20/10/2009

Coligações e acordos e as suas ilusões. Um artigo Sarsfield Cabral


Foram publicados ontem no Público dois artigos interessantes pelo contraditório que estabelecem entre si a propósito de coligações governamentais ou acordos de incidência parlamentar que poderiam resultar da eleição de uma maioria de esquerda para o Parlamento.
Assim, Sarsfield Cabral escreve um artigo, a que chama A retórica da esquerda unida, afirmando liminarmente que o PS está muito mais próximo politicamente do PSD e do CDS do que da sua esquerda, Bloco e PCP.
Cipriano Justo, assinando o artigo como dirigente da Renovação Comunista, retira lições das recentes eleições autárquicas para Lisboa – Lisboa é uma lição – e afirma que existe um bloco social que não se revê na fragmentação da esquerda.
Sou daqueles que mais tenho falado do problema da maioria de esquerda, da sua unidade e alianças. Não vou enumerar todos os posts em que já fiz referência a este tema, mas porque ele está na ordem do dia, vou, como se compreende, voltar a ele.

Sendo rápido e incisivo, direi que não é por acaso que à direita, entre PSD e CDS é tão fácil estabelecer acordos e que à esquerda, entre PS e PCP, isso tem sido impossível. É mais fácil, como já se verificou no passado, entre o PS e os outros dois partidos da direita, do que com os da sua esquerda. Este facto assenta na história recente da democracia portuguesa, mas igualmente na inserção de Portugal, no confronto da Guerra-Fria, num dos Blocos militares. Hoje estes já desapareceram, mas a sua memória e a nossa integração na NATO é ainda motivo para oposição a alianças entre o PS e a sua esquerda.
Como sabem, no tempo do PREC, a ruptura política deu-se entre os “moderados” do MFA, tendo por detrás o PS e toda a direita, e a esquerda militar gonçalvista e a extrema-esquerda otelista. A primeira era apoiada pelo PCP e a segunda por uma míriade de pequenos partidos da extrema-esquerda. Como eleitoralmente o PCP era o único que tinha votos, a acção dos partidos da extrema-esquerda esteve extremamente limitada, só tendo expressão eleitoral nas eleições presidenciais, como foi a primeira candidatura de Otelo, em 1976, à presidência da República e a de Maria de Lurdes Pintassilgo, anos depois.
Nesse sentido, sempre que houve na Assembleia da República maioria de esquerda, o PS tudo fez para que o PCP não entrasse para o Governo. Temos assim, o primeiro Governo PS sozinho ,em 1976, seguido depois do PS-CDS, com fingidas negociações com o PCP, e já posteriormente, nos anos 80, um Governo do Bloco Central, PS-PSD.
Guterres governa também em minoria, tentando no seu último Governo, quando já só lhe restava o queijo limiano, fazer acordos com o PCP, mas aí, verdade se diga, a situação, já era um bocado diferente dentro deste partido.
Mas não foi só a própria história da Revolução de Abril a influenciar estas opções do PS, foi como afirmei as pressões internacionais dos “nossos amigos” da NATO e das forças económicas dominantes em Portugal a impedirem que tal sucedesse.
Sem vos querer maçar com história da última metade do século XX, remeto-vos para um filme que está presentemente em exibição, chamado Il Divo, de Paolo Sorrentino, que é a biografia, dos últimos anos, de um dos políticos mais importantes da Democracia Cristã Italiana, um dos mais corruptos e dos mais comprometidos com a Máfia, e onde por meias palavras se fala na estratégia seguida em Itália, por uma facção da democracia-cristã, da extrema-direita, dos serviços secretos e da loja maçónica P 2, para numa estratégia de tensão, que implicava atentados bombistas e assassinatos, de que o de Aldo Moro é um possível exemplo, impedir o acesso do euro-comunista Partido Comunista Italiano ao poder.
Por isso, todos aqueles que, com alguma facilidade, falam das coligações ou alianças do PS com os partidos à sua esquerda não podem esquecer o peso histórico dessa interdição e, a meu ver, José Sócrates não tem o mínimo perfil político para ser capaz de na sociedade portuguesa romper com esta chantagem que a direita sempre impôs ao PS.
O artigo de Sarsfield Cabral é mais uma acha para as pressões de direita e do capital, já também expressas pelo patrão dos patrões, de impedir qualquer aliança do PS com a sua esquerda.
Gostaria, no entanto de chamar a atenção para que o texto daquele articulista é uma resposta a um abaixo-assinado, que por aí circula e de que Cipriano Justo é um dos principais subscritores, para um Compromisso de Esquerda. Apelo à estabilidade governativa. Assim, diz Sarsfield Cabral: “O tema da unidade da esquerda é propício a tiradas retóricas. Um mínimo de honestidade intelectual, sobretudo por parte de políticos com currículo e responsabilidades, deveria desfazer o nevoeiro ideológico e sentimental, evitando o palavreado oco para analisar o que, de facto, une e separa os partidos que se dizem de esquerda.” Sarsfield Cabral da sua superioridade de direita e de amigo do capital resolve falar da desonestidade intelectual dos outros. Sobre o conteúdo do próprio artigo e do seu desmascaramento já se pronunciaram, e bem, Ricardo Noronha, no 5 Dias, e Vítor Dias, em O Tempo das Cerejas.
Mas este exemplo só vem ilustrar, como em muitos outros que eu já descrevi, de que as alianças do PS com a sua esquerda não é um assunto fácil, de que se entra e sai, como nos acordos entre Paulo Portas e Santana.

Resta o artigo de Cipriano Justo, que analisarei numa segunda parte.

14/10/2009

Alianças, compromissos e voto útil. III parte


III – Uma interpretação rápida dos resultados

Na primeira descrição que fiz dos resultados das autárquicas, já dei algumas pistas.
São eleições muito polarizadas, o que, dada a influência do PS e do PSD no Poder Local, faz destes dois partidos os seus principais beneficiários.

A CDU tem um a implantação localizada, que, como eu também referi, é cada vez menos coincidente com as votações para as legislativas, o que acarreta que, quando por força da lei for preciso renovar os presidentes há mais tempo no poder, a manutenção do poder autárquico por parte da CDU se torna cada vez mais difícil. Veja-se que, depois de perder câmaras com algum significado, tem sido impossível recuperá-las. Só em algumas autarquias no Alentejo, onde, para além das votações autárquicas, ainda permanece a influência do PCP, é que é possível voltar a dirigi-las. Loures, Amadora, Vila Franca de Xira, todas as do Algarve, Évora, etc., são miragens difíceis de reaver, e onde cada vez mais a votação autárquica se assemelha à das legislativas, que é fraca.

Quanto ao Bloco é notória a sua falta de influência autárquica e isso é grave, no sentido em que desliga este partido dos problemas locais. O Bloco não se pode reduzir a grandes dirigentes nacionais, que têm a sua visibilidade no Parlamento, mas depois estar ausente como força significativa nas lutas sociais e autárquicas. Já se sabe que isto nada tem a ver com os compromissos com o poder, facto que leva muitos, sem razão, a criticam o Bloco por não os fazer, mas tem a ver com a sua organização, com a influência e inserção dos seus militantes na vida quotidiana das pessoas.

O CDS na vida autárquica é uma não existência, só conseguindo ganhar alguma visibilidade pelas alianças que estabelece com o PSD.


IV – Lisboa, sempre Lisboa

O PS depois da banhada que apanhou com Carrilho, em 2005, e dos compromissos que os seus vereadores foram fazendo com a gestão de Carmona, tentou nas eleições intercalares de 2007 inverter a onda. Costa, parece que ao arrepio de Sócrates, tenta refazer, mais que não seja da boca para fora, a aliança com a sua esquerda e escolher uns autarcas menos comprometidos com o pântano da governação da Câmara e das Empresas Municipais. Como uma maioria muito relativíssima, vai tentar fazer acordos à sua esquerda. Primeiro com o Bloco, atraindo Sá Fernandes, depois, lá mais para diante, atribuindo trabalho a Helena Roseta.
Sá Fernandes, pouco preparado politicamente e tentado pela execução do trabalho autárquico, mesmo que não se perceba para que serve, foi facilmente engolido por António Costa, deixando o Bloco em maus lençóis. Este pensou que esta situação tinha sido compreendida pelos eleitores de Lisboa. Provavelmente não foi.
No Congresso do PS, quando este partido ainda pensava que tinha o mundo na mão, António Costa lança num ataque descabelado ao Bloco de Esquerda, dando início a uma das vertentes que seria retomada pela media dominantes de ataque ao BE e às suas propostas, tentando encontrar contradições entre elas e esforçando-se por esvaziar a sua força eleitoral. O seu papel de engraçado e de alternativo ao PCP, que foi inicialmente lisonjeado, deu lugar ao do inimigo principal, a abater.
Simultaneamente, Santana Lopes é indicado como candidato do PSD a Lisboa. A intelectualidade progressista fica em pânico. Facilmente se arranja um abaixo-assinado, que eu subscrevi, a defender uma convergência de esquerda para Lisboa. O PS apesar de o apoiar, não lhe dá grande importância. Na altura ainda pensava que Lisboa seria um passeio.
Eis que o PS perde as eleições europeias, a esquerda do PS, em que se depositou algumas esperanças, volta ao aprisco e entre em parafuso com o perigo da direita ganhar. Desta vez teria um Presidente da República, um Governo e Santana na Câmara.
Rapidamente, Helena Roseta, que não queria anteriormente quaisquer convergências com Costa – não assinou o apelo de convergência – passa a desenvolver, com o apoio de Sampaio e de outros, todas as iniciativas para uma coligação de esquerda em Lisboa. Parece que se reúne com Louçã e Jerónimo. O apelo da convergência dá por encerrado a sua tarefa e um conjunto dos seus subscritores passa a formar a CLAC (Cidadãos por Lisboa Apoiam Costa). Este agradeceu-lhes na noite das eleições.
Sá Fernandes forma uma pequena Associação para se coligar com Costa. Helena Roseta assina um acordo coligatório. Estava lançada a operação que junta Saramago, Carlos do Carmo e por último Carvalho da Silva.
Já alguém falou que isto era o “bloco histórico” (termo utilizado por Gramsci) da esquerda que “circula por aí”. De facto, conseguiu-se isolar o Bloco e a CDU e agregar em Costa a direita e a esquerda do PS, mais aqueles independentes órfãos da esquerda, que “buscam sempre um pastor” (Fernando Sobral, Jornal de Negócios, 13/10/09).
Esta é a história. Provavelmente não teria outra saída. No entanto, parece-me esta situação bem perigosa. Primeiro porque não faz uma ruptura entre a esquerda e a direita do PS. Segundo porque agrega numa figura do PS, pertencendo à actual Direcção, um conjunto de gente de esquerda, que de facto circula por aí, chegando ao ponto de obter o apoio de Carvalho da Silva da CGTP. Terceiro, isola o Bloco e a CDU, indispensáveis para qualquer alternativa à esquerda. Dirão, como afirmou Costa na noite das eleições, “quem não uniu, perdeu”.
Por isso, apesar de esta alternativa ter evitado que a Câmara caísse nas mãos de Santana, é uma alternativa que não leva a parte nenhuma, e mais, se o que pretendem aqueles que se posicionam atrás de Costa é dirigirem as movimentações políticas à esquerda, estão bem enganados. Esta esquerda, que não clarifica e que não une, que não tem um projecto de verdadeira transformação social e que num permanente tacticismo se refugia atrás de um “artista” como Costa, está condenada a ser mais uma vez engolida pela direita do PS.


