
Passei dois dias a escrevinhar sobre, primeiro, as minhas visitas ao Muro e, depois, a fazer a história das chamadas Democracias Populares.
Não li nada do que se foi escrevendo sobre o assunto e agora, passados estes dias, descubro que quase todos os blogs de referência se pronunciaram e, como vai sendo costume, o 5 Dias até discutiu entre si.
Porque estou convencido que ainda tenho coisas a dizer, aqui vão mais umas tantas reflexões sobre o tema
É interessante seguir a discussão na blogosfera, e vou só referir-me a alguns posts. O do Daniel de Oliveira, no Arrastão e os de Bruno Sena Martins, Ricardo Noronha, Carlos Vidal, Nuno Ramos de Almeida, Zé Neves, Tiago Mota Saraiva, todos no 5 Dias e, por último, um post de Miguel Serras Pereira, inserido no blog de Joana Lopes, Entre as Brumas da Memória. Só dois pequenos apontamentos. O primeiro, como, de certeza, Joana Lopes faz um apertado controlo dos comentários, consegue na respectiva caixa um nível de discussão bastante elevado. O segundo, é que não me abalançarei neste post a analisar pormenorizadamente cada um deles. Limitar-me-ei a algumas reflexões avulsas.
Fica-se com a ideia depois de ler tudo aquilo que se escreveu nos blogs que a discussão é mais moral do que política e, na maioria dos casos foge da História, com H maiúsculo, “como o diabo foge da cruz”, salvo seja. Alguns acrescentam-lhe alguma discussão teórica, mas de um modo geral evitaram confrontar-se com o real histórico. Não pretendo ser melhor, mas para mim a análise da queda do Muro de Berlim e o carácter simbólico que teve, com fim de um bloco militar e político, só pode ser analisada no seu devir histórico e não por padrões éticos ou que reflictam simplesmente uma opção ideológica.
I – Como se sabe o bolchevismo era o ramo de esquerda da social-democracia russa, que por sua vez estava integrada no movimento social-democrata europeu, agrupado na II Internacional. A falência desta, dada a participação dos partidos aderentes nos Governos de unidade nacional, que desencadearam a I Guerra Mundial levou à divisão da social-democracia em correntes de direita e de esquerda. Na Rússia esta separação era já anterior a esta situação, mas a defesa da continuação da Rússia na Guerra por parte dos mencheviques, a corrente de direita, e a sua recusa, por parte dos bolcheviques, foi uma das razões do desencadear da Revolução de Outubro. Durante a Guerra, a ala esquerda dos partidos sociais-democratas foi-se separando do partido mãe, dando mais tarde origem aos partidos comunistas da III Internacional. Foi a sua adesão a esta que obrigou todos eles a mudarem o nome de sociais-democratas para comunistas.
Quero eu com isto dizer que existe um tronco comum entre a social-democracia e o comunismo. Eu sei que isto se passou há cem anos, que hoje tem pouco sentido falar da história desta divisão, mas parece-me demasiado forçado separar tão rigidamente os partidos que se reclamam da social-democracia, do socialismo, se se quiser adoptar a terminologia do Sul da Europa, e os comunistas. Em dadas circunstâncias históricas, como foi a época das Frentes Populares ou durante e pouco tempo após a II Guerra Mundial, houve sérios movimentos de aproximação. Nesse sentido, tanto Daniel de Oliveira ou Miguel Serras Pereira não deveriam fazer separações tão rígidas. Não há nenhuma muralha da China a separar aquelas duas correntes. Por isso, em alguns casos, já nossos contemporâneos, as duas se aliaram
II – A Revolução de Outubro foi sem dúvida uma tentativa vitoriosa de transformar o real, de acelerar a história, de dar o poder às classes não privilegiadas. Teve uma repercussão mundial importante e permitiu de modo insofismável formar em quase todos os países então existentes partidos comunistas ligados à classe operária. Isto é um facto histórico indiscutível e perdurará na história da humanidade.
Não li nada do que se foi escrevendo sobre o assunto e agora, passados estes dias, descubro que quase todos os blogs de referência se pronunciaram e, como vai sendo costume, o 5 Dias até discutiu entre si.
