02/07/2010

A “Esquerda Radical” um livro de Miguel Cardina


Fui ao lançamento do deste livro de Miguel Cardina, mas ainda não tinha tido oportunidade de o ler. Uns poucos dias de “molho” e eis que surge a ocasião. Lê-se numa tarde.
O próprio ante título deste livro diz tudo sobre o mesmo. “O essencial sobre”.
Estamos pois perante um pequeno resumo sobre aquilo que o autor entende por esquerda radical, principalmente no contexto sócio-político e ideológico dos anos sessenta e princípios de setenta do século passado.
Podemos reduzir a três os capítulos que o compõem. Primeiro uma visão da esquerda radical a nível internacional nos anos sessenta, depois a situação portuguesa com a descrição dos movimentos maoistas que, tal como cogumelos, surgiram nessa altura e depois de outros movimentos que o autor inclui na esquerda radical. Por último, a posição dos movimentos atrás referidos em diferentes contextos, que vão desde a guerra colonial, aos comportamentos humanos, e à recepção em Portugal das novidades ideológicas estrangeiras.
Podemos dizer que no “essencial” este livro cumpre com o seu objectivo dando-nos a informação indispensável à compreensão de uma época. Podemos dizer que há algum desequilíbrio entre uma informação bastante pormenorizada sobre a instalação das correntes maoistas em Portugal, que é completado com um célebre quadro que o autor já tinha divulgado em colóquios anteriores sobre o mesmo tema, e que tem sido objecto de grandes encómios, e o resto do livro. Penso que isto resulta de ser este o tema da tese de doutoramento de Miguel Cardina.

Dito isto, que me parece ser motivo suficiente para uma compra e leitura do mesmo, achei que devia discutir dois assuntos que o mesmo me suscitou.
Primeiro o título do livro. O autor, e bem, justifica a opção para designar todos os movimentos surgidos naqueles anos como “esquerda radical”. Considera que seria parcial chamá-los de “esquerdistas”, designação pela qual eram denominados pelo movimento comunista pró-soviético, de acordo com o livro clássico de Lenine, “Esquerdismo, doença infantil do comunismo” e de “esquerda revolucionária”, como alguns deles se gostavam de designar, por se oporem ao PCP “reformista”.
Simplesmente esqueceu o autor que em algumas traduções do livro de Lenine o termo “esquerdismo” se traduz por “radicalismo de esquerda”, o que não sendo a mesma coisa que esquerda radical, é no entanto bastante semelhante. É mesmo por esse termo, substituindo esquerda por pequeno-burguês, que Álvaro Cunhal designa alguns daqueles movimentos, chamando-lhes com acinte “radicais pequeno-burgueses de fachada socialista”. Por outro lado, a esquerda radical é ainda hoje a forma como Sócrates e alguns socialistas se referem aos movimentos que se situam à sua esquerda. Aparecendo o PS como uma esquerda moderada oposta a esses tais radicais. Pelas razões apontadas faz-me alguma comichão esta designação. Preferia provavelmente a da "extrema-esquerda" ou então de "extrema-esquerda radical", o que, parecendo ser o mesmo que "esquerda radical", não é vulgarmente utilizada nas diferentes acepções que eu acima referi.

Um segundo ponto refere-se ao primeiro capítulo. O autor tem a preocupação de dar muito rapidamente uma visão histórica dos diferentes modelos de acção e organização que se podem incluir na esquerda radical. Num deles, que o autor denomina “partido revolucionário”, que corresponde grosso modo à formação dos partidos comunistas e da III Internacional e aos dissídios posteriores (trotskismo e maoismo), esquece completamente origem daquele modelo e da ruptura que estabeleceu com a social-democracia da II Internacional, no final da I Guerra Mundial. Penso mesmo que em quase toda a sua obra, esquece que na origem de todo o movimento socialista/social-democrata e comunista, como depois o iríamos conhecer, tem a sua origem, mesmo que seja em contraponto, na II Internacional e no principal partido social-democrata da época, o partido social-democrata alemão. Para ilustrar esta minha afirmação basta ver este pequeno parágrafo para se perceber o que escrevo.
Depois do corte anarquista, na I Internacional, e do dissídio trotskista, o maoismo representa o terceiro grande cisma no movimento comunista internacional.” Ou seja, considera-se o anarquismo como um dissídio do comunismo e passa-se por cima da II Internacional e da criação do movimento comunista como o viríamos a conhecer no século XX. Quem fala a propósito da esquerda em Spartacus e em Thomas Müntzer não pode esquecer esta dissidência fundamental, com reflexos ainda nos dias de hoje, entre sociais-democratas e comunistas.

Que Miguel Cardina não me leve a mal mas isto foram só duas pequenas considerações sobre o seu livrinho, que em nada devem contribuir para a recusa da sua leitura, que recomendo.

29/06/2010

O avanço da direita e algumas palavras iniciais


Penso que alguns dos meus leitores já terão pensado: “este acabou de vez com o blog, esmoreceu a sua veia crítica”. A verdade é que um blog não é um trabalho de casa diário. Sei de alguns que em férias ou mesmo no estrangeiro não reprimem o seu amor à blogosfera escrevendo diariamente o seu post.
Sei também que quem não escreve é esquecido. Já não vale a pena passar por lá. No entanto, há alturas em que me falta a inspiração ou então a moleza e os pequenos afazeres do quotidiano são sempre uma boa razão para nada se escrever. Neste caso, as razões foram várias, a última, uma arreliadora gripalhada. No entanto, venho avisar que voltei, espero continuar com mais regularidade, e pedir desculpa a todos aqueles que foram colocando comentários nos meus posts, que oportunamente lhes darei alguma resposta.
Dito isto passemos ao que importa.