V – Breves propostas para o futuro

Sempre pensei que o problema principal de um partido como o Bloco, e de certo modo o PCP, não é para já o de assumir o compromisso com o poder e da assunção de responsabilidades governativas, mas sim a definição de uma estratégia política e das alianças necessárias para a poder executar.
Tem sido muito comum na esquerda, e nestes últimos eventos eleitorais este facto tornou-se dominante, pedir ao Bloco, e por extensão ao PCP, que proponham um programa mínimo para entrarem para o Governo ou para fazerem parte de um coligação governativa. Entendo que o problema não se põe assim e que o que se tem que definir politicamente é qual o programa que se quer para o país, com objectivos concretos, e que alianças e que camadas sociais se convocam para a sua execução. A esquerda, à esquerda do PS, não deve servir para apoiar os objectivos do poder dominante, mesmo que ele seja representado pela social-democracia – linha ideológica de que o PS de Sócrates se tem afastado claramente – mas ser portadora de uma alternativa política, que possa vir a exercer a hegemonia cultural e ideológica e pressuponha um amplo agregar de camadas e movimentos políticos. Por isso, este movimento não pode viver unicamente em frenesim permanente, apoiando-se exclusivamente na sua representação eleitoral. Não pode ser arrogante e convencido, o que acarretaria o afastamento de camadas sociais e grupos políticos. A esquerda, à esquerda do PS, tem que encontrar pontos comuns, estabelecer pontes com a ala esquerda daquele partido, desenvolver e actuar na área sindical, cultural e popular, forçar uma nova esperança, conquistar e reforçar o poder das populações, abandonar todo o sectarismo e esquerdismo que podem enfraquecer um processo desta grandeza. Só assim se pode propor a ser Governo e abalançar-se a propor alianças ao PS actual. Ou seja, o Bloco tem que crescer, não acreditar que pelos seus lindos olhos chegará ao poder, evitar o sectarismo do PCP e o oportunismo que, a troco de nada, lhe propõe para chegar à felicidade da governação. É preciso trabalhar, trabalhar mais, organizar e propor, discutir com a esquerda, sair da concha e ganhar direito à existência. Mas não querendo ser o partido guia, nem a vanguarda esclarecida, mas sim o organizador colectivo, o intelectual orgânico de camadas sociais e políticas desejosas de alterar o rumo das coisas.
Nada se conseguirá se não perceber em que bloco se insere e como pode conquistar a hegemonia cultural para ele.
Tudo isto é simples de dizer, pior é pôr em prática e traduzir estas palavras em acções concretas.

Alianças, compromissos e voto útil. Resultados em Lisboa


II – Os resultados em Lisboa

Fazendo o mesmo tipo de comparações que efectuei para o conjunto do país, verifica-se que para a cidade de Lisboa votaram praticamente o mesmo número de eleitores que há quatro anos: menos 2 mil desta vez. Este facto está correlacionado com a diminuição do número de eleitores nesta cidade, ao inverso do que sucede no resto do país. Mesmo assim, houve uma diminuição da abstenção, menos 0,78 % do que em 2005.
Como se sabe o PS oficial, aliado às correntes de esquerda do PS e com o apoio de alguns independentes, conseguiu uma vitória expressiva para o executivo municipal. Assim, teve cerca 48 mil votos a mais do que nas autárquicas de 2005 – a comparação com 2007, em termos de votos, que é o meu critério principal, é enganosa, dado a maior abstenção verificada naquelas eleições intercalares –. Comparando com as legislativas de há quinze dias atrás, o PS subiu cerca de 11 mil votos. Serão estes os tais 11 mil votos de que falava Santana Lopes na noite das eleições?
Quanto à coligação de direita vamos a números. O PSD e CDS em 2005 tiveram em conjunto, já que concorreram separados, cerca de 135 mil votos. Agora, em coligação, mais uns partidinhos para alegrar, tiveram cerca de 108 mil. Perderam portanto entre umas e outras 27 mil votos. Como sempre não comparo com as intercalares de 2007. Em relação às legislativas de há quinze dias perderam cerca de 21 mil votos, pois tiveram cerca de 129 mil nas legislativas. Ou seja, Santana e companhia não fez o pleno da direita em Lisboa, a culpa não foi só do voto de esquerda em Costa, foi também o medo que alguma direita tem de Santana Lopes.
É bom que se diga que o grau de participação nas legislativas é maior do que nas autárquicas. Há mais abstenção nestas últimas.
Quanto à CDU, perdeu cerca de 10 mil votos das autárquicas de 2005 para estas últimas eleições e perdeu cerca de 5 mil em relação às legislativas de há quinze dias. Houve 5 mil votos que fugiram à CDU. Terá sido para o voto útil em Costa?
No Bloco a situação ainda é mais complicada, perdeu cerca de 10 mil votos das autárquicas de 2005 para as de agora e perdeu cerca de 19 mil em quinze dias.
Conclui-se pois que, a nível do executivo municipal, só o PS é ganhador em Lisboa, o que se torna claro olhando para a maioria absoluta obtida para a vereação.

Falemos agora do desvio tão falado entre os resultados para o executivo e para a assembleia municipal. O PS perdeu cerca de 13 mil votos. A coligação de direita ficou quase na mesma e a CDU ganhou cerca de 6 mil votos e o Bloco cerca de 6 mil. Ou seja, a CDU e o Bloco contribuíram em partes iguais para a maioria absoluta de Costa, já que este só ganhou a Assembleia Municipal por cerca de 2 mil votos de diferença em relação à coligação de direita.
Como se compreende Costa não tem a maioria absoluta na Assembleia Municipal, precisará dos votos dos deputados da CDU para a eleição da própria mesa da assembleia ou para a aprovação de quaisquer outros diplomas, a não ser que conte com a boa-vontade da coligação de direita ou da sua abstenção. O PS e a coligação de direita ficaram com o mesmo número de deputados municipais: 23. Restam os presidentes de junta de freguesia, que por lei integram a Assembleia Municipal

Falemos agora dos votos para as assembleias de freguesia no seu conjunto. Aqui quem ganha é a coligação de direita, com cerca de mais de 9 mil votos do que o PS. A CDU sobe em relação à Assembleia Municipal, cerca de 9 mil votos, o mesmo que o PS perde em comparação idêntica. A votação do Bloco não se altera.
Foi provavelmente este aumento das listas de direita no conjunto das freguesias que fez Santana afirmar na noite eleitoral que o PS tinha ganho o executivo camarário com os votos da CDU. É mentira. Como se viu para a Assembleia Municipal Costa ganhava as eleições por pouco. Obteve foi a sua maioria absoluta com o contributo em igual proporção da sua esquerda.
Mas também não é verdade aquilo que Costa disse na noite eleitoral que tinha ganho em 36 freguesias. Ora ele ganhou foi na votação para o executivo municipal, pois a coligação de direita ficou com 26 juntas de freguesia, o PS com 22 e a CDU com 5. Devido a este facto, a coligação de direita junta aos seus deputados municipais mais 26 presidentes de freguesia, o que lhe permite ter mais 4 deputados do que o PS.

Por aquilo que se conhece da vida autárquica foi o trabalho do PSD e da CDU na vida das freguesias que lhes valeu terem maior votação nestas. O que reflecte verdadeiramente o voto útil é a diferença entre os votos para o executivo e para as assembleias municipais. Por esse motivo, é que, de um modo geral, a CDU apresenta quase sempre os seus resultados autárquicos com as votações para as assembleias e não para os executivos.
Por isso, foi estultícia de Santana Lopes dizer que foi devido a um acordo secreto entre Costa e a CDU que aquele ganhou Lisboa. O que sucedeu é que a esquerda, à esquerda do PS, tomada de medo e devido ao isolamento em que estes partidos se colocaram, foi, em partes iguais, votar Costa.
Mas esta interpretação fica para outro post.

Os resultados eleitorais podem ser consultados aqui

12/10/2009

Alianças, compromissos e voto útil


Com este título, um pouco estapafúrdio, pretendo analisar as eleições autárquicas e os resultados da cidade de Lisboa, onde, ao contrário do que esperava, não fui eleito para a sua Assembleia Municipal. Sempre fui um carapau esperançoso.

I – Resultados nacionais
Antes de mais, uma pequena visão dos resultados a nível nacional. Há mais votantes nestas eleições, cerca de 142 mil, do que nas de 2005, apesar da abstenção agora ser maior. Os cadernos eleitorais estão inflacionados.
O PS sobe cerca de 150 mil votos entre 2005 e 2009. E sobe em 15 dias seis mil votos. Teve a 27 de Setembro, nas legislativas, cerca de 2 077 mil votos, e, a 11 de Outubro, cerca de 2083 mil. Ou seja, um resultado muito parecido, o que, apesar da diversidade de eleições, permite pensar que o PS não cresceu de umas para as outras eleições, nem nada no essencial se modificou em 15 dias.
O PSD, aliado ou não ao CDS, teve cerca de 2 139 mil votos nas presentes eleições. Em 2005 teve cerca de 2148 mil, mais 9 mil votos. Não sabemos, porque não me dei a esse trabalho, se as alianças com o CDS são coincidentes nas duas eleições. Mas de um modo impressivo diria que os resultados são muito semelhantes. Não encontro também justificação para o PS dizer que teve mais votos que o PSD, pois é manifestamente impossível saber o que é voto do PSD e do CDS.
Quanto à comparação em relação ao PSD, aliado ou não ao CDS, entre as legislativas e as autárquicas podemos fazer o seguinte exercício. Se somássemos os votos do PSD com os do CDS, nas legislativas, teríamos cerca de 2 246 mil votos, se retirássemos os cerca de 170 mil que o CDS sozinho teve nas autárquicas, teríamos cerca de 2076 mil votos, que é um valor inferior em cerca de 60 mil votos ao que PSD, aliado ou não ao CDS, teve nas presentes autárquicas, isto admitindo que o CDS manteve a mesma votação das legislativas para as autárquicas. Mas ficará sempre por saber se este crescimento se deve ao CDS ou ao PSD, eu por mim inclino-me para este último, dada a sua força autárquica.
Se formos a “esmiuçar” bem, há um crescimento do PS, pequeno em relação há 15 dias, bem maior em relação às anteriores autárquicas. O PSD, aliado ou não ao CDS, tem um crescimento em relação às legislativas, mas desceu muito ligeiramente em relação às autárquicas de 2005.
Que se passa com os outros partidos. O PCP-PEV desce cerca de 41 mil votos entre autárquicas, mas sobe 93 mil votos das legislativas para as autárquicas. Este é um dos grandes dramas do PCP que tem sempre uma votação muito mais expressiva nas autárquicas do que nas legislativas, o que levava o saudoso Luís Sá a falar da dificuldade que era em cada eleição manter um valor alto nas autárquicas, quando nas legislativas se baixava tanto.
O Bloco sobe entre eleições autárquicas 6 mil votos, o que é manifestamente pouco, e desce em relação às legislativas 391 mil votos, o que é uma barbaridade, só explicável pela falta de enraizamento do Bloco na vida local.
O CDS sozinho sobe, entre autárquicas, cerca de 11 mil votos.
Os grupos de cidadãos, maneira eufemística de englobar no mesmo saco delinquentes reconhecidos e acusados, com desavindos por boas ou má razões com os partidos que antes representavam, ou num ou noutro caso de genuína eleição de autarcas independentes, tiveram mais de cerca de 60 mil votos.
Se considerarmos os brancos e nulos, que diminuem significativamente (cerca de 67 mil votos), e algum crescimento de pequenos partidos, já temos o deve o haver destas eleições razoavelmente equilibrado.
Assim, poder-se ia afirmar comparando estas autárquicas com as de 2005 que o partido que mais cresce é o PS, o que se constata pelo aumento do número de Câmaras que detém, que quem perde mais em votos é a CDU e que apesar do PSD, coligado ou não com o CDS, perder câmaras, no cômputo geral não diminui muito em votos.
O Bloco mascara a derrota que teve, reconhecida pelo próprio Louçã, com o aumento de um número total de votos.
Concluindo, nem a vitória do PS é muito expressiva, nem a derrota dos outros é muito significativa. O poder local está, por assim dizer, muito equilibrado e pior de que tudo muito bipolarizado. Isso mesmo se verifica naquelas Câmaras em que ganha a CDU, porque aí a polarização é entre a CDU e o PS, porque o PSD quase que desaparece.