Porque estou convencido que ainda tenho coisas a dizer, aqui vão mais umas tantas reflexões sobre o tema
É interessante seguir a discussão na blogosfera, e vou só referir-me a alguns posts. O do Daniel de Oliveira, no Arrastão e os de Bruno Sena Martins, Ricardo Noronha, Carlos Vidal, Nuno Ramos de Almeida, Zé Neves, Tiago Mota Saraiva, todos no 5 Dias e, por último, um post de Miguel Serras Pereira, inserido no blog de Joana Lopes, Entre as Brumas da Memória. Só dois pequenos apontamentos. O primeiro, como, de certeza, Joana Lopes faz um apertado controlo dos comentários, consegue na respectiva caixa um nível de discussão bastante elevado. O segundo, é que não me abalançarei neste post a analisar pormenorizadamente cada um deles. Limitar-me-ei a algumas reflexões avulsas.
Fica-se com a ideia depois de ler tudo aquilo que se escreveu nos blogs que a discussão é mais moral do que política e, na maioria dos casos foge da História, com H maiúsculo, “como o diabo foge da cruz”, salvo seja. Alguns acrescentam-lhe alguma discussão teórica, mas de um modo geral evitaram confrontar-se com o real histórico. Não pretendo ser melhor, mas para mim a análise da queda do Muro de Berlim e o carácter simbólico que teve, com fim de um bloco militar e político, só pode ser analisada no seu devir histórico e não por padrões éticos ou que reflictam simplesmente uma opção ideológica.
I – Como se sabe o bolchevismo era o ramo de esquerda da social-democracia russa, que por sua vez estava integrada no movimento social-democrata europeu, agrupado na II Internacional. A falência desta, dada a participação dos partidos aderentes nos Governos de unidade nacional, que desencadearam a I Guerra Mundial levou à divisão da social-democracia em correntes de direita e de esquerda. Na Rússia esta separação era já anterior a esta situação, mas a defesa da continuação da Rússia na Guerra por parte dos mencheviques, a corrente de direita, e a sua recusa, por parte dos bolcheviques, foi uma das razões do desencadear da Revolução de Outubro. Durante a Guerra, a ala esquerda dos partidos sociais-democratas foi-se separando do partido mãe, dando mais tarde origem aos partidos comunistas da III Internacional. Foi a sua adesão a esta que obrigou todos eles a mudarem o nome de sociais-democratas para comunistas.
Quero eu com isto dizer que existe um tronco comum entre a social-democracia e o comunismo. Eu sei que isto se passou há cem anos, que hoje tem pouco sentido falar da história desta divisão, mas parece-me demasiado forçado separar tão rigidamente os partidos que se reclamam da social-democracia, do socialismo, se se quiser adoptar a terminologia do Sul da Europa, e os comunistas. Em dadas circunstâncias históricas, como foi a época das Frentes Populares ou durante e pouco tempo após a II Guerra Mundial, houve sérios movimentos de aproximação. Nesse sentido, tanto Daniel de Oliveira ou Miguel Serras Pereira não deveriam fazer separações tão rígidas. Não há nenhuma muralha da China a separar aquelas duas correntes. Por isso, em alguns casos, já nossos contemporâneos, as duas se aliaram
II – A Revolução de Outubro foi sem dúvida uma tentativa vitoriosa de transformar o real, de acelerar a história, de dar o poder às classes não privilegiadas. Teve uma repercussão mundial importante e permitiu de modo insofismável formar em quase todos os países então existentes partidos comunistas ligados à classe operária. Isto é um facto histórico indiscutível e perdurará na história da humanidade.
Os revolucionários de Outubro estavam convencidos que a sua Revolução iria triunfar na maioria dos países da Europa Ocidental, principalmente na Alemanha. E até muito tarde acreditaram nessa possibilidade e foi a sua derrota no ocidente que obrigou a virarem-se para a Rússia atrasada e camponesa, o que teve consequências trágicas. Daí ser importante, ler o que Gramsci disse (ver aqui) sobre as sociedades orientais e ocidentais e a situação do Estado em cada uma delas. Isto remeto-nos para as fantasias do real, de que fala Carlos Vital. A discussão não é entre os revolucionários que querem pôr em prática a sua revolução e os utopistas que sonham com coisas irrealizáveis. A discussão é como é possível no Ocidente conseguir as transformações práticas necessárias à alteração da sociedade e daí a proposta gramsciana da “guerra de posição”, da “conquista da hegemonia” e da formação de blocos históricos que possam “dirigir” a sociedade.