Todas as sondagens o dizem o PSD já passou à frente do PS e prepara-se afanosamente para tomar o poder, o PS entrou naquele estado catatónico em que parece que a única coisa que o motiva é a defesa do “bom-nome” do seu secretário-geral.
Eu sei que as coisas mudaram, a crise agravou-se, o PS elaborou um plano de austeridade com tudo ao invés do que tinha andado a prometer nas eleições e perdeu a maioria absoluta com que arrogantemente tinha governado na legislatura anterior. Mas, no entanto, manifesta uma clara satisfação pela eleição de Passos Coelho, saudando o afastamento da nova liderança dos sarilhos em que andava metido o seu secretário-geral e cheio de esperança de poder chegar a acordo com ele. No fundo, aceitando como inevitável a sua derrota e a sua substituição pelo partido da direita. Regressámos com Sócrates ao pântano do Guterres, que preferiu demitir-se a ter que enfrentar a oposição. Dir-se-á que Sócrates é um lutador, mas tenho para mim que irá cair de podre sem ser capaz de enfrentar a direita. Dirão alguns que lhe está na massa do sangue, quem seguia uma política direita não pode agora vir transvertido num lutador de esquerda.

Mas em que consiste este ataque da direita. Em primeiro lugar, a própria percepção da crise financeira e económica pela direita, que depois de clamar que era preciso ajudar maciçamente os bancos e os banqueiros e forçar o investimento estatal, mudou subitamente de orientação e obriga os governos a apostar agora na redução dos deficits que a política anterior criou. Assim, começou a algazarra, de que se andou a gastar de mais, que chegou ao fim o período das vacas gordas e que temos de apertar o cinto para acumular aquilo que desbaratámos.
Esta tem sido das campanhas conduzidas pela direita e pela sua corte de economistas e comentadores das mais soezes que se têm visto, com o beneplácito de Cavaco Silva. Esta campanha é feita através dos meios de comunicação social, não se distinguindo nisso a televisão pública da privada. Tanto ouvimos as mesmas opiniões num programa da televisão pública, chamado A Cor do Dinheiro, como nessa telenovela que Fátima Campos Ferreira nos trás todas as segundas-feiras, que é o Prós e Contras, como nos programas desse “incompreendido” Mário Crespo. E depois são os pesos pesados dos banqueiros, arrogantes, como João Salgueiro, ou ex-ministros da economia, ou nos textos sempre azedos de Vasco Pulido Valente. Todos nos vêm dizer que a festa acabou, que preciso baixar os ordenados e retirar o décimo terceiro mês aos funcionários públicos, esses calões que há muito andam a esmifrar a Nação. No fundo, acabar de vez com o Estado Social ou, como dizia há tempos um professor de economia num dos programas do Mário Crespo, é preciso que os políticos convençam o povo de que o Estado Social precisa de ser reformulado, mas o que na prática devem fazer é acabar de vez com ele porque é muito caro.
Esta ofensiva da direita não visa unicamente baixar o deficit, quer de uma penada baixar os salários e acabar de vez com as despesas do Estado Social.

A tudo isto que responde o PS, nada. Deixa-se ir na onda, mas pior ainda inventa um Portugal ideal, que está a reagir muito bem à crise, que só existe na cabeça de Sócrates e de alguns dos seus ministros propaganda. Em vez de enfrentar a crise, tentando desmascarar a argumentação da direita envolve-se no seu torvelinho, imaginando oásis onde os não há. Depois disto mais cedo ou mais tarde o PSD estará alegremente no Governo.

Qual a resposta à esquerda do PS. Protestar, tentar, diga-se muito ineficazmente, desmascarar o argumentário da direita. No entanto, esta esquerda está dividida. Com um PCP fechado e ultra-sectário e um Bloco de Esquerda ainda à procura de um espaço próprio, com visíveis debilidades organizativas e de inserção no mundo do trabalho e de protesto.

Por tudo isto a candidatura de Manuel Alegre poderá ser nestas circunstâncias um unificador de esquerda, capaz de pôr alguns pauzinhos na engrenagem do avanço da direita. Mas disto falaremos mais tarde.

05/06/2010

Um Blog amigo e outros considerandos


Ao contrário do que tem sido meu costume, tenho preenchido este blog com alguns posts que recorrem unicamente a anúncios de iniciativas ou a vídeos que, podendo ser interessantes, podem muitas vezes não reflectir a minha opinião pessoal.
Vem isto a propósito de ter encontrado a intervenção do Daniel Cohn-Bendit no Parlamento Europeu numa série de blogs. Juro que a copiei a partir do um e-mail que me enviaram, simplesmente quando dou por mim estava em todo o lado. Nem vale a pena enumerar os posts onde a encontrei.
Serve este intróito como introdução a mais um dos blogs em que ela vem referida, para o qual queria chamar a atenção, pois apesar de não ser recente, me pareceu ter bastante interesse e por isso já o incluí naquela lista de blogs que consulto quase diariamente.
O Blog em causa é O que fica do que passa – para lá da espuma dos dias, um dos seus principais autores é o Henrique de Sousa e o último artigo que escreveu O sectarismo doença infantil do comunismo… é um texto bastante interessante sobre as práticas reais do Avante e do PCP. No primeiro caso, considera espantosos que o Avante consiga falar da grandiosa Manifestação do 29 de Maio sem uma única referência ao discurso que Carvalho da Silva lá pronunciou.
A outra é relativa à convocatória de uma manifestação em frente da embaixada de Israel, onde aparece o PCP e outras organizações afins, mas donde são completamente excluídas algumas outras que vulgarmente têm participado neste tipo de manifestações pela causa palestiniana. Vale a pena por isso ler o artigo e passarem os olhos pelo blog.

