressão e de imprensa. Quanto à primeira é visível que não está ameaçada. Isto porque é uma liberdade que, se não tiver suporte físico, não significa nada. Ou seja, eu posso em qualquer lugar dizer mal do Governo e de José Sócrates e até, com algumas limitações, na Internet, nos blogs pessoais – mesmo aqui, que eu saiba, já houve processos contra alguns bloggers –, mas se eu o quiser fazer nos media, já tenho algumas limitações. Dependo dos meios de comunicação que existem e de quem os controla. Aquela minha liberdade, para ser eficaz e poder extravasar o círculo de amigos onde vivo, precisa de ter um meio onde se expressar e ele nem sempre está acessível, mesmo que a minha opinião tenha qualidade. Exceptua-se deste caso os fóruns que alguns meios de comunicação criaram, nos canais de informação por cabo e na TSF, que eu conheça, que são autênticas catarses colectivas de crítica ao Governo.
Mas aprofundemos um pouco a questão. Na sociedade capitalista, nos dias de hoje, os media são propriedade de grandes grupos financeiros – que no caso português estão muito dependentes do Governo –, cuja liberdade está condicionada não só pelos interesses desses grupos mas também, em geral, pelo sistema ideológico dominante. Isto é um facto, e mesmo que na lei se fale da independência do director, dos conselhos de redacção e haja algumas garantias para os seus jornalistas, a verdade é que em última instância quem manda é quem paga o salário ao fim do mês. Apesar de achar bem que todos os jornalistas reivindiquem esta sua liberdade e independência – temos sempre que confrontar o poder com os seus limites – dificilmente pudemos fugir às imposições do patrão. É evidente que hoje qualquer órgão de informação não transmite só as directrizes do patrão. Para poder ser vendável tem que mostrar alguma independência, que lhe permita ter alguma credibilidade junto da opinião pública. Simplesmente, e de acordo, com aquilo que eu tenho escrito nos meus últimos posts (ver aqui e aqui) essa liberdade é condicionada pelas múltiplas escolhas e opções dos seus responsáveis, sejam eles quais forem.
Por isso, dizer que há liberdade absoluta de informar não é verdade. Não há, ela está condicionada nos grandes meios de comunicação.
O que é que Sócrates queria? Era tomar conta, por “interposta pessoa”, de uma série de órgãos de informação, onde não só podia condicionar a opinião, mas também correr com alguma gente incómoda. É evidente que os programas que se pretendiam eliminar não eram de esquerda. A esquerda, à esquerda do PS e mesmo a esquerda do PS, não tem qualquer órgão de informação que lhe seja favorável. Por isso, o que se pretendia suprimir eram os ataques que vinham da direita e é por isso que ela está neste momento a berrar tanto.
A indignação que percorre alguns comentaristas, políticos e jornalistas, provem daqueles a quem José Sócrates e os seus “amigos” estão a tentar cortar o pio. Porque convenhamos, quando são ataques à esquerda, que consistem normalmente em ignorar os seus pontos de vista, ninguém protesta.
Esta é quanto a mim aquilo que destaco politicamente deste assunto, no entanto isso não significa que possamos ficar indiferentes às acções de Sócrates contra a liberdade de imprensa. Não podemos é alinhar com o coro de virgens ofendidas em que se transformaram os arautos da direita. Temos que desmascarar não só os ataques à liberdade de informação, mas também todos aqueles que por omissão ou adulteração são quotidianamente cometidos contra as diversas opiniões da esquerda.
Só um exemplo, quando Pacheco Pereira, com razão, se indigna com o que se está a passar, esquece que no programa a Quadratura do Círculo, onde pontifica desde sempre, há muito que não a aparece alguém à esquerda do PS. Naquele programa quando se diz mal, por exemplo, do Bloco de Esquerda, os três comentaristas, com riso alvar, estão sempre de acordo e não há ninguém para contestar essa opinião. Por aqui vemos em que é que consiste a liberdade de imprensa para alguns, é só para eles e para os seus amigos, os outros que vão à vida.
Por isso, aquilo que quero afirmar é que a liberdade de imprensa quando nasce é para todos, o que não significa que ilibe Sócrates daquilo que está a fazer que é silenciar as vozes incómodas e influenciar a opinião pública.

Por aqui me fico, esperando noutros posts desenvolver outros aspectos da crise actual.
Imagem retirada do blog Wehave Kaosinthegarden

10/02/2010

Governo, José Sócrates e PS


As declarações que hoje o primeiro-ministro fez sobre o caso das escutas, para lá de representarem um completo desatino em matéria de transmissão de mensagem – está convencido que quanto mais gritar e criminalizar os jornalistas mais as pessoas lhe dão razão – revelam, ao mesmo tempo, um jogo de sombras preocupante.
Assim, nas primeiras declarações que fez, já lá vão uns meses, não sabia nada de nada. Até o seu correligionário António Vitorino declarou, nas Notas Soltas, que eram erradas, porque já todos sabiam que a TVI estava à venda. Depois, mais tarde, quando se começou a falar no processo Face Oculta, já veio dizer que oficialmente não sabia de nada, o que é muito diferente. Hoje finalmente vem declarar que o Governo nunca deu ordem para que a PT comprasse a TVI. Ou seja, o discurso foi-se afinando, de modo a se chegar a este preciosismo de que o Governo não decidiu em Conselho de Ministros que a PT iria comprar a TVI para afastar José Eduardo Moniz e Manuela Moura Guedes.
É interessante que no telejornal da hora do almoço, da RTP, o locutor ao resumir o que disse Sócrates declara que ele nunca tinha dado ordem para se comprar a TVI. Enquanto Sócrates falava no Governo o locutor já estava a transpor a decisão para Sócrates, coisa que de facto ele não se atreveu a declarar.
Torna-se portanto claro que Sócrates vai-se cada vez mais refugiar na acção do Governo, para garantir de que nada de que o acusam é verdade, quando não é difícil perceber que a actuação de um primeiro-ministro e da sua entourage é uma coisa que nunca estará de certeza vertida para decreto-lei. Já outra, diferente, é a acção do Governo que, segundo penso, terá que ser decidida em Conselho de Ministros ou pelo menos em despacho ministerial.
Portanto, Sócrates ainda não desmentiu que, com a cumplicidade de uma série de homens de mão, que espalhou por empresas públicas e privadas e que só o conseguiu fazer porque é primeiro-ministro, estava a preparar-se para calar de vez vozes incómodas, para ele, que não para a direita, verdade se diga.
É aqui que entra o PS. José Sócrates não toma estas atitudes enquanto Secretário-geral daquele partido, mas sim enquanto primeiro-ministro que tem o poder para o fazer. O PS só serve, primeiro, para lhe fornecer quadros fieis e depois para justificar a posteriori estas suas acções. Vimos hoje uma série de militantes, provavelmente com a morte na alma, a justificarem o injustificável, na certeza porem de que se não o fizessem tudo isto revertia para o PSD e para a direita. E é sempre para não dar armas ao adversário que se justificam as piores vilanias cometidas pelos nossos. A gente séria e de mãos limpas, que ainda existe naquele partido, se não toma qualquer atitude, não só se afunda com Sócrates, como é corresponsáveis pelo que tem vindo a acontecer.

07/02/2010

Agarrem-me, se não eu bato-lhe


Num programa da Quadratura do Círculo, António Costa disse que um Governo minoritário só se podia manter no Poder se governasse com altos índices de popularidade. Foi de facto o que sucedeu com os governos de Guterres.
Esta afirmação foi feita ainda em tempo de vacas gordas, quando se fingia que se desconhecia o valor do deficit e não se tinha ainda apresentado o orçamento. Hoje ela seria impossível, porque com as medidas restritivas que vão ser impostas, ninguém acredita que se possa governar com elevados índices de popularidade.
É evidente que esta opinião de António Costa era provavelmente só partilhada por ele, porque desde o princípio se percebeu que o Governo de José Sócrates não iria por aí. Iria utilizar a manobra política e a encenação como método de Governo, tentando dar o ar de que tinha sido muito correcto com a oposição e que esta o manietava, podendo a qualquer momento rebentar uma crise política.
Foi este o caminho seguido desde o princípio. Primeiro, a encenação com quem iria fazer governo. Comportou-se como a carochinha que estava à janela e se oferecia para qualquer um que passasse. Depois, tentando fazer jogo duplo com a oposição, prometendo ao CDS a resolução do problema dos professores e acabando por o solucionar com o PSD, que permitiu que este problema passasse para os sindicatos. A seguir a estratégia da vitimização, ao classificar um conjunto de medidas aprovadas na Assembleia da República, relativamente a impostos, como uma 6º feira negra, dia em que tinha verificado uma “coligação negativa” para o derrotar. Depois destas encenações, consegue, com a ajuda do Presidente da República, fazer passar orçamento, que era aquilo que no fundo lhe garantia a sobrevivência. Mas ainda este assunto estava a ser discutido, quando começa a encenação sobre a Lei das Finanças Regionais, esticando a corda até ao limite do possível, acabando ridiculamente com a palestra do Ministro das Finanças, na quinta-feira, onde depois da ameaça, nunca dita, mas sempre sugerida da sua demissão, acaba com o ministro a dizer que até 2013, não iria aplicar a tal lei. Estava de pedra e cal e nunca lhe passou pela cabeça demitir-se, isto não disse, mas é aquilo que se deduz de toda esta trágico-comédia.
Tenho para mim, que estas encenações e rábulas não poderão durar muito. Pode-se mentir uma vez, duas, três, mas a determinada altura já ninguém acredita nisso, daí o título do meu post: agarrem-me, se não eu bato-lhe.

Dito isto, penso que este Governo já ultrapassou o prazo de validade. José Sócrates é um incapaz e uma perigosa personagem, que as últimas revelações sobre as escutas da operação Face Oculta vieram pôr mais uma vez em destaque. O Partido Socialista corre o risco com este primeiro-ministro de se afundar nas próximas eleições.
O problema central desta crise é que não é só política, é também económica, com uma forte componente de terror junto da opinião pública, mas acima de tudo de quem vive do seu trabalho ou, pior ainda, da ausência dele. E esta situação nem sempre é boa conselheira. A história está cheia de exemplos de como podem acabar as crises económicas. A ascensão do nazi-fascismo foi a resolução pelas classes dominantes da crise de 1929, mas também a solução que as camadas intermédias e alguns trabalhadores encontraram para superar a situação de desgraça económica em que se encontravam.
Sem de modo algum considerar que estamos à porta do fascismo, a verdade é que esta crise, para que o PS de Sócrates nos está a arrastar, pode ser resolvida lamentavelmente a favor da direita. PSD e CDS, apoiados em Cavaco, podem muito bem resolver a situação a favor do grande capital e dos patrões, introduzindo os cortes que ultimamente se tem reclamado em relação aos salários da função pública e que rapidamente se estenderiam a todos os outros trabalhadores.
A esquerda, à esquerda do PS, tem que estar prevenida para isso. Não podendo cair nos braços de Sócrates, tem que mostrar que é também uma alternativa credível para a saída da crise. Sexta-feira parece que derrotámos o Governo ao aprovar a Lei das Finanças Regionais, e provavelmente não havia outra saída, mas amanhã pode ser a direita a derrotar-nos. Está tudo em aberto.

