17/01/2010

Manuel Alegre já é candidato


No post anterior perguntava se Manuel Alegre seria candidato a Presidente da República e defendia, com moderação, a sua candidatura. Ao contrário do que normalmente me acontece, estava em cima do acontecimento. Poucos dias depois, num jantar em Portimão, Manuel Alegre anuncia para o efeito a sua disponibilidade. Dirão que não era novidade nenhuma. Na Internet já se discutia a figura e passava-se ao ataque e ao contra-ataque.
Hoje, depois dele a anunciar e de me ter tornado amigo dessa iniciativa no Facebook venho, mais uma vez, ilustrar as dificuldades porque ela vai passar.
Em primeiro lugar o PCP. Não foi só no 5 Dias, rapaziada demasiado desenvolta para ser a expressão oficial daquele Partido, Octávio Teixeira num Frente a Frente, na SIC Notícias, dizia que não estava à espera que o PCP apoiasse o candidato. Ruben de Carvalho afinava pelo mesmo diapasão noutro Frente a Frente. Em Antes pelo Contrário, na RTP I, Carlos Rabaçal, do PCP, diz que tem séria dúvidas se será uma boa candidatura para a esquerda. Em comunicado publicado ontem o PCP considera que esta questão é prematura.
No fundo, as primeiras reacções do PCP, mais do que prudentes, são negativas. Duvido que não vá ter um candidato próprio, que só à segunda volta desista. A verdade é que, nas eleições presidenciais mais cruciais, como foi a de Eanes, na sua segunda candidatura, e Salgado Zenha e Jorge Sampaio, nas primeiras, o PCP sempre apresentou candidato próprio, que desistiu na primeira volta a favor dos citados. À segunda volta não tenho dúvidas que apoiará Manuel Alegre, é preciso é que ele lá chegue. Na primeira, já tenho mais dúvidas. Primeiro porque o considera, tal como algum PS oficial, demasiado à esquerda para vencer, segundo porque pensa que Manuel Alegre vai pescar num campo que é comum com o PCP. Reparem que numa das primeiras reacções ao anúncio da candidatura, recolhidas no próprio jantar, quem apareceu apoiá-lo foi Carlos Brito, ex-dirigente do PCP. Isto é suficiente para que comecem logo a tocar sininhos de aviso na Soeiro. Espero bem que me engane.
Depois é o tom justo que a candidatura de Alegre encontre para tratar as acções do Governo de Sócrates. Enquanto este negoceia à direita os apoios para aprovação do orçamento de estado, Manuel Alegre recolhe a bênção da esquerda para se candidatar, mas Louçã avisa, que é “muito importante que haja uma candidatura [presidencial] que à esquerda não seja uma candidatura de partido”. Ora, não basta só criticar os projectos presidencialistas de Cavaco é necessário tomar alguma distância em relação ao Governo, que, só se for no final do ano, descubra algumas medidas que possam receber a bênção da esquerda. Esta é sem dúvida a contradição fundamental de Alegre, mas pode ser que ele a consiga superar com êxito. Estes são os meus desejos.
Por hoje, por aqui me fico, tenho um ano, assim o possa cumprir, para me ir prenunciando sobre o evoluir desta candidatura.

PS.: Palavras não eram escritas e eis que Victor Dias vem esclarecer a situação. Para lá de um ataque desnecessário à democraticidade do Bloco – a decisão de apoiar um candidato, que todos estavam a ver que era Alegre, já estava tomada na sua Convenção Nacional –, vem falar na eleição logo à primeira e pergunta se com isso não se está a fazer um apelo ao”voto útil” logo na primeira volta. Espero que o PCP não se esqueça que desistiu na primeira volta a favor de Eanes, Zenha e Jorge Sampaio. Não vejo razão nenhuma para que o não o possa fazer agora. Mas pelo andar da carruagem, quer me parecer, que o PCP vai fazer aquilo que o Vítor Dias diz, Apresenta um candidato próprio. Se ganhar o Cavaco, que pena, tem votos para isso. Se for necessário segunda volta, lá irá engolir o sapo. Provavelmente já será tarde demais e o eleitorado nem sempre será tão fiel como o PCP o imaginou. Também temos um ano para falar sobre isto.

PS. (18/01/10): Bernardino Soares hoje no Frente a Frente, da SIC Notícias, também não disse nada, apesar de ter acrescentado que o PCP apresenta sempre candidato próprio e depois desiste na segunda volta a favor do candidato da esquerda. Ora isto não é verdade como escrevi no PS. anterior. Mais, só uma vez é que nas eleições presidenciais houve segunda volta e aí o PCP depois de na primeira ter desistido a favor de Salgado Zenha, optou, engolindo um sapo, por votar em Mário Soares na segunda. É bom que estas coisas sejam ditas, para não se andar a enganar meio mundo, já esquecido destes pormenores.

11/01/2010

Manuel Alegre candidato?


Estava eu entretido a discutir Estaline e a chafurdar nesse passado triste, que agora alguns querem gloriosamente ressuscitar, e eis que, a propósito da possível candidatura de Manuel Alegre a Presidente da República, se arma na Internet uma acesa discussão. Só para poderem seguir esta troca de argumentos vou tentar linká-los (não sei se linkar é já uma das novas palavras introduzidas no Dicionário da Academia). Assim, a lista é a seguinte: Daniel de Oliveira, no Expresso, a 31/12/09, Miguel Cardina, em Minoria Relativa (blog que eu não conhecia e que já inclui na minha selecção), Nuno Ramos de Almeida, no 5 Dias, Tiago Mota Saraiva, no 5 Dias, Daniel de Oliveira, no Arrastão, Nuno Ramos de Almeida, no 5 Dias, Carlos Vidal, no 5 Dias e Renato Teixeira, no 5 Dias. Provavelmente, há mais, mas penso que esta lista já vos chega para uma leitura atenta e demorada.

Não estou interessado em rebater e discutir as opiniões dos outros, deixo-as aqui unicamente para poderem ler a argumentação em voga. Quanto a mim, tenho a dizer o seguinte.
Fui um dos apoiantes da candidatura de Manuel Alegre a Presidente da República nas eleições passadas. Considerei na altura, e nem pensava que ela tivesse o êxito que depois veio a ter, que a sua principal função era quebrar o PS e dividi-lo. A velha aspiração do PCP, que já o tinha tentado fazer com o PRD, de Ramalho Eanes. Este é um tema recorrente nos meus textos e penso que é sempre de grande actualidade.
Na altura, não se esperava que a divisão do PS fosse entre as linhas esquerda e direita. Eanes nunca representaria a esquerda. Simplesmente, pensava-se que dividindo o PS ao meio, como sucedeu, se poderia negociar mais facilmente acordos de Governo, como se tentou, antes de Mário Soares dissolver o Parlamento e dar, em 1987, a maioria absoluta a Cavaco.
O caso de Manuel Alegre era diferente, este sempre representava a ala esquerda do PS. A sua votação permitiu pensar, quer ao candidato quer à esquerda, que tinha ali muito voto onde ir pescar. Daí as aproximações do Trindade e da Aula Magna. Nesta última, atingiu-se um tal ponto de ruptura com o PS oficial que poder-se-ia pensar que um novo partido à esquerda do PS se estava a formar. Quase que poderíamos falar de um Die Linke à portuguesa. Não foi nada disto que aconteceu. Manuel Alegre teve “juízo” e, ou empurrado, pelo Bloco, segundo algumas más línguas, ou aconselhado por amigos que se saísse do PS nunca teria qualquer possibilidade de vencer eleitoralmente as eleições presidenciais, foi-se resguardando e, entre umas no cravo e outras na ferradura, aparece agora com possível candidato oficial do PS, como apoio do Bloco.
Deduzir-se-ia, por tudo o que escrevi, que vejo com maus olhos o apoio do Bloco ao Manuel Alegre. Não é verdade, simplesmente esse apoio já não se enquadra na perspectiva de uma ruptura dentro do PS, na formação de um grande partido à esquerda deste, mas sim naquilo que sempre foi a estratégia da esquerda, diria do PCP, de apoiar, há última da hora, o candidato da esquerda contra a direita. Isto só não sucedeu nestas últimas eleições, porque foi nítido que Cavaco ganhava e a esquerda estava perfeitamente desunida, mais valia, por isso, contar as espingardas.
Já agora, uma resposta a muitos dos posts que foram referidos anteriormente. Um candidato único da esquerda, à esquerda do PS, era neste momento uma impossibilidade prática e um candidato derrotado à partida. O PCP sempre fez uma análise rigorosa da situação e nunca se meteu em frentes de esquerda, com candidaturas condenadas à derrota. Daí, por exemplo, não ter apoiado, no longínquo ano de 1976, o Costa Gomes, proposto por um movimento unitário, por achar que ele nunca ganharia a Eanes. Não entrou na candidatura de Maria de Lurdes Pintassilgo, em 1986, apesar de ter ido apostar num candidato que foi derrotado, Salgado Zenha, mas aqui foi a excepção. Sempre fez tudo para que o candidato da esquerda incluísse o PS e fosse vencedor. Daí, ter engolido um sapo quando apoiou, à segunda volta, Mário Soares, também em 1986. Penso, mesmo assim, que é hoje mais fácil votar em Alegre do que em Mário Soares. Por isso, se for Alegre o candidato do PS e do Bloco o PCP, à segunda ou mesmo à primeira volta, irá votar nele. Ou então, muita coisa se alterou naquele partido. Mas já ouvi da boca de um militante comunista, provavelmente não típico, que Manuel Alegre era um candidato, mesmo apoiado pelo PS, vocacionado para a derrota. Via com melhores olhos o Jaime Gama ou outro que reunisse mais consensos ao centro. Mas este militante nada terá a ver com os impetuosos escrevinhadores do 5 Dias. Mas pensem nisto, o PCP prefere candidatos mais à direita, que não criem ambiguidades e falsas expectativas no seu eleitorado do que candidatos frentistas, como Manuel Alegre, que não sejam por ele controlados. A ver vamos.
Resta neste caso um problema central que é como é que Manuel Alegre vai gerir a sua candidatura. Se aparecer demasiado colado a Sócrates perde à esquerda, se for ao Bloco de Esquerda, perde à direita. Por outro lado, como é que o Bloco irá fazer a gestão do seu apoio? Será de modo a que ela seja agregadora da esquerda e possa integrar futuramente no Bloco os votantes socialistas que claramente não suportam o Sócrates?
E a juntar a tudo isto, em que altura é que o PCP irá apoiar a candidatura?
Pode ser que nada disto seja assim, que tudo corra mal e que a esquerda mais uma vez fique bloqueada ou então, tudo corre bem e teremos aí “esquerda grande” de que fala o Bloco.