No post anterior lá vem o discurso de Daniel Cohn-Bendit, mas aqui enquadrado num extenso texto de Henrique de Sousa, que eu por sinal ainda não tive oportunidade de ler. Mas no seu conjunto e pela personalidade de um dos seus principais intervenientes, recomendo vivamente uma visita ao blog.
Na impossibilidade de reproduzir por motivos técnicos a bela fotografia que serve para encimar o blog, junto se anexa a fotografia do autor do post citado.

03/06/2010

Daniel Cohn-Bendit fala no Parlamento Europeu sobre a ajuda econômica à Grécia



Vejam este discurso de Daniel Cohn-Bendit, do Grupo Verde, no Parlamento Europeu. Há também seis (6) submarinos alemães envolvidos na história

01/06/2010

300.000 Manifestam-se por uma política diferente



Vejam esta reportagem em vídeo da Manifestação de 29 de Maio, acompanhada da bela música de Sérgio Godinho. Termina com o hino da Inter.

Pensar os pensadores do socialismo: Gramsci


Para ampliar a imagem, para uma melhor leitura, basta clicar nela.

31/05/2010

Festa ou luta: a Manifestação de 29 de Maio


Já se passaram quase 48 horas sobre a Manifestação de 29 de Maio e eu, num atraso injustificável, venho escrever sobre um tema que já se dissolveu na espuma dos dias.
No entanto, não quero deixar de assinalar uma discussão que perpassou entre os blogs 5 Dias (ver aqui, aqui e aqui) e o Vias de Facto (ver aqui, aqui e aqui) e que se resume, naquilo que me interessa, entre saber se a Manifestação de 29 de Maio era uma festa ou uma jornada de luta. Houve um cartaz, que eu só vi reproduzido na blogosfera, que apelava à participação num “protesto geral”, chamando-lhe “Concentração Anti-capitalista”, e que decorreria meia hora antes da manifestação da CGTP, marcada para o mesmo dia, com início no Marquês de Pombal. Este apelo, tinha como subtítulo “A crise dos poderosos é a festa dos oprimidos”. Daí, portanto, além da discussão sobre os verdadeiros objectivos daquele apelo, debatia-se igualmente se aquilo que se iria passar no Sábado era uma festa ou uma jornada de luta. José Neves, com muita graça, terminava um post no Vias de Facto assim: “Ou alguém duvida que, depois da manif, boa parte dos que estamos aqui a escrever sobre este assunto, vamos é comer uns caracóis e beber umas cervejas e festejar a "jornada de luta"? Nesse momento, é só olharem para o lado e verem não sei quantos trabalhadores a fazerem o mesmo. Talvez aí vejam quão idiota é este jogo de espelhos.”
Eu por mim, que não gosto de caracóis, terminei esta manifestação comendo uma deliciosa tosta mista, acompanhada de cerveja. Mas no passado 25 de Abril lá fui comer os tradicionais caracóis e depois banqueteei-me, com aquilo que verdadeiramente aprecio, que são as conquilhas, por sinal bem grandes.
Mas abandonando este tom, um pouco cínico, sobre o final das manifestações. Gostaria de recordar que o verdadeiro enquadramento das mesmas tem pura e simplesmente a ver com as situações concretas em que se realizam e pouco devem às discussões teóricas que se tecem à sua volta.
Vejamos, durante anos, a UGT, no 1º de Maio fazia umas festinhas anémicas ali para os lados da Torre de Belém e dizia que estava a festejar o dia do trabalhador. Depois, quando ganhou coragem, lá passou a descer a Avenida da Liberdade e parece que acrescentou que a jornada também era de luta. A CGTP respondia sempre que festejar o dia do trabalhador era lutar pela melhoria das suas condições de vida e pelos objectivos concretos que se punham em cada 1º de Maio. Esta polémica durou anos e serviu para entreter muito locutor da televisão, que regularmente lá ia fazendo a cada um dos secretários-gerais das duas Centrais a tradicional pergunta se aquele dia era de festa ou luta. Por isso, lamento, mas quando leio estas discussões vêm-me sempre à memória esta bizarra polémica que todos anos servia para tema de abertura dos telejornais. É evidente que uma manifestação com os objectivos que esta tinha constituía uma jornada de luta, mas simultaneamente, dado o carácter pacífico em que decorreu, era também uma festa. Luta, e luta dura, foram durante o fascismo, as manifestações da Oposição, quando nos arriscávamos a ficar com uns hematomas na cabeça ou nas costas ou até, em casos excepcionais, uma bala no corpo. Essas não tinham qualquer carácter de festa. Era a fúria que nos tomava quando a polícia marchava sobre nós e quando a única arma que tínhamos eram as pedras retiradas do passeio.
Suspeito que alguns que clamam pela festa estão a pensar numa boa carga policial e nuns vidros partidos, numas barricadas, como no Maio de 68. A esses, só há que apelar para se organizarem e serem capazes de arrastar as massas para esse grau de luta, não se sirvam é das manifestações dos outros, dos tais reformistas, para fazerem peito à polícia e ao poder. Não podemos, com irresponsabilidade, transformar jornadas que são de luta e combatividade, mas também de festa, em cargas policiais que afastariam milhares de trabalhadores organizados e deixariam isoladas as vanguardas "esclarecidas". Aquilo que demorou tantos anos a conquistar: a legalidade de nos podermos manifestar, não pode ser transformada em cargas policiais. Uma manifestação não é e a tomada do Palácio de Inverno e mesmo muitas nem sempre resultam na vitória das nossas exigências sociais.