02/02/2010

Não é bílis, é indignação


Como é costume não tenho qualquer reacção dos meus leitores, até o operário para todas as horas e circunstâncias se foi embora, no entanto, imagino que andarão todos a pensar este tipo anda bilioso, irritado com os comentadores - até lhes promete pancada -, com as agências de rating, com a direita, com o programa de Mário Crespo, Plano Inclinado, com José Sócrates e o seu Governo, no fundo, com os media dominantes.
A verdade é que posso andar zangado com o mundo, mas quem como eu passa o dia a ver, nas horas certas, os noticiários da TV e principalmente os comentários que a toda a hora as televisões por cabo nos impingem, não posso, sendo de esquerda, andar muito feliz da vida. Ainda hoje no noticiário da 14h00, da SIC Notícias, lá vem um fiscalista, parece-me que foi assim que o apresentaram, propor uma redução nos vencimentos da função pública, aí de uns 20%, que, segundo ele, não acarretava a pobreza dos seus trabalhadores e dava muito jeito para a redução do deficit do Estado. E como exemplo citava a Irlanda e outros países que já o tinham feito. Ora a verdade, que eu saiba, isso só se verificou na Irlanda, acho que a Grécia ainda não o fez, portanto acrescentar “e outros países” parece-me uma maneira hábil de dizer que baixar salários, principalmente os dos outros, é o pão nosso de cada dia por essa Europa fora.

Mas já agora conto-vos o que é o dia de um aposentado que quer estar a par do que vai pelo mundo. De manhã, como me levanto tarde, já só vejo os noticiários das 10h00 das televisões por cabo: SIC Notícias e RTP N. As duas têm uma revista de imprensa. Foi na primeira que ouvi as afirmações do José Manuel Anes. Vocês achavam que eu devia ficar calado? Quem cala consente e eu penso que eram suficientemente graves, apoiando-se num artigo ainda pior, para não merecerem qualquer referência. Vieram logo a público e pessoalmente garantir-me que eu estava a ser injusto para com tão simpática personagem. Partindo do princípio que há afirmações mais graves, que eu deixo passar, pode ser que tenham razão.
Mas voltando às revistas de imprensa. A da SIC Notícias é, de um modo geral, inócua, leva lá pessoas que, por uma razão ou por outra, vão sobressair nos próximos dias. Já na RTP N temos logo o comentador de serviço que nos dá a orientação ideológica para a leitura dos jornais do dia. Fica-se com a ideia que os comentadores oscilam entre os afectos ao PS e os ligados à direita, partindo do princípio que em termos ideológicos não há diferença entre PSD e CDS. Já se sabe que da esquerda, à esquerda do PS, nunca vi lá nenhum. Se os há, estão tão bem escondidos que não se notam.
Depois, na hora do almoço e ao jantar, eu escolho a RTP, a televisão oficial. Sobre essa remeto-vos para a opinião do Pacheco Pereira, que já escreveu muito sobre o assunto, principalmente sobre as intervenções do primeiro-ministro que não têm qualquer contraditório. Depois às 14h00 temos a SIC Notícias, lá vêm os comentadores do costume, escolhidos a dedo, que só por mero acaso terão alguma coisa a ver com a esquerda e isto repete-se no noticiário das 19h00 e durante toda a noite com o Mário Crespo, às 21h00, e a Ana Lourenço, às 22h00. Sempre as mesmas opiniões, as dos partidos do arco governamental, como lhes gostam de chamar.
Ainda hoje, o tal fiscalista, amigo dos funcionários públicos, garantia que os partidos à esquerda do PS não contam, já que não apresentam propostas exequíveis para governar. Como se o problema fosse deles e não deste pensamento dominante que impregna os partidos da direita, o Governo de Sócrates e os media que os apoiam, que são todos.
Não será isto motivo suficiente para indignação?


PS.: ainda esta noite, para discutir os 100 dias de Governo a SIC Notícias convidou José Miguel Júdice, pelo Governo – e que apoio – e Maria João Avilez, pela oposição de direita, e assim lá completamos o arco constitucional.

01/02/2010

As Comemorações da Implantação da República


Muitos de nós tivemos um avô que andou envolvido com a República. Eu também não fujo à regra e as coisas que sei e conheci desse avô mais me levam a pensar que a República, aquela que se implantou, parece com a sua ajuda, em 1910, era amada pelas camadas populares citadinas e transportava nela um espírito de transformação e de melhoria para o nosso povo. A República era, no início do século XX, o progressismo possível.
Depois, quando eu nasci, os meus pais ainda me falavam da República como uma coisa boa, em oposição à ditadura que então imperava em Portugal. Com a adolescência e depois jovem adulto habituei-me, nem sempre, a ir ao Cemitério do Alto de S. João prestar homenagem aos vultos da República e a fugir à frente da polícia pela Morais Soares abaixo, ou até, mas isso não me recordo, de ir até à estátua de António José de Almeida, dar vivas à República. A República era também a nossa resistência ao fascismo.
Depois, com andar dos tempos, começamos a saber que a República também reprimia as greves e prendia e deportava os sindicalistas. Sabíamos também, nos tempos da ditadura, das dificuldades que existiam em fazer unidade com os velhos republicanos ou os seus herdeiros sociais-democratas. Mas, mesmo assim, a República foi sempre para mim a expressão progressista dos ideais de avanço social. Tenho sempre na memória a descrição da ida com o pai a um comício republicano do miúdo da Escola do Paraíso, do José Rodrigues Miguéis. Por isso quando hoje oiço e vejo o ar jesuítico com que os comentadores falam das comemorações da República, dizendo que teve coisa boas e más e uns inclinando-se mais para as coisas más e outros, muito poucos, para as coisas melhorezinhas sinto um arrepio e uma profunda indignação, porque a República ou se toma como todo e se encara como um dos passos para o progresso do país, como foi o 25 de Abril, ou então estas comemorações não passarão de um pastiche ou de uma recordação serôdia.

Vem tudo isto a propósito de uma série de coisas que fui ouvindo ontem, dia 31 de Janeiro. Primeiro, foi na SIC Notícias, António da Costa Pinto, bastante contido, a responder a uma perguntinha malandra da locutora de serviço se não seria altura de referendar a República. Achava que não. Depois foi às 19h00, na mesma estação, o locutor a pôr a mesma pergunta e a pedir comentários aos discursos que Sócrates e Cavaco tinham feito nesse dia de manhã. Luís Delgado, um dos comentadores de serviço, a afirmar que era monárquico – só nos faltava esta – e um jovem jornalista do Expresso, daqueles que devem querer fazer carreira rápida, bastante delambido, a dizer que era republicano, mas que achava que a República tinha sido um horror, mostrando uma ignorância profunda sobre a obra inicial da República: desconhecendo que a maioria das instituições civis existentes actualmente no país – casamentos civis, registo civil, lei do divórcio, etc. – são obra da República. Depois dizendo que bem andava o CDS em fazer comemorações separadas e falando mal do discurso de José Sócrates e bem do de Cavaco.
Depois, li um artigo no Público, daqueles que dá uma no cravo outro na ferradura, mas tem várias apreciações, uma de Rui Ramos – Um camelot de roi à portuguesa, como eu lhe chamei num post antigo – que tem esta pérola sobre a República: "Em termos de democratização, não foi um avanço, foi um dos mais graves retrocessos desde meados do século XIX." E outra de Manuel Loff, um historiador progressista, que comenta não só a opinião de Rui Ramos, afirmando que este "quer fazer da I República, se não um regime totalitário, uma espécie de estalinismo, pelo menos um projecto de natureza intrinsecamente revolucionária, que atacou de forma violenta e ilegítima as tradições mais enraizadas da sociedade portuguesa", como também dá a sua. Leiam, que vale a pena.
Por último, já hoje, este post de Victor Dias, que afirma, de acordo com o Público, que “um capelão militar discursou na cerimónia inaugural das comemorações do Centenário da República”.
Começam mal estas comemorações.

Mário Crespo ou o “Plano Inclinado” da direita


Dei de caras hoje com a notícia de que Mário Crespo tinha sido vítima de uma conversa hostil entre o Primeiro-ministro e os seus adjuntos, que pelos vistos queriam solucionar o problema que ele constitui na SIC Notícias. Foi o próprio que o escreveu em artigo que teve que ser publicado na página da net do Instituto Sá Carneiro, já que a sua crónica de opinião não foi admitida pelo jornal para onde vulgarmente escreve, o Jornal de Notícias.
Não me irei referir a Mário Crespo, nem o que penso dele, simplesmente num post anterior tinha dito horrores do seu programa na SIC Notícias, Plano Inclinado, provavelmente aquilo que mais incómodo está a causar ao Governo.
Ora bem, pode haver gente de esquerda que goste muito deste bota-abaixo sistemático encabeçado por Medina Carreira, acolitado por João Duque, um daqueles economistas de direita sempre prontos a pontificar na comunicação social, e por Nuno Crato, parece que bom cientista, mas o que não lhe dá qualquer especial mais-valia para falar de política, e normalmente sempre saindo em defesa da ideologia de direita.
Portanto, este programa, tenhamos consciência disso, leva a água ao moinho da direita, que, por exemplo, nestes temas do orçamento, apesar da “grande crítica” que podem representar as opiniões desbragadas e afascistadas de Medina Carreira, conduzem-nos sempre à ideologia que é preciso menos Estado, menos segurança social, menos defesa dos trabalhadores, maior flexibilidade e que devemos regressar, isso não o dizem, à Inglaterra vitoriana, com 14 e mais horas de trabalho por dia, despedimentos quando se quisesse e segurança social aquela que Deus desse. É esta a gente que nos andam a vender como os grandes ideólogos da reforma do Estado. Por isso, mesmo que Mário Crespo tenha imensa razão quando diz que José Sócrates não suporta a liberdade de imprensa, o que ele está a fazer conduz-nos, mesmo que indirectamente, à defesa dos interesses do Governo.