09/01/2010

Voltando sempre ao mesmo – Estaline, outra vez


Talvez pela idade ando sempre a repisar os mesmos temas, no entanto, por muito que queira fugir deles ei-los que regressam a galope pela porta da frente.
Assim, num post do blog 5 Dias era relatado um comentário boçal de um tal António Ribeiro Ferreira, que escreve no Correio da Manhã. Até aqui tudo bem. Podem consultar a história no link referido.
A propósito disso Carlos Vidal, no mesmo blog, resolve fazer uma citação de uma recensão que foi feita no Brasil, à edição naquele país do livro de Ludo Martens sobre Estaline, já por mim amplamente discutido neste meu post. Acrescentando-lhe: “Lendo toda a recensão de João Q. de Moraes … do livro de Ludo Martens, lê-se uma análise que não elogia Estaline, mas a necessidade de tratar de um tabu. Por isso, o texto de João Q. de Moraes não podia deixar de ser também crítico do livro de Martens, que seria interessante editar em Portugal. A juntar às já existentes e importantes ferramentas de Simon Sebag-Montefiore e em benefício do estudo do século XX.
Em resposta a este post e a diversos comentários que por lá apareceram achei por bem informar sobre todos os dados de que dispunha e que estavam incertos no meu blog, no artigo referido.
Como é sabido, e eu não fujo à regra, o debate na Internet acaba sempre por resvalar para uma grande agressividade argumentativa, quando ainda se utilizam argumentos, ou por vezes para o puro lixo informático, que constitui o insulto, os textos sem sentido ou mal redigidos, ou ainda as meras abreviaturas importadas dos telemóveis, que tornam ilegível qualquer prosa que pretenda discutir ideias. No entanto, podemos dizer que a maioria dos comentários ao post referido se mantiveram no nível minimamente aceitável de argumentação.

Mas não é para vos contar esta história que aqui estou é simplesmente para constatar um facto que muito me impressiona: o ressuscitar do tema Estaline e de todo o conjunto de argumentos que anda à sua volta.
Os mais antigos como eu, que viveram a luta travada entre o PCP e os maoistas, no final dos anos 60 e durante os anos 70, saberão sem dúvida a importância que naquela altura Estaline tinha para estes últimos e como o PCP, sem nunca enveredar por uma crítica clara e desassombrada sobre aquele, assumia um claro repúdio a qualquer aproximação àquele dirigente soviético.
Hoje, já não existem maoistas, que emigraram para a direita, ou integram, com algum repúdio ou distanciamento crítico do seu passado, o Bloco de Esquerda. O problema é que ideologicamente o PCP se transformou, de certo modo, num herdeiro dessa gente e todo o universo de blogs, edições, cursos e opiniões expressas no Avante, vêm retomar, umas vezes às claras, outras vezes encapotadamente, a velha defesa de Estaline. Eu penso que isto tem a ver fundamentalmente com o refluxo ideológico que a derrota do “socialismo real” provocou naquele partido. Hoje, muitos dos que se reclamam do comunismo acham que qualquer crítica a Estaline e à ex-União Soviética constitui uma colaboração com o inimigo. Há um texto num comentário ao post, que venho a referir, do 5 Dias, que é elucidativo: “cada um escolhe o seu campo, afirmem-se como revisionistas, ou “renovadores”, mas por favor deixem de invocar o comunismo enquanto pactuarem com o campo que está mais interessado em o destruir”. É como que um regresso ao útero materno, incapazes que são de enfrentar o mundo moderno e a crítica. Por isso, todos aqueles que na ex-União Soviética, como Khruchtchev denunciaram Estaline, e o “culto da sua personalidade”, são hoje também incluídos no campo do revisionismo, tal como já o foram para os maoistas. Veja-se o título de um dos artigos publicados no site Para a História do Socialismo, de Kurt Gossweiler, Sobre o papel de Estaline e a quota-parte do revisionismo de Khrushchov na destruição da União Soviética.
Ilustrativo do que venho a dizer é, nos comentários ao post que venho a referir, esta prosa perfeitamente panegírica de uma obra de Estaline que sempre foi acusada de simplificar, dogmatizar e em última instância ser anti-marxista: “Razão para uma maior abertura e simpatia para o estudo e defesa da história dos filhos do povo que se associaram para construir tudo de novo e de raiz. Sem muitos livros, mas mesmo assim estou-me a lembrar de um, por acaso notável, que toda a gente deveria reler: “O materialismo dialéctico e o materialismo histórico” de José Estaline (Setembro de 1938, traduzido para português e editado em Outº1974 por Henrique A. Carneiro)”. Depois, esta citação que torna a dialéctica marxista no mais perfeito determinismo e que serve de “modo lapidar” para separar “revolucionários” de “reformistas”: “Se é verdade que a passagem das mudanças quantitativas lentas a mudanças qualitativas bruscas e rápidas é uma lei do desenvolvimento, é claro que as revoluções realizadas pelas classes oprimidas constituem um fenómeno absolutamente natural, inevitável. Consequentemente, a passagem do capitalismo ao socialismo e a libertação da classe operária do jugo capitalista podem ser efectuadas, não por transformações lentas, não por reformas, mas somente por uma mudança qualitativa do regime capitalista, pela revolução. Assim, para não nos enganarmos em política, é preciso sermos revolucionários e não reformistas” (Josef Stalin in “Materialismo Dialéctico e Materialismo Histórico”).
Pode-se dizer que isto é um caso isolado, no entanto, a própria oposição que o responsável pelo post faz entre a obra Ludo Martens e a de Simon Sebag-Montefiore, sobre Estaline (Estaline, a corte do czar vermelho e o Jovem Estaline, Edições da Alêtheia, da Zita Seabra), é já indicativa de que ou apoiamos Estaline ou só nos resta a crítica de direita.
Por estas razões, tendo a pensar que o enquistamento da posição comunista sobre Estaline é a principal responsável, a não ser em termos de resposta aos inimigos de classe, pela consequente ocupação de espaço pela direita e por certa esquerda, que toma como suas as reflexões da direita e acima de tudo as produzidas pelos ideólogos da Guerra-Fria. Todos eles, como já referi várias vezes, consideram os tempos de Estaline como a continuidade da época de Lenine, negam o valor libertador da Revolução de Outubro, no fundo, consideram que a URSS sempre foi um imenso Gulag. Já me tenho debruçado demasiadas vezes sobre esta batalha político-ideológica para voltar a ela, mas o espanto sobre este regresso ao estalinismo é que ainda não acabou.

05/01/2010

Isto anda tudo ligado


Fui ontem ouvir uma conferência à FCSH, organizada pelo Instituto de História Contemporânea, da Universidade Nova de Lisboa. O conferencista é um Professor da UNICAMP, Universidade Estatal de Campinas, S. Paulo, Brasil, cujo nome completo é Álvaro Gabriel Bianchi Mendez, mas que assina os seus artigos como Álvaro Bianchi. O tema era referente ao Estado e Sociedade Civil em Gramsci.
Foi só a referência a Gramsci que motivou a minha deslocação. Como quem segue os meus posts já deve ter percebido, é um autor por quem tenho grande interesse e admiração, principalmente pela sua reflexão original sobre o tema da política, encarado de uma perspectiva marxista, mas utilizando uma terminologia e conceitos próprios. Para os mais distraídos sobre esta problemática, Gramsci (1881-1937) foi secretário-geral do Partido Comunista Italiano, tendo sido preso pelos fascistas italianos em 1926 e morreu pouco depois de ter sido libertado, em 1937. Foi nestas condições extremamente difíceis que elaborou sua principal obra teórica, que nunca foi publicada em vida, e que é hoje conhecida como os Cadernos do Cárcere. Durante os anos que esteve preso escreveu, umas vezes em forma de notas, outras de modo mais elaborado, em cadernos que foi numerando (32 no total) e que só foram editados em Itália depois da II Guerra Mundial.
Provavelmente, com mais vagar dedicarei alguns posts a este teórico e revolucionário italiano.
A conferência, teve pouca divulgação, por isso estiveram presentes, além do Fernando Rosas, que presidia à mesa e era da casa, a Raquel Varela, uma das organizadoras e que me enviou gentilmente o convite para a conferência. Como se recordam, fiz-lhe aqui um ataque serrado, simplesmente já no II Colóquio os Comunistas em Portugal, a que assisti, mas que nunca cheguei a relatar, conversámos agradavelmente, mantendo os nossos pontos de vista, mas sem a animosidade que eu manifestei no I. Estavam igualmente meia dúzia de maduros que se interessam por estas coisas e alguns alunos que por dever de ofício têm que assistir às conferências que os seus professores recomendam. Posso estar a ser injusto para eles, mas cheira-me, pela pressa com que saíram, que a conferência lhes dizia pouco.
A exposição de Álvaro Bianchi era clara, incidia sobre os Cadernos do Cárcere e, como afirmou, retomava os temas abordara num livro que publicou recentemente no Brasil chamado O laboratório de Gramsci (ver aqui a notícia da editora).
Porque não tomei notas e nem acho que vos deva maçar com os temas abordados pelo autor, direi só que gostei e que o autor faz, como afirmou, uma interpretação marxista revolucionário dos conceitos gramscianos, em oposição às visões liberais ou até euro-comunistas de Gramsci.
Foi afirmado, e bem, por um assistente do público que Portugal seria dos países da Europa onde menos se conhecia Gramsci. Por graça, chegou a afirmar que só talvez o Mónaco ignorasse tanto Gramsci como Portugal. A razão apresentada, foi de que, como os euro-comunistas na Europa e aqueles que em Portugal eram seus possíveis divulgadores se reivindicavam de Gramsci, isto provocaria no marxismo oficial, entenda-se no PCP, uma reacção negativa. Para mim, sendo esta uma possível razão, entendo que a principal é a de que a nossa intelectualidade nunca debateu no pós-25 de Abril o marxismo ou as obras dos seus continuadores, restando àqueles que ainda se reivindicam dessa corrente a escolástica marxista-leninista do PCP. Repare-se que este partido nunca fomentou o debate marxista, nem em Portugal alguma vez teve êxito uma revista que se reivindicasse e estudasse aquela corrente política.