28/05/2010

Grande Manifestação Nacional - 29 de Maio

Vai e participa.

26/05/2010

Álvaro Cunhal, sete fôlegos do combatente



Com apresentação de Manuel Alegre e António Borges Coelho e leitura de textos por
José Manuel Mendes, é lançado no dia 27 de Maio, às 18,30 horas, na Livraria BUCHHOLZ (Rua Duque de Palmela, 4 – 1250-098 Lisboa), o livro de Carlos Brito, Álvaro Cunhal, Sete Fôlegos do Combatente.

Vão e comprem um livro, que vale a pena. Eu já li.

19/05/2010

Pacheco Pereira contradiz página oficial do Vaticano


Aos domingos, Pacheco Pereira (PP) tem um programa na SIC Notícias, chamado Ponto Contra Ponto, onde atribui notas, não numéricas, mas qualitativas, a diversos programas de televisão ou a artigos de jornais. Conhecendo a idiossincrasia de PP não é difícil adivinhar quem é que ele classifica como tendo feito bom ou mau trabalho. Mas esta sua arrogância soberana, que lhe permite classificar os mortais segundo a sua sobranceira opinião, atingiu nesta semana o cúmulo da ignorância e a deliberada manipulação das consciências.
Tal como a sua camarada Zita Seabra, mas esta tendo chegado mesmo à conversão, PP manifesta um grande respeito pela religião católica e principalmente por este Papa, não só porque lhe atribuiu grande grau de cultura, mas porque o considera conservador, defensor dos valores oficiais da direita católica. Nesse sentido, e sendo ele agnóstico, segundo já o afirmou, sempre que pode vem em defesa do Papa e dos valores que ele possa representar. Assim, teve o desplante de criticar uma jornalista da SIC por esta ter afirmado que aquele Estado era uma monarquia absoluta. Esta referiu também a data da criação do Estado do Vaticano, mas talvez por pudor não assinalou que este tinha resultado de um acordo entre o Papa da época e o Governo de Mussolini.
Que foi ela dizer. PP atribui-lhe mau trabalho, porque o Estado do Vaticano não era uma monarquia absoluta. Os Papas não têm filhos, portanto não é uma monarquia, e muito menos absoluta, já que se guia por muitas das regras do Estado Italiano, que é democrático.
Sucede que o Esquerda Republicana foi consultar o site oficial do Estado do Vaticano e não é que o próprio se considera uma monarquia absoluta, já que "o Chefe de Estado é o Sumo Pontífice, que tem plenos poderes legislativo, executivo e judicial."
Grande calinada oh! Pacheco, para outra vez mete a viola no saco.

Assisti não só às afirmações da jornalista da SIC Notícias e comentei: valente jornalista que classifica de absoluto o Estado do Vaticano, como ao programa de Pacheco Pereira, mas quem me alertou para o assunto foi um post de Joana Lopes, no Vias de Facto, que remete para o blog Esquerda Republicana, já referido, e este para a página oficial do Vaticano. O meu obrigado a todos que denunciaram este mau trabalho de PP.

18/05/2010

Uma semana louca


A semana passada foi das mais espantosas em termos mediáticos. Numa altura em que o Governo lançava a maior operação de esbulho ao bolso dos portugueses e "dava o dito por não dito" em tudo o que já tinha dito, os media criaram um país artificial. Metade estava a comemorar a vitória do Benfica e a outra metade recebia beatificamente o Papa.
Hoje já sabemos que no fim-de-semana em que o Benfica era campeão uns senhores da União Europeia, de voz mais grossa, tinham dado uns berros que ou Portugal apertava os gasganetes dos seus cidadãos ou então o euro acabava. Vai daí, pela calada da noite, e parece que a reunião durou até de madrugada, dois senhores, um deles o conhecido Ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, e o outro uma tal Nogueira Leite, que, com ar angélico, nos aparece na televisão transvertido de comentador independente, negociaram, o primeiro em nome do PS e segundo em nome do PSD, as malfeitorias que iriam fazer aos portugueses. No dia seguinte de cara lavada José Sócrates e Passos Coelho concordam, parece com pequenas alterações, com as medias que aqueles dois senhores tinham acordado durante a noite.
Enquanto tudo isto se passava e o nosso destino era traçado quer por Bruxelas, quer por dois senhores que para isso não tinham sido mandatados nas eleições Outubro, os media dominantes continuavam alegremente a debitar a mais que desinteressante visita papal.
Só uma semana depois caímos na realidade e suspeito que ainda não nos apercebemos daquilo que nos irá acontecer.

No meio disto tudo dois pequenos apontamentos. Houve, parece que este fim-de-semana, a bênção das pastas dos “meninos-estudantes” que as quiseram levar a benzer. Grande reportagem nas televisões. A juventude sempre estouvada, de capa e batina, de pastas com fitinhas a receber bênção de suas excelências. Mas o que mais me indignou foi a resposta de um jovem à pergunta sobre as dificuldades que iria encontrar na vida real. Respondeu, com grande alegria e satisfação, concordando perfeitamente com as palavras que dizia, que trabalho era fácil de arranjar, um emprego é que era muito mais difícil. Como que se verifica a ideologia dominante e as faculdades de economia existentes já conseguiram moldar o espírito de um jovem que galhardamente se oferece como voluntário para a defesa da flexibilidade no emprego. Mal sabe ele que há alguns anos e provavelmente ainda hoje, quando um departamento de recursos humanos perguntava a um candidato a um emprego o que é que ele pretendia, se este respondesse trabalhar, era um passo andado para a admissão, se respondesse um emprego, de certeza que era recambiado pela mesma porta pela qual tinha entrado. São estes os exemplos dos jovens que estão a sair das nossas faculdades.