Já agora, e porque vos contei num post uma deslocação que efectuei ao Canadá, em serviço, e onde a determinada altura apareceu José Sócrates, como Ministro do Ambiente, quero-vos acrescentar mais qualquer coisa. Dizia eu na altura: “Foi acompanhado do seu fiel Secretário de Estado, Rui Gonçalves, e por mais alguns quadros superiores do Ministério, mas acima de tudo por jornalistas, uma delas da RTP I”. Ora a jornalista da RTP I era, nem mais nem menos, do que a Isabel Damásio, que hoje normalmente, entre outras actividades, faz as reportagens do Parlamento ou da actividade política. Ora quando eles chegaram, foi-nos logo dito, por quem de direito, estes até são dos melhores, mas é conveniente que estejam por longe. E assim foi até ao almoço final, onde, como eu vos relatei na altura, se foram sentar cerimoniosamente ao lado de José Sócrates, por imposição deste, e depois levados ao aeroporto nos carros da embaixada e reenviados para Lisboa, em executiva. São estes os jornalistas de que José Sócrates gosta.

31/01/2010

As dificuldades em formular um programa económico de esquerda


No meu último post debrucei-me sobre o papão que nos andam a impingir: estamos debaixo de olho das agências de rating. Comecei por afirmar que não sei nada de finanças e, por isso, debrucei-me sobre aquilo que me é mais caro, o combate ideológico. Afirmei claramente que as opções que se estavam a tomar resultavam da clara manipulação das consciências e que o PS oficial participava activamente neste processo. Mas alertei também para as dificuldades que a esquerda, à esquerda do PS, tinha na discussão deste tema e acima de tudo como formular, nestas época de crise, não só um programa, mas como assegurar a governação do país.
Alguém, que percebe de finanças e discute estes temas na base desse seu conhecimento, tem vindo a fazer uma reflexão, que não sendo igual à minha tem pelo menos alguns pontos comuns. Estou-me a referir aos artigos que José Guilherme Gusmão (JGG) tem vindo a escrever nesse blog de eleição que é o Ladrão de Bicicletas (ver aqui, aqui, aqui e aqui).
O que ressalta do texto de JGG é que o seu objectivo é entrar no combate ideológico, que neste caso se baseia no seu conhecimento da economia, tentando demonstrar as fragilidades da argumentação da direita. Diz a determinada altura: “O que é preciso ter claro é que a vitória ideológica da Direita no debate ideológico sobre ajustamento orçamental impõe uma política de combate ao défice em que os instrumentos minam os seus próprios objectivos. A contracção do investimento público e políticas públicas de apoio à economia e a própria política de distribuição de rendimentos, mesmo quando reduzem o défice no curto ou curtíssimo prazo, criam as condições para mais défice no futuro (menor crescimento, mais desemprego, menos receita fiscal sobre lucros, trabalho ou consumo, mais prestações sociais, etc.) através de um ciclo vicioso que tem sido o retrato da evolução da economia europeia”.
Portanto, a solução seria mais investimento público e onde se iria buscar esse investimento? “Uma política fiscal corajosa (sim, receita), muito em particular sobre o Sector Financeiro, é absolutamente decisiva, necessária e nenhum dos fantasmas do costume deverá impedir a sua plena concretização. É uma política que faz a diferença entre os campos políticos. Para quebrar o ciclo da recessão, são necessárias políticas públicas e essas políticas precisam de financiamento”.
Sendo este o caminho correcto e é aqui que o combate ideológico se deve travar, resta no entanto, o mais importante, primeiro para aquilo que Gusmão alerta: “Isto não quer, obviamente, dizer que a esquerda se ponha fora do debate sobre a despesa e a qualidade da despesa, como foi algumas vezes a tentação”. Corresponde no meu post anterior á expressão “temos que encontrar o tom certo”. Depois, para além destas propostas razoáveis, que nós consideramos as mais correctas possíveis, há que ter em conta a reacção da direita, porque uma política fiscal corajosa sobre o Sector Financeiro vai implicar imediatamente uma resposta deste. A tal sabotagem que o capital está sempre disposto a desencadear quando lhe vão ao bolso.
Por isso, a batalha ideológica é importante, a conquista da hegemonia é fundamental, porque quando a maioria perceber que aqueles senhores nos andam a enganar provavelmente deixará de votar neles. Mas há também a necessidade de criarmos nas pessoas a ideia de que propomos políticas responsáveis, que poderão implicar maior justiça social e a maiores benefícios sociais e, a longo prazo, o aumento dos seus rendimentos. Mas, tendo também consciência, que a curto prazo o sector financeiro, seguido do grande patronato e de todos os cães de fila de que dispõem nos meios de comunicação social, irão rosnar, tornar a vida difícil aos trabalhadores, quando não sabotar a própria economia do país. É por isso que eu falo que aquilo que nos esperará de início é “sangue, suor e lágrimas”.

Pondo um pouco de ordem nesta conversa, gostaria de sublinhar duas ou três coisas.
Primeiro: a batalha ideológica da esquerda e as suas propostas económicas têm que ser credíveis e ganhar aquilo que antes se dizia: as amplas massas populares. Tem que se empreender a luta pela hegemonia ideológica, mas não só, também organizativa e de massas. Este é sem dúvida nenhuma o programa mais importante. Retomemos a noção de Gramsci, já por mim desenvolvida neste blog, de “guerra de posição”.
Segundo: a ida para o Governo de partidos de esquerda, que no nosso país seriam à esquerda do PS oficial, não é um acontecimento fácil, nem obtido por uma varinha mágica. Há alguma esquerda que pensa assim e cita vários exemplos estrangeiros. Qualquer deles merecia um estudo particular, mas tenho a ideia que, nos casos referidos, poucas vantagens esses partidos obtiveram e normalmente conduziram ao seu enfraquecimento e até desaparecimento. No caso do Portugal o que se pedia à esquerda, à esquerda do PS, era que emberlocasse um Governo do PS oficial, avalizando as políticas económicas que este seguiu e vai continuar a seguir.
Terceiro: a possível formação de um Governo à esquerda do PS oficial, que praticasse uma política que minimamente estivesse de acordo com aquilo de que fala Gusmão, uma política pública de investimentos, que fosse buscar o dinheiro ao Sector Financeiro, iria sempre provocar a sabotagem dos principais visados e a pressão de todas as agências internacionais: FMI, UE, agências de rating e o que mais houvesse. Isso obrigaria a esquerda a uma política forte de verdade e de unidade em torno de objectivos precisos, daqui eu falar no Estado Intermédio, que não sendo de modo algum socialista, rompia com os esquemas tradicionais da lógica capitalista e neo-liberal.
Alguns propõem para Portugal uma social-democracia nórdica. Aqui eu respondo-lhes, se nesses países os níveis e a qualidade de vida são elevados , isso não significa que a social-democracia não esteja aí em recessão. Por outro lado, a nossa classe empresarial e financeira não se adaptaria facilmente a uma social-democracia nórdica. Provavelmente é preciso mais e diferente. Como costumo dizer, é necessário que estejamos à altura destes acontecimentos.
Mas continuemos a conversa noutra altura.

30/01/2010

As agências de rating. Os novos papões


Pouco percebo de finanças. Estou como o poeta, “O mais do que isto/ É Jesus Cristo, que não sabia nada de finanças/Nem consta que tivesse biblioteca” (Fernando Pessoa).
Mas dá para entender que de repente apareceu um novo papão, que transforma as nossas vidas, os nossos salários, os juros que pagamos. O Governo treme, os economistas do costume ameaçam e os comentadores económicos despejam a sua bílis sobre os parcos rendimentos dos funcionários públicos. Estamos a falar das agências de rating, que asseguram se um Estado é economicamente viável ou não, se pode continuar a pedir dinheiro emprestado ou então se é altura de fechar a torneira.
Durante anos as recomendações provinham do FMI. Se não cumpríssemos o que ele ditava, uma série de pragas abatiam-se sobre o nosso país e daí Mário Soares ter sido obrigado a pôr-se de cócoras perante as exigências daquela fundo. Foi sob a pressão do FMI que se formou o Governo do Bloco Central, presidido por Mário Soares (PS) e por Mota Pinto (PSD).
A seguir foi Bruxelas. O “pobre” do Guterres não podia fazer nada, porque íamos entrar para a moeda única, que nos obrigava a restrições incalculáveis. Depois foi o deficit que tinha que estar abaixo do 3 %. A Sócrates só restou “reformar” o Estado e pôr os funcionários públicos na ordem. Agora, são as agências de rating. Se não pusermos cobro à dívida, eis que elas consideram o nosso estado insolvente e nos obrigam a pagar juros com valores mais elevados.
No fundo, há sempre uns Governos desejosos de servir o povo, principalmente quando são do PS, mas que são impedidos de o fazer porque é preciso dar sinais a estes papões que regularmente nos são anunciados e que aparecem sobretudo nestas alturas em que se discute o orçamento.
São organizados seminários, debates na televisão, entrevistas aos chefes das confederações patronais, comentadores da área económica e não só (veja-se esse tenebroso programa do Mário Crespo chamado Plano Inclinado, na SIC Notícias), directores de jornais económicos. - Há um deles, que eu não me lembro quem é, que me apetecia ir-lhe à cara, tal foi o ar convincente com que disse que era preciso baixar os ordenados dos funcionários públicos –. Uma panóplia de instrumentos é posta em marcha para nos convencer que só com o nosso sacrifício e com uma aliança dos partidos responsáveis (PS, PSD e CDS), é que este país se endireita.
Esta é a operação mais selvagens de manipulação e lavagem ao cérebro que conheço.
Mas o mais grave disto tudo é que estas situações se deixam deliberadamente arrastar, não se tomam medidas para as evitar, para depois, perante os factos consumados, não haver outra saída que não seja o pedido de sacrifícios. Ou seja, deixa-se durante um certo tempo andar tudo à tripa forra, principalmente quando é preciso ganhar eleições, para depois em doses maciças, que nem dêem tempo ao doente para se recompor, exige-se-lhe sacrifícios porque a situação chegou a um ponto irreversível.
Esta tem sido a estratégia da direita, aliada ou não com o PS e este partido tem sido sempre aquele que colabora airosamente nesta farsa. E isto, por muito boa vontade que alguma esquerda tenha, não se pode escamotear. O PS nestas alturas é sempre cúmplice da direita e está sempre na vanguarda para pedir sacrifícios aos portugueses.
Tenho para mim, que a esquerda à esquerda do PS, nem sempre se sai da melhor forma desta situação. E porquê, primeiro porque não dispõe nos meios de comunicação social da mesma artilharia pesada que a direita tem, daí a importância de progressivamente ir conquistando a hegemonia ideológica na sociedade portuguesa. Contra uma opinião, por vezes formulada por dirigentes políticos nem sempre capazes e bem informados da esquerda, levantam-se sempre os economistas encartados, os comentadores de serviço, os directores dos jornais económicos, quando não os banqueiros. Tivemos agora esse cidadão acima de qualquer suspeita, chamado João Salgueiro, a ser recebido pelo Presidente da República com o estatuto de cidadão interessado, quando há centenas de cidadãos capazes deste país que nunca terão oportunidade de expor as suas ideias ao PR.
Mas a esquerda não perde só neste confronto político e ideológico, que é sem dúvida o mais importante. Dá sempre a ideia que as suas propostas, se fossem aprovadas, trariam mais despesa e revelar-se-iam profundamente irrealistas. E aqui é que temos que encontrar o tom certo, para aparecendo como partidos responsáveis, termos propostas que sejam exequíveis e possam trazer uma melhor distribuição e criar mais rendimento. Neste caso a esquerda não pode descrever um futuro harmonioso entre as classes sociais. Porque, as iniciativas que a esquerda irá propor levarão muito provavelmente à fuga dos capitais, à sabotagem económica, às pressões internacionais e nacionais. O capital está sempre disposto a destruir um país para que os seus lucros sobrevivam. Nesse sentido, o que nos esperaria de início é “sangue, suor e lágrimas”, mas para isso, era necessária uma grande unidade e ligação entre o povo e o seu Governo e uma política informativa de verdade. Um Governo deste tipo, em que a esquerda teria responsabilidade governativa, consistiria na criação de um novo Estado “intermédio” disposto, em liberdade, a ir à luta, correndo o risco de em qualquer momento de perder o apoio de amplas camadas populares.
Deixo para outra ocasião o desenvolvimento deste último tema.
PS. (1/02/10)
: a expressão clássica "sangue, suor e lágrimas" foi por mim deturpada e resolvi, nem sei porquê, escrever "pão, suor e lágrimas". A correcção já foi feita. Peço desculpa pelo meu involuntário disparate.