Depois de assistir à conferência, resolvi ir ver no Google quem era este senhor que eu desconhecia. Para além de orientar na sua universidade estudos sobre o marxismo, escreve numerosos artigos sobre estes temas, tem um blog onde poderão ser encontrados e discutidos artigos seus e é secretário da revista Outubro, de que possuo um exemplar adquirido aquando do I Congresso Internacional Karl Marx, que trouxe até nós um bom número de autores brasileiros.
Mas o mais interessante, e que justifica o título deste post, é ter encontrado um artigo, Antitrotskismo: manual do usuário, de Bianchi, num site do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, que eu penso ser um partido brasileiro de influencia trotskista, em resposta a um outro de Miguel Urbano Rodrigues (MUR), chamado Apontamentos sobre Trotsky – O Mito e a realidade, publicado no site ODiário. É interessante ler estes dois artigos porque eles nos remetem para duas maneiras de fazer história e de discuti-la. MUR, que não é um académico e escreve ao correr da pena, faz afirmações que depois não pode provar e que resultam para o leitor do Avante ou da imprensa do PCP, que gosta desta prosa grandiloquente e cheia de verdades feitas. Bianchi, mais bem informado, tendo estudado os assuntos e com mais acesso a uma bibliografia actualizada vai desmontando todas as afirmações de MUR. Leiam e apreciem as diferenças.
Mas mais interessante foi que encontrei no texto de Bianchi, uma referência (nota 7) ao livro de Ludo Martens, Um outro olhar sobre Stáline, de que eu falei no post anterior, e de que afinal há uma edição brasileira: Stalin: um novo olhar, Rio de Janeiro: Revan, 2003.
Bianchi refere-se a ele afirmando que “o arqui ou arqueostalinismo ainda persiste”, ao contrário do que escreve MUR no seu artigo, e que como vimos no post anterior vai ganhando força nas hostes afectas ou próximas do PCP. Por sinal vim a saber que a edição portuguesa, com o tal prefácio do Carlos Costa, esteve à venda na Festa do Avante.
É interessante também notar que no artigo de MUR sobre o Estaline, de Losurdo, que eu cito igualmente no post anterior, aquele diga que em Portugal é acusado de trotskista, pelo artigo que escreveu sobre o Trotsky, e no Brasil por estalinista ortodoxo por professores das Universidades de Campinas (o nosso Álvaro Bianchi) e do Rio Grande do Sul, que não sei quem seja, e que segundo MUR lhe dedicaram trabalhos académicos.

Por último, e depois deste trabalho de investigação policial a que eu me gosto de dedicar na net, uma referência, que provavelmente irei desenvolver posteriormente, à revista Outubro, de que Álvaro Bianchi é secretário, que no exemplar que eu possuo tem um artigo interessantíssimo de Kevin J. Murphy, com o seguinte título Podemos escrever a história da Revolução Russa? Uma resposta tardia a Eric Hobsbawam (1), que levanta problemas sobre a historiografia da Revolução Russa quer durante a Guerra-fria quer depois e que retoma o problema por mim levantado na reflexão 2, do meu post anterior, sobre Estaline. Assim escreve ele: "o conhecimento ocidental sobre a União Soviética durante a Guerra-Fria foi dominado pelo que Stephen Cohen (autor de uma monumental biografia de Bukharine - JNF) apropriadamente chamou a “tese da continuidade”, que postulou uma evolução natural e directa da prática organizacional dos primeiros bolcheviques aos gulags, os campos de trabalho forçado."
(1) O texto original em inglês pode ser encontrado aqui
A fotografia é de Álvaro Bianchi

02/01/2010

Estaline, mais uma vez


Num fórum de discussão a que eu, como já vos informei, também integro, foi dada uma informação muito curiosa. Num site, denominado Para a História do Socialismo, que eu penso que pode ser conotado com gente ligada ao PCP, apareceu um texto, colocado na zona da Biblioteca, chamado Um outro olhar sobre Stáline, de Ludo Martens, que é a tradução portuguesa do texto que apareceu em francês, num site com este interessante nome communisme-bolchevisme - altermondialisme, trotskisme et maoïsme contre marxisme-léninisme, e que pode ser visto aqui. Já se percebeu que o texto é uma apologia do estalinismo.
Mas o mais interessante disto tudo, é que foi dito nesse fórum, e foi confirmado num artigo que Paulo Fidalgo escreveu para o site da Renovação Comunista, que foi impressa uma edição de 500 exemplares do texto publicado na Internet, com prefácio de Carlos Costa, e que não teve distribuição comercial. Não sei como se pode obtê-la, nem nunca vi o livro.
Posteriormente, em comentário ao post de Fidalgo, alguém diria que Costa já não podia ser conotado com a direcção do PCP, dado que no último Congresso daquele partido tinha sido afastado do Comité Central contra sua vontade. Esta notícia pode ser consultada no site referido no comentário.
Por esta altura também e sem o carácter clandestino do livro de Ludo Martens, foi publicado em Beja, pela Cooperativa Cultural Alentejana CRL, Fuga da História? A revolução russa e a revolução chinesa hoje, de Domenico Losurdo, tradução de José Colaço Barreiros. O site de ODiário, também patrocinador da edição, reproduz o seu capítulo IV, Os anos de Lenine e Estaline. Um primeiro balanço, e indica onde o mesmo pode ser adquirido.
Domenico Losurdo é habitualmente publicado por aquele site, bem como pelo resistir.info. Neste pode encontrar igualmente o capítulo 2 do livro, mais um fotografia da sua capa e a lista dos artigos de Losurdo já publicados por aquele site. A publicação do livro mereceu igualmente uma pequena referência noticiosa no Avante.
A propósito de uma conferência de Losurdo em Lisboa já publiquei um post sobre a mesma, bem como a sua bibliografia em italiano e a que está traduzida no Brasil.
Este mesmo autor publicou recentemente um livro sobre Estaline, em italiano, que mereceu este comentário de Miguel Urbano Rodrigues em o site ODiário

Por tudo que escrevi, parece-me que as análises, umas encomiásticas, outras mais comedidas, a Estaline começam a progredir, primeiro na blogosfera e depois em formato mais íntimo, em edição impressa. No entanto, que fique claro, por tudo aquilo que tenho lido e ouvido de Losurdo e o pouco que li de Ludo Martens, há grandes diferenças entre eles, o primeiro é um académico reputado, com obra feita, e o segundo é um dirigente político de um pequeno partido maoista belga, o Partido dos Trabalhadores da Bélgica, que parece que anda a apelar à união de todos os partidos que se reivindicam do marxismo-leninismo (ver a Wikipedia)


Feita esta pequena introdução e porque na altura em que se debateu a questão Estaline no fórum eu escrevi um texto sobre este mesmo assunto, entendi que vos devia também transmitir estas minhas reflexões pessoais que muito provavelmente foram feitas em resposta a algumas das interrogações que lá se levantaram.
Entendo eu que a questão de Estaline é uma questão acima de tudo histórica e depois uma questão ideológica, ou seja, faz parte da batalha das ideias, englobando aqui aquilo que se pode considerar como a questão moral. Para melhor organizar o texto vou resumir este assunto a sete questões, algumas em forma de pergunta, que deixo à vossa reflexão.

I - Como questão ideológica central, podemos ainda hoje reclamarmo-nos herdeiros da Revolução de Outubro e de todo o manancial libertador que ela desencadeou? A resposta que dermos a esta pergunta é quanto a mim de crucial importância, para nos consideramos ainda comunistas. Isto não significa que achemos que ela se pode repetir nos tempos actuais, como já não o foi no tempo do próprio Lenine. O fracasso da Revolução no Ocidente, que condicionou todo o processo revolucionário de Outubro, e que motivou respostas diferentes consoante as diferentes correntes bolcheviques, não nos pode impedir de a considerar legítima e de a pensarmos em termos actuais. É isto que nos separa da social-democracia. Podemos fazer como grande número de partidos de esquerda, pôr este assunto entre parêntesis, mas quanto a mim ele ficará sempre com um “interdito” não verbalizado.

II - Um problema histórico e também ideológico: foi Estaline continuador de Lenine? Tudo o que aquele fez já tinha sido realizado por este. O GULAG e a violência já eram apanágio da Rússia leninista. Há muita gente de esquerda que defende este ponto de vista. Entre o partido do tempo de Lenine e de Estaline não há diferenças importantes. No fundo é aquilo que Moshe Lewin considera, criticamente, de que para alguns historiadores e ideólogos de uma certa esquerda e da direita, a União Soviética foi sempre um imenso GULAG. Ora eu defendo que as práticas e os métodos leninistas eram diferentes, que este se opôs ao carácter violento de Estaline e que nunca mandou matar os comunistas que se lhe opuseram. Este assunto merece uma análise histórica rigorosa e um debate ideológico firme.

III - Foi justa a opção de Estaline pelo "socialismo no único país", pela colectivização forçada dos campos e pela industrialização a toque de caixa, aquilo que ele chamou a "revolução por cima" e que outros consideraram como a acumulação primitiva do "socialismo"? Trotsky não pensava
assim, esperava ainda pelas revoluções no Ocidente e Bukharine acreditava que a NEP, a Nova Política Económica, permitiria paulatinamente atingir, sem sobressaltos, e até com alguma diferenciação de classes sociais, aquilo que Estaline queria.
O que diversos autores nos dizem é que Estaline, enveredando por este método, permitiu o desenvolvimento capitalista na Rússia, passando por cima das debilidades estruturais da própria Rússia czarista e da própria burguesia russa. Seja como for o Partido Bolchevique apoiou esta actuação. Muitos marxistas, como Lukács, acharam que era a linha justa. E para muitos, foi
aquela que permitiu a URSS resistir ao avanço do nazi-fascismo na IIº Guerra Mundial. O XVIIº Congresso do PCUS, em 1934, chamado Congresso dos Vencedores, foi a consagração desta linha. Estamos nós de acordo com ela? Este é um problema histórico e ideológico importante.
IV - Foi a partir do assassinato de Kirov, também em 1934, que Estaline, que parece que não teve qualquer interferência nele, inicia na URSS os grandes processos políticos contra, primeiro, os seus opositores políticos dentro do Partido Comunista, todos grandes heróis da Revolução de Outubro, e depois contra os seus próprios apoiantes, mandando assassinar a maioria (há números concretos) dos participantes do Congresso referido. A URRS entre 1934 e o início da IIº Guerra Mundial foi a maior picadora de comunistas que alguma vez se verificou na história. Provavelmente, se fizermos bem as contas, Estaline mandou assassinar mais comunistas do que os 500 mil a 1 milhão que morreram na Indonésia nos anos 60.