III – Por razões intrínsecas à própria sociedade russa, dá-se a vitória de uma das correntes dos bolcheviques sobre todas as outras. É a derrota da NEP, Nova Política Económica, e dos seus defensores como Bukharine, é a vitória de Estaline contra os desejos de Lenine, é a colectivização forçada, naquilo que Estaline considerou a “revolução por cima”, e a consequente industrialização com trabalho quase escravo. A vitória desta facção transformou a União Soviética não num país socialista, em que os trabalhadores se auto-governavam, mas numa ditadura negra, que começa por eliminar as outras correntes comunistas, para depois, numa sangria imparável, levar os próprios adeptos de Estaline. No entanto, é bom que se diga como o afirma Moshe Lewin, O que foi sistema soviético*, que um dos erros de apreciação da União Soviética “consiste em estalinizar todos o fenómeno soviético, como se ele tivesse sido um Gulag gigante desde o início até ao fim”. Khrushchov, quando em 1956 denuncia o estalinismo, inicia uma nova época na URSS. A situação altera-se e os campos de trabalho forçado (Gulag) são abertos. Podem os críticos actuais, sem qualquer perspectiva histórica, dizer que foi sempre assim, eu diria que não e nesta análise encontro muitos historiadores sérios, como Moshe Lewin (ver O Século Soviético, Campo da Comunicação, 2004, tradução do Miguel Serras Pereira). Isto não quer dizer que a sociedade soviética fosse socialista, era segundo Moshe Lewin, no artigo citado, um “absolutismo burocrático”, muito inspirado no seu passado czarista. Mas é com a perícia do entomologista, que classifica e analisa a realidade, que esta sociedade tem que ser observada. Não é como afirma Moshe Lewin, no já refrido artigo , “tomar o anticomunismo como linha condutora para o estudo da União Soviética”… “O anticomunismo (e as suas vertentes) não é um conhecimento histórico: é uma ideologia mascarada. Não apenas não corresponde à realidade do “animal político” em questão, mas empunha a bandeira da democracia paradoxalmente: explorando o autoritarismo do regime da União Soviética em prol de causas conservadoras ou piores”. Depois enumera dois exemplos: o do macarthismo nos Estados Unidos, ou da direita alemã que “visando limpar a imagem de Hitler ao colocar em primeiro plano as atrocidades cometidas por Estaline acarreta um uso abusivo da história”. E termina “em defesa dos direitos humanos o Ocidente provou alta indulgência para alguns regimes e bastante severidade para com outros (isso para não mencionar as violações que ele próprio comete desses direitos).”
Neste sentido, parece-me errado toda a simplificação que Daniel de Oliveira faz deste tema
IV – A queda do Muro de Berlim e o desmoronar do “socialismo” a Leste tem que se compreender no contexto da apropriação daqueles países pela União Soviética ou no domínio que sobre eles foi exercido por aquele país. Sobre isso já escrevi o post anterior e penso não ser necessário repetir. É por isso compreensível, os festejos da Alemanha e até se quiserem as palavras de Angela Merkel, que mereceram apressada transcrição, mas que no fundo, não esquecendo o seu passado, festeja com orgulho a reunificação do país ou as opções anti-comunistas que são tomadas nas diferentes capitais de Leste. Situação já diferente é a da Rússia e das Repúblicas que dela se separaram em que um reencontro com o seu passado e a delineação do seu futuro no complexo mundo actual são objecto de renovada procura, passado que foi a sua loucura ocidentalizante encabeçada por Boris Yeltsin.
Como diferente foi a situação na ex-Jugoslávia, onde foi preciso a intervenção forçada, primeiro da diplomacia Alemã e depois dos bombardeamentos da NATO, para desmantelar e subverter o país existente.
Diferente é também Cuba, que devido às características autónomas da sua revolução, conseguiu manter a sua independência, mesmo nos anos mais sombrios do desaparecimento da União Soviética e da era Bush, e quer queiram quer não, é hoje respeitada e acolhida no seio dos nascentes estados progressistas da América Latina. Sem servir de modelo, penso que seria estultícia nossa, ou de muitos que escrevem para a net tentar dar lições sobre os caminhos que Cuba deve trilhar. Lula, que respeitamos, Chavez, que é motivo de escárnio das almas bem pensantes e outros mais, não se têm permitido dar conselhos ao “velho regime”.
A China é outro caso que, de momento e devido à exiguidade deste post, tratarei noutra altura.