26/01/2010

"Eles não querem ser parceiros, querem ser adversários para destruir o PS"


Só hoje a SIC Notícias pôs no seu site o último debate do programa Quadratura do Círculo. Já o tinha visto, mas penso que, para poder afiançar aquilo que digo e para os meus leitores me poderem acompanhar, gosto sempre de lhes fornecer o material de referência, para não dizerem que juro em falso.
Por esse motivo, só agora faço referência a um dos debates mais interessantes que assisti naquele programa, principalmente pelas afirmações claras de António Costa sobre o Bloco de Esquerda.
Podemos dizer, que o título deste post, retirado de uma das intervenções de António Costa, resume o seu pensamento a propósito daquele partido.
Estava-se a discutir a candidatura de Manuel Alegre, é evidente que para a direita (Pacheco Pereira e Lobo Xavier) Manuel Alegre é um candidato derrotado à nascença e só vem causar embaraços ao PS, favorecendo evidentemente a recandidatura de Cavaco e a sua posterior eleição. António Costa, sem se comprometer com a candidatura do poeta, foi tentando, todo o tempo, descolar Manuel Alegre do Bloco de Esquerda, tornando-o tragável para o centro, que era o local privilegiado, segundo dizia, para se ganhar eleições.
Até aqui tudo bem, todos estavam a representar o seu papel, simplesmente António Costa resolveu pronunciar-se claramente sobre o Bloco de Esquerda, que já tinha dado o apoio àquele candidato. E o que disse é espantoso. Toda a gente no PS, excepto, honra lhe seja feita, António Vitorino, andava equivocado sobre o Bloco de Esquerda e uns mais cedo do que outros foram progressivamente verificando que o Bloco tinha “um único e principal objectivo o enfraquecimento e a divisão do PS”. E mais, contou uma história que se tinha passado nas penúltimas eleições para a Assembleia da República, as que se realizaram em 2005. O PS não estava convencido de que ia ter a maioria absoluta, por isso encetou previamente contactos com o Bloco para ver se poderiam ser parceiros numa aliança semelhante à que se verificara na Alemanha entre o SPD, o partido social-democrata alemão, e os Verdes daquele país e foi aí que verificaram que o Bloco não queria ser parceiro mas sim adversário, para destruir o PS. Ora, segundo António Costa, Manuel Alegre foi dos últimos a ter percebido isso, mas não só o disse – não sei a onde –, como permitiu, com a sua participação no Comício de Coimbra, ao lado de José Sócrates, contribuir para a vitória deste, como ainda arranjou uma solução para a Câmara de Lisboa, que foi, segundo Costa, uma “lição para as correntes sectárias de esquerda”.
Depois destas afirmações, começa-se a perceber muitas das coisas que se têm passado nestes últimos anos na política portuguesa. E, se como eu adverti, António Costa está a carregar no traço negro do Bloco, para trazer Alegre para o centro, o que acontece é que, de certo modo, a boca foge-lhe para a verdade em relação ao que pensa do Bloco.
Havia muita gente no PS que teve a ilusão que poderia encontrar naquele partido, o “berloque” de esquerda, que poderia usar para deter a influência do PCP e transformá-lo nos Verdes do PS. Ainda estou recordado quando há anos Mário Soares, num “Prós e Contras”, fez o elogio daquele partido. Ainda nestas eleições tentou fazer a mesma rábula, mas aí com objectivos já bem diferentes, como que a insinuar que era a mesma coisa votar PS ou Bloco. Mas António Costa, que comicamente tem sido aquele que mais apelos tem feito à unidade de esquerda, e até já assinou um acordo com o Bloco, transformou este partido, a partir de certa altura, no principal inimigo do PS. E assim apareceu no seu Congresso a atacar descabeladamente o Bloco, coisa que na altura muitos comentaristas não perceberam, mas que hoje depois do resultado das eleições e em função desta candidatura de Alegre, se percebe perfeitamente. Para António Costa, para o PS oficial, e para toda a direita, incluindo os comentadores encartados que povoam as nossas televisões, o Bloco de Esquerda é um inimigo a abater, porque, ao contrário do PCP, tem crescido e arrebatado votos ao PS, dando credibilidade a uma alternativa à esquerda do PS.
Há duas conclusões que gostaria de tirar destas minhas afirmações e que têm muito a ver com o que tenho vindo a escrever nestes último ano.
A primeira, o PCP nunca foi capaz de compreender os objectivos do Bloco e sempre achou que este era um limite ao seu crescimento e que iria servir de muleta ao PS, o que não sendo verdade, motivou uma campanha de descrédito em relação àquele partido. Hoje, provavelmente por motivos de propaganda interna, insiste em vender esta imagem aos seus militantes.
A segunda, houve algumas correntes de esquerda que parece que seguiram à letra este pensamento do PS. Primeiro a ilusão, que permitiu até a inclusão de alguns independentes nas listas do Bloco. Depois o afastamento e a crítica, que redundou na tentativa de viabilizar uma solução para a Câmara de Lisboa, cujo resultado é a aliança Costa-Roseta, com o beneplácito de Manuel Alegre e de muitos independentes de esquerda. Hoje pode ser que esta esquerda se junte toda na candidatura de Alegre, mas vai ser um trabalho complicado, pois há já alguns que, tal como Costa, pensam que é preciso empurrar o candidato para o centro.
Resta no meio disto tudo os irredutíveis, alguns bloquistas, mais saudosos do velho esquerdismo, alguns PCP mais aguerridos, o blog 5 Dias. Estes serão sempre os velhos-novos irredutíveis, mas porque todos os dias convivemos com eles, irão sem dúvida obrigar-nos a um grande esforço argumentativo.

23/01/2010

5 Décadas de asneira em Portugal


Costumo, vagares de um reformado, ouvir a revista da imprensa matinal quer da SIC Notícias, quer da RTPN. Calhou-me hoje ouvir a da SIC Notícias. Quem as comentava era um velho conhecido meu, José Manuel Anes. Sabia que tinha feito uma carreira no Laboratório da Polícia Judiciária, que se dedicava a temas esotéricos e de alquimia, mas já não me lembrava que era maçon, nem sabia que tinha tão intensa actividade lectiva, palestrante e de escrevinhador (ver página pessoal aqui). Penso que hoje aparecia na SIC Notícias na qualidade de candidato a presidente da direcção do Observatório de Segurança Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT), que eu suspeito que reúne tudo o que é conservador neste país.
Estive desatento aos comentários que fez sobre a maioria das notícias, no entanto, houve um que me chamou particularmente a atenção. Parece que no Diário de Notícias (DN) vinha um artigo que se referia ao terrorismo em Portugal. Posteriormente fui consultar o DN e o que estava lá escrito referia-se a 5 Décadas de Acção Armada em Portugal, de João Céu e Silva. Todo o artigo era perigoso, misturava acção armadas e atentados realizados antes e depois do 25 de Abril, relatava mais desenvolvidamente o caso do Assalto ao Santa Maria e do avião desviado por Palma Inácio e depois descrevia as acções da extrema-direita, do ELP e do MDLP, das FP-25 de Abril, e terminava com a ETA e com as prisões de dois etarras efectuadas recentemente no nosso país. Tinha também uma entrevista ao Carlos Antunes, encimada pelo título “Cunhal defendeu a insurreição armada”.
Logo o início, o artigo anuncia-se assim: “o terrorismo é a ameaça global deste início de milénio e o nosso país já foi fértil em explosões que mataram pessoas, destruíram instalações, navios e aviões e mudaram o curso da história.” - Talvez o 25 de Abril fosse uma acção terrorista –. Depois um pouco mais à frente: “um rol de actividades explosivas que a história oficial tem branqueado e esquecido, apesar da dimensão e do papel nas mudanças políticas que provocou nas últimas cinco décadas.
Vale a pena ler, já que indiquei o link, porque é um manual da parvoíce e da mistificação histórica, misturando coisas muito diferentes, como as acções posteriores ao 25 de Abril, além das da ETA e de alguns atentados internacionais que se verificaram no nosso país. Mas isto é a imprensa que temos e pior ainda, ligada ao PS. O que diriam alguns históricos daquele partido por se misturarem no mesmo saco o Henrique Galvão, o desvio do avião pelo Palma Inácio e a ETA ou os atentados do ELP. Branqueamento da história diz o autor das linhas, o que precisava era de um curso acelerado da história do século XX de Portugal.
Mas o mais grave disto foram depois os comentários de Anes, que quando eu o conheci, nos anos 60, na Faculdade de Ciências, se declarava marxista e propunha que organizássemos entre nós cursos de formação de marxismo. Como esta gente muda.
Mas dizia este senhor que todos os atentados que provocassem vítimas civis e não aplicava a palavra inocente, porque dizia que todos somos culpados, eram de condenar e por isso não se coibia de modo algum de condenar, provavelmente, as acções do assalto ao Santa Maria, ou da ARA, ou mais algumas que provocaram, na época, a morte de pessoas não envolvidas no processo.
Esta gente, que desconhece ou já não se lembra da história e hoje vive obcecada com o terrorismo, não é capaz de compreender que no tempo de Salazar, a PIDE, que torturava e matava em nome do poder, era uma organização terrorista em nome do Estado fascista, contra o qual foram levadas a efeito algumas acções armadas. Mais, esquece que terroristas eram classificados pelo fascismo todos os movimentos de libertação das colónias. Nós não íamos combater um exército inimigo, mas sim um bando de terroristas, os “turras”.
Fiquei triste porque pessoas de quem eu tinha uma boa recordação, apesar do esoterismo das suas pesquisas, alinhassem hoje pela mentalidade dominante e essa sim branqueadora do Governo de Salazar-Caetano.
Foto de José Manuel Anes