V - A vitória da URSS na IIº Guerra Mundial tem sido um dos temas mais complexos de toda a historiografia da URSS e do debate de ideias contemporâneo. Primeiro, porque essa vitória justificaria todo o horror anterior e tudo lhe seria perdoado em seu nome. Segundo, porque ela permitiu uma maior liberalização do regime, mas reforçando até ao extremo a sua componente
nacionalista, com recurso às medalhas e fardamentos do tempo do Czar. Pelo contrário, há aqueles que a desvalorizam, dando unicamente importância aos sucessos militares no Ocidente, ou afirmando que a acção da URSS foi tão iníqua como a de Hitler, ao esmagar os povos da Europa de Leste. Tese hoje muito difundida nos países Bálticos e nos de Leste.
VI - Considerar que foram os próprios comunistas, que de um modo
muito pouco marxista, recorrendo à noção de “culto da personalidade”, denunciaram os crimes de Estaline, como sucedeu no XXº e XXIIº Congresso do PCUS, com os relatórios de Nikita Khrushchev. Ainda hoje o que se pretende em muitos casos, a que o PCP não foge, é desvirtuar o Relatório Secreto apresentado por Khrushchev no XXº Congresso. Daí a importância da sua análise e das repercussões que ele teve.

VII - Reconhecer que o regime que os revolucionários de Outubro desejavam não seria aquele que acabou em 1991, que os caminhos seguidos merecem uma análise do ponto de vista marxista. Que o que se passou em 1991, não foi uma libertação, mas a concretização prática do que muita da nomenclatura dita comunista queria de facto para a Rússia. Falar em traição, como gostam de garantir os nossos comunistas, é não compreender nada sobre a sociedade
que se desenvolveu na URSS.

01/01/2010

Uma azeda situação política


Ultimamente, a minha contribuição para este blog tem sido muito irregular. Já no post anterior dei algumas boas razões para isso. Agora poderia acrescentar a da época natalícia que se está a viver, pouco propícia à reflexão e mais ao convívio familiar ou à satisfação da gula, para aqueles que se podem dedicar com prazer a esse pecado. Tenho vindo a escrevinhar alguns textos, mas que, por uma razão ou outra, não os tenho inserido no meu blog. No entanto, porque senti necessidade de escrever para um fórum de discussão, onde também participo, o texto que a seguir vos apresento, aqui vai ele, com as correcções indispensáveis à sua publicação noutro local.

Não me parece que seja precisa grande argúcia política para se perceber que a actual situação tem pouco a ver com a luta entre forças de direita e de esquerda e que a questão não está, como alguns pensariam, no problema das alianças à esquerda e na reorganização desta para resistir à direita, mas na chicana política, para ver quem mais depressa consegue encostar o adversário às cordas.
A seguir às eleições, andava um conjunto de personalidades da esquerda a recolher assinaturas para uma aliança à esquerda e já Sócrates, nada interessado nessa proposta fazia o seu número de consultar todos os partidos com assento parlamentar, quer estivessem, à sua direita ou à sua esquerda. Essas conversas vinham de alguém que não tinha qualquer vontade de fazer alianças, que pensava jogar em todos o carrinhos e que encara a política como um jogo para enganar os papalvos, não tendo dela qualquer visão ética.
Depois tivemos a encenações dos professores, das taxas moderadoras e do orçamento rectificativo, que passou com os milhões atribuídos a Alberto João, enquanto o Ministro da Finanças gritava no Parlamento que não contribuía para o regabofe da Madeira. Era este o sentido de Estado deste Governo. Quando percebeu que a oposição ia conseguir aprovar a suspensão do Código Contributivo eis que desencadeia, pela boca de diversos socialistas, incluindo o seu homem de mão na televisão, António Vitorino, uma barragem contra o Presidente da República para que este não promulgasse aquele diploma. A acompanhar tudo isto envolve-se em picardias com o próprio PR, de muito mau gosto e que nada de bom trarão para o equilíbrio e o regular funcionamento das instituições. Sem ser pitonisa política direi que este Governo e José Sócrates ainda acabarão muito mal. O pior disto tudo é se, ao utilizar esta estratégia de grande confusão e de ataques indiscriminados à esquerda e à direita, José Sócrates não irá dar de mão beijada o Governo à direita.
Sem ser seu apreciador e por vezes muito crítico das suas posições, não deixo de reconhecer que este texto de Miguel Sousa Tavares, no Expresso, de 24 de Dezembro, traduz fielmente aquilo que eu penso neste momento de José Sócrates e do seu Governo:
São crescentes os sinais de desorientação na maioria e na governação do país. Claramente, não há um rumo definido para enfrentar estes tempos tão complicado… Desenterrar dossiers como o da regionalização (… - para mim tanto podia ser este como outro – JNF) apenas serve para mostrar a desorientação que se apoderou do primeiro-ministro e o seu desespero de espingardear para todos os lados, criando uma tamanha confusão no campo de batalha que já ninguém sabe quais as ameaças, onde está o inimigo, que estratégia e armas usar. Perdido de si mesmo, Sócrates ensaia o papel de guerrilheiro, cercado de todos os lados mas disposto a resistir, numa qualquer Sierra Maestra que os Lelos de serviço ao PS propagandeiem. E daí a sua última tentação: trazer o Presidente para o campo da batalha e dar-lhe a escolher, de pistola apontada, uma de duas opções: ou está do nosso lado ou é inimigo.”
É pois nesta conjuntura, que tão bem está aqui descrita por Miguel Sousa Tavares, que há alguns comentadores (veja-se dois artigos de Cipriano Justo, no Público, o primeiro a 12/12/09, e aqui transcrito, e o segundo a 29/12/09 - Dois mil e dez: um resumo, e sem link) que acham que BE e PCP deviam pôr a mão por baixo deste Governo para ver se o tombo não era tão grande, na esperança de ver o PS continuar a governar para que a direita nunca tivesse possibilidades de aceder ao poder. O problema é que este Governo nada tem a ver com a esquerda e muito menos é um Governo sério, que na primeira volta, meteria os dois partidos à sua esquerda na algibeira, para maior glória do seu chefe e do seu grupo.
Hoje o problema central, que penso que está também posto ao PS, é como se deve libertar de Sócrates e de alguns dos seus apoiantes, pondo à frente do Partido uma personalidade de maior credibilidade e seriedade política.
Por isso qualquer objectivo da esquerda, à esquerda do PS, no sentido de colocar paninhos quentes na manutenção de Sócrates, só pode acarretar o desprestígio daquelas forças e a sua capacidade de formular e apoiar saídas de esquerda para o país. A manutenção deste stato quo ou o envolvimento grosseiro, juntamente com o PS, nestas guerrilhas e quezílias, que aquele está constantemente a desencadear, é sem dúvida nenhuma negativo. Aqueles dois partidos têm que, em cada situação, examinar as forças em presença e saberem como votar de modo a não comprometerem por oportunismo ou seguidismo o seu futuro.
Por isso, estou contra todos aqueles que entendem que implícita ou explicitamente, a esquerda, à esquerda do PS, devia apoiar este Governo e a sua minoria no Parlamento. Por este caminho não sigo.

22/12/2009

Por fim, o regresso


Ao fim de mais de 20 dias de suspensão deste meu blog, regresso mais uma vez, esperando que agora vos possa fazer companhia por mais uns tempos. Sei que alguns, com grande alegria, terão pensado que este espichou de vez. Ainda não foi desta e passo a explicar tão longa ausência.

Uma semana, quase, passei-a eu a apanhar laranjas nos grandes latifúndios algarvios de que sou proprietário. Tenho um pequeníssimo quintal, ao lado de uma casa herdada, que tem, para meu deleite, um limoeiro e uma laranjeira. Aquele dá limões todo o ano e esta produz todos os anos, por esta altura, para mais de 100 quilos de laranjas. Dá uma trabalheira imensa, mas compensa, são saborosíssimas.

Outros dois fins-de-semana, por razões familiares, passei-os em Sines. Mas o que mais me espanta quando vou àquela terra é a sua actividade cultural que usufruo sempre que a visito. Relato-vos aqui o que vi. Toda esta actividade tem lugar no Centro de Artes de Sines, um moderno edifício, localizado no centro da cidade, desenhado pelos irmãos Mateus, que vale só por si a visita.
A 28 de Novembro era exibido no auditório daquele Centro, pela Companhia da Associação Cultural do IFICT (Instituto de Formação, Investigação e Criação Teatral), a peça de Arrabal, Guernica, encenada por Adolfo Gutkin. Por ignorância minha, já não ouvia falar deste senhor desde que fui ver o Volpone, encenado por ele e representado pelo Grupo de Teatro da Faculdade de Direito de Lisboa, no longínquo ano de 1969. Depois soube que teve problemas com a PIDE. Desconhecia a sua carreira e a sua brilhante actividade em Portugal. Fui vê-la à Wikipédia.
Provavelmente pelo grupo, que era fraco e amador, não achei especialmente interessante a peça. Penso, por outro lado, que o assunto, como está tratado, já nos diz pouco. No entanto, não dei por mal empregue a noite.
No dia 11, regressei a Sines, para assistir à inauguração da exposição de pintura «25 Anos de Percurso», “TAM / Círculo de Artistas Plásticos, Uma exposição colectiva de pintura de 9 artistas lusófonos”. Os artistas representados consideram-se lusófonos e estão espalhados pelo mundo, apesar de muitos já viverem há muitos anos em Portugal. Por razões familiares tenho acompanhado as várias exposições que este grupo tem vindo a fazer nos mais diversos locais. De todas as que vi, não tenho dúvidas em afirmar que a mais gostei foi esta, já que as obras expostas encontraram nas amplas paredes brancas do Centro Cultural um lugar excepcional para serem expostas. Gosto de algumas, outras são me indiferentes, no entanto não quero fazer distinções. Vão ver, o espaço é magnífico. Está aberta até 17 de Janeiro.
Logo a seguir, no dia 12, fui assistir a um outro espectáculo no auditório do Centro, «Você Está Aqui», pelo Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra. Um espectáculo de dança e de canções populares portugueses feito por estudantes. Não sendo, aquilo a que se chamaria um grande evento cultural, era acessível ao grande público, sem cair na facilidade. Gostei, só tive pena, provavelmente, pela época do ano, que a sala estivesse tão vazia. Merecia a presença da população de Sines.