Outro pormenor teve a ver com a visita do Papa. Fátima Campos Ferreira (FCF), como mulher de mão da Igreja, assegurou a partir de Fátima a direcção para a RTP 1 de toda a informação da visita papal. Quem foi ela entrevistar, o inefável João César das Neves. Já se sabe que o Sr. Professor falou da riqueza espiritual de todo aquele “comovente” ajuntamento. Mas FCF não pode resistir a fazer um trocadilho entre a riqueza espiritual e a pobreza que iria afligir os bolsos dos cidadãos, ao que Sua Excelência respondeu que perante o fervor religiosos que se estava ali a viver quanto transitórias eram as medidas económicas que se estavam a tomar, nas costas de todos, digo eu.

17/05/2010

Pensar os pensadores do Socialismo: Trotsky


Para ampliar a imagem, para uma melhor leitura, basta clicar nela.

14/05/2010

Alcântara canta Abril ... em Maio

12/05/2010

O Governo quer ver se o aumento de impostos “passa de fininho”


Utilizei esta feliz expressão de Paulo Portas, agora preterido por Passos Coelho como interlocutor de José Sócrates, para me referir ao aumento de impostos defendida pelo Governo, cuja notícia é transmitida aos portugueses entre, segundo o mesmo Paulo Portas, as comemorações futebolísticas e a vinda do Papa.
Ainda há poucos dias, e a SIC Notícias relatou esse facto, José Sócrates, naquele estilo pimpão que o caracteriza, gritava para os deputados que não iria haver aumento de impostos. Nem meia dúzia de dias se passava e o PS, pela voz compungida de Santos Silva, vem anunciar que este partido não está a trair os seus compromissos eleitorais mas sim a cumprir as ordens de Bruxelas. Uma pouca-vergonha.
Nos últimos tempos, e não é preciso recuar muito, o Governo de José Sócrates e os seus apaniguados mudaram completamente de estratégia, que correspondeu igualmente a uma evidente mudança no PSD.
O PS ficou completamente extasiado com a subida de Passos Coelho à direcção do PSD. Todos à compita, incluindo o já senil e rancoroso Mário Soares, vieram elogiar a sua eleição e o novo estilo inaugurado por aquele político. Em post anterior, já me pronunciei sobre estas novas relações PS-PSD. Mas o mais grave e que à agressividade mostrada pelo PS em relação a Manuela Ferreira Leite sucedeu o desnorte e declarações que variam ao sabor dos acontecimentos, que no mesmo dia afirmam uma coisa e o seu contrário. Não havia aumento de impostos, mas já vai haver. Ir-se-iam manter as grandes obras públicas, mas afinal vai-se só fazer um TGV que termina no nada. Este Governo está sem rumo e sem perspectivas e o pior é que está a dar a mão ao PSD para ver se este o mantém no poder por mais alguns meses. Não sabemos o que hoje vai resultar da reunião em Santarém da Comissão Política daquele partido, mas suspeito que não deve ser pacífico permitir que o PS continue a governar. Só a estratégia do PSD em relação às presidenciais, de não querer neste momento agitar as águas, é que pode permitir deixar o PS andar nesta roda-viva de contradições. Mas não tenho dúvidas, ou alguma coisa se altera e a vitória difícil, mas não impossível, de Manuel Alegre pode dar o seu contributo, ou então depois das eleições presidenciais, com Cavaco eleito, o PSD dará a estocada final num Governo moribundo e com um primeiro-ministro incapaz de governar o país em circunstâncias difíceis e com maioria relativa.

E a esquerda o que tem a dizer sobre isto? Ou se empenha a sério na eleição do Manuel Alegre ou então terá o destino de ver os comboios passarem sem nada poder fazer para alterara o estado de coisas. Compreenda o PCP a importância e o significado destas eleições presidenciais.
Alguns irão dizer que privilegio a luta eleitoral em detrimento da luta de massas. Mas não tenhamos dúvidas conseguir transformar o descontentamento social em alteração da correlação de forças eleitoral é uma luta que há muitos anos tem ofuscado os dirigentes do PCP, mas que, pelos resultados obtidos, se tem revelado um fracasso. Lutas sociais por objectivos concretos: aumentos salariais, defesa da contratação colectiva, regalias sociais têm saído vencedoras e obtido, por vezes, assinalável êxito. Manifestações e greves por objectivos gerais, podendo abranger milhares de trabalhadores, raramente conseguem no final traduzir-se em votos e isto porque politicamente nada se fez para dar à maioria social descontente uma saída política com perspectivas. Manuel Alegre, apesar de todas as suas insuficiências, pode constituir uma saída política para esta situação acabrunhante. Haja visão política para o compreender.

27/04/2010

A igreja cúmplice do nazismo, fascismo e outras ditaduras


A menos de quinze dias da vinda do Papa convém recordar um pouco a história

26/04/2010

A Arte de Morrer Longe - Mário de Carvalho


A Arte de Morrer Longe, conversa com o autor, Mário de Carvalho, e leitura por Diogo Dória.