Em próximo post falarei da cidade de Lisboa e tentarei justificar este título.

Os resultados eleitorais podem ser consultados aqui.

08/10/2009

Entre a espada e a parede eu escolho outra opção


Num post do blog Spectrum, um dos seus colaboradores, que eu conheço, e que assina Saboteur, termina o seu texto dizendo que dedica o seu post a todos aqueles que dizem que é indiferente votar Santana ou Costa, isto depois de se referir uma série de jovens que foram despedidos da Câmara de Lisboa quando Santana tomou conta desta.
O problema que levanta já é antigo e tem a ver com duas noções políticas correntes: uma é a afirmação de quanto pior melhor e outra é a questão do voto útil.
A primeira é há muito combatida pela esquerda, que sempre considerou que o aumento do sofrimento do povo era mau para ele e mau para as condições da luta política. Por isso, no tempo do fascismo, sempre combateu o agravamento da repressão e da situação económica dos trabalhadores. Esta ideia é típica de algum anarquismo de pacotilha e do pensamento fascista, que sempre achou que quanto maior fosse a desordem, mais facilmente o povo reclamaria a ordem. Sobre este assunto estamos conversados.
Quanto ao voto útil, já foi dito muita coisa. Mas a verdade é que o voto não é opção entre dois males, é uma escolha consciente entre os programas e as formações políticas que melhor defendem os nossos interesses. Se fosse de outro modo, teríamos o sonho daquilo que foi o rotativismo em Portugal, em que umas vezes governavam uns, noutras outros. A escolha seria sempre limitada a dois. Este foi também o sonho de José Sócrates que afirmava que era ele ou Manuela Ferreira Leite. É esta também a opção de António Costa e de toda a equipa à esquerda que o rodeia. Odeiam tanto Santana, que entre este e Costa não há outra opção. Lamento, mas espero poder ter a minha. Já se sabe que não serei indiferente se for Santana ou Costa a ganhar, têm programas e opções políticas diferentes. Não podem é obrigar-me, em nome desta dicotomia, a ter que escolher entre a espada e a parede. Quero ter a liberdade de poder votar em quem mais me interessa, que para a Assembleia Municipal será em mim próprio, ou seja, no Bloco de Esquerda.

07/10/2009

Lisboa, um novo dado


Esta manhã, como por acaso, Carvalho da Silva encontra-se com António Costa junto da Brasileira do Chiado e diz-lhe “Já que nos encontramos, quero desejar-lhe uma boa ponta final de campanha e dizer-lhe que os lisboetas e Lisboa precisam da sua vitória e, também, que o Senhor tenha capacidade para ouvir e convergir à esquerda, porque é preciso que Lisboa seja governada à esquerda”´(ver aqui). A transcrição das declarações de Carvalho da Silva foi feita a partir de uma nota enviada pelo próprio às redacções dos jornais, em que dava conta da mensagem que tinha remetido à CDU, dando todo o apoio a esta coligação. Depreende-se que seria para o resto do país.
Patuscamente li num blog, de alguém que me pareceu favorável à CDU, que considerava a notícia do Público, que dizia que Carvalho da Silva apoiava António Costa, como uma manipulação jornalística. Os militantes do PCP, ensinados a não acreditarem no que diz a imprensa “burguesa”, não percebem que por vezes ela fala verdade e que a realidade é mais pesada do que aquela que eles imaginam.

Carvalho da Silva tem manifestado há algum tempo uma certa independência, diria mesmo uma agenda própria, em relação ao PCP. A conversa da sua substituição à frente da Central não era invenção dos jornalistas. Simplesmente, como era difícil substitui-lo e por momentos aquele pareceu acatar as directrizes do PCP, continuou como Secretário-Geral. No entanto, muitos acalentavam a esperança de ter Carvalho da Silva como um líder para poder apresentar, na altura própria, como candidato a Presidente da República ou para a criação de uma nova formação política. Para Carvalho da Silva os tempos não estavam ainda maduros e tudo isso ficou em águas de bacalhau.
Hoje, depois deste encontro casual, parece-me que alguma coisa irá mudar. O PCP não é de se ficar e Carvalho da Silva ainda não tem o estatuto de José Saramago, que pode fazer tudo o queira que o Partido lhe perdoará sempre. Provavelmente, como na altura se falava, Carvalho da Silva será substituído a meio do mandato e deste modo já vai preparando a cama para outras ambições.
Dirão que estou a especular, a inventar, chamar-me-ão comentador de pacotilha, mas nunca vi um militante do PCP, com as responsabilidades de Carvalho da Silva, apoiar outro candidato que não seja o do Partido. Gostava que aqueles que andam sempre a falar da especulação da “imprensa burguesa” que ao menos tivessem a hombridade de vir justificar ou analisar o significado destas declarações de Carvalho da Silva.
Direi que são uma facada nas costas de Ruben de Carvalho e que só dão razão àqueles que andavam a apelar a uma convergência de esquerda para a Câmara de Lisboa e que agora, com algumas diferenças, lá continuam com o mesmo tipo de apelos para um Compromisso à esquerda.
Ulisses Garrido, na fotografia do Sol, lá espreitava por detrás de Carvalho da Silva quando este se encontra com António Costa. Ele é, por notícias da imprensa, um dos principais impulsionadores do último apelo a um Compromisso.

Tal como se pede ao Presidente da República contenção e bom senso, coisa que parece que se lhe varreu por completo, acho que o Secretário-Geral da CGTP também deve ter alguma contenção nos apoios que dá, atendendo que a Central é de todos e não de uma facção.

06/10/2009

Como se manipula a opinião pública


António Vitorino (AV) o comentador da RTP, que o PS arranjou para contrapor ao Professor Marcelo, fala de tudo e de nada, e a sua opinião é sempre aquela que traduz a posição oficial do PS, mas que aquele partido quer fazer passar como independente e verdadeira.
Assim, neste Dia da República, António Vitorino lá nos vendeu a sua opinião sobre as eleições para a Câmara de Lisboa. Temos assim que aquelas eleições são as mais polarizadas, em contraponto às do Porto, porque há uma coligação à direita que concorre contra o PS, que por sua vez se juntou com o Movimento dos Cidadãos, e porque as duas personalidades concorrentes são muito fortes. Ora tirando as personalidades muito fortes, mas que no Porto não serão menos, a situação em Lisboa é quase igual à do Porto. Uma coligação à direita entre PSD e CDS nas duas cidades, que em Lisboa juntou algum folclore local - o Partido da Terra e os monárquicos - contra o PS, que nesta cidade se coligou ao PS desavindo das últimas eleições intercalares, e depois igualmente as candidaturas do Bloco e da CDU.
Porque é que em Lisboa há tanta polarização? Porque a seguir o AV fala da exigência do voto útil no PS para derrotar a coligação de direita. E onde vai buscar AV esse voto, ao Bloco e à CDU.
Mas o mais espantoso é o que é dito a seguir. Como têm reagido aqueles dois partidos ao apelo ao voto útil? AV responde que a CDU reage com algum low profile e o Bloco erigindo o PS como o seu inimigo principal, pensando que pode perder algum terreno na cidade de Lisboa. E finaliza sobre as eleições em Lisboa antevendo o que sucederá se António Costa ganhar. A CDU será uma força cooperante e o Bloco de Esquerda será uma força de oposição até porque afastou o seu candidato. Esqueceu-se de dizer que o seu candidato até integra as listas de António Costa.
Dito isto, que poderá ser visto aqui, analisemos este discurso. Como já vimos as forças em presença são as mesmas que no Porto. Porque é que no Porto não há o apelo ao voto útil das forças à esquerda do PS? Porque este já dá como perdida a Câmara do Porto. Enquanto que em Lisboa isso não sucede e António Costa quer ganhar com maioria absoluta. Por isso, o apelo ao voto útil e esta subtil distinção entre a CDU, rapazes bem comportados, e o Bloco que transforma o PS em seu inimigo principal e se tornará numa força de oposição à possível maioria do PS.
Já se sabe onde leva este raciocínio. O Bloco mais uma vez transformado em inimigo principal, porque é aquele que pode roubar mais votos ao PS, por isso há que subtilmente virar as baterias contra ele.
Assim vai o comentário político em Portugal.

02/10/2009

Dormindo com o inimigo. O apelo


Em post anterior já tinha escrito sobre a possibilidade de, depois das eleições, aparecer um documento a apelar mais uma vez à união das esquerdas, que neste caso assumiu o nome de Compromisso à Esquerda, com o subtítulo bastante curioso de Apelo à estabilidade governativa.
Joana Lopes, num post que escreveu para o seu Entre as Brumas da Memória, já fez a respectiva crítica, com a qual eu concordo plenamente, acho no entanto que devo acrescentar alguns comentários de natureza políticos e uma pequena adenda.