Por último estive uma semana recolhido em casa a elaborar os meus relatórios anuais. Um sobre um assunto de que já vos dei conhecimento no ano anterior: a situação actual em Espanha da invasão do mexilhão-zebra e as possíveis formas de o combater. O outro sobre métodos de cloragem para eliminar o mexilhão, este o do mar e que é comestível, que se fixa nas centrais termoeléctricas que utilizam água do mar com agente de refrigeração dos condensadores.
Já tinha feito um post sobre o mexilhão-zebra, e agora, sem vos querer maçar mais, referir-vos-ei, que o mexilhão continua impavidamente a invadir os rios espanhóis, já chegou ao Norte de Espanha, zona Cantábrica, à bacia do Guadalquivir e continua a espalhar-se pelo Ebro e por uns rios localizados mais a sul deste, que desaguam no Mediterrâneo. Por sorte nossa ainda não apareceu nas bacias internacionais, como as do Minho, Douro, Tejo e Guadiana. Não sei o que sucederá quando chegar a estas, pois em pouco tempo invadiria as nossas albufeiras e quantas mais Sócrates fizer, mais espaços cria para a sua propagação, pois esta espécie precisa de águas relativamente paradas para se desenvolver. Onde se fixa envolve todos os tubos, tornando impossível a utilização de muitas das turbinas hidroeléctricas que aí funcionam. Com a nossa proverbial ineficácia é muito provável que não cheguemos a tempo para evitar a sua evasão, nem sermos capazes de mobilizar as populações para impedir a sua disseminação, que é feita principalmente pelos pescadores que o utilizam como isco ou vai agarrada aos barcos que são transportados de albufeira para albufeira.

Desculpem mas por vezes dá-me uma de biólogo e regresso com prazer à minha actividade profissional. O que é certo, é que rapidamente me passa e daqui a uns dias lá estarei eu a discutir os graves problemas políticos nacionais.
Imagem do espectáculo "Você está aqui".

02/12/2009

Um “herói” esquecido: Melo Antunes (1933-1999)


Realizou-se na Gulbenkian, nos dias 27 e 28, um colóquio sobre o tema Liberdade e Coerência Cívica – O exemplo de Ernesto Melo Antunes na História Contemporânea Portuguesa” (ver programa aqui e aqui). Não estive presente e só sei o que dizem os jornais (ver aqui) e nem os li exaustivamente. Reparei que tinham estado presentes os três ex-presidentes da República e que o actual, por razões ditas de agenda, se furtou a aparecer. Li que António Lobo Antunes lhe fez uma homenagem comovida, de alguém que o conhecia bem: tinha estado como ele na guerra, e que Vasco Lourenço, um dos organizadores, lamentou que o conhecimento público de Melo Antunes seja muitas vezes esquecido.
Falou-se muito do seu esquecimento e Jaime Gama fez a blague, quanto a mim sem qualquer graça, "talvez ser demasiado político para uma carreira militar e demasiado militar para uma carreira política". Ramalho e Eanes falou que a memória popular está a ser injusta para Melo Antunes e Mário Soares, naquele tom disparatado que já revela adiantada senilidade, falou do papel de Melo Antunes no 25 de Novembro de 1975, considerando que aquele dia “foi uma revolução que impediu que Portugal se tornasse uma Cuba do Ocidente", manifestando discordância como os que o vêem “como uma contra-revolução” (Público).
Dito isto, devido à necessidade de enquadrar minimamente aquilo que escreverei à frente, passo à minha visão sobre o esquecimento propositado de Melo Antunes.

Este foi sem dúvida um dos militares mais bem preparados politicamente, tinha cultura e leitura, sabia ao que vinha. Muitos afirmaram na altura, que as suas posições seriam próximas de um terceiro mundismo de cariz socializante, quando estas coisas ainda tinham algum significado político. Hoje já nem existe terceiro-mundo e o cariz socializante há muito que foi abjurado pela social-democracia europeia. Dizia-se que Maria de Lurdes Pintassilgo lia pela mesma cartilha. Não sei se tudo isto é verdade. Reconheço que, em 1974, Melo Antunes estava muito mais à esquerda do que Mário Soares e do seu socialismo sem princípios, que fluía conforme o vento da Revolução soprava para um ou para outro lado.
Diz-se, não sei se é verdade, que a prisão do pai a seguir, parece-me, ao 28 de Setembro o magoou muito e o fez guinar um pouco à direita. O seu livro de memórias, que foram ditadas a Maria Manuela Cruzeiro (Melo Antunes - O Sonhador Pragmático, Editorial Notícias), que eu li, mas que não possuo neste momento comigo, dá dele uma visão um pouco mais social-democratizante e menos influenciado por quaisquer outras ideologias de esquerda. A sua entrada, mesmo que apagada, no PS, em 1982 é disso exemplo.
Para mim torna-se claro que Melo Antunes e o seu Grupo dos Nove, responsável por um dos manifestos que agitou o Verão Quente de 1975, provocou sem dúvida uma guinada para a direita em relação ao rumo que a Revolução estava a levar. Hoje, vistos os prós e contras, é complicado tomar posição sobre a justeza ou não do referido manifesto. É para mim claro que o PCP e o seu grupo militar não tinham a intenção de fazer a revolução socialista, gostariam que ela lhes caísse de madura na mão. Por outro lado, não tinha a força eleitoral que lhe permitisse tomar o poder por essa via, o que não é de somenos nas circunstâncias então vividas. Os esquerdistas, não tinham à época a mais pequena ideia do que queriam fazer, viu-se por aquilo em que muitos dos seus mentores se transformaram. Por isso esta guinada, que chamou à realidade aquilo que se estava a passar na época, não foi tão negativa, como na altura se admitiu. Simplesmente atrás do documento dos nove perfilou-se toda a direita, o PS inclusive. Esse foi sem dúvida a face negativa deste grupo e acima de tudo a causa da sua morte política.
Hoje o esquecimento de Melo Antunes é deliberado, apesar dos muitos ditirambos que depois de morto lhe possam fazer.
Para além do papel importante que desempenhou na preparação do 25 de Abril e no seu Programa Político e na descolonização exemplar em que participou activamente, foi igualmente uma peça chave no 25 de Novembro. Não porque tivesse qualquer intervenção militar, mas pelas palavras que foi dizer na noite de 26 de Novembro à televisão, que ainda há bem pouco tempo Victor Dias recordou, que não se limitaram, como alguém dizia, a afirmar que o PCP era “indispensável à defesa da democracia”, mas sim “para a construção do socialismo”. Mas, dada a cultura de Melo Antunes, soube nessa altura fazer uma referência à ideia de Bloco Histórico defendido por Gramsci, considerando que o PCP era fundamental na participação desse bloco que se propunha construir o socialismo.
Essa frase, dita na televisão em plena crise do 25 de Novembro, quando a direita se preparava para esmagar fisicamente os comunistas, valeu-lhe o ódio de toda a direita. Sá Carneiro, esse idolatrado ídolo da direita, nunca lhe perdoou e sempre que possível lembrava que foi devido a Melo Antunes que a direita não explorou o sucesso da sua vitória naquela data.
Ramalho Eanes e as forças armadas tradicionais que por detrás dele se perfilaram quiseram também aparecer como os virtuais vencedores da contra-revolução triunfante e nunca admitiram que, do ponto de vista ideológico e do combate político, foi devido ao grupo dos nove que conseguiram vencer. O PS sempre inchado com o contributo que tinha dado para deter a revolução, depois de ganha a contra-revolução, quis aparecer aos olhos da opinião pública como o seu principal herói. Não é por acaso que várias vezes e dita por diferentes intervenientes, Mário Soares é apresentado como o pai da democracia política em Portugal, esquecendo sempre que ela só foi possível devido ao papel que os militares, e este grupo em particular, tiveram na normalização democrática. Se recordarmos os enxovalhos, já no Portugal Constitucional, porque passaram o Grupo dos Nove, quer pela acção da direita, mas também do PS e das forças armadas tradicionais, e que, ao ex-presidente Costa Gomes, que hoje é recordado como tendo evitado, e bem, a guerra civil, lhe aconteceu o mesmo, temos o quadro completo da ingratidão histórica de que são vítimas estas personagens.
Por tudo isto Melo Antunes é hoje um homem esquecido. Morreu e por isso não pode aparecer como Vasco Lourenço todos os anos à frente da manifestação do 25 de Abril. Não pode ser como Salgueiro Maia, o herói liofilizado, de uma revolução sem sexo. Melo Antunes será sempre o “herói” culto que, no momento preciso, soube dizer as palavras necessárias para evitar um banho de sangue e a desforra da direita. Por isso, Melo Antunes será sempre recordado pelas pessoas de bem.