A sessão terá lugar no próximo dia 26 de Abril, segunda-feira, pelas 18.30h

Livraria Leya na Barata, Av. Roma, 11-A.
Já o livro livro e gostei muito. Falar-vos-ei disso depois. Aproveitem e passem amanhã ao fim do dia pela Barata.

25/04/2010

Aguiar Branco ouve vozes de além-túmulo


Não ouvi na totalidade o discurso de Aguiar Branco na Assembleia da República a propósito da passagem do 36º Aniversário do 25 de Abril. Parece, segundo os comentadores, que resolveu a propósito de baralhar a esquerda com a direita fazer citações de Sérgio Godinho, Lenine e Rosa Luxemburgo.
Num pequeno enxerto transmitido pela SIC Notícias ainda tive oportunidade de ouvir alguns dislates como o de ser povo tanto o trabalhador da Lisnave como o seu accionista. Ou então, a citação de Lenine, que já vem da Marx ou de Engels, das duas condições necessárias para haver uma revolução: que os de baixo já não aguentem mais e dos cima não possam governar como dantes. As palavras são minhas e não de qualquer daqueles autores, mas a ideia é a mesma. Percebe-se que aplicada aos dias de hoje esta citação vem completamente a despropósito, já não tanto em relação ao próprio 25 de Abril, mas isso é coisa que Aguiar Branco não entenderá.
Mas o que mais me indignou foi ouvir uma citação de Rosa Luxemburgo pronunciada a seguir à Revolução Bolchevique, contra o domínio daquela revolução por um único partido, que Aguiar Branco, sem o dizer, tenta dirigir ao Partido Socialista e à qual atribuía a data de 1920.
Ora Rosa Luxemburgo, um dos espíritos mais lúcidos da esquerda revolucionária alemã do final do século XIX e início do Século XX, foi assassinada por espancamento por milícias da direita nos inícios de 1919, aquando do levantamento em Berlim do movimento espartaquista, que esteve na origem do Partido Comunista Alemão. Portanto, quando o nosso citador de ocasião atribuía a data de 1920 àquelas palavras, já Rosa Luxemburgo estava morta e enterrada e só por transmissão mediúnica é que Aguiar Branco as podia enquadrar naquela data.

23/04/2010

Rui Pedro Soares não é um dos Dez de Hollywood


Um pequeno arrivista, que por saber mover os cordelinhos dentro do PS chegou a Administrador de PT, tentou hoje no nosso Parlamento passar por mártir ao recusar-se a responder às perguntas que os deputados da Comissão de Inquérito ao Negócio TVI /PT se preparavam para lhe fazer. As razões invocadas foram de que ele próprio não se queria incriminar e por isso achava que tinha o direito de ficar calado. Isto depois de ter lido um texto introdutório em que pedia desculpa a José Sócrates por ter invocado o seu nome em vão. Onde já chegámos na sabujice.
Os deputados da Comissão de Inquérito, com a abstenção do PS, que nesta Comissão se comporta unicamente para achincalhar, decidiram levar ao conhecimento do Presidente da Assembleia da República esta recusa de Rui Pedro Soares em prestar declarações para que este notifique, de acordo com a lei que gere estas comissões, o Procurador Geral da República deste comportamento, de modo a poder instaurar ao depoente o devido processo crime por desobediência classificada.

Este episódio fez-me por momentos recordar a gloriosa luta de alguns argumentista, e não só, que na Hollywood do início da Guerra-Fria se recusaram a denunciar à Comissão de Actividades Anti-americanas, criada com funções de inquérito pela Câmara dos Representantes dos EUA, os seus companheiros que teriam opiniões próximas dos comunistas. Por esta recusa em prestar declarações à Comissão foram julgados e condenados a penas de prisão que variaram entre um ano e seis meses e ficaram com as vidas profissionais completamente destroçadas.
Esta batalha dos Dez de Hollywood, que ficará para sempre na história como um exemplo da verticalidade, só por ironia é aqui invocada, não deixando no enanto de ser uma homenagem a uma luta há muito esquecida.
A História conta-se em poucas palavras e integra-se num episódio muito mais triste e vasto que foi, no início da Guerra-Fria, a Caça às Bruxas, neste caso a homens e mulheres de esquerda, nos Estados Unidos.
Reporto-me, por facilidade de informação, à Wikipedia (versão em língua francesa): no início de 1947 diversas personalidades ligadas ao cinema e a Hollywood foram convocadas para depor na Comissão de Actividades Anti-americanas, onde lhe eram feitas perguntas do género se tinham feito parte do Partido Comunista Americano, se perfilhavam ideias comunistas ou se conheciam alguém que tivesse feito parte daquele Partido ou perfilhasse tais ideias. Depois de várias peripécias, houve dez corajosos produtores, realizadores e argumentistas que, invocando a 1º Emenda da Constituição Americana, se recusaram a responder e por isso foram acusados pelo Congresso de ultraje. Simultaneamente foram incluídos num lista negra elaborada pelas grandes companhias cinematográficas que os impedia, bem como a outros incluídos igualmente naquelas listas, de trabalharem para a indústria cinematográfica.