Entendo que social e politicamente o Bloco e a CDU, representando provavelmente camadas sociais diferentes e talvez complementares, correspondem sem dúvida a eleitorado que foi afectado seriamente pela crise económica, pelo desemprego e que politicamente não se revê nas medidas tomadas pelo Governo, quer genericamente em relação ao Código do Trabalho e à reforma da Segurança Social, quer àquelas que foram tomadas sectorialmente: a avaliação dos professores, as transformações no estatuto da Função Pública, a perda de pequenas medidas de protecção social em relação a diversas categorias profissionais, etc.
Neste sentido, estas camadas que genericamente se consideram de esquerda, com valores de justiça social, e que são herdeiras de um passado político que remonta ao 25 de Abril e às transformações económicas e sociais então verificadas, e que neste momento já valem eleitoralmente um milhão de votos, não gostariam de ver os responsáveis pela sua degradação económica aparecerem de braço dado com os dirigentes do Bloco ou da CDU. Por isso, um apelo a um compromisso à esquerda, exclusivamente para assegurar a estabilidade governativa, iria defraudar as suas expectativas políticas.
Uma coisa bem diferente é o que aqueles dois partidos farão para corresponder aos desejos das camadas sociais que eles representam e como conseguirão traduzir no futuro Parlamento as suas esperanças.
Neste momento a não concretização da unidade da acção entre o Bloco e a CDU é um dos problemas que afecta a esquerda, e que talvez merecesse algum apelo à sua convergência para o tratamento de assuntos concretos. Mas sobre isso, fico-me por aqui.
Defendo ainda, como escrevi no final do post anterior, que o Bloco tem que estabelecer uma clara política de contactos e alianças com possíveis forças emergentes à esquerda, que possam representar um aumento da sua influência política e eleitoral. A “esquerda grande” tem que ter conteúdo. O bloco social das camadas e estratos da esquerda tem que encontrar a sua representação política. Nesse aspecto, são indispensáveis os contactos com a esquerda do PS e com o conjunto de pessoas sem partido, que estão disponíveis para actuar conjuntamente com o Bloco. Este são as tarefas deste movimento, o PCP estabelecerá as suas.

Gostaria de focar aqui um outro aspecto. Uma parte das primeiras assinaturas é de ex-militantes comunistas, alguns deles membros da Renovação Comunista. Tenho para mim que este apelo corresponde para muitos a um desejo de unidade que sempre foi uma das características históricas do PCP.
Se nos reportarmos ao programa da Revolução Democrática e Nacional daquele partido e que foi o seu programa antes do 25 de Abril e, com pequenas adaptações, o subsequente àquela Revolução, veremos que nele sempre se defendeu a unidade das todas as camadas anti-monopolistas – formulação que ainda hoje é retomada por Jerónimo de Sousa aqui e ali –, primeiro, contra o fascismo e depois pela aplicação prática daquele programa com vista à construção da sociedade socialista. Sem me querer mais adiantar nas razões históricas do aparecimento deste tema no PCP, diria que a execução deste programa sempre foi um dos objectivos dos comunistas e que só o desvio esquerdista e sectário da actual Direcção tem permitido que, na prática, aquele Partido se afaste dele. Nesse sentido, para muitos comunistas a convergência com o PS é possível e desejável, tal como já se verificou no passado ou foi regularmente defendida. Esquecem que o problema já não se põe nos mesmos termos em que ele foi anteriormente abordado. Hoje o PS é comandado por um grupo que há muito deixou de ser, a nível nacional, o representante da social-democracia, com tudo aquilo que significa hoje aquela corrente política, mas que tem vindo a resvalar para um partido centrão, que, mantendo ainda no seu ceio uma corrente verdadeiramente social-democrata, representa hoje os grandes interesse económicos e patronais. Por isso, qualquer aliança com este grupo, consiste na prática, como eu digo no título do post, em dormir com o inimigo

Por último só uma pequena adenda de carácter pessoal. Envolvi-me, há tempos, em polémica com uma das subscritoras do abaixo-assinado do Compromisso de Esquerda, por sinal uma das mais destacadas pela imprensa. O Vítor Dias já escreveu o que havia a dizer sobre essa apoiante do Compromisso. Eu recordo, no entanto, apesar daquela polémica já não ter muito sentido, os termos em que a senhora se me dirigiu, com uma pequena ferroada anti-comunista, que não auguram nada de bom para aquele Compromisso.
Mais uma imagem da Frente Popular, em Fraça, em 1936. Desta vez destacam-se na fotografia Léon Blum e Maurice Thorez, que foi secretário-geral do PCF.

30/09/2009

Uma "extraordinária vitória"


Com um pouco de atraso, aqui vai mais uma interpretação dos resultados das eleições.

José Sócrates na noite de Domingo, cheio de entusiasmo, clamou que o PS tinha tido uma “extraordinária vitória”. Ora, depois de conhecidos os resultados a “extraordinária vitória” consistiu na perda de cerca de 500 mil votos e de 8,5% de votantes, em relação às legislativas de 2005 (45,03%), ou então, por ter ficado abaixo dos resultados de 2002 (37,79%), quando o PS era chefiado por Ferro Rodrigues e perdeu as eleições para Durão Barroso. Ou ainda, por ter ficado entre 2 a 4% abaixo do que aquilo que as sondagens lhe davam no final da campanha. Tenho para mim que a “extraordinária vitória” se ficou a dever a ter quebrado o enguiço das europeias, que o PS sempre garantiu que eram eleições de natureza diferente.
Mas desfeito este equívoco da “extraordinária vitória”, que mesmo assim alimentou quase toda a noite informativa, vamos ao que interessa. O PS ganhou, mas ficou muito fragilizado em relação às maiorias relativas de Guterres. Sócrates tem de facto que fazer algum jogo de cintura se quer sobreviver, pelo menos, durante os dois anos iniciais, que normalmente se vaticina que dure esta legislatura.
O principal facto é que tem que contar com a participação activa de um partido à sua esquerda para derrotar qualquer proposta do PSD(78)+CDS(21), já que estes dois partidos tiveram juntos mais deputados que o PS(96).
Como conclusão geral pode-se dizer que o PS perdeu para todos, até para o PSD que subiu algumas décimas (0,3 % e 7000 votos) em relação às eleições de 2005, em que Santana Lopes foi derrotado.
Isto é o resultado de uma Governação desastrosa, que não teve mais repercussão eleitoral, porque o PS encontrou pela frente um PSD incapaz, gerido por uma senhora incompetente, que defendeu em campanha coisas indefensáveis. A sua insistência na “asfixia democrática”, que suspeito que foi bichanada por Pacheco Pereira, o homem que vê sempre em tudo a mão perigosa dos socialistas e dos seus media completamente anestesiados, o que sendo verdade, não pode ser tema único de campanha, ainda por cima dando como exemplo as escutas ao Director do Público, que no mesmo dia foram desmentidas pelo próprio.
Não quero subestimar, porque isso foi visível, o papel que tiveram algumas notícias assassinas, como o e-mail, publicado no Diário de Notícias, para a derrota do PSD. E isso deve-se à boa agência de comunicação do Governo.

O PSD sendo o derrotado da noite, nunca percebeu que tinha que estancar à sua direita a fuga para o CDS, permitindo assim, tal como o fez o PS, que Paulo Portas actuasse em roda livre, sem qualquer crítica, excepto aquelas que lhe fez o Bloco no final da campanha. Bastava que o CDS baixasse um pouco a sua votação, para que o PSD, com os votos fugidos para aquele partido, já pudesse fazer algum peito ao PS.
O PSD vai ter uma vida difícil no Parlamento, apesar da sua líder parece ter já dito que irá abster-se no primeiro orçamento do PS, garantindo assim ao Governo deste partido uns segundos mais de vida.

A subida do CDS fica-se a dever não só à incompetência do PSD, mas acima de tudo a uma perigosa situação que se verifica em tempos de crise económica, que é a deslocação de franjas da população para soluções e propostas da extrema-direita. Dirão que Portas não é Le Pen, mas o tema dos imigrantes andou na campanha, o dos ciganos também e o do rendimento mínimo nacional e dos preguiçosos que não querem trabalhar foram igualmente falados. Nos últimos dias, Portas percebendo que podia passar à frente do Bloco, desencadeou uma feroz campanha anti-comunista, já por mim referida aqui.
Por outro lado, devido ao nosso sistema de círculos eleitorais, com uns com muitos votantes e outros com poucos, o CDS, com mais 0,7% de votos que o Bloco, conseguiu mais cinco deputados. Isto sucede porque o Bloco teve muitos votos inúteis em círculos onde não conseguiu eleger deputados, ao passo que o CDS teve essa possibilidade. O mesmo sucedeu em relação ao PCP, pois uma diferença favorável ao Bloco de 2%, só se traduziu em mais um deputado: o Bloco teve 16 e o PCP 15.

Quanto ao PCP aconteceu-lhe aquilo que ultimamente lhe tem sucedido, sobe 0,6% e mais 30 mil votos e considera que se reforçou e teve um bom resultado. No PCP acontece aquilo que sucede àquelas equações que tendem para o infinito mas que nunca o atingem. Assim, o PCP está sempre a subir mas nunca atinge uma votação expressiva como já teve no passado. O drama do PCP é que não consegue capitalizar em votos o descontentamento popular de que ele é o principal organizador. Este é um problema que devia afligir os seus dirigentes, que depois se permitem declarar que o PCP não é um partido eleitoralista. Mas sem votos nunca se vai lá.

Em relação ao Bloco houve de facto diversos problemas que toldaram a sua vitória indiscutível. Primeiro ficou a duas décimas dos dois dígitos, o que, como se verificou com o CDS, daria para inchar as suas velas. Mas o pior foi ter ficado atrás do CDS, diminuindo desse modo o alcance dos resultados obtidos. Por outro lado, como já se viu, foi prejudicado na tradução do número de votos em deputados, ficando assim impossibilitado de poder, se quisesse, viabilizar legislação que fosse comum ao PS e ao Bloco. Deste modo, fica sempre dependente do PCP para encontrar soluções legislativas. O PCP dirá que é um bem, eu não acho, conhecendo a retórica oposicionista daquele partido.
Quanto à sua linguagem, penso que em certas alturas seria bom que tivesse maior contenção na apologia das suas vitórias, que, como se viu no final da noite eleitoral, não corresponderam às declarações iniciais de ser a terceira força política do país.
Penso que o Bloco terá neste momento que repensar quase toda a sua actuação. Primeiro, tendo em atenção que hoje as forças dominantes (veja-se as declarações do patrão dos patrões) viraram contra ele todas as suas baterias, terá que pensar bem no que diz e no que propõe, pois o seu programa será esmiuçado até ao último pormenor. Segundo, ter consciência que o seu eleitorado é mais volátil do que o do PCP e por isso tanto pode continuar a subir, como de repente ter uma quebra acentuada. Terceiro, tem que estabelecer uma clara política de contactos e alianças com possíveis forças emergentes à esquerda, que possam representar um aumento da sua influência política e eleitoral. A “esquerda grande” tem que ter conteúdo. O bloco social das camadas e estratos da esquerda tem que encontrar a sua representação política. Nesse aspecto, são indispensáveis os contactos com a esquerda do PS e com o conjunto de pessoas sem partido, que estão disponíveis para actuar conjuntamente com o Bloco.
Tenhamos em atenção, e isso é um facto que pouca gente realça, é que ainda em 1987 o PCP tinha 12,14 % de votos. Ora todos os eleitores que deixaram de votar naquele partido e que se refugiaram na abstenção ou no PS devem ser recuperados para o Bloco. Não é por acaso que quando fui à sessão da Aula Magna encontrei tantos velhos ex-militantes do PCP, que de certeza estavam em transição do voto do PS para o Bloco. Apesar dos anos e da lei da vida poder ter alterado um pouco esta realidade, há que recuperar os antigos votantes do PCP, que infelizes, mas sem alternativa, votavam PS, já que aqueles que votam CDU continuam a votar nela.