01/12/2009

Tretas e balelas


Vi ontem o programa de Fátima Campos Ferreira, Prós e Contras. Juro sempre que não volto a recair em tão manifesto mau gosto, mas regresso sempre ao local do crime.
Tenho para mim que aquela apresentadora é das mais tontinhas que povoam o nosso espectro televisivo. Tem sempre a frase pomposa para o momento certo. Resume ideias, por vezes com alguma complexidade, a meia dúzia de banalidades. Transforma a governação deste país em qualquer coisa de muito simples, que se resolvia desde que houvesse boa vontade dos portugueses em apertarem o cinto e se os malandros dos político se pusessem de acordo. No fundo transforma o discurso político, convencida que o torna acessível, numa reflexão simplificadora e apaziguadora. Mas é isto que certa incultura dominante aprecia e que os governos do chamado arco da governação (PS e PSD/CDS) querem.
O programa de ontem era sobre as Finanças do País. O leque de convidados soprava todo para o mesmo lado. Não havia ninguém de esquerda, nem mesmo do PS. Ou se alguém ainda fosse do PS, era como se não pertencesse.
Apreciem só. Jacinto Nunes, provavelmente respeitável professor de economia já reformado, com 83 anos, que passou pelo Governo de Mota Pinto, um bloco central encapotado, da iniciativa de Ramalho Eanes, para não lembrar passados mais tristes de colaboração com os Governos de Salazar. A determinada altura descaiu-se, ao contrário dos outros, raposas mais sabidonas, e defendeu um governo de bloco central. Propôs, tal como João Salgueiro, um novo método eleitoral que evite deixar a decisão da escolha dos deputados aos partidos. Acham que os mesmos devem ser responsáveis perante as populações que os elegem. Uma treta, que encheria o Parlamento de Isaltinos Morais e Valentins Loureiros, mais alguns, eleitos num círculo nacional, para cumprir a proporcionalidade. Este assunto, que é trazido sempre à baila quando se quer protestar contra os políticos que temos, é um tema pouco sério, que precisaria de uma discussão desapaixonada e de estudos de técnica eleitoral comparada para verificar qual era o sistema que melhor poderia traduzir no Parlamento a proporcionalidade das forças políticas em presença.
A seguir João Salgueiro, o representante de tudo que é interesse bancário, que já foi deste e do anterior regime, sempre ao de cimo, que achou que um Governo do PS com o Bloco de Esquerda seria uma esquerdalhada insuportável, que já não correspondia aos tempos actuais, nem às exigências de uma economia moderna. Como se a economia neo-liberal tivesse dado provas de grande seriedade e competência.
Tivemos igualmente Augusto Mateus, que mesmo assim foi o que me pareceu dizer coisas mais interessantes. Defendeu a democracia e os trabalhadores da função pública. Mas que eu me lembre saiu pela direita alta do primeiro Governo de António Guterres.
Depois esse beato de sacristia, João César das Neves, que está em tudo que é tema económico, sempre a debitar as suas posições de direita e as tretas do costume.
Por último, para apogeu deste grupo de pensadores, vieram os empresários: Carrapatoso, do Compromisso Portugal, o fórum da direita neo-liberal, que se esfumou com a crise económica, e que disse insistentemente no Programa que era preciso acabar em Portugal com os poderes instituídos. Não sei se estaria a propor alguma revolução que banisse para debaixo do tapete os da sua classe e categoria social? Não, não era sobre isso que ele protestava. Os poderes instituídos, são o Estado e o seu peso na economia – sem ele esta gente não podia ganhar os dinheiros de que usufruem –, as chamadas corporações: os juízes, os médicos, os professores, mas acima de tudo os funcionários públicos, que são o engulho desta gente, porque podem levar os seus trabalhadores a reivindicar trabalho garantido e seguro, enquanto que aquilo que eles querem dar é precariedade e insegurança, para os terem mais agarrados pelo cachaço. Já se sabe que se esquecem que estes gestores são também uma corporação e um poder instituído. Mas de balelas e conversa fiada está o mundo cheio.
Esteve também um outro, que só me recordo chamar-se Patrício Gouveia, que estava constantemente a torcer o pescoço, e que mais uma vez perorou sobre a necessidade de flexibilizar ainda mais o código de trabalho. Nunca estão contentes com o que lhe dão. Neste caso, com a demagogia mais absoluta, defendeu que o que actual, que já é péssimo, defende os incompetentes e desfavorece os melhores. Um horror.
A conclusão principal que se tira de todas estas intervenções é que Portugal andou a gastar à tripa forra, viveu acima das suas possibilidades e agora tem de apertar o cinto se quer sobreviver. O melhor é ir-se adaptando ao modelo social chinês ou indiano. Isto foi dito. Já se sabe se alguém gastou demais não foi o povo português e o pouco que melhorou em relação ao seu passado, as classes dirigentes querem-lhe tirar outra vez.
É este o painel que tivemos, como se viu extremamente plural e diversificado. Triste caminho, por onde vai a televisão pública.

24/11/2009

O pau-mandado


Ouvi esta noite mais uma vez o programa Prós e Contras. Juro, todas segundas-feiras, que desta vez é que não aturo a Fátima Campos Ferreira. Simplesmente, não resisti. Era sobre a justiça e os intervenientes travaram, ao contrário do costume, uma verdadeiro debate, quase roçando o insulto. Bastava lá ter ido o Bastonário da Ordem dos Advogados, o Marinho Pinto, para as coisas resvalarem logo para a má-criação.
Fui daqueles que achei que a esquerda tinha ganho as eleições na Ordem com a chegada daquele Bastonário. Recordo-me ainda dos antigos. Tivemos o Rogério Alves, advogado mediático, dirigente sportinguista – o que não sendo bom nem mau, permite uma grande promiscuidade entre a bola e a advocacia – e comentador de tudo e de nada. Anteriormente, o José Miguel Júdice, ex-fascista, como já há tempos demonstrei, e que hoje é um dos donos de um escritório de sucesso da capital e amigo pela direita do José Sócrates. Quando Marinho Pinto ganhou as eleições, disse o pior possível do novo bastonário, chegando mesmo a vaticinar que este seria candidato pela esquerda, à esquerda do PS, a Presidente da República. Estranhamente, pouco tempo depois o Bastonário foi convidado para ser um dos oradores de uma comemoração unitária, sem PCP, do 25 de Abril (ver aqui). Parecia mesmo que os organizadores tinham acreditado no que José Miguel Júdice tinha dito.

De repente, começo a ouvi-lo pronunciar-se no caso Freeport. Entrou a matar com a Manuela Moura Guedes, para grande gáudio da esquerda. E agora, mais uma vez, aí o temos a pronunciar-se sobre o caso das escutas ao Primeiro-Ministro, sempre naqueles termos tonitruantes que, parecendo que vão deitar muros abaixo ou defender os injustiçados, acabam sempre por servir o primeiro-ministro e lançar grande lamaçal para todos os casos de justiça em que este está envolvido. Esta noite, a propósito das escutas, não foi excepção.
Dir-se-ia que o homem não gosta dos magistrados, seja do ministério público seja dos juízes, e que, por isso, a guerra que desencadeia é contra eles. Poderá ser popular entre os da sua classe que diariamente se têm que defrontar com decisões dos magistrados provavelmente nem sempre simpáticas, nem justas, até em alguns casos arrogantes. Mas que esta campanha contra a magistratura serve às mil maravilhas os objectivos do Governo, principalmente quando há ministros que, de modo descabelado, a acusam de fazer espionagem política ou quando o Mário Soares, naquelas afirmações de idiota útil que lhe são características, vem acusar a Justiça de ser a verdadeira Face Oculta.
Por isso, sempre que vejo aquele homem falar, com ar desassombrado, pergunto-me sempre a que patrão está a servir e acabo sempre por concluir que é a favor de José Sócrates.

Ainda hoje no Prós e Contras depois de espadeirar contra os juízes que não tinham sido saneados no 25 de Abril – que grande desassombro! – e de dizer que houve uns que primeiro cavalgaram a Igreja, depois o Exército, e como estas duas instituições se demarcaram, cavalgam agora a magistratura. Quem seriam esses? Penso que era a direita, os fascistas, eu sei lá?
Já se sabe, que teve uma resposta à altura de um desembargador. Mas onde Marinho Pinto queria chegar era ao magistrado de Aveiro que tinha ousado de pensar e escrever que o Sr. Primeiro-Ministro tinha alegadamente atentado contra o Estado de Direito. Foi ao âmago da questão, ao pôr em causa o bom-nome daquele magistrado estava verdadeiramente a fazer o frete ao Primeiro-ministro e ao Governo. É o seu pau-mandado.

18/11/2009

Um aparte sobre um debate em curso


Assisti na 2º feira ao debate no Prós e Contras sobre sim ou não ao referendo sobre o casamentos entre homossexuais. Não é sobre ele que me quero pronunciar, apesar depois de tudo o que disse Miguel Vale de Almeida, não só neste, mas principalmente, noutro, também no Prós e Contras, achar que, do ponto de vista estritamente simbólico, como a última barreira que foi vencida à aceitação plena pela sociedade da homossexualidade, nada ter a opor.
É sobre uma afirmação de Ribeiro e Castro no debate. A determinada altura pretendia este deputado amachucar os seus opositores, já que ele é contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, citando uma frase que ele considerava repugnante e tinha ouvido a uma deputada no Parlamento Europeu que defendia este tipo de casamentos. Dizia, segundo Ribeiro e Castro, essa tal deputada: “o casamento é uma forma legal de prostituição da mulher”.
Já se sabe o Sr. Ribeiro e Castro que deve ser um pouco ignorante da história, principalmente dos movimentos sociais do final do século XIX e início de XX, pensou que tinha dito um frase arrasadora para aqueles que defendem o casamento entre homossexuais. Não sei em que contexto aquela deputada a teria pronunciado no Parlamento Europeu, só noto que esta frase nada tem a ver como casamento entre pessoas do mesmo sexo, facto que no período histórico que referi, ninguém pensaria em defender, mas tinha tudo a ver com a situação social da mulher naquelas sociedades.
A prostituição era um flagelo social que atormentava as filhas das classes baixas, que não tinham possibilidades de ganhar a vida de outro modo. Isso levava a que muitos dos políticos com ideias progressistas – socialistas, republicanos, anarquistas e depois, mais tarde, comunistas – a considerarem que as mulheres da burguesia, que na altura não trabalhavam e eram mantidas pelos maridos, fossem, para eles, como prostitutas, mas com o estatuto legal. Ou seja, não havia uma separação tão vincada, como as “senhoras” da burguesia queriam fazer querer, entre as prostitutas e o seu estatuto de mulheres por conta dos maridos. Isto faz parte da literatura social dessa época.
É evidente, que hoje, já nada disto tem sentido, porque a mulher, seja de que classe for conquistou a possibilidade de poder trabalhar e desempenhar quase as mesmas profissões que os homens. Hoje, ninguém considerará que o casamento é uma forma legal de prostituição, mas de facto isto era o que se pensava há cem anos.
Que o Sr. Ribeiro e Castro não soubesse isto é de facto lamentável e que o tivesse dito com grande alarde ainda é mais grave. Só mostra ignorância.