A lista dos dez é a seguinte: Alvah Bessie, argumentista, Herbert Biberman, argumentista e realizador, Lester Cole, argumentista, Edward Dmytryk, realizador, Ring Lardner Jr, jornalista e argumentista, John Howard Lawson, argumentista, Albert Maltz, argumentista, Samuel Ornitz, argumentista, Robert Adrian Scott, argumentista e produtor, e Dalton Trumbo, argumentista e romancista.
O processo de julgamento começa em Abril de 1948. Sendo o seu julgamento separado. A maioria foi condenada a um ano de prisão.
Houve um que traiu, foi Edward Dmytryk, que já preso pediu para ser ouvido novamente pela Comissão e delatou 26 nomes.
Em todo este grande processo houve gente sem escrúpulos que delatou e colaborou activamente com a Comissão e houve outros que se manifestaram contra esta e os posteriores julgamentos. Queria aqui lembrar os nomes de John Huston, William Wyler, Humphrey Bogart, Lauren Bacall, Groucho Marx e Frank Sinatra.

Em próxima oportunidade irei desenvolver este tema e principalmente o papel desempenhado por alguns dos Dez de Hollywood na história do cinema.
A fotografia retirada de Notícias Sapo tem não só a identificação dos Dez de Hollywood, como mais informações sobre o caso.

19/04/2010

A queda de um anjo


Por diversas razões, a minha assistência a este blog tem sido espaçada. Apear disso, tento fugir daquilo com que vulgarmente se atafulha a blogosfera, evitando postar músicas, vídeos ou pequenos comentários chistosos. Continuarei, provavelmente para desespero dos meus leitores, a escrever longos linguados de reflexão “séria” sobre a situação política.
Hoje, irei mudar um pouco de agulha e, ao correr da pena, debruçar-me-ei sobre os males que atravessam a Igreja Católica que ultimamente têm sido tão badalados.

Em primeiro lugar referir-me-ia a um post de Rui Bebiano, da Terceira Noite e de Vias de Facto, com quem há tempos andei às turras, mas que hoje, acalmados os ares e reconhecendo mais uma vez a qualidade da escrita, me apetece comentar.
Tal como eu, Rui Bebiano considera este problema da pedofilia na Igreja como um epifenómeno, que terá a importância que os media lhe quiserem dar, mas que no fundo passará, digo eu, com uns pedidos de desculpa e umas lágrimas vertidas a tempo, como todos os outros pecadilhos sexuais da Igreja. Hoje já ninguém se apoquenta com o Crime do Padre Amaro, mas revelações daquele género causaram escândalo na Igreja do seu tempo.
Tenho também que reconhecer a maneira elegante com que Rui Bebiano trata Vasco Pulido Valente e a crónica que este, sobre aquele assunto, publicou este fim-de-semana no Público, afirmando que esta era uma “daquelas diatribes quebradiças e caturras com as quais intervala análises brilhantes e preclaras”. Sobre as análises preclaras tenho as minhas dúvidas, mas reconheço que, por vezes, com grande raiva minha, algumas vezes acerta. Já se sabe que se eu tivesse que responder àquele articulista nunca empregaria termos tão suaves para os seus dislates.

Mas regressemos ao essencial, a crise da Igreja e a permanência, contra ventos e marés, da sua doutrina. Rui Bebiano atribui mesmo ao seu post o título Bento XVI não será Gorbatchev. E aqui tenho que reconhecer que a Igreja, com os seus 2000 mil anos de história, procede com mais inteligência do que aquele político que de uma penada, na esperança de o renovar, deitou por terra um importante movimento político, antecedendo o drama que atravessa hoje grande parte do movimento comunista que ou se renova e se destrói ou se mantém na mesma e é incapaz de crescer e de influenciar o andar do mundo. Mas não é deste drama que vos quero falar, nem a Igreja se poder confundir com aquele movimento.

Entendo que aquilo que tem vindo progressivamente a destruir as Igrejas na Europa Ocidental, principalmente a Católica, tem sido a irrupção do mundo moderno do modo de produção capitalista e as implicações sociais e ideológicas que isso acarreta.
Recorrendo a uma materialismo histórico um pouco apressado, explicaria assim os vários passos com que o mundo contemporâneo foi destruindo o peso ideológico e social das Igrejas. Em primeiro lugar a industrialização global, que recorreu à mão-de-obra camponesa, afastando dos campos e da actividade agrícola o grande exército de reserva que era o campesinato. No Portugal ainda dos meados do século passado, aquela massa bronca e atavicamente ligadas aos párocos das aldeias e que metia medo aos nossos republicanos, que nunca lhe deram o voto, aterrorizados com a força dos seus chefes católicos e monárquicos, foi dispersa pela emigração que despovoou os campos, levou gente para a Europa desenvolvida e para as cidades do litoral. Esta mole imensa pode hoje votar à direita, mas há muito que deixou de estar sobre a influência directa da Igreja.
Outro factor de extrema importância foi também, por força da industrialização global, a entrada da mulher no mundo do trabalho, garantindo-lhe uma independência que nunca se tinha verificado anteriormente. Por outro lado, e concomitantemente com isto, a capacidade de dominar o seu ciclo reprodutivo, ou seja, ser capaz de decidir quando é que quer ter filhos. A independência económica e reprodutiva é pois um factor importantíssimo para a mulher fugir à sujeição familiar que a Igreja sempre lhe quis impor.
Por último, e não menos importante, a necessidade de mão-de-obra mais qualificada abriu a porta do ensino a milhares de filhos de trabalhadores que puderam obter um grau de escolaridade mais elevada que os seus pais e permitiu o seu acesso ao conhecimento, tornando mais relativos os valores religiosos de interpretação do mundo. Associado a isto estão as novas formas de representação ideológica introduzidas pelo sistema capitalista dominante, que se traduzem através dos meios de comunicação social e da arte popular: cinema e música, que nada têm a ver com as tradicionais formas de transmissão da informação típicas dos nossos avós.
Estes são, quanto a mim, alguns dos factores que, apresentados de forma simplificada, fazem com que a Igreja perca hoje o domínio do mundo contemporâneo.