Parece-me pois que o se retira destas minhas apreciações é que não antevejo grande futuro em compromissos com Sócrates, mas que temos que preparar o futuro para o pós-socratismo.
PS. (30/09/09): como o post foi redigido um pouco à pressa, foram cometidos alguns erros de concordância gramatical. Espero que os principais tenham sido agora eliminados.

25/09/2009

Até um museu do ateísmo tinham


Ontem Paulo Portas, no papel do anti-comunista de serviço, achou por bem indicar a Albânia como modelo do Bloco de Esquerda. Depois de uma descrição terrível do país, metendo medo a todos, com o que nos poderia suceder se por qualquer razão o Bloco chegasse ao poder, eis que, como último argumento, indicou que a Albânia até um museu do ateísmo tinha. Vade retro, Satanás. Não fosse o demónio tentar estes bloquistas a instalar em Portugal, essa coisa tão obscurantista que é um museu do ateísmo.
O ridículo mata, mas o grave é que esta gente pensa que isto rende votos, e por isso faz afirmações deste jaez.
Há certas camadas dos nossos votantes que ainda não saíram da Idade Média mental. Mas o grave é que se Paulo Portas diz estes disparates. A “menina” Nogueira Pinto fala que o Bloco é só "espuma", e o ministro Vieira da Silva diz que uma aliança com o Bloco é uma aliança com os “conservadores”.
E ainda vem o Avante escrever: “Não é por acaso, aliás, que mais uma vez nesta campanha eleitoral os órgãos da comunicação social dominante – todos: quer os que são propriedade do grande capital, quer os que, devendo ser públicos, são de facto servidores exclusivos da política de direita – colocaram o seu tempo, o seu espaço e as suas simpatias ao serviço da propaganda do BE.
Triste jornal que não percebe quem são os inimigos principais e embarca nesta mentirola, quando sabe perfeitamente que hoje, pelas mesmas razões que dantes era o PCP, o Bloco é o inimigo principal dos partidos ditos de Governo, já que lhes pode retirar, juntamente com o PCP, a confortável maioria com que têm governado. Devia ter algum pudor e abster-se de comentários deste jaez.

Zangam-se as comadres, sabem-se as verdades


Escrevi um post sobre o problema das escutas e a luta do Presidente da República contra o PS/Governo, ou vice-versa, para influenciar o resultado destas eleições. Utilizei deliberadamente um tom duro e que deixava pouca margem entre as desonestidades de uns e as falsidades de outros.
Ontem ao ouvir a Quadratura do Círculo, da SIC Notícias, achei que o que tinha escrito era uma conversa de anjos, comparada com o que aqueles senhores disseram no programa.
Lobo Xavier mais informado, por ser da administração do Público, foi dizendo coisas espantosas, que, penso eu, sejam todas verdadeiras. Assim, o e-mail enviado para a Madeira existia e tinha aquele conteúdo. Bem pôde o José Manuel Fernandes andar a dizer que era falso ou outros a garantirem que era truncado, ficámos agora a saber que nada disso era verdade.
Segundo, houve uma “toupeira” – expressão do Lobo Xavier – dentro da redacção do Público, que passou cá para fora o e-mail de um colega e foi entregá-lo a alguém (?), que o levou a uma agência de comunicação, que segundo Pacheco Pereira trabalha para o PS. Pelo contrário, António Costa (AC) defendia que se devia prestar uma homenagem ao jornalista desconhecido que tinha conseguido restituir a dignidade a um jornal, que já tinha sido de referência. Isto foi dito, não estou a inventar.
Pacheco Pereira garantia que a agência de comunicação tentou colocar o e-mail em várias redacções de jornais, tendo o Expresso recusado a sua publicação.
Estas foram as revelações mais importantes, que permitiam a Pacheco Pereira (PP) deduzir que o PS tinha montado esta tramóia para atacar o PSD. António Costa, com ar de santo, a expressão não é minha, é do PP, garantia que os socialistas nada tinham feito, o PSD é que cavalgou a onda, o que é verdade, alimentando durante um dia a versão do Director do Público, quando afirmou que tinha sido escutado pelos serviços secretos. Mas mais, dizia sem se rir, que nem lhe passava pela cabeça que Cavaco Silva estivesse a par do assunto ou fosse responsável pelo conteúdo do e-mail. O que permitiu a Pacheco Pereira dizer que se AC estivesse ligado a um detector de mentiras, o ponteiro estaria em alta.

Não vos maço mais com esta história, só retiraria a afirmação espantosa de Pacheco Pereira de que esta tramóia servia, entre outras coisas, para fragilizar o PR, de modo a este não impedir uma aliança do PS com o Bloco de Esquerda. Este tema foi igualmente referido por Alberto João Jardim, num comício na Madeira, que, de dedo em riste, intimou o PR a garantir que proibiria a entrada do Bloco, esses comunistas, na área do Governo. Como o intelectual erudito e o populista boçal estão de acordo em relação ao Bloco.

Assim vai a campanha eleitoral.

24/09/2009

Aos medrosos e medricas


Na hora a que estou a escrever este post todas as sondagens indicam que o PS vai ganhar por uma maioria relativamente confortável. Uma atribui-lhe 40%, outras duas 38%. O PSD está derrotado e foi derrotado por incompetência da sua chefe, que se enredou nos temas menos apropriados para estas eleições, mas acima de tudo porque Sócrates e o seu grupo têm um claro domínio da comunicação social. Souberam em tempo oportuno enlear a sua opositora nos labirintos que criou e lançaram para a campanha, com biscas oportunamente colocadas nos jornais, temas que verdadeiramente assassinavam os seus adversários.
Estamos pois perante um Primeiro-ministro e um grupo de dirigentes do PS que depressa se recompuseram da derrota que sofreram nas europeias e que retomam, com uma agressividade mais virulenta, o seu domínio e controlo da sociedade portuguesa. Não nos ponhamos a pau e vamos ter novamente as mesmas políticas e a mesma agressividade que durante quatro anos assombrou este país.
Por isso, todos aqueles que após as eleições europeias acordaram cheios de medo, ai que aí vem a direita, e lembravam que pela primeira vez poderíamos ter uma maioria e um Presidente de direita, enganaram -se redondamente. O pior é que se serviram disso para o apelo ao voto útil no PS e tentaram forçar as forças à esquerda do PS a desarmarem-se para apoiar ou defender propostas de união com Sócrates. Só mostraram ou que eram actores passivos da estratégia socratista ou exibiam um desusado medo por uma coisa que ainda não tinha sucedido e, como se há-de ver, não irá suceder. O que não significa que não estejam mais uma vez a preparar nos bastidores novas conciliações e novos compromissos que serviriam como sempre o PS de Sócrates. Estejamos por isso de pé atrás perante o canto melífluo destas sereias.

Hoje José Neves escreveu mais uma vez um post com humor no Cinco Dias. Reza assim: “não deixa de ser divertido que, uma vez eliminada a hipótese de uma vitória do PSD, e colocando-se a hipótese de uma nova maioria absoluta Sócrates, o voto “útil” à esquerda acabe por ser o voto no PCP e no BE, a fim de impedir a maioria absoluta e de criar condições para um governo Sócrates um pouquinho mais à esquerda.”

Eu, por mim, voto útil no Bloco de Esquerda.

22/09/2009

O aprendiz de feiticeiro


Em post anterior já tinha feito referência às alegadas escutas de S. Bento a Bélem. E tinha focado a minha intervenção no jornalista do Público, que protagonizou o envio do e-mail ao correspondente na Madeira daquele jornal.
Vozes amigas vieram-me dizer que o senhor até era boa pessoa e não era de direita. De facto, como afirmei no meu artigo, não o conheço de parte nenhuma, o que relacionei foi uma notícia antiga, que era trapalhona, e o seu envolvimento no envio de um e-mail que me deixou perplexo.
Sobre a tal notícia já tudo foi dito na altura, sobre o e-mail, apesar de muitos acharem que o que lá se escreve é o pão nosso de cada dia nos media, acho que um cidadão tem ainda o direito de se indignar quando percebe que querem fazer dele parvo, ou seja, que querem manipular a informação que lhe fornecem. Acho que devemos sempre denunciar, e não admitir como normal, situações deste tipo.

Passados estes dias, e depois da estupefacção, vem a apreciação crítica. Reconheço que Bélem, ou seja o nosso Presidente da República, é um aprendiz de feiticeiro perante um Governo que actua com um profissionalismo indiscutível quando se trata de deitar abaixo o adversário.
Bélem comportou-se com um tal amadorismo, que roça a indigência. Não soube “colocar” uma notícia devidamente na imprensa e não protegeu as suas fontes. Permitiu que o Governo, por intermédio seja de quem for, fosse capaz, de em dois tempos, arrumar de uma penada as tentativas incapazes de Cavaco Silva para influenciar a campanha eleitoral e encalacrar José Sócrates. Andou uma pobre candidata a falar de asfixia democrática, a defender o Jornal de Sexta, da TVI, e o director do Público, das escutas que estava a ser vítima, e quem foi ao ar, sem grande indignação pública, foi a Manuela Moura Guedes, e um jornal respeitável, considerado de referência, caiu no mais completo lodaçal e o seu director a ser provavelmente despedido com justa causa.
Triste história, que revela um Presidente pouco escrupuloso e um Governo que, com profissionalismo, vai destruindo, com notícias estrategicamente colocadas na imprensa, os seus principais inimigos. Veja-se este caso em relação a Cavaco, a compra de votos no PSD e a primeira página do Expresso, com os PPR de Louçã. Quem tem uma boa agência de comunicação e coordena todos os serviços secretos não permite que os outros brinquem em serviço.