21/01/2010

Naquela noite no Cineclube


Estava eu a passar em revista os blogs que consulto diariamente, ou regularmente, quando nos Caminhos da memória dei com um post que se chamava Naquela madrugada de 21 de Janeiro de 1965. Percebi que devia estar relacionado com prisões pela PIDE e cheirava-me, dados os habituais escrevinhadores daquele blog, que teria a ver com a vaga de detenções que assolou o movimento estudantil nos finais de 1964 e nos princípios de 1965. Quem escrevia o post era um amigo meu, dos tempos do liceu Gil Vicente, o Artur Pinto, que apesar de andarmos na altura em faculdades diferentes, mantínhamos amigos comuns e não sei mesmo se não continuávamos alegremente a frequentar o Bairro da Graça onde eu morava e onde o Artur Pinto penso que também morou.
Mas não é para vos falar do Artur Pinto que aqui estou.
O que vos quero contar é que antes dessa vaga de prisões a que se refere o Artur Pinto, e em que estiveram envolvidos, hoje respeitáveis cidadãos deste país, verificou-se a prisão, entre outros, do Mário Neto, estudante na altura do IST e, na última vez que o vi, professor de uma escola superior de Coimbra. Mário Neto era na altura presidente do Cine-Clube Universitário de Lisboa (CCUL) e que, segundo um comunicado que fui desencantar ao armário das recordações, foi preso na noite de do dia 24 Novembro de 1964, cerca das 23 horas. Continua depois o comunicado: “no dia 25, à tarde, dois membros da direcção do CCUL, quando procuravam o Mário Neto em sua casa, foram igualmente presos”, eram o Fernando Costa Gomes, na altura mais conhecido pelo Bobocas, que penso que é um ilustre professor de matemática em algum país perdido da América Latina e o António Melo que, depois de muitos recomeços na vida, era, há uns tempos, editor. Mas, há muito anos que nada sei deles.
Já se sabe que, perante as notícias negras que se foram avolumando durante todo o dia 25, à noite a direcção que restava, em que eu me incluía, mais alguns colaboradores apareceram em força na sede do Cine-Clube. Pelas 22h e 30m a sede foi assaltada pela PIDE. Quem comandava o assalto era, nada menos nada mais, do que o célebre inspector José Gonçalves, o assassino de José Dias Coelho. Só viemos a saber disto mais tarde.
O comunicado, que eu venho citando, continua assim: “a sede do CCUL foi objecto de minuciosa busca por parte dos cinco agentes da PIDE. Na impossibilidade de encontrar qualquer documento incriminatório ou as armas que começaram por nos exigir, que a clareza das actividades do Cine-Clube e o constante controlo das autoridades tornavam evidentemente inadmissível, os autores do saque levaram todo o material de secretaria (incluindo ficheiros, propostas de novos sócios, números de telefone, actas, etc.) …". Depois relatava-se a ida no dia seguinte de alguns membros da Direcção à sede da PIDE saberem informações sobre a “situação em que se encontrava o nosso colega Mário Neto e das razões que justificaram a sua detenção e a busca que a nossa sede tinha sido submetida. Foi-nos respondido que não tínhamos o direito de fazer essas perguntas, que toda a Direcção era suspeita de actividades subversivas e que era do domínio público que a própria actividade do CCUL se subordinava a uma actividade ilegal”.
Terminava o comunicado, convocando uma Assembleia-Geral Extraordinária para o dia 7 de Dezembro de 1964, no IST. Dado os termos em que estava redigida a convocatória, a Assembleia foi proibida pela Direcção do IST. Convocou-se outra para 15 de Dezembro, com palavras mais comedidas, e que se realizou.
Pormenores desse assalto que nunca mais esquecerei. A sede do Cine-Clube situava-se num rés-do-chão pequeníssimo na Rua Francisco Sanches, perto da Praça do Chile e do cinema onde dávamos as sessões, que hoje já não existe, o cinema Imperial. Como o pessoal que já lá estava, mais os cinco agentes da PIDE, a sede ficou rapidamente irrespirável, e os próprios agentes bastante agressivos, já que estavam em clara inferioridade numérica. Identificaram e revistaram todos os presentes, tivemos que justificar todos os papelinhos que tínhamos connosco e elaboraram uma lista com os nossos nomes. No final vim a saber que um colaborador do CCUL, por sinal bastante gordinho e com um ar calmo, que desde que os pides chegaram até ao final não se tinha levantado da cadeira onde estava sentado, tinha passado desapercebido e não tinha sido identificado. Há sempre um episódio pícaro nestas coisas.
Depois de todos identificados um dos agentes foi à rua, penso que para telefonar para a sede da PIDE, com os nossos nomes, o que como hão-de compreender, até ele vir e verificar-se que ninguém ia preso tornou o ambiente ainda mais irrespirável. Houve uma pequena cena com o telefone que existia na sede. Fomos proibidos de telefonar ou receber chamadas. Quando o telefone tocou, um dos presentes, que estava sentado na mesa do telefone mexeu-se e deu-lhe um pequeno toque, foi o suficiente para sermos imediatamente insultados e estarmos à beira, pelo menos o “prevaricador”, de levar algumas chapadas. Depois de confirmarem que não havia ninguém para prender e de nos levarem, o que é sempre o mais importante para uma associação, o ficheiro dos sócios, lá se foram embora. Para experiência bastou.
Durante meses, não sei se anos, ia regularmente uma delegação à sede da PIDE pedir os ficheiros. Havia sempre desculpas para não nos darem. Na última vez a resposta foi tão ameaçadora, dando a entender que quem lá fosse da próxima podia ficar preso, que desistimos de os recuperar. Foi de certeza com as fotografias desses ficheiros que a PIDE pôde elaborar um levantamento de quem era de esquerda nas faculdades. Nós, à custa dos talões de cotas que os nossos cobradores, que eram da Polícia de Segurança Pública, tinham, fomos aos poucos e poucos reconstituindo os ficheiros.
Tempos depois, o nosso senhorio, que tinha alugado a sede em termos irregulares, vem-nos informar, com ar triste e pesaroso, como convém, que tínhamos que sair. Tivemos que ir pedir uma sala à Associação dos Estudantes do Técnico, que segundo me recordo era dirigida pelo Mário Lino, para instalarmos a sede do Cine-Clube, que durante ano, ano e meio, teve lá a as suas instalações.
Penso que, devido à primeira proibição da nossa Assembleia-geral e ao estatuto um pouco ambíguo do CCUL, pois todos os cine-clubes tinham os seus estatutos aprovados pelo Ministério do Interior – nessa altura os estatutos de qualquer colectividade precisavam de aprovação ministerial – enquanto que os do CCUL tinham sido aprovados pelo Ministério da Educação, foi pedida uma entrevista ao Ministro da Educação e lá fui eu mais alguém que não me recordo instalarmo-nos à porta do Secretário, do Secretário do Ministro, há espera dessa entrevista que, como era previsível, nunca veio. O ministério nessa altura era no Campo Santana.
Isto é a história de um tempo triste, em que para se desenvolver qualquer actividade cultural, que não fosse de apoio ao regime, exigia de nós esforços redobrados, fundos próprios e grande espírito de auto-sacrifício. Espero bem que estes tempos não voltem mais.
Fotografia da antiga sede da PIDE, que presentemente se transformou num condomínio privado.

19/01/2010

Eric Rohmer (1920-2010)


Morreu segunda-feira, 11 de Janeiro, o realizador de cinema francês Eric Rohmer. Não estou a dar novidade nenhuma. É do domínio público e quase todos os blogs lhe dedicaram algumas linhas. Sem querer fugir à onda, achei por bem dar a minha versão daquele cineasta e acima de tudo lembrar tempos antigos, sobre a relação do cineclubismo nacional com a Nouvelle Vague, movimento em que ele se integrou. Simplesmente, tentando procurar algumas notícias que ilustrassem o que pretendia escrever, arrastei inevitavelmente a redacção deste post, mas confesso que encontrei pequenas pérolas na imprensa da época referentes a Eric Rohmer, de que vos irei dar conhecimento. Por outro lado, a RTP 2, aproveitando a onda, e ainda bem, programou no Sábado passado, a exibição dos dois primeiros filmes de Rohmer que foram exibidos em Portugal: A minha noite em casa de Maud e O joelho de Clair, que eu consegui ver, mesmo não tendo assistido ao início do primeiro filme.

Primeiro a biografia, retirada de propósito de um boletim de um cine-clube (ABC Cine-Clube de Lisboa, Fevereiro de 1985). Começa por errar no ano em que nasceu, diz 1923, quando foi 1920 e revela o seu verdadeiro nome Maurice Schérer (confirmei na Wikipédia). Depois acrescenta: “cineclubista ainda estudante, viria a fundar mais tarde, no imediato pós-guerra, com alguns amigos – entre eles Jacques Rivette e Jean-Luc Godard – uma pequena revista, La Gazette du Cinéma.
No início dos anos 50, ainda com o próprio nome, entra para a redacção dos Cahiers du Cinéma, dirigida por André Bazin e Jacques –Doniol Valcroze, na célebre equipa que integrava também Godard, Rivette, Truffaut e Chabrol.
A sua primeira experiência cinematográfica data de 1950, realizando Journal d’un Scélerat, curta-metragem, em 16 mm.
Le Signe du Lion (1959), a sua primeira longa-metragem, constituiu um dos filmes que marcaram o início da Nouvelle Vague
”.