V – Por tudo o que foi dito, ser-se comunista hoje é perceber a complexidade do que foi o fenómeno histórico do movimento comunismo e pensar que o mundo passado já não ressuscita. O marxismo-leninismo, como expressão ideológica do grupo dirigente da União Soviética, é hoje uma aberração histórica, que já nada interpreta e para que nada serve. Por isso, ser comunista hoje é pensar que há outros grupos e novas grupos sociais com quem nos podemos unir e formular para futuro a possibilidade de se alcançar uma sociedade outra, tendo sempre presente que o esforço de agregação e de junção de forças é complexo e exige trabalho, mas está ao nosso alcance. Nesse sentido, os novos partidos de esquerda que por essa Europa e em Portugal vão nascendo são hoje, nas circunstâncias actuais de centro do mudo capitalista ocidental, a alternativa ao conservadorismo, ao neo-liberalismo e à deriva direitista da social-democracia.
Hoje, o PCP é de facto um obstáculo à compreensão destas novas emergências, o que torna mais difícil o trabalho de reorganização do pensamento da esquerda em Portugal, mas a sua participação nesta nova esquerda é indispensável, quer queiram seus dirigentes quer não.
VI – Por último, a questão do modelo levantada por Miguel Serras Pereira. Por tudo aquilo que fui escrevendo nada me leva a pensar que o modelo dito “socialita” possa, depois de regulado, como agora se diz em relação ao capitalismo, vir a ser reposto. Primeiro, porque nas sociedades ocidentais ninguém de boa fé prevê qualquer revolução. Segundo, porque os passos que a esquerda não social-democrata tem que dar ainda estão tão no início, que muita água ainda há-de correr debaixo das pontes até que democraticamente ela esteja em condições de aceder ao poder e qual o programa irá aplicar? O futuro será sempre uma procura de novas saídas e de novos desafios, não está, como não esteve para os bolcheviques desenhado desde o início. Mas os erros da sua experiência histórica poderão servir para não se fazer igual.
III – Por razões intrínsecas à própria sociedade russa, dá-se a vitória de uma das correntes dos bolcheviques sobre todas as outras. É a derrota da NEP, Nova Política Económica, e dos seus defensores como Bukharine, é a vitória de Estaline contra os desejos de Lenine, é a colectivização forçada, naquilo que Estaline considerou a “revolução por cima”, e a consequente industrialização com trabalho quase escravo. A vitória desta facção transformou a União Soviética não num país socialista, em que os trabalhadores se auto-governavam, mas numa ditadura negra, que começa por eliminar as outras correntes comunistas, para depois, numa sangria imparável, levar os próprios adeptos de Estaline. No entanto, é bom que se diga como o afirma Moshe Lewin, O que foi sistema soviético*, que um dos erros de apreciação da União Soviética “consiste em estalinizar todos o fenómeno soviético, como se ele tivesse sido um Gulag gigante desde o início até ao fim”. Khrushchov, quando em 1956 denuncia o estalinismo, inicia uma nova época na URSS. A situação altera-se e os campos de trabalho forçado (Gulag) são abertos. Podem os críticos actuais, sem qualquer perspectiva histórica, dizer que foi sempre assim, eu diria que não e nesta análise encontro muitos historiadores sérios, como Moshe Lewin (ver O Século Soviético, Campo da Comunicação, 2004, tradução do Miguel Serras Pereira). Isto não quer dizer que a sociedade soviética fosse socialista, era segundo Moshe Lewin, no artigo citado, um “absolutismo burocrático”, muito inspirado no seu passado czarista. Mas é com a perícia do entomologista, que classifica e analisa a realidade, que esta sociedade tem que ser observada. Não é como afirma Moshe Lewin, no já refrido artigo , “tomar o anticomunismo como linha condutora para o estudo da União Soviética”… “O anticomunismo (e as suas vertentes) não é um conhecimento histórico: é uma ideologia mascarada. Não apenas não corresponde à realidade do “animal político” em questão, mas empunha a bandeira da democracia paradoxalmente: explorando o autoritarismo do regime da União Soviética em prol de causas conservadoras ou piores”. Depois enumera dois exemplos: o do macarthismo nos Estados Unidos, ou da direita alemã que “visando limpar a imagem de Hitler ao colocar em primeiro plano as atrocidades cometidas por Estaline acarreta um uso abusivo da história”. E termina “em defesa dos direitos humanos o Ocidente provou alta indulgência para alguns regimes e bastante severidade para com outros (isso para não mencionar as violações que ele próprio comete desses direitos).”