As pressões


Estão-se a avolumar à esquerda fortes pressões para que haja entendimento entre o PS e as forças à sua esquerda, particularmente o Bloco de Esquerda.
No post anterior, fiz uma ligeira referência ao assunto a propósito das declarações de Paulo Rangel num comício em Aveiro. Parece que primeiro foi Ana Gomes, depois Mário Soares a afirmar que não lhe repugnaria um acordo com o Bloco. Hoje, são dois artigos no Público assinados por André Freire e Elísio Estanque (para os quais não há links) sobre o mesmo assunto. Para terminar, e sem ter a importância das declarações anteriores, temos um artigo de Cipriano Justo para o site da Renovação Comunista.
De todas estas acções, aquela que poderá ter mais significado político é sem dúvida a de Mário Soares, que gosta sempre de mandar barro à parede para ver se pega.
Não tenho nada contra acordos pós-eleitorais entre as diferentes forças de esquerda, mas está-me a parecer que este tipo de propostas, vindas de destacados militantes do PS, se assemelham a uma célebre encenação protagonizada por Mário Soares, nos distantes anos setenta, em que, depois de ter visto o seu Governo de PS sozinho ser chumbado no Parlamento, propôs às diferentes forças políticas um acordo. Por esse motivo entrou em negociações com o PCP e o CDS, já que o PSD se recusava a colaborar, e depois de muitas negociações escolheu o CDS, dizendo que o PCP não queria coligar-se. O PCP afirmou na altura, ao contrário do que dizia o PS, que no campo da Reforma Agrária o que o PS tinha para propor era umas páginas em branco. Ou seja, tudo não passou de uma encenação para, atribuindo culpas ao PCP, fazer uma aliança com o CDS.
Não estou a dizer que é isto que vai suceder, temo é que, apesar das boas intenções de muitos, o PS como é seu hábito mude o bico ao prego e parecendo virar à esquerda, se prepare para se aliar à direita ou governar com o apoio dela.

Sem querer entrar em polémicas escusadas com os dois autores que publicam artigos hoje no Público, e que me merecem todo o respeito e consideração, gostaria de realçar algumas partes dos seus artigos que são objecto de alguns reparos.
Assim, André Freire diz: “há um certo défice de cultura democrática na “esquerda radical”: em democracia os números contam e, por isso, nunca poderão ser os pequenos a determinar as principais linhas de uma coligação. A não ser que só consigam governar em maioria absoluta … Claro que, num tal acordo, os pequenos obtêm geralmente um poder acrescido. Mas isto não significa que sejam eles a determinar o grosso do programa.” Verifica-se aqui uma crítica a um acontecimento que ainda não sucedeu, nem se sabe se irá suceder e que a prática continuada anterior nada faz prever.
O artigo de Elísio Estanque tem quanto a mim, pelo menos neste seu parágrafo, a virtude de tentar sossegar os espíritos mais irrequietos com a presença do Bloco numa coligação de esquerda. Diz ele: “a eventual influência do Bloco no governo (com ou sem ocupação de pastas no executivo) poderia garantir mais transparência e eficácia na acção reguladora do Estado, e, em contrapartida, essa eventualidade significaria que o Bloco assume o reformismo e a economia de mercado como eixos estruturantes socioeconómica”. E depois assegura que isso tem um preço para os sectores mais radicais do Bloco, mas seria um bem para a “história da esquerda e da democracia portuguesa.” Nada melhor para apaziguar os ânimos e fazer as ovelhas voltarem ao redil.
Citei longamente estes dois autores porque me parece que já há aqui demasiados aprioris para que qualquer concertação à esquerda tenha lugar.
Mas acima de tudo, nada faz pensar que, com Sócrates e a sua entourage, possa haver um acordo. Pressionar nesse sentido só poderá acarretar fracassos, quando não, e não quero fazer comparações com o que se passou com a Câmara de Lisboa, levar a água ao moinho de Sócrates e companhia.
Esperemos pelos resultados das eleições e estejamos atentos ao que dizem os seus principais protagonistas e depois falaremos sobre o assunto.

PS: já este post estava escrito, quando ouvi António Vitorino, no Notas Soltas, da RTP, com meridiana clareza, defender que não devia haver qualquer coligação com o Bloco de Esquerda e que, se o PS ganhasse, formaria Governo sozinho. Cada um assumiria depois as suas responsabilidades. Normalmente este tipo de declarações costumam conter uma chantagem implícita, típica do PS, se a direita não avalizar o orçamento é responsável por alianças à esquerda. Se a esquerda não o fizer corre o risco de apanhar com um Governo de direita. Ao longo dos anos o PS já nos habituou a esta chantagem. Esperemos que desta vez não resulte.
A fotografia é dos dirigentes da Frente Popular, que teve lugar em França em 1936. Destaca-se, de punho erguido, Leon Blum dirigente da corrente socialista francesa (SFIO).

21/09/2009

O perigo do “sistema soviético”


Paulo Rangel, essa nova esperança do PSD, apareceu em Viseu a dar a mão a Manuela Ferreira Leite. No seu discurso, depois de ataques aos apoios que Manuel Alegre e Mário Soares deram a Sócrates, achou por bem fazer esta pergunta ao PS “Mas afinal o PS faz ou não acordos com o passado?” O passado era representado pelo Bloco de Esquerda que defendia para Portugal o “sistema soviético”, (palavras do próprio Rangel), que já tinha sido vencido. Isto, porque Mário Soares de manhã tinha dito que não lhe repugnava uma coligação com o Bloco de Esquerda.
Para lá destas biscas que alguns PS e de outras áreas de esquerda vão lançando, tentando influenciar o pós 27 de Setembro – mas isto é outra história –, temos esta afirmação perfeitamente espantosa, não de um qualquer militante do PS, como esse Tomás Vasques, agora promovido debatente oficial entre bloggers, no TVI 24 horas, mas do euro deputado, vencedor das últimas eleições para o Parlamento Europeu e putativo candidato a Presidente do PSD.

Depois de no último post ter falado dos Os ódios de classe ressuscitados, que mereceu do meu amigo Fernando Penim Redondo, do DOTeCOMe, o comentário de que não era por ódio de classe que o Expresso tinha falado dos PPR do Francisco Louçã, mas sim por despeito e de António Costa Pinto, na SIC Notícias, à noite, ter dito que os dirigentes do Bloco eram da classe média e estavam entrar na idade adulta da política, por já terem esqueletos no armário (os PPR) como qualquer político que se prezasse, reconheço que, se as notícias do Expresso e os noticiários da SIC Notícias não são por ódio de classe, são pelos menos por ódio político profundo.
É evidente que na tradição marxista vulgar ódios de classe tem sempre a ver com a luta entre burguesia e proletariado e entre os partidos representantes destas classes. Simplesmente, como já nada disto é como era, apesar de Jerónimo de Sousa dizer que era por coerência, com a sua classe, penso eu, que não tinha PPR – quem falou em oportunismo político –, eu ainda continuo a pensar que a ideologia dominante, neste caso a informação dominante, não convive bem, nem quer, que um partido de esquerda, não capitalista, possa ter êxito numas eleições democráticas e tudo fará para que isso, pelo menos com a sua conivência, não suceda. Conhecemos o que se passou no Chile e o que se passa hoje na América Latina.

Por isso, Paulo Rangel não faz mais do que ressuscitar o velho papão comunista, seguindo sem originalidade grande número de comentadores, como o Pacheco Pereira, que mais não fazem do que garantir que o Bloco tem uma agenda escondida e que se lhe derem a mão, ele a toma para num repente transformar Portugal no país dos sovietes. Para mim, isto é ressuscitar o velho ódio de classe, que neste caso se manifesta pelo anti-comunismo, mas que na notícia do Expresso e nos noticiários e comentários referidos se expressa pela desinformação e provocação, mas acima de tudo pela omissão, pelo comentário jocoso, pela opinião que parecendo séria mais não faz do que desvalorizar e confundir.

Vemos seguir os próximos episódios, suspeito que vem provocação e da grossa.

19/09/2009

Os ódios de classe ressuscitados


Quem leu hoje o Expresso e viu a SIC Notícias da hora do almoço, mas quem igualmente tem acompanhado nestes últimos dias o comentário político daquela estação, perceberá até que ponto a honestidade informativa, o preconceito ideológico e a campanha desinformativa chegaram ao ponto zero da independência jornalística.
O Expresso foi um jornal que, nos tempos do PREC, se distinguiu por ter uma redacção compostas por meninos do MRRP que se profissionalizaram no tipo de provocações, que foram ressuscitadas na edição de hoje. Em que é que constavam esses ataques. Eram normalmente dirigidos ao PCP e aos seus simpatizantes, aos meios militares de esquerda e visavam criar a ideia de que bem prega Frei Tomás, faz o que ele diz e não faças o que ele faz. Ou seja, que a prática seguida pelos defensores de certas teorias de esquerda não correspondiam ao que diziam, isto tanto na política, como na sua vida pessoal. Por isso, todas as notícias que pudessem achincalhar a esquerda dita gonçalvista eram pespegadas no Expresso. Isto fez carreira e ainda hoje é a glória de Marcelo Rebelo de Sousa.
Já se sabe que, normalizados os tempos, tirando um caso ou outro de clara provocação jornalística, o Expresso tem-se vindo a caracterizar por ser o porta-voz da bem-penância nacional, nada vocacionado para as provocações, nem para o agitar de águas.
Mas hoje não resistiu a vir dizer que Francisco Louçã apesar de denunciar os PPR comprou um, de que por sinal se desfez, para ir aplicar nos PPR criados pelo Governo. Diga-se de passagem que esta notícia seria até uma boa propaganda para o Bloco e para os fundos nacionais criados pelo Ministério do Trabalho, que abandonando os PPR privados se resolve a comprar os públicos como o objectivo de obter mais lucro e maior garantia. Mas o Expresso não lhe interessa isso, quer é mostrar aos seus leitores que as poupanças de Louçã já são de seis mil contos, ou trinta mil euros, vejam lá a fortuna, e que foram aplicadas naquilo que o Bloco condena como desprovidas de interesse económico.
É interessante que nas páginas interiores vem um artigo arrasador, que eu não subscreveria, de Miguel Sousa Tavares sobre a inveja nacional para com todos aqueles que vingaram e tiveram êxito na vida, e que se reflectem nos comentários anónimos dos blogs. Ora é isto mesmo que o Expresso está fazer, vejam lá este senhor que anda a combater o Governo pela esquerda, tem um pequeno pé-de-meia, que é de facto mais do que a maioria tem, e ainda por cima vai colocá-lo naquilo que combate. Se isto não é apelo à inveja nacional que Sousa Tavares condena, vou ali e já venho. Mas o assunto não se ficou por aqui, mereceu honras de tratamento informativo destacado na SIC Notícias, todo ele escrito e redigido com aquele ar de piscadela de olho ao espectador: em bem te topo, querias lutar pelos pobres mas tu és é um rico, que fazes tudo aquilo que condenas. E termina o locutor de serviço, com aquela objectivada de cão de fila a defender o patrão, apesar do que se disse o Bloco "lá" consegue o terceiro lugar nas sondagens. Ou seja, para o locutor, o Bloco, por Louçã e alguns dos seus dirigentes terem comprado PPR e acções (até a já não dirigente Joana Amaral Dias leva por tabela) devia estar no último lugar, naturalmente não existir mesmo. E assim vai o jornalismo em Portugal.
PS.: porque não dou exemplos em relação ao que estou a afirmar sobre a SIC Notícias, aqui vai: só ontem, sexta-feira, os convidados do Expresso da Meia-Noite eram todos do Bloco Central, que se perderam num combate de galos, mas que quando paravam lá vinham dar umas bicadas no Bloco. Antes disso a apreciação à campanha eleitoral foi feito por esses dois grandes comentadores “independentes” chamados Luís Delgado e Mário Bettencourt Resendes. Mas outros exemplos se poderiam dar, mostrando a extrema dependência em relação ao Bloco Central daquela estação de televisão.