A estreia dos primeiros filmes de Rohmer em Portugal.
A sua primeira longa-metragem é de 1959, ano assinalado como o do de início da Nouvelle Vague, em França. É do mesmo ano de À bout de souffle (O Acossado) de Jean-Luc Godard, o filme fetiche que dá início àquela corrente cinematográfica.
Entre 1959 e 1969, data da realização de Ma Nuit Chez Maud (A minha noite em casa de Maud), que eu penso que foi o seu primeiro filme a ser exibido comercialmente em Portugal (este blog confirma aquilo de que eu me lembrava, que se tinha estreado comercialmente no cinema Estúdio, do Império), só faz uma outra longa-metragem La Collectionneuse (A coleccionadora), em 1967, que só posteriormente, já em 1974, se estreará comercialmente em Portugal. Os filmes seguintes são de 1970 e 1971, respectivamente, Le Genou de Clair (O joelho de Clair, estreado em Portugal, em 1971) e L’Amour Après Midi (O amor às três da tarde, estrado em Portugal em 26/03/1973 – do programa do cinema Londres que eu possuo). Mas o seu filme seguinte, La Marquise d’O (A marquesa de O), um dos seus filmes que eu mais aprecio, é já de 1976. Por isso, a maioria das suas longas-metragens são quase todas eles realizados e exibidos depois do 25 de Abril de 74.

Para poder elaborar esta pequena referência à recensão da obra de Rohmer em Portugal, fui desenterrar aos meus armários programas de cinec-clubes, onde verifiquei, para meu espanto, que nenhum, entre aqueles que eu possuo, anunciava, antes do 25 de Abril, qualquer exibição de um filme de Rohmer. Fui também procurar programas de sessões de cinema, tendo ficado espantado como, no início dos anos 70, os cinema que nessa altura se consideravam de arte e ensaio, mas não só, dedicavam aos filmes que exibiam folhas cuidadas, com traduções de crítica estrangeira, entrevistas com o realizador e a sua bio-filmografia, imitando desse modo a actividade desenvolvida, à época, pelos cine-clubes (foi aí que encontrei o programa referente a O amor às três da tarde). Depois, descobri recortes de jornais com críticas e balanços do ano cinematográfico e é sobre isso que vos quero dar conhecimento com mais detalhe.

Primeiro. Eduardo Prado Coelho, que era o crítico de cinema de A Capital, no início dos anos 70, assina uma recensão a um Festival de Cinema Francês, que teve lugar no final de 1972, e que foi mal organizada e, parece, nada representativo do cinema que se fazia em França, afirmando que L’amour l’aprés-midi (que nessa altura ainda não se tinha estreado em Portugal) era “reaccionário e intransitivo … (e) entra na lista negativa deste Festival”. Onde teríamos hoje um crítico, num jornal de referência, a dizer que um filme era reaccionário. Diferenças de época e de pensamento. Nessa altura a esquerda tinha espaço e força.
Segundo. António Pedro de Vasconcelos (APV), em local que eu não consegui identificar, quando ainda não era comentarista de bola nem realizador de “grandes” filmes e tinha opiniões, de que eu discordava, mas que eram críticas de um certo cinema acomodado que, por vezes, os cine-clubistas de esquerda toleravam, tem uma crítica ao filme em episódios Paris visto por... (Paris vu par…, estreado cá em 1972, mas que era de 1965), em que um deles é de Rohmer. APV afirma que este episódio não tem nada de especial, apesar de achar que a obra de Rohmer se revelaria mais interessante do que o seu contributo para aquele filme. Destaca, e de forma convincente, o episódio de Jean Rouch (1917-2004), que será lembrado pelos grandes documentários etnográficos sobre África.
Terceiro. Noutra crítica, APV, a propósito do Festival de Cinema Francês, que ele chama Semana e outros Quinzena, e onde foi exibido o já referido filme de Rohmer, considera que este “é um nome seguro para qualquer dos produtores, os mesmos que levaram anos a acreditar nos seus projectos”. Não está mal. Rohmer deixava de ser um dos enfant terrible da crítica dos Cahiers du Cinéma, para ser um realizador do sistema.
Quarto. Eduardo Geada era o crítico de cinema da Vida Mundial, revista que se voltou a publicar no final dos anos 60, início dos 70. Na recensão que faz ao filme Amor às três da tarde (V.M. 4/5/73) escreve: quando Eric Rohmer, um tanto ingenuamente, acredita que os seus filmes não têm ideologia, isso significa, sem mais, que a ideologia expressa no seu cinema coincide com a ideologia dominante, porque, como é sabido, as ideologias ignoram-se. Como não eram tíbios estes críticos de outrora.
Quinto. Nos longos balanços que Lauro António fazia para o Diário de Lisboa referentes aos anos cinematográficos que iam findando, iremos ver o pouco respeito que ele tinha por estes filmes de Rohmer. Assim no balanço de 1974, considera A Coleccionadora uma desilusão, depois de indicar mais de cem filmes bem melhores do que aquele.
No balanço de1973, O amor às três da tarde está igualmente incluído em as grandes desilusões do ano, a seguir aos filmes de reduzido interesse.
Paris visto por… merece no balanço de 1972, a inclusão outros filmes cuja visão não desmerece. Sobre estes balanços de Lauro António, APV, em local que eu não consegui identificar, diz que “a impressão com que se fica ao ler tão extensa enumeração é que a mulher a dias desarrumou as fichas do nosso crítico, de modo que os filmes como O Candidato ou O Recado apareçam na mesma prateleira que A regra do jogo”. Tão amáveis que estes críticos eram entre si.
No balanço de 1971, Lauro António inclui O joelho de Clair no grupo 4º, na coluna dos filmes a não perder também, isto depois de ter 46 filmes à frente.
Eduardo Prado Coelho, num jornal, que eu não consegui identificar, mas que penso que será A Capital, no seu balanço de 1971, coloca O joelho de Clair, em primeiro lugar numa lista de filmes que ele considera mais ou menos interessantes. Lá se salva a honra do convento.

Já vai longo o post e já vos revelei e recordei os recortes escondidos no meu armário de jovem cineclubista. Espero que não vos tenha maçado, simplesmente achei que numa época de crítica amável e pouco profunda, em que já ninguém se identifica com a esquerda ou a direita e são todos grandes cinéfilos, foi para mim interessante ressuscitar estes exemplos.
Fica por esclarecer a posição dos cine-clubes para com a Nouvelle Vague e a minha opinião, agora que revi recentemente dois filmes de Rohmer, sobre aquele autor. Direi para simplificar, que de memória recordo com grande prazer a Marquesa de O e que os dois filmes exibidos esta semana são simpáticos, levezinhos e que nos distraem durante uma noite como requer o grande cinema burguês, ou, como dizia o outro, a ideologia dominante.


PS. (19/01/10): nestas andanças pelo meu armário de recordações descobri, e quero disso dar notícia, que o João Tunes, que hoje escreve no blog Água Lisa, é o mesmo que em 1973 assinava a crítica de cinema, com o nome de João António Tunes, no Notícias da Amadora. Já conhecia o Tunes como dirigente do ABC Cine-Clube de Lisboa, antes do 25 de Abril. Penso até que ainda assegurámos, eu na direcção e ele em algum corpo directivo, os destinos do cine-clube depois daquela data histórica, numa época de grande refluxo do movimento, só não me lembrava desta sua actividade. Ainda desencantei três críticas: uma sobre A 10ª vítima (1965), um filme de Elio Petri (1929-1982), de que eu não me recordo nada, apesar de ser um realizador de que na altura gostávamos bastante, Matadouro 5 (1972), de George Roy Hill (1921-2002), de que também não me recordo, e Os camisardos (1970), de René Allio (1924-1995), de que já não me lembro, mas que penso que vi e que à época teve grande êxito entre a malta de esquerda dos cineclubes.

17/01/2010

Manuel Alegre já é candidato


No post anterior perguntava se Manuel Alegre seria candidato a Presidente da República e defendia, com moderação, a sua candidatura. Ao contrário do que normalmente me acontece, estava em cima do acontecimento. Poucos dias depois, num jantar em Portimão, Manuel Alegre anuncia para o efeito a sua disponibilidade. Dirão que não era novidade nenhuma. Na Internet já se discutia a figura e passava-se ao ataque e ao contra-ataque.
Hoje, depois dele a anunciar e de me ter tornado amigo dessa iniciativa no Facebook venho, mais uma vez, ilustrar as dificuldades porque ela vai passar.
Em primeiro lugar o PCP. Não foi só no 5 Dias, rapaziada demasiado desenvolta para ser a expressão oficial daquele Partido, Octávio Teixeira num Frente a Frente, na SIC Notícias, dizia que não estava à espera que o PCP apoiasse o candidato. Ruben de Carvalho afinava pelo mesmo diapasão noutro Frente a Frente. Em Antes pelo Contrário, na RTP I, Carlos Rabaçal, do PCP, diz que tem séria dúvidas se será uma boa candidatura para a esquerda. Em comunicado publicado ontem o PCP considera que esta questão é prematura.
No fundo, as primeiras reacções do PCP, mais do que prudentes, são negativas. Duvido que não vá ter um candidato próprio, que só à segunda volta desista. A verdade é que, nas eleições presidenciais mais cruciais, como foi a de Eanes, na sua segunda candidatura, e Salgado Zenha e Jorge Sampaio, nas primeiras, o PCP sempre apresentou candidato próprio, que desistiu na primeira volta a favor dos citados. À segunda volta não tenho dúvidas que apoiará Manuel Alegre, é preciso é que ele lá chegue. Na primeira, já tenho mais dúvidas. Primeiro porque o considera, tal como algum PS oficial, demasiado à esquerda para vencer, segundo porque pensa que Manuel Alegre vai pescar num campo que é comum com o PCP. Reparem que numa das primeiras reacções ao anúncio da candidatura, recolhidas no próprio jantar, quem apareceu apoiá-lo foi Carlos Brito, ex-dirigente do PCP. Isto é suficiente para que comecem logo a tocar sininhos de aviso na Soeiro. Espero bem que me engane.
Depois é o tom justo que a candidatura de Alegre encontre para tratar as acções do Governo de Sócrates. Enquanto este negoceia à direita os apoios para aprovação do orçamento de estado, Manuel Alegre recolhe a bênção da esquerda para se candidatar, mas Louçã avisa, que é “muito importante que haja uma candidatura [presidencial] que à esquerda não seja uma candidatura de partido”. Ora, não basta só criticar os projectos presidencialistas de Cavaco é necessário tomar alguma distância em relação ao Governo, que, só se for no final do ano, descubra algumas medidas que possam receber a bênção da esquerda. Esta é sem dúvida a contradição fundamental de Alegre, mas pode ser que ele a consiga superar com êxito. Estes são os meus desejos.
Por hoje, por aqui me fico, tenho um ano, assim o possa cumprir, para me ir prenunciando sobre o evoluir desta candidatura.