Neste sentido, parece-me errado toda a simplificação que Daniel de Oliveira faz deste tema
IV – A queda do Muro de Berlim e o desmoronar do “socialismo” a Leste tem que se compreender no contexto da apropriação daqueles países pela União Soviética ou no domínio que sobre eles foi exercido por aquele país. Sobre isso já escrevi o post anterior e penso não ser necessário repetir. É por isso compreensível, os festejos da Alemanha e até se quiserem as palavras de Angela Merkel, que mereceram apressada transcrição, mas que no fundo, não esquecendo o seu passado, festeja com orgulho a reunificação do país ou as opções anti-comunistas que são tomadas nas diferentes capitais de Leste. Situação já diferente é a da Rússia e das Repúblicas que dela se separaram em que um reencontro com o seu passado e a delineação do seu futuro no complexo mundo actual são objecto de renovada procura, passado que foi a sua loucura ocidentalizante encabeçada por Boris Yeltsin.
Como diferente foi a situação na ex-Jugoslávia, onde foi preciso a intervenção forçada, primeiro da diplomacia Alemã e depois dos bombardeamentos da NATO, para desmantelar e subverter o país existente.
Diferente é também Cuba, que devido às características autónomas da sua revolução, conseguiu manter a sua independência, mesmo nos anos mais sombrios do desaparecimento da União Soviética e da era Bush, e quer queiram quer não, é hoje respeitada e acolhida no seio dos nascentes estados progressistas da América Latina. Sem servir de modelo, penso que seria estultícia nossa, ou de muitos que escrevem para a net tentar dar lições sobre os caminhos que Cuba deve trilhar. Lula, que respeitamos, Chavez, que é motivo de escárnio das almas bem pensantes e outros mais, não se têm permitido dar conselhos ao “velho regime”.
A China é outro caso que, de momento e devido à exiguidade deste post, tratarei noutra altura.
V – Por tudo o que foi dito, ser-se comunista hoje é perceber a complexidade do que foi o fenómeno histórico do movimento comunismo e pensar que o mundo passado já não ressuscita. O marxismo-leninismo, como expressão ideológica do grupo dirigente da União Soviética, é hoje uma aberração histórica, que já nada interpreta e para que nada serve. Por isso, ser comunista hoje é pensar que há outros grupos e novas grupos sociais com quem nos podemos unir e formular para futuro a possibilidade de se alcançar uma sociedade outra, tendo sempre presente que o esforço de agregação e de junção de forças é complexo e exige trabalho, mas está ao nosso alcance. Nesse sentido, os novos partidos de esquerda que por essa Europa e em Portugal vão nascendo são hoje, nas circunstâncias actuais de centro do mudo capitalista ocidental, a alternativa ao conservadorismo, ao neo-liberalismo e à deriva direitista da social-democracia.
Hoje, o PCP é de facto um obstáculo à compreensão destas novas emergências, o que torna mais difícil o trabalho de reorganização do pensamento da esquerda em Portugal, mas a sua participação nesta nova esquerda é indispensável, quer queiram seus dirigentes quer não.
VI – Por último, a questão do modelo levantada por Miguel Serras Pereira. Por tudo aquilo que fui escrevendo nada me leva a pensar que o modelo dito “socialita” possa, depois de regulado, como agora se diz em relação ao capitalismo, vir a ser reposto. Primeiro, porque nas sociedades ocidentais ninguém de boa fé prevê qualquer revolução. Segundo, porque os passos que a esquerda não social-democrata tem que dar ainda estão tão no início, que muita água ainda há-de correr debaixo das pontes até que democraticamente ela esteja em condições de aceder ao poder e qual o programa irá aplicar? O futuro será sempre uma procura de novas saídas e de novos desafios, não está, como não esteve para os bolcheviques desenhado desde o início. Mas os erros da sua experiência histórica poderão servir para não se fazer igual.
* Margem Esquerda, ensaios marxistas, Boitempo editorial, 2007, 10: 39-53.
A fotografia é do Monumento à III Internacional (1919-1920), de Vladimir Tatlin.
Este post era para ser publicado logo a seguir aos post sobre o Muro, mas a premência de fazer referência ao Avante ainda no dia em que foi publicado levou-me a atrasar a publicação deste
Este post era para ser publicado logo a seguir aos post sobre o Muro, mas a premência de fazer referência ao Avante ainda no dia em que foi publicado levou-me a atrasar a publicação deste