18/09/2009

Um já conhecido jornalista


Há tempos escrevi um post, que denominei As Trafulhices do Público, denunciando uma notícia completamente aldrabona que metia o Carlos Carvalhas, os encontros da Aula Magna e uma outra realização, que os seus organizadores, por mera casualidade, fizeram quase coincidir com os tais encontros e para onde convidaram o ex-Secretário-Geral do PCP, além de outros, como Jorge Sampaio.
A notícia confundia todas estas realizações e chegava ao ponto de considerar Carlos Carvalhas, secretário-geral da CGTP. Na altura como os disparates eram tantos deduzi que mesma tinha sido redigida por um(a) estagiário(a) do Público, que, acabado(a) de chegar, trocava tudo. Ora, a mesma era assinada por LA que eu na minha ignorância confundia com o(a) tal estagiário(a). Depois via blog do Vítor Dias vim a saber quem era o dito jornalista: Luciano Alvarez, que afinal merece a confiança do Presidente da República e da própria Direcção do Público.
Este senhor é o mesmo que hoje aparece nas bocas do mundo como tendo sido procurado por um assessor do Presidente da República, Fernando Lima, que, depois de lhe passar a mão pelo pêlo, o encarrega de fazer uma notícia sobre a vigilância que o Primeiro-ministro andaria a fazer ao Presidente da República, através de um assessor que tinha sido enviado para espiar os passos que este tinha dado aquando de uma visita de Estado à Madeira.
O tal Luciano Alvarez escreve então um e-mail ao seu colega de jornal, na Madeira, que é um mimo de português e do modo como estas coisas são tratadas na política, sugerindo-lhe que a notícia parta de lá, para que dê a sensação que foi uma fuga de informação do gabinete do Alberto João.
Recomendo-vos a leitura do e-mail pela ideia sinistra que transmite de como nós, os ignorantes, somos tratados por estas avis rara que têm a capacidade de nos aldrabar e de tentar condicionar o nosso juízo crítico. E ao mesmo tempo levar-vos a pensar que Cavaco e Sócrates estão bem um para o outro e que não merecem estar à frente deste país, tão detestável tem sido o seu comportamento.

O caso Manuel Alegre


Depois de me ter envolvido em violentas polémicas (ver aqui, aqui e aqui) em defesa das Conversas do Trindade e da Aula Magna (ver desta última a descrição aqui), em que participaram Manuel Alegre, o Bloco e outros movimentos de esquerda, com alguma relevância no primeiro encontro para a Renovação Comunista, escrevi um texto muito crítico sobre aquilo a que eu chamava a novela Manuel Alegre. Assim, a 14 de Março deste ano escrevi: “Sem saber como é que tudo isto irá acabar, parece-me, e espero que me engane, que findará numa coligação eleitoral um pouco original entre Alegre e o PS, em que este garante uns lugares na Assembleia e até, provavelmente, no Governo, como neste momento já tem a Ministra da Saúde, Ana Jorge, e acaba tudo com Manuel Alegre e Sócrates nos comícios eleitorais a darem vivas ao PS. Espero que este pesadelo não se concretize e que haja um pouco mais de dignidade na política.Estamos todos cá para ver, é o meu desejo.
De facto estive cá para ver e ainda bem, mas o pesadelo que eu anunciava em Março, depois de muitas peripécias, que eu relatei aqui, aqui e aqui, confirma-se, não nos moldes por mim descritos, mas sob a forma de um Comício em Coimbra, em que Manuel Alegre participa ao lado de José Sócrates e de Ana Jorge. O que irá dizer e se se dará vivas ao PS de Sócrates não sei, mas a sua presença ao lado do Secretário-geral, depois de tudo o que disse e que fez, é quanto a mim lamentável. Mas esta é a crítica moral, a apreciação política vai seguir.

Faço particular referência aos artigos que escrevi ao longo de mais de um ano sobre Manuel Alegre e a sua relação um pouco atrabiliária com a outra esquerda, dado que fui seguindo com alguma atenção o seu percurso e as esperanças que em certo momento nele se depositaram. Mas, para que todos aqueles que criticaram aquelas Conversas não se fiquem a rir e a pensar que eu sou um vendedor de ilusões e que caio sempre nas que vou semeando, contra a opinião sempre avisada dos que prevêem tudo, direi que daquelas Conversas resultou, sem sombra de dúvida, um encontro entre esquerdas que não se conheciam e que não tinham o hábito de dialogar em conjunto e a possibilidade, que não foi pequena, de olhar para o Bloco, não como um partido extremista, herdeiro dos velhos “esquerdistas” dos anos 60, mas como um partido novo, que pretende para Portugal uma nova esquerda, que se apresente ao eleitorado sem os complexos e o peso do passado, contra o cinzentismo e as derivas neo-libeais da actual social-democracia portuguesa. Nesse aspecto as Conversas foram positivas.

Resta o problema central da possível candidatura de Manuel Alegre a Presidente da República. Hoje, depois de tudo o que aconteceu parece-me a mim que aquele está cada vez mais desejoso de ser o candidato da esquerda e que por isso, para além das pontes que mantém com o Bloco, quer deixar a porta aberta para que o seu partido também o apoie. Só nesse sentido se percebe estas constantes hesitações, em que umas vezes está contra outras a favor, numa carreira errática que provavelmente deixará os seus mais fiéis apoiantes em desespero, mas que permite manter uma porta aberta com o PS de Sócrates. Sem querer justificar nada, acho que só isto explicará politicamente estas suas atitudes.
E quanto ao PCP, o seu principal crítico à esquerda, na hora da verdade, quando lá chegarmos, engolirá todos os sapos e irá votar na candidatura presidencial de Manuel Alegre.

15/09/2009

Os benefícios fiscais. Uma polémica artificial.


Depois do célebre debate entre Sócrates e Louçã, em que aquele acusou o líder do Bloco de Esquerda de tentar destruir a classe média retirando-lhe os benefícios fiscais dos PPR e nas despesas com a saúde e a educação, Vítor Dias fez de imediato um post em que admitia que as propostas do Bloco relativas aos benefícios fiscais com a saúde e educação pudessem ser semelhantes a outras de Vital Moreira, que ele anteriormente tinha criticado.
Esta posição do Vítor Dias, a quem ironicamente agradeci aqui, e que foi também referida por José Neves no 5 Dias, mereceu depois resposta de Vítor Dias, não só não concordando com as propostas do Bloco, como achando que ao justificarmos a sua defesa com as de Vital Moreira estaríamos a cair num grande oportunismo (expressão minha). A seguir para mostrar que nunca tinha estado na sua ideia ajudar o Bloco, escreveu mais um post a criticar um outro de Francisco Louça, no Esquerda.net, arranjando quanto a mim umas desculpas esfarrapadas para ilustrar aquilo que o separava das propostas de Louçã. Dava a sensação que pretendia justificar-se junto dos seus camaradas como é que involuntariamente tinha ajudado o Bloco.

Vítor Dias nunca compreendeu o que é que estava verdadeiramente em causa e o significado, mesmo que não fossem iguais, da semelhança das propostas do Bloco com as defendidas por Vital Moreira.
Vítor Dias e o PCP continuam a alimentar a lenda de que o Bloco é favorecido na comunicação social. Que os jornalistas levam ao colo o Bloco e que este foi criado pela burguesia para destruir o PCP – versão de comentador rasteiro – ou então, devido à sua origem social, é um partido irremediavelmente comprometido com a colaboração de classes e a social-democracia – versão de comentador mais especializado. Ora a verdade, é que neste momento dada a ameaça que representa para o PS a subida eleitoral do Bloco de Esquerda, a ofensiva anti-Bloco passou a ser descarada e com grande apoio nos media dominantes. Mas, acima de tudo, o PS passou a dirigi-la, classificando o Bloco como partido extremista e radical, que quer destruir a classe média portuguesa. E tem vindo a repetir esta afirmação, como eu já escrevi aqui, quer nos comícios, quer nos tempos de antena, tentando que uma mentira repetida mil vezes possa aparecer como verdade. Ou seja, independentemente do interesse das propostas do Bloco e da semelhança ou diferença que existam entre elas e as de Vital Moreira o que está em causa é o ataque injusto e falso ao Bloco, capitaneado pelo PS, tentando fazer passar propostas discutíveis, mas razoáveis, já defendias por amigos importantes do PS, como propostas extremistas, que visam acabar com a classe média.
Eu percebo que Vítor Dias não queira dar para este peditório, considerando que nada tem a ver com ele, simplesmente referir-lhe-ia aquele célebre poema de Brecht, em que "Primeiro levaram os comunistas, mas não me importei com isso eu não era comunista. Em seguida levaram alguns operários, mas não me importei com isso eu também não era operário. Depois prenderam os sindicalistas, mas não me importei com isso porque eu não sou sindicalista. Depois agarraram uns sacerdotes, mas como não sou religioso também não me importei. Agora estão-me a levar a mim. Mas já é tarde....". Para bom entendedor meia palavra basta.

Mas, independentemente desta minha apreciação política, que pode levar Vítor Dias pensar que eu quero inibi-lo de fazer críticas ao Bloco, há também as razões de fundo sobre este problema dos benefícios fiscais, que segundo os fiscalistas seriam considerados como deduções à colecta. Sobre este aspecto gostaria de citar, apesar da prosa já ir longa, a opinião de Eugénio Rosa, economista do PCP, que num texto que escreveu para o Resistir.info, apesar da crítica que faz ao debate, tem esta apreciação sobre as deduções com a saúde e depois com a educação:

Assim, quanto mais elevado é o rendimento mais poderá descontar, pois para descontar é preciso ter imposto suficiente a que se possa deduzir a despesa. Os que têm dinheiro para recorrer a clínicas e hospitais particulares de luxo são certamente os mais beneficiados porque conseguem deduzir mais, pagando assim muito menos de IRS. As injustiças são grandes e graves. Vários países da União Europeia (ex. Espanha, França, Inglaterra) não têm um sistema como o português, pois não existem deduções.
Uma alternativa a este sistema, que certamente seria mais justa, pois beneficiaria quem menos tem, e evitaria as injustiças que o actual sistema cria, seria reduzir os benefícios fiscais na saúde e aumentar, em igual volume de despesa, as comparticipações nos medicamentos. O Estado não perderia nem ganhava. Seria uma medida com efeitos imediatos. E certamente determinaria uma repartição mais justa desta despesa do Estado. O mesmo estudo poderia ser feito na educação, entre gratuidade dos livros no ensino obrigatório, eliminação das propinas na licenciatura e redução nos mestrados, e dedução das despesas de educação no IRS. Os meios financeiros não são ilimitados e há que fazer opções que devem ser as mais justas. Isto são alguns contributos pessoais que deixamos aqui para reflexão dos leitores Mas qualquer mudança exige um estudo prévio profundo para avaliar as eventuais consequências sociais, e um grande domínio desta matéria. E isso foram coisas que os intervenientes no debate revelaram não possuir.