PS.: Palavras não eram escritas e eis que Victor Dias vem esclarecer a situação. Para lá de um ataque desnecessário à democraticidade do Bloco – a decisão de apoiar um candidato, que todos estavam a ver que era Alegre, já estava tomada na sua Convenção Nacional –, vem falar na eleição logo à primeira e pergunta se com isso não se está a fazer um apelo ao”voto útil” logo na primeira volta. Espero que o PCP não se esqueça que desistiu na primeira volta a favor de Eanes, Zenha e Jorge Sampaio. Não vejo razão nenhuma para que o não o possa fazer agora. Mas pelo andar da carruagem, quer me parecer, que o PCP vai fazer aquilo que o Vítor Dias diz, Apresenta um candidato próprio. Se ganhar o Cavaco, que pena, tem votos para isso. Se for necessário segunda volta, lá irá engolir o sapo. Provavelmente já será tarde demais e o eleitorado nem sempre será tão fiel como o PCP o imaginou. Também temos um ano para falar sobre isto.

PS. (18/01/10): Bernardino Soares hoje no Frente a Frente, da SIC Notícias, também não disse nada, apesar de ter acrescentado que o PCP apresenta sempre candidato próprio e depois desiste na segunda volta a favor do candidato da esquerda. Ora isto não é verdade como escrevi no PS. anterior. Mais, só uma vez é que nas eleições presidenciais houve segunda volta e aí o PCP depois de na primeira ter desistido a favor de Salgado Zenha, optou, engolindo um sapo, por votar em Mário Soares na segunda. É bom que estas coisas sejam ditas, para não se andar a enganar meio mundo, já esquecido destes pormenores.

11/01/2010

Manuel Alegre candidato?


Estava eu entretido a discutir Estaline e a chafurdar nesse passado triste, que agora alguns querem gloriosamente ressuscitar, e eis que, a propósito da possível candidatura de Manuel Alegre a Presidente da República, se arma na Internet uma acesa discussão. Só para poderem seguir esta troca de argumentos vou tentar linká-los (não sei se linkar é já uma das novas palavras introduzidas no Dicionário da Academia). Assim, a lista é a seguinte: Daniel de Oliveira, no Expresso, a 31/12/09, Miguel Cardina, em Minoria Relativa (blog que eu não conhecia e que já inclui na minha selecção), Nuno Ramos de Almeida, no 5 Dias, Tiago Mota Saraiva, no 5 Dias, Daniel de Oliveira, no Arrastão, Nuno Ramos de Almeida, no 5 Dias, Carlos Vidal, no 5 Dias e Renato Teixeira, no 5 Dias. Provavelmente, há mais, mas penso que esta lista já vos chega para uma leitura atenta e demorada.

Não estou interessado em rebater e discutir as opiniões dos outros, deixo-as aqui unicamente para poderem ler a argumentação em voga. Quanto a mim, tenho a dizer o seguinte.
Fui um dos apoiantes da candidatura de Manuel Alegre a Presidente da República nas eleições passadas. Considerei na altura, e nem pensava que ela tivesse o êxito que depois veio a ter, que a sua principal função era quebrar o PS e dividi-lo. A velha aspiração do PCP, que já o tinha tentado fazer com o PRD, de Ramalho Eanes. Este é um tema recorrente nos meus textos e penso que é sempre de grande actualidade.
Na altura, não se esperava que a divisão do PS fosse entre as linhas esquerda e direita. Eanes nunca representaria a esquerda. Simplesmente, pensava-se que dividindo o PS ao meio, como sucedeu, se poderia negociar mais facilmente acordos de Governo, como se tentou, antes de Mário Soares dissolver o Parlamento e dar, em 1987, a maioria absoluta a Cavaco.
O caso de Manuel Alegre era diferente, este sempre representava a ala esquerda do PS. A sua votação permitiu pensar, quer ao candidato quer à esquerda, que tinha ali muito voto onde ir pescar. Daí as aproximações do Trindade e da Aula Magna. Nesta última, atingiu-se um tal ponto de ruptura com o PS oficial que poder-se-ia pensar que um novo partido à esquerda do PS se estava a formar. Quase que poderíamos falar de um Die Linke à portuguesa. Não foi nada disto que aconteceu. Manuel Alegre teve “juízo” e, ou empurrado, pelo Bloco, segundo algumas más línguas, ou aconselhado por amigos que se saísse do PS nunca teria qualquer possibilidade de vencer eleitoralmente as eleições presidenciais, foi-se resguardando e, entre umas no cravo e outras na ferradura, aparece agora com possível candidato oficial do PS, como apoio do Bloco.
Deduzir-se-ia, por tudo o que escrevi, que vejo com maus olhos o apoio do Bloco ao Manuel Alegre. Não é verdade, simplesmente esse apoio já não se enquadra na perspectiva de uma ruptura dentro do PS, na formação de um grande partido à esquerda deste, mas sim naquilo que sempre foi a estratégia da esquerda, diria do PCP, de apoiar, há última da hora, o candidato da esquerda contra a direita. Isto só não sucedeu nestas últimas eleições, porque foi nítido que Cavaco ganhava e a esquerda estava perfeitamente desunida, mais valia, por isso, contar as espingardas.
Já agora, uma resposta a muitos dos posts que foram referidos anteriormente. Um candidato único da esquerda, à esquerda do PS, era neste momento uma impossibilidade prática e um candidato derrotado à partida. O PCP sempre fez uma análise rigorosa da situação e nunca se meteu em frentes de esquerda, com candidaturas condenadas à derrota. Daí, por exemplo, não ter apoiado, no longínquo ano de 1976, o Costa Gomes, proposto por um movimento unitário, por achar que ele nunca ganharia a Eanes. Não entrou na candidatura de Maria de Lurdes Pintassilgo, em 1986, apesar de ter ido apostar num candidato que foi derrotado, Salgado Zenha, mas aqui foi a excepção. Sempre fez tudo para que o candidato da esquerda incluísse o PS e fosse vencedor. Daí, ter engolido um sapo quando apoiou, à segunda volta, Mário Soares, também em 1986. Penso, mesmo assim, que é hoje mais fácil votar em Alegre do que em Mário Soares. Por isso, se for Alegre o candidato do PS e do Bloco o PCP, à segunda ou mesmo à primeira volta, irá votar nele. Ou então, muita coisa se alterou naquele partido. Mas já ouvi da boca de um militante comunista, provavelmente não típico, que Manuel Alegre era um candidato, mesmo apoiado pelo PS, vocacionado para a derrota. Via com melhores olhos o Jaime Gama ou outro que reunisse mais consensos ao centro. Mas este militante nada terá a ver com os impetuosos escrevinhadores do 5 Dias. Mas pensem nisto, o PCP prefere candidatos mais à direita, que não criem ambiguidades e falsas expectativas no seu eleitorado do que candidatos frentistas, como Manuel Alegre, que não sejam por ele controlados. A ver vamos.
Resta neste caso um problema central que é como é que Manuel Alegre vai gerir a sua candidatura. Se aparecer demasiado colado a Sócrates perde à esquerda, se for ao Bloco de Esquerda, perde à direita. Por outro lado, como é que o Bloco irá fazer a gestão do seu apoio? Será de modo a que ela seja agregadora da esquerda e possa integrar futuramente no Bloco os votantes socialistas que claramente não suportam o Sócrates?
E a juntar a tudo isto, em que altura é que o PCP irá apoiar a candidatura?
Pode ser que nada disto seja assim, que tudo corra mal e que a esquerda mais uma vez fique bloqueada ou então, tudo corre bem e teremos aí “esquerda grande” de que fala o Bloco.

09/01/2010

Voltando sempre ao mesmo – Estaline, outra vez


Talvez pela idade ando sempre a repisar os mesmos temas, no entanto, por muito que queira fugir deles ei-los que regressam a galope pela porta da frente.
Assim, num post do blog 5 Dias era relatado um comentário boçal de um tal António Ribeiro Ferreira, que escreve no Correio da Manhã. Até aqui tudo bem. Podem consultar a história no link referido.
A propósito disso Carlos Vidal, no mesmo blog, resolve fazer uma citação de uma recensão que foi feita no Brasil, à edição naquele país do livro de Ludo Martens sobre Estaline, já por mim amplamente discutido neste meu post. Acrescentando-lhe: “Lendo toda a recensão de João Q. de Moraes … do livro de Ludo Martens, lê-se uma análise que não elogia Estaline, mas a necessidade de tratar de um tabu. Por isso, o texto de João Q. de Moraes não podia deixar de ser também crítico do livro de Martens, que seria interessante editar em Portugal. A juntar às já existentes e importantes ferramentas de Simon Sebag-Montefiore e em benefício do estudo do século XX.
Em resposta a este post e a diversos comentários que por lá apareceram achei por bem informar sobre todos os dados de que dispunha e que estavam incertos no meu blog, no artigo referido.
Como é sabido, e eu não fujo à regra, o debate na Internet acaba sempre por resvalar para uma grande agressividade argumentativa, quando ainda se utilizam argumentos, ou por vezes para o puro lixo informático, que constitui o insulto, os textos sem sentido ou mal redigidos, ou ainda as meras abreviaturas importadas dos telemóveis, que tornam ilegível qualquer prosa que pretenda discutir ideias. No entanto, podemos dizer que a maioria dos comentários ao post referido se mantiveram no nível minimamente aceitável de argumentação.