14/11/2009

O reincidente


Sócrates está novamente nas bocas do mundo e, como sempre pelas piores razões. Hoje Pacheco Pereira escreve um artigo no Público (sem possibilidades de link) arrasador para a personagem. Diz que não o move qualquer ódio pessoal, no entanto, vai-lhe dizendo tudo e termina declarando claramente que não tem qualquer confiança no primeiro-ministro.
Eu também não tenho e o pior é que esta minha opinião já vem de longe e que só, por breves momentos, quando ele foi eleito pela primeira vez, tive, no clima eufórico que então se vivia com a maioria absoluta do PS, alguma expectativa mais favorável.

Como já tenho dito fui funcionário do Ministério do Ambiente durante muitos anos, não fui da fundação, mas entrei para lá a partir da altura em que aquele Ministério, à época Secretaria de Estado, adquiriu uma renovada intervenção com a acção de Carlos Pimenta, que hoje se dedica com mais proveito aos negócios do ambiente.
Por isso, era natural que me cruzasse com Sócrates. A primeira vez foi quando ele foi nomeado, no segundo Governo de Guterres, Ministro do Ambiente. No Governo anterior, se estão bem recordados, o Ministério foi dirigido pela Elisa Ferreira, que se incompatibilizou com Sócrates, então seu Secretário de Estado, tendo este acabado a sua passagem pelo Governo noutro Ministério, o que foi responsável pela aprovação da realização do Euro, em Portugal.
No segundo Governo de Guterres, Sócrates ganha a dignidade de ser Ministro do Ambiente, coisa com que ele tanto sonhava. Logo no início da sua nomeação Portugal iria assumir a presidência da União Europeia e, mais complicado ainda, iria apanhar, logo em Janeiro de 2000, com o dossier Protocolo de Cartagena sobre a Segurança Biológica, que decorria da Convenção sobre a Diversidade Biológica, a assinar no âmbito das Nações Unidas. Este Protocolo, não tinha conseguido ser aprovado no ano anterior em Cartagena das Índias, na Colômbia, e transitava para uma Conferência em Montreal, no Canadá, onde se esperava que obtivesse luz verde dos Governos aí representados. A União Europeia (EU) estava claramente interessada na sua aprovação e os Estados Unidos e mais alguns países produtores de OGM (organismos geneticamente modificados), eram contra. Tinha-se que se chegar a um acordo e Portugal, como assumia a presidência da EU, tinha que assegurar em Montreal a condução dos trabalhos, não só da União Europeia como igualmente das negociações multilaterais que se estabeleciam entre os diferentes grupos de Estados.
Como é costume, o Governo português nunca tinha ligado nada à discussão e preparação daquele Protocolo. Tinha sido eu, um pouco por minha iniciativa e por pressão dos serviços responsáveis no Ministério pelas ligações ao estrangeiro, que tinha acompanhado minimamente o que se estava a discutir. Já se sabe quando se aproxima a reunião de Montreal, o Ministério fica em transe, como é que se iria assumir uma condução de negociações quando nada estava preparado para que isso sucedesse. São nomeadas uma série de pessoas à pressa e indica-se uma chefe de delegação que nunca tinha ouvido falar em segurança biológica. E lá se vai para Montreal. As coisas correram bem, não porque tivéssemos pessoal à altura, mas porque a Comissão da EU, prevendo o que poderia vir a suceder tinha enviado os seus técnicos experientes para orientarem e dirigirem, o que formalmente deveria ser assumido por nós.
Nestas conferências das Nações Unidas costuma haver sempre aquilo a que se chama o segmento ministerial, em que estão presentes os Ministros e em que muitas vezes se tomam decisões, quando é caso disso, ou servem unicamente para abrilhantar o que previamente já foi decidido. No caso português Sócrates não se podia eximir a estar presente, já que, como afirmei, Portugal assegurava a Presidência da EU.
Foi acompanhado do seu fiel Secretário de Estado, Rui Gonçalves, e por mais alguns quadros superiores do Ministério, mas acima de tudo de jornalistas, uma delas da RTP I.
Como estávamos todos no mesmo hotel, seria natural que quando chegou cumprimentasse os membros da delegação portuguesa. Uma indiferença absoluta, nunca se reuniu connosco, nem em nenhuma altura nos pediu a opinião. Foi o seu Secretário de Estado que mal chegou se me dirigiu, porque já nos conhecíamos, e pediu avidamente notícias de como é que estava a decorrer a reunião. Durante, todo a conferência a sua postura foi de uma estrema arrogância. Constava que tratava mal o Secretário de Estado, e não suportava a Ministra francesa, que era dos Verdes. Nunca apareceu a misturara-se com os técnicos da nossa delegação nas conversações que se prolongavam noite adiante, como sucedia com muitos dos ministros presentes Como sabia falar mal o inglês evitava que os funcionários do ministério estivessem nas conferências de imprensa que a presidência da EU tinha que dar todas as manhãs. Dizia-se na altura que o seu mau feitio era provocado por ter deixado de fumar. Parece que já várias vezes deixou de fumar, porque a sua postura intratável tem sido muitas vezes sublinhada.
No dia em que se conseguiu a aprovação do Protocolo, às tantas da manhã, Rui Gonçalves ainda andou a cumprimentar a delegação portuguesa, dando-nos os parabéns, Sócrates nem vê-lo.
No dia seguinte, fomos todos convidados para um almoço num restaurante português em Montreal. Era tão português que até a água servida às mesas era do Luso. Mas isso não foi o mais importante. Mal chegou disse logo: “quero os jornalistas ao pé de mim”. Ficaram a ladeá-lo. O embaixador de Portugal no Canadá, que eu pensava que deveria ser quem devia ficar ao seu lado, ficou à frente. Depois durante o almoço comentaram-se as reuniões, quando chegou a vez de se falar da tal ministra francesa era “aquela gaja”, linguagem um pouco desbragada para ministro, mas penso que é um pouco este o hábito destes parvenus, que recentemente povoam o PS. Não estou a ver o Jorge Sampaio em frente de um embaixador e de funcionários do Ministério a falar nos mesmos termos.
Por último, quem é que os carros da embaixada levaram ao aeroporto? Os jornalistas, que por sinal viajaram em executiva como sua Excelência.
Podemos dizer, e nisso conversei com quase todos, que não houve ninguém daquela delegação que tivesse ficado com saudades de José Sócrates.

Posteriormente tive no Ministério uma reunião com Sócrates e os seus Secretários de Estado e outros técnicos para preparar qualquer evento internacional. Era já notório, como já escrevi, como não ligava nenhuma a Rui Gonçalves e se virava sempre para o Silva Pereira para pedir a sua opinião. Já tínhamos um Secretário de Estado em ascensão.

Por isso, depois do que vi, o que se diz hoje de Sócrates parece-me que tem algum fundamento.

13/11/2009

O mundo avança e eu a discutir o meu umbigo


Passei dois dias a escrevinhar sobre, primeiro, as minhas visitas ao Muro e, depois, a fazer a história das chamadas Democracias Populares.
Não li nada do que se foi escrevendo sobre o assunto e agora, passados estes dias, descubro que quase todos os blogs de referência se pronunciaram e, como vai sendo costume, o 5 Dias até discutiu entre si.
Porque estou convencido que ainda tenho coisas a dizer, aqui vão mais umas tantas reflexões sobre o tema

É interessante seguir a discussão na blogosfera, e vou só referir-me a alguns posts. O do Daniel de Oliveira, no Arrastão e os de Bruno Sena Martins, Ricardo Noronha, Carlos Vidal, Nuno Ramos de Almeida, Zé Neves, Tiago Mota Saraiva, todos no 5 Dias e, por último, um post de Miguel Serras Pereira, inserido no blog de Joana Lopes, Entre as Brumas da Memória. Só dois pequenos apontamentos. O primeiro, como, de certeza, Joana Lopes faz um apertado controlo dos comentários, consegue na respectiva caixa um nível de discussão bastante elevado. O segundo, é que não me abalançarei neste post a analisar pormenorizadamente cada um deles. Limitar-me-ei a algumas reflexões avulsas.

Fica-se com a ideia depois de ler tudo aquilo que se escreveu nos blogs que a discussão é mais moral do que política e, na maioria dos casos foge da História, com H maiúsculo, “como o diabo foge da cruz”, salvo seja. Alguns acrescentam-lhe alguma discussão teórica, mas de um modo geral evitaram confrontar-se com o real histórico. Não pretendo ser melhor, mas para mim a análise da queda do Muro de Berlim e o carácter simbólico que teve, com fim de um bloco militar e político, só pode ser analisada no seu devir histórico e não por padrões éticos ou que reflictam simplesmente uma opção ideológica.

I – Como se sabe o bolchevismo era o ramo de esquerda da social-democracia russa, que por sua vez estava integrada no movimento social-democrata europeu, agrupado na II Internacional. A falência desta, dada a participação dos partidos aderentes nos Governos de unidade nacional, que desencadearam a I Guerra Mundial levou à divisão da social-democracia em correntes de direita e de esquerda. Na Rússia esta separação era já anterior a esta situação, mas a defesa da continuação da Rússia na Guerra por parte dos mencheviques, a corrente de direita, e a sua recusa, por parte dos bolcheviques, foi uma das razões do desencadear da Revolução de Outubro. Durante a Guerra, a ala esquerda dos partidos sociais-democratas foi-se separando do partido mãe, dando mais tarde origem aos partidos comunistas da III Internacional. Foi a sua adesão a esta que obrigou todos eles a mudarem o nome de sociais-democratas para comunistas.
Quero eu com isto dizer que existe um tronco comum entre a social-democracia e o comunismo. Eu sei que isto se passou há cem anos, que hoje tem pouco sentido falar da história desta divisão, mas parece-me demasiado forçado separar tão rigidamente os partidos que se reclamam da social-democracia, do socialismo, se se quiser adoptar a terminologia do Sul da Europa, e os comunistas. Em dadas circunstâncias históricas, como foi a época das Frentes Populares ou durante e pouco tempo após a II Guerra Mundial, houve sérios movimentos de aproximação. Nesse sentido, tanto Daniel de Oliveira ou Miguel Serras Pereira não deveriam fazer separações tão rígidas. Não há nenhuma muralha da China a separar aquelas duas correntes. Por isso, em alguns casos, já nossos contemporâneos, as duas se aliaram

II – A Revolução de Outubro foi sem dúvida uma tentativa vitoriosa de transformar o real, de acelerar a história, de dar o poder às classes não privilegiadas. Teve uma repercussão mundial importante e permitiu de modo insofismável formar em quase todos os países então existentes partidos comunistas ligados à classe operária. Isto é um facto histórico indiscutível e perdurará na história da humanidade.
Os revolucionários de Outubro estavam convencidos que a sua Revolução iria triunfar na maioria dos países da Europa Ocidental, principalmente na Alemanha. E até muito tarde acreditaram nessa possibilidade e foi a sua derrota no ocidente que obrigou a virarem-se para a Rússia atrasada e camponesa, o que teve consequências trágicas. Daí ser importante, ler o que Gramsci disse (ver aqui) sobre as sociedades orientais e ocidentais e a situação do Estado em cada uma delas. Isto remeto-nos para as fantasias do real, de que fala Carlos Vital. A discussão não é entre os revolucionários que querem pôr em prática a sua revolução e os utopistas que sonham com coisas irrealizáveis. A discussão é como é possível no Ocidente conseguir as transformações práticas necessárias à alteração da sociedade e daí a proposta gramsciana da “guerra de posição”, da “conquista da hegemonia” e da formação de blocos históricos que possam “dirigir” a sociedade.

