16/01/2009

A esquerda e o poder: um desfio impossível?


Inseriu a edição portuguesa do Le Monde Diplomatique no último número (Janeiro de 2009) quatro colaborações sobre a Esquerda e o Poder, recorrendo para isso a articulistas nacionais, com obra amplamente publicada na nossa imprensa ou, no caso de António Abreu, com experiência autárquica em Lisboa, ou seja, da prática desse mesmo poder.
Antes de mais convém referir o magnífico trabalho desenvolvido pelo Le Monde Diplomatique, quanto a mim a única revista de esquerda plural, com amplo trabalho de divulgação e de discussão tanto de temas nacionais, onde como é previsível está mais fraca, e de temas internacionais. Mas mais do que isso, é também os artigos que regularmente publica no seu site e envia por e-mail para a sua lista de contactos, os debates que organiza e os patrocínios graciosos, porque dinheiro não há, que dá a outras iniciativas. Espero que desta vez, porque isso já sucedeu, não se deixe morrer uma iniciativa tão importante para a esquerda portuguesa.

Mas regressemos aos quatro artigos referidos. Quanto a mim o mais interessante é o do Daniel de Oliveira e será sobre ele que me irei debruçar.
O tema central do artigo é a relação da esquerda como Poder, e por isso a dada altura pergunta, a participação da esquerda no Poder de Estado pode “ter influência real na vida concreta das pessoas?” A resposta que dá é “depende”. Os dois exemplos que cita pretendem ilustrar isso. O primeiro, o de Lula da Silva, que apesar das desilusões que acarretou, trouxe de facto um “impacto real na vida de milhões de pessoas” é positivo, o segundo, a participação da Refundação Comunista no breve Governo de Prodi, em Itália, “que não teve qualquer tradução prática na vida dos italianos”, e que provocou uma desilusão tão profunda que afastou, espero por pouco tempo, quaisquer comunistas do Parlamento italiano, é negativo.
Tendo em conta esta dicotomia, Daniel de Oliveira afirma: a esquerda aproxima-se da “cumplicidade”, eu diria do oportunismo, quando o poder não pode ser exercido de “forma diferente”, mas quando ela se fecha unicamente num espaço de protesto dispensa-se de procurar alternativas. “Porque as alternativas só nascem da necessidade, da expectativa do exercício do poder”.
E Daniel de Oliveira continua “sem o horizonte próximo da conquista do poder ou da influência directa no poder, as forças de esquerda transformam-se ou em partidos-fortaleza, ou em partidos-megafone ou em caos sem direcção política."
Está-se mesmo a ver a que partidos ou forças políticas Daniel de Oliveira se refere – excepto a última que é ainda um movimento informe que percorre o espaço político da esquerda –, por isso este artigo sendo dirigido à esquerda, da esquerda do PS, dirige-se fundamentalmente ao seu partido, o Bloco de Esquerda. E compreendendo eu que estes são recados dirigidos para o interior do Bloco, não posso, no entanto, deixar passar esta oportunidade de me pronunciar.
Hoje um dos principais desafios que se põe à esquerda, da esquerda do PS, é poder contribuir para ter “um impacto real na vida das pessoas”. Mas para isso é preciso ter um instrumento político para que esse “impacto” se verifique. Ora os partidos existentes, e Daniel Oliveira diz isso, não parecem muito virados nesse sentido.
Como é visível, o PCP, o partido-fortaleza, dada a sua deriva esquerdista e sectária, digo eu, mas que para outros não passa da manutenção da sua identidade, não será neste momento a força agregadora que poderia realmente influenciar o poder e provocar alguma alteração “na vida das pessoas”. O Bloco de Esquerda, o partido-megafone, não estaria neste momento muito bem posicionado para desempenhar esse papel. Daí os lamentos de Daniel de Oliveira, visto que os mais recentes episódios, com o Sá Fernandes, na Câmara de Lisboa, e o artigo muito ambíguo de Luís Fazenda, no Esqerda.net , em nada facilitam esta postura.
Restou-nos a esperança acalentada no Trindade e na Aula Magna. Aí, para além do diálogo à esquerda (Manuel Alegre e esquerda do PS, Bloco de Esquerda e Renovação Comunista), que é indispensável, mas não é suficiente, poderia estar a nascer um novo ente político. Ou seja, um A Esquerda (Die Linke, em alemão) à portuguesa, em que uns ex-quaisquer coisa se juntavam à esquerda do PS para fazer um novo partido. Parece que essa expectativa está hoje furada. Bem pergunta Joana Lopes no seu blog, Entre as brumas da memória, em Alô, PS!, onde está essa esquerda do PS? E afirma: “todos se renderão à elegância do chefe e lhe estenderão a passadeira vermelha, sem pestanejar. Com fortes vivas ao socialismo – evidentemente.”
Ou seja, bem pode Daniel de Oliveira escrever coisas certas e interessantes, simplesmente sentimos que os instrumentos políticos indispensáveis à sua concretização falharam. Uns porque mantêm essa “cumplicidade” com a direcção do PS, outros porque se fecham unicamente num espaço de protesto. Iremos provavelmente assistir a alguns acenos de José Sócrates à sua esquerda, ao Bloco a tentar capitalizar o descontentamento de algumas franjas do PS e ao PCP, mais o seu apêndice, os Verdes, a afirmar que ninguém resiste melhor do que ele. Mas no fundo não iremos ter qualquer alternativa de Poder que permita inflectir a direcção seguida pelo PS e modificar realmente a vida dos portugueses. Ou talvez, se volte a rebobinar o filme e tudo esteja ainda em aberto.

13/01/2009

Forum pela Paz e pelos Direitos Humanos


A dramática situação vivida pelo indefeso povo palestiniano em Gaza devido ao pelo ataque naval, aéreo e terrestre levado a cabo pelo exército israelita, causou já cerca de 900 mortos - entre os quais 200 são crianças! - milhares de feridos e também a destruição de inúmeras infraestruturas como escolas, hospitais, creches... Por todo o mundo, incluindo Portugal, se exige o fim do cerco e da opressão militar.

A opinião pública tem um papel importante a desempenhar na defesa de uma paz justa em toda a região, com o reconhecimento da independência da Palestina e no respeito pelas resoluções da ONU.

Neste sentido o Forum pela Paz e pelos Direitos Humanos irá promover uma Sessão Pública no dia 15 de Janeiro, às 21H, no Fórum Lisboa (antigo Cinema Roma) com a intervenção de:

Luis Moita
Francisco Assis
Manuel Carvalho da Silva
Miguel Portas e
Domingos Lopes

A Direcção do
Forum pela Paz e pelos Direitos Humanos

Os anarquismos - no bicentenário do nascimento de Proudhon


Os anarquismos - no bicentenário do nascimento de Proudhon
Com a participação de

J. M. Carvalho Ferreira(revista Utopia)

José Neves(historiador)

Júlio Henriques(tradutor)

Rui Tavares(historiador)

15 de Janeiro quinta-feira 21h30Instituto Franco-PortuguêsAv. Luís Bivar, 91, Lisboa (junto ao Saldanha) entrada livre

10/01/2009

Cuba, mais um aniversário


Sei que venho atrasado, o 50º aniversário da Revolução Cubana já passou. Mas ainda estou dentro do período normal para comemorar esta data redonda.
Na blosgosfera a habitual divisão. As boas almas lá vieram reafirmar a mesma desilusão de sempre, os outros a passagem de mais um glorioso aniversário. Não indico links para não ofender ninguém.
No entanto, não deixo de referir a prosa de Vital Moreira, A revolução exangue, publicada no Público, a 6 de Janeiro, que para além das críticas tradicionais daquele articulista a um regime “comunista”, tem afirmações mentirosas sobre a pobreza de Cuba, – “economicamente, Cuba é hoje um dos países mais pobres da América Latina” – que não se baseiam em qualquer fonte e que resultam do palpite daquele articulista. Sobre este assunto ver o belo artigo que Guilherme da Fonseca-Statter publicou no Comunistas.info, A propósito de mais um Aniversário da Revolução Cubana, em que desmonta com números aquela afirmação aldrabona de Vital Moreira.
Mas deixemos estas pequenas picardias em que eu me costume envolver na blogosfera ou com os media dominantes e apresentemos três pequenas reflexões que me interessa fazer sobre Cuba.

1 - Só haverá um caminho para chegar ao socialismo?

Quando a revolução cubana aconteceu tinha eu quinze anos a caminho dos dezasseis. Vivi com grande alegria aqueles acontecimentos através de uma imprensa censurada. Era a derrota de uma ditadura e a vitória da liberdade e da transformação social. Ditadura e liberdade eu sabia o que eram, transformação social era um conceito mais elaborado, que na altura provavelmente não perceberia a sua amplitude. Contudo, quando se deu o desembarque da Baía dos Porcos, em Abril de 1961, e a crise dos mísseis, em Outubro de 1962, já era um homenzinho e, na última data, já tinha mesmo formação marxista.
Para aqueles que, como eu, pouco tempo depois aderiram ao PCP, a revolução cubana tinha seguido a via-sacra do leninismo, ou melhor, os ensinamentos do marxismo-leninismo e da construção do socialismo. Tinha começado por ser uma revolução anti-imperialista, contra a burguesia sua aliada, que devido à resistência do imperialismo se transforma em revolução socialista, cuja direcção é assegurada primeiro, a partir de Março de 1962, pelo Partido Unido da Revolução Socialista Cubana (PURSC), que junta os fidelistas do Movimento 26 de Julho, o Directório Revolucionário, formado por estudantes revolucionários, e o anterior partido comunista (Partido Popular Socialista) e depois, a partir de Outubro de 1965, pelo seu partido de vanguarda, o Partido Comunista Cubano, que irá comandar até hoje os destinos da Revolução.
Cuba era a ilustração clara de que só havia um caminho para construir o socialismo. Segundo uma declaração antiga de Fidel, que encontrei em textos que recolhi na altura, “o processo revolucionário cubano obedecia a um conjunto de leis, comuns a todos os processos revolucionários. Primeiro a tomado de poder pelas massas, em seguida a destruição do aparelho militar da classe dominante” (Dezembro de 1961). A minha geração comunista acreditou nisto e Cuba confirmava a veracidade deste princípio.
Hoje, passado este tempo, verifico que a opção seguida em Cuba não foi o resultado inevitável de um princípio, que nós acreditávamos que era científico, mas o resultado da própria experiência soviética, que era a única verdadeiramente conhecida, e da pressão dos conselheiros daquele país. Era essa a única via que lhes tinham ensinado nas escolas do Partido.
É evidente que estes passos não foram dados sem dor, nem sem convulsões. Che tinha algumas opiniões diferentes. Fala dos estímulos morais para as tarefas da construção do socialismo, enquanto os soviéticos dos estímulos materiais. Propõe-se a teoria do foco como um conceito revolucionário aplicável a países sob dominação imperialista e com condições no terreno favoráveis à guerra de guerrilhas e defende-se a criação de “um, dois ou três Vietnames”, enquanto que em Moscovo se acredita numa via pacífica para o socialismo. Mas no fundo o caminho seguido por Cuba era indiscutivelmente a confirmação prática de que a construção do socialismo só poderia seguir aquela via.
Posteriormente, a derrota de Allende, no Chile, tornou ainda mais real a nossa convicção teórica.
Simplesmente, os revolucionários sul-americanos aprenderam a lição, depois de anos de ditadura e de derrotas da Revolução, conseguiram com dúvidas, divisões, avanços e recuos, empreender a transformação social criando movimentos de massas que pela via democrática vão tomando o poder e tentando construir novas perspectivas para as suas populações miseráveis. O caso mais conhecido é o Chavez, mas temos Morales na Bolívia, Rafael Corrêa no Equador, Daniel Ortega, parece com algumas contradições, na Nicarágua e mais recentemente Fernando Lugo, no Paraguai. Temos Governos com algum cariz progressista no Brasil, com Lula, na Argentina, no Uruguai e, vá lá, no Chile.
Cuba isolada, escorraçada da Organização dos Estados Americanos, em 1962, está hoje no centro de todas as atenções e é um estado acarinhado e respeitado em toda a América Latina.
Por isso, aquilo que nós pensávamos naqueles anos revelou-se errado, diverso são os caminhos para se chegar ao socialismo e os principais, com todos as contradições e complexidades, passam necessariamente pela participação eleitoral e democrática de grandes massas de cidadãos.

2- Os problemas do desenvolvimento

Numa entrevista à SIC Notícias a propósito deste aniversário, José Fernandes Fafe, que foi nosso embaixador em Havana e escreveu recentemente um belo livro sobre Fidel (Temas e Debates e Círculo dos Leitores, 2008), afirmou que, durante a existência da União Soviética, Cuba vivia menos mal para os padrões da América Latina. Segundo ele a URSS despejava não sei quantos milhões de dólares por dia naquele país. Quando aquela acabou, Cuba, para sobreviver, teve que introduzir as desigualdades, dado que autorizou os portadores de dólares a trocá-los pela moeda local, permitindo assim que aqueles que tivessem parentes nos Estados Unidos ou que vivessem do turismo ou nas suas proximidades pudessem beneficiar dessa troca.
Este problema, aqui ligeiramente aflorado, põe o dilema, que se pôs igualmente à China, com outra dimensão, de que só recorrendo a uma certa desigualdade no caso de Cuba, no caso da China, recorrendo mesmo ao capitalismo mais selvagem se consegue desenvolver um país atrasado.
A experiência soviética não é muito encorajadora. Lenine, para sair da paralisação económica em que se encontrava a URSS, após a guerra civil, recorreu provisoriamente à NEP (Nova Política Económica), que permitiu a venda livre dos produtos da terra e o enriquecimento individual dos camponeses com maiores propriedades (kulaks). Estaline cortando com isto, resolveu fazer a colectivização forçada dos campos e iniciou com os camponeses que fugiram para as cidades, e alguma mão-de-obra prisioneira a industrialização acelerada daquele país. Os resultados foram positivos durante um período razoável, mas foram obtidos à custa de um enorme sofrimento das populações. Podemos afirmar que a experiência soviética nada tinha de socialismo, como Marx o entendia e como nós hoje o propomos.
Por isso, até ao presente, o socialismo não teve possibilidades de demonstrar ser capaz de desenvolver sociedades humanas atrasadas. Apesar de no caso da URSS a ter transformado num país moderno e na China ter permitido retirar milhões de camponeses do nível de subsistência mais miserável, simplesmente nada disto tem a ver com o socialismo. As experiências da América Latina não são ainda conclusivas, nem garantem que sejam capazes de retirar massas humanas do nível de subsistência, mas têm permitido aumentar o nível de vida de algumas populações mais desfavorecidas.

3 – Os problemas da transição

Todos os críticos dos regimes de socialismo real asseiam para que estes passem a ser democracias “tout court” e que garantam o respeito pelos direitos humanos. Nestes anseios há muita hipocrisia. Esquecem deliberadamente que até ao presente os regimes que substituíram o socialismo-real enveredaram pelo capitalismo mais desigual, criando sociedades que só por brincadeira se pode dizer que garantem os direitos humanos. Quando milhares de cidadãos daqueles países são obrigados a emigrar para o Ocidente porque perderam de imediato o seu nível mínimo de subsistência, mal vão os direitos humanos. Mais, quando de repente aparecem, em meia dúzia de anos, como foi o caso da Rússia, multimilionários com as fortunas como as que hoje são atribuídas a alguns dos donos de clubes de futebol, temos que reconhecer que alguma coisa vai mal. E vai de facto, a experiência de transição, excepto em países que já tinham uma vida democrática anterior, caso da Checoslováquia, tem sido má, tem permitido criar profundas desigualdades e transformado países que dantes eram dependentes de uma grande potência, a URSS, a dependerem de outra, os EUA. A história é triste e não pode servir para os seus defensores fazerem grandes encómios.
O problema em Cuba tem contornos semelhantes. Como se portariam os cubanos de Miami desejosos de vingança contra os que ficaram em Cuba? Que aconteceria a todos os grandes proprietários que anseiam regressar às suas terras? E aos americanos que deveriam querer ressarcir-se dos seus investimentos passados? Estes aspectos da transição, que as boas almas acreditam que se resolvem facilmente fazendo eleições livres, dando liberdade de imprensa e permitindo a organização de partidos, acabam normalmente muito mal, com violações por vezes muito mais gritantes dos direitos humanos.
Não comparem com a transição em Portugal. Nos casos referidos anteriormente há de facto uma mudança de regime económico importante, coisa que as nossas boas almas ignoram, que modifica profundamente a estrutura social. Em Portugal, apesar de ter havido algumas alterações sociais, os donos da bola, as classes dominantes de sempre, passados os primeiros apertos e da emigração para o Brasil ou para Espanha, regressam para tomar posse do que perderam e, em alguns casos, em situações até mais favoráveis.
Na China o poder conseguiu controlar a situação de transição. Recorreu mesmo uma situação extremamente repressiva, Tiananmen, no entanto, se isso não tivesse sucedido talvez a China perdesse o comboio do crescimento económico que tem vindo a conhecer.
Cuba com as alterações que o próprio regime for introduzindo, com o reforço da componente progressista em toda a América Latina, com a possível, mas não certa, alteração da liderança em Washington, irá provavelmente corrigindo alguns das piores defeitos do passado e permitir um fluir democrático das suas instituições.

Estas três reflexões sobre Cuba foram escritas um pouco ao correr da pena, com a ajuda aqui e acolá da Wikipédia, e de textos que fui desenterrar à minha gaveta de memórias, não pretende ser uma análise histórica e económica da realidade. São simples apontamentos pessoais que respondem a algumas ideias feitas e que os de sempre considerarão revisionistas e as boas almas como justificadoras da ditadura de partido único e da violação dos direitos humanos. A todos respondo que metam a mão na consciência e aos últimos que não se pode ser tolerante para com Israel e tão crítico para com este regime.

09/01/2009

Quando os “representantes” do povo se portam mal


O movimento Renovação Comunista acordou com o Bloco de Esquerda nas eleições autárquicas para a Câmara de Lisboa, de 2005, que alguns dos seus membros integrassem as listas que aquele Partido iria apresentar à autarquia alfacinha. Assim, o meu nome foi indicado para a Assembleia Municipal, num lugar do fim da lista.
Realizaram-se as eleições e o BE elegeu cinco deputados municipais. É evidente que o meu nome não estava incluído no grupo dos eleitos. Por isso descansei e nunca mais pensei no assunto. Não é que um dia destes, me telefonam a dizer que tinha chegado a minha vez de ocupar um lugar naquela Assembleia. Fiquei estupefacto, só a constante renovação dos eleitos pelo Bloco permite que mesmo candidatos do fim da lista possam assumir os lugares a que se tinham candidatado.
Tudo isto vem a propósito de como de repente alguém que sempre se interessou por política, mas que nunca tinha sido eleito para qualquer cargo de representação popular, se vê, de um momento para o outro, a participar numa Assembleia Municipal.
A minha primeira reacção foi de espanto e a seguir de aprendizagem. Fui-me integrando no grupo e até já intervim sobre três assuntos diferentes, por enquanto ainda preparados em casa, mas há-de chegar o dia, se não me substituírem antes, em que poderei ter que falar de improviso. Gosto do papel que me foi atribuído.
Dito isto, passemos à descrição do que se passa na Assembleia. Em primeiro lugar, em cada Assembleia, que tem lugar em algumas terças-feiras do mês, o público pode intervir. Ou seja, é permitido a três ou quatro cidadãos, antes da Ordem do Dia, falar na Assembleia, contando as suas desgraças. Quase sempre é para pedirem casa à Câmara ou para descreverem a situação em que se encontra a sua, sem obras da autarquia, ou que tiveram desavenças com familiares e estes lhes ficaram com a casa que lhes tinha sido atribuída. Têm um período limitado de tempo, estão sempre muito nervosos, quase não se percebe o que dizem, mas como reparei é coisa que não interessa a ninguém. Os deputados entretêm-se alegremente a conversar ou a sair da sala. Quando o burburinho é mais do que muito a Presidente, a Paula Teixeira da Cruz, ou o seu substituto, pedem silêncio. A Presidente, com alguma humanidade, lá lhes pede que no final entreguem toda a documentação que possam trazer para justificar o seu pedido. Mas a sala está completamente desinteressada, provavelmente eu, por ser novato, senti obrigação de ouvir os lamentos daquelas pessoas. Não sei que destino darão a todos aqueles pedidos e reclamações. Mas, tenho dúvidas que tenham qualquer eficácia.
Depois comecei a conhecer os líderes das bancadas, os sub-líderes, aqueles que falam sempre e que são capazes de o fazer. No fundo, meia dúzia de deputados. No Bloco há pelo menos a tentativa de pôr toda a gente a falar. O que nem sempre é possível, pois há deputados com mais experiência e mais conhecedores dos dossiers.
Comecei também a reparar que, de repente, sem se perceber porquê, havia sarrafusca na Assembleia. PS e PSD envolviam-se em dichotes, apartes, acusações graves. Seguia-se o pedido de defesa da honra e aí temos meia hora de dizes tu, direi eu. É evidente que cada partido tem um tempo limitado para intervir, mas o PSD, como tem a maioria absoluta na Assembleia, tem um tempo inesgotável, o PS, com menos deputados, tem no entanto tempo suficiente para se consumir nestas andanças.
Mas o motivo que me levou a escrever esta crónica foi a última Assembleia Municipal, a que aprovou o Plano e o Orçamento da Câmara para 2009. Como o PS não tem na Assembleia Municipal a maioria, nem a faz com qualquer pequeno partido, depende sempre do PSD para aprovar as suas propostas.
Logo de manhã o chefe da distrital do PSD tinha dito na rádio que ia viabilizar o orçamento, com a sua abstenção. Portanto, à partida sabia-se o que a casa gastava.
Não havia qualquer suspense, no entanto correu que alguns deputados do PSD queriam votar contra. Havia pois, mesmo assim, alguma expectativa. Mas isto não impediu de durante toda a tarde os dois partidos, como cão e gato, fazendo uma tristíssima figura, que se fosse vista pelos seus eleitores nunca mais votariam neles, se acusassem mutuamente das piores aldrabices e malfeitorias. Estamos já em plena campanha eleitoral: Santana versus Costa. O PSD teve o desplante de chamar formiguinha ao Santana e acusou a actual vereação de cigarra. A corda foi esticada até ao fim. Eu se fosse PSD e quisesse fazer sangue, depois do que ouvi votava contra o orçamento. O PS durante toda a tarde não revelou qualquer meiguice para com o PSD ou vice-versa. Mas o pior ainda estava para vir. Antes da votação final o PSD pede uma interrupção de 15 minutos. Estava criado o suspense. Depois regressam à sala e apresentam uma Recomendação, para que o Orçamento fosse acompanhado mensalmente pela Assembleia e incluísse algumas alterações. O Presidente em exercício, e bem, disse que primeiro votava-se o Orçamento e depois a Recomendação. O Orçamento lá passou. Com os votos favoráveis do PS, a abstenção do PSD e os votos contra do CDS, PCP, Verdes e BE. A partir do momento em que o PS vê o seu Orçamento aprovado, o António Costa mais a sua equipa saem intempestivamente da sala, já que eles são obrigados a estarem presentes durante o desenrolar dos trabalhos. O PSD que se preparava para fazer aprovar a sua Recomendação começa aos gritos, a dizer que era uma pouca-vergonha o Presidente da Câmara ter abandonado a Assembleia. Barafunda geral, o Presidente em exercício resolve interromper a sessão e, porque a hora já ia adiantada, adiar para data oportuna a possível votação daquela Recomendação.
Assisti, por isso, aquilo a que se chama a chicana parlamentar, ou seja, ao pior comportamento dos representantes do povo. Mas o mais significativo é que toda esta gente que se enxofra em plena Assembleia, nos corredores se cumprimenta com todas as mesuras, como se nada do que lá se passou a tivesse afectado. Ou seja, provavelmente todos almoçam juntos, não levando muito a sério os insultos que antes trocaram. Não havia necessidade disso. Penso que ser representante do povo exige outra seriedade e outra compostura, que aqueles dois partidos realmente não manifestam.
PS.: a fotografia é do antigo cinema Roma onde hoje tem lugar a Assembleia Municipal

04/01/2009

A SIC Notícias sempre, sempre, ao lado de Israel


Muito me tem apetecido desancar em todos aqueles que neste momento fazem por omissão, pela chamada imparcialidade ou pelo claro apoio a Israel o jogo dos agressores, ou seja, dos violadores dos mais elementares direitos das populações palestinianas. Mas nem sempre posso responder a todos.
Por exemplo, Pacheco Pereira (PP) publicou ontem no Público (A falsa equidistância e a irrelevância da política europeia no Médio Oriente) mais um dos seus artigos belicistas, a apelar à violência e a desancar num inocente texto que pretendia estabelecer a equidade entre as partes. Ainda um dia hei-de fazer uma análise desta prosa de PP, que começou com o ataque, que parecia muito de esquerda (era semelhante à crítica do PCP), contra o Tribunal Penal Internacional (TPI) e depois se consolidou na defesa e apoio da invasão do Iraque, por Bush, e que hoje se reflecte nesta apologia da violência praticada por Israel. Ao PP nunca passou pela cabeça que a sua prosa poderia, neste apelo à guerra e na crítica à impotência das democracias, principalmente as da União Europeia, roçar a ideologia fascista. Mas ainda não chegou a hora, nem sei se terei acesso às prosas antigas do PP.
Mas o que me ocupa hoje é parcialidade de uma estação de televisão, a SIC Notícias, que recorreu, pelo menos no noticiário das 2, a comentadores defensores unicamente de um dos lados do conflito. Não é que a televisão pública, a RTP 1, não tenha feito o mesmo noutras ocasiões e que, presentemente, a RTPN, que eu não vejo, não possa recorrer à mesma prática. Por exemplo, a Márcia Rodrigues, a enviada daquela estação para cobrir a invasão de Israel, está a fazer os seus relatos, porque é impossível chegar a Gaza – a liberdade de informação foi suprimida por Israel ao não permitir a entrada de jornalistas naquele território –, na fronteira com aquela faixa, o que necessariamente a há-de levar a reproduzir os pontos de vista dos porta-vozes daquele país, porque é mais fácil recolher as sua opiniões e porque provavelmente a vontade de procurar não será muita.
Mas a SIC Notícias, tem-se distinguido, pelo menos no noticiário das duas, por recorrer unicamente a comentadores pró-Israel. Ontem foi a vez de Carlos Gaspar, do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa, hoje foi a Ester Mucznik, vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa. Qualquer dos dois defensores “à outrance” da guerra desencadeada por Israel. A SIC Notícias, sem contraditório, dá voz a defensores declarados de uma das posições. Estranha maneira de dar informação.
O que diz cada um deles. O primeiro foi muito claro naquilo que disse sem pestanejar, esta guerra visava decapitar e isolar o Hamas e dar o poder a Al Fatah, que colabora com Israel, os tais moderados, que antes eram terroristas. Bem pode o povo palestiniano votar no Hamas, mas como este não serve, há que obrigá-lo a aceitar o que não quer. Estranha forma de defender a democracia.
A segunda foi mais directa ao coração. Estava ali para vender a bondade da intervenção e quase de lágrimas nos olhos apelava para que compreendêssemos os israelitas e a necessidade que tinham de se defender dos malandro terroristas do Hamas, que obrigavam a população palestiniana a aceitá-los e que se refugiavam por detrás dela. Esqueceu-se que as eleições que deram a vitória aquele partido, principalmente na faixa de Gaza, foram acompanhadas pela comunidade internacional que as considerou justas e democráticas.
Já agora lembremos que o correspondente da SIC no Médio Oriente, Henrique Cimerman, também não será um modelo de imparcialidade política já que a sua vida é toda feita em Israel e é a partir de lá que faz os seus relatos, quase sempre num tom favorável àquele país.

Por último, uma anedota, o porta-voz da Presidência da União Europeia, que é neste momento assegurada pela República Checa, tinha afirmado que a intervenção de Israel era mais defensiva do que ofensiva. Hoje o Ministro dos Negócios Estrangeiros teve que vir desmentir esta declaração, afirmando que Israel não tinha o direito de empreender acções militares que "afectem fortemente civis". Ou seja, o porta-voz ainda não tinha compreendido que não era porta-voz dos interesses americanos, e por tabela dos israelitas, mas sim de uma comunidade de Estados que pensa um bocadinho diferente. Triste sina, a destes países satélites, que deixam de ser mandaretes de uns e passam a ser mandaretes de outros.


PS.: foi à procura no blog do Pacheco Pereira, Abrupto, do seu mais recente texto no sobre a invasão da faixa de Gaza, acima referido, para ver se o linkava para este post e encontrei algumas farpas contra frases de locutores da televisão que não afinam pelo diapasão politicamente correcto de Pacheco Pereira. Mas o que dirá S. Ex.ª deste caso relatado aqui e que revela, porque muito mais manipulador da opinião pública, dado que destila uma clara orientação sem qualquer contraditório, uma enorme parcialidade.
Actualização (10/01/09).
Tenho que reconhecer que nem sempre a SIC Notícias é parcial. Ontem sexta-feira, apresentou no noticiário das duas uma reportagem sobre as crianças de Gaza, bastante interessante e demonstrativa da falta de respeito de Israel por aquelas populações. Às 23h, no Expresso da Meia-Noite, convidou para o painel de comentadores um grupo bastante favorável à causa palestiniana, constituído por gente bem informada, tais como a Clara Ferreira Alves e o Miguel Portas, uma outra senhora de que não me recordo o nome, mas que completou as informações prestadas pelos primeiros, e o estudioso do Islão, o Professor Dias Farinha, que deve ser dos poucos portugueses que sabe árabe e que está sempre disponível para defender, moderadamente é certo, a causa árabe. Esta composição parecia compensar os dias seguidos em que só se vinculou o ponto de vista de Israel.

01/01/2009

“Choque e Pavor”: a impotência da crítica “imparcial”


O blog a Terceira Noite, de Rui Bebiano, é no panorama da blogosfera um dos mais bem feitos. Artigos bem redigidos, com o tamanho conveniente, de modo a perceber-se o que o seu autor quer dizer. Por vezes, demasiado longos para dizer uma coisa simples, como o de classificar Santos Silva como aparátchik, coisa que todos percebem sem grandes dificuldades. Mas enfim, revela a erudição do seu redactor.
No entanto, Rui Bebiano é uma daquelas boas almas sempre pronto a traçar armas contra o estalinismo do PCP, o atropelo aos direitos humanos seja na China ou em Cuba, no fundo propondo-nos uma esquerda cheia de boas intenções, mas que deveria cortar de vez com qualquer compromisso com os herdeiros da Revolução de Outubro, sejam eles quais forem.
Dito isto, vamos ao que me motiva a escrever este post.
Rui Bebiano resolve acusar um artigo de Alain Gresh, traduzido para a edição portuguesa on-line do Le Monde Diplomatique, de ser parcial em relação aos recentes bombardeamentos de Gaza por Israel. Classifica-o mesmo de “pouco honesto”.
Fui ler o artigo, pereceu-me uma denúncia de um massacre que todas as boas consciências deviam desaprovar, mas que formulava o problema com alguma moderação, com muitos dados informativos, facto que é omisso no post de Rui Bebiano, inclusive citando opiniões de membros do governo francês e da maioria que o apoia. Mas comecemos pelos factos. Diz Rui Bebiano: “Começa por ignorar completamente a provocação do Hamas que antecedeu o ataque de Israel, traduzida no lançamento, a 20 de Dezembro, de dezenas de rockets sobre as cidades judaicas de Ashdad e Ashkelon (fala apenas da sua ténue reposta após o início dos bombardeamentos israelitas).
Ora para Rui Bebiano os rockets do Hamas são à partida uma provocação, ou seja, não havia razão nenhuma para os lançar e só serviram para provocar e estarem na origem da “reacção excessiva” – os termos não são meus, mas de uma senadora francesa de um partido do Centro – dos israelitas.
Que nos diz Alain Gresh: “É interessante notar que os comentadores israelitas, como a maior parte dos comentadores da imprensa ocidental, não assinalam a razão mais importante do falhanço do cessar-fogo de seis meses, que durou de 19 de Junho até 19 de Dezembro. O acordo compreendia, para além do cessar-fogo, o levantamento do bloqueio de Gaza e um compromisso do Egipto em abrir a passagem de Rafah. Ora, não só Israel violou o acordo de cessar-fogo lançando um ataque que matou várias pessoas no dia 4 de Novembro, como os pontos de passagem não foram reabertos senão parcialmente, e o bloqueio foi mesmo reforçado nas últimas semanas.
Que nos diz o insuspeito Público, pela pena de Margarida Santos Lopes: “a 4 de Novembro deste ano, Israel assassinou seis membros do Hamas, violando uma tahdiyeh ou trégua, que estabeleceu (mas nunca reconheceu publicamente) com o movimento islâmico, sob mediação egípcia, a 17 de Junho. O Hamas intensificou o lançamento de mísseis e morteiros sobre cidades israelitas - em sete anos, estes disparos mataram pelo menos 20 civis. Israel retaliou sujeitando a Faixa de Gaza a um duro bloqueio económico – com restrição de entrada de alimentos e medicamentos e cortes de combustível –, agravando uma situação humanitária que o Banco Mundial e ONG descreveram como "catastrófica". Khaled Meshaal, o chefe do Hamas exilado em Damasco, justificou a decisão de revogar a tahdiyeh, a partir do dia 18 de Dezembro, invocando as execuções dos seus operacionais e o cerco a que Gaza está sujeita.” (Sobre a situação relativa ao bloqueio imposto por Israel a Gaza ver este artigo ).
Duas fontes, uma que é parcial para Rui Bebiano e outra insuspeita relatam com pequenas diferenças a mesma coisa. Mas o autor do post citado considera que a primeira ignora as “provocações” do Hamas, o que não é verdade, porque até as justifica, mas Rui Bebiano ignora o que se tem dito sobre o assunto (ver Robert Fisk, The Independent, Tariq Ali, The Guardian e Michael Warschawski, Centro de Informação Alternativa).
Depois afirma que Alain Gresh, no artigo citado, “continua tentando provar a «legitimidade democrática» do governo islamita do Hamas quando este tomou o poder de uma forma discricionária após uma guerra de extermínio contra os militantes da Fatah que levou até à fuga de Gaza de dezenas de milhar de refugiados palestinianos”.
O que nos diz Alain Gresh: “a recusa da comunidade internacional em reconhecer o resultado das eleições legislativas de Janeiro de 2006, que deram a vitória aos candidatos do Hamas, contribuiu para a escalada israelita; assim como a recusa de admitir realmente o acordo de Meca entre a Fatah e o Hamas” Não sei onde Rui Bebiano foi buscar as dezenas de milhar de refugiados, mas para mim é claro que o Hamas ganhou as eleições para o Conselho Legislativo Palestiniano (Janeiro de 2006) e que essa vitória foi torpedeada pela comunidade internacional e por Israel, que conseguiu através do Presidente da Autoridade Palestiniana manter no poder da Fatah, quando a Constituição exigia que quem ganhasse as eleições formasse Governo (ver aqui ). O que se passou foi que em Gaza o Hamas assumiu pela força o poder (Junho de 2007) que de facto lhe pertencia. Por outro lado, Rui Bebiano ignora o acordo de Meca referido por Alain Gresh e os passos já dados por aquele movimento para o reconhecimento do Estado de Israel.
Depois fala que 250 dos mais 300 mortos pertencem às milícias do Hamas (diz que aquele movimento reconheceu, mas não indica a onde). Estaríamos pois perante os bombardeamentos cirúrgicos, tão gabados no Iraque. Em seguida, acrescenta-lhe este mimo de ódio, Alain Gresh “ignora a repelente estratégia dos islamitas no sentido de disseminarem quartéis e rampas para o lançamento de rockets no centro de áreas habitacionais que lhes servem de escudo humano.” Para além do ridículo da afirmação. Como é possível é numa área de 362 Km2, habitada por 1,5 milhões de pessoas, conseguir separar quartéis e rampas de lançamento de agregados populacionais. Utiliza a estratégia informativa a que recorre a imprensa ocidental quando quer atacar movimentos de libertação ou guerrilheiros. Já Salazar dizia que os “terroristas” se refugiavam ignobilmente atrás das populações. Esperava-se melhor raciocínio de uma “boa-alma”, que neste caso mostra os dentes bem afiados, que tem por detrás das boas intenções. Termina a análise do artigo de Alain Gresh com a afirmação de que este “faz tábua rasa dos direitos históricos dos israelitas sobre a presença na região”. Esta é mais grave, vindo de um historiador. Todos conhecemos a história de Israel. A luta de Theodor Herzl que consegue, em 1897, aprovar no I Congresso Mundial Judaico a criação de um Estado Judaico, a declaração de Balfour durante a I Guerra Mundial (2/11/1917), “favorável ao estabelecimento na Palestina de um Lar nacional para o povo judeu”, a emigração de milhares de judeus para a Palestina entre as duas Guerras e principalmente no final da Segunda, etc. Tudo isto é uma história conhecida. Se vamos por aí, a reivindicar direitos, saímos de certeza chamuscados. Pois, os povos que lá viviam tinham inegavelmente mais direitos do que os que vieram depois.
No final, cheio de boas intenções propõe a reconciliação das duas comunidades. Maus, de facto, são os chineses e os cubanos violadores dos direitos humanos, o que em alguns casos sendo verdade, não leva o nosso blogger a fazer tantos exercícios de justificação com aqui se propõe em relação a um Estado agressor e violador dos mesmos direitos, não da sua população, mas daqueles que tiveram a infelicidade de viver nos territórios ambicionados por aquela população.
Já este artigo estava redigido quando vejo que Rui Bebiano recorrendo agora a intelectual prestigiado, Amos Oz, justifica as suas posições com esta afirmação verdadeiramente assassina daquele intelectual: «Vai haver muita pressão sobre Israel pedindo-lhe contenção. Mas não vai haver nenhuma pressão semelhante sobre o Hamas, porque não existe ninguém para os pressionar e porque já não há praticamente nada que possa ser usado para os pressionar. Israel é um país; o Hamas é um gang.» Daí portanto a necessidade de os aniquilar à bomba e por tabela a sua população. Há sempre intelectuais prontos a defender o Holocausto seja de judeus, seja de palestinianos.
Já se sabe Rui Bebiano selecciona o seus intelectuais, dá voz a Amos Oz e não a outro interveniente, Uri Avnery, igualmente israelita que condena o ataque a Gaza (Ver Carta aberta de Uri Avnery a Barack Obama).
Em toda esta história Rui Bebiano ignora que há seis meses que Israel preparava esta intervenção, que ela tem muito a ver com as eleições que se vão realizar em Israel dentro de pouco tempo, e que provavelmente esta intervenção quer alterar a correlação de forças no Médio Oriente antes da tomada de pose de Barack Obama (ver os artigos de Tariq Ali e Michael Warschawski já citados).
Tentei trazer aqui os factos e as provas. Rui Bebiano que escreve da sua alta cátedra, sem nuca ter dúvidas, que as rebata. O inferno está cheio de “boas almas”sempre a ver as maldades alheias e nunca as suas.

30/12/2008

Empréstimos aos Funcionários Públicos


Quando menos se esperava, Sócrates tirou da cartola esta medida e pôs-se a divulgá-la por tudo o que era sítio. A indignação foi geral. Não houve cão nem gato que não comentasse, que não dissesse que também queria, que não insultasse os funcionários públicos, que tinham uma regalia que mais ninguém tinha.
Parecia de propósito, aquilo que para o Governo de Sócrates era uma grande medida transformou-se numa decisão errada, que a generalidade dos comentários considerou injusta.
Como sucede nestas coisas que mete funcionários públicos, os comentadores, como trabalhadores independentes que são, e os bloggers, que têm sempre opinião formada sobre tudo, desconhecem a realidade, que de facto foi deliberadamente ocultada pelo Governo para tentar dar o ar de grande generosidade.
Vejamos o que se passava até há data. De um modo geral quase todos os Ministérios tinham obras sociais. Alguns, como o das Finanças, tinham uma instituição chamada Cofre. Qualquer desses serviços sempre emprestou dinheiro a funcionários em situações difíceis e, no caso do Cofre de Previdência do Ministério das Finanças e da Caixa de Previdência do Ministério da Educação até emprestavam dinheiro, a juros muitos baixos, para a compra de casa. É evidente, que nos dois casos citados, tinha-se que ser sócio, mas por uma importância pequena, que no caso da Educação funcionava como seguro de vida, tinha-se acesso a essas vantagens.
Ora o Governo, que sistematicamente tem vindo a destruir as obras sociais dos diferentes Ministérios, retirando-lhes subsídios, regalias ou até pura e simplesmente extinguindo-as, resolveu centralizar num único departamento aquilo que há muitos anos cada Ministério vinha fazendo. Decidiu, como com tudo o que faz e não faz, propagandear esta iniciativa e, em vez de dizer que tinha centralizado os serviços, passou a alardear que, a partir de agora, como se fosse uma novidade, os funcionários públicos podiam receber empréstimos.
A acrescentar a isto, é bom que se saiba que a maioria das grandes empresas deste país sempre tiveram serviços sociais que muitas vezes emprestavam dinheiro aos seus funcionários e que, mesmo nas pequenas empresas é normal, o trabalhador pedir adiantado uma parte do seu salário para acorrer a pequenos problemas.
Por tudo isto, tão demagógico é o Governo ao alardear uma coisa que já fazia, como os comentadores e bloggers ao afirmarem que os funcionários públicos são uns privilegiados.
Haja tento nesses comentários.

Posições dos Partidos e dos Sindicatos sobre o empréstimo

Este comentário é parecido com o que o PSD fez, simplesmente o que aquele partido disse é o que toda as pessoas bem informadas dizem sobre isto. Só os comentadores do Eixo do Mal e alguns bloggers mais assanhados contra a Função Pública é que desconheciam esta realidade. Num vídeo da RTP com esta notícia, temos o CDS a alinhar pela crítica de que só alguns portugueses é que beneficiam desta medida; o PCP a dizer que se deve aumentar os funcionários públicos e não dar-lhes empréstimos, o que sendo verdade, só mostra que foi mal informado pela Frente Comum, e o Bloco a desvalorizar a medida. Resta esse Secretário de Estado de opereta, que em tempos quis trucidar os trabalhadores da função pública, a afirmar que ficou “chocado” com as opiniões da oposição. Só o PSD, pela voz de Paulo Rangel, e provavelmente com a informação do Sindicato dos Quadros Técnicos (STE), que tinha já tomado posição semelhante num canal de televisão, soube do que estava a falar. No entanto, em notícias transmitidas pela TSF os Sindicatos da UGT (FESAP e STE) tomaram a mesma posição que o PCP.

29/12/2008

Um herói do nosso tempo


É hoje comum as críticas, as graçolas, ao passado revolucionário de alguns dos políticos actuais. O passado pró-chinês de Durão Barroso volta não volta regressa à ribalta. Mas, não é só o dele, são, para meu deleite, o desse xaroposo João Carlos Espada ou do actual director do Público, a personificação da bem pensância nacional.
Vem isto a propósito de, no outro dia, ter aparecido na SIC Notícias o Carvalho da Silva e João Vieira Lopes, este último em nome da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal, de que é Vice-presidente, a pronunciarem-se sobre o chumbo pelo Tribunal Constitucional de um artigo do novo Código de Trabalho aprovado pela maioria PS no Parlamento. Já se sabe, Carvalho da Silva concordando com o chumbo e considerando que havia outros artigos igualmente inconstitucionais e João Vieira Lopes atacando a decisão do tribunal.
Tem sido vulgar João Vieira Lopes aparecer na televisão. Já esteve num Expresso da Meia-noite e aparece muitas vezes como porta-voz daquela associação do patronato. No entanto, não se pode dizer que seja uma figura pública conhecida e muito menos o seu passado. Refiro-me a ele unicamente porque o conheci e fui vítima, mesmo que indirecta, da sua militância política “esquerdista”.
Há tempos tinha lido um livro um pouco perturbador, por ser a confissão pública de um denunciante e da sua posterior colaboração com a PIDE, onde Vieira Lopes é amplamente citado. O livro chama-se Conquistadores de Almas e é de Pinto de Sá. Aí João Vieira Lopes aparece como responsável por uma das míriades de organizações marxistas-leninistas (M-L) que existiram nos finais dos anos 60, princípios de 70. A dele seria, segundo a informação prestada por aquele autor, o CCRM-L – Comités Comunistas Revolucionários Marxistas-Leninistas (ver aqui e também aqui, onde são citados os seus principais dirigentes, que incluía o actual ministro Mariano Gago).
Esta é de raspão a descrição da personagem pública. Mas que conheço eu do seu passado?
Como já aqui tenho referido, fui durante muitos anos dirigente do Cine-Clube Universitário de Lisboa (CCUL). Era vulgar, por causa da sua sede ser próximo do Instituto Superior Técnico e o cinema onde se realizavam as sessões ser na mesma área, que muitos dos seus colaboradores e dirigentes fossem alunos daquele Instituto. Como sempre sucedia, uma fornada de jovens alunos do Técnico apareceu nos finais dos anos 60 a oferecer-se para colaborar. João Vieira Lopes foi um deles, segundo alguns dados que recolhi pertenceu mesmo à Direcção de 1968-69. Por essa altura, já no fim da minha “longa” carreira universitária, tinha deixado de participar activamente no Cine-clube. Naquele ano lectivo, o último, entrei para a Direcção da Associação de Estudantes de Ciências. Este episódio já aqui foi relatado.
Como na preparação da lista candidata a Ciências fosse necessário fazer algumas reuniões, houve uma que inesperadamente não pôde ser feita na Associação, decidi por isso, como tinha a chave do Cine-clube, reunir lá. No dia seguinte contei isto ao Vieira Lopes. A resposta, própria de um pequeno tiranete, foi que assim me iriam tirar a chave. Ou seja, a lista era “associativa”, como então se chamava às listas progressistas, não havia qualquer perigo para a segurança do Cine-clube, mas sua excelência achava que devia exibir o seu poder.
Este episódio é um “fait-divers”, sem qualquer importância. O mais significativo é o que vem a seguir.
Provavelmente por volta de 1970 ou 71, num local que eu hoje não consigo precisar, houve uma reunião de dirigentes e colaboradores do Cine-clube em que eu estive presente. Não me lembro o que se ia discutir. Sei que a determinada altura Vieira Lopes, com ar sério, começa a falar de uma infiltração social-fascista no Cine-clube. Fiquei estarrecido. Não se estava a referir a mim, era evidente, eu era suficientemente mais velho do que os presentes para ter a pouca vergonha de me considerar um social-fascista infiltrado. Também não se referia a nenhum infiltrado da PIDE, como o termo fascista poderia deixar entender. Mas sim a dois colaboradores, também vindos do Técnico, que tinham, segundo me recordo, colaborado activamente num ciclo de cinema documental sobre a América Latina, com textos claramente de esquerda, e que para Vieira Lopes, e provavelmente a maioria dos presentes, deviam ser suspeitos de pertencer ou professar ideias próximas do PCP. Um deles, de facto, encontrei-o, depois do 25 de Abril, numa realização do PCP.
Para mim aquilo era um insulto, não podia contemporizar com afirmações daquele tipo. Protestei, como não encontrei eco, fui-me embora, nunca mais voltei ao CCUL.
Tempos depois telefonaram-me, pensei que era para me pedirem desculpa. Nada disso, era pura e simplesmente a pedirem-me a devolução de alguns livros que tinha requisitado à biblioteca. Assim se acabou uma relação de anos com o Cine-clube.
Vim a encontrar mais tarde o Vieira Lopes no assalto e destruição da Embaixada de Espanha, na rua do Salitre. Acontecimento que teve lugar nos tempos do PREC, a 27 de Setembro de 1975. Naquele dia já se antevia que a extrema-esquerda organizasse manifestações, pois tinham sido executados na véspera pelo regime de Franco cinco militantes bascos das FRAP e da ETA. Por isso, nessa noite, passei pela Avenida da Liberdade a caminho de casa, para ver o que se passava. Assisti à barafunda, ao incêndio da Embaixada e ao Vieira Lopes a comandar um bando de jovens que se preparavam para seguir para a outra dependência da Embaixada, existente na Praça de Espanha.

Aqui temos o percurso de um “revolucionário”, um herói do nosso tempo, que depois de estar “sempre, sempre ao lado dos trabalhadores” se passou, com armas e bagagens, para o lado do patronato.

"The Black Hole" ou "A ganância tem o seu preço"

Enviaram-me este pequeno vídeo, Black Hole no original, com a designação moralista "A ganância tem o seu preço". Por o achar engraçado, quero partilhá-lo com os meus leitores

22/12/2008

“O regresso a Marx” de Pacheco Pereira


Pacheco Pereira (PP), que é entre os ideólogos da nossa direita aquele que provavelmente leu Marx e consegue, sem dizer disparates, alinhar duas ideias sobre o pensamento marxista, meteu-se no último Sábado, no Público* , contras aqueles que advogam um regresso a Marx. Arranjou uma série de moinhos de vento contra quem investir e resolveu, de uma penada, dizer mal dos comentadores apressados - as “modas mediáticas” - que falam de Marx, com a ignorância com que de um modo geral falam de tudo, da “esquerda independente” que advoga esse regresso e, por tabela, do próprio pensamento marxista.
De facto, se há hoje muitos comentadores que acham que já estaríamos a caminho do socialismo, porque o capitalismo está em crise e os Estados advogam uma maior intervenção na economia dos seus países, há igualmente aqueles que consideram que nos pressuposto ideológicos dessa intervenção estaríamos a seguir as propostas de Marx. Ou seja, como o Estado intervém, como o sistema capitalista está em crise e como há ricos e pobres em luta eis que Marx teria razão e seria necessário regressar a ele. Contra estes moinhos de vento é fácil a PP traçar armas.
Por outro lado, ele tenta criar alguma confusão ao atacar igualmente aquilo que ele chama a “esquerda independente” e as “modas mediáticas”: “Se ao menos o "regresso a Marx" se traduzisse numa leitura de Marx, um dos autores fundamentais da nossa contemporaneidade, ainda valia a pena. Não é isso que se passa, mas a deterioração acentuada do pensamento da chamada "esquerda independente" e das modas mediáticas”.
Não sei o é que PP entende por “esquerda independente”, se é a de Manuel Alegre, a do Bloco de Esquerda, a dos organizadores do Congresso Marx, de todos aquele que não se revêem no “marxismo-leninismo” do PCP.
Mas falemos de coisas sérias. Gostaria de responder a Pacheco Pereira com este interessante período, contido num artigo de Flávio Aguiar, saído no site brasileiro Agência Carta Maior: “os banqueiros do mundo estão lendo Marx, tentando discernir o que aconteceu. As esquerdas estão relendo Keynes, tentando discernir o que fazer.” Ora é isto que de certo modo os nossos articulistas não percebem e que serve a Pacheco Pereira para misturar no mesmo caldeirão todos aqueles que propõem, disparatadamente ou não, um regresso a Marx.
Vamos por partes. Tudo o que PP diz sobre a intervenção e o papel do Estado, não é de facto um regresso a Marx, mas sim a Keynes. Tal como o articulista diz no artigo citado a esquerda neste momento tem que reler Keynes porque andou muito à pressa a libertar-se do “estado social”. A Terceira Via trabalhista foi isso mesmo.
Mas onde PP se engana redondamente é quando afirma, aqui achincalhando e desvirtuando o pensamento de Marx: “Na crítica ao capitalismo moderno que Marx fez no Capital e em outros textos, na sua convicção "científica" da inevitabilidade da "autodestruição" do capitalismo, formulada em "leis" a que Marx e Engels atribuíam o mesmo estatuto das leis de Newton, nenhuma se aplica à actual situação de crise económica e financeira, nem as análises, nem as soluções.” Ora é isto que os autores marxistas contestam e se os banqueiros se vêm agora obrigados a ler Marx é porque poderão encontrar nele explicações para a crise que o sistema financeiro e produtivo capitalista atravessam. Já circularam na net diversos textos de autores marxistas que, à luz de Marx, explicavam esta crise. Posso dar um exemplo, mas há vários.
É evidente que há aqui uma questão importante e é essa que, de certo modo, despertou o renovado interesse das esquerdas em Marx e o manifesto ódio das direitas a esse renascimento. Com o desaparecimento do “socialismo real” não foi só o “marxismo-leninismo” que entrou em colapso, a direita na sua ofensiva contra aqueles que ainda pensavam que o comunismo seria uma saída, depois de devidamente expurgado as excrescências estalinistas, passou a atacar também Marx como um dos responsáveis pelo Goulag soviético. Parecia pois que o marxismo estaria enterrado para sempre nos escombros do Muro de Berlim e eis que ele renasce das cinzas, capaz, mais uma vez de dar um contributo para a explicação do mundo actual e para a sua transformação. Isto, não podem elas suportar.

*O link é para o Abrupto, o blog de Pacheco Pereira, já que não é possível aceder aos textos do Público sem pagar. Pacheco Pereira resolve no seu post publicar uma fotografia da estátua de Marx que está no seu túmulo no cemitério de Highgate, em Londres, acrescentando, por pura maldade, uma bicada contra as flores amarelecidas que teriam sido postas “por uma delegação do PC dos Estados Unidos, aquele que tinha mais membros do FBI do que militantes genuínos”. Não havia necessidade disto.
A fotografia que está no post é a do Abrupto

18/12/2008

Ainda as trafulhices do Púbico – IIIº e ¿último? episódio


Ontem o Público trazia uma carta de Carlos Carvalhas onde este desmentia um antetítulo daquele jornal relativamente a uma notícia publicada na véspera.
O desmentido é aqui reproduzido, já que é difícil ter acesso on-line à versão impressa do Público:
Pela segunda vez consecutiva, e sempre sem qualquer base ou fundamento, o Público volta a referir em antetítulo a uma notícia sobre o adiamento de um colóquio que "o PCP impediu a presença de Carlos Carvalhas".Esta insistência é tanto mais incompreensível quanto é certo que, ainda na sua edição de ontem, o Público referia declarações do meu camarada Jerónimo de Sousa sobre este assunto, explicitando claramente que se tinha tratado de uma minha decisão.Neste sentido, para plena reposição da verdade e para repelir a implícita insinuação do Público de que o Gabinete de Imprensa do PCP, eu próprio e Jerónimo de Sousa teríamos faltado à verdade, aqui reafirmo que a anulação da minha participação no referido colóquio se deveu às razões explicitadas em comunicado do Gabinete de Imprensa do PCP e foi da minha exclusiva iniciativa, vontade e responsabilidade.”

Tenho vindo a relatar neste blog esta telenovela que tem sido alimentada diariamente pelo Público, nesse sentido dispenso-me de fazer uma nova discrição de todo este episódio.
O quero realçar, com a publicação deste desmentido de Carlos Carvalhas, é que mais uma vez o ex-secretário-geral do PCP a única preocupação que manifesta em relação à triste desinformação do Público é de que não é um pau-mandado do PCP e que as decisões são tomadas por “minha iniciativa, vontade e responsabilidade”. Ou seja, Carlos Carvalhas nunca desmentiu que não tenha sido convidado para a sessão da Aula Magna, nem nunca clarificou que a iniciativa para que foi convidado foi a do Hotel Zurique, que por acaso foi adiada. Deixou no ar, com a ajuda do seu amigo Victor Dias, do blog o Tempo das Cerejas, que havia uma cumplicidade entre os jornalistas trapalhões do Público e os organizadores da iniciativa do Hotel Zurique. A única coisa que o preocupa é que não digam que anda a mando do PCP.
A verdade é que quando alguém se quer desvincular de uma iniciativa para qual foi convidado e aceita, é avisar os organizadores, o que fez, de que não vai e desmentir o jornal que tinha especulado sobre a relação entre a iniciativa para que tinha sido convidado e o encontro da Aula Magna. Não precisa de pedir ao Gabinete de Imprensa do PCP que se apresse a garantir a sua não participação no debate para que se tinha comprometido. Daí que os jornalistas possam ter especulado sobre quem tinha impedido quem de participar no referido evento. O que já não era legítimo e muito menos verdadeiro era dizer que o Carvalhas se tinha recusado a participar numa iniciativa para a qual não tinha sido convidado.
No fundo, em todo este episódio nem o Carvalhas se saiu bem, nem o Público que, consciente ou inconscientemente, e neste caso por pura incompetência, andou uma série de dias a alimentar uma mentira.

PS.: Por mais que tentasse nunca consegui ler a versão completa do comunicado do Gabinete de Imprensa do PCP a desmentir a participação do Carvalhas no debate do Hotel Zurique. O que veio a público era claramente insuficiente e não manifestava da parte do visado um completo esclarecimento. É evidente, que isto não absolve o Público, mas deixa é muitas dúvidas sobre quais eram as verdadeiras intenções de Carlos Carvalhas ao não comparecer àquela iniciativa.

15/12/2008

Fórum das Esquerdas: nova reconfiguração das esquerdas ou simples debate entre cidadãos interessados


Tal como fiz em relação a outros eventos que ultimamente têm vindo a acontecer nesta cidade e todos eles relacionados com a esquerda, também achei oportuno fazer um pequeno relato desta iniciativa que teve lugar na Cidade Universitária, aqui no entanto mais empenhado e provavelmente menos imparcial.

O nome Fórum das Esquerdas, assim chamado penso que pelos próprios ou pelos media, não constava da convocatória que apelava à participação em debates temáticos e numa sessão de encerramento na Aula Magna, com a participação de diferentes oradores, incluindo Manuel Alegre. Todas estas acções estavam agrupadas sob o nome genérico de Democracia e Serviços Públicos. Este aspecto é aqui referido porque o nome Fórum das Esquerdas fez caminho e vai ser por esta designação por que vai ficar conhecido e não por aquela com que foi inicialmente baptizado.
Isto tem alguma importância, porque transforma uma sessão onde um grupo de cidadãos interessado pela coisa pública debatem Serviços Públicos, num fórum onde um conjunto de homens de esquerda e claramente filiados em diferentes organizações políticas debatem aquele tema, com vista a uma saída política de esquerda para o país. Neste aspecto este fórum parece-me ser bastante importante, porque agrupa debaixo do mesmo tecto gente que vem do Bloco de Esquerda, que já é em si uma força bastante heterogénea, socialistas ditos de esquerda, que se revêem em Manuel Alegre, e comunistas renovadores e outros que, já tendo deixado o PCP, procuram uma nova força onde se ancorar.
Um fenómeno semelhante ao que se traduziu, noutras circunstâncias e com outros objectivos, mas sem o BE, na expressiva votação de Manuel Alegre para a Presidência da República, e que levou a Direcção do Bloco e o deputado do PS a iniciarem contactos, a que se juntou outra gente de esquerda desejosa de forçar a unidade, dando voz a um bloco social que não se revê nas políticas neo-liberais do PS de Sócrates.
Projectos deste tipo não são novos, e já foram defendidos, mais que não seja encapotadamente, pelo PCP quando apostou bastante no PRD de Ramalho Eanes e depois, na eleição para Presidente da República, em Salgado Zenha. Podemos dizer que nesse tempo a operação foi bem mais perigosa, já que Ramalho Eanes e o seu partido não teriam a consistência política de esquerda que esta facção do Manuel Alegre representa.
Isto é aqui referido, dado que o PCP tem reagido a estes encontros como virgem ofendida, como se nunca tivesse pecado, na procura de unidade com outras forças que, no caso anteriormente referido, eram bem mais instáveis e controversas, como depois se veio a verificar, do que esta esquerda do PS.
Isto não significa que eu achasse que o PCP não devia ser convidado, mesmo se fosse para demonstrar, a quem ainda tivesse dúvidas que, na situação actual, é impossível qualquer movimento de unidade com este PCP.
É evidente que o problema do PCP e das suas reacções é bem mais complexo do que a simples acto de convidá-lo ou não e das opiniões do Jerónimo de Sousa em cima dos acontecimento, mas isso será matéria para outro post.

Assisti de manhã ao painel sobre economia. João Rodrigues, um dos autores do blog Ladrão de Bicicletas, e renovador, abriu o debate com uma bela intervenção sobre os serviços públicos.
Assim, fez uma distinção entre aquelas empresas que estão viradas para a produção de bem transaccionáveis e as que adquiriram bens que eram considerados de interesse público e que foram parar às suas mãos como resultado da sua privatização. As primeiras seriam empresas que produzem produtos que de um modo geral são exportáveis, favorecendo por isso o nosso comércio externo e o nosso desenvolvimento e as outras, que fariam parte daquilo que ele chama um capitalismo predador, dedicam-se unicamente a explorar os bens públicos, que o Estado privatizou. É o caso das empresas que exploram as auto-estradas, a energia, as telecomunicações, os transportes, a construção civil, etc. que não desenvolvem riqueza, exploram normalmente o sector em regime de monopólio e garantem uma renda regular. São, segundo ele, grupos privados que vivem à custa do Estado, praticam uma forma de rentismo (de renda).
João Rodrigues acabou afirmando que aquilo que distingue a esquerda da direita, não é que esta queira menos Estado, mas que este lhe facilite a entrega dos bens públicos, teríamos assim, segundo o autor, um Estado predador. Em oposição teríamos um Estado estratega que controlasse e dirigisse os serviços públicos e facilitasse o desenvolvimento das empresas que produzem bens transaccionáveis.
Depois tivemos Alexandre Azevedo Pinto que fez uma intervenção sobre a pobreza em Portugal, apresentando dados bastante alarmantes, e o modo como podíamos sair dela através da inovação social.
A seguir interveio José Reis que, na linha da de João Rodrigues, desenvolveu igualmente a ideia de que aquilo que a direita quer é um Estado regulador com punhos de renda, só para suprir aquilo que o mercado não fazia. Mas que neste momento falhou. A má qualidade dos serviços que são geridos pelos privados é disso um exemplo. O capital abriga-se nos sectores protegidos, nos bens não transaccionáveis. Os capitalistas empreendedores que, como o Belmiro, produziam aglomerados de madeira, passaram a entrar nas actividades protegidas, como sejam os centros comerciais ou as telecomunicações.
Jorge Bateira traçou um panorama arrasador sobre as novas propostas para a Administração Pública. Desmantelou-se a função pública herdada do passado pela criação daquilo que se chama a Nova Administração Pública, que, por exemplo, nos Estados Unidos foi um fracasso. Acabaram-se com regras e regulamentos, que se consideraram desnecessários, importaram-se técnicas de gestão do sector privado.
Em Inglaterra, o novo trabalhismo, introduziu a nova administração pública que foi igualmente um fracasso, com os serviços prestados a serem muito piores. Defendeu que se deve sair do binómio serviços públicos esclerosados versus nova administração pública e sim criamos um serviço público que ouça os funcionários e discuta com eles os problemas.
Por último, tivemos a intervenção de André Freire que insistiu na diferença entre esquerda e direita e o papel que cada uma atribui ao Estado. Está de acordo com as diferenças estabelecidas por João Rodrigues. Destacou, como exemplo, aquilo que o Compromisso Portugal propõe que é o acesso do capital privado à saúde, à educação, às universidades, etc.
Tracei este breve panorama do debate sobre Economia por me parecer importante. Como sempre, em iniciativas deste tipo, com diferentes painéis, é difícil saber quais os que foram mais motivadores, dado que é pouco produtivo andarmos a saltitar de painel em painel.
À tarde assisti ao painel referente ao Trabalho. Cheguei já tarde, não trazia nem papel nem caneta para tomar notas, como tinha feito de manhã. As intervenções, que estiveram a cabo de Elísio Estanque, Jorge Leite e Mariana Aiveca, foram quase exclusivamente sobre o novo Código do Trabalho. Jorge Leite chegou mesmo a classificá-lo como um retrocesso civilizacional. Depois do que ouvimos ficamos perfeitamente esclarecidos sobre os objectivos do Código e de quem o propôs, o PS de Sócrates.
Carvalho da Silva, utilizando o seu papel de moderador deste painel, interveio igualmente na denúncia do Código de Trabalho e realçou um dado importante que é o desprezo do primeiro-ministro pelos sindicatos, considerando-os organizações “do passado”, que já não teriam razão de ser. O dirigente da INTERSINDICAL considerou que pensando assim era impossível qualquer diálogo produtivo com o primeiro-ministro.
Às cinco horas da tarde estava prevista iniciar-se a sessão na Aula Magna. Esta não encheu, mas estava razoavelmente composta por participantes bastantes entusiastas, que pontuaram todas as intervenções com grandes salva de palmas.
Falou em primeiro lugar a célebre Presidente do Conselho Executivo da Escola Secundária Infanta D. Maria (Coimbra), que se encontra em primeiro lugar no ranking das escolas públicas. A sua intervenção foi toda ela dirigida para a luta dos professores e para a denúncia das malfeitorias praticadas pelo actual Ministério da Educação. Seguiu-se a de Ana Drago, com um discurso um pouco poético sobre a situação política actual. Por último, a intervenção de Manuel Alegre, acutilante e pondo a questão da necessidade de unir as esquerdas e de "a reconfiguração da esquerda implicar a capacidade e a vontade de construir uma perspectiva alternativa de poder." Citou o exemplo das políticas de Roosevelt, com o New Deal, ou da Frente Popular em França, com o Governo de Léon Blum. Manifestou a sua solidariedade aos militantes socialistas que são vítimas e que lutam contra as políticas desastrosas e neo-liberais do actual Governo de Sócrates, e considerou que a nova "reconfiguração da esquerda não se fará sem os eleitores, simpatizantes e militantes do Partido Socialista". Reforçou a ideia de que a esquerda não é unicamente um contra-poder, não é “só a coragem de resistir e persistir, de que muitos de nós temos experiência, mas a coragem de virar a página e construir uma nova esperança e uma nova alternativa”. Considerou que ninguém “é proprietário da esquerda, ninguém tem o monopólio da verdade, ninguém é dono do futuro”. Discurso a prenhe de consequências, que estabelece uma clara ruptura com as políticas do PS de Sócrates e que faz a ponte para possíveis desenvolvimentos desta atitude.
Feito este relato, as conclusões que se podem tirar deste encontro é que ele poderá favorecer, assim tenha desenvolvimentos positivos, a unidade à esquerda e de provocar dentro do PS uma ruptura com as políticas que têm vindo a ser seguidas por Sócrates, lesivas do interesse das populações.
É evidente que nada disto está consolidado, que não são favas contadas e que pode também suceder que este espaço de diálogo não passe disso mesmo, ou seja, que se resuma unicamente à troca de opiniões de um conjunto de cidadãos preocupados com a coisa pública. A ver vamos.

O Público continua com as trafulhices


À notícia que dei neste blog sobre a realização de um debate Crise, oportunidade de viragem. Para onde queremos ir?, que teria lugar hoje, no Hotel Zurique, acrescentei este pequeno PS.: afinal não é só o Carvalhas que tem medo destes encontros, também o Jorge Sampaio se assustou, talvez com a Aula Magna. Este debate foi anulado por falta de comparência de um dos principais intervenientes.
Posteriormente, tive oportunidade de ler hoje no Público a notícia que tinha por título Jerónimo só vai a bodas (da esquerda) se for convidado. Para lá de outras afirmações, temos esta a meio do corpo da notícia: “O ex-líder do PCP Carlos Carvalhas recebeu um convite, mas optou por não comparecer no debate. Instado a comentar, Jerónimo disse tratar-se de "uma decisão do próprio". "Os contornos da iniciativa não eram aqueles que pareciam na medida em que havia a ideia de alguma articulação e combinação com esta iniciativa, mas o meu camarada Carlos Carvalhas assumiu a posição que assumiu de uma forma livre", afirmou.
Mais uma vez o Público, e aqui percebe-se que conscientemente, serve de veículo à provocação e à mentira e há jornalista que se prestam a isto. Uma vergonha para a classe e para o seu director.
Em post anterior já tinha falado de As trafulhices do Público a propósito de uma notícia completamente inventada que dava como tendo sido convidado para o Fórum das Esquerdas o Carlos Carvalhas, quando afinal foi unicamente convidado para o debate acima referido. Posteriormente o próprio Público veio a desmentir a notícia que tinha saído na véspera.
Mas agora insiste em perguntar ao Jerónimo de Sousa, numa notícia que se referia explicitamente ao Fórum das Esquerdas e ao não convite ao PCP em participar nele, porque é que o ex-líder do PCP tinha sido convidado e não compareceu ao debate. Jerónimo pela voz do Público parece não querer esclarecer muito bem e só se preocupa em dizer que a decisão era do próprio e que este não era um pau-mandado do PCP.
Triste jornalismo que aldraba e inventa deliberadamente para confundir quem de boa-fé acredita no que escrevem. Já hoje tive um amigo meu, leitor do Público, a falar do convite ao Carvalhas para a sessão da Aula Magna.
E não se pode exterminá-los!
PS.: reparei posteriormente que a notícia do Público vinha assinada Lusa. Pelos vistos os reactores daquela Agência, tendo lido apressadamente as notícias anteriores do mesmo jornal, continuam a insistir numa mentira. No entanto, os responsáveis pela publicação da notícia tinham obrigação de a corrigir ou de não a publicar como estava redigida A responsabilidade continua pois a ser de quem a transcreve e de quem dirige o jornal.

14/12/2008

Como às vezes um blogger político se transforma em biólogo profissional


Não existe uma barreira intransponível entre a nossa vida pública e a vida privada, ou seja, a nossa profissão. Não se pode durante o dia aturar um chefe prepotente, indiferente ou incapaz e depois à noite, como vingança, dizermos no nosso blog mal do Governo ou do patronato, ou então sermos um professor respeitável e sério e à noite transvertermo-nos em irónicos e galhofeiros comentadores da política nacional. Tem que haver uma relação entre aquilo que fazemos como profissionais e o que escrevemos como cidadãos.
Por este motivo achei que vos devia dar conta do que andei a fazer durante estes dias e porque motivo estive tanto tempo ausente da blogosfera.
Apesar de estar reformado, ainda de vez enquanto faço trabalhos de consultoria, e agora encomendaram-me um que achei engraçado partilhar convosco.
O trabalho referia-se a uma compilação bibliográfica sobre os perigos que resultam para os cursos de água nacionais da invasão de uma espécie, que na linguagem biológica, se classifica como exótica, pois que não é característica da nossa fauna e por esse motivo pode ser causadora de graves prejuízos não só para os ecossistemas dulçaquícolas, como igualmente para as actividades económicas que se desenvolvem nas albufeiras ou nos cursos de água. Espécies invasoras e exóticas dos nossos cursos de água são também o lagostim-vermelho ou o jacinto-de-água
A espécie em questão tem o nome vulgar de mexilhão-zebra, não mede mais de 3 cm, e deve o seu nome a ser parecida com o mexilhão marinho, que todos nós conhecemos e que muitas vezes comemos, apesar de ser mais pequena, e à cor das suas valvas (concha), que apresentam uma alternância entre tiras escuras e claras, que as tornam parecidas com a coloração da zebra. Esta espécie, cujo a fotografia junto, é um molusco bivalve, mas que do ponto de vista filogenético – antepassados comuns – nada tem a ver com o mexilhão, nem é comestível. O seu nome científico é Dreissena polymorpha.
Esta espécie é original do Mar Cáspio, Negro e de Aral, e dos rios que desaguam naqueles mares. Para os que só pensam em política pode-se associá-la ao perigo russo ou, mesmo, ao perigo comunista. Simplesmente a sua expansão para Europa ocidental começou no início do século XIX, com a construção de canais em toda a Europa resultantes do desenvolvimento do comércio. A sua chegada, no entanto, aos Estados Unidos deu-se só em 1988, tendo-se expandido em poucos anos da zona dos Grandes Lagos, na fronteira com o Canadá, até ao Golfo do México.
A sua chegada à Península Ibérica deu-se em 2001, e os primeiros exemplares foram encontrados no rio Ebro. Hoje está instalada numa série de albufeiras daquele rio, no rio Júcar, mais ao Sul, e no Norte, na zona Cantábrica. Ainda não chegou a Portugal, mas pensa-se que nestas circunstâncias não demorará muito tempo até aparecer nos nossos cursos de água.
A sua acção resulta fundamentalmente de se reproduzir em grande quantidade e, depois de passar por uma fase de vida livre, fixa-se no substrato, tal como os mexilhões, por uns filamentos que segrega, a que se chama o bisso. Forma grandes tapetes, que cobrem extensas áreas. Todas as indústrias que recorrem às águas doces das albufeiras, normalmente para arrefecimento dos seus condensadores, mas também para abastecimento de água potável às populações, ou para a produção de energia eléctrica, a função mais usual das albufeiras, vêem as suas tubagens em geral serem invadidas por esta espécie, o que, como se compreende, provoca elevados prejuízos económicos.
As medidas preventivas e de controlo da praga são várias, que normalmente implicam um forte ordenamento e condicionamento das albufeiras, como sejam as limitações à navegação, veículo importante de propagação dos ovos e das larvas desta espécie, interdição de pesca com barcos e mesmo de pescadores, já que estes recorrem muitas vezes a este mexilhão como isco. Fortes campanhas de informação das populações ribeirinhas e não só. Limpeza e desinfecção dos barcos que utilizam as albufeiras. Já no final da linha, introdução de métodos de eliminação dos próprios mexilhões, de que a cloragem das águas é um dos principais, apesar dos perigos que podem resultar para os ecossistemas a permanência de cloro residual nas águas devolvidas às albufeiras.
Acho que já vos dei um rápido panorama sobre esta espécie e os perigos que acarreta. Já agora, se a encontrarem em alguma albufeira ou num curso de água avisem as entidades pública e se quiserem trocar algumas informações comigo terei muito gosto.

13/12/2008

Crise, oportunidade de viragem. Para onde queremos ir?


Vai realizar-se a 15 de Dezembro, às 21h, no Hotel Zurique, um debate subordinado ao tema Crise, oportunidade de viragem. Para onde queremos ir?, com a participação de António José Seguro, Florival Lança, Jorge Sampaio e Ricardo Pais Mamede. Seguir-se-á um debate animado por Ulisses Garrido.
O Hotel Zurique fica situado na R. Ivone Silva (traseiras do Hospital Curry Cabral— estacionamento, metro: Campo Pequeno e CP: Entrecampos) .
PS.: afinal não é só o Carvalhas que tem medo destes encontros, também o Jorge Sampaio se assustou, talvez com a Aula Magna. Este debate foi anulado por falta de comparência de um dos principais intervenientes.

06/12/2008

Massacres na Bolívia II


Em post publicado a 17 de Setembro fiz referência ao massacre de 30 camponeses que tinha sido praticado na Bolívia. Fazia igualmente referência ao comunicado final da reunião da União das Nações Sul-Americanas (UNASUL), que tinha tido lugar no Chile, chamando a atenção para o seu ponto cinco, onde se dizia: “Nesse contexto, expressa sua mais firme condenação ao massacre que se viveu no departamento de Pando, e respalda o chamado realizado pelo governo boliviano para que uma comissão da UNASUL possa se constituir nesse país irmão para realizar uma investigação imparcial que permita estabelecer e esclarecer a brevidade dessa lamentável acção, e formular recomendações de tal maneira que o mesmo não termine impune”(tradução do espanhol para o português do Brasil).
Nesse mesmo post denunciava o relato perfeitamente parcial e encobridor da realidade levado a efeito pelo enviado especial do Público, Nuno Amaral, e em PS. chamava a atenção para as notícias do Expresso, mais próximas da verdade dos factos.
Já se sabe que ninguém pegou neste assunto, nem as boas as almas que na net estão sempre prontas a denunciar os atropelos aos direitos humanos.
Passado todo este tempo descubro em o Vermelho o relatório final da Comissão Especial da União de Nações Sul-Americanas (UNASUL), que tinha sido encarregue na reunião daquele grupo de países de investigar o massacre referido. O relatório ou o resumo dele está no site referido, naquela linguagem muito típica dos brasileiros, mas a principal conclusão que se pode retirar, e que é sintetizada pelo Vermelho, é que “o massacre em Pando, em 11 de Setembro, foi organizado por uma rede de comando do governo departamental. Os crimes devem ser tratados como delitos comuns e ser processados na justiça ordinária”.
Ou seja, ao contrário do que durante dias as televisões e o repórter do Público nos andaram a vender, os trinta mortos não resultaram de confrontos entre as autoridades e as populações, mas são o resultado de um massacre perpetrado pela rede de comando do governo departamental. Na sequência desta acção o Governador de Pando foi preso pelo Governo de Evo Morales com grandes protestos da oposição e dos órgãos de comunicação sempre prontos a ver atropelos à democracia, quando o poder legítimo é exercido pela esquerda.
Este é um caso exemplar de esquecimento e desatenção da esquerda europeia, mesmo daquela mais atenta às realidades sul-americanas.

05/12/2008

Democracia e serviços públicos


Fórum “Democracia e serviços públicos”, 14 de Dezembro

Painéis de debate (11.00 e 14.30)- Faculdade de letras
11.00 Economia
Moderador: José Maria Castro Caldas
Oradores: João Rodrigues, André Freire, Alexandre Azevedo Pinto, Jorge Bateira

Educação
Moderador: Paulo Sucena
Oradores: Cecília Honório, Nuno David, José Reis, Jorge Martins

14.30 Cidades
Moderador: Helena Roseta
Oradores: Manuel Correia Fernandes, Pedro Soares, Pedro Bingre, Fernando Nunes da Silva

Trabalho
Moderador: Manuel Carvalho da Silva
Oradores: Jorge Leite, Elísio Estanque, Mariana Aiveca

Saúde
Coordenador: António Nunes Diogo
Oradores: Cipriano Justo, João Semedo, Mário Jorge, Manuel Correia da Cunha

Sessão final (17.00) - Aula Magna
Oradores: Manuel Alegre, Ana Drago, Maria do Rosário Gama

30/11/2008

As trafulhices do Público


A história que vou contar passou-se no Público, mas nada impedia que se tivesse passado noutro jornal qualquer
O Público, do dia 27, relata, pela pena de São José Almeida, que as Esquerdas organizam-se em debates como alternativa à criação de um novo partido político.
Logo de início afirma: “aparentemente sem que haja vontade suficiente e consequente para que apareça um novo partido político à esquerda, várias personalidades com filiação partidária no PS, no PCP e no BE envolvem-se em debates e iniciativas públicas para buscar respostas para a crise social e económica.” Já se sabe que depois, no resto do artigo, nada permite que se retire a conclusão porque é que não há vontade politica para criar um novo partido político. Mas isso pouco interessa para quem tem como objectivo especular sobre a esquerda e permitir assim aos leitores do jornal terem a sensação de estarem bem informados.
Mas isto é o menos importante, apesar de ter servido de título ao artigo, o principal é ter juntado no mesmo corpo da notícia três debates que nada têm de comum, a não ser serem protagonizados por gente da esquerda.
Um dos citados, e o mais disparatado no âmbito da notícia, foi a apresentação do livro de Celso Cruzeiro, A Nova Esquerda, como mais um debate relacionado com os outros dois. Se um autor junta, para lançamento do seu livro, e eu penso até que foi mais por pressão da editora, três personalidades de vários quadrantes da esquerda portuguesa. Neste caso Francisco Louçã, Paulo Fidalgo, que não é nomeado – não dá prestígio à notícia – e Paulo Pedroso, que foi defendido pelo advogado, autor do livro, aí temos a esquerda em debate, como alternativa à criação de um novo partido. Joana Lopes, no seu blog, já tinha denunciado as notícias completamente disparatadas que tinham a aparecido sobre este lançamento.
Depois temos o fórum, na Aula Magna, em Lisboa, no dia 14, sobre Democracia e serviços públicos, organizado pelos mesmos que participaram na festa-sessão do Trindade. Esta realização merece, de facto, destaque especial, dado que junta, como já tinha sucedido anteriormente, a esquerda do PS (Manuel Alegre), o Bloco de Esquerda, Renovadores Comunistas e independentes, contando com a participação de Carvalho da Silva, esta sim a novidade, a dirigir a mesa sobre o Trabalho.
Por último, temos uma iniciativa de um grupo que se designa por Ideias de Esquerda e que resolveu há já bastante tempo, e antes de ser conhecida a iniciativa da Aula Magna, promover um debate plural sobre o tema Crise, oportunidade de viragem. Para onde queremos ir?, que junta, ou juntava, Jorge Sampaio, António José Seguro, Carlos Carvalhas, e o economista do blog Ladrões de Bicicletas, Ricardo Pais Mamede. Esta iniciativa tem lugar a 15, no Hotel Zurique, também em Lisboa.
Só por mera coincidência é que todas estas iniciativas acontecem num curto espaço de tempo. Mas a sua origem é bastante diferente. Era isto que uma jornalista séria e não desejosa de especular deveria ter dito. Poderia até entrevistar os responsáveis pela organização do Hotel Zurique e saber quem são e o que pretendem com aquela iniciativa. Já se sabe isso daria muito trabalho e não permitiria tanto fogo de vista.
Perante esta notícia, Carlos Carvalhas recusa participar, não fosse alguém pensar que ao debater com personalidades tão insuspeitas como Jorge Sampaio ou António Seguro, estivesse na Aula Magna a discursar juntamente com Manuel Alegre ou Manuel Carvalho da Silva. Mas as acções ficam com quem as pratica.
Para agravar este disparate pegado, o Público, de 29, pela pena, com certeza de uma estagiária(o), que assina LA, escreve este mimo, “Carlos Carvalhas, ? secretário-geral da CGTP ?, já não vai ao debate, de 14 de Dezembro, em que estaria lado a lado com Manuel Alegre (PS) e Ana Drago (BE). A informação foi ontem prestada em comunicado pelo Gabinete de Imprensa do PCP. Justificação: "não participará nesse debate, para o qual foi convidado, em circunstâncias e num quadro bem diferente daquele a que agora se procura associá-lo."Nota do PCP cita a notícia do PÚBLICO da passada quinta-feira em que é afirmado que "esquerdas organizam-se em debate como alternativa à criação de um novo partido". A notícia, diz o PCP "dá conta do chamado Fórum da Nova Esquerda, no âmbito da qual se associava a participação de Carlos Carvalhas num debate sobre a crise mundial", daí que o PCP tenha achado que o seu militante não deve participar. O debate em causa vem na sequência do encontro de Junho, no Teatro da Trindade, que juntou Alegre, dirigentes do BE e outras pessoas de esquerda. O PCP não se associou a este encontro.”
É a trafulhice completa, que revela a incompetência e a ignorância de um(a) estagiária(o) e de quem, ao menos, devia ler o que ela(e) escreveu. Podemos dizer que nunca em tão pouco espaço se disseram tantas mentiras. Estou curioso para ver se a notícia é desmentida na rubrica “O Público errou”.
Assim vai a nossa imprensa dita de referência.

PS.: Já este post estava redigido quando vi o do Vítor Dias, em O Tempo das Cerejas. O assunto é o mesmo, a denúncia de um jornalismo trapalhão, simplesmente os objectivos são diferentes. Enquanto que eu critico as notícias do Público, Vítor Dias, sem esquecer isso e até atribui um nome ao responsável, tenta defender o seu camarada Carlos Carvalhas, que alegando intenções ocultas, desmarca um compromisso já assumido. Vítor Dias no seu post junta tudo, jornalismo trapalhão e políticos oportunistas, que, feitos uns com os outros, pretendem confundir a opinião pública. Gente séria e honesta só Vítor Dias e os seus amigos do PCP.
E a propósito de gente séria, veja-se mais uma das tradicionais bicadas do Vítor Dias, que no seu blog, O Tempo das Cerejas, fala que o Esquerda.net indica como promotores do Fórum Manuel Alegre e Carvalho da Silva, e que não estariam na lista aí publicada. Esqueceu-se foi de dizer que o Esquerda.net fala em “promotores e participantes” o que é bem diferente da piadinha que faz.

Depois de ouvir o discurso de Jerónimo de Sousa sobre Manuel Alegre e o Bloco de Esquerda, que Vítor Dias subscreve de certeza, fico com a ideia clara de que com este PCP, sectário e autista, não se pode ir a parte nenhuma.

29/11/2008

Que "alegria" ver confirmadas as nossas opiniões


Foi hoje publicado no Jornal de Notícias um artigo de Ana Paula Correia e Paulo Martins sobre a A velha e a nova guarda do PCP, em que, para além das opiniões expendidas, que me abstenho de comentar, se pede ao historiador do “movimento comunista” João Madeira para se pronunciar sobre as Teses apresentadas ao XVIII Congresso do PCP. Diz aquele historiador, pela pena dos autores do artigo citado, o seguinte: “no plano estratégico, regridem no tempo. Embora inspiradas na tradição de Cunhal, vão mais atrás: a ideia de Frente Popular, da procura de aliados numa perspectiva unitária, para criar uma maioria de Esquerda, é substituída pelo reforço do partido, força de vanguarda. Constata-se "um esforço muito forte de hegemonia, num quadro de recomposição da Esquerda", sublinha o historiador.
Trata-se de uma posição de "classe contra classe", que deve ser lida no contexto de maioria absoluta do PS. É a primeira vez que o PCP se reúne em congresso tendo este cenário em pano de fundo. Mas, como acentua João Madeira, aquele posicionamento fora já ensaiado em 2004
.”
Destas declarações retenho a regressão em relação à ideia de Frente Popular, defendida, segundo aquele autor, por Cunhal, e o reafirmar da posição de “classe contra classe”, que foi defendida pela Internacional Comunista no início dos anos 30, antes de ser aprovada no VII Congresso daquela organização, em 1935, as propostas de Frente Popular.
Lido isto, que parece simples, constatei que as ideias expostas eram semelhantes a àquelas que eu tenho vindo a defender relativamente ao PCP actual. Assim, em artigo de Julho de 2007, intitulado O Desvio Esquerdista e Sectário da Internacional Comunista (1929-1934), comparava posição da Internacional daqueles anos em que era defendida, entre outras, a posição de “classe contra classe” com as atitudes sectárias do actual PCP. E noutro artigo, mais recente, de Junho de 2008, com o título O PCP, a Revolução Democrática e Nacional e o rumo ao socialismo – Algumas contribuições para a caracterização do 25 de Abril , chamava a atenção para que as propostas defendidas pelo PCP e por Álvaro Cunhal para “a revolução democrática e nacional” eram inspiradas nas teses do VII Congresso da Internacional Comunista, sobre a Frente Popular, e que contrastavam muito com as posições leninistas, de ruptura revolucionária, ultimamente defendidas por aquele partido.
É pois com "grande alegria" que vejo um reputado historiador do movimento comunista fazer uma crítica às posições do actual PCP que se assemelham às que eu, modesto aprendiz destas andanças, tenho formulado.