22/03/2009

Um pequeno fait divers: o número de manifestantes

Não é nada de importante, mas de repente retomou-se o tema do número de pessoas que participam nas manifestações. O Expresso, em artigo destacado, fala que os números de manifestantes são menos do que aqueles que os organizadores das manifestações normalmente afirmam e para isso recorre à simples matemática: se por m2 só cabem no máximo quatro pessoas, se a área abrangida pela manifestação é tanto então o número de manifestantes, consoante se considerem quatro, três ou dois por m2, seria igual à multiplicação dessa área pelo número que se considere para cada m2. Isto é simples matemática e quem sou eu para discordar desta regra. Só que me parece ser difícil delimitar a área abrangida e conseguir que em determinado momento todos os manifestantes estejam concentrados nela.
Mas não são estas contas do Expresso que me interessa abordar neste post. É o desejo gritado pelos meios de comunicação de que a polícia lhes forneça um número.
Até há bem pouco tempo era normal o número de manifestantes ser dado pelos organizadores da manifestação, que poderiam ser contestados por algum artigo mais crítico, ou até por aqueles que se sentiam lesados pelos protestos da rua. A polícia, ao contrário do que sucedia lá fora, nunca era chamada para desempatar. Era uma tradição nacional que eu achava bem, porque nunca considerei aquela estrutura como isenta e desvinculada do Poder, por isso era normal os números apresentados pela polícia serem sempre inferiores aos fornecidos pelos manifestantes.
Até que um dia, não sei se neste Governo se no anterior, o ministro da Administração Interna permitiu que a polícia passasse a indicar o número de manifestantes segundo a sua perspectiva. Então lá tivemos a guerra dos números, coisa tão grata aos meios de comunicação social. Se os manifestantes diziam que eram tantos, contrapunham-lhe os dados fornecidos pela polícia, que indicavam outros valores. E assim fomos durante algum tempo, não sei se anos, confrontados com as informações prestadas pela polícia.
Até que o actual Ministro da Administração Interna resolveu acabar com isso, a polícia deixa de fornecer um número. Eu penso que isso sucedeu quando se verificaram as manifestações dos professores. O Governo não queria a polícia a avalizar as gigantescas manifestações que aquela classe profissional realizou. E assim se acabaram as avaliações da polícia. Grande coro dos meios de comunicação social, que já não era possível ter uma estrutura independente a dar os números, ou seja, acabou-se-lhes o circo. Já não podem, de microfone em riste, vir com ar inquisitorial perguntar ao Carvalho da Silva como é que ele justificava que em vez dos 200 mil manifestantes que ele garantia que eram, afinal a polícia dizia que eram só 100 mil.
No fundo já perceberam o meu ponto de vista. Acho que a polícia não é um órgão independente do Governo para avalizar o número de manifestantes e que esse trabalho deve ser deixado aos promotores das manifestações e àqueles que quiserem discuti-los.
Deixemos esses maus hábitos lá para fora, conservemos uma boa tradição caseira.
Por indicação bastante útil de um leitor corrigi um erro grave de matemática que tinha na anterior redacção. Assim, para determinar o número de manifestantes não devia utilizar uma divisão, como afirmava, mas sim uma multiplicação (o total da área vezes o número de manifestantes por m2), como de facto é simples de perceber. Obrigado pela correcção.

21/03/2009

O para-facismo ataca de novo. O spot publicitário da Antena 1


Antes de mais gostaria de avisar que retirei o antepenúltimo post, referente a um vídeo dos Monty Phyton dedicado aos católicos e protestantes, exclusivamente por motivos técnicos, pois aparecia-me, sempre que tentava fechar o meu blog, uma mensagem a dizer que havia um erro de scrip que eu associei àquele post. O que de facto se confirmou ao eliminá-lo. Não sei se aos meus leitores também lhes sucedeu o mesmo?

Voltemos ao motivo que me levou a escrever este post (ver aqui o spot publicitário). Sei que o título é forte, mas convém chamar os bois pelos nomes.
Alguns bloggers indignaram-se com o papel desempenhado neste spot pela jornalista Eduarda Maio, que já tinha escrito um livro de propaganda a José Sócrates, afirmando, e com razão, que os jornalista não podem participar em publicidade. Outros estão contra o ataque expresso à garantia constitucional do direito à manifestação. Alguns referem a responsabilidade, em última instância, do Ministro Santos Silva, que tutela a comunicação social. Por último o Público garantia, pela porta-voz da RTP, que este anúncio era uma ideia criativa da agência de publicidade, limitando-se a RTP a aprová-lo.
Tudo isto são aspectos importantes, mas não eximem a administração da RTP/RDP de ser responsável por ter escolhido um spot publicitário que faz apelo a valores e ideias afascistadas.
Vejamos. Uma das consignas do salazarismo era “a minha política é o trabalho”. O que significava que quem não queria encrencas não se metia em políticas ou em manifestações, só aquelas que fossem “espontaneamente” organizadas pelo regime. O mesmo reflecte a ideologia expressa por este spot publicitário. Os bons chefes de família, representados pelo condutor do automóvel, não se metem em manifestações que são uma arma dirigida a contra todos aqueles que “honestamente” querem chegar a horas ao trabalho.
Como todos sabemos, e basta percorrer os comentários bastante afascistados, que têm sido deixado nos posts que se referiram a este spot, para se verificar que há muita boa gente que tem uma nostalgia acentuada pelos "bons tempos" do passado, em que as manifestações estavam proibidas e em que aqueles que nelas participavam eram desordeiros e subversivos, talvez manipulados pelo PCP e pelos “esquerdistas”, pais do actual Bloco de Esquerda.
E aqui entroncamos nas perigosas afirmações do primeiro-ministro que, em relação à manifestação da CGTP, considerou que os seus participantes tinham sido manipulados por aqueles dois partidos. Num ápice juntou a velha ideia salazarenta, de que toda a desordem é o resultado da agitação promovida pelos comunistas, a outra da guerra-fria, de que certos sindicatos são manipulados e instrumentalizados pelos Partidos Comunistas, aos quais havia que opor um sindicalismo livre e independente, tão independente como o que depois se viu na semana seguinte, em que a tendência socialista da UGT se reúne com José Sócrates, do PS, para indicarem o próximo secretário-geral da UGT.
O caminho que estamos a seguir é perigoso. O PS em desespero de causa, com o gauleiter Santos Silva, está a pretender meter na ordem os sindicatos e a tentar impedir as manifestações que estes promovem. Temos que estar atentos a esta grave situação e à ideologia que está por detrás dela.

Parece que os protestos foram tantos e tão pronta foi a acção do provedor do ouvinte que o spot publicitário foi retirado e no Telejornal de hoje foi até garantido que este já tinha sido feito no Verão passado e só agora é que foi exibido. Isto para demonstrar que nada teria a ver com as recentes manifestações da CGTP.
PS. (23/03/09): Já passaram alguns dias, mas encontrei em 5 dias.net, num post de Nuno Ramo de Almeida uma referência a este caso. Não havia qualquer problema, este assunto durante um curto espaço de tempo, que é sempre aquele que leva a bloggosfera a indignar-se, encheu as manchetes de todos os blogs progressistas. Não fui excepção, simplesmente eu fazia referência, no dia 21 de Março, a uma ideia salazarenta de que a minha política é o trabalho, no dia 22 o Nuno referia-se ao mesmo. Não quero tirar o copyright desta ideia, mas lá que houve transmissão de pensamento, houve. A diferença é que em relação ao meu post nem um comentariozinho para alegrar a festa e no do Nuno registei até hoje 39. Não quer dizer que tivesse qualquer interesse em ter comentários do calibre daqueles que lá se escrevem, mas ao menos um só.
PS. (30/03/09): Afinal não foi só o Nuno que teve transmissão do pensamento em relação à frase salazarente “a minha política é o trabalho”. Mário Crespo num artigo de opinião no Jornal de Notícias, de 23 de Março, escreve o “slogan da ditadura que a melhor política é o trabalho”. Ou seja, fica claro que uma mesma causa, neste caso as palavras de Eduarda Maio, provocam a mesma reacção, a associação àquela palavra de ordem do fascismo. Aqui fica pois a resposta ao comentário do Nuno.

16/03/2009

A visita de José Eduardo dos Santos a Portugal. A posição do Bloco de Esquerda.


Socorro-me do debate travado na primeira parte do Eixo do Mal (sem link) para abordar este tema. Daniel de Oliveira, um dos habituais intervenientes e militante do Bloco de Esquerda, mostrou-se intransigente para com a personagem que nos visitava e com a sua ida à Assembleia da República, a casa da democracia. O próprio coordenador do programa, brincando, chegou mesmo a referir que Daniel de Oliveira poderia já não estar para a semana naquele programa, dado que os dinheiros de Angola, que parece que já entraram no semanário Sol, poderiam facilmente intervir naquele canal de televisão e correr com o crítico do Presidente angolano.
Clara Ferreira Alves, outra das intervenientes, contra argumentou, inserindo o que se passa em Angola no contexto africano, chegando a afirmar que aquele país não era onde se verificava a maior violação dos direitos humanos: não havia muitos prisioneiros políticos e até se publicavam alguns órgãos de informação relativamente críticos. Depois falou da independência recente de Angola e que o que lá se passava não seria muito diferente do que sucedia na maioria dos países africanos.
No fundo, e é isto que por vezes me irrita nos paladinos da defesa dos direitos humanos, é que o fazem em abstracto, sem ter em atenção o contexto, a situação política interna e a inserção dos países no confronto político e económico internacional. Neste exemplo, Daniel Oliveira comporta-se como o idealista, que tem ideias pré-concebidas e as tenta aplicar à realidade, mesmo que esta não se compraza com elas, e Clara Ferreira Alves como a realista, que analisa a situação concreta e a tenta interpretar e compreender em função dos dados objectivos de que dispõe.