III – Por razões intrínsecas à própria sociedade russa, dá-se a vitória de uma das correntes dos bolcheviques sobre todas as outras. É a derrota da NEP, Nova Política Económica, e dos seus defensores como Bukharine, é a vitória de Estaline contra os desejos de Lenine, é a colectivização forçada, naquilo que Estaline considerou a “revolução por cima”, e a consequente industrialização com trabalho quase escravo. A vitória desta facção transformou a União Soviética não num país socialista, em que os trabalhadores se auto-governavam, mas numa ditadura negra, que começa por eliminar as outras correntes comunistas, para depois, numa sangria imparável, levar os próprios adeptos de Estaline. No entanto, é bom que se diga como o afirma Moshe Lewin, O que foi sistema soviético*, que um dos erros de apreciação da União Soviética “consiste em estalinizar todos o fenómeno soviético, como se ele tivesse sido um Gulag gigante desde o início até ao fim”. Khrushchov, quando em 1956 denuncia o estalinismo, inicia uma nova época na URSS. A situação altera-se e os campos de trabalho forçado (Gulag) são abertos. Podem os críticos actuais, sem qualquer perspectiva histórica, dizer que foi sempre assim, eu diria que não e nesta análise encontro muitos historiadores sérios, como Moshe Lewin (ver O Século Soviético, Campo da Comunicação, 2004, tradução do Miguel Serras Pereira). Isto não quer dizer que a sociedade soviética fosse socialista, era segundo Moshe Lewin, no artigo citado, um “absolutismo burocrático”, muito inspirado no seu passado czarista. Mas é com a perícia do entomologista, que classifica e analisa a realidade, que esta sociedade tem que ser observada. Não é como afirma Moshe Lewin, no já refrido artigo , “tomar o anticomunismo como linha condutora para o estudo da União Soviética”… “O anticomunismo (e as suas vertentes) não é um conhecimento histórico: é uma ideologia mascarada. Não apenas não corresponde à realidade do “animal político” em questão, mas empunha a bandeira da democracia paradoxalmente: explorando o autoritarismo do regime da União Soviética em prol de causas conservadoras ou piores”. Depois enumera dois exemplos: o do macarthismo nos Estados Unidos, ou da direita alemã que “visando limpar a imagem de Hitler ao colocar em primeiro plano as atrocidades cometidas por Estaline acarreta um uso abusivo da história”. E termina “em defesa dos direitos humanos o Ocidente provou alta indulgência para alguns regimes e bastante severidade para com outros (isso para não mencionar as violações que ele próprio comete desses direitos).
Neste sentido, parece-me errado toda a simplificação que Daniel de Oliveira faz deste tema

IV – A queda do Muro de Berlim e o desmoronar do “socialismo” a Leste tem que se compreender no contexto da apropriação daqueles países pela União Soviética ou no domínio que sobre eles foi exercido por aquele país. Sobre isso já escrevi o post anterior e penso não ser necessário repetir. É por isso compreensível, os festejos da Alemanha e até se quiserem as palavras de Angela Merkel, que mereceram apressada transcrição, mas que no fundo, não esquecendo o seu passado, festeja com orgulho a reunificação do país ou as opções anti-comunistas que são tomadas nas diferentes capitais de Leste. Situação já diferente é a da Rússia e das Repúblicas que dela se separaram em que um reencontro com o seu passado e a delineação do seu futuro no complexo mundo actual são objecto de renovada procura, passado que foi a sua loucura ocidentalizante encabeçada por Boris Yeltsin.
Como diferente foi a situação na ex-Jugoslávia, onde foi preciso a intervenção forçada, primeiro da diplomacia Alemã e depois dos bombardeamentos da NATO, para desmantelar e subverter o país existente.
Diferente é também Cuba, que devido às características autónomas da sua revolução, conseguiu manter a sua independência, mesmo nos anos mais sombrios do desaparecimento da União Soviética e da era Bush, e quer queiram quer não, é hoje respeitada e acolhida no seio dos nascentes estados progressistas da América Latina. Sem servir de modelo, penso que seria estultícia nossa, ou de muitos que escrevem para a net tentar dar lições sobre os caminhos que Cuba deve trilhar. Lula, que respeitamos, Chavez, que é motivo de escárnio das almas bem pensantes e outros mais, não se têm permitido dar conselhos ao “velho regime”.
A China é outro caso que, de momento e devido à exiguidade deste post, tratarei noutra altura.

V – Por tudo o que foi dito, ser-se comunista hoje é perceber a complexidade do que foi o fenómeno histórico do movimento comunismo e pensar que o mundo passado já não ressuscita. O marxismo-leninismo, como expressão ideológica do grupo dirigente da União Soviética, é hoje uma aberração histórica, que já nada interpreta e para que nada serve. Por isso, ser comunista hoje é pensar que há outros grupos e novas grupos sociais com quem nos podemos unir e formular para futuro a possibilidade de se alcançar uma sociedade outra, tendo sempre presente que o esforço de agregação e de junção de forças é complexo e exige trabalho, mas está ao nosso alcance. Nesse sentido, os novos partidos de esquerda que por essa Europa e em Portugal vão nascendo são hoje, nas circunstâncias actuais de centro do mudo capitalista ocidental, a alternativa ao conservadorismo, ao neo-liberalismo e à deriva direitista da social-democracia.
Hoje, o PCP é de facto um obstáculo à compreensão destas novas emergências, o que torna mais difícil o trabalho de reorganização do pensamento da esquerda em Portugal, mas a sua participação nesta nova esquerda é indispensável, quer queiram seus dirigentes quer não.

VI – Por último, a questão do modelo levantada por Miguel Serras Pereira. Por tudo aquilo que fui escrevendo nada me leva a pensar que o modelo dito “socialita” possa, depois de regulado, como agora se diz em relação ao capitalismo, vir a ser reposto. Primeiro, porque nas sociedades ocidentais ninguém de boa fé prevê qualquer revolução. Segundo, porque os passos que a esquerda não social-democrata tem que dar ainda estão tão no início, que muita água ainda há-de correr debaixo das pontes até que democraticamente ela esteja em condições de aceder ao poder e qual o programa irá aplicar? O futuro será sempre uma procura de novas saídas e de novos desafios, não está, como não esteve para os bolcheviques desenhado desde o início. Mas os erros da sua experiência histórica poderão servir para não se fazer igual.

* Margem Esquerda, ensaios marxistas, Boitempo editorial, 2007, 10: 39-53.
A fotografia é do Monumento à III Internacional (1919-1920), de Vladimir Tatlin.
Este post era para ser publicado logo a seguir aos post sobre o Muro, mas a premência de fazer referência ao Avante ainda no dia em que foi publicado levou-me a atrasar a publicação deste

12/11/2009

Anda o estranho caso da nota do PCP sobre a passagem do 20º aniversário da queda do Muro de Berlim


Como a justificar a minha perplexidade por não ter encontrado no Avante da semana passada, nem no site oficial do PCP, o texto de uma nota que a Lusa dizia que tinha sido enviada por aquele partido sobre o 20º aniversário da queda do Muro de Berlim, verifico que neste último Avante a situação ainda é mais caricata.
No número desta semana vem, com chamada à primeira página, o seguinte: Alemães de Leste preferem socialismo e depois transcreve o seguinte parágrafo: as ditas “comemorações” do 20º aniversário da queda do Muro de Berlim são pretexto para mais uma campanha anticomunista e depois remete para a página 19. Estava cheio de esperança de encontrara finalmente a tal nota e não é que na página 19 não há qualquer referência ao assunto. Por fim percebi, estranhamente esta era a notícia de primeira página que estava no Avante da semana passada e que correspondia à notícia sobre as tais sondagens que eu referi. Ou seja, havia uma gralha neste Avante que tinha uma notícia de primeira página que repetia a do Avante anterior.
Mas de tal nota é que não havia qualquer referência. Hoje estou quase à admitir que a Lusa não inventou, porque todas as referências a este assunto, incluindo o discurso de Bernardino Soares no Parlamento, passando por estes inarráveis textos na rubrica Actual, O Muro de Berlim e A propósito d’”O Muro” e terminando na Crónica Internacional, Histeria reaccionária, nada faz pensar que a Direcção do PCP tinha algum rebuço em se pronunciar sobre aquele acontecimento nos termos em que o fez.

Do primeiro texto do Actual destacaria a chamada “queda do muro de Berlim” foi difundida pelos media e conduzida por uma assinalável “santa aliança” entre a extrema-direita, direita, social-democracia, ex-comunistas e a chamada “nova esquerda”. Santa arrogância que sente que só o PCP é detentor da verdade, incapaz de analisar com o mínimo de rigor o que se passou. Quando estas coisas são ditas vai-me uma tristeza na alma, que me interrogo como pude eu ser camarada de gente desta, que tal como os fascistas manifesta um ódio a tudo que não alinha pela sua bitola de pensamento.