Resta acrescentar que nada disto é linear e aquilo que pode ser verdadeiro para a sociedade portuguesa não ter qualquer transposição, por exemplo, para os Estados Unidos onde a força das Igrejas fundamentalistas é cada vez mais assustadora. Ou, noutro aspecto, o proliferar nas sociedades ocidentais dos esoterismos, quantificado pelo aumento de prateleiras sobre este tema nas livrarias e pela criação de seitas e todo o tipo de consultas e apoios espirituais que vão proliferando nas nossas sociedades.

Por último, resta acrescentar que a religião, de uma forma alienada, tem servido como esteio da unidade nacional contra os domínios estrangeiros ou das potências imperiais. Foi o que se passou na Irlanda, principalmente na Irlanda do Norte, e na Polónia onde o catolicismo serviu para cimentar a unidade nacional contra o ocupante estrangeiro.
O mesmo se está a verificar, com todas as formas absurdas que isso acarreta, de o islamismo servir hoje como forma de resistência ao invasor e ao ocupante estrangeiro, seja ele israelita ou americano. Mas isto deixaria para outra ocasião.

13/04/2010

De novo a direita


Desde que Manuela Ferreira Leite anunciou que se ia retirar, que a novela da sua sucessão tem enchido os jornais. A princípio todos os comentadores achavam risível a possibilidade de Passos Coelho ganhar o partido. Eu e muitos outros achávamos a sua actuação de plástico e a sua única proposta de que nos lembrávamos era a privatização da CGD. Pacheco Pereira lá alertava que Passos Coelho estava a funcionar há já bastante tempo como um grupo organizado dentro do Partido. Mesmo assim, sempre achei pouco provável a sua eleição como Presidente do PSD.
Quando Paulo Rangel lança a sua candidatura, optando pelo discurso de ruptura com a situação de pântano moral e político para que Sócrates e o seu PS nos estavam arrastar, achei que tínhamos homem e que ele seria provavelmente o novo Presidente. Eis que os comentadores, em uníssono, começam a desvalorizar as suas prestações televisivas e a super valorizar as intervenções de Passos Coelho. O resultado viu-se, vitória esmagadora deste, apresentando-se como o novo unificador do PSD e como candidato credível ao papel de primeiro-ministro. São os mistérios da política, que só Deus sabe como correm e isto diz-vos um ateu.

Mas é em função destes novos dados que temos que analisar a conjuntura.
Passos Coelho, insistindo na matriz social-democrata do seu partido, nega depois qualquer daqueles valores e embarca rapidamente no programa neo-liberal, com a revisão da Constituição e com tudo o que isso acarreta. Com a derrota do Santana e da sua aliança, com o ímpeto “reformista” de Sócrates, com a desagregação do Compromisso Portugal, com a compra de alguns dos seus corifeus, como António Mexia, para a EDP, e Nunes Correia, para Ministro, com a crise mundial e das opções neo-liberalizantes, a ofensiva ideológica da direita tinha abrandado, deixando esse encargo à trupe, chefiada por Sócrates, que tinha tomado conta do PS. Estes, numa linguagem mais soft lá iam falando da esquerda “moderna” e descomplexada, que não tem quaisquer preconceito contra a iniciativa privada e o mercado. E quanto mais as eleições se aproximavam, mais palavras ditas de esquerda eram pronunciadas.
Que fazia a anterior direcção social-democrata, falava na asfixia democrática e nos escândalos que abalavam o regime e ao mesmo tempo embrenhava-se na discussão da situação económica. Não queria grandes obras, opunha-se ao endividamento externo e defendia as pequenas e médias empresas e a redução dos impostos.
Que faz o novo líder. Espantosamente foge, como o Diabo da cruz, da situação económica actual. Parece, ouvindo Passos Coelho, que neste país tudo vai bem, excepto a intervenção excessiva do Estado na economia. Propõe, como tema mais importante a revisão constitucional, inventando problemas e regressando aos antigos. Na economia propõe mais dinheiro para as empresas em vez de subsídio de desemprego e trabalho social para os que recebem subsídio de inserção. Onde é que estão a asfixia democrática, o endividamento excessivo, a redução dos impostos? De facto, uma nova direcção, com outros objectivos, volta às propostas neo-liberais que anteriormente tinham constituído o mote da batalha ideológica que estava em curso na sociedade portuguesa, com o PS sempre às arrequas e temeroso das investidas do PSD.

Mas como responde o PS a estas novas propostas. Diz que a revisão constitucional não é uma prioridade. Está correcto, mas temo que não seda às melopeias maviosas do PSD.
Apoia este novo discurso, afirmando que tem propostas concretas na área económica. Quais? E congratula-se com esta nova linguagem que não utiliza, segundo ele, a maledicência na sua intervenção. Eu acho que o PS não tem muito a ganhar com esta troca, mas isto sou eu que digo, porque acho bem mais perigosa esta nova ofensiva da direita do que as implicações de Sócrates em negócios escuros. O PS não pensa assim, como a ideologia já não é nenhuma e a sua política é da esquerda “moderna”, bem pode a troco de mais umas cedências aliviar a pressão a que estava sujeito o seu Secretário-geral.
No meio disto tudo fica-se com a impressão, mas sou eu também que noto, que não há da parte do PSD nenhum programa para se chegar ao Governo. Não se fala em alianças, nem em derrubar este Governo, isso são miudezas que a seu tempo serão esclarecidas, o que interessa é dar já o tom e este é francamente da direita neo-liberal.