Recuemos um pouco. Como sabem a situação dos movimentos de libertação de Angola era bastante complicada à data da independência daquele país. Um movimento progressista fraco, o MPLA, sem retaguardas protegidas, que não consegue criar uma verdadeira situação de perigo para o colonizador, e dois outros movimentos, a FNLA e a UNITA, de carácter regionalista, com clara expressão racista e ligados a países pouco respeitáveis, o primeiro, para além dos Estados Unidos, ao Congo de Mobutu, e o segundo, depois da sua colaboração com a PIDE, ao Governo racista e agressivo da África do Sul. No entanto, depois da independência o imperialismo americano e o racismo sul-africano foram derrotados e fortemente em Angola com a ajuda das tropas cubanas. Primeiro, em 10 de Novembro de 1975, na batalha de Quifandongo, que permite que o MPLA proclame em Luanda a independência de Angola, e posteriormente na de Cuito Cuanavale, a 23 de Março de 1988. Foi esta última derrota que possibilitou primeiro a independência da Namíbia e posteriormente o fim do apartheid na África do Sul (ver aqui, apesar de ser um post anterior à eleição de Barack Obama).
Eu sei que não podemos eternamente continuar presos a um passado já enterrado e completamente esquecido, que o MPLA dessa época não será igual ao de agora. No entanto, houve à época algumas páginas negras naquele movimento, como o assassinato de Nito Alves e de Sita Vales e o massacre de grande número de angolanos, em Maio de 1977, perpetrado por Agostinho Neto. Sabemos também o que representou para certos movimentos progressistas do Terceiro Mundo, como o MPLA, o desaparecimento da União Soviética, as implicações que isso trouxe para os seus referenciais ideológicos e para as suas economias, que eram apoiadas pelo “campo socialista”. Angola foi obrigada a fazer uma mudança brusca de uma economia dita de comando central para outra de predomínio capitalista. E depois sempre a guerra a consumir recursos e a debilitar a sua frágil estrutura social. Não é mistério para ninguém que a seguir aos acordos de Bicesse, em Maio de 1991, a realização de eleições, em Setembro de 1992, foi apressada e acabou num banho de sangue. A guerra continua até 2002, o que não permitiu qualquer veleidade de organização democrática do Estado. Estes são os factos, que temos que tomar em consideração.

Hoje, a África é um continente complicado. No espaço de poucas décadas tenta-se libertar do colonialismo e duma sociedade tribal, que permanece quase intacta nas suas estruturas mentais e organizativas e que permite que os chefes sejam corruptos e cleptómanos, como já o eram no passado. Tenta abraçar o espírito progressista de libertação nacional, que desempenha um papel importante nas suas independências, mas rapidamente é envolvida na Guerra Fria, com apoios soviéticos ou de outros países do campo socialista completamente desfasados do que era a sua realidade, ampliando para o pior as formas ditatoriais copiadas do “socialismo real” e inserindo-as em sociedades muito carentes e bastante desorganizadas. A juntar a isto a intervenção imperialista, sempre pronta a corromper e a instalar governos fantoches e incapazes. Para agravar a situação, o fim da Guerra-Fria, onde se teve que rapidamente fazer uma inversão de alianças, organizar a sociedade de outro modo e acabar com o passado marxista-leninista. É nesta conjuntura que o Governo do MPLA soube acabar com a guerra (2002), vencendo e matando um dos piores carrascos do povo angolano, Jonas Savimbi, tentando garantir a gestão nacional dos seus recursos e diversificar os seus apoios internacionais. Concentrando, é certo, o poder político e económico numa só família e nos seus amigos, permitindo que a classe dirigente viva numa ostentação iníqua em relação à pobreza do seu povo.

Estes últimos factos poderiam levar o Bloco de Esquerda a distanciar-se daquela visita. Não precisava de dizer, como todos os outros o fizeram, de que havia progressos democráticos em Angola. Poderia distribuir pelos media um comunicado bem feito a descrever o que foi a história recente daquele país e as agressões de que foi vítima e o papel que desempenha hoje na política e na economia o visitante e a sua família. Mas não precisava era de tão ostensivamente se recusar a comparecer nas cerimónias oficiais. No fundo, alinhou com todos aqueles, e não foram poucos, que na direita manifestaram a sua indignação com esta visita e com a recepção e a cordialidade com que se recebeu José Eduardo dos Santos (Ver o artigo de opinião de Helena Matos, no Público, e a intervenção de Pacheco Pereira, na Quadratura do Círculo, só para dar um cheirinho).

É evidente que este post não aborda, para além do caso pontual de Angola, o problema dos direitos humanos e a posição que a esquerda deve ter perante os mesmos e as suas opções face à sua discussão internacional. Deixemos este assunto melindroso e complexo para outra ocasião.
Acabei de assistir até onde a minha paciência aguentou o programa de Fátima Campos Ferreira, Prós e Contras. Uma vergonha. O representante oficial de Angola a defender com unhas e dentes o seu amado líder e a garantir que não havia corrupção e os empresários portugueses a acenarem com a cabeça, em sinal de assentimento. Por último, e foi quando desisti, Fátima Roque, ex-quadro superior da UNITA, e o delegado daquele partido em Portugal a garantirem que era tudo verdade, excepto a ausência de liberdade económica. Só um senhor, que eu penso que se chama Costa e Silva, e que me parece que pertence à empresa que gere os petróleos da Gulbenkian, a chamar a atenção para a miséria do povo angolano. Como era previsível o Bloco de Esquerda não foi convidado. Ia estragar a festa e aqui assim é que deveria denunciar todas as malfeitorias que quisesse, dentro é certo de uma perspectiva histórica e factual.

14/03/2009

Falemos de coisas mais importantes: Manuel Alegre

Tenho andado ultimamente enredado em pequenas quezílias pessoais ou confissões um pouco auto-punitivas, por isso não me tenho referido a alguns dos assuntos que marcam a actualidade.
Um certo “operário desempregado” acusou-me de não falar da manifestação da CGTP. Como já deve ter reparado o blog dedica-se mais à luta política-ideológica do que às agendas reivindicativas, por muito sérias que sejam. Por isso, não vejo qualquer razão para noticiar ou propagandear a manifestação e o seu indiscutível êxito, que foi por todos os media reconhecido.
Houve depois um outro assunto, provavelmente por não conseguir encontrar o tom certo, que ainda não abordei. Foi a visita de José Eduardo dos Santos a Portugal e a posição do Bloco de Esquerda, com que eu não estou de acordo.
Irei agora falar dos recentes desenvolvimentos daquilo que eu chamaria a novela Manuel Alegre.
Fui dos que saudei a sua candidatura às presidenciais. Ela prefigurava uma velha aspiração do PCP que era dividir o PS, daí o seu apoio ao PRD, do general Ramalho Eanes. É evidente que o apoio à criação daquele partido consistia unicamente em instrumentalizar a divisão do campo socialista, possibilitando até uma possível maioria de esquerda, no caso de Manuel Alegre as razões são mais profundas e nem sequer envolvem o PCP. Se as propostas presidenciais daquele político nem sempre me agradaram, a personagem, a sua entourage e aquilo que podiam significar tinham um peso político bastante diferente do que tinha a sido a criação do PRD, que no fundo acabou por resultar na passagem directa de eleitorado comunista e socialista para o PSD de Cavaco.
Tivemos depois os episódios da Trindade e da Aula Magna, com comícios em que participaram a título individual o Bloco de Esquerda e, no primeiro claramente, a Renovação Comunista. Quer se quisesse quer não, estes encontros, os discursos pronunciados e os temas abordados podiam deixar antever um ruptura de Manuel Alegre com o PS, o aparecimento de um novo partido e até a possibilidade, para já, do aparecimento de listas conjuntas Alegre-Bloco de Esquerda e, no futuro, a formação de um novo partido semelhante ao Die Linke alemão, que juntou socialistas de esquerda e comunistas pós-Muro.
Nada disto aconteceu, muito se especulou sobre de quem era a culpa, mas a verdade é que Alegre não rompe com o PS, não forma nenhum novo partido e o Bloco de Esquerda fala de Convergências à Esquerda, que se referem só a ele e a alguns independentes, como, por exemplo, para as europeias, o Rui Tavares.
Ontem Manuel Alegre, em declarações à Antena 1, já afirma: se a direcção do partido não dá um sinal da demarcação em relação à afirmação de um dirigente (José Lello) que diz que eu não tenho carácter, então não pode querer contar comigo como candidato a deputado nas próximas eleições. Ou seja, aquele político já admite participar nas listas do PS se este se demarcar do José Lello, coisa que não é difícil, se para conquistar uma maioria absoluta isso for necessário. E António Costa, na Quadratura do Círculo, da SIC Notícias, fala mesmo em coligação entre o PS oficial e Manuel Alegre. Proposta que hoje leva ao rubro Pacheco Pereira na sua crónica no Público, Uma coligação do PS-1 (Sócrates) com um PS-2 (Alegre) (ver aqui).
Sem saber como é que tudo isto irá acabar, parece-me, e espero que me engane, que findará numa coligação eleitoral um pouco original entre Alegre e o PS, em que este garante uns lugares na Assembleia e até, provavelmente, no Governo, como neste momento já tem a Ministra da Saúde, Ana Jorge, e acaba tudo com Manuel Alegre e Sócrates nos comícios eleitorais a darem vivas ao PS. Espero que este pesadelo não se concretize e que haja um pouco mais de dignidade na política.
Estamos todos cá para ver, é o meu desejo.

13/03/2009

Erros ortográficos


Sou daqueles que dá extremo valor à maneira como se escreve. Nenhuma ideia pode ficar bem expressa se o texto que a pretende traduzir está mal redigido. No fundo, aplico à escrita a velha questão artística da interligação entre a forma e o conteúdo. Os erros de ortografia estão também incluídos nesta mesma relação. Não se pode escrever um post a “malhar” em alguém e depois o texto ter erros ortográficos. Causa uma péssima impressão.
Por isso, eu tento escrever utilizando sempre o corrector ortográfico do próprio Word. Mesmo as resposta aos comentários de outros raramente são publicadas sem utilizar esse sistema. Fico, por esse motivo, extremamente irritado, quando alguém resolve publicar comentários aos meus posts ao correr da inspiração, sem previamente escrever o texto e revê-lo com a ajuda de um corrector ortográfico.
Junta-se a isto um problema que ocorre no meu computador em que o teclado, por razões que desconheço, salta letras ou espaços. Sem corrector ortográfico quase que era impossível ler os meus textos, ou então, o tempo que eu perdia a corrigi-los era muito maior.
Sucede que por vezes há palavras que o corrector não identifica e por isso temos que recorrer a um dicionário para verificar a sua existência. Mas há mais, e mais grave, é caso das palavras que se as escrevermos erradamente elas têm outro significado e por isso o corrector não assinala o erro. A mim já me sucedeu, escrever passo, do verbo passar, com ç transformando assim o passo em paço real.
Agora vieram-me chamar a atenção para outro termo que eu utilizo abundantemente: descriminar, que com e significa descriminalizar, e que com i refere-se a diferenciar, separar.
Por isso peço a todos os meus leitores que me desculpem os erros cometidos e que quando encontrarem, em posts passados, o termo descriminar, com e, já sabem que quero referir-me a discriminar, com i.
Há outro facto, para o qual já me têm chamado a atenção, que é a falta de concordância entre o predicado e o sujeito ou os diversos complementos. O corrector linguístico também resolve isso, mas aqui porta-se bastante pior do que o ortográfico. E por vezes não consigo reparar nestas discordâncias.
Devo este pedido de desculpas aos meus leitores.