Para além desta apreciação crítica aos debatentes, que me parece injusta, pelo menos em relação ao Louçã, atendendo que o debate tinha um tempo limitado e exigia uma grande contenção verbal, parece-me que as propostas de Eugénio Rosa não andam muito longe das do Bloco, que a serem aplicadas, nunca o seriam de imediato e necessitariam de estudo prévio.

14/09/2009

O impasse do conservadorismo nacional - II


Por típica moleza nacional ainda não tinha dado continuidade ao meu texto sobre o artigo de Pacheco Pereira, publicado no Público, de Sábado, 5 de Setembro. Mais rápido do que eu, alguém do blog Spectrum escreveu um post bastante bom sobre ele. Continuo, no entanto, a pensar que aquilo que quero dizer ainda poderá ser novidade e por isso mais uma vez me abalanço a comentar o referido artigo.

Em primeiro lugar, e porque isso tem sido nestas eleições o objectivo da direita, mas igualmente de Sócrates e do PS oficial, a classificação o Bloco e do PCP como os “dois partidos da esquerda mais extrema”. Pacheco Pereira classifica-os logo no título como da “esquerda revolucionária”.
Sócrates pouco incomodado com a fuga improvável de votos para o PCP, mas muito mais atordoado com a possível deslocação para o Bloco, chega mesmo a afirmar que este quer destruir a classe média portuguesa.
O primeiro-ministro segue mesmo aquela máxima que uma mentira repetida mil vezes pode parecer verdade. Assim, salta do frente a frente para declarações em comício e até, pasme-se, para a transcrição do debate, em tempo de antena na televisão, do seu ataque a Francisco Louçã, demonstrando que este, no afã de destruir a classe média, propunha a eliminação das deduções à colecta, o termo mais técnico, das despesas efectuadas com os gastos com a educação e a saúde. Bem pode toda essa retórica ser desmontada aqui, e noutros posts, provando que a proposta do Bloco se assemelhava a outras defendidas pelo cabeça de lista de Sócrates às europeias, Vital Moreira, estas sim bastante mais gravosas para a classe média. Houvesse mais escrutínio e independência jornalística, coisa que o Pacheco Pereira tem vindo a defender para ele e para o seu partido, mas nunca para os outros, que um qualquer órgão de informação teria denunciado esta manipulação do José Sócrates. Bastava fazer uma pequena investigação jornalística e recolher a opinião de alguns fiscalistas. Mas isso era se houvesse seriedade na imprensa.

Um segundo ponto, e este bem mais grave, que ressalta do texto de Pacheco Pereira: estão “ambos no ofício de parecer que são hoje o que não foram no passado próximo. Na verdade, embora o PCP e o BE sejam muito diferentes entre si, pela história, pela composição social, ambos estão como que presos num corpo sem cabeça. O corpo move-se bem, mas a direcção que é suposto ser a cabeça a dar está ausente, porque ambos perderam os "objectivos finais", perderam a grande estratégia, ou não a podem enunciar porque isso pareceria inaceitável em democracia.” E depois Pacheco Pereira enumera tudo aquilo a que eles são favoráveis mas que, por motivos de táctica, são obrigados a esconder. Logo o primeiro exemplo é elucidativo: “ambos desvalorizam as eleições "burguesas", mas estão transformados em partidos eleitorais”. Garante a seguir que eles não agem por “dolo”, mas “porque ficaram perdidos no meio de uma história que os condenou ao "movimento", como dizia Rosa Luxemburgo, e lhe retirou os "objectivos", os "fins", que não só não sabem como não podem enunciar.” É interessante que Pacheco Pereira recorra aqui ao livro de Rosa Luxemburgo Reforma ou Revolução, pondo estes dois partidos ao lado do reformista Eduard Bernstein, que Rosa critica, contra a revolução defendida por esta.
Mas passemos à crítica. Bem pode Pacheco Pereira, mais esperto que alguns dos seus epígonos, garantir que estes partidos não nos andam a enganar, mas que são simples náufragos da história. No entanto, Pacheco Pereira, mesmo que indirectamente, e alguns socialistas mais ousados (um deles já eu referi aqui ) voltam ao local do crime, ou sejam retomam uma velha tese da PIDE, de que os democratas que combatiam o fascismo, eram, na maioria dos casos, criptocomunistas, comunistas escondidos, que dizendo-se defensores da democracia pretendiam estabelecer o “domínio comunista”. Mas Pacheco Pereira ainda é mais rebuscado, e aí perfeito leitor dos Comunicados do Ministério do Interior do tempo de fascismo, é “porque com Louçã há dolo deliberado – ele sabe muito bem o que quer e não o diz –, mas não me parece que o mesmo aconteça com os eleitores do BE.” Ou seja, os chefes sabem muito bem onde querem conduzir as massas ignaras, tal como os agitadores comunistas que na clandestinidade conduziam estudantes, operários e outras grupos para as lutas, sabiam muito bem onde queriam chegar.

Há a seguir esse ataque mais desenfreado ao Bloco, que Pacheco há muito prossegue, associando-o às manifestações contra a globalização, à violência urbana, a todos os desacatos que por esse mundo têm lugar, mas que no nosso país, apesar dos esforços de Pacheco, de certas forças policiais, de alguns governadores civis mais irresponsáveis, e lamentavelmente de alguns meninos anarquistas, nunca se verificaram devido ao serviço de ordem montado e à grande experiência reivindicativa das massas trabalhadores. Assim, diz Pacheco: “em tempos de crise isso faz do BE uma organização que, por onde passa, deixa as sementes de um populismo, que começa na recolha de um voto de protesto radical mas que introduz agressividade e violência na vida política portuguesa. Brinquem e achem graça ao BE e depois queixem-se.” Ou seja, Pacheco, ameaça a burguesia – as classes médias – que se votarem no Bloco e lhe acharem graça, podem amanhã acordar, com os seus carros a serem queimados ou as montras das suas lojas a serem partidas. Já conhecíamos também da PIDE este tipo de prevenções.

Depois Pacheco enumera toda a fraseologia do Bloco e de Louçã, retirando-a do contexto, e explicando às massas o que ela significa e como tudo isto conduz “à repressão em nome da "justiça", dos "pobres", da "igualdade", da "revolução", é inevitável para se manter o "movimento". Perguntem a Chávez.
Aqui temos o paradigma já não dos comunicados da PIDE, mas da direita americana de que Pacheco tanto gosta, em que tudo o que não se coaduna com a literatura para almas ingénuas, como são as dos políticos americanos, já cheira a fogueira comunista que, como já acabou a União Soviética, é agora encarnada em Chávez.

Se Pacheco Pereira fosse um autor, em relação a esta prosa, para ser levado a sério, dir-lhe-ia, que tudo o que diz não tem qualquer consistência histórica. Não só ao considerar em 2009 o PCP como um partido revolucionário, e muito menos o Bloco de Esquerda, como o de chamar à colação a Rosa Luxemburgo. Esquecendo que na história do movimento comunista já muita coisa se passou depois da Revolução de Outubro. E que um partido como o Bloco de Esquerda já nada tem a ver com essa história, mas sim com os modernos partidos de esquerda, à esquerda da social-democracia, que por essa Europa, com maior ou menor êxito vão despontando, como por exemplo o partido da Esquerda Europeia, de que faz parte o Bloco.
Mas Pacheco Pereira fiel ao anti comunismo nacional, ressuscitando para uso caseiro a velha linguagem, um pouco disfarçada, da PIDE, mais não faz do que atacar o seu principal inimigo, ajustando contas como seu passado, já que o PCP, como objecto do seu trabalho, é melhor preservado dos seus dislates. Pacheco Pereira não perdoa que os da sua classe e profissão, e não o camponês atrasado do Alentejo ou o operário duma indústria em extinção, possam em qualquer altura votar Bloco e não na sua amada líder Manuela Ferreira Leite.

10/09/2009

Um belo post de José Neves. Como eu o gostaria de ter escrito.


José Neves, um jovem pensador das novas gerações, escreveu no 5 dias um texto exemplar, chamado Terceira margem – edição revista e aumentada, sobre o actual momento político e, acima de tudo, sobre as relações da esquerda. Uma crítica severa ao PS e provavelmente a todos aqueles, que nos seus cozinhados políticos, pensam há muito, deixando-se de romantismos, votar seguro e certo no PS, apesar deste ser chefiado por Sócrates, o político que pela sua postura e formação menos tem a ver com a esquerda em toda a história do PS. É, ao mesmo tempo, um elogia à possível e desejável subida eleitoral do Bloco e do PCP e à ruptura que esse facto provocará na sociedade portuguesa.
Provavelmente, por eu ser de outra geração, não escreveria assim, diria as coisas de outro modo, mais agressivas, mais datadas, mais enraivecidas, com contas a ajustar com o passado. Mas é de um jovem, sem o lastro de anos de política mal digerida, que vem este límpido e claro post sobre aquilo a que poderíamos chamar a verdadeira unidade de esquerda.

09/09/2009

Obrigado Vítor Dias


Vítor Dias num post escrito logo a seguir ao debate entre Louçã e Sócrates transcreve antigos textos seus, em que é muito crítico em relação aos benefícios fiscais dos PPR, pelas mesmas razões que Louçã, e ressuscita um artigo de Vital Moreira, criticados por ele, que propõe algo parecido, mas não o mesmo, sobre a eliminação dos benefícios fiscais em relação às despesas com a saúde e a educação.
Provavelmente pela minha ignorância nunca tinha ouvido esta discussão sobre a supressão dos benefícios fiscais para a saúde e para a educação. Por esse motivo, tendo percebido o que queria Francisco Louçã, achei mesmo assim um pouco arriscado para as seus objectivos eleitorais propor que os gastos com a saúde e a educação não servissem para descontar no IRS. Ora Vítor Dias, que já escreveu sobre tudo, conhecia estes espantosos textos de Vital Moreira, pena é que Louçã não os conhecesse, porque de certeza deixaria Sócrates de boca à banda se lhe dissesse que esta era também a opinião do seu ideólogo de serviço Vital Moreira. Como se percebeu, Sócrates demagogicamente serviu-se deste facto para meter medo à classe média com as propostas ditas “extremistas” e “radicais” de Francisco Louçã, que afinal também eram de Vital Moreira.
Também é perceptível pela leitura que Victor Dias faz do texto de Vital Moreira que há diferenças em relação ao que propõe Louçã, sendo a sua crítica às propostas do primeiro justas.
Não sei se seria esta a intenção de Vítor Dias, mas que o seu texto serve às mil maravilhas para retirar a Louçã a sua “tentativa de eliminar as classes médias”, como afirma o primeiro-ministro, e para atacar Sócrates é um facto.