Mas não é para vos contar esta história que aqui estou é simplesmente para constatar um facto que muito me impressiona: o ressuscitar do tema Estaline e de todo o conjunto de argumentos que anda à sua volta.
Os mais antigos como eu, que viveram a luta travada entre o PCP e os maoistas, no final dos anos 60 e durante os anos 70, saberão sem dúvida a importância que naquela altura Estaline tinha para estes últimos e como o PCP, sem nunca enveredar por uma crítica clara e desassombrada sobre aquele, assumia um claro repúdio a qualquer aproximação àquele dirigente soviético.
Hoje, já não existem maoistas, que emigraram para a direita, ou integram, com algum repúdio ou distanciamento crítico do seu passado, o Bloco de Esquerda. O problema é que ideologicamente o PCP se transformou, de certo modo, num herdeiro dessa gente e todo o universo de blogs, edições, cursos e opiniões expressas no Avante, vêm retomar, umas vezes às claras, outras vezes encapotadamente, a velha defesa de Estaline. Eu penso que isto tem a ver fundamentalmente com o refluxo ideológico que a derrota do “socialismo real” provocou naquele partido. Hoje, muitos dos que se reclamam do comunismo acham que qualquer crítica a Estaline e à ex-União Soviética constitui uma colaboração com o inimigo. Há um texto num comentário ao post, que venho a referir, do 5 Dias, que é elucidativo: “cada um escolhe o seu campo, afirmem-se como revisionistas, ou “renovadores”, mas por favor deixem de invocar o comunismo enquanto pactuarem com o campo que está mais interessado em o destruir”. É como que um regresso ao útero materno, incapazes que são de enfrentar o mundo moderno e a crítica. Por isso, todos aqueles que na ex-União Soviética, como Khruchtchev denunciaram Estaline, e o “culto da sua personalidade”, são hoje também incluídos no campo do revisionismo, tal como já o foram para os maoistas. Veja-se o título de um dos artigos publicados no site Para a História do Socialismo, de Kurt Gossweiler, Sobre o papel de Estaline e a quota-parte do revisionismo de Khrushchov na destruição da União Soviética.
Ilustrativo do que venho a dizer é, nos comentários ao post que venho a referir, esta prosa perfeitamente panegírica de uma obra de Estaline que sempre foi acusada de simplificar, dogmatizar e em última instância ser anti-marxista: “Razão para uma maior abertura e simpatia para o estudo e defesa da história dos filhos do povo que se associaram para construir tudo de novo e de raiz. Sem muitos livros, mas mesmo assim estou-me a lembrar de um, por acaso notável, que toda a gente deveria reler: “O materialismo dialéctico e o materialismo histórico” de José Estaline (Setembro de 1938, traduzido para português e editado em Outº1974 por Henrique A. Carneiro)”. Depois, esta citação que torna a dialéctica marxista no mais perfeito determinismo e que serve de “modo lapidar” para separar “revolucionários” de “reformistas”: “Se é verdade que a passagem das mudanças quantitativas lentas a mudanças qualitativas bruscas e rápidas é uma lei do desenvolvimento, é claro que as revoluções realizadas pelas classes oprimidas constituem um fenómeno absolutamente natural, inevitável. Consequentemente, a passagem do capitalismo ao socialismo e a libertação da classe operária do jugo capitalista podem ser efectuadas, não por transformações lentas, não por reformas, mas somente por uma mudança qualitativa do regime capitalista, pela revolução. Assim, para não nos enganarmos em política, é preciso sermos revolucionários e não reformistas” (Josef Stalin in “Materialismo Dialéctico e Materialismo Histórico”).
Pode-se dizer que isto é um caso isolado, no entanto, a própria oposição que o responsável pelo post faz entre a obra Ludo Martens e a de Simon Sebag-Montefiore, sobre Estaline (Estaline, a corte do czar vermelho e o Jovem Estaline, Edições da Alêtheia, da Zita Seabra), é já indicativa de que ou apoiamos Estaline ou só nos resta a crítica de direita.
Por estas razões, tendo a pensar que o enquistamento da posição comunista sobre Estaline é a principal responsável, a não ser em termos de resposta aos inimigos de classe, pela consequente ocupação de espaço pela direita e por certa esquerda, que toma como suas as reflexões da direita e acima de tudo as produzidas pelos ideólogos da Guerra-Fria. Todos eles, como já referi várias vezes, consideram os tempos de Estaline como a continuidade da época de Lenine, negam o valor libertador da Revolução de Outubro, no fundo, consideram que a URSS sempre foi um imenso Gulag. Já me tenho debruçado demasiadas vezes sobre esta batalha político-ideológica para voltar a ela, mas o espanto sobre este regresso ao estalinismo é que ainda não acabou.

05/01/2010

Isto anda tudo ligado


Fui ontem ouvir uma conferência à FCSH, organizada pelo Instituto de História Contemporânea, da Universidade Nova de Lisboa. O conferencista é um Professor da UNICAMP, Universidade Estatal de Campinas, S. Paulo, Brasil, cujo nome completo é Álvaro Gabriel Bianchi Mendez, mas que assina os seus artigos como Álvaro Bianchi. O tema era referente ao Estado e Sociedade Civil em Gramsci.
Foi só a referência a Gramsci que motivou a minha deslocação. Como quem segue os meus posts já deve ter percebido, é um autor por quem tenho grande interesse e admiração, principalmente pela sua reflexão original sobre o tema da política, encarado de uma perspectiva marxista, mas utilizando uma terminologia e conceitos próprios. Para os mais distraídos sobre esta problemática, Gramsci (1881-1937) foi secretário-geral do Partido Comunista Italiano, tendo sido preso pelos fascistas italianos em 1926 e morreu pouco depois de ter sido libertado, em 1937. Foi nestas condições extremamente difíceis que elaborou sua principal obra teórica, que nunca foi publicada em vida, e que é hoje conhecida como os Cadernos do Cárcere. Durante os anos que esteve preso escreveu, umas vezes em forma de notas, outras de modo mais elaborado, em cadernos que foi numerando (32 no total) e que só foram editados em Itália depois da II Guerra Mundial.
Provavelmente, com mais vagar dedicarei alguns posts a este teórico e revolucionário italiano.
A conferência, teve pouca divulgação, por isso estiveram presentes, além do Fernando Rosas, que presidia à mesa e era da casa, a Raquel Varela, uma das organizadoras e que me enviou gentilmente o convite para a conferência. Como se recordam, fiz-lhe aqui um ataque serrado, simplesmente já no II Colóquio os Comunistas em Portugal, a que assisti, mas que nunca cheguei a relatar, conversámos agradavelmente, mantendo os nossos pontos de vista, mas sem a animosidade que eu manifestei no I. Estavam igualmente meia dúzia de maduros que se interessam por estas coisas e alguns alunos que por dever de ofício têm que assistir às conferências que os seus professores recomendam. Posso estar a ser injusto para eles, mas cheira-me, pela pressa com que saíram, que a conferência lhes dizia pouco.
A exposição de Álvaro Bianchi era clara, incidia sobre os Cadernos do Cárcere e, como afirmou, retomava os temas abordara num livro que publicou recentemente no Brasil chamado O laboratório de Gramsci (ver aqui a notícia da editora).
Porque não tomei notas e nem acho que vos deva maçar com os temas abordados pelo autor, direi só que gostei e que o autor faz, como afirmou, uma interpretação marxista revolucionário dos conceitos gramscianos, em oposição às visões liberais ou até euro-comunistas de Gramsci.
Foi afirmado, e bem, por um assistente do público que Portugal seria dos países da Europa onde menos se conhecia Gramsci. Por graça, chegou a afirmar que só talvez o Mónaco ignorasse tanto Gramsci como Portugal. A razão apresentada, foi de que, como os euro-comunistas na Europa e aqueles que em Portugal eram seus possíveis divulgadores se reivindicavam de Gramsci, isto provocaria no marxismo oficial, entenda-se no PCP, uma reacção negativa. Para mim, sendo esta uma possível razão, entendo que a principal é a de que a nossa intelectualidade nunca debateu no pós-25 de Abril o marxismo ou as obras dos seus continuadores, restando àqueles que ainda se reivindicam dessa corrente a escolástica marxista-leninista do PCP. Repare-se que este partido nunca fomentou o debate marxista, nem em Portugal alguma vez teve êxito uma revista que se reivindicasse e estudasse aquela corrente política.

Depois de assistir à conferência, resolvi ir ver no Google quem era este senhor que eu desconhecia. Para além de orientar na sua universidade estudos sobre o marxismo, escreve numerosos artigos sobre estes temas, tem um blog onde poderão ser encontrados e discutidos artigos seus e é secretário da revista Outubro, de que possuo um exemplar adquirido aquando do I Congresso Internacional Karl Marx, que trouxe até nós um bom número de autores brasileiros.
Mas o mais interessante, e que justifica o título deste post, é ter encontrado um artigo, Antitrotskismo: manual do usuário, de Bianchi, num site do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, que eu penso ser um partido brasileiro de influencia trotskista, em resposta a um outro de Miguel Urbano Rodrigues (MUR), chamado Apontamentos sobre Trotsky – O Mito e a realidade, publicado no site ODiário. É interessante ler estes dois artigos porque eles nos remetem para duas maneiras de fazer história e de discuti-la. MUR, que não é um académico e escreve ao correr da pena, faz afirmações que depois não pode provar e que resultam para o leitor do Avante ou da imprensa do PCP, que gosta desta prosa grandiloquente e cheia de verdades feitas. Bianchi, mais bem informado, tendo estudado os assuntos e com mais acesso a uma bibliografia actualizada vai desmontando todas as afirmações de MUR. Leiam e apreciem as diferenças.
Mas mais interessante foi que encontrei no texto de Bianchi, uma referência (nota 7) ao livro de Ludo Martens, Um outro olhar sobre Stáline, de que eu falei no post anterior, e de que afinal há uma edição brasileira: Stalin: um novo olhar, Rio de Janeiro: Revan, 2003.
Bianchi refere-se a ele afirmando que “o arqui ou arqueostalinismo ainda persiste”, ao contrário do que escreve MUR no seu artigo, e que como vimos no post anterior vai ganhando força nas hostes afectas ou próximas do PCP. Por sinal vim a saber que a edição portuguesa, com o tal prefácio do Carlos Costa, esteve à venda na Festa do Avante.
É interessante também notar que no artigo de MUR sobre o Estaline, de Losurdo, que eu cito igualmente no post anterior, aquele diga que em Portugal é acusado de trotskista, pelo artigo que escreveu sobre o Trotsky, e no Brasil por estalinista ortodoxo por professores das Universidades de Campinas (o nosso Álvaro Bianchi) e do Rio Grande do Sul, que não sei quem seja, e que segundo MUR lhe dedicaram trabalhos académicos.

Por último, e depois deste trabalho de investigação policial a que eu me gosto de dedicar na net, uma referência, que provavelmente irei desenvolver posteriormente, à revista Outubro, de que Álvaro Bianchi é secretário, que no exemplar que eu possuo tem um artigo interessantíssimo de Kevin J. Murphy, com o seguinte título Podemos escrever a história da Revolução Russa? Uma resposta tardia a Eric Hobsbawam (1), que levanta problemas sobre a historiografia da Revolução Russa quer durante a Guerra-fria quer depois e que retoma o problema por mim levantado na reflexão 2, do meu post anterior, sobre Estaline. Assim escreve ele: "o conhecimento ocidental sobre a União Soviética durante a Guerra-Fria foi dominado pelo que Stephen Cohen (autor de uma monumental biografia de Bukharine - JNF) apropriadamente chamou a “tese da continuidade”, que postulou uma evolução natural e directa da prática organizacional dos primeiros bolcheviques aos gulags, os campos de trabalho forçado."
(1) O texto original em inglês pode ser encontrado aqui
A fotografia é de Álvaro Bianchi