O literalista


Finalmente acusaram-me de alguma coisa. Tal como eu pedia, em resposta a um dos meus comentadores, já tenho um epíteto atribuído, literalista. Foi a maneira educada de me dizerem que era pouco esperto e pouco subtil. Lá terão as suas razões. Simplesmente, nas minhas imprecações contra as muralhas da cidade, que eu me recorde, nunca os meus opositores foram classificados em função dos seus dotes intelectuais, apesar de haver grandes diferenças. Penso que a luta política não passa por aqui e por isso coíbo-me de fazer esse tipo de críticas.
Quanto, à referência aos Coros do Exército Vermelho é outra maneira, esta menos subtil, de me considerar um nostálgico da União Soviética. Para certos bloggers, aqueles que ainda se reclamam de certa influência da Revolução de Outubro, que não classificam a aventura comunista como um totalitarismo, tão horrível como o nazi-fascismo, que não consideram o mundo contemporâneo como uma luta exclusiva entre aqueles que defendem os direitos humanos e os que não os protegem. Para aqueles que consideram que o imbróglio muçulmano é bastante mais complexo do que uma luta entre a civilização ocidental e os fundamentalistas islâmicos, só resta a terrível tortura de ficar para o resto da história a ouvir os Coros do Exército Vermelho ou então, na pior das hipóteses, a verem aqueles filmes soviéticos (ver imagem) em memória de Estaline e dos seus feitos. Não aceitamos estas dicotomias, nem a simplificação da realidade, há mais mundo para além daquele que as boas almas querem que haja.
Não fomos nós que exigimos que o Bloco de Esquerda rompa com toda e qualquer ligação com os comunistas e com todo o seu passado estalinista/maoista ou trotskista. Nós convivemos bem com o pluralismo que há naquele partido. Provavelmente daí a diferença entre ser literalista e não ser.
E por aqui me fico, não deixando de ler, por vezes com gosto, o meu taxonomista, porque ele é o exemplo e o paradigma, no seio da esquerda, de uma certa corrente que a desvirtua e a torna refém da agenda da direita, mas entendo que neste momento já nada temos a acrescentar aos epítetos com que nos fomos mimoseando.

09/03/2009

Quando as comadres se zangam

Dada a minha proverbial prolixidade em relação aos assuntos que abordo perco normalmente a oportunidade falar neles quando acontecem, assim para manter o meu blog com novos posts recorro frequentemente a pequeno vídeos e agora até a fotografias. Por isso, quando me preparava para “malhar”, uma expressão que agora está muito em moda, mais uma vez num post de Rui Bebiano, que tinha lido, sem saber de quem era, em o Tempo das Cerejas, e que tinha considerado bastante reaccionário, reparo que já tinha sido ultrapassado pelos acontecimentos. É que a seguir a este já tinham sido publicados outros dois (ver aqui e aqui) tão reaccionários como o anterior, o que me levou a pensar que o autor ou se tinha definitivamente passado dos carretos ou então se comprazia no deleite de provocar os seus leitores de esquerda. Por isso, achei por bem não gastar mais cera com tão ruim defunto, ou seja, deixar de comentar os seus posts tal como não faço com os do 31 da Armada, do Blasfémias ou do Atlântico.
Resolvi, por isso, abordar uma zanga de comadres que tinha assistido na última quinta-feira na Quadratura do Círculo e que, apesar de já terem passado uma série de dias, me apetece comentar dado a sofreguidão com que António Costa defendeu o seu líder e como todos, com um sorriso nos lábios, estiveram de acordo com as boçalidades com que Costa mais uma vez mimoseou o Bloco de Esquerda.
A Quadratura do Círculo, quando começou há muitos anos na TSF com outra designação, tinha como intervenientes, que eu me recorde, o Pacheco Pereira, o único que se manteve fiel ao formato, alguém do CDS e o José de Magalhães, ainda deputado do PCP. O PS estava ausente, penso que representado pelo coordenador. Depois o José Magalhães, sem sair do Parlamento, mudou-se para a bancada do PS e o programa nunca mais teve ninguém à esquerda deste partido. O que neste momento se torna profundamente injusto dado que uma corrente de opinião, com mais de 20% de intenções de voto (Bloco de Esquerda mais PCP), está completamente ausente de um programa de discussão política. Este facto permite a manutenção do stato quo dominante, expresso por Pacheco Pereira, em nome do PSD, é verdade que nem sempre alinhado, por Lobo Xavier, em nome do CDS, dizendo praticamente os dois a mesma coisa, contra um PS oficial representado por um peso pesado, António Costa, que raramente foge à versão oficial dos acontecimentos.
Na Quadratura desta semana o único tema abordado foi o Congresso do PS. Pacheco Pereira iniciou as hostilidades com o ataque ao discurso que Sócrates pronunciou no primeiro dia, aquele em que ele atacou a imprensa, principalmente o Público e a TVI, e se vitimou, garantindo que havia contra ele uma campanha negra. Depois Lobo Xavier comparou o discurso do Primeiro-Ministro ao dos autarcas corruptos, quando dizem que está nas mãos do povo a decisão da sua continuação no Governo, e não nas mãos de “um qualquer director de jornal ou de televisão”. Já se sabe que o caso Freeport veio novamente à baila e aí António Costa contra-ataca e as coisas começaram a azedar. Costa, invocou o comunicado da Procuradoria, e hoje percebe-se o alcance daquele comunicado, dizendo que as Autoridade Judiciais não consideravam José Sócrates nem suspeito, nem arguido, nem sequer que estivesse a ser investigado e quem falasse no Freeport alinhava na campanha negra que aqueles media estavam a desencadear contra o Primeiro-ministro.
Para um observador distraído estas personagens pareciam estar muito zangadas. Já assisti na Assembleia Municipal de Lisboa a troca de acusações entre deputados do PSD e do PS que dariam, na vida real, para os intervenientes chegarem a vias de facto ou para nunca mais se falarem e não é que depois os encontro nos corredores em amena cavaqueira uns com os outros, como se nada se tivesse passado. Por isso, apesar do ar zangado de António Costa e principalmente de Lobo Xavier acabou tudo em bem, quando António Costa, dizendo que nisso convergia com o Pacheco Pereira, começou mais uma vez a malhar no Bloco de Esquerda.
Por último duas coisas marginais ao debate. António Costa veio recordar a expressão “um voto na AOC era um espinho cravado na garganta do Cunhal”, que eu referi a propósito da crítica que fiz a um post de Rui Bebiano. A associação de ideias tinha a ver com Espinho, o local onde se tinha realizado o Congresso do PS.
A segunda foi Costa ter afirmado que aderira ao PS, e à sua “luta pela liberdade”, quando este desencadeou o caso República. Triste exemplo este. Hoje sabe-se que o PS utilizou este caso, que nada teve a ver com o PCP, para nacional e principalmente internacionalmente desencadear um campanha mentirosa contra os comunistas que estariam a cercear a liberdade de imprensa em Portugal, aproveitando-se, é certo, da má fama que estes tinham noutros países.
PS. (10/03/09): ao contrário do que costuma aparecer nos media não existe o termo vitimização e vitimizar como eu escrevi neste post e em anteriores, mas sim vitimação e vitimar. Neste ainda resolvi fazer a correcção, em relação aos outros espero que os meus leitores que me desculpem mas que façam eles a alteração.

08/03/2009

Portugal no seu melhor - II


Continuando a série Portugal no seu melhor apresento-vos esta fotografia que não tendo tanta graça como a anterior, também tem o seu castiço. O título é Cemitério.

07/03/2009

Portugal no seu melhor


Enviaram-me recentemente um conjunto de fotografias com o título Portugal no seu melhor, porque achei esta particularmente engraçada quis partilhá-la com os meus leitores

05/03/2009

Uma Conferência quase clandestina de Domenico Losurdo

Já um pouco atrasado venho dar conta de uma conferência que assisti na quinta-feira da semana passada. Como o tipo de posts que escrevo têm sempre muita prosa, e meteu-se o Congresso PS de permeio, não me sobrou vagar para relatar este evento quase clandestino, porque foi muito pouco divulgado.
A Conferência teve lugar no ISCTE, foi patrocinada por João Arsénio Nunes, professor daquela escola, e integrada nas cadeiras que ministra, e pelo site ODiario.info, em que um dos co-editores é Miguel Urbano Rodrigues, que esteve presente na mesa. O orador foi o historiador e filósofo marxista italiano Domenico Losurdo, professor na Universidade de Urbino. Com obra vasta publicada em Itália e quase toda ela traduzida no Brasil (no final apresentarei uma curta bio-bibliografia) e noutros países.
Pelo nome dos organizadores penso que os meus leitores já perceberam que estávamos perante uma realização bastante próxima do PCP. João Arsénio Nunes, meu amigo de longa data e que me convidou para estar presente, é um dos poucos historiadores que permanece filiado naquele partido. Quanto ao site em questão, tendo provavelmente vida própria, não difere muito das intervenções patrocinadas pelo PCP.
Com este pano de fundo, muitos se interrogarão se valerá a pena assistir a este tipo de conferências, onde a ortodoxia dominante no nosso PCP tornaria manifestamente impossível qualquer interrogação que fugisse ao discurso que predomina naquele partido. A verdade é que muitas das intervenções de alguns, não direi de todos, dos teóricos que ainda restam no movimento comunista internacional, muitos deles professores universitários, com obra de vulto, têm uma outra abertura e compreensão da realidade do que foi o “campo socialista”, visto participarem activamente na discussão destes temas nos seus países, que está longe de se reduzir aos chavões e palavras de ordem produzidos pelo nosso PCP. Mesmo neste campo, do aprofundamento do marxismo, da discussão teórica e da investigação histórica, o nosso atraso é manifesto.
Dito isto, concluo que foi proveitoso assistir a esta comunicação, cujo tema era “O movimento comunista no século XX”.
O que disse o autor. Começou primeiro por um preâmbulo que eu subscrevo por inteiro e que é o seguinte (a tradução da comunicação está transcrita em ODiario.info): “Como resumir o balanço histórico do movimento comunista no século que passou? Hoje em dia, o discurso acerca da sua “falência” é tão pouco discutido que não chega a suscitar objecções, nem mesmo na esquerda. A ideologia e a historiografia actualmente dominantes parecem querer compendiar o balanço de um século dramático numa historieta edificante, que pode resumir-se deste modo: no princípio do século XX, uma rapariga fascinante e virtuosa, a menina Democracia, foi agredida, primeiro por um bruto, o senhor Comunismo, a seguir por outro, o senhor Nazi-Fascismo; aproveitando as contradições entre eles e através de peripécias complexas, a jovem consegue por fim libertar-se da terrível ameaça; tornando-se entretanto mais madura mas sem nada perder do seu fascínio, a menina Democracia consegue coroar o seu sonho de amor pelo casamento com o senhor Capitalismo; rodeado pelo respeito e a admiração gerais, o feliz e inseparável casal gosta de levar a vida principalmente entre Washington e Nova Iorque, entre a Casa Branca e Wall Street. Assim sendo, não há mais lugar a dúvidas: é evidente e inglória a falência do comunismo.”
Esta historieta, tirando o “casamento como senhor capitalismo”, pode ser subscrita por todos os historiadores conservadores, liberais e até por algumas boas almas que povoam a nossa Internet, e assenta fundamentalmente na luta da democracia contra os totalitarismos, de esquerda ou de direita, e tem no pacto germano-soviético a expressão máxima da união entre aquelas duas doutrinas totalitárias e que é um dos pilares em que assenta a historiografia do Século XX.
Depois a comunicação, fugindo bastante àquilo que nos é proposto no título, passa a explanar as três grandes descriminações (racial, censitária e sexual) que ainda nas vésperas de Outubro de 1917 (Revolução de Outubro) desvirtuavam a democracia e que se mantiveram por bastantes anos, até quase aos nossos dias. Um exemplo é a descriminação racial existente nos Estados Unidos da América. Foi igualmente referida a ligação que houve entre a descriminação racial nos Estados Unidos e os teóricos do racismo anti-semita do Terceiro Reich.
Outra descriminação era o voto censitário, ou seja, só podiam votar aqueles que tinham um determinado rendimento, e até muito recentemente as mulheres também estavam arredadas das eleições.
O autor defende depois o ponto de vista de que foi a Revolução de Outubro, o aparecimento da União Soviética e do movimento comunista internacional que influenciaram decisivamente o progressivo desaparecimento das três descriminações referidas.
O desaparecimento daquele país e o enfraquecimento do movimento comunista está a influenciar um retorno ou a restauração daquelas descriminações e, na sequência dessa afirmação, são dados alguns exemplos recentes.
A terminar o autor descreve a complexa dialéctica que resultou da interacção entre os dois sistemas que co-existiram e que, do meu ponto de vista, serve para caracterizar a situação actual.
A partir de Outubro de 1917 desenvolveu-se uma dialéctica complexa e contraditória. O sistema capitalista, reforçado pela absorção de elementos derivados da bagagem ideal e política do movimento comunista e da própria realidade do socialismo real, soube depois exercitar por sua vez uma atracção irresistível sobre a população dos países caracterizados por um socialismo que, desde o início, traz impressos na face os sinais da guerra desencadeada e imposta pelo Ocidente, e que depois se torna cada vez mais ossificado e esclerótico até se tornar a caricatura de si próprio. Quer dizer, os regimes nascidos na onda da revolução bolchevique não souberam confrontar-se concretamente com o Ocidente que eles próprios tinham contribuído para modificar em profundidade. Em última análise venceu o sistema político-social que melhor soube responder ao desafio lançado ou objectivamente constituído pelo sistema oposto e concorrente. E foi assim que, também neste caso, a inicial vitória parcial conseguida pelo movimento operário e comunista, com a capacidade demonstrada de desenvolver a sua eficácia histórica concreta também no campo adversário, se transformou numa derrota de alcance estratégico.”
Eu diria que se a Revolução de Outubro forçou a longo prazo a introdução de uma democracia plena no sistema capitalista o inverso não se verificou e quando isso aconteceu ou foi reprimida ou então abalou definitivamente o sistema. Esta última faceta não foi desenvolvida pelo autor e seria interessante que o fosse.
Como se pode ver pela leitura daquele último parágrafo, e para os mais interessados recomendo a consulta de todo o texto e de uma outra conferência que aquele foi fazer no dia seguinte a Coimbra (ver aqui), as suas reflexões, sendo críticas em relação à ideologia dominante e mesmo para aquela acantonada à social-democracia e que no nosso país tem algum reflexo no Bloco de Esquerda, não me parecem que sejam representativas do actual pensamento do PCP. O mais que podemos dizer é que são estes os ideólogos que, a nível internacional, mais próximo estão daquele partido e menos se sentem incomodados com a sua presença.

Para terminar e num apontamento muito pessoal, um dos temas abordados por Losurdo foi o dos Untermenschen, o termo com os alemães classificavam os judeus, que era a tradução naquela língua do termo, Under Man, dos ideólogos racistas americanos, quando estes se referiam aos negros. A tradução portuguesa poderia ser sub-homem. Pois eu senti-me assim naquela conferência. Depois de anos de convívio com alguns membros do sector intelectual do PCP de Lisboa, e que eu conhecia bem, acharam naquela sessão que eu era um ser inexistente e por isso nem para mim olharam, nem esboçaram um simples cumprimento. Para certos militantes do PCP, aqueles que alguma vez deixaram de ser do seu partido, passam a ser como Untermenschen.

Pequena biografia e bibliografia de Domenico Losurdo

Nascido em 1941 nos arredores de Bari, é actualmente Professor catedrático da Universidade de Urbino e Presidente da Sociedade Internacional Hegel-Marx.
Um dos principais campos de investigação de Domenico Losurdo situa-se na reconstrução da história política da filosofia clássica alemã, de Kant a Marx, tendo ainda dedicado ensaios a Nietzsche e Heidegger.
Mais recentemente dedicou-se a uma leitura crítica da tradição liberal e das origens ideológicas do fascismo e do nazismo, na sua relação com as tradições coloniais e imperialistas.
A mais recente das suas obras, Stalin. Storia e critica di una leggenda nera, suscitou intenso debate e o comentário elogioso, entre outros, de Gianni Vatimo: “Graças aos documentos e citações presentes no livro conseguimos entender como Stalin foi sobrevalorizado por muitíssimos estadistas, como Churchill e De Gasperi e filósofos como B. Croce, que sempre olharam Stalin com respeito, simpatia e mesmo admiração”

(biografia elaborada por João Arsénio Nunes - JAN - e que acompanhava o convite).

Bibliografia. Obras recentes
  • Hegel, Marx e la tradizione liberale. Roma, Editori Riuniti, 1988. (Hegel, Marx e a Tradição Liberal. Liberdade, Igualdade, Estado. Editora Unesp, 1998).

  • Democrazia o bonapartismo. Trionfo e decadenza del suffragio universale. Torino, Bollati Boringhieri, 1993 (Democracia e Bonapartismo. Triunfo e Decadência do Sufrágio Universal. Editora UNESP, 2004).

  • Il Revisionismo Storico. Problemi e Miti. Laterza, Roma-Bari, 1999.

  • Hegel e la Germania. Filosofia e questione nazionale tra rivoluzione e reazione. Milano, Guerini-Istituto Italiano per gli Studi Filosofici, 1997.

  • Democrazia o bonapartismo. Trionfo e decadenza del suffragio universale. Torino, Bollati Boringhieri, 1993. (Democracia e Bonapartismo. Triunfo e Decadência do Sufrágio Universal. Editora UNESP, 2004).

  • Antonio Gramsci, dal Liberalismo al "Comunismo Critico". Roma, Gamberetti, 1997. (Antonio Gramsci: do Liberalismo ao “Comunismo Crítico”. Editora Revan, 2006).

  • Fuga dalla storia? Il movimento comunista tra autocritica e autofobia. La Città del Sole, Napoli, 1999. (Fuga da História? A Revolução Russa e a Revolução Chinesa Vistas de Hoje. Editora Revan, Rio de Janeiro, 2004 - edição ampliada em relação à italiana).

  • Ipocondria dell’impolitico. La critica di Hegel ieri e oggi. Milella, Lecce, 2001.

  • Nietzsche, il ribelle aristocratico. Biografia intellettuale e bilancio critico. Bollati Boringhieri, Torino, 2002.

  • Controstoria del liberalismo. Laterza, Roma-Bari, 2005. (Contra-História do Liberalismo. Idéias & Letras, Aparecida, 2006).

  • Liberalismo. Entre Civilização e Barbárie. Editora Anita Garibaldi, 2006.

  • Il linguaggio dell'Impero. Lessico dell'ideologia americana. Laterza, Roma-Bari 2007.

  • Stalin. Storia e critica di una leggenda nera. Carocci Editore, Roma, 2008.

(Bibliografia elaborada por mim, com base na de JAN. Entre parêntesis as edições brasileiras. Para a bibliografia completa ver).

03/03/2009

A única Orquestra Sinfónica da RDC de Kinshasa


Le seul Orchestre Symphonique de RDC à Kinshasa
Enviado por pollux91
Este pequeno vídeo já há tempos que corria na net. No entanto, apesar de provavelmente todos o conhecerem, parece ser suficientemente interessante para ser mostrado. Mesmo nas condições mais difíceis o espírito humano sempre consegue vencer.

Pobre debate político

Sócrates sem tento na língua


Chegou-me recentemente uma lista completa dos diversos sites que o Bloco de Esquerda tem espalhados na net, todos eles com diversas funções e alcances. Neste, no My Space, dedica-se a pequenos vídeos gozando com as incongruências de Sócrates e do actual Governo. Vejam este que tem graça.

02/03/2009

“A Campanha Negra”. Congresso do PS – Parte II


Podem alguns vir dizer que “não se deve gastar cera com tão ruim defunto”, ou seja, que o Congresso do PS não vale dois posts seguidos. No entanto, acho que se deve dizer mais qualquer coisa, pois este Congresso entronizou “a campanha negra” contra o seu Secretário-geral e o partido que dirige.
Sócrates e os seus apaniguados já há muito tinham lançado o mote contra “a campanha negra” de que ele e o PS estavam a ser vítimas. Mas foi neste Congresso que se tornou doutrina oficial. A partir de agora há dois tipos de portugueses, aqueles que acreditam na “campanha negra” e os que duvidam.
Mas o mais espantoso é que todos os membros do PS, mesmo quando vestem a pele de comentadores “independentes”, quer António Vitorino, nas Notas Soltas, quer António Costa, na Quadratura do Círculo, assumem em uníssono esse desiderato. As palavras podem ser diferentes, mas no fundo defendem sempre o mesmo: há uma “campanha negra” contra Sócrates e o PS. Santos Silva vai mesmo mais longe, quem a puser em causa está já colaborar com essa campanha.
Neste Congresso “a campanha negra” adquiriu uma forma mais elaborada. Passou a ter o rosto de um director de jornal e de uma televisão. Logo vozes pressurosas se apressaram a descodificar qual era o jornal, o Público, e a televisão, a TVI. Depois era uma carta anónima que ajudava à festa. Com tão pouco, “a campanha negra” não ia longe, mas foi o suficiente para que todos à porfia se esfalfassem para agradar ao chefe e garantir que havia uma campanha.
O PS já é useiro e vezeiro em campanhas negras e cabalas. No caso de Casa Pia estava montada uma cabala para atacar o Paulo Pedroso e o Ferro Rodrigues. Aí, mesmo assim, havia mais probabilidades de acertarem, mas no entanto a direcção daquele partido teve o bom senso de parar com a vitimização, abandonando, e bem, a tese da cabala.
Quanto se fala de “campanha negra”, vem novamente ao de cimo a tese da vitimização que, segundo alguns, poderá render alguns votos, mas principalmente poderá fazer a ponte para aquilo que segundo Marcelo Rebelo de Sousa irá acontecer, ou seja, rapidamente a Procuradoria vai dar por encerrado este caso, provando por A mais B que Sócrates não é suspeito, nem nunca foi. Provavelmente só restarão corruptores e não corrompidos e por isso encerra-se a investigação.
Toda esta prosa, que relata o óbvio, pretende unicamente chamar a atenção para aquilo que mais me confrange em toda esta história que é tornar-se doutrina oficial uma boutade que, em momento mais infeliz, se deixa escapar contra acusações que, segundo o visado, podem parecer injustas. Nesse sentido, só tendo uma clara noção de que vai tudo acabar em “águas de bacalhau” e que Sócrates poderá mais uma vez emergir da adversidade como um vencedor é que se transforma um caso de justiça numa “campanha negra”.

Tudo o mais que se diga do Congresso é inútil, a imprensa os blogs já fizeram o relato completo. Quanto à escolha de Vital Moreira para candidato ao Parlamento Europeu, tenho as minhas dúvidas quanto à sua eficácia. Escolher ex-comunistas para roubar votos aos comunistas já se revelou, no passado, um disparate, principalmente quando o seu afastamento em relação ao PCP é de 180 º. Em relação ao Bloco, parece-me outro disparate, pois naquele partido ninguém se revê na prosa e no discurso apparatchik daquele intelectual, sempre pronto, do ponto de vista ideológico, a justificar os disparates mais irrelevantes de José Sócrates e do seu Governo. Não é pessoa por quem se tenha qualquer admiração intelectual e quem o afirma é que está a fazer figas por trás, pois Vital Moreira é o exemplo, devido aos seus artigos, do chico-esperto que já em tempos acusei alguns do porta-vozes do PS. Para a direita, por outro lado, tem suficientes anti-corpos de esquerda que não justificam que se gaste cera com tão ruim defunto. E acabo assim como comecei.

“Partido oportunista, que parasita a desgraça alheia”. O Congresso do PS – Parte I


Foi com esta acusação forte que António Costa se referiu ao Bloco de Esquerda no Congresso do Partido Socialista. Estava dado o mote, o Bloco seria naquele Congresso o bombo de festa, e não fui só eu que notei, todos os comentadores se referiram a isso.
Mas, acrescentemos alguns pormenores. No noticiário da noite de Sábado da SIC, Ricardo Costa, irmão de António Costa, dá conta deste assunto da seguinte maneira: “comecemos por recordar aquela que é sem dúvida a polémica política do momento, a picardia violenta entre o Bloco de Esquerda e o Partido Socialista”. Estranha forma de relatar uma “picardia”, empregando o sua expressão, que tinha sido começada, sem aviso prévio, por António Costa, do PS, no discurso que tinha pronunciado de manhã no Congresso e não pelo BE. A resposta dada à hora de almoço por António Louçã, na comemoração do décimo aniversário do seu partido, esteve à altura: “tanta raiva, e tanto insulto grotesco, porque eu pergunto ao país, quem são os parasitas? …”, já se imagina quem eles são. À noite António Costa reage (não tenho link para estas declarações) em entrevista a uma TV: “caiu a máscara ao BE, afinal revelou-se como ele é”. Não se percebe depois dos mimos da manhã de António Costa qual deveria ser a resposta do Bloco, diria que estava de acordo e que para a próxima iria portar-se melhor. Como não foi esta, afirma-se que lhe caiu a máscara. Quem me parece que ficou completamente desmascarado foi António Costa, que se portou como José Lello, porque depois do que disse, nunca mais pode vir para a Câmara de Lisboa reclamar pela unidade de esquerda.
O mais espantoso na intervenção de António Costa foi as razões que ele invocou para a ruptura do acordo com o BE. Segundo o Presidente da Câmara, o acordo com o Bloco de Esquerda foi escrupulosamente cumprido por ele, coisa que “eles”, BE, “nem sequer contestam”, mas estes ao verem reforçadas as competências de José Sá Fernandes, eleito como independente nas suas listas, “como são alérgicos a assumir qualquer responsabilidade governativa”, resolveram romper o acordo. Completa mentirola. Primeiro, o BE nunca rompeu o acordo com o PS, mais, este assunto até foi objecto de votação na assembleia concelhia, e a posição de romper o acordo não foi aprovada. Segundo, a ruptura verificou-se com o seu vereador independente, que deixou de ter o apoio daquele partido por razões completamente diferentes. Pelas posições assumidas por Sá Fernandes numa série de dossiers, principalmente em relação aos contentores de Alcântara. Assim, pela voz de António Costa fica o Bloco a saber que este e o PS, consideram que o acordo deixou de valer, e que uma ruptura entre o Bloco e o seu vereador é interpretada por aquele como uma ruptura entre o BE e o PS.
Algumas consequências o BE tem que tirar deste caso. Acordos desta natureza têm que ser assumidos com menos ligeireza e ser mais bem estruturados, de modo a que não seja assacada ao Bloco as responsabilidades da ruptura de acordos com um partido, que como ficamos agora a saber, é pouco sério nestas trapalhadas.
Não foram só estas as referências ao Bloco, também o “inefável” José Lello, se pronunciou sobre aquele partido. Com a subtileza de um elefante, lá foi defendendo que o Bloco fazia purgas ao estilo estalinista ou trotskista (tem que se decidir por um deles). Ainda pensei que fosse a Joana Amaral Dias, mas não, era o José Sá Fernandes que, não sendo militante do Bloco, era assim purgado por este. Triste sina de quem tem militantes com esta subtileza.
Os comentários gerais a estes factos eram de que tinha sido um erro o PS neste Congresso ter erigido o BE como o seu principal inimigo. Hoje, Marcelo Rebelo de Sousa, no seu comentário semanal na RTP I, afirma que o ataque do PS nada tem a ver com o medo de perder eleitores para aquele partido (eu não estaria tão confiante como Marcelo) mas sim para apelar ao centro para que votem no PS e lhe dêem a maioria absoluta, porque senão terão o Bloco, que frequentemente foi acusado de partido radical e extremista, a dificultar a acção do Governo. Ou seja, a velha táctica anti-comunista, que tanto êxito teve nos tempos do PREC, ou o PS ou a extrema-esquerda.
Em próximos post irei falar mais deste Congresso.

27/02/2009

"Liquidacionistas" em Vila Real de Santo António


Durante a minha longa peroração sobre a Convenção do Bloco de Esquerda houve vários comentadores que resolveram intervir. Um denominava-se operário e outro, não sei se o mesmo,operário desempregado. Boa designação para atacar o doutor Fernandes, como fui chamado logo de início por um deles. Operário e ainda mais desempregado é um modo de puxar os galões nestas discussões à esquerda. Se se denominassem intelectuais provavelmente ninguém os levaria a sério, por isso nada como pertencerem à classe operária.
Por acaso, foi um intelectual do PCP, Carlos Aboim Inglês, já falecido, aquele que no Partido, onde militei tantos anos, mais combateu esta presunção de alguns, por serem operários e fazerem gala na sua ignorância, se poderem considerar superiores aos intelectuais. Aquele dirigente do PCP sempre considerou, e dele sempre retive isso, que os intelectuais que punham seus conhecimentos o seu saber ao serviço das forças progressistas eram indispensáveis à luta da classe operária e que esta não podia ignorar a importância daqueles, manifestando o seu preconceito contra o trabalho intelectual. As palavras são minhas, mas a ideia penso que a traduzi fielmente.
Por isso quando alguém neste blog se afirma operário, e invocando essa situação, se considera acima do comum dos mortais, e daqueles que a estes assuntos, da esquerda, têm dedicado o melhor do seu tempo, sempre relembro as palavras de Carlos Aboim Inglês.
Depois desta longa introdução, que visa responder genericamente a todos aqueles que, invocando a sua situação de operários, pretendiam criticar a minha prosa, vamos ao que me trás aqui hoje.
Abro o Avante e que descubro eu nas páginas centrais: Recomeçar do Princípio, Em Vila Real de Santo António, o PCP recupera de anos de orientações erradas e na legenda de uma fotografia Os comunistas de Vila Real de Santo António contaram como foi possível derrotar a linha liquidacionista que se apoderou da organização concelhia. Fiquei estarrecido. Primeiro, foi a afirmação, nada vulgar no Avante legal, que havia anteriormente orientações erradas. Que eu saiba, mesmo quando se afastavam camaradas nunca se dizia que eles eram protagonistas de orientações erradas. As orientações eram sempre justas, às vezes é que não se adaptavam à realidade. Mas vir acusar um grupo de comunistas como liquidacionistas, já não me lembrava deste tipo de denúncias desde o tempo em que os seguidores do dirigente do PC americano, Browder, queriam dissolver o seu partido numa organização mais vasta (1945). Ou então quando Estaline criticou, em 1948, Tito e os comunistas jugoslavos por quererem transformar o partido numa Liga, a dos Comunistas da Jugoslávia. Em Vila Real de Santo António a acusação era de que os anteriores dirigentes queriam dissolver o partido na CDU. Segundo o artigo, parece que são coisas diferentes.
Hoje este termo volta novamente ao Avante. Triste sina de um partido que não atina com o tempo histórico em que vive. Mal para ele e mal para nós que não podemos contar com a colaboração de gente séria e sacrificada, que tudo teria a ganhar se acertasse de vez com aquilo que hoje é importante em Portugal.

25/02/2009

ENTRE PORTUGAL E ESPANHA: A LUTA EM PROL DA MEMÓRIA HISTÓRICA



Debate Entre Portugal e Espanha: a luta em prol da memória histórica

Com a participação das historiadoras: Irene Pimentel e Joana Lopes
O debate terá lugar na Associação O Bacalhoeiro (R. dos Bacalhoeiros, 125, junto à Casa dos Bicos, em Lisboa), no dia 25 de Fevereiro, quarta-feira, às 22h.
Em torno do artigo «A luta em prol da memória republicana espanhola», de Jean Ortiz, publicado no número de Fevereiro do Le Monde diplomatique - edição portuguesa.
A entrada é livre. Participe!
(clicar para aumentar a imagem)

24/02/2009

Como um velho “communard” ainda incomoda cento e quarenta anos depois

Ao contrário do meu amigo Fernando Penim Redondo, do DOTeCOMe…o Blog, eu não considero este assunto encerrado e penso, apesar do ridículo da situação, que todo o barulho que se fizer à volta dele nunca será de mais, pois nestes últimos dias inesperadamente a mentalidade censória, com proibições e autos de apreensão, voltou a atacar.
Ao contrário do que afirmava um comentário ao meu post anterior, a verdade é que a censura explícita a actividades artísticas e literárias concretas só muito raramente é que actuou depois do 25 de Abril e em qualquer dos casos com alguns protestos públicos. Estou-me a lembrar do célebre filme Pato com laranja interrompido a meio da sua exibição na RTP 1 (1983), por pressão de alguns espectadores muito incomodados com umas maminhas que tinham aparecido, e a apreensão pela Judiciária do livro O Bispo de Beja, de Homem Pessoa, editado, em 1980, por Vítor Silva Tavares, das Edições & etc” (ver aqui uma interessante entrevista com o editor, que conta a história deste caso). É bom que não confundamos actos verdadeiramente censórios, com todos aqueles que diariamente nos obrigam a dobrar a língua, a nos rebaixarmos perante o patrão ou que impedem os jornalistas de publicarem nos media as suas livres opiniões. Porque são coisas diferentes e exigem respostas diferentes. Se misturamos tudo, às duas por três não somos capazes de nos indignar e protestar contra aquilo que comezinhamente chamamos censura.
Mas voltemos ao que interessa. No caso de Braga, que penso que já é do domínio público, três polícias apreenderam um livro que tinha na capa uma reprodução do célebre retrato de Gustave Courbet, A Origem do Mundo (1866), hoje exposto no Museu d’Orsay, em Paris e que retrata o sexo de uma mulher em posição que se pode considerar sensual. Tal como em Torres Vedras, em relação a um autocolante com um pesquisa no Google sobre “mulheres”, em que algumas apareciam despidas, que preenchia o ecrã de um computador Magalhães gigante, também em Braga houve cidadãos, neste último caso, segundo a PSP, mais do que um e que já provocavam “crescente agitação e levantar de ânimos”, que se indignaram com a exibição de um sexo de mulher.
Portanto, para mim, além de umas autoridades parvalhonas, sempre prontas a zelarem pela "inocência" dos seus menores, o problema é dos cidadãos daquelas cidades, provavelmente respeitáveis chefe de família, que no esconso de uma esquadra ou de um tribunal são capazes de denunciar os seus semelhantes por exibirem aquilo que aos seus olhos não passa de maldade humana, ou seja, o que sempre indignou as Igrejas, a exibição da nudez, principalmente a feminina.
Os polícias, como sempre, comportam-se com aquela ignorância que já caracterizava a PIDE, quando apreendia, por exemplo, A República, de Platão, convencida que estava perante uma obra de propaganda aos ideais republicanos. Mas isso há-de ser sempre apanágio das polícias, já não deverá ser tanto de uma magistrada, que antes de se decidir a intervir, deveria ir ver o que estava a proibir. Mas também isso deve resultar da fraca cultura que inculcam nas nossas faculdades aos jovens estudantes.
Não estranharia se por detrás destes indignados cidadãos, que ao contrário da maioria, são os que me provocam mais repulsa, não estivesse a mão da Igreja, ou pelo menos, não fossem seus fiéis seguidores. No caso do livro atrás referido, “O Bispo de Beja”, foi um padre que fez a denúncia.
Quanto a Gustave Courbet (1819-1877), que hoje já era classificado como belga pela Televisão Pública, foi um grande pintor realista francês, de meados do século XIX, tendo sido considerado como o iniciador daquela corrente artística. Com cerca de cinquenta anos como republicano e socialista apoiou a Comuna de Paris, a primeira insurreição proletária, que durou entre 18 de Março e 28 de Maio de 1871, tendo sido eleito para o Conselho da Comuna, que governou Paris enquanto aquela subsistiu. Depois da repressão que se abateu sobre os communards (apoiantes da Comuna), Courbet foi preso e passou seis meses encarcerado, tendo em 1873, por um processo que lhe puseram relacionado com a sua actividade como communard, abandonado a França e indo morrer no exílio na Suíça. Hoje, quando um quadro seu é considerado por cidadãos obtusos e polícias estúpidos uma obra pornográfica, lembro aqui o intelectual comprometido como seu tempo e que sacrificou o descanso e a glória dos seus últimos anos pela verticalidade na acção.
Já estava este post publicado, quando começaram a chegar notícias com mais pormenores sobre o tinha acontecido em Braga.
Falava-se que a polícia interveio “para evitar desacatos”. Estes teriam sido provocados por crianças que repararam na capa do livro e chamaram mais para ver. As mães e os pais, em função da agitação dos filhos, foram também dar uma olhadela e todos juntos começaram a indignar-se com o conteúdo da capa, ameaçando “tomar medidas”. A ser verdade esta história, tudo isto cheira a histeria colectiva e de uns pais e umas mães que, não concordando, foram incapazes de levarem dali os filhos ou então, muito simplesmente, de dizerem que aquilo era parecido com o “pipi” delas. As criancinhas não foram o problema, foram os pais que, em nome delas quiseram dar asas à sua mentalidade retrógrada. Por isso, como tenho afirmado desde o princípio o problema não são só as polícias, mas sim os cidadãos que dão azo à sua veia delatora e persecutória.
Espantosamente a TVI dava a notícia destes factos afirmando que Courbet era um pintor renascentista. Será que naquela casa não haverá ninguém que antes de um noticiário consulte uma enciclopédia, nem que seja a wikipedia?

O cimento ideológico que continua a chocar o ovo da serpente

Nada tenho contra o blog a Terceira Noite, de Rui Bebiano. Encontro sempre nele algum motivo de reflexão ou de ensinamento. No entanto, há certas afirmações que não compreendo ou que considero injustas.
Assim, um post dedicado ao julgamento de mais um criminoso do regime Khmer Vermelho, que governou o Cambodja entre 1975 e 1979, termina assim: “de vez em quando aponta-se o dedo aos criminosos, nomeados um a um sempre que morrem de velhice ou são presentes a tribunal, mas deixa-se em paz o cimento ideológico, de recorte apocalíptico e supostamente redentor, edificador de humanidades «novas» sem alma, que deu coerência a uma doutrina transformada em arma de agressão e de terror. Esse continua a chocar o ovo da serpente.
Nesta prosa não se percebe se há hoje algum partido político ou corrente ideológica que se reivindique daquele regime e que por esse motivo continue “a chocar o ovo da serpente”. Ou se os que se propõem “edificar humanidades “novas”” querem instituir regimes semelhantes aos do Cambodja.
Penso que este é um debate que transcende em muito as preocupações em relação àquele regime e que se insere numa discussão mais vasta: se é possível propor outra sociedade como, por exemplo, propõem os altermundistas. Ou se podemos transformar a actual noutra bem diferente e melhor. Eu temo que a resposta de Rui Bebiano seja não.
Mas não é esta a discussão que me interessa neste momento. Já que estou a falar com um historiador, convém recordar algumas realidades a propósito deste desgraçado caso do Cambodja. Primeiro quem derrotou e libertou o povo cambodjano dos seus criminosos dirigentes foi o regime “socialista” do Vietname, ajudado por forças políticas cambodjanas. Segundo, foi o mundo ocidental, capitaneado pelos americanos, e a China que continuaram a reconhecer o Kampuchea Democrático (era assim que o país era denominado) e a apoiar o partido dos Khamer Vermelhos e os seus dirigentes, já que estes eram aliados da China de Mao e combatiam os vietnamitas, apoiados por Moscovo. A história é triste e é daquelas que as democracias ocidentais esqueceram facilmente. Mas há mais e este facto tem ficado na sombra.
Em Portugal foi criada uma Associação de Amizade entre o regime derrubado e o nosso país, associação essa dirigida por um democrata respeitável, chamado Vasco da Gama Fernandes, que o mínimo que posso dizer é que nem saberia, com a idade que tinha, onde é que aquele país se situava. Esta associação foi promovida principalmente por um partido político maoista, que no campo da provocação anti-comunista teve algum relevo, que era a AOC, que garantia que “cada voto na AOC era uma espinha cravada na garganta do Cunhal”. Esta AOC era dirigida pelo Eduíno Vilar, antigo estudante do Técnico, que mais tarde se filiou no PSD e tentou concorrer, sem êxito, a qualquer prebenda oferecida por aquele partido.
São tudo histórias tristes, mas que não nos permitem com tanta simplicidade distinguir os bons dos maus, e quem é que alimentou ou alimenta o ovo da serpente.
Tinha acabado de colocar este post quando volto à Terceira Noite e não é que o nome que Rui Bebiano dá ao seu mais recente post é Três tristes talibans passeiam-se por Braga. Porque é que se havia de nomear os talibans, que para aqui não são chamados, e não se poderia escrever Três tristes reverendos, ainda com o cheiro da Inquisição nas vestes, passeiam-se por Braga. Será que se os deixassem seriam melhores?
Este episódio refere-se a uma preocupante acção censória que esta semana tem estado a atacar a população portuguesa. Depois de Torres Vedras, a vítima agora foi um livreiro que tinha exposto um livro de pintura que reproduzia na capa o célebre quadro de Courbet, “A origem do Mundo”, com o desenho do sexo de uma mulher, que ainda há bem pouco tempo apareceu reproduzido no Público, penso que na P2

22/02/2009

Sempre a mão escondida da Igreja


Já fui ver a Exposição patente na Fundação Calouste Gulbenkian e que tem como título a evolução de Darwin.
Como sabem, passam este ano 200 anos sobre o nascimento daquele naturalista e 150, sobre a publicação da sua principal obra A Origem das Espécies. Sobre este assunto já tinha falado neste blog, a propósito do discurso de encerramento de Francisco Louçã na VI Convenção do Bloco de Esquerda.
Gostaria unicamente de vos recomendar uma visita à exposição. Penso que esta deve ser percorrida num dia de semana, excepto à segunda-feira, que está fechada, pois aos fins-de-semana é uma tal multidão, que torna improdutiva qualquer tentativa de usufruir culturalmente o seu conteúdo. Se possível aproveitem as visitas guiadas.
Recomendo-vos igualmente que comprem o catálogo da exposição, que, por 13,50 €, oferece uma encadernação cuidada, cheia de fotografias e de informação sobre tudo o que está exposto.
Dois ou três apontamentos interessantes. Primeiro, Darwin enjoava no mar e a sua investigação foi feita essencialmente com os dados que recolheu ao logo de uma viagem de barco que realizou à volta do mundo durante cinco anos. Quando chegou a Inglaterra nunca mais dela saiu, tal foi a repulsa que o mar lhe meteu. Segundo, viajar naquele tempo não é o mesmo do que é hoje navegar em navios cruzeiro. A cabine que lhe servia de alojamento era tão pequena que para poder estender as pernas na rede, que montava todas as noites para dormir, tinha que remover uma gaveta.
No entanto, das suas observações científicas resultou uma teoria coerente e que ainda hoje permite explicar a evolução natural e a origem das diferentes espécies. A sua base assenta na selecção natural, ou seja, na sobrevivência daquelas espécies que melhor se adaptam ao meio onde vivem.
No entanto, qual é a relação do título deste post com esta exposição. É evidente, que à primeira vista tem tudo a ver, pois foi a teoria de Darwin que pôs definitivamente em causa a teoria fixista da origem das espécies que vinha descrita na Bíblia. Mas isso é do conhecimento geral. Apesar de ainda hoje, na América e com apoio das forças mais conservadoras religiosas a nível internacional, o criacionismo, ou seja, a visão literal da Bíblia como explicação para a origem das espécies, forçar e em alguns casos impor o ensino nas escolas da teoria da evolução, que é uma teoria científica, ao lado do criacionismo, ou como os seus defensores gostam de lhe chamar desígnio inteligente, que é uma interpretação religiosa.
Mas o que mais impressionou foi uma pequena história que é contada na exposição a propósito de Mendel, que era monge na Abadia de Brunn, situada na actual República Checa, e que foi o pai da genética. Mendel que viveu entre 1822-1884, passou a vida estudar como se distribuíam nas descendências seguintes as características dos pais, ou seja as leis da hereditariedade, que diga-se de passagem só foram redescobertas depois da sua morte, por volta do ano 1900. O seu material de estudo foi a ervilheira-comum e a cor das flores e a forma das sementes. Mas o seu trabalho começou com o estudo da “reprodução em roedores, mas o assunto foi rapidamente proibido pela arquidiocese, na sequência dos comentários do bispo sobre a inconveniência de monges se dedicarem à observação do acasalamento de ratos” (do Catálogo da Exposição). Por isso o “pobre” Mendel teve que se virar para as ervilhas, que de certeza não despertariam a concupiscência daqueles monges que poderiam ficar entusiasmados pela cópula entre dois ratos.
Isto parece-nos extremamente ridículo. Mas quando ainda hoje a Igreja Católica combate o preservativo e defende a castidade dos noivos e outros desvarios, só poderemos continuar a afirmar que longo tem que ser o combate para aniquilar esta influência castradora da Religião, qualquer que seja, que limita e controla a liberdade humana e o seu desejo de felicidade.

18/02/2009

Os meios de informação que temos




Uma arreliante lombalgia, coisa de que já falei num post lá muito para trás, prendeu-me à cama durante uns dias. Dirão uns que óptima oportunidade para escrever. Comigo isso não funciona. Escrever na cama, utilizando o computador, é impossível, e sentar-me numa cadeira torna-se doloroso.
Por isso, o objectivo que me propus de fazer uma apreciação das críticas que foram feitas à Convenção do Bloco de Esquerda foram por água abaixo, por perda de oportunidade. Resta-me pois fazer algumas críticas a um semanário que tratou daquela Convenção e sobre outros media que relataram acontecimentos recentes.

Referência do Expresso à Convenção do Bloco de Esquerda (impossível de obter os links)

É possível que no Sábado anterior tivesse havido algum palpite sobre aquela Convenção. No número que saiu esta semana, no dia 14, com a Convenção já terminada, as notícias que vêm no Expresso são estas A Joana já não mora aqui. Vídeo com a história do Bloco reduz Joana Amaral Dias a três segundos. E depois numa rubrica que pretende ter graça, Gente e a Esquerda Photoshop. Do passeio do Volga à convenção do Areeiro, onde se mostram duas fotografias de Estaline (ver iamagens do post), uma juntamente com um comissário político e outra em que este foi apagado, depois de ter sido assassinado pelo ditador. Se este assunto não fosse demasiado sério, dir-se-ia que era uma brincadeira de mau gosto. Mas não, é a tentativa da direita de menosprezar uma Convenção que pode merecer críticas, mas onde só por delírio de imaginação provocatória se pode falar em apagamento de personagens.
É por estas e por outras que venho falando na direita boçal, que requinta quando utiliza estes métodos.
Até um insuspeito Ferreira Fernandes tem no Diário de Notícias um artigo de opinião em que afirma Mas Joana Amaral Dias Foi Apagada De Quê?

A vitória do Sim na Venezuela vista por dois telejornais

Parece que foi o Pacheco Pereira (PP) que teria dito que o noticiário da 1h00 da tarde da RTP I era aquele que fazia mais fretes ao Governo. Isto serviu para alguém comentar com malícia que ele era o único que via aquele telejornal. Já se sabe que é ele e todos os reformados que à uma 1h00 da tarde estão a almoçar em casa. Eu sou um deles.
É provável que PP tenha razão, mas presumivelmente discordará daquilo que a seguir vou dizer.
Assim, no dia 16, depois de já se conhecerem os resultados do referendo na Venezuela, que deram a vitória ao sim, por 54% dos votos, tivemos direito, no noticiário da 1h00, após a audição de um discurso de Chavez, pouco curial para a oposição, a esta pérola: “A forte pressão sobre os eleitores e alguma intimidação não impediram a forte abstenção de 30% e de 45% de votos não” (ver aqui). Não havia razões para aquelas afirmações, pois nada se mostrou, que garantisse que tinha havido pressões e até intimidações, mas o locutor, em off, acrescentou isso. E falou numa grande abstenção, quando 30% é perfeitamente normal em qualquer país democrático. Depois, consultados os resultados, temos uma clara noção que a sociedade venezuelana está dividida, com uma preferência por um dos lados, nesta caso por Chavez. Estamos longe das chamadas votações norte-coreanas, com 99% de apoio.
No Telejornal da 20h00, desse mesmo dia, nada disto se verificou. Uma notícia anódina, em que o próprio discurso do Chavez se resumia a este ter gritado que o Sim ganhou (ver aqui ).
Que interpretação dar a isto. Primeiro o Norte, de onde é emitido o jornal da 1h00 da tarde, está mais controlado pelo poder, para justificar as críticas de PP. Segundo, que há gente mais reaccionária na direcção de informação do Norte, incapaz de perceber que provavelmente Sócrates não quer que tratem mal o seu amigo Chavez. Mas isto é pura especulação. Não tenho dúvidas é que a direcção de informação do Norte segue a regra da imprensa internacional dominada pelos interesse dos Estados Unidos. Chavez é sempre para tratar abaixo de cão.
Para mais algumas informações extra, a pequena notícia de Vermelho, o jornal do PCdeB.

A Grande Guerra pela Civilização

Como sempre acontece quando tenho que ficar retido na cama, pus-me a ler. Comecei por esse espantoso livro de Robert Fisk, A Grande Guerra pela Civilização, a Conquista do Médio Oriente (Edições 70, 2008). Irei de certeza falar dele quando o tiver lido na totalidade. São 1149 páginas de letra miudinha.
No entanto, porque estamos a falar de estereótipos, de como a imprensa ocidental, favorável aos interesses americanos, fala de certas personagens, neste caso de Chavez, mas poderiam dar-se milhentos exemplos, vale a pena ler este livro e o constante desmascarar de tudo aquilo que nos é vendido, como sendo a verdade.
Para aqueles que leram o livro, ainda só vou na parte referente ao genocídio Arménio, que é das coisas mais abjectas do século passado. Mas ao contrário dos alemães, que assumem o seu Holocausto, a verdade é que os turcos nunca o fizeram e ainda hoje continuam a negar que ele tivesse existido. Depois de ler isto percebe-se porque é que em França é proibido negar aquele genocídio. Apesar dos franceses também terem algumas culpas no cartório.
O caso mais espantoso é durante a guerra Irão-Iraque, quando os americanos, que estavam declaradamente a favor do Iraque, abateram um avião civil iraniano, de transporte de passageiros, sobre o Golfo Pérsico, e tentaram culpar os iranianos com a cumplicidade dos media ocidentais, inclusive o texto que este autor escreveu para o jornal The Times, de que era na altura correspondente, foi censurado.
Depois de ler Robert Frisk, não há boas almas que me convençam das intenções sérias e honestas das verdades da imprensa ocidental, dita democrática e imparcial. Mas isto ficará para outra discussão.
É bom que se diga que Robert Frisk não é de esquerda, muito menos comunista. É unicamente um jornalista sério.

12/02/2009

Sob o signo de Darwin


Francisco Louçã, na sua intervenção final na VI Convenção do Bloco de Esquerda, resolveu invocar Darwin, no ano em que se comemora os 150 anos da publicação da Origem das Espécies e os 200 anos do seu nascimento. Começou por nos relatar um episódio das discussões que se travaram na época sobre a teoria da evolução e acabou com as palavras finais do livro mais famosos daquele cientista.
Darwin continua a ser hoje uma fonte de inspiração e de grandeza científica, alicerçada fundamentalmente na observação minuciosa da natureza. Já Marx, contemporâneo da publicação daquela obra, lhe teceu elogios e fez comparações com os seus estudos sobre a evolução da sociedade. Por isso, foi uma boa inspiração para o seu discurso.
A intervenção de Louçã dividiu-se em quatro partes. A primeira, uma caracterização económica da situação, a segunda, seis propostas concretas, a terceira, como devemos fazer e a quarta, na sequência da anterior, como se iriam apresentar às eleições.
Depois de apresentar os números do Governo chega à conclusão que o país está pior. A crise do país é a crise da sua classe dominante e que a ganância, que alguns dizem que é a única coisa que é preciso combater, é o capitalismo em acção, é a acumulação capitalista. Estas palavras estão em contradição com aqueles que afirmam que as propostas de Louçã depositam “toda a confiança no crescimento económico do capitalismo” e “são contra o capitalismo selvagem e neoliberal”, defendendo que aquele seja “regulado pelo Estado para pôr na ordem os capitalistas gananciosos. Não haverá nada de novo para dizer nestes tempos além da nostalgia do estafado keynesianismo?” (de um e-mail que recebi). Parece-me que sobre isto há muitas ideias feitas.
Depois gostaria de sublinhar algumas afirmações que já fizeram curso na informação e que podem servir como palavras de ordem: “se foram ao casino que paguem o casino. Nós não pagamos”. Como este slogan nos lembra outros, muito mais recuados no tempo.
Mas há mais: “a elite do PSD arrombou o banco e a maioria do PS paga a conta”. “A ganância é o nome próprio do capitalismo” e “isto é o mercado a funcionar”, reafirmando a posição anti-capitalista que já se tinha sublinhado anteriormente.
Depois, as seis propostas económicas e sociais para de imediato estancar a crise e melhorar a vida dos trabalhadores:
- Criar um serviço público bancário.
- Impedir que as empresas que recebam subsídios não entreguem dividendos aos accionistas.
- Proibir os despedimentos em empresas que têm resultados.
- Melhorar o nível de vida das pessoas, aumentando o salário mínimo para 600 € e as pensões, que se devem aproximar deste.
- Revogar o código de trabalho, principalmente a medida do banco de horas, caminhando para a redução do horário do trabalho que se deve aproximar das 35 horas semanais e com mais direitos.
- Taxar as grandes fortunas com impostos.
Qualquer destas medidas se poderia incluir num programa reformista. No entanto, são medidas concretas, que podem servir de bandeira de luta e cuja aplicação já provocaria grandes embaraços ao capitalismo dominante.
A terceira parte foi a dedicada a “como devemos fazê-lo”, ou seja, que instrumentos políticos temos para actuar. E aqui reside a parte mais controversa da sua intervenção e de toda a estratégia do Bloco. Mas sobre as críticas falarei mais adiante ou noutro post.
Louçã defendeu a convergência das esquerdas e uma esquerda grande e que esta será “anti-capitalista, porque só pode ser socialista”. Aqui, do ponto de vista ideológico, não dá razão àqueles que acusam o Bloco de ser social-democrata. Hoje a social-democracia, não é anti-capitalista, nem defende o socialismo. Por isso debaixo desta bandeira é possível agregar muitas forças que se reconhecem nesta formulação.
Aonde vai Louçã buscar a força social para apoiar esta esquerda grande, ou seja, em que bloco histórico se apoia, e aí enumera algumas camadas em situação de grande dificuldade económica, considerando-as os representantes dos mais explorados e defendendo pois uma aliança do trabalho.
Segue-se, como conseguir politicamente essa esquerda grande. Não tem “nenhuma pressa”. Considera que “as políticas dos arranjos degradam sempre a política”. Aqui está de certeza a referir-se a todos aqueles que achavam que era possível já fazer um partido com Manuel Alegre e juntar bloquistas e alegristas para as eleições que se avizinham. No entanto, em reposta às críticas que o PCP lançou ao Bloco no seu Congresso afirma: “não houve nesta Convenção uma palavra de sectarismo contra as outras esquerdas”. E termina esta parte dizendo “queremos agora juntar forças” e para aqueles que consideram que em relação ao Trindade e à Aula Magna houve uma floresta de enganos esclarece “ninguém está por acaso nessas convergências, ninguém está enganado nessas convergências”.
Depois, aquilo que para os críticos é mais grave, propõe que o Bloco vá sozinho às europeias, ajustando contas contra aqueles que nos recusaram o referendo europeu. Propõe igualmente que vá sozinho às legislativas, com um Programa de Governo, que começará já este mês a discutir. Para as autárquicas acontecerá o mesmo, excepto naqueles casos em que o Bloco local considere que é vantajoso apoiar uma lista de cidadãos independentes.
Para as presidenciais, que se realizarão antes de terminar o mandato desta direcção, afirmou que não discute nomes, agradecendo a todo aqueles que já indicaram o escolhido, Manuel Alegre, cujo o nome não foi referido. Para estas eleições parece claro que o Bloco procura um candidato comum das esquerdas, ou das esquerdas grandes. Alguns críticos dizem que o Bloco relegou para as calendas a convergência das esquerdas.

Terminaria esta parte, para não maçar mais, deixando para outro post algumas críticas importantes que foram feitas a esta intervenção e mais algumas reflexões que se me ofereçam sobre um assunto que eu gostava de abordar que é a questão do poder e do contra-poder.
Só ressalvaria porque é notório, e só não vê nem não quer ver, a qualidade do discurso de Louçã, os seus extraordinários dotes oratórios. Louçã, em palco, faz teatro, no bom sentido, ele representa, modela a voz consoante o papel que interpreta, prende a assistência. Vejam o vídeo da sua intervenção e concordarão comigo.

10/02/2009

“Temos Esquerda. Temos Bloco de Esquerda” – II


Depois de um texto provavelmente maçador e esquemático sobre onde podíamos hoje enquadrar politicamente o Bloco de Esquerda, passo finalmente à Convenção.
Segundo os organizadores, esta Convenção estava virada para mostrara uma maior afirmação do Bloco. As anteriores tinham tido lugar no Fórum Roma, mas para esta foi escolhido um Pavilhão, bastante grande e espaçoso, o do casal Vistoso, ao Areeiro. Já se sabe, como estávamos em Portugal e no Inverno passou-se um frio desgraçado naquele Pavilhão. Mas esquerda sem sofrimento não é possível.
Logo a abrir os trabalhos, o primeiro discurso de Louçã foi entremeado com vídeos de José Sócrates e os ataques que este costuma dirigir na Assembleia da República àquele dirigente. Resultou em cheio, é o estilo das brincadeiras dos Gatos Fedorentos aplicado a uma Convenção. Já no final, quando do discurso de encerramento, a projecção dos números que o Louçã ia debitando sobre a crise, já não tiveram tanto efeito, porque não coincidiam com o que ele dizia.
Na manhã de sábado discutiram-se os estatutos. Tema intrinsecamente aborrecido, mas devido a precedentes históricos, o mais célebre foi aquele que provocou a separação entre bolcheviques e mencheviques, a sua discussão tem por vezes grandes implicações práticas. Para sossego de todos, parece que nenhuma proposta contra as posições da actual linha maioritária teve qualquer vencimento. Disseram-me, que as principais alterações consistiam na criação de uma Jota, onde a Ruptura-FER, a “linha radical”, como ouvi na sala, tem implantação, e na alteração do modo de eleição da Comissão Política. A composição desta devia ser proporcional aos votos obtidos por cada lista. A composição da Mesa Nacional do Bloco já é proporcional.
O resto do tempo, até Domingo de manhã, passou-se a discutir a três moções em confronto, uma da Direcção que acabava o seu mandato nesta Convenção e outra de duas linhas bastante minoritárias. Ou seja, discutir não é bem o termo, como em toda a parte inscreviam-se defensores de cada uma das moções para as defender. Simultaneamente iam-se prestando contas e relatando lutas que se desenvolveram entre a anterior e esta Convenção. É o normal em encontros desta natureza.
Gostaria de destacar algumas intervenções quer pela importância política que revelam quer pelo seu pitoresco.
Pedro Soares, penso que responsável por Lisboa, falou das autárquicas para a capital. Disse que o Bloco se ia apresentar sozinho. Portanto, já estava a admitir que não iria apoiar a Helena Roseta. É interessante destacar que António Vitorino, no seu comentário político da segunda-feira, criticou o Bloco por recusar uma aliança em Lisboa, “mesmo com a Arq. Helena Roseta”. Esqueceu-se de dizer que aquela nem com o António Costa quererá estabelecer qualquer aliança. Mas isto faz parte da luta política actual, convém a António Vitorino mostrar que quem é sectário, a expressão é minha, a do comentador foi achar que o Bloco, nesta Convenção, actuou numa “lógica de defesa do aparelho partidário, numa lógica de defesa da camisola…”.
Por outro lado, Pedro Soares sublinhou que este PS não é o mesmo do tempo de Jorge Sampaio. Sobre isto tenho dúvidas. É uma má justificação para a ausência de convergências à esquerda.
Houve alguém que a propósito das declarações do Santos Silva, ofensivas para o Bloco e para o PCP, achou por bem contar uma história que já era do tempo do seu avô: quando um burro nos dá um par de coices, nós não respondemos com outros coices, albardamos o burro, montamo-lo e dirigimo-lo para onde nós queremos. Contada por mim provavelmente não terá graça nenhuma, pelo interveniente pôs a sala a rir às gargalhadas.
Um madeirense, de voz forte e verbo fácil, relatou também uma história interessante. Na Madeira, o Bloco de Esquerda, colocou um cartaz com um dos ministros do Governo Regional com um nariz de Pinóquio, gozando com as promessas que aquele tinha feito. Este processou logo o Bloco. No Continente, a JSD, esquecendo das atitudes que tinha tomado naquela ilha, faz o mesmo em relação a Sócrates. Particularidades do “reino” da Madeira.
Por piada, refiro também este facto. Victor Sarmento, ex-militante do PCP, que foi responsável há já algum tempo pelas Associações de Pais com filhos em idade escolar, e que é pena que não tivesse continuado, e agora militante do Bloco, foi o que fez a intervenção, pelo menos que eu tivesse notado, mais próxima das preocupações reais de um militante do PCP. Falou de organização e de fundos. Mesmo quando nos mudamos continuamos a pensar de acordo com a anterior matriz. Ainda bem, não me arrependo.
Por último, um pequeno apontamento. Falou-se muito, discutiram-se provavelmente coisas importantes. Mas as intervenções mais aplaudidas e mais sentidas foram daqueles bloquistas que falaram dos problemas concretos das lutas. Foi uma de um professor, que criticou com veemência uma intervenção “esquerdista” de alguém da Ruptura-Fer, que achava que o Nogueira era a correia de transmissão do PCP e defendia as tais organizações autónomas dos professores. Considerando que, se o Nogueira estava lá, foi porque essa tinha sido uma decisão maioritária dos professores e era na FENPROF que a luta devia prosseguir. Uma bela intervenção.
Tivemos também a de um operário dos estaleiros do Alfeite que falou da situação da sua empresa e da luta concreta dos seus trabalhadores. Penso que é isto que falta ainda ao Bloco, é esse enraizamento na vida real das populações. E nisso, em alguns casos, o PCP bate-o.

Não irei falar da intervenção final do Louçã. Deixo as apreciações políticas finais para um próximo post. Só gostaria de chamar a atenção para a terminologia usada durante toda a Convenção. Não se falou na estatização da economia mas sim de políticas públicas a propósito, por exemplo, dos bancos. E esta expressão parece-me muito mais